terça-feira, 2 de outubro de 2007

Seis mil na rua, Orquestra Chinesa tem 20 anos

Manifestações levam para a rua seis mil pessoas

Dois protestos, muitas causas

Cerca de seis mil pessoas, entre os quais dois mil motociclistas, manifestaram-se ontem em Macau, em iniciativas separadas, contra as condições laborais e a nova Lei do Trânsito, não poupando críticas ao governo de Edmund Ho.
Os protestos, separados por poucas centenas de metros, foram organizados pela União dos Trabalhadores de Macau e pela Associação Liberal de Trabalhadores do Sector dos Jogos e do Sector da Construção Civil, decorreram de forma pacífica sempre acompanhados por um forte cordão policial.
Ao longo do percurso, de cerca de três quilómetros, foram montadas várias barreiras de segurança para evitar que os manifestantes rompessem o percurso definido pela polícia. Ao contrário do que aconteceu no 1º de Maio, desta vez as indicações dos agentes foram seguidas à risca e ninguém tentou mudar o rumo das manifestações que terminaram em frente à sede do Governo.
Convocada como uma manifestação contra a entrada em vigor do Novo Código da Estrada, os protestos acabaram por ser mais um sinal de descontentamento popular contra o Governo e no qual insistentemente foram pedidas as demissões de Edmund Ho de Chefe do Executivo, de Florinda Chan (secretária para a Administração e Justiça), de Lei Sio Peng (chefe da Polícia de Segurança Pública) e de Shuen Ka Huen (director dos Serviços de Assuntos Laborais).
Entre as palavras de ordem, muitas buzinadelas em pontos estratégicos do percurso como a sede da Brigada de Trânsito da polícia.
Durante a cerca de hora e meia que durou o percurso dos manifestantes muitos populares posicionavam-se nas varandas dos prédios ou nas passagens superiores de peões para ver a manifestação, tirar umas fotografias e acenar aos participantes que pela primeira vez saíram à rua no primeiro de Outubro, em que se celebra a Implantação da República Popular da China.
Lee Kin Yun, da Associação para o Activismo e Democracia, candidato a deputado nas legislativas de 2005 e um dos manifestantes detidos nos protestos do passado 1 de Maio, expressou grande satisfação pela adesão popular mas mostrou-se céptico quanto à mudança da política do Governo.
Para o deputado Ng Kuok Cheong, do Novo Macau Democrático, vencedor das eleições directas à Assembleia Legislativa de 2005, a realização de um protesto no Dia Nacional "é significativo" e considerou ser "muito difícil ao líder do governo não ser afectado em termos de imagem pelos casos de corrupção", refere a Agência Lusa. À Rádio Macau o deputado considerou que, “antes de 2006, as causas das manifestações eram específicas, enquanto que agora destinam-se a contestar quem detém o poder”.
Já o deputado José Pereira Coutinho, que ao contrário do que aconteceu nas manifestações realizadas em 2005 e 2006, não participou no protesto, disse à Rádio Macau não ter tido conhecimento oficial da manifestação, por ter chegada da Europa no passado fim-de-semana. Pereira Coutinho participou na recepção oficial de comemoração do 58º aniversário da criação da República Popular da China, que estava a decorrer na Torre de Macau ao mesmo tempo que nas ruas da cidade se realizavam os protestos”.
Ainda nas declarações à estação de rádio em língua portuguesa, o deputado e presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau destacou o facto de “as pessoas agora se manifestarem sem os receios que existiam nos anos anteriores”, considerando que Macau ganha com este fenómeno. Disse ainda ser importante “não serem sempre as mesmas pessoas a liderar os protestos”.
Embora tivessem sido vários os assuntos que deram origem às palavras de ordem ouvidas ontem em Macau, a manifestação começou por ter como propósito a contestação da nova Lei do Trânsito Rodoviário. Sobre a reivindicação relacionada com as regras que entraram ontem em vigor, a secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, comentou que “o Governo respeita e dá importância às opiniões e solicitações manifestadas, através de diferentes canais e conforme a lei, pela população”, indica nota do Gabinete de Comunicação Social (GCS). A responsável disse que o Governo vai continuar a reforçar a sensibilização para a necessidade de cumprimento da Lei do Trânsito Rodoviário e criar mais parques de estacionamento para corresponder à aplicação do diploma.
Florinda Chan, que falava durante a recepção na Torre de Macau, fez votos de que a população se possa adoptar e habituar à nova lei, afirmando, no entanto, que “é um dever do Governo ajudar a população a compreender e cumprir nova legislação”, pelo que as autoridades competentes “vão rever e reforçar a sensibilização” para a nova legislação.
Na mesma ocasião, e também de acordo com o GCS, o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Lau Si Io, questionado sobre futuras políticas no âmbito do trânsito rodoviário, disse que “o Governo vai continuar a ter em consideração vários factores aquando da tomada de medidas sobre esta matéria”. O governante disse que “além do aumento de número de parques de estacionamento, será tido em conta também a educação cívica, consciencialização da população sobre o estacionamento e o número de viaturas”.
Texto Lusa editado
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Orquestra Chinesa de Macau comemora vinte anos de vida

A história de um nascimento feliz

Nasceu da necessidade de criar pólos culturais em Macau, numa altura em que pouco havia na cidade. A urbe era um “deserto cultural”, lembra quem vivia na década de oitenta no território então sob administração portuguesa, e apanhava o barco até Hong Kong para assistir a um concerto de quando em vez.
Jorge Morbey chegou a Macau em 1985 e o cenário que encontrou caracterizava-se pela falta de manifestações culturais organizadas. “Tive alguns contactos com espectáculos de ópera chinesa, que se faziam normalmente em palcos de bambu, amovíveis”, recorda. “Sentimos a necessidade de que a população gerisse o seu património através de nós”, diz Morbey, que entre 1985 e 1989 foi o presidente do Instituto Cultural de Macau (ICM).
O ensino de artes era coisa que também não existia. No ano lectivo de 1985/86, arrancaram as primeiras aulas de educação artística, que mais tarde vieram dar origem ao Conservatório de Macau. “Havia uma coisa curiosa. Macau, sendo uma cidade de cultura maioritariamente chinesa, não tinha uma orquestra tradicional”, recorda Morbey.
Embora a música na China seja tão antiga quanto o país, a primeira orquestra chinesa digna dessa classificação data de 1935. Exactamente meio século depois, Hong Kong era a referência para quem trabalhava em Macau e foi da então colónia britânica que veio o professor das aulas de música chinesa inseridas no programa de ensino que o Instituto Cultural decidiu lançar. “A função do Instituto Cultural, nesse tempo, era meramente supletiva, ou seja, nós íamos onde as associações locais não tivessem capacidade”, contextualiza Jorge Morbey. “Se tivessem, apoiávamos as associações, porque é sempre melhor a sociedade civil cuidar das suas coisas do que os governos”, sustenta.
No caso do ensino da música chinesa, o ex-presidente do Instituto Cultural decidiu actuar. Foi contratado um jovem músico da Orquestra Chinesa de Hong Kong, de nome Wong Kin Wai, que dirigia os cursos, no início em todos os instrumentos. A adesão da população local às aulas de música chinesa não podia ter sido mais surpreendente. Logo no primeiro ano, inscreveram-se 190 alunos.
“Foi muito curioso porque não tínhamos instalações”, tira Morbey da memória. “Tínhamos um plano muito ambicioso para juntarmos todas as vertentes do ensino artístico num edifício só, mas tal ainda não existia”. Os cursos de instrumentos chineses começaram por ser leccionados na casa Sir Robert Ho Tung, ao lado do Teatro D. Pedro V. “Mandámos fazer tudo, desde os banquinhos à aquisição dos instrumentos chineses”.
Decorridos dois anos lectivos, Jorge Morbey, em conjunto com Maria da Graça Marques, uma das responsáveis pelo Instituto Cultural da altura, lançaram um desafio a Wong Kin Wai, que continuava a viver em Hong Kong, deslocando-se a Macau apenas para leccionar. “Perguntei-lhe quando é que estamos em condições de formar uma orquestra chinesa. Ele disse-me que já tínhamos músicos, não eram de um nível técnico elevado mas já sabiam tocar para se fazer uma formação”, conta o ex-presidente do ICM.
Wong Kin Wai mudou-se de armas e bagagens para Macau e abraçou o projecto. “Decidimos então arrancar, disse-lhe para ele continuar com a formação de novos elementos e para, com essa massa toda que já levava dois anos de curso, tentarmos fazer uma orquestra. E assim foi”.
Vinte anos depois, o maestro Wong Kin Wai continua a viver em Macau, se bem que já afastado da Orquestra Chinesa. Nestas duas décadas de existência, houve alterações diversas ao nível da composição, o número de músicos foi variando e os próprios instrumentistas foram sendo substituídos por outros. A Orquestra continua, contudo, a ser a mesma.

“Perguntei-lhe quando é que estamos em condições de formar uma orquestra chinesa. Ele [Wong Kin Wai] disse-me que já tínhamos músicos, não eram de um nível técnico elevado mas já sabiam tocar para se fazer uma formação”
Jorge Morbey, ex-presidente do Instituto Cultural de Macau
“Foi algo que ficou. Penso que a Orquestra Chinesa nunca vai acabar, seria uma estupidez”, diz Morbey. “As dinâmicas, depois de se criarem, continuam e isto é extremamente agradável”, diz, não sem uma pontinha de orgulho. Jorge Morbey recusa a paternidade da Orquestra Chinesa de Macau, mas não esconde ter uma sensação “muito gratificante” de cada vez que vai assistir a um concerto. “Não posso dizer que a Orquestra seja minha filha, nem pouco mais ou menos, mas é uma sensação muito semelhante. É como quando se constrói alguma coisa, uma casa, um livro, algo que fica”.
A Orquestra Chinesa de Macau, que actua hoje com regularidade dentro e fora do território, começou logo com grande sucesso. O ex-presidente do ICM recorda momentos que o tocaram pelo significado dos gestos. “Houve um sentimento de gratidão pelo empenho que se pôs na Orquestra Chinesa. Os músicos adaptaram para os instrumentos chineses coisas muito interessantes, a Ti’ Anica de Loulé, por exemplo, umas pecinhas portuguesas que tiveram muita graça e que caíram muito bem”, sorri.
“Chegámos à conclusão de que estávamos a servir bem, porque as pessoas retribuíram com o que podiam, ao musicarem temas populares portugueses em instrumentos chineses. Isso foi extremamente interessante”, constata Morbey. Os pequenos mimos musicais portugueses foram evoluindo e começaram a surgir composições pensadas no intercâmbio cultural e civilizacional do território.
A “Fantasia para Macau” é um dos exemplos mais significativos e continua a ser tocada pela Orquestra: à sonoridade das composições da região sul da China foi adicionado um arranjo dos “Verdes anos”, de Carlos Paredes. O resultado é surpreendente: quando menos se espera, a contrastar com o ritmo colorido da música chinesa, cheia de percussões, surgem os lânguidos “Verdes anos”, que os êr-hú, os káu-hú e os djông-hu (que fazem as vezes dos violinos) interpretam, de forma a lembrar que a música, não obstante as suas diferentes matrizes, é, sem dúvida alguma, uma linguagem universal.
Característica da Orquestra Chinesa de Macau é ainda a assiduidade com que desenvolve projectos com músicos portugueses. “Macau é o encontro de culturas, na arquitectura, na gastronomia, em muitos hábitos e tradições. A música não podia ser diferente”, lança Teresa Tou, coordenadora da Orquestra Chinesa.
Sob a alçada do Instituto Cultural da RAEM, a formação tem, nos últimos anos, desenvolvido projectos com vários músicos portugueses, por altura do Festival Internacional de Macau (FAM) e do Festival Internacional de Música (FIMM). A edição deste ano do FIMM não foge à regra, com Camané a subir ao palco do Centro Cultural, no próximo dia 16, acompanhado pelos 33 músicos da Orquestra Chinesa.
O fadista junta-se assim a um vasto grupo de cantores e instrumentistas que experimentaram esta conjugação sonora pouco vulgar noutros pontos do planeta. Rão Kyao, Pedro Caldeira Cabral, Kátia Guerreiro e a Ala dos Namorados são apenas alguns dos nomes que já passarem por cá nesta lógica musical mista. No sentido inverso, a Orquestra Chinesa de Macau actuou, numa das várias deslocações que já fez a Portugal, na Expo 98, em conjunto com Luís Represas.
Viajando vinte anos no tempo, de regresso ao final dos anos oitenta, Jorge Morbey recorda a primeira viagem a Portugal, marcada por um episódio curioso. Logo no fim do primeiro ano de vida, em Dezembro de 1988, a Orquestra Chinesa rumou a Ocidente, para dois concertos, um no Teatro Nacional São Carlos, em Lisboa, e outro no Auditório Carlos Alberto, no Porto. “Há um instrumento tradicional chinês que consiste numa estrutura que tem pendurados uns pratos”, começa por explicar o ex-presidente do ICM.
“Deu-se o caso de o avião de Londres para Lisboa não ter capacidade para levar o instrumento, de tão grande que é”. A organização de Macau definiu então dois planos, por uma questão de segurança: contratar um camião para levar o instrumento por via terrestre e enviar para Lisboa um desenho da estrutura, de modo a que, à chegada, fosse apenas necessário pendurar os pratos. “O camião chegou a tempo, não se perdeu, e os concertos foram feitos”.
Quanto à forma como foi acolhida a Orquestra Chinesa de Macau em Portugal, Morbey conta que foi “um sucesso”. “Nunca se tinha visto nada semelhante àquilo, foram concertos sensacionais”, descreve. “O Teatro de São Carlos não estava muito cheio, porque na altura tinha a fama de ser muito selectivo, mas depois fomos muitas vezes contactados por pessoas que queriam saber como é que podiam ver a Orquestra Chinesa de Macau. Já no Porto, o Auditório Carlos Alberto encheu e foi uma festa enorme. Era uma novidade”.
O sucesso em Portugal verificado em 1988 era acompanhado por um fenómeno semelhante em Macau. “Sempre achei que a cultura não podia escapar, de alguma maneira, às regras dos custos e benefícios, pelo que procurei medir a resposta do público ao investimento que se fazia”, diz o ex-presidente do ICM, enquanto folheia as suas anotações da época. “Em 1988 realizámos seis concertos aos quais assistiram, no total, 3200 pessoas. Isto foi muito importante”.
O número pode não parecer relevante quando comparado com os dados registados hoje em dia, mas os tempos eram outros e as experiências também. “A Orquestra de Macau começou a fazer os seus concertos no ballroom do Hyatt. Os primeiros concertos eram dramáticos, porque tínhamos três, cinco, seis pessoas na sala, os músicos tocavam para imensas cadeiras vazias”. Tentaram criar-se hábitos culturais, através da calendarização dos concertos da formação ocidental.
“As pessoas começaram a habituar-se. O último concerto do meu tempo enquanto presidente do Instituto Cultural de Macau já teve que ser feito no Fórum pequeno, com uma audiência de 420 pessoas”, refere Morbey. A experiência da Orquestra Chinesa de Macau foi diferente da verificada na homóloga ocidental, “a audiência cresceu muito mais rapidamente, até porque sendo música chinesa era mais fácil chegar à população”.
No próximo dia 15 de Dezembro, a Orquestra Chinesa de Macau assinala as duas décadas de vida com um concerto que “para nós é muito especial”, diz Teresa Tou. “O programa é constituído por temas que foram encomendados por nós a compositores chineses e foram feitos em torno dos conceitos de Macau”, explica a coordenadora.
No que toca ao futuro da Orquestra, actualmente dirigida por Pang Ka Pang, diz a responsável que “a aposta é na qualidade, tanto na execução dos temas tocados pelo grupo de músicos, como na formação de novos instrumentistas”. Neste momento, ao serviço da Orquestra estão vários músicos oriundos da China. A maioria é de Macau, sendo que existe apenas um instrumentista ocidental, oriundo da Rússia, um violoncelista. Yulie Ashtakov toca um dos dois instrumentos ocidentais presentes na Orquestra Chinesa. “Os violoncelos e os contrabaixos são utilizados por não haver equivalente nos instrumentos chineses para fazer os baixos”, explica Teresa Tou.
Para o ano, está programada uma digressão à Europa, sobre a qual a coordenadora não quis revelar detalhes. Até lá, são muitas as oportunidades de assistir a concertos da Orquestra em Macau, que toca com regularidade nos vários palcos da cidade.

Do arco e flecha às estantes e pautas

São uma mistura entre Oriente e Ocidente, embora sejam características apenas desta região do mundo. Não obstante o facto das manifestações musicais chinesas se perderem no tempo, as orquestras nos moldes actuais são um fenómeno recente, que data do início do século, explica Veiga Jardim, na obra “Instrumentos musicais chineses”.
De acordo com o maestro radicado em Macau, que se dedica ao estudo da história da música neste ponto do planeta, existem registos históricos que indicam que o Se (cítara grande) remonta à dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.), e que terá sido inventado pelo imperador Pau-si. Esta cítara terá sido inventada na sequência de uma outra descoberta: os arcos e as flechas para caçar animais.
“Havia o costume de, após as caçadas, se fazer uma grande festa com canções e danças. É fácil imaginar um arco retesado a ser usado como instrumento musical no acompanhamento daquelas canções primitivas”, escreve Veiga Jardim. Presume-se que os instrumentos de corda fossem usados na China ainda antes da existência de qualquer documento escrito.
A sistematização da música tradicional chinesa começou a ser feita na dinastia Tchou (1122 a 221 a.C.). “As apresentações nos templos e nas cortes eram uma das principais características desta dinastia”, ensina Veiga Jardim. Havia “música de interior” e “música de ar livre”, sendo que este último género podia contar com 170 instrumentos feitos em metal, pedra, seda, bambu, cabaça, barro e madeira.
As três dinastias que se seguiram continuaram com os hábitos musicais e introduziram novidades. O imperador Wuti, da dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.) criou um instituto de música, dando emprego a muitos artistas. A corte contava com o serviço de 128 percussionistas.
As primeiras influências ocidentais ou “bárbaras” surgiram aquando da dinastia dos Três Reinos (220 a 280 d.C.), sendo que foram trabalhadas de forma intensa durante a dinastia Tang. “O imperador Tai-tchum, que viveu entre 627 e 649, instituiu o sistema de ‘dez tipos de música’, conhecido por xu pu dji, repertório de peças musicais de estilo e origem variados”, explica o maestro. “Três dos estilos eram baseados na interpretação da música tradicional chinesa e os outros sete na música estrangeira, incluindo composições provenientes da Coreia, Ásia menor e subcontinente indiano”.
No século VIII, os músicos da corte foram obrigados a fugir para as zonas rurais devido a uma rebelião. O facto deu origem ao refinamento da música popular que se tocava fora do circuito imperial. Por volta do século XII, houve uma tentativa de recuperar os tempos musicais áureos da dinastia Tang, mas que durou pouco. Os imperadores dos séculos XIII e XIV preferiam a ópera à música instrumental; o teatro e a literatura eram as formas artísticas de eleição das dinastias Ming e Ching. Veiga Jardim explica que durante este longo período, que tem início no século XIV e termina com a criação da República da China, no início do século XX, “a música passou a ter um papel tão subalterno e tão pouco importante que os músicos chegaram a ser vistos com desprezo pelo público”.
O fim da China imperial fez com que a música instrumental voltasse a ser apreciada. Os instrumentos tradicionais chineses sofrem “aperfeiçoamentos”, tal como tinha acontecido nos séculos anteriores no Ocidente, e as técnicas de execução são alteradas. A primeira orquestra chinesa, dividida em secções e com partituras, nasceu em Nanqing, em 1935, pelo Serviço de Radiodifusão da China. Em 1953, surge a China Broadcasting Chinese Orquestra, ainda existente. A orquestra de Hong Kong foi criada em 1977, dez anos antes da composição de Macau. Veiga Jardim explica ainda que as actuais orquestras de instrumentos tradicionais chineses podem ter entre 12 a 70 executantes.
Isabel Castro

2 comentários:

Inês Forjaz disse...

Bom artigo. Parabéns.

MIchel Reis disse...

Excelente artigo Isabel!
Parabéns.
É muito importante documentar "instituições" como a Orquestra Chinesa de Macau para que não se esqueçam as suas origens e o seu percurso, num território em que muitas vezes se assiste a tentativas de branqueamento da História...