quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Ao Man Long condenado a 27 anos de prisão

Ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas condenado a 27 anos de prisão

Pena longa para Ao

Foi com a calma aparente que manteve durante todo o julgamento que Ao Man Long, antigo secretário para os Transportes e Obras Públicas, ouviu ontem o juíz Sam Hou Fai condená-lo a 27 anos de prisão. O ex-governante, de 51 anos de idade, foi considerado culpado de 57 dos 76 crimes que lhe tinham sido imputados. A pena em cúmulo jurídico de 27 anos é a mais gravosa de que há memória em Macau.
O número de anos a que o TUI condenou o arguido pôs fim a mais de duas horas de leitura do acórdão do colectivo de juízes. Cedo se percebeu, pela forma como Sam Hou Fai se foi referindo aos crimes, que a pena determinada seria pesada, não obstante o facto de Ao ter sido considerado inocente de 19 crimes pelos quais respondia.
Explicando quais são os princípios de determinação da pena, tendo em conta as molduras penais previstas por lei, Sam Hou Fai considerou que “a corrupção corrompe a democracia e o desenvolvimento sustentado”, acrescentando em seguida que, perante os factos que ficaram provados no TUI, o caso “é tanto mais chocante pelo cargo” que o arguido ocupava e pelas verbas envolvidas. O juiz frisou ainda que os crimes deram uma imagem negativa à RAEM, sendo que os efeitos se fizeram sentir também a nível interno, com prejuízos para os titulares de cargos públicos de Macau.
Para a decisão em relação à pena terá contribuído também “o carácter predatório verdadeiramente insaciável” do arguido e a manutenção da declaração de inocência durante todo o processo. “Não mostrou arrependimento”, frisou Sam Hou Fai.
O TUI considerou que ficaram provados 20 crimes de corrupção passiva para acto ilícito, 20 crimes de corrupção passiva para acto lícito, 13 crimes de branqueamento de capitais, dois de abuso de poder, um de inexactidão de declaração de rendimentos e um de riqueza injustificada. Ao Man Long foi também condenado ao pagamento de uma multa de 240 mil patacas ou, em alternativa, a seis meses de prisão.
Sam Hou Fai declarou perdidos a favor do território cerca de 253 milhões de patacas em dinheiro, fundos de investimento e outros bens que não constam da declaração de rendimentos do antigo secretário, como apartamentos em Macau e uma casa em Londres.
O colectivo de juízes considerou mesmo que o dinheiro ilícito que Ao não chegou a receber – como, por exemplo, um pagamento do empresário Frederico Nolasco – deveria reverter igualmente a favor de Macau. Contudo, porque o julgamento tem apenas como arguido o ex-secretário, será da competência de outra instância a eventual aplicação desta medida.
O Tribunal entendeu que os crimes ficaram provados depois de analisar a documentação anexa aos autos, que considerou suficiente, tendo ainda destacado os depoimentos das testemunhas que trabalham na Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes e no Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas. “Está perfeitamente provado que o arguido Ao Man Long recebeu dinheiro dos empresários Frederico Nolasco da Silva, Ho Meng Fai, Chan Tong Sang e Tang Kin Man”, disse o juiz, “estando também traçado o percurso, por vezes sinuoso, do dinheiro” recebido.
O TUI destacou ainda a importância dos depoimentos das testemunhas provenientes do Comissariado Contra a Corrupção, refutando a posição da defesa, que tinha alegado tratar-se de depoimento indirecto, pelo facto de os investigadores terem recorrido a “powerpoint” durante a inquirição. Para o processo de avaliação do caso o Tribunal contou ainda “com a ajuda preciosa do arguido, ainda que involuntária”, por este registar os valores que recebia ilicitamente em agendas pessoais.
Ao Man Long tinha sido acusado de 41 crimes de corrupção passiva para acto ilícito, mas o TUI considerou que um não ficou provado e que 20 tinham sido cometidos para acto lícito, o que corresponde a uma moldura penal inferior. Também em relação aos crimes de branqueamento de capitais que o Tribunal entendeu terem ficado provados existem diferenças em relação à pretensão da acusação. O arguido foi favorecido pela lei que entrou em vigor em 2006, pelo que foi absolvido de 17 crimes dos quais era acusado.
A terminar, Sam Hou Fai referiu ainda que vão ser entregues cópias da decisão ao Chefe do Executivo e ao Secretário para os Transportes e Obras Públicas.
Terminada a leitura do acórdão, Ao Man Long saiu de olhos baixos da sala onde decorreu a audiência. Não houve qualquer manifestação no tribunal, à excepção dos muitos jornalistas que saíram da sala mal a pena foi tornada pública. Ao TUI acorreram ontem muitas pessoas, além de jornalistas não só de Macau como também de outras regiões e países.

Uma história que ainda não acabou

“O trabalho ainda não acabou”. Foi assim que Nuno Simões, advogado de defesa de Ao Man Long, reagiu ao acórdão do Tribunal de Última Instância que determinou 27 anos de pena de prisão para o ex-secretário. À porta do TUI, o defensor não afastou a hipótese de apresentar recurso da decisão, embora o TUI tenha afastado essa possibilidade num despacho emitido durante o julgamento, por considerar que, embora se trate da avaliação de um caso em primeira instância, o Tribunal tem, por força da lei, a última palavra em relação ao caso.
Nuno Simões considerou a pena “severa”, acrescentando que, ainda assim, “corresponde aos factos que o Tribunal considerou provados”. “O trabalho não acabou, não vamos desistir para já”, acrescentou. Ontem, o advogado não teve oportunidade de se encontrar com o seu cliente, o que deverá acontecer hoje.
O defensor afirmou ainda, em relação aos 27 anos de prisão, que nem o Ministério Público nem o Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) estariam à espera deste desfecho.
Numa breve nota à imprensa, emitida pouco tempo depois de terminada a audiência, o CCAC disse respeitar e acreditar “na justeza da decisão do Tribunal”, acrescentando que “a sentença proferida é, sem dúvida, ilustrativa da gravidade dos crimes cometidos por Ao Man Long”.
No mesmo comunicado, o Comissariado informou que quanto a outros crimes em que Ao Man Long está alegadamente envolvido, as investigações do CCAC correm a bom ritmo, tendo sido já alcançados resultados”. “Acredita-se que haverá mais casos encaminhados para os órgãos de justiça,” dizia a nota. Ontem poderá, assim, não ter sido a última vez que o ex-secretário foi ao TUI.
As reacções ao julgamento

O Chefe do Executivo considerou que o julgamento de Ao Man Long foi justo e em conformidade com a lei”. As breves palavras de Edmund Ho sobre o caso fora proferidas ontem, em Cantão, onde se encontra, em resposta a jornalistas.
O principal responsável pelo Governo da RAEM não se tinha pronunciado até à data sobre o caso. Há alguns meses, aquando da conferência de imprensa sobre a apresentação das Linhas de Acção Governativa para 2008, Edmund Ho tinha apenas feito referência ao impacto negativo provocado pelo caso, tanto para Macau como para a própria credibilidade do Executivo que lidera, deixando ainda expressa confiança na Justiça de Macau.
Para Leonel Alves, deputado e advogado, a pena determinada pelo Tribunal de Última Instância não pode ser comparada à de nenhum outro caso, dada a especificidade do processo e o grande número de crimes que o TUI considerou terem ficado provados. “É a posição soberana do Tribunal, que é o único órgão competente para avaliar a matéria de facto”, considerou, em declarações ao Tai Chung Pou. “Fará parte da jurisprudência penal.” O advogado lembrou ainda a função preventiva que as penas têm, na análise ao número de anos de prisão que o ex-governante terá que cumprir.
“O mais importante de todo este caso é que tenha havido um processo isento e parcial”, disse ainda Leonel Alves, que não deixou de fazer referência à questão do recurso. Na análise ao acontecimentos, “poderá atrapalhar não haver uma instância de recurso”.
Leonel Alves fez ainda referência ao processo conexo que está a decorrer no Tribunal Judicial de Base, que envolve familiares de Ao e empresários, dizendo que “esta decisão não pode nem deve ter influência”, lembrando que há um conjunto de factores que diferem entre os arguidos.
Para Pereira Coutinho, trata-se de uma “sentença histórica”. Apesar de considerar o julgamento “justo”, o deputado considera “inadmissível” a negação do direito ao recurso. “Nunca houve em Macau uma sentença tão elevada para um crime de corrupção”, ficando, por isso, “nos anais da História”. Foi uma pena pesada, mas teve em conta “o cargo político e os enormes poderes que detinha o governante”. Não deixa, contudo, de sentir “pena”. Na opinião de Pereira Coutinho, se os superiores hierárquicos “tivessem detectado logo em 2003 o caso de corrupção”, não teria assumido hoje proporções tão dramáticas. E o deputado espera que o “Executivo aprenda a lição”, criando legislação específica para regular a responsabilização dos titulares dos principais cargos do Governo da RAEM.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Governo não quer mais sinais televisivos ilegais

Anteneiros vão restabelecer ligação

Apesar de insatisfeitos, os “anteneiros” garantem restabelecer a ligação televisiva que cortaram na terça-feira à noite e que afectou milhares de residentes. Já o director dos Serviços de Regulação das Telecomunicações (DSRT), Tong Veng Keong, garantiu que as transmissões ilegais não serão desmanteladas mas qualquer novo sinal instalado será desligado. Declarações aos jornalistas no dia em que vários representantes da União Geral das Associações dos Moradores de Macau entregaram uma carta exigindo o restabelecimento do sinal televisivo.
Não indicando os números de edifícios que ficaram sem sinal televisivo, Tong Veng Keong afirmou que as reclamações já tinham sido encaminhadas à TV Cabo de forma a que esta proceda à “ligação dos sinais nos edifícios de moradores afectados”.
O problema que opõe há anos os “anteneiros” – ou empresas de antena comum ilegal - à TV Cabo resulta do contrato de exclusividade assinado entre a TV Cabo e o Governo e que termina em 2014. “Em Macau, quando alguém instala uma rede de telecomunicações para o público, tem de ter autorização do Governo”, disse o dirigente. Se for “instalada uma linha sem autorização pública deve ser desligada”, afirmou ainda. Não tem soluções concretas para o conflito, mas referiu que a “situação actual deverá ser mantida” pelo menos até 2014 – data de fim do contrato de concessão da TV Cabo.
Um factor que poderá ser importante para a resolução do conflito passa por o novo accionista maioritário da TV Cabo ter pertencido anteriormente a uma companhia de antenas. “É uma boa oportunidade para resolver o problema”, declarou. Assim, a posição adoptada pela DSRT é a de “manter a situação existente”, não inserindo “outros sinais”, incluindo o sinal da TV Digital de Hong Kong, nas antenas públicas existentes. “Teremos de retirar qualquer instalação nova da rede efectuada sem autorização”, explicou.
Na sequência da reunião realizada ontem com a DSRT, os anteneiros não se mostraram muito contentes, depois de o Governo ter afirmado que serão desmantelados quaisquer novas instalações de fibra óptica ou de cabos que visam transmitir a TV Digital de Hong Kong. Mas concordaram que iriam restabelecer a ligação, não sem antes terem afirmado que não existe um verdadeiro contrato de exclusividade a partir do momento em que o Governo pede aos anteneiros que restabeleçam o sinal.
Vários organismos e vozes representativas da sociedade já se manifestaram contra a atitude tomada pelos “anteneiros”, que cortaram, sem aviso prévio, o sinal de emissão a vários residentes da RAEM. Em declarações ao jornal Ou Mun, o deputado Lee Chong Cheng considerou o acto irresponsável, por impedir o acesso à informação por parte dos cidadãos. O deputado exigiu ainda às empresas que restaurem o serviço o mais rápido possível. Os responsáveis da Associação Novo Macau Democrático afirmaram que as transmissões televisivas deviam ser restabelecidas sem afectar o direito à informação dos residentes, tendo publicado uma nota condenando o corte ao sinal televisivo. De acordo com representantes da Associação, a Direcção dos Serviços de Regulação e Telecomunicações deveria também arcar com as responsabilidades, por não ter permitido que os anteneiros reparassem e melhorassem as condições dos cabos. E exigiu que o Governo eliminasse os obstáculos a uma concorrência aberta ao monopólio das telecomunicações.
Wong Chou-tim, director da Comissão para Obras em Edifícios Residenciais da União Geral das Associações dos Moradores de Macau, lamentou tal corte de serviço. O responsável afirmou ainda que os conflitos entre o Governo, a TV Cabo de Macau e os anteneiros devia ser resolvido de forma a não afectar o direito dos residentes ao acesso à informação.
Recorde-se que, na terça-feira passada, por volta das 20 horas, grande parte da população terá ficado sem acesso a 26 canais televisivos, incluindo os de sinal aberto. Em Macau contam-se 14 ou 15 empresas de antena comum ilegal e apenas uma legal - a TV Cabo.
Luciana Leitão

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Quando miúdos atacam miúdos, A história de um guarda-chuva que sobreviveu à guerra

Problema da delinquência juvenil em Macau analisado por especialistas

Quando miúdos atacam miúdos

Têm entre 13 e 16 anos, mas foram capazes de arrancar as roupas, espancar e insultar uma rapariga durante seis longas horas, num vão de escada. Isto enquanto dois elementos do grupo gravavam todas as cenas de humilhação com telemóveis. O caso veio à tona há duas semanas e continua sob investigação. As autoridades suspeitam que não foi a primeira vez que a jovem estudante foi vítima de violência por parte das mesmas pessoas.
Também não foi a primeira vez que vemos o quotidiano da cidade a ser abalado por relatos semelhantes. As atitudes e os métodos podem variar, mas o nível de atrocidade e de violência ultrapassa o limite da tolerância. De todas as vezes que tal acontece levanta-se a velha questão: O que vai mal na juventude de Macau?
Na opinião do secretário-geral da Caritas, Paul Pun, as razões que podem levar os adolescentes a atentarem contra a integridade física dos seus pares prendem-se com factores essencialmente psicológicos. “Os jovens têm várias fraquezas. Não sabem lidar uns com os outros, como se devem proteger a si próprios e não pensam seriamente sobre a vida, a educação e mesmo que há consequências legais dos seus actos”, sustentou.
Neste âmbito, perante tamanha violência, é a escola e a instituição familiar que devem ser chamadas à responsabilidade. “Por um lado, os professores têm que se mentalizar que não estão ali só para ensinar, mas também para educar. Por outro, a própria comunidade tem que fazer os pais compreenderem que é necessário passar mais tempo com os seus filhos, ouvi-los e tentar compreender os seus problemas e ansiedades”, apontou.
Gertina van Schalkwyk, professora assistente de psicologia da Universidade de Macau, faz uma análise mais detalhada. “As razões que podem conduzir os adolescentes de Macau a tomar atitudes delinquentes estão ligadas a um complexo de interacção entre o indivíduo e o ambiente que o rodeia, nomeadamente a família, os seus pares, escola e outros níveis comunitários”, afirmou.
Segundo a visão da académica, na RAEM, a família e a escola são os factores de risco mais associados a condutas delinquentes. No entanto, os pares e a própria comunidade também desempenham um papel importante.
“Ser rejeitado pelos colegas devido a comportamentos anti-sociais leva, muitas vezes, a que um jovem se afilie a um grupo mais marginalizado, como é o exemplo dos gangs. Tal pode provocar uma escalada de comportamentos anti-sociais como a toxicodependência ou a delinquência”, observou.
Quanto ao ambiente escolar do território, Gertina van Schalkwyk encontrou algumas particularidades. “Muitos adolescentes passam demasiado tempo sozinhos em casa, porque os pais estão muito ocupados com o emprego. A falta de espaço dado ao convívio familiar força-os a ir para a rua, onde se encontram com outros jovens também rejeitados e negligenciados, acabando por socializar e associar-se a grupos com comportamentos desviantes”, explicou.
Menos especulação e mais trabalho de prevenção e acompanhamento. É esta a ideia defendia pela presidente da Associação de Pesquisa de Delinquência Juvenil de Macau, Penny Chan. A socióloga alerta para a existência de um terceiro grupo envolvido nestes casos de violência entre jovens ao qual é necessário prestar mais atenção.
“Grande parte destes actos de violência são depois difundidos via telemóvel ou mesmo na Internet. Temos que nos concentrar nestas pessoas que viram esses vídeos e fotografias, tentando perceber qual são as suas opiniões”, sentenciou.
Para Penny Chan, só desta forma é que é possível prevenir que novas agressões aconteçam no futuro. É preciso, segundo a responsável, discutir o assunto, explicar o que é necessário fazer para proteger a vítima e mostrar quais são as maneiras correctas de resolver um conflito.
Quanto às possibilidades de estarmos perante uma situação crónica, os observadores consultados pelo Tai Chung Pou partilham a mesma opinião: a RAEM não representa um caso especial neste contexto. “Não se pode dizer que a violência nas escolas ou entre adolescentes seja comum em Macau. Em 2006, tivemos dois casos e, no ano passado, apenas um”, defendeu Penny Chan.
Paul Pun assina por baixo. Contudo, o mesmo responsável sustentou que é preciso agir para minimizar a ocorrência de mais agressões entre jovens.
Por sua vez, Gertina van Schalkwyk é apologista da via da prevenção. De acordo com a académica, a delinquência e violência juvenil seguem um padrão muito previsível.
Além da criação de um programa de intervenção que deve ser aplicado ao primeiro sinal de problemas comportamentais e agressões, é necessário, afirmou a especialista, inserir os pais nesse esquema. Só assim, os encarregados de educação conseguirão “ajudar os filhos a adaptarem-se à vasta gama de mudanças sociais em Macau, educá-los em conformidade com isso e reduzir futuros casos de delinquência juvenil”.

O que é a delinquência juvenil?

“O termo delinquência juvenil é utilizado para definir os comportamentos criminosos cometido por menores, isto é, com idade inferior a 18 anos, e que estão relacionados com o diagnóstico clínico de conduta desviante”. A explicação é dada por Gertina van Schalkwyk, professora assistente de psicologia da Universidade de Macau.
Quando estamos a falar de adolescentes, não se menciona o conceito de comportamento criminoso, mas sim de delinquência. Por conduta desviante entende-se a repetição e persistência de um padrão de conduta que viola os direitos básicos do outro e as normas sociais comummente aceites.
Segundo a académica, a maioria dos jovens manifesta pelo menos uma forma de comportamento delinquente até atingir a idade da maioridade. Tal acção pode ter a ver com o abuso de bebidas alcoólicas e drogas, invasão de propriedade ou furto.
“Comportamento delinquente, criminalidade e violência são conceitos complexos, sendo ainda multi-determinados”, explicou a especialista. “Da perspectiva do desenvolvimento psicológico, a conclusão que se chega é que as origens da violência durante a adolescência estão firmemente enraizadas desde cedo nos comportamentos do indivíduo”.
Nas palavras de Gertina van Schalkwyk, um início precoce em termos de atitudes violentas, se não for devidamente acompanhado, pode implicar uma continuidade até à idade adulta. Visto que delinquentes juvenis são mais susceptíveis de se tornarem adultos delinquentes, observou.
Algumas pesquisas mostraram ainda que há uma especial incidência de comportamentos desviantes e actos graves de violência no pico da adolescência e no início da idade adulta. Por outro lado, este tipo de conduta é mais frequente entre indivíduos do sexo masculino do que feminino.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Ouvido ontem no TJB o subdirector para as Obras Públicas e Transportes

Starworld inclinado mas sem risco de queda

A causa? Não sabe. O subdirector para as Obras Públicas e Transportes, Lei Chan Fong, testemunha do caso conexo ao de Ao Man Long, que envolve os seus familiares e três empresários, afirmou ontem perante o tribunal que o edifício que alberga o hotel-casino Starworld tem uma inclinação mas não está em risco de queda. Ficaram por saber as causas de tal inclinação.
Depois de um relatório encomendado pela Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) ao Laboratório de Engenharia Civil de Macau (LECM) e à Universidade de Macau, concluiu-se que o edifício Starworld “apresenta inclinação, mas dentro dos limites estipulados por lei”. Foi a resposta de Lei Chan Fong quando inquirido pelo delegado do Ministério Público (MP). “Não havia perigo de colapso”, não tendo, por isso, sido “suscitadas melhorias”. Contudo, a vistoria a cargo do LECM deverá continuar a ser feita, afirmou a testemunha. Instruções de superiores hierárquicos não recebeu. E, garante, o relatório foi motivado apenas para responder a “rumores” de que o edifício estaria realmente inclinado. Quanto às causas, até hoje, “as Obras Públicas não sabem”. Nem mesmo o “relatório conclusivo” – que tem por base a observação, verticalidade e graus - dá respostas. Quanto a eventuais responsabilizações sobre a inclinação, o subdirector declarou que “é preciso saber a causa para saber que empresa deve ser responsabilizada”.
Contudo, acabou por afirmar tratar-se de uma questão de “assentamento diferencial” o que, trocando por miúdos, está relacionado com “o aprofundamento do pavimento – pode ser por causa das estruturas ou por outros motivos”.
Interrogado sobre os procedimentos que levaram ao licenciamento da obra, o subdirector afirmou que, recebido o relatório, foi feita uma vistoria ao local. Tendo chegado à conclusão de que o “prédio tem todas as condições para ser utilizado”, atribuiu a licença. Quanto ao futuro, afirmou, “estamos a acompanhar a evolução da inclinação”. Se eventualmente será corrigida essa inclinação, o responsável não soube dizer. “Ainda não conseguiram dar-nos uma conclusão nesse sentido”, afirmou.
Quanto às obras que envolvem os casinos Starworld, Grand Waldo ou Venetian, a testemunha negou ter alguma vez recebido uma instrução por parte do ex-secretário ou do director das Obras Públicas para “acompanhar de perto”. No que toca ao hotel-casino Starworld, disse também não ter recebido qualquer instrução da empresa Sam Meng Fai no sentido de apressar o licenciamento.
Declarações da segunda – e última – testemunha ouvida ontem no Tribunal Judicial de Base, cuja inquirição durou perto de quatro horas. A primeira testemunha do dia, Choi Tong Wa, técnico superior das DSSOPT, confirmou ter recebido instruções do superior hierárquico, quando pertencia a comissões de avaliação de concursos públicos, mas negou ter ajustado a pontuação por si atribuída – nomeadamente, no caso que envolveu a construção do auto-silo de pesados da Ponte Flor de Lótus atribuído à empresa Chon Tit.
Recorde-se que a empresa Sam Meng Fai foi a responsável pelas obras de decoração do Starworld. A acusação tem tentado provar que, dadas as ligações de Ho Meng Fai ao ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas, o empresário terá intercedido para que a entrada em funcionamento do hotel-casino fosse acelerada.
Luciana Leitão

Reunião para analisar petição de João Miguel Barros foi inconclusiva

Assembleia analisa hoje excepções feitas ao CCAC

A terceira comissão da Assembleia Legislativa deverá voltar a reunir-se hoje para analisar a petição apresentada pelo advogado João Miguel Barros, relativa às excepções que a lei concede ao Comissariado Contra a Corrupção (CCAC), no âmbito da investigação criminal.
De acordo com o deputado José Pereira Coutinho, membro da comissão responsável pela análise do documento, a reunião de ontem acabou por não ser conclusiva, não tendo havido tempo necessário para estudar detalhadamente a pretensão do advogado de Macau.
Assim sendo, adiantou Pereira Coutinho ao Tai Chung Pou, “deverá haver esta quarta-feira uma nova reunião, para que seja possível estudar a petição aprofundadamente, dentro do prazo legal”.
No passado mês de Dezembro, João Miguel Barros solicitou à Assembleia Legislativa, ao abrigo do direito de petição, que se pronunciasse sobre a constitucionalidade da Lei 10/2000, que estabelece um regime de excepção a favor do CCAC, relativamente à regra geral que está consagrada no Código de Processo Penal, e que permite ao organismo não estar sujeito a nenhum prazo para concluir as investigações.
Para o advogado, esta excepção permitida por lei afronta princípios constantes da Lei Básica e do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, em vigor em Macau. Recordando que o CCAC é uma entidade de polícia criminal, não podendo ser equiparada a autoridade judiciária (como o Ministério Público) e que, no início ou no decurso dos inquéritos abertos pelo CCAC os investigados podem ser constituídos arguidos, João Miguel Barros sublinhou que “a constituição de arguido acarreta normalmente a aplicação de medidas restritivas da liberdade individual ou de medidas especialmente gravosas em termos patrimoniais”.
Ora, a excepção prevista na Lei 10/2000 “pode levar, na prática, a que o CCAC constitua um arguido no início ou no desenvolvimento do inquérito e mantenha a pessoa investigada nessa condição de arguida durante o tempo que quiser, não estando sujeito ao prazo geral de oito meses estipulado no Código de Processo Penal para a sua conclusão, que se aplica às situações em que não haja arguido preso preventivamente”.
Na passada semana, à margem do debate de três dias sobre o processo penal em Macau, foram vários os advogados que concordaram com a interpretação de João Miguel Barros em relação a estas excepções concedidas ao CCAC.
Isabel Castro

Empresa de Hong Kong com 122 anos insiste na diferença

A história de um guarda-chuva que sobreviveu à guerra

Nos tempos que correm, são raros os produtos com garantia vitalícia que se encontram à venda no mercado. Em Hong Kong, existe uma excepção: por pouco mais de 120 patacas, é possível comprar um guarda-chuva para a vida inteira. Desde 1885 que a promessa de qualidade a rondar a eternidade é feita pela empresa Leung So Kee, uma pequena indústria que chegou a ter grande prestígio a nível internacional. Decorrido mais de um século de trabalho, a Leung So Kee depara-se com novos desafios: com apenas duas lojas e sem estratégia de marketing, não tem sido fácil manter o negócio.
O percurso desta marca emblemática de Hong Kong passou a ser conhecido, entre os habitantes da antiga colónia britânica, como a “História do Guarda-Chuva”, depois do escritor To Kwok-wai ter construído uma peça de teatro a partir da vida das três gerações da Leung So Kee. A crítica aplaudiu unanimemente o trabalho de encenação, dado o seu forte lado humano, mas a peça de teatro não representa com objectividade a história de um negócio familiar com 122 anos de existência.
“Tanto a peça como o livro não são rigorosos. Por exemplo, mencionam que o fundador teve dois filhos, mas isso não é verdade”, conta Leung Mang-sing, director da Leung So Kee, bisneto do fundador.
A história da Leung So Kee começa na China imperial do final do século XIX, quando ao porto de Cantão chegavam os barcos de comerciantes vindos do Ocidente, época em que o chá e o ópio eram os produtos mais comercializados nas águas do sul da China. O fundador da Leung So Kee, de seu nome Leung Chi-wa, recolhia ferro-velho para revenda, sendo esta a sua actividade principal. Até que, um dia, reparou que os ocidentais não tinham ninguém que fizesse trabalhos de reparação dos modernos guarda-chuvas, estragados pelos ventos fortes sentidos na zona costeira. Leung encontrou aí uma oportunidade de negócio e começou a reparar peças estragadas de estrangeiros.
A técnica de construção e de reparação foi aprendida com artesãos ocidentais de passagem pela China. Leung fez o seu primeiro guarda-chuva e escolheu um nome para o produto do se trabalho: Leung So Kee tem na origem o nome pelo qual o fundador era tratado na escola, Leung So. Em 1885, na cidade de Cantão, nascia a empresa. O slogan escolhido adequava-se às exigências do consumo da época - uma boa estrutura de metal e a promessa de garantia vitalícia.
O negócio foi crescendo e, corria a década de 1920, foram abertas mais duas lojas: uma em Macau, a outra em Cantão, onde já estava instalado o estabelecimento comercial que deu origem ao produto. Os guarda-chuvas pretos de grandes dimensões começaram a ser também conhecidos na então República da China, com os níveis de popularidade a crescerem a olhos vistos.
No século XXI, o produto mais emblemático da Leung So Kee continua a ser especial a nível mundial e muito procurado por turistas. Os ingleses continuam a preferir o clássico guarda-chuva preto com a pega feita de bambu. Hoje em dia, explica o responsável pela empresa, são mais leves do que os originais, feitos de materiais resultantes das inovações tecnológicas. Se bem que a imagem da marca é a cor preta, a empresa aceita pedidos especiais de quando em vez, como os guarda-chuvas com a imagem do “ground zero” estampada, Manhattan depois de 11 de Setembro de 2001, por encomenda de um norte-americano.
A experiência adquirida à frente da Leung So Kee permite ao director traçar os diferentes perfis dos consumidores. “Os japoneses compram diferentes chapéus, uns para a chuva, outras para os dias de sol. Já os residentes de Hong Kong preferem um produto prático, que seja leve, de pequenas dimensões e resistente às rajadas de vento”, explica. Por isso, o guarda-chuva mais vendido de sempre da marca foi um modelo preto retráctil, em tudo distinto do clássico chapéu com pega de bambu.
Actualmente, só existem duas lojas onde é possível comprar um guarda-chuva da Leung So Kee: uma fica em Kowloon, a outra está localizada nos Novos Territórios. A existência destes dois estabelecimentos tem uma explicação histórica. Os bons tempos de Cantão não duraram muito. Na década de 1930, a guerra levou a instabilidade a Cantão e o fundador da empresa teve que tomar decisões em relação à viabilidade do seu negócio. Leung Chi-wa, pai de uma numerosa família, optou por uma solução tradicional, tendo passado a empresa aos seus descendentes.
O filho mais novo era demasiado jovem para começar a trabalhar, pelo que Leung lhe deu dinheiro suficiente para sobreviver aos tempos de guerra. O fundador da empresa dividiu o espólio pelos três filhos mais velhos, seguindo uma lógica geográfica: as lojas da China e de Macau para um, os estabelecimentos dos Novos Territórios e de Kowloon para outro, sendo que ao terceiro coube em sorte o negócio na ilha de Hong Kong.
A actividade empresarial fora de Hong Kong não sobreviveu à guerra, mas as lojas da Leung So Kee em ambos os lados do Victoria Harbour evoluíram de forma próspera no cenário económico do pós-guerra. O primeiro guarda-chuva retráctil da empresa nasceu em 1949.
O facto de os guarda-chuvas serem feitos de forma artesanal e a qualidade dos materiais fizeram com que fossem objectos em voga durante os anos 1960. Nessa altura, o produto mais barato da Leung So Kee custava 9 dólares de Hong Kong, enquanto o mais caro chegava aos 420 dólares, o equivalente a vários meses de salário de um trabalhador da classe média.
O produto de luxo adaptou-se às novas tendências de mercado, com o preço actual fixado nos 120 dólares de Hong Kong. Já não são totalmente feitos por artesãos, mas continuam a ser montados por uma mão cheia de famílias da antiga colónia britânica. Há mais de trinta anos, este era um tipo de tarefa que permitia a sobrevivência a muitas famílias migrantes do território.
Leung Mang-sing explica que este método de confecção permite um melhor controlo de qualidade, mas o factor económico também pesa, uma vez que a produção em massa de guarda-chuvas, que são depois vendidos a 10 dólares, colocou a Leung So Kee numa frágil posição em termos de mercado.
“Antigamente era possível encontrar bons guarda-chuvas na Daimaru e na Matsuzakaya”, diz o director, fazendo referência a duas lojas japonesas que fecharam as portas. “Agora, só há à venda produtos muito baratos, de má qualidade, ou então chapéus cujo preço ultrapassa os mil dólares de Hong Kong.” Curiosamente, a Leung So Kee também faz trabalhos de reparação em guarda-chuvas de outras marcas. Como os seus ascendentes, Leung Mang-sing aprendeu os segredos do produto.

Planos para o futuro

De forma distinta de outras marcas da concorrência, a Leung So Kee só produz guarda-chuvas, apostando na qualidade e numa forma de produção com muitos custos. A competição começou a fazer-se sentir na década de 1970, com a explosão da indústria na Ásia. Em 1986, a loja na ilha de Hong Kong fechou as portas. Contas feitas e sem dívidas para pagar, a história deu origem a um livro, a uma peça de teatro e a um filme. As únicas sobreviventes desta empresa com mais de um século passaram então a ser as lojas em Kowloon e nos Novos Territórios.
De acordo com as contas de Leung Mang-sing, a empresa vende entre 30 mil a 50 mil guarda-chuvas por ano, o que faz com que o negócio seja ainda rentável, não obstante a garantia vitalícia dos produtos. Cerca de quarenta por cento dos chapéus de chuva voltam para a fábrica, para serem reparados, pelo que é necessário manter materiais para compor produtos com mais de quarenta anos. O objecto mais antigo da Leung So Kee é um guarda-chuva de 90 anos, que em tempos pertenceu a uma senhora de idade avançada, e que agora se encontra no Museu de História de Hong Kong.
Os produtos da Leung So Kee já estiveram disponíveis num espaço comercial de Macau, mas a empresa prefere vender os guarda-chuvas apenas nas suas lojas, dada a “falta de honestidade” dos revendedores. “O que aconteceu foi que misturavam cinquenta chapéus de chuva fabricados na China, de má qualidade, com cem dos nossos, e diziam aos clientes que eram todos da Leung So Kee”, conta o director.
O nome da empresa é desconhecido entre as gerações mais novas mas, ainda assim, há algumas excepções. Uma mãe foi comprar um guarda-chuva para o seu filho, a estudar em Inglaterra. A ideia não partiu da progenitora, mas sim do descendente, que soube da marca através de um amigo ocidental da escola que frequenta.
Sem uma estratégia de marketing nem meios de produção que lhes permita fazer frente às marcas conhecidas a nível internacional, a Leung So Kee continua a confiar no facto de ter uma história e de ser um símbolo de Hong Kong. Mais do seguir as tendências de um mercado em constante mutação e de criar estilos atraentes para os jovens, Leung Mang-sing pensa, agora, em abrir uma loja em Central, o que implicará negociações com a família que herdou o negócio nessa margem. “Há pessoas que nos perguntam se temos lojas na ilha de Hong Kong, porque não lhes dá jeito atravessarem até este lado”, conta o director. “Por isso, queremos abrir mais uma duas lojas nos próximos tempos, para podermos servir melhor os nossos clientes.”
Kahon Chan, em Hong Kong,
com Isabel Castro

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Acórdão do caso Ao Man Long é conhecido amanhã, Julgamento do processo conexo continua no TJB, João Guedes: O investigador presente do passado

TUI marcou leitura do acórdão para amanhã

O primeiro dia do resto da vida de Ao Man Long

Está marcada para amanhã, quarta-feira, a leitura do acórdão do processo que tem Ao Man Long como arguido. Acusado de 76 crimes, a maioria de corrupção passiva para acto ilícito e branqueamento de capitais, o antigo secretário para os Transportes e Obras Públicas está detido preventivamente desde 6 de Dezembro de 2006, tendo sido de imediato exonerado do cargo.
O julgamento mais mediático do pós-RAEM começou a 5 de Novembro último, com três audiências semanais a decorrerem, ao longo de mês e meio, no Tribunal de Última Instância (TUI), onde decorre o processo de Ao por este ser, à altura da prática dos alegados crimes, titular de um alto cargo do Governo.
O antigo governante negou, durante todo o julgamento, ter praticado os crimes que lhe são imputados. A acusação tentou provar que o ex-secretário recebeu ilicitamente 800 milhões de patacas em troca de favorecimentos de empresários, sobretudo da área da construção civil, em processos de concursos públicos e adjudicação de obras.
O Ministério Público arrolou como testemunhas vários dirigentes e funcionários dos dois departamentos que lidam com construções em Macau – o Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas (GDI) e a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT).
A inquirição destes grupos de testemunhas resultou em duas versões completamente distintas: enquanto a DSSOPT garante que Ao Man Long era o responsável pela decisão final na adjudicação de obras públicas - mesmo nas sujeitas a concurso público, cujos resultados mandava alterar -, os funcionários do GDI asseguraram que nunca houve qualquer manipulação de resultados nem indicações do antigo secretário em relação às adjudicatárias.
No processo de Ao Man Long, são feitas menções a mais de três dezenas de obras, a larga maioria de índole pública. No entanto, é ainda acusado de ter recebido elevadas quantias do empresário Ho Meng Fai por ter facilitado processos de inspecção relativos às obras privadas de três casinos de Macau.
Além dos crimes de corrupção passiva para acto ilícito, o arguido responde também por branqueamento de capitais. O ex-secretário controlaria várias empresas offshore, sedeadas fora de Macau, bem como contas bancárias que tinham os familiares e amigos como titulares, onde terá depositado as avultadas quantias que recebia dos empresários locais.
O julgamento de Ao Man Long ficou ainda marcado pelo facto de, segundo a interpretação da Lei de Bases de Organização Judiciária feita pelo colectivo do TUI, o arguido não ter direito a recorrer das decisões tomadas pelos juízes durante o julgamento e do acórdão que amanhã vai ser conhecido.
Embora o entendimento do TUI tenha sido expresso num despacho sobre a admissibilidade de um recurso interposto pelo defensor do ex-secretário, Nuno Simões, durante o julgamento, o colectivo aproveitou a oportunidade para deixar bem claro que, caso haja intenção de recorrer da sentença, o arguido não o poderá fazer, uma vez que, embora julgado em primeira instância pelo TUI, a lei não prevê instância de recurso para estes casos.
A questão gerou alguma polémica em Macau, com vários advogados a defenderem a alteração da Lei de Bases de Organização Judiciária. Se amanhã considerar o acórdão injusto, Ao Man Long não deverá poder recorrer, com a mesma impossibilidade a ser colocada ao Ministério Público, na eventualidade de discordar da decisão judicial.
Em meados de Dezembro, a terminar a audiência em que foram feitas as alegações finais, o presidente do colectivo do TUI responsável pela avaliação deste caso, Sam Hou Fai, não marcou qualquer data para a leitura do acórdão, alegando a complexidade do processo.
Num breve comunicado emitido ao final da tarde de ontem, o Tribunal de Última Instância informa que a leitura do acórdão do processo comum colectivo nº 36/2007, que envolve o ex-secretário para as Obras Públicas e Transportes, está marcada para as 15h30 de amanhã.

Isabel Castro

Quatro testemunhas oriundas da DSSOPT ouvidas em tribunal Instruções superiores não eram questionadas

Em mais uma sessão do julgamento do caso de alegada corrupção que envolve os familiares de Ao Man Long e três empresários, foram ouvidas três técnicos superiores das Obras Públicas e o chefe de divisão – todos membros de comissões de avaliação de obras submetidas a concurso público. Todos confirmaram ter recebido instruções dos respectivos superiores hierárquicos no sentido de proceder a “ajustes” em algumas obras de forma a garantir que certas empresas vencessem o concurso – é o caso do auto-silo de veículos pesados da Ponte Flor de Lótus, que resultou na atribuição, de acordo com as testemunhas, da obra à empresa Chong Tit.
O chefe de divisão das Obras Públicas, Lok Wai Cho, membro de várias comissões de avaliação, afirmou ter recebido instruções do chefe do departamento no que toca ao silo para automóveis pesados no COTAI para que, no final, vencesse a empresa Chong Tit. Foi o último depoimento, mas o mais marcante da audiência de ontem. O técnico, que nunca questionou a legalidade das indicações, afirmou, no entanto, que estas “não eram muito justas”. Questionado por Luís Pinto, advogado de Frederico Nolasco, a testemunha confirmou que os membros da comissão de avaliação recebiam as mesmas indicações e conversavam sobre o assunto. Indicações, contudo, que apenas iriam no sentido de favorecer a empresa e não de alterar de alguma maneira a pontuação atribuída, facto que o colectivo de juízes estranhou. Um depoimento, aliás, que não foi coincidente com o de algumas testemunhas, como o técnico superior dos serviços de Obras Públicas e Transportes, Lei Son Fat, que confirmou ter recebido instruções do seu superior hierárquico, Lok Wai Cho, no sentido de “ajustar a pontuação” – apenas no que toca à sua “especialidade”, a energia eléctrica. Isto quanto à construção do auto-silo da Ponte Flor de Lótus e o auto-silo do Jardim das Artes. “Não nos foi dada justificação”, disse perante o colectivo de juízas. Recebida tal instrução, Lei Son Fat afirma “não ter elevado a pontuação”, mas o resultado final coincidiu com o que alegadamente o superior hierárquico terá exigido. Quanto aos colegas de comissão, a testemunha afirmou desconhecer se tinham feito ajustamentos. Uma situação que, de acordo com a testemunha, era “rara”. Contudo, à pergunta do delegado do Ministério Público sobre se, nos concursos em que participou, em grande parte das obras com auto-silos, foram dadas instruções, a testemunha confirmou. Instruções “amigáveis” que comparou a “uma conversa entre colegas”.
Outro técnico superior do departamento das Obras Públicas, Chan Wei Hong, confirmou também ter recebido “indicações no sentido de serem retirados certos materiais da lista para que não constassem da classificação” por parte do superior hierárquico, Lok Wai Cho. Indicações que nunca questionou. “Não podia pôr em causa indicações do superior”, disse. Até porque há “certas coisas no trabalho em que nós não podemos ser extremistas e a minha pontuação não ia afectar a decisão final”. E confirmou que houve alturas em que os documentos por si entregues chegaram a ser devolvidos – mas “era raro”. Quanto aos colegas de comissão, apenas “deduz” que também lhes tenha sido comunicada essa instrução. Nos casos em que lhe foi pedido um “reajustamento” no que toca à sua área – elevadores, ventilação e sistema de combate a incêndio -, ficou “inconformado e sentiu-se inseguro”.
Quanto a eventuais imprecisões no depoimento prestado ontem, a delegada do Ministério Público alertou para o facto de, aquando das declarações prestadas ao Comissariado Contra a Corrupção (CCAC), terem sido mais pormenorizadas. “Recordava-me melhor. Na altura padecia de cancro e há dois anos fui operado”, justificou. Mas de algo se lembra – de que teve instruções verbais por parte do Lok Wai Cho no sentido de garantir que a empresa Chon Tit ficasse em primeiro lugar no concurso público que levou à construção do auto-silo. “Se é dito é para se fazer, uma pessoa não questiona”, afirmou. Instruções que apenas implicavam um clique “no sistema Excel e fazer ‘delete’ a certas rubricas”. E que normalmente podiam resultar em documentos preenchidos pelos membros da comissão que depois eram devolvidos aos técnicos.
Já a terceira testemunha, um técnico superior dos serviços de Obras Públicas e Transportes, Leong Sio Kuan, que também participou em algumas obras como membro da comissão de avaliação, nomeadamente no caso do Centro de Tiro, afirmou perante o colectivo que foi “necessário alterar o resultado” no sentido de “elevar a pontuação da empresa Sam Meng Fai”. Contudo, desconhece se os outros membros da comissão também procederam aos “ajustes”. Questionado por Pedro Redinha, advogado de Ho Meng Fai, Leong acabou por afirmar saber que “toda a equipa recebeu instruções”. Indicações que acabaram por resultar na alteração dos resultados, nomeadamente no que toca aos concursos públicos da obra do Centro de Tiro e da Capitania dos Portos. Se os colegas da comissão efectuaram também tais “ajustes”, a testemunha não soube responder.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Hotéis de Hong Kong tentam manter funcionários

Em Macau trabalha-se muito

A indústria hoteleira de Hong Kong está a tentar manter os funcionários ao oferecer um aumento salarial sem precedentes na história do sector. Este ano, e face a competição de Macau no que aos recursos humanos diz respeito, os salários auferidos nos hotéis da antiga colónia aumentaram cerca de cinco por cento.
A concorrência de Macau não é, contudo, tão alarmante como se possa pensar, a avaliar pelos dados agora revelados pelo director executivo da Federação de Proprietários de Hong Kong. Segundo Michael Li Hon-shing, cerca de um quarto dos trabalhadores da indústria que abandonaram Hong Kong para virem para Macau já não estão na RAEM. A razão? “Voltaram para casa porque, em Macau, os salários altos não compensam a grande carga de trabalho que têm”, afirmou o responsável.
Em declarações à imprensa da região vizinha, Michael Li Hon-shing avançou que a Federação chegou a acordo com as associações de trabalhadores do sector em relação a um aumento dos salários entre quatro a cinco por cento, além da atribuição de um bónus equivalente a três meses de vencimento para os 43 mil funcionários dos mais de 130 hotéis.
Um aumento salarial destas proporções na indústria hoteleira é algo que nunca aconteceu em Hong Kong, sendo que algumas unidades de três estrelas estão a oferecer compensações ainda mais generosas para garantirem o nível de competitividade.
Para Li, a questão da quantidade de recursos humanos não é a única que preocupa o sector. “Precisamos também de assegurar a qualidade, através da formação profissional”, expressou.
Em 2007, os hotéis de Macau deixaram as unidades de Hong Kong com menos dez por cento da mão-de-obra. Um resort da RAEM, que a imprensa da região vizinha não identifica, empregou mais de mil trabalhadores oriundos da antiga colónia britânica. No entanto, entre 20 a 30 por cento destes funcionários desistiram dos seus cargos e voltaram para Hong Kong, dada a sobrecarga de trabalho em Macau, derivada do reduzido número de trabalhadores nas unidades hoteleiras. Segundo a imprensa da região vizinha, alguns gestores não têm equipas para gerir e o muito trabalho que lhes é delegado não chega para compensar os salários mais elevados.
Não obstante este cenário, o director executivo da Federação de Proprietários de Hong Kong acredita que mais cem gestores deverão mudar-se, nas próximas semanas, para postos de trabalho na RAEM.
Para o período do Ano Novo chinês, a taxa de ocupação dos hotéis de três estrelas de Hong Kong atingiu já os 95 por cento, enquanto que as unidades de cinco estrelas têm já oitenta por cento dos quartos reservados. As perspectivas de negócio para este ano são animadoras, devido ao crescimento económico da China e ao permanente aumento do número de turistas do Continente. No entanto, ressalvou Li Hong-shing, o estado da economia norte-americana poderá ter repercussões para as receitas do sector. Por outro lado, a indústria hoteleira de Hong Kong tem estado a apostar na captação de turistas para que estes parem na região administrativa especial, antes de seguirem para Pequim para assistirem aos Jogos Olímpicos de 2008.

João Guedes, jornalista e escritor

O investigador presente do passado

São duas vidas completamente distintas, como se fossem as de dois homens, com Macau a marcar o fim de uma e o início de outra, em tudo diferente. Ou então não: a vinda para o território só alterou o método e o objecto. Ninguém pode ser quem não é e João Guedes transportou os hábitos e capacidades para um novo meio.
Já lá vão 27 anos desde que deixou de ser investigador criminal para passar a vestir a pele do jornalista. A verdade é que “o jornalismo é muito parecido, há muita investigação”. Hoje em dia, não tanta quanto gostaria, que a velocidade do tempo não o permite. É o jornalismo do quotidiano que faz os dias. Mas a investigação está lá sempre, de uma forma ou de outra.
Nascido na região de Lamego, há quase três décadas no território, João Guedes, jornalista da Teledifusão de Macau desde o início das operações da televisão, autor de vários livros, apaixonado por literatura e história, sente-se mais daqui do que de outro local qualquer. “É interessante, acaba-se por se gostar de Macau... e ao fim destes anos todos perde-se muito a ligação a Portugal”, sorri. “Vou lá todos os anos, mas é um país que já não tem muito a ver comigo. Tenho a família toda aqui, de modo que Macau é a minha pátria”, abrevia, com uma gargalhada.
Foi precisamente por questões familiares que se mudou para Macau. Para trás deixou a carreira de investigação criminal na Polícia Judiciária, que o levou a passar por Paris e Inglaterra. Em 1981, pediu uma licença ilimitada, que lhe foi concedida. Começava então a segunda vida, a de Macau.
O Gabinete de Comunicação Social era o destino à chegada. “Na altura, estava a formar-se a televisão e fui convidado para integrar a TDM. Estive dois ou três anos na rádio, depois passei para a televisão.” Contam-se um ano na Tribuna de Macau, um período no Correio de Macau e colaborações com outros jornais. Mas o território é significado de televisão, muita televisão.
“Colaborei no lançamento do novo figurino da informação, juntamente com Judite de Sousa, Fernando Maia Cerqueira e José Alberto de Sousa”, conta. “Em 1984, passei a apresentar o resumo da informação na televisão, segmento de notícias emitido, então, diariamente às 18 horas.” Um ano depois, chegava a apresentação do telejornal. Em 1987, começou a dirigir a informação da TDM. Treze anos depois, foi nomeado director de informação e programas portugueses. Desde Junho de 2005 que é assessor da informação para os canais portugueses de rádio e televisão.
Pelo meio, perde-se o número às entrevistas a nomes sonantes da política e da história, umas quantas viagens, programas e documentários sobre questões tão diversas como a presença de Camões em Macau, a história portuguesa no Japão e a vida no final da década de 1980 na Coreia do Norte. Ao trabalho na TDM junta o de correspondente, tanto de televisão como de imprensa, com colaborações para Agência France Press, a revista Sábado, o Hong Kong Standard e o Expresso, entre outros. Foi correspondente da CNN e da portuguesa RTP.
João Guedes tem uma ligação forte à forma de comunicação que a televisão assume, mas gosta também de rádio. “E gosto essencialmente de escrever”, sintetiza. E é aqui que entram os livros e que a capacidade de investigar encontra espaço para fugir aos limites que o jornalismo do quotidiano impõe. Quando chegou a Macau, descobriu que havia muito para descobrir. “As pessoas passavam por aqui um ano ou dois, a história ia-se esquecendo”, conta. “Lembro-me que, quando cheguei, encontrei temas que não fazia ideia sequer que existiam e só as pessoas mais velhas se lembravam de ter ouvido falar.” Depois, havia também os assuntos “tabu”, como o “1,2,3”. “Ninguém falava disso, acabei por escrever sobre o tema. O mesmo se passou com os conflitos de 1922, que já tinham caído no esquecimento.”
João Guedes escreveu sobre temáticas variadas, sempre com os séculos XIX e XX a servirem de enquadramento, e é o autor de um livro sobre uma questão sensível que nenhum escritor de língua portuguesa tinha, até então, abordado: as seitas. “Tive contacto com as seitas de Macau quando estava na Polícia Judiciária em Portugal”, recorda. “Quando cheguei aqui fascinou-me esse mundo. Tinha bons contactos na polícia, fui investigando a história e reparei que não havia nada em português sobre as seitas.” E assim escreveu livro “As Seitas - Histórias do Crime e da Política em Macau”, obra que aborda as associações secretas chinesas em Macau desde inícios do século XIX até 1978.
“Não é um trabalho muito profundo, mas foi o primeiro a aparecer em português. A bibliografia em inglês é extensíssima, mas em português só havia alguns artigos de jornal e um ou outro livro muito antigo que fazia referências às seitas”, analisa. O tema é “fascinante”, porque se trata de “um mundo de facetas, de aparências, de coisas que não se conhecem e, por isso, muito interessante de investigar”, sendo que continua a despertar interesse ao investigador que pediu licença ilimitada para ser jornalista em Macau. “Ainda hoje vou guardando coisas sobre as seitas mas não tenciono escrever mais nada sobre o assunto.”
Sobre outras questões João Guedes poderá ainda escrever mas, diz, está numa fase de “pouca produção literária”. No computador vão-se guardando textos mas não existem datas nem metas para cumprir. É o tempo que corre demasiado depressa e deixa poucas horas do dia para a pesquisa, trabalho do qual sente saudades, quer no papel de investigador, quer enquanto jornalista.
Macau tem pano para mangas para quem se interessar por história. E porque não o presente, investigar o que se passa agora? “Não acho que tenha grande interesse, mais a mais porque é difícil discernir as coisas, está tudo a acontecer muito depressa. Ao se escrever sobre o que se passa hoje corre-se o risco de dizer asneiras”, atira. É que Macau é um enigma.
“Não é possível conhecer Macau”, diz. Os 27 anos de residência a Oriente não acabam com a capacidade de ser surpreendido. “O território tem uma população flutuante muito grande, esta sociedade está em permanente mudança, ainda mais agora com os novos casinos e esta americanização, que traz coisas novas, forma movimentos diferentes”, analisa. “O quotidiano altera-se. Macau está hoje radicalmente diferente do que era antes de 1999, em todos os aspectos.”
Por uma questão de nostalgia, João Guedes “gostava mais do Macau antigo”, mas não vira as costas ao momento presente. “Não tenho nada contra este desenvolvimento. Acho que se está a desenvolver o melhor possível dentro dos condicionalismos que tem, porque Macau é uma cidade pequena e tem investimento a mais.”
É este desenvolvimento que faz com que o trabalho do dia-a-dia continue a ser “aliciante”. “Macau está numa nova fase, em que acontecem muitas coisas, é interessante ir acompanhando, continuam a acontecer coisas que não esperava.” Ao final de tantos anos, a cidade continua a surpreendê-lo. “Quanto mais conheço Macau, mais surpresas acontecem”, constata.
O jornalista que divide o seu tempo entre a televisão e os livros (os seus e os dos outros) descobriu que gostava de escrever ainda em adolescente, quando começou a ser redactor da revista do colégio onde estudou. Tinha uns 13 ou 14 anos e era colaborador da revista “Contr’O Vento”, publicação que acolhia artigos de escritores externos. “Alguns, como Frias dos Santos, eram apenas conhecidos a nível regional. Outros, como António Quadros e Aquilino Ribeiro, eram universalmente reconhecidos e dignavam-se inserir artigos nessas páginas.” Agora, “mais de quarenta anos passados, a honra que tal significa mais se me afigura importante”, diz. “Era um miúdo a redigir artigos tolos e eles os grandes escritores que escreviam coisas sérias e importantes”.
A paixão pela literatura vem desses tempos, “em casa toda a gente lia, havia essa mania”, e embora “a escrita a sério” tenha começado só em Macau, os hábitos de leitura vêm de sempre. Não é fácil fazer a lista de favoritos; Dostoievsky acaba por surgir em primeiro lugar. “Foi um dos escritores que me marcou fortemente. São romances densos, com aspectos sociais intensos, e que ainda tinham a ver com a vida do meu tempo.” João Guedes descodifica a comparação: “Portugal, antes do 25 de Abril, ainda não estava muito distanciado da Rússia do século XIX.”
Tolstoi faz parte também das preferências, bem como “alguns brasileiros”. “Vou enchendo a minha casa de livros. Ficar com o que leio só para mim é um bocado redutor.” Às terças-feiras, João Guedes partilha as palavras que lê com os espectadores da TDM. “Conto às pessoas o que leio e do que gosto.” É a literatura sempre presente. E a eterna ligação ao ecrã.
Os livros de João Guedes

As Seitas - Histórias do Crime e da Política em Macau,
Livros do Oriente, Abril de 1991.

Macau Via da Seda,
Missão de Macau em Lisboa, 1992.

O Sortilégio de Macau,
Com fotografias de António Conceição Júnior (inédito)

Laboratório Constitucional,
Livros do Oriente,
Instituto Português do Oriente, 1995

História do Desporto em Macau,
Inédito (Aguarda publicação).
Instituto dos Desportos de Macau, 1995.

Duas Instituições Macaenses (1871 – 1878 – 1998)
Em parceria com José Silveira Machado.
Edição APIM, 1998

Dicionário da História de Macau (em fase de publicação),
Instituto de Estudos Portugueses da Universidade de Macau.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Os planos de Baxter, Uma surpresa chamada Lionel Vai Tac Leong

Departamento de Português quer dar mais espaço
à lusofonia

Os planos de Baxter

Internacionalização é a palavra-chave da lista de trabalhos da nova direcção do departamento de Português da Universidade de Macau (UM). Há quatro meses a ocupar o lugar de director, Alan Baxter não tem tido mãos a medir. Os projectos multiplicam-se: as licenciaturas e os mestrados estão em fase de revisão e há programas de mobilidade para estudantes em preparação, entre tantas outras iniciativas. Os primeiros resultados vão surgir já no próximo ano lectivo.
Aumentar o leque de opções em Portugal e partir à descoberta do Brasil e de África. São estes os objectivos do departamento de Português no que toca aos novos projectos de mobilidade de estudantes.
Actualmente, os alunos do terceiro ano da licenciatura de Língua e Cultura Portuguesas têm oportunidade de efectuar um semestre na Universidade Clássica, em Lisboa. No entanto, a partir de Setembro, os estudantes poderão conhecer os métodos de ensino das Universidades de Coimbra e do Minho.
Relativamente ao Brasil, os custos de deslocação dificultam a concretização deste projecto, mas há a possibilidade de enviar o primeiro grupo para terras de Vera Cruz ainda no próximo ano. “Estão em progresso algumas conversas preliminares com a Universidade de Campinas, no Brasil. O problema é a distância, mas é importante fazer um esforço neste sentido”, frisou o mesmo responsável.
As ambições de chegar ao continente africano são as únicas que ainda não possuem calendário. Contudo, Moçambique é uma das hipóteses, visto que estão já em andamento conversações com a Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo.
A par disso, o departamento de Português pretende ainda criar um programa de estágios. “No quarto ano da licenciatura, queremos desenvolver um esquema de estágios, por enquanto apenas a nível local”, informou Alan Baxter.
Nas palavras do académico, as principais vias profissionalizantes do curso da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UM são as relações internacionais e comerciais, trabalhos de interface, assim como serviços de interpretação e tradução. Ora, numa altura em que os contactos entre a China e os países de expressão portuguesa são cada vez mais fortes, torna-se fundamental que os alunos conheçam o contexto social, histórico e cultural de cada uma destas nações.
É este um dos sentidos segundo os quais está a ser realizada a revisão do programa de licenciatura. Um trabalho que coincidiu com a nomeação de Alan Baxter. “Temos em mente tratar de dois assuntos essenciais. Um deles é a questão da língua, queremos apostar bastante na qualidade em termos das melhores práticas a nível internacional, e outro são as disciplinas de conteúdo”, explicou.
Com cerca de 240 estudantes de um total de 1400, divididos pelas várias opções oferecidas pelo departamento de Português, o curso de licenciatura tem uma duração de quatro anos. A primeira metade é mais dedicada aos estudos linguísticos intensivos, enquanto a segunda se debruça nas disciplinas de tipo tradicional, como a História e a Literatura.
“A minha intenção é, além de estender para o terceiro e quarto anos o ensino da língua propriamente dita, trabalhar ao mesmo tempo os aspectos sócio-económico e cultural relativamente ao mundo lusófono inteiro. Isto tendo em conta os contactos entre a China, África, Portugal, Brasil e União Europeia”, apontou.
O objectivo deste projecto é, segundo Alan Baxter, fazer um trabalho mais actual em termos da realidade lusófona, manter as disciplinas tradicionais, mas complementando com matérias mais pertinentes no que diz respeito aos contactos internacionais que envolvem a língua portuguesa. Neste conjunto, incluem-se, por exemplo, a história contemporânea e as questões de política actual.
O plano de estudos do grau de mestrado está também em processo de revisão. Quanto ao curso mais recente, lançado no ano passado, em Interpretação e Tradução, “está a ter êxito”, mas Alan Baxter não se dá por satisfeito. “Quero consolidar e desenvolver mais esta formação, principalmente ao nível da pós-graduação na área de tradução”, defendeu.
Relativamente ao mestrado em Língua e Cultura Portuguesas, pode esperar-se também uma alteração substancial. Actualmente, o curso de dois anos está dividido em três vertentes: Linguística, História e Literatura. “O que estamos a planear na revisão actual é criar um mestrado único com opções disciplinares, em vez de três mestrados”, explicou o responsável.
“Seria muito positivo que um estudante de Linguística pudesse estudar algumas disciplinas de História. Há toda uma série de conjugações possíveis com muitos benefícios. Por exemplo, para compreender a questão do patuá é necessário conhecer a História de Macau”, acrescentou.
As actividades do departamento de Português da UM desenvolvem-se a dois níveis. O primeiro diz respeito à licenciatura. Além do curso em Língua e Cultura Portuguesas, existe um conjunto de cursos com uma duração mais curta pensados para todos os estudantes de outras faculdades da UM - o “minor” em Estudos Portugueses e o curso de Língua Portuguesa. Na área do Direito, há duas formações em língua portuguesa para alunos chineses e lusófonos.
No que diz respeito ao nível de pós-graduação, além do mestrado em Língua e Cultura Portuguesas e em Tradução e Interpretação, o departamento de Português oferece um plano de estudos de doutoramento em Linguística Aplicada, nomeadamente nas áreas de aquisição de língua e técnicas de aprendizagem, e em Sociolinguística.

Criar um corpo docente virado para a investigação

As estratégias do novo director do departamento de Português da Universidade de Macau (UM) não se resumem somente à organização dos currículos. Alan Baxter tem planos bem definidos quanto ao seu corpo docente. Sempre com os olhos postos na qualidade das práticas de ensino e do trabalho de investigação. Duas vias que, segundo o responsável, servem para elevar o reconhecimento da UM no estrangeiro, bem como atrair estudantes de outros cantos do mundo.
“Quero que o departamento seja bem conhecido pela sua especialização, isto é, docência e investigação actualizada”, defendeu. O plano do também director do Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos do mesmo estabelecimento de ensino é desenvolver um quadro bem forte na área do ensino do português como segunda língua formado por docentes com interesse pela investigação.
“Hoje em dia não se pode ensinar uma língua sem estar dentro dos desenvolvimentos e tendências actuais, bem como os produtos das investigações mais recentes. Quem ensina um idioma estrangeiro tem que estar actualizado”, sustentou o mesmo responsável.
Actualmente com um corpo docente de 24 profissionais, Alan Baxter pretende fazer aumentar este número para 26, ainda durante este ano lectivo. Por outro lado, dentro de 18 meses o departamento vai poder contar com mais três professores doutores, docentes que já pertencem ao quadro.
Além disso, o responsável pretende criar quadros especializados em áreas específicas. A primeira diz respeito aos assuntos de português para Direito. Um trabalho que está já em fase de andamento. Em segundo lugar, será criado um sector do corpo docente mais dedicado à área de Tradução e Interpretação. “Haverá mais espaço para estas disciplinas”, salientou.
Este ano, a UM atribuiu uma bolsa ao Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos. Isto quer dizer que, durante cinco anos, o grupo de investigadores na área da linguística do departamento de Português vai receber financiamento para desenvolver os seus trabalhos.
A equipa formada por 11 académicos é comandada por Alan Baxter. Além de projectos de Linguística Aplicada, há ainda a vertente de Sociolinguística. É aqui que entram os projectos associados ao patuá e ao pápia kristang, o crioulo de Malaca, cujo objectivo é dar apoio às comunidades em questão para ajudar à manutenção e preservação destas manifestações linguísticas.
Uma nomeação polémica

A nomeação de Alan Baxter para os comandos do departamento de Português da UM e do Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos gerou polémica entre a comunidade portuguesa da RAEM. Acontece que o licenciado em Filosofia e Mestre e Doutor em Linguística é australiano.
Nas palavras do académico, as principais preocupações estão ligadas ao facto de este usar a norma do português do Brasil, enquanto que as regras vigentes da língua lusitana em Macau são as de Portugal. Alan Baxter garante que este vínculo não será violado; no entanto, num espaço com as características de Macau, é preciso dar espaço à lusofonia.
“É evidente que uma universidade que ensina o português, neste século, localizada na China, tem que ter em atenção que o país ao lado é o maior parceiro económico dos países de língua portuguesa”, sustentou. Tal deverá, segundo Alan Baxter, processar-se desde o nível dos quadros de professores até aos conteúdos dos currículos.
“A minha visão é que temos que trabalhar mais a temática lusófona, sem esquecer que o vínculo com Portugal é realmente central e muito importante. Por isso, além de portugueses e brasileiros, eu gostaria de ter um corpo docente formado também por africanos. Isto não quer dizer, de jeito nenhum, que vamos privilegiar uma determinada variante do português.”
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão

Eleitos os delegados de Macau à 11ª Assembleia Popular Nacional

Vai Tac Leong e Lau Ngai Leung consensuais

Estão escolhidos os representantes de Macau junto da 11ª Assembleia Popular Nacional (APN). Doze pessoas de diferentes quadrantes da RAEM foram ontem escolhidas num processo eleitoral que decorreu na Torre de Macau. Os empresários Lionel Vai Tac Leong e Lau Ngai Leung reuniram o maior número de votos: 304 nomeações num total de 319. O colégio eleitoral é constituído por 325 membros; ao sufrágio apresentaram-se 17 candidatos.
Os cinco actuais delegados de Macau renovaram os seus mandatos. Além de Lionel Vai Tac Leong, são seis as caras novas da RAEM junto da APN.
Dos resultados de ontem, destaque ainda para o facto de o empresário Ho Iat Seng, que tinha reunido o maior número de cartas de nomeação, não ter conseguido mais do que o quinto lugar na classificação geral. Três das quatro mulheres candidatas alcançaram um lugar na Assembleia Popular Nacional.
O vice-presidente e secretário-geral do Comité Permanente da APN, Sheng Huaren, esteve presente neste segundo plenário, que culminou com a eleição dos delegados, e que foi presidido pelo Chefe do Executivo da RAEM, Edmund Ho. No discurso que proferiu depois das eleições, Sheng congratulou os recém-eleitos representantes da RAEM, tendo ainda realçado que o processo eleitoral para a 11ª APN em Macau decorreu de acordo com a lei e de forma democrática.
“É uma eleição aberta e justa”, disse. “Acredito que o processo merecerá o reconhecimento dos diferentes sectores da sociedade de Macau”, acrescentou Sheng Huaren.
Em relação aos actuais delegados à 10ª APN, o responsável elogiou a sua efectiva contribuição para o desenvolvimento da economia do país, a implementação do princípio “Um País, Dois Sistemas” e a manutenção da prosperidade e da estabilidade em Macau.
Os doze delegados eleitos serão formalmente empossados depois de um processo de auditoria detalhado levado a cabo pelo Comité Permanente da 10ª Assembleia Popular Nacional, segundo informa a Xinhua.
Lionel Vai Tac Leong, empresário natural de Macau, tem 46 anos e era o candidato local mais novo à APN. Candidatou-se pela primeira vez e o resultado que conquistou foi a maior surpresa desta eleição para a Assembleia Popular Nacional. Membro do Conselho Executivo, é tido como sendo um político de formação liberal. Quanto a Lau Ngai Leung, o empresário é natural de Fujian e a sua reeleição para a APN era dada como certa.
À Rádio Macau, Leonel Alves, membro do colégio eleitoral, considerou estar aberto um ciclo de renovação, tendo sublinhado o significado da votação alcançada por Lionel Vai Tac Leong. “A China entrou num ciclo em que pessoas novas, de sangue novo, começam a estar em todos os aparelhos de Estado. Macau também acompanhou este passo, com pessoas novas, com grande vontade de contribuir para a nação, o que é positivo”, disse.
Quanto às características de Lionel Vai Tac Leong, Alves disse tratar-se de “uma personalidade local com muito prestígio, que tem vindo a desenvolver um trabalho importante ao nível do Conselho Executivo e também de outras vertentes da sociedade”, entendo que o número de cartas de nomeação que conquistou significa que “pode contar com largos sectores da sociedade de Macau para grandes tarefas que se avizinham”.
Também em declarações à Rádio Macau, e ainda sobre o valor de Lionel Vai Tac Leong, o arquitecto Carlos Marreiros, que integra o colégio eleitoral, o novo delegado à APN tem trabalhado para a modernização da economia e do progresso da RAEM. “É um jovem formado no estrangeiro, domina mais de duas línguas, é um empresário dinâmico e, nos últimos anos, tem vindo a destacar-se pelo seu trabalho em prol da sociedade. Teve uma votação muito expressiva”, vincou.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A turbulenta história da Metis, Radiografia da comunidade guineense da RAEM

Polémica companhia aérea registada em Macau promete voar durante este ano

Turbulência em terra

Uma companhia aérea registada em Macau tentou por três vezes voar para Vancouver, mas sem sucesso. A agência de pesquisa de aviação Skytrax, conceituada a nível mundial, chamou-lhe “uma piada” e alguns entusiastas das viagens aéreas deixaram avisos no Airliner.net dizendo que a Metis é uma farsa. Desconhece-se, no entanto, a existência de queixas de clientes. Ao Conselho de Consumidores de Macau não chegou qualquer reclamação, o mesmo acontecendo no organismo homólogo de Hong Kong, segundo confirmou ao Tai Chung Pou Kelvin Ngan, do departamento de Reclamações e Avisos.
O director geral da Metis, Christopher Colbourne, considerou que os comentários depreciativos são “tentativas de homicídio” e continua a preparar o lançamento da companhia aérea para o corrente ano. No site da empresa, em www.metismacau.com, estão anunciados dois voos para 2008: o primeiro é já a 15 de Fevereiro, com partida de Macau e chegada a Vancouver; o voo de regresso realiza-se no dia 5 de Abril.
Embora a existência da Metis TransPacific tenha sido dada a conhecer pelo South China Morning Post, num artigo publicado a 14 de Fevereiro de 2007, os voos charter da Metis não eram desconhecidos para as agências de viagens. No Verão de 2006, alguns agentes do sector foram contactados pela empresa para venderem bilhetes para Vancouver e comunicaram o ocorrido às autoridades. O Departamento de Aviação Civil de Hong Kong emitiu um comunicado datado de 11 de Julho em que afirmou não ter conhecimento oficial da existência da Metis.
No artigo do South China Morning Post, a companhia aérea anunciou que, no Verão de 2007, iria pôr bilhetes à venda com preços a partir das 888 patacas, para viagens só de ida, uma tarifa que gerou um animado debate no Geoexpat.com, um fórum com grande impacto entre a comunidade expatriada da antiga colónia britânica. Uma discussão entre vários utilizadores e um membro que se identificava com o nome “Metis Macau” acabou com uma censura total a tudo o que se relacionasse com a “Metis”, que agora aparece só com asteriscos no site.
Tecnicamente falando, a Metis TransPacific ainda não é uma companhia aérea: embora a empresa esteja registada, ainda lhe falta a licença para voar. Assim sendo, a sua actividade desenvolvia-se como sendo uma espécie de agente de voos charter de uma outra operadora, com destino a Vancouver, com a venda dos bilhetes no seu website, onde a única informação disponível era um endereço de email e um número de telefone em Hong Kong, de onde ninguém atendia as chamadas.
No site era ainda possível ler descrições detalhadas do serviço a bordo, nas várias classes, bem como ver fotografias do interior do Boeing 747-400 detido anteriormente pela South African Airways, e de um 747-300 com um logótipo da Metis que resultou alegadamente de uma manipulação de imagem, segundo os utilizadores do Airliner.net, que reivindicaram que a fotografia do 747 tinha sido tirada por um dos seus membros. Posteriormente, foram introduzidas informações sobre esta aeronave na página da empresa, embora a Metis nunca tenha operado nenhum dos aviões. É que a empresa ainda nem sequer descolou.
Depois de dois voos falhados em Julho e Setembro, e tendo em conta a falta de credibilidade das informações no site, o nome da Metis começou a circular no meio dos entusiastas da aviação de forma depreciativa, com a maioria do membros do Airliner.net a não acreditar no funcionamento da operadora. Esta tese ganhou mais consistência quando a Skytrax - uma empresa reconhecida mundialmente que se dedica à avaliação da qualidade dos serviços de transporte aéreo – se pronunciou sobre o assunto.
Numa nota de imprensa emitida em Novembro, o presidente da Skytrax, Edward Plaisted, considerou que a companhia aérea “estava a obter, de forma incorrecta, grandes quantias de dinheiro” e deixou um aviso aos consumidores, no sentido de não comprarem viagens na Metis.
Não obstante o alerta deixado pela Skytrax, de acordo com a Metis, mais de 1500 lugares foram reservados para os voos entre 14 de Dezembro e 6 de Janeiro. No final do ano, a Metis assumia mais uma falha nos seus serviços: a 14 de Dezembro informou os seus clientes, através do site, de que não era possível voar mas que uma nova tentativa seria feita em 2008. As autoridades ligadas à aviação foram informalmente interpeladas sobre o assunto, mas o Conselho de Consumidores de Macau não recebeu qualquer queixa e, tanto quanto é do conhecimento público, ninguém foi encontrado no aeroporto à espera de embarcar.
Christopher Colbourne, director geral da companhia aérea, afirmou ao Tai Chung Pou, numa entrevista concedida por escrito, que não havia qualquer razão para reclamações. “Todos os nossos passageiros com bilhete foram colocados em três voos de outras operadoras entre 14 de Dezembro e 14 de Janeiro”, explicou. “Limitámo-nos a proteger o nome da Metis e a garantir que ninguém nos pode acusar de termos uma conduta incorrecta.”

A companhia área que “não prejudica ninguém”

Os fundadores da Metis tiveram a ideia de criar uma companhia aérea em 1999, mas os planos para avançar só surgiram em 2005. O pedido para a licença de operação foi feito em Maio de 2006, junto do Departamento de Aviação Civil de Hong Kong, mas não foi bem sucedido. A Metis virou-se então para Macau, com a equipa a acreditar na população do Delta do Rio das Pérolas como suporte do mercado. “Sabemos que a China é o mercado do planeta neste momento. E, mais precisamente, Macau é a verdadeira peça central do que está a acontecer”, explicou o director geral da companhia aérea, Christopher Colbourne.
O responsável justificou o primeiro voo falhado como o resultado da “falta de experiência” e da “confiança traída por uma organização/indivíduo”. A Metis entrou depois num período complicado, à procura do avião certo, tendo mais tarde arranjado um Boeing 757-200 da Primaris Airline, sedeada em Las Vegas. Segundo as autoridades, a segunda tentativa feita em Setembro recebeu a aprovação necessária com um mês de antecedência, mas a Metis decidiu suspender a ligação porque a aeronave não tinha capacidade para fazer um voo directo ente Vancouver e Macau e houve problemas com o canal de vendas.
A Metis foi posteriormente desafiada pela companhia área de baixo custo Zoom Airlines, do Canadá, e um pedido foi apresentado às autoridades para que a empresa fizesse voos entre 14 de Novembro e 14 de Dezembro, todas as segundas, quartas e sextas-feiras. No entanto, sem um certificado de operações aéreas válido, a Metis não conseguiu garantir a série de voos charter. Por seu turno, quando contactada pela entidade responsável pela matéria, a Zoom disse não ter planos para operar os voos em questão. Christopher Colbourne justifica o sucedido dizendo que a Zoom se remeteu ao silêncio durante o processo de negociação e que o problema teve origem na falta de aeronaves para garantir o serviço.
Depois do fracasso da terceira tentativa de descolagem, cerca de dez reservas foram diariamente negadas pela Metis. Christopher Colbourne garante que a empresa tem um sistema de reservas que funciona bem mas, uma vez que não recebeu a autorização das autoridades canadianas para transportar passageiros residentes no país, o responsável quis ter a certeza de que as reservas eram tratadas por pessoas, e não através de um meio informático, de modo a que as regras fossem todas cumpridas. O responsável explicou ainda que a informação desactualizada será retirada do site e que não o fez antes para que as pessoas que acusaram a Metis de ser uma farsa “não se congratulassem com elas próprias”.
O director geral acredita que existem “amigos da concorrência” que estão a tentar danificar a reputação da Metis em diversos meios da aviação. Quanto às afirmações da Skytrax, assinadas pelo seu presidente, Christopher Colbourne diz que se trata do resultado da “relação com outras companhias aéreas já estabelecidas e premiadas” e de uma “brincadeira de crianças”.
A brincadeira, segundo o responsável, já custou as accionistas da Metis mais de dois milhões de dólares norte-americanos. Colbourne não tinha experiência na área da aviação quando apostou na Metis, mas contava com o apoio de gestores que tinham trabalhado em operadoras em França, Malásia e Indonésia, incluindo um com 25 anos de serviço em companhias aéreas. A pequena empresa tem quatro trabalhadores em Macau e 18 no Canadá, mas vai crescer rapidamente, prometeu o director geral, sendo que se vai tornar numa verdadeira companhia aérea, ao pedir o certificado de operações aéreas às autoridades de Macau.
Garantindo que a Metis vai seguir todas as indicações e instruções das autoridades, a empresa tenta resolver também o problema das aeronaves, sendo o principal objectivo arranjar um par de aviões que sejam capazes de aguentar voos de longo curso. A contratação de pessoal de bordo só se vai colocar depois. Numa visita recente a Hong Kong, esteve reunido com pessoas ligadas à área do marketing, na esperança de reconstruir a confiança essencial para que a companhia sobreviva. “Vamos continuar, vamos continuar. Não prejudicámos ninguém até agora”, rematou.
Kahon Chan, em Hong Kong,
com Isabel Castro

Radiografia da comunidade guineense da RAEM

O calor do espírito lusófono

Félix Gomes Teixeira chegou a Macau acompanhado por um compatriota. O território era estranho para o cidadão natural de Guiné-Bissau, bem como as pessoas que aqui habitavam. O calendário marcava o ano de 1995 e o recém-licenciado em Química já vivia apartado da sua terra natal há cinco anos.
Mal pisou o solo da antiga cidade do nome de Deus, não tardou muito para Félix se começar a sentir em casa. O então jovem guineense acabou por descobrir que a distância que o separava do país do coração não era mais do que uma questão de quilómetros.
“Já cá estava uma família com quem mantinha relações na Guiné, mas nem eles nem eu tínhamos conhecimento disso. Um dia encontramo-nos num restaurante”, recorda o residente.
Para fazer a contagem do número de cidadãos da Guiné-Bissau que, naquela altura, estavam na região não é preciso ter boa memória. Félix usa os dedos das mãos. “Eram seis”, diz. Entretanto, o minúsculo grupo foi aumentando à custa dos estudantes que são mandados pelo Governo do país africano para estudar Direito na Universidade de Macau. Alguns acabam por se estabelecer na região, foram chegando mais famílias e, aos poucos e poucos, formou-se uma comunidade guineense.
O grupo começou a juntar-se, organizando encontros, festas e piqueniques. Como resultado, conheceram outras pessoas que, ao longo da vida, estabeleceram uma ligação afectiva com Guiné-Bissau. Estavam reunidos todos os ingredientes para partir para a próxima etapa.
A Associação dos Guineenses Naturais e Amigos da Guiné-Bissau foi formada no dia 28 de Novembro de 2006. “Quando cheguei aqui, havia algumas pessoas que nasceram no meu país e outras que lá viveram, mantendo laços muito próximos com a Guiné-Bissau. Então, quando decidimos criar a organização, fizemos esta distinção muito clara”, explica o presidente do grupo associativo.
Actualmente, a organização lusófona tem cerca de três dezenas de associados e desempenha um papel importante ao prestar apoio aos estudantes. Félix Gomes Teixeira tem vários trunfos na manga. Para concretizar o plano traçado existe já uma sede, concedida pelo Governo da RAEM em Abril do ano passado. O único problema é que está vazia, “falta-lhe mobiliário”, conta.
Deste modo, ter um espaço com condições para desenvolver trabalho é o objectivo número um da direcção da Associação. “A sede é muito importante. É a casa de todos nós”, frisa o presidente da organização, acrescentando que, quando a associação tiver “cabeça, tronco e membros”, estarão então reunidas todas as condições para avançar com projectos mais ambiciosos.
A par disso, o grupo associativo pretende servir como elemento de ligação entre os Governos de Macau e da Guiné-Bissau, bem como organizar e promover encontros com diversas comunidades, além das lusófonas. Segundo Félix Gomes Teixeira, “a preocupação fundamental da organização é fazer convergir mais pessoas oriundas de outras partes do mundo também radicadas no território, através de actividades culturais e desportivas”.
Algo que a associação guineense tem conseguido através da organização de torneios de futebol, jantares e mesmo com a participação na Festa da Lusofonia. Na edição do ano passado, os residentes guineenses marcaram presença em força, construindo uma cabana de palha, típica dos nativos das vários tribos guineenses, que lhes valeu o segundo prémio do evento.
São sete as comunidades lusófonas em Macau. Todas partilham semelhanças, mas também têm características que as distinguem. Nas palavras de Feliz Gomes Teixeira, a Guiné-Bissau prima pela herança cultural, que é bastante rica e diversificada. “Somos um país que tem cerca de 14 tribos. A nossa marca forte é o crioulo, uma língua comum que nos une. É muito bonito”, refere. O discurso foge para terras guineenses.
“No Carnaval, sente-se esta diversidade cultural quando unimos o nosso crioulo. Cada um representa a sua cultura específica. Sentimos muito orgulho em sermos como somos”, sustenta. De facto, as celebrações carnavalescas deste país africano são completamente originais, com características próprias, e têm evoluído bastante, tornando-se uma das suas maiores manifestações culturais.
Embora esteja localizado noutro ponto do globo, Macau é, pela sua tradição lusófona, um território onde não é difícil para a comunidade guineense manter uma ligação à terra-mãe. É um grupo que cresceu com as novas gerações, são pessoas que têm oportunidade de se juntar e debelar as dores causadas pelas saudades. Por isso, com o tempo, a RAEM deixa de ser considerada apenas um local onde se reside e trabalha. É uma segunda casa e um ponto de encontro entre compatriotas.
“Aqui conseguimos arranjar emprego e é esta a terra onde vivemos há muito tempo. Hoje, consideramos Macau como a nossa casa. A nossa relação com esta terra é de afectividade. É um território lusófono que nos ofereceu condições para cá estarmos. Isto é o espírito da lusofonia.”

“A Guiné tem muito para dar à China”

Macau é um porto estratégico para as relações comerciais entre a China e os países de expressão portuguesa. Disso, o presidente da Associação dos Guineenses Naturais e Amigos de Guiné-Bissau, Félix Gomes Teixeira, não tem dúvidas. Tanto que, se este terreno fértil “for bem aproveitado, a Guiné tem muito para dar” ao Império do Meio, defende o mesmo responsável.
São tantas as possibilidades de cooperação bilateral que não é difícil para Félix Gomes Teixeira traçar em poucos minutos um plano económico. O presidente da associação local explica que existe, neste momento, uma companhia chinesa de pesca artesanal a operar no país africano. “No entanto, podia pensar-se em investir na pesca industrial. Seria bem positivo e benéfico para ambas as partes”, salienta. Além da actividade piscatória, a madeira também é um recurso natural que pode fomentar uma boa cooperação entre os dois países, sustenta.
A presença da China na Guiné-Bissau é mais notória, segundo Félix Gomes Teixeira, nas áreas da saúde, desenvolvimento de técnicas agrícolas e construção de infra-estruturas. “Até aqui, as relações estão num bom caminho”, afirma, mas ainda há muito terreno por desbravar.
A Guiné-Bissau demorou tempo até conseguir alcançar a reconciliação entre os seus povos. Os períodos política e socialmente conturbados fustigaram o país durante vários anos, representando o principal travão do entusiasmo chinês. De acordo com o estudo de mercado disponibilizado na página de Internet do Instituto de Promoção do Comércio e Investimento de Macau (IPIM), a nação plantada na costa ocidental do continente africano integra-se no top três dos parceiros lusófonos que mais tardiamente iniciaram relações económicas com a China.
O desequilíbrio da balança comercial é crónico. Os dados do IPIM referem-se apenas até 2005. Embora desactualizados, estes valores não deixam de ser reveladores. Há três anos, o número de exportações e importações entre os dois países sofreu uma diminuição. A China acumulou 5790 mil dólares americanos em exportações para a Guiné Bissau, contra zero vendas de produtos guineenses ao gigante asiático.
O ano de 2004 foi mais feliz do ponto de vista comercial. O Império do Meio vendeu 6020 mil dólares em produtos made in China para o país africano, enquanto que a Guiné-Bissau facturou 30 mil dólares em exportações.
Na tabela dos maiores parceiros económicos do país africano, a China ainda não conseguiu conquistar um lugar. No capítulo do comércio externo, as principais exportações guineenses são em produtos agrícolas e piscatórios, nomeadamente caju, camarões e semente de palma. Já nas importações, alimentos, maquinarias e equipamentos de transporte, bem como produtos petrolíferos, compõem a lista de compras ao estrangeiro do país africano.
Em termos económicos, segundo o estudo de mercado do IPIM, a Guiné-Bissau está entre as nações menos desenvolvidas do globo, figura entre os 20 mais pobres países e depende fortemente da agricultura de subsistência e da pesca. A actividade industrial é pouco relevante e o sector do turismo é extremamente fraco. De acordo com a Organização Mundial do Turismo, em 2001, o país recebeu apenas 7800 visitantes.
Nos últimos anos, o Governo deu prioridade ao desenvolvimento da agricultura, indústria e infra-estruturas, da reforma do sistema económico e das empresas estatais, dando ainda incentivo ao investimento privado.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Hong Kong na recta final para eleições à APN, Alice Kok expõe no CIC

Radiografia do processo eleitoral
à Assembleia Popular Nacional

O que se passa aqui ao lado

Cinquenta candidatos à Assembleia Popular Nacional (APN) estão oficialmente qualificados para concorrer às eleições que decorrem já amanhã. Uma informação confirmada pelo órgão que preside ao colégio eleitoral, no qual o Chefe do Executivo de Hong Kong, Donald Tsang, é o dirigente máximo.
Em jeito de conclusão, o colégio eleitoral revelou ainda alguns detalhes sobre os candidatos com maior número de nomeações – é o caso da (ainda) funcionária pública Fanny Law que derrotou Wang Ru-deng, vice-director do Gabinete de Ligação do Governo Central a Hong Kong, arrecadando 58 cartas de nomeação, figurando, por isso, no topo da lista.
Wang, que quer um segundo mandato no gabinete, conseguiu mais votos do que quaisquer outros delegados nas últimas eleições para a Assembleia Popular Nacional. No anos 60 chegou a trabalhar em Hong Kong para Pequim, tornando-se repórter da Agência Xinhua.
Já o regresso de Fanny Law à política foi uma jogada no mínimo imprevista. Recorde-se que Fanny Law foi acusada de influenciar uma decisão tomada pelo Presidente do Instituto de Educação de Hong Kong quando exercia a função de secretária permanente para os serviços de educação. Na sequência desta acusação, demitiu-se da liderança da Comissão Independente Contra a Corrupção, em Junho passado. Na altura, afirmou que “se a demissão puser os cidadãos a repensar o ambiente político em Hong Kong, pode dizer-se que é a minha última contribuição enquanto funcionária pública”. Por isso, a sua candidatura à APN, além de surpreendente, foi uma jogada controversa, redefinindo o papel dos funcionários públicos.
Recorde-se que a lei estipulava que os funcionários públicos que cumulassem cargos no Governo ficariam impedidos de participar nestas eleições mas, um dia antes do início da apresentação das candidaturas à APN, a regra tornou-se mais flexível – desde que haja consentimento superior, todos podem participar. A pedra de toque é que Fanny Law ainda não chegou ao fim formal do contrato, continuando a ser uma funcionária pública, em gozo de férias. O deputado Cheung Man-Kwong alertou que a mudança da regra parecia ter sido feita a pensar em Fanny Law.
Esperava-se que 90 candidatos concorressem aos 36 assentos na Assembleia Popular Nacional, mas fontes não identificados sugerem que Pequim persuadiu aqueles com menores probabilidades de vencer a desistir da candidatura, para assegurar que os candidatos desejados têm melhores hipóteses. Ricky Tsang Chi-hung, filho do antigo delegado Tsang Hin-chi, é apontado como uma das “vítimas” desta alegada persuasão.
Além disso, correm rumores de que existe uma lista de 40 pessoas “apadrinhadas” por Pequim, que inclui 25 deputados que se querem candidatar a uma segundo mandato, juntamente com 11 caras novas e Fanny Law. Laura Cha Shih May-lung, anterior vice-presidente da comissão que regula na China os fundos financeiros e actual membro do Conselho Executivo de Hong Kong, foi alegadamente “apadrinhada” pela República Popular da China, juntamente com três deputados pró-Pequim, Leung Fu-wah, Choy So-yuk e Lau Kin-yee. O vice-presidente da Universidade de Hong Kong de Ciências e Tecnologia, Wong Yuk-shan, também deverá figurar nessa lista, mas o presidente da Universidade Batista, Ng Ching-fai, não vem mencionado. Os membros do Partido Democrata To Kun-sun, Mak Hoi-wah e o deputado pró-democrata Fung Kin-kee, também não foram incluídos nessa lista.
O porta-voz do comité eleitoral, Lee Cho-ja, alegou desconhecer tal situação. “Todas as eleições têm este tipo de listas à solta. Acho que comprovam a paixão do povo de Hong Kong em relação à eleição e é um fenómeno normal”, disse. E negou que alguém tivesse sido pressionado a não participar na corrida eleitoral.
A existência de tal lista de “candidatos apadrinhados” será difícil de provar, mas o actual delegado da APN, Ng Hong-man, comentou num artigo publicado na semana passada no jornal Ming Pao que “dez dos candidatos não têm quaisquer hipóteses de vitória”. Quanto aos restantes, afirmou que estão “bem preparados e são apoiados por alguns partidos”, não deixando de alertar que alguns actuais delegados talvez venham a sair da Assembleia Popular Nacional dado o desempenho indesejável. E afirmou que 20 dos candidatos a um segundo mandato, além dos dez nomes novos, são vencedores à partida, mas os remanescentes seis assentos serão um verdadeiro concurso. Como todos os 36 delegados precisam de mais de metade dos votos dos 1200 eleitores, deverá ocorrer uma segunda ronda de eleições para estes seis assentos.
O analista político Ivan Choy da Universidade Chinesa está particularmente interessado nos candidatos mais novos com um determinado passado profissional, já que pode indiciar a vontade de Pequim em introduzir pessoas competentes na Assembleia Popular Nacional para uma melhor consulta nessas respectivas áreas. O papel dos delegados da APN pode ser alterado no futuro, previu o comentador.
Kahon Chan, em Hong Kong,
com Luciana Leitão

Centro de Indústrias Criativas acolhe exposição
de Alice Kok

Quando a arte supera a política

Diz que está longe de ser um trabalho motivado pelas circunstâncias políticas, até porque, quando fez as malas e partiu, não tinha informação suficiente para formar uma opinião sobre a questão. A viagem à Índia e ao Tibete aconteceu por causa da carga espiritual que os espaços representam. Chegada aos destinos, sentiu o peso dos conflitos históricos e políticos, mas a experiência foi vivida numa perspectiva humanista. E aí chega a arte, a sua forma de expressão. É nesse ponto que a política perde importância.
Está desde ontem patente ao público, no Centro de Indústrias Criativas, a instalação “Familiy Script”, de Alice Kok, artista de Macau que utiliza vários meios audiovisuais no trabalho que faz. Resulta de uma viagem de nove meses à Índia e ao Tibete, em 2006 e 2007. O projecto tem por base, explica, uma ideia muito simples: a reunião das famílias, interdita aos tibetanos no exílio. “O trabalho foi desenvolvido através da captação de imagens e mensagens de refugiados na Índia, e depois levadas para as famílias que estão a viver no Tibete”, explica.
Antes desta aventura de quase um ano, Alice Kok tinha feito um trabalho chamado "Karabic OK": um vídeo-clip de karaoke com a Marselhesa, traduzida em árabe, e que foi filmado em Macau. “Abordo muito a questão do multiculturalismo no meu trabalho e estava à procura de um novo tema sobre o qual me pudesse debruçar”, conta. “A Índia sempre me atraiu por causa do seu lado espiritual, uma vez que me interesso muito pelo Budismo. A partir daí, o Tibete passou a ser um destino natural.”
Embora existissem “preocupações políticas” na hora da partida, o lado político da questão – que acaba, naturalmente, por se reflectir no resultado final do projecto – não era, “de modo algum, a razão pela qual fiz este projecto”. Desde logo, por ser a primeira vez que viajava para estes pontos da Ásia e por não ter “uma posição política clara sobre a questão”.
“Quis apenas perceber o que se passa, sendo que parti com a ideia de que iria agir de acordo com os sentimentos que fossem despertados pela experiência. E foi exactamente isso que aconteceu”, refere Kok. “À medida que o tempo foi passando, percebi que o contexto político é só um pretexto, a condição humana é aquilo que realmente me interessa. A expressão artística é o meio de comunicação que emprego”, conclui.
Bem diferente de um trabalho de estúdio, em que se fecha a porta e se espera pela inspiração, “Familiy Script” tem, no entanto, uma componente de ateliê, depois de meses de um périplo atribulado, que mostrou um mundo desconhecido aos olhos de Alice. “Depois da viagem trouxe tudo o que recolhi para o estúdio, transformei a experiência em imagens e palavras, articulei-as de modo a conseguir uma peça coerente.” Pelo meio ficaram afectos, sorrisos, olhares, histórias de vida contadas, outras que nunca se saberão. Neste tipo de trabalho, a distância entre o objecto artístico e o seu agente não chega a existir. “Tive que lidar com a situação e a intuição não permite a distância.” Não acontece, simplesmente.
O resultado desta troca de correspondência de famílias separadas resultou numa série de 12 fotografias, acompanhada por uma instalação de vídeo composta por três ecrãs, colocados dentro de uma estrutura. A autora explica a razão da escolha do nome para o projecto: “Em chinês chamei-lhe ‘o álbum de família’, ou carta de família. Em inglês é ‘Family Script’, jogando com um duplo significado da palavra ‘guião’ - enquanto escrita mas também enquanto cenário de um filme”. É, portanto, “uma carta audiovisual”. A estrutura que suporta os ecrãs “está emoldurada pelo post-scriptum traduzido do vídeo que fiz na Índia e no Tibete.”
Nascida no território em 1978, Alice Kok passou pelo Instituto Politécnico de Macau, mas cedo rumou a França, onde prosseguiu os estudos na área das Artes Visuais e Comunicação. Nove anos depois, em 2007, voltou a casa. Embora tenha exposto com regularidade durante o período a residir em Paris, ‘Family Script’ é o primeiro trabalho de Kok desde o regresso. “Espero poder oferecer, através deste trabalho, a minha sinceridade enquanto artista de Macau”, diz.
Quanto ao enquadramento desta instalação na sua vida artística, diz que “o projecto é, sem dúvida, um grande passo na minha carreira de artista, se é que já tenho já uma carreira”. “Na realidade, isto é uma pesquisa em que tento desenvolver as minhas aspirações. Pelo caminho, emprego aptidões – tanto materiais como conceptuais – que é suposto serem melhoradas, até ser capaz de criar obras que comuniquem de forma efectiva e bela”, remata. Por enquanto, as ideias seguintes não saem da gaveta. “O próximo projecto? Não! Ainda estou a passar por este.”
Isabel Castro

Arte em desenvolvimento em zona industrial de Hong Kong

O mundo de cores que o cimento esconde

Cinzenta e monótona, Fo Tan é uma zona industrial de Hong Kong de grandes dimensões, abandonada pelos empresários desde a década de 1990. No entanto, há meia dúzia de anos, alguns dos frios espaços de cimento foram transformados por uma pequena comunidade artística que, uma vez por ano, abre as portas à população e mostra o trabalho que desenvolve quotidianamente.
À iniciativa anual, que decorre sempre em Janeiro, os organizadores chamaram “Fotanians”. Este ano, foi possível ficar a conhecer as peças de 34 criativos. Deste grupo, 26 jogam em casa: os seus ateliês estão espalhados pelos vários andares do Wah Luen Industrial Centre, um enorme complexo industrial que faz fronteira com uma das zonas verdes de Hong Kong.
Encontrar os estúdios dos artistas num edifício pensado para fins industriais pode ser, no mínimo, uma aventura: o único elevador é de uma lentidão impressionante, os corredores e as escadas estão na penumbra, e pode sempre tropeçar-se em bens colocados à porta das salas. Nalguns andares, cheira a churrasco, o que pode constituir um motivo de distracção, principalmente para aqueles que ainda não tiverem almoçado.
Depois de se passarem as portas dos estúdios, surge um mundo completamente diferente. Encontram-se galerias de estilo requintado decoradas com telas e trabalhos de fotografia que podem ser adquirido por alguns (bastantes) milhares de dólares de Hong Kong.
Num outro estúdio, o espaço está totalmente ocupado por uma instalação do artista chinês Lu Wei, com uma conotação política evidente: os visitantes puderam ver um ateliê praticamente vazio com várias placas de metal com as formas da China, Rússia e Estados Unidos, presas a um congelador. De repente, a temperatura subiu, o suporte descongelou e dezenas de pequenas placas caíram em segundos, como se fossem chuva. Para aqueles que preferem mensagens artísticas ainda mais directas, um dos criativos concebeu uma peça composta por uma desproporcional Casa Branca colocada em cima de um globo de madeira, sendo que o símbolo norte-americano encontra apoio numa tradicional estátua de bronze de Mao Zedong.
Michael Lee, um artista de Singapura que esteve em Macau há alguns meses para um conjunto de palestras, é um dos “habitantes” do Wah Luen. Decidiu comprar um apartamento no 18º andar do complexo e tornou-se vizinho de uns abastecedores de comida chinesa para churrasco. “Studio Bibliothèque”, o nome com o qual baptizou o seu ateliê de Hong Kong, abriu as portas pela primeira vez com uma exposição multimédia chamada “Eni mini Mini Mos”.
A mostra teve uma vertente internacional, uma vez que decidiu juntar às suas peças trabalhos oriundos do Reino Unido e da Alemanha. De dezenas de pequenos objectos talhados à mão a animações em que um iPod é o protagonista, passando por um livro de 265 página feito de um folha de tamanho A4, era possível encontrar uma variedade enorme de produtos, todos eles extremamente compactos. Vista a exposição, impunha-se uma mudança de espaço: a interacção com o público não era, de modo algum, o objectivo do artista.
Os criativos com pouca ou nenhuma projecção internacional são, na realidade, aqueles que se encontram em maior número no complexo de Wah Luen, e era nos seus estúdios que o ambiente era mais descontraído. Enquanto alguns artistas preparam os ateliês para acolher uma exposição, outros espaços estavam simplesmente como nos outros dias do ano: uns quadros pendurados, outros no chão, e os objectos do quotidiano criativo a ocupar um canto da sala. Ainda assim, os visitantes que esperavam poder ver os criativos em plena actividade ficaram desapontados – ninguém estava a pintar ou a esculpir nos dias de abertura ao público – mas as mezzanines de muitos ateliês, onde os artistas descansam, dão um ar de intimidade ao local.
Kay Lee visitou os 26 estúdios em três horas e estava espantada com a quantidade de espaços diferentes, mas não foi capaz de precisar qual foi o que a impressionou mais. “Esqueci-me do nome... São tantos que é difícil memorizar os nomes, mas as obras que vi não vou esquecer.”
Kelvin Cheung, de 24 anos, empregado de hotelaria, está longe de ser um visitante assíduo de galerias de arte. “Acho que se os espaços tivessem música as pessoas se sentiam mais à vontade”, deixou, em jeito de sugestão. A razão que o levou à “Fotanians” foi tentar perceber porque é que o espaço se tornou tão atraente para os artistas, mas ainda não tinha chegado a uma conclusão que o satisfizesse.
Só vai a Fo Tan quem realmente tem uma razão concreta para o fazer. Quem parte da estação de metro de Central demora 45 minutos a fazer a viagem até à estação mais próxima. Depois, para lá chegar, são necessários mais 15 minutos a pé, sendo que a caminhada não é propriamente um passeio emoldurado por uma paisagem estonteante. Não obstante a presença dos artistas, a verdade é que Fo Tan continua a ser um sítio gigantesco, cinzento e pouco acolhedor.
Qual a razão, então, desta deslocação de criativos para um local com estas características? Os dias de abertura ao público permitem, talvez, encontrar a resposta. Quando se entra no prédio e se olha pelas janelas de grandes dimensões, a única cor que se vê é o verde das árvores. Os estúdios são suficientemente espaçosos e com um pé-direito alto, o que permite construir uma pequena mezzanine que pode ser transformada num espaço de habitação. A distância entre o chão e o tecto possibilita aos criativos avançarem para instalações ou esculturas de maiores dimensões. A razão principal é, no entanto, de ordem financeira: com o encerramento das fábricas e a deslocação das indústrias, as rendas diminuíram consideravelmente.
Para quem parte do centro de Hong Kong, a localização dos “Fotanians” é pouco conveniente, mas para os seus ocupantes não podia ser melhor. A Universidade Chinesa, que tem o curso de Belas Artes, está apenas a uma estação de metro – os primeiros ocupantes de Fo Tan são licenciados por esta instituição académica, onde estudou, aliás, a maioria dos artistas residentes.

As aldeias dentro da grande cidade

Há quem chame a Fo Tan a “aldeia dos artistas” e a comparação com a Greenwich Village, em Nova Iorque, foi já feita por diversas vezes. As duas cidades são colocadas lado a lado numa reportagem da edição deste mês da Time, em que se destaca o contributo dado por Hong Kong para a economia mundial, através dos sectores financeiro e comercial. A revista entende que a cidade asiática tem semelhanças, em termos de contextualização, com Nova Iorque – à excepção da cultura, claro está.
A ideia de criar uma “aldeia artística” na antiga colónia britânica ganhou consistência quando o Governo decidiu alugar, por um preço simbólico, um armazém da ilha de Hong Kong a um grupo de artistas. No entanto, os contratos de arrendamento acabaram por ser suspensos em 2003, pela simples razão de que o armazém se encontrava ao pé da água e surgiram planos para a comercialização do lote, durante o período económico nada animador do surto de pneumonia atípica.
Os artistas dispersaram-se para vários pontos da cidade, incluindo Fo Tan e outras zonas industriais de Hong Kong. No entanto, em 2005, o terreno acabou por voltar para as mãos do Governo. Por ironia do destino, é bem provável que o lote volte a ser ocupado por gente das artes. É que, de acordo com o plano geral de infra-estruturas para a área cultural de Kowloon, esta parcela poderá acolher o Museu de Arte Moderna, que terá que mudar de casa por causa da construção do bairro cultural da ilha.

Kahon Chan, em Hong Kong,
com Isabel Castro