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quinta-feira, 13 de março de 2008

Académica analisa ensino do português e do chinês na RAEM, O legado da Dinastia Qing

Académica analisa ensino do português e do chinês na RAEM

O que ainda está por fazer

Macau é um dos centros estratégicos do ensino da língua portuguesa na Ásia. Contudo, há ainda muito por fazer, começando nos materiais didácticos e acabando na investigação académica. O mesmo acontece no ensino do cantonês e do mandarim para a comunidade lusófona. Quem o defende é Márcia Schmaltz, docente e académica recentemente chegada ao território.
“Embora não se fale tanto português em Macau como se imagina, a região tem um papel primordial e estratégico no contexto do ensino da língua. Há aqui uma vocação tanto ao nível académico, como na tradução e interpretação. Além disso, existem dois estabelecimentos universitários que se dedicam a esta área, logo há margem para um desenvolvimento ainda maior”, sustentou a académica.
Com uma experiência de cerca de sete anos no campo do ensino e tradução do português e do mandarim, a especialista brasileira é um dos mais recentes reforços do departamento de português da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Macau (UM). A viver na RAEM apenas há dois meses, Márcia Schmaltz lecciona a língua de Camões aos alunos da licenciatura de Direito. Num curto espaço de tempo, a académica bilingue detectou algumas lacunas no trabalho de quem estabelece diariamente a ponte entre duas culturas.
“Percebi que há uma carência de materiais didácticos de ensino de chinês para falantes de português”, notou. Nas palavras da docente, actualmente para uma pessoa aprender a falar cantonês e mandarim é “obrigado” a utilizar material escrito na língua inglesa. “Os manuais em português existentes são pobres relativamente aos em inglês”, acrescentou.
A mesma situação se observa ao nível dos materiais para os chineses que querem aprender a dominar a língua de Camões. A quantidade não é um problema, explicou Márcia Schmaltz. A questão prende-se com a qualidade. “Alguns têm falta de criatividade. Isto é, tanto ao nível da beleza visual como na aplicação da investigação propriamente dita.”
Qual a solução? Mais investigação e reforço dos contactos entre profissionais da mesma área, por um lado, e, por outro, a criação de centros virados para o ensino da língua como instrumento, no seio dos estabelecimentos universitários do território. São estes os dois caminhos propostos pela académica brasileira.
“Deve haver mais conferências na área da interpretação e tradução. Aqui encontramos vários académicos bilingues, mas temos que ter espaço para aplicar e desenvolver investigação no âmbito das línguas chinesa e portuguesa. Há bastante área para desenvolver e trabalho a ser feito”, reiterou.
Um exemplo a seguir pode ser o trabalho de outro organismo da UM, apontou a docente. “Temos que nos espelhar no departamento de inglês, que mantém bastante interface com a população chinesa e tem realizado bastantes estudos. Tanto na área da tradução, como interpretação e ensino”, defendeu.
Já no sector da instrução universitária, Márcia Schmaltz é apologista de uma maior abertura ao público das instituições de ensino superior, ressalvando ter ainda uma perspectiva superficial da realidade da RAEM. “As universidades devem ser um centro de ensino de chinês para lusófonos”, sublinhou.
Na visão da académica, Macau reúne todas as condições para a concretização desta ideia. “Nós temos pessoas chinesas que falam a língua portuguesa! É um sonho: ensinar chinês em português”, exclamou.
À semelhança dos estabelecimentos de ensino universitários no Brasil e noutros países ocidentais, a UM deve repensar o seu papel. É uma necessidade dos novos tempos, diz. A parte académica que se processa ao nível da investigação necessita sempre de ser conservada mas, em simultâneo, é preciso criar estruturas voltadas para dar resposta às necessidades do público em geral.
E como se pode aplicar a teoria à prática? Desenvolvendo cursos adaptados ao ritmo de vida das pessoas e com métodos de ensino da língua como ferramenta. Didácticas diferentes para exigências distintas.
“Assim, podemos dar aulas ao público que precisa da língua apenas como instrumento. Para fazer negócios ou comunicar na rua não há necessidade de saber definir sujeito e predicado, ou escrever e ler”, exemplificou. Desta forma, continuou, talvez se torne mais fácil encorajar os residentes portugueses a aprender cantonês e mandarim, e vice-versa.
Márcia Schmaltz mudou-se de armas e bagagens para Macau atraída pelo carácter híbrido do território. No futuro, a académica quer trabalhar mais ao nível das traduções na região. Uma área que tem ainda muito terreno por explorar.
A RAEM afigura-se então, para a académica brasileira, como uma base perfeita. Macau está no centro dos projectos da brasileira, no entanto, ainda não há nada definido. Falta-lhe tempo para “ganhar pé”.
“Este é um local onde encontro pessoas chinesas que falam português e vice-versa. Pretendo ainda realizar aqui um curso de doutoramento. Quero fazer a ponte entre as duas culturas, a ligação entre as duas línguas.”

Entre dois mundos

“Quando tinha cerca de cinco anos, a minha mãe chegou de uma viagem e disse que se ia casar com um chinês. Foram morar para a China, mais concretamente para Taiwan. No ano seguinte, voltou para me ir buscar.” Foi assim a primeira aventura por terras asiáticas de Márcia Schmaltz, docente e académica da Universidade de Macau.
Na Ilha Formosa, viveu seis anos e frequentou a escola chinesa. Quando regressou ao Brasil, na sequência do divórcio da mãe, foi um choque. “Acreditava piamente que era chinesa e a adaptação foi difícil”, recorda.
Na infância, quando acompanhou a mãe, mal sabia que esta viagem iria definir o seu futuro. Márcia Schmaltz nasceu em Portalegre, no Brasil, e é do signo do Rato. “Já completei três ciclos”, diz entre risos para introduzir a sua idade, 35 anos.
Durante a segunda fase da sua vida, no Brasil, nunca perdeu contacto com a antiga família chinesa. “Recebia constantemente livros e correspondência”, conta. Aproximava-se a entrada na faculdade e era necessário dar um rumo à vida profissional. Márcia Schmaltz sonhava com o jornalismo, mas o esforço não chegou “para tanto”.
“Na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul é que fui encontrar o meu caminho no estudo da língua. Mais tarde, fiz especialização em chinês e português e fiz o curso de mestrado nos estudos de aquisição da linguagem”, resume.
A passagem do meio académico para o profissional foi mais fácil do que previa. Estávamos no final da década de 1990, altura em que as relações comerciais entre o Brasil e a China começaram a intensificar-se. “Havia uma falta de intérpretes e foi aí que me estreei”, sublinha.
As primeiras experiências de trabalho foram “apavorantes”. “Comecei logo a receber governadores das províncias chinesas. Em seguida, acompanhei o governador do meu estado, Rio Grande do Sul, à China. Não foi nada como agora, que os novatos começam com trabalhos mais simples, como tradução de cartas e acompanhamento de delegações comerciais”, destaca.
Do ano 2000 em diante, Márcia Schmaltz viveu em deslocações constantes entre a China e o Brasil. “Andava sempre de um lado para o outro com o Presidente da República brasileiro e os responsáveis dos ministérios”, nota.
Em 2003, ganhou uma bolsa do Governo Central para fazer um curso de especialização em Pequim para professora de mandarim como língua estrangeira. Três anos depois, voltou à capital chinesa para trabalhar na Universidade de Pequim, onde deu aulas de português durante dois anos e coordenou o Núcleo de Cultura Brasileira do estabelecimento de ensino universitário. Na mesma altura, realizou mais uma especialização de tradução em inglês e mandarim.
Agora é uma das novas contratações do departamento de português da Universidade de Macau. Decidiu candidatar-se quando soube que havia vagas e pretende desenvolver projectos no território, principalmente ao nível da tradução de obras. A principal função de Márcia Schmaltz na RAEM é ensinar português aos alunos da licenciatura de Direito da instituição.
Márcia Schmaltz quer contribuir para o papel de Macau enquanto plataforma entre a China e os países lusófonos. Os dois mundos pelos quais se divide a académica. “No final de contas, sou brasileira, não tenho como fugir disso. Mas sou bastante influenciada pela cultura chinesa.”

Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Exposição no Museu de Arte de Macau patente até domingo

O legado da Dinastia Qing

Foi o último regime feudal. Vigorou durante 268 anos, de 1644 a 1912. A dinastia Qing foi a última a anteceder a era moderna. São 120 pinturas, caligrafias, livros, porcelanas e bordados que visam transportar o visitante para uma era não tão remota assim, com grande impacto na História da China. Em exposição no Museu de Arte de Macau até ao próximo domingo.
A mostra está dividida em cinco secções. Divisões que coincidem com períodos importantes da História da dinastia Qing. E para cada uma das secções, estão em exposição diversos artefactos referentes a episódios marcantes ou a meros momentos de lazer. Ao entrar no espaço que acolhe a exposição, o visitante depara-se imediatamente com uma pequena resenha histórica.
Na primeira secção, denominada “O regime Qing e a expedição sul através do estreito”, podem ver-se algumas peças, como um arco revestido com casca de vidoeiro, usado por Hung Taji, o fundador da dinastia Qing. Durante o precedente regime Ming, os Jurchens estavam divididos em três tribos. Um chefe Jurchen, chamado Nurhaci, desencadeou uma guerra de unificação em 1583, tendo acabado por morrer na guerra que se sucedeu entre os regimes Jin – do qual era fundador - e Ming. O filho Hung Taiji subiu então ao trono. Em 1636 proclamou-se imperador, fundando o regime Qing.
O que sucedeu depois foi a lenta eliminação dos redutos da dinastia Ming, tendo Hung Taiji através de uma viagem pelo sul, atravessando o Estreito de Shanhai, entrando em Pequim em 1644. Outros artefactos também usados por Hung Taji nesta conquista estão em exposição, como a sela prateada com motivos de dragão ou o capacete imperial. Entre sabres com punho de ferro e adagas com punho de osso, podem ver-se ainda o retrato da imperatriz Xiaoshang e manuscritos intitulados “Estratégias para a repressão da rebelião de Dzungar”. Sinetes ou imagens de tiro ao arco são também algumas das peças expostas.
Saindo desse período, entra-se noutra época muito importante e que é o mote da segunda secção da exposição, intitulada “Génese da época áurea de Kang-Qian”. Uma secção marcada por inúmeros retratos – do imperador Shunzhi, do 5º Dalai Lama ou mesmo da figura mitológica de Zhong Kui. Até porque foi uma época de grande prosperidade social, económica e cultural, a dos 130 anos dos reinados de Kangxi, Yongzheng e Qianlong. Foi também nessa altura que o país consolidou o território, unificando os vários grupos étnicos. O imperador Kangxi – o regente desta época - foi o grande responsável pela consolidação da soberania Qing. Foi também nesta altura que começaram a ser comuns as práticas de corrupção e a ditadura, responsáveis pela queda da dinastia.
Continuando a percorrer os corredores do museu, o visitante depara-se então com a terceira secção intitulada “A China antes e depois da Guerra do Ópio”. Ilustrações referentes a momentos de lazer como “Doze Beldades no Pavilhão Vermelho” ou um biombo de sândalo vermelho com embutidos de marfim, além dos tradicionais sinetes dos imperadores são apenas alguns dos objectos em exposição. Ou mesmo imagens do imperador Daoguang em momentos de lazer. São artefactos referentes a dois momentos decisivos da História da China: as Guerras do Ópio (1840-1842, 1856-1860). Antes da primeira guerra, durante o reinado de Jiaqing, começou o declínio da dinastia Qing. Numa época em que cresciam os problemas internos e externos, viria a subir ao trono Daoguang. E nem mesmo ele conseguiu reagir às convulsões sociais que se vislumbravam. Ansiosos por entrar no mercado chinês, os britânicos começaram a traficar ópio na China. Desencadearam-se uma série de batalhas, na sequência do confisco de ópio aos britânicos ordenado pelo imperador.
Seguiu-se então uma outra fase, a do golpe de Qixiang e ressurgimento de Tonghzi. Entre retratos do imperador Xiaozhan, estão também expostos sinetes da era imperial. Peças de uma época de transição – os reinados Xianfeng e Tonghzi. Xianfeng, antes de morrer, declarou o príncipe Zaichun o sucessor e estabeleceu oito ministérios para ajudar o príncipe na administração. Algo que não foi bem visto na altura pela imperatriz regente Cizi. Juntando-se à também imperatriz regente Ci’an encenou um golpe de Estado e as duas governaram nos bastidores. Alterou-se então o nome do reinado de Qixiang – nome dado pelo imperador – para Tonghzi. Governado por estas duas mulheres – apesar de formalmente o imperador ser Yixin, o príncipe -, a China caminhou rumo à ciência e à abertura aos conhecimentos ocidentais.
O período que assinalou o fim da era Qing deu-se com a chamada Reforma dos Cem Dias e a reforma política dos finais da dinastia Qing. E está também assinalado na exposição. Além de retratos de Zeng Guofan e do imperador Guangxu, vêem-se também vários sinetes imperiais. Artefactos que remontam à era final. Derrotado pelo Japão na primeira Guerra Sino-Japonesa em 1895, o Governo Qing foi forçado a aceitar o Tratado de Shimonoseki. Três anos depois, o imperador Guangxu iniciou a chamada Reforma dos Cem Dias que, em traços gerais, propunha a instauração de uma monarquia constitucional. Um movimento que foi contrariado pelos conservadores através de um golpe. O imperador Guangxu foi detido em Pequim, tendo os conservadores recuperado o poder. Uma série de reformas políticas, económicas, militares e culturais acabam por ter lugar apenas em 1901, depois da Batalha da Aliança das Oito Nações. Um período que resultou na modernização da China, mas também na queda da dinastia Qing.
Pela sala do Museu de Macau estarão assim, até domingo, expostos os resquícios do Museu do Palácio referentes a uma era que lançou a China rumo à modernização. Um período que abrangeu perto de 300 anos e que ficará para sempre gravado na História.
Luciana Leitão

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Impacto do Acordo Ortográfico em Macau, Exposição de Gao Jianfu no Museu de Macau

Vários especialistas avaliam impacto do Acordo Ortográfico em Macau

Uma gota no oceano

Já se tornou o prato de cada dia do mundo lusófono. Enquanto se aguarda que Portugal decida ratificar o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, é rara a semana em que não aparece nos jornais mais uma tomada de posição de alguma personalidade que faz do português instrumento de trabalho. Por terras lusitanas e no continente africano, as opiniões dividem-se. Em Macau, a ideia de suprimir as duas normas da língua escrita para apenas uma também alimenta algumas discussões.
A iniciativa não é encarada na generalidade com muito entusiasmo. Há quem se manifeste totalmente de acordo e há quem se mostre céptico e não veja qual seja a utilidade de “legislar sobre a língua”. No final de contas, a maioria dos especialistas contactados pelo Tai Chung Pou apenas observa, sem se envolver, a discussão sobre o acordo.
A RAEM é um território pequeno, onde o português não é o idioma de rua; contudo, aqui concentram-se todos os aspectos que estão no centro da controvérsia que se gerou à volta da uniformização da ortografia. Além de ter a língua de Camões como uma das línguas oficiais e ser um dos centros de ensino da língua na Ásia, Macau é elogiada como plataforma das relações entre a China e os países lusófonos. Diplomacia, comércio e cultura são os três sectores em que o acordo fará diferença, segundo os defensores do projecto que se arrasta há 14 anos.
Uma perspectiva distinta tem o director da delegação em Macau da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), Miguel Crespo. “No mundo dos negócios, a língua portuguesa ainda consegue ser franca, porque partilha a mesma matriz. Dos Açores ao Brasil, passando por Timor, são precisas apenas algumas palavras rudimentares para avançar com um negócio”, afirmou o mesmo responsável.
“O Acordo Ortográfico, no contexto das relações entre Macau, China e os países de língua portuguesa, é uma pequenina gota no oceano das trocas linguísticas”, sustentou por sua vez, a presidente do Instituto Português do Oriente, Maria Helena Rodrigues.
Nas conversações entre os futuros parceiros até ao definitivo aperto de mão pode não existir qualquer dificuldade de comunicação, mas quando se chega à parte jurídica a situação complica-se. Tanto ao nível do comércio como das organizações inter-governamentais, a redacção dos documentos tem que ser feita em paralelo, nas normas de Portugal e do Brasil. “Não há necessidade e não faz sentido”, defendeu o director do Departamento de Português da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Alan Baxter.
Para os profissionais locais que todos os dias fazem de ponte entre os falantes de língua chinesa e portuguesa, as novas regras vêm facilitar o trabalho diário. Mas só em parte. A opinião é de Leo Stepanov, tradutor e intérprete que domina o português, cantonês e mandarim, entre outros idiomas.
“No campo das comunicações com o cliente será difícil implementar as normas do acordo, porque o cliente tem sempre razão e, quando não tem, passa a tê-la”, sublinhou. “No entanto, ao nível dos trabalhos da Assembleia Legislativa, da Administração e das empresas privadas é necessário fazer um certo esforço de uniformização da ortografia, porque há maneiras diferentes de escrever os títulos, por exemplo. Cada um utiliza a sua maneira”, acrescentou.
Contudo, no âmbito dos serviços governamentais, a introdução do acordo provoca algumas “confusões”. “Macau funciona com base nas amostras feitas anteriormente. Tudo segue uma lógica de ‘copy paste’. O pessoal não se preocupa com as regras modernas e toda a documentação administrativa tem uma tradição histórica. Será difícil convencer as pessoas de que a maneira antiga já não se aplica”, explicou o especialista.
Problemas que, para Alan Baxter, são resolvidos com recurso aos computadores. “Estamos na era da informática. Não é difícil instalar dicionários nos aparelhos. Fora do âmbito profissional, as pessoas escrevem como quiserem”, sustentou.
Apesar das diferentes correntes de opinião, académicos, tradutores, intérpretes e homens de negócios locais apontam que o acordo não terá um grande impacto no quotidiano do território. A opinião é geral – são normas que não podem ser introduzidas de um momento para o outro, mas sim paulatinamente.
Ao nível do ensino, Alan Baxter e Maria Helena Rodrigues concordam que as novas regras só podem ser apresentadas aos aprendizes de português dos níveis mais avançados. Já no capítulo das vantagens e desvantagens, as posições dividem-se.
Para o académico australiano, o acordo traz benefícios de várias ordens. Em primeiro lugar, o livre comércio e circulação de publicações vai começar a processar-se dos dois lados do Atlântico, aumentando consideravelmente as opções de manuais didácticos e beneficiando a alfabetização. Em segundo, a uniformização do idioma é uma necessidade dos novos tempos. “As línguas mudam e os padrões precisam de atenções e ajustes, um bom exemplo é o espanhol que tem sido orientado por reformas seculares”, exemplificou.
O mesmo não pensa Maria Helena Rodrigues. “Incomoda-me quando os homens legislam sobre algo que tem uma evolução natural”, criticou. Para a presidente do IPOR, mais do que razões sócio-linguísticas, por detrás do acordo há toda uma fundamentação política, económica e social. A uniformização tem a intenção, segundo a responsável, de fazer surgir “um bloco de um português.”
“Se é para ter uma lusofonia, o conceito deve ser mais abrangente e temos de estar em paridade. Unidade não significa que temos que andar todos ao mesmo passo. Não é necessário que nos tornemos homogéneos. Até porque o que enriquece a língua portuguesa são as diversas literaturas e formas de utilização.”
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Exposição de Gao Jianfu no Museu de Macau

Olhar para a natureza

Desenhar com linhas direitas os traços da natureza. Animais, plantas, montanhas, rios, ou mesmo um mestre budista, é o que se pode ver no Museu de Macau na exposição de Gao Jianfu, fundador da escola de pintura Lingnan. Com carvão e tinta, utilizando o papel, este homem revolucionário, com íntimas ligações a Macau, procurou sempre mostrar o seu olhar para a natureza.
São 200 registos desenhados com carvão ou tinta em papel que retratam peixes, borboletas e pássaros. E tudo o mais que foi vendo pelos países por onde passou. Entrando no espaço que acolhe a exposição, o visitante depara-se logo com uma das fases mais emblemáticas da carreira de Gao Jianfu – o período que medeia 1939 e 1951, uma das alturas em que esteve em Macau, refugiado da guerra sino-japonesa. Peixes, imagens alusivas às ruínas de São Paulo e templos são apenas alguns dos seus registos de um território que descrevia como a “cidade-jardim da Península de Macau”. Aliás, como ele próprio dizia: “Apesar de limitada e sem floresta, três dos seus lados estão rodeados de água, fazendo sobressair pequenas montanhas à distância. As margens são povoadas por famílias que plantam flores e bambus em todos os recantos possíveis. No despontar de cada dia, uma brisa matinal deixa para trás uma lua imóvel, escuta o desenrolar das ondas e observa as velas que desaparecem; no crepúsculo, o sol desce vagarosamente por detrás de uma montanha, à espera do regresso dos barcos de pesca banhados em melodias.” Uma Macau que o inspirou e que o levou a registar também a altura em que levava os alunos a praticar desenho na Colina da Guia, na Praia Grande ou em Hac-Sá. Ao ar livre, onde Gao Jianfu se sentia melhor. Em sintonia com a natureza, a sua fonte de inspiração.
Percorrendo a galeria, encontram-se jogos interactivos que desafiam o visitante a encontrar a peça do puzzle que vai completar alguns desenhos do pintor, ganhando pontos e tendo acesso a mais informações sobre a sua vida. Sempre a rodar, está um ecrã de televisão com uma entrevista a Gao Jianfu.
A pequena mostra divide os registos do pintor por períodos. Além da fase relativa à sua permanência em Macau, é de realçar o período entre 1918 e 1938, altura das suas viagens pela China. Imagens de Cantão, como a da Vila Yun Gui, ou de Sichuan, Fujian e Hunan, são apenas alguns dos exemplos que se destacam. Imagens que respeitam sempre o lema “lealdade sem escravidão à natureza”, reflexo de um estilo próprio criado pelo autor.
Entre 1930 e 1931 surgem os seus registos mais budistas, precisamente por ter sido um ano dedicado a viagens pelo Sudeste Asiático. Vêem-se, por isso, imagens da Índia, Nepal, Butão, Sri Lanka, Mianmar, Vietname e Himalaias. Um dos desenhos que mais se destaca é a representação de Ajarta, uma terra considerada sagrada para os budistas, e que foi alvo de vários registos por parte do pintor.
No que toca aos períodos de formação do artista, é de realçar dois. Por um lado, estão expostos quadros que remontam a 1906, 1907 e 1908, altura em que Gao Jianfu é um estudante no Japão. Um período muito importante porque foi Gao Jianfu e o irmão Gao Qifeng que trouxeram o estilo “nihonga” para a China, dedicando-se à criação de uma nova escola. Deambulando pela galeria, encontram-se ainda desenhos realizados entre 1892 e 1903, o período em que Gao Jianfu descobre o mestre e mentor, Ju Lian. Imagens de borboletas ou peixes pintadas com tinta em papel e que representam apenas alguns dos exemplos mais visíveis desta fase artística.
Fundador de uma corrente artística, pioneiro da reforma da pintura chinesa, líder militar da Liga Revolucionária na Revolução de 1911, Gao Jianfu tem vindo a ser apresentado como um revolucionário de renome dentro e fora da China. Um artista que criou vínculos importantes com Macau, que surge como uma referência em várias etapas da sua vida – quando em 1900 frequenta a Escola Ling Nan, aprendendo ali a desenhar com o carvão, ou quanto durante a Revolução de 1911 liderou a secção de Macau da Liga Chinesa Revolucionária. Entre 1938 e 1945 refugiou-se em Macau, dada a invasão de Cantão pelo exército japonês, continuando a pintar e a ensinar no Templo Kun Iam, organizando ainda exposições para angariar fundos em prol das vítimas da guerra. Um período bem registado nesta exposição. Morreu em Macau, em 1951, no Hospital Kiang Wu.
Luciana Leitão

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Macau pelo Lonely Planet, Festival Internacional de Cinema de Hong Kong

Chung Wah Chow, escritora do guia Lonely Planet, defende turismo diversificado

De olhos bem abertos

“Há muito mais em Macau do que apenas casinos.” Mostrar que, além das mesas de apostas, existe um mundo novo por descobrir foi a missão a que se propôs Chung Wah Chow quando aceitou reescrever a parte dedicada à RAEM do guia turístico Lonely Planet, edição de Hong Kong e Macau.
De visita ao território na pele de “insider”, a autora fez uma descoberta “fascinante”. Além da Macau chinesa que já morava no coração da escritora, existe uma outra. É uma cidade híbrida, onde há uma comunidade que vive e se move entre chineses e portugueses – os macaenses.
Chung Wah Chow descobriu que Macau não é uma terra de uma só cultura, mas sim de culturas. Amante de viagens e defensora das questões ambientalistas, tentou passar para as 47 páginas renovadas do guia turístico uma visão fresca da RAEM dos nossos dias.
“A história começou em 2006.” Assim inicia Chung Wah Chow o relato de como se tornou a “embaixadora” de Macau junto do grupo editorial internacional. A Lonely Planet procurava um candidato que, além do domínio da língua inglesa escrita e falada, estivesse há muito tempo radicado em Hong Kong e que falasse cantonês. Chung Wah Chow preenchia os três requisitos. Daí até escrever sobre o território foi um salto.
“Uma das minhas principais preocupações foi mostrar que Macau é muito mais do que jogo. As pessoas de Hong Kong vêm aqui apenas para jogar nos casinos. No entanto, os leitores deste guia querem mais e eu, pessoalmente, estou interessada em estudar a história, a literatura, etc. Descobri que a cidade tem uma história e um passado tão interessantes. Porque não mencioná-los no guia?”, destaca.
Chung Wah Chow pisou pela primeira vez o solo da antiga cidade do nome de Deus aos três anos de idade, mas a primeira memória é apenas dos tempos de faculdade. A então estudante universitária rumava ao território para visitar os colegas e amigos. Com as deslocações sazonais formou-se uma imagem que, mais tarde, a autora descobriu estar incompleta.
“Se já conhecia Macau? Sim e não. Antes apenas conhecia a Macau chinesa. Nos últimos anos ao serviço da Lonely Planet, comecei a explorar outras coisas”, explica. A identidade macaense fez a residente de Hong Kong olhar a RAEM a partir de um novo prisma. E todo um trabalho de pesquisa começou a desenrolar-se.
Chung Wah Chow estabeleceu contactos, procurou integrar-se e conhecer pessoas portuguesas e macaenses. Ao longo de cinco meses, a escritora consultou ainda páginas de Internet, livros, os Serviços de Turismo da RAEM e até académicos. O resultado?
Um texto introdutório com uma essência totalmente distinta da versão antiga do guia turístico. Os visitantes ficam a saber que Macau é fruto da convergência da China e de Portugal e que, desse encontro, nasceu uma cultura única. A vida do território é agitada pelas luzes dos casinos e as multidões das salas de apostas, mas também é feita de monumentos históricos, de museus e de artes, da pintura à literatura, que estão à espera de novas audiências.
“Macau foi governado pelos portugueses durante 400 anos. E ainda hoje se fazem notar estas influências, desde a arquitectura ao património cultural. Por outro lado, os portugueses e os macaenses são uma parte da comunidade local. Foi o que eu descobri. À parte da comunidade chinesa, há ainda os portugueses e os macaenses”, reitera.
A essência híbrida da cultura local arrebatou a atenção de Chung Wah Chow. Num guia que engloba as duas regiões administrativas especiais, este aspecto ganha um valor acrescido. “Em Hong Kong também temos duas comunidades, mas que vivem em separado. Há interacção nos assuntos do dia-a-dia, mas em termos de vida social existe um afastamento. Por seu turno, os macaenses vivem entre as duas culturas e conservam um modo próprio de vida. Esse hibridismo foi algo que me impressionou muito e me fez adorar Macau”, salienta.
Quem chega ao território deve ainda ter em atenção os problemas que dificultam o caminho de quem cá vive – a falta de mão-de-obra, a poluição atmosférica e o excesso de trânsito rodoviário são alguns dos exemplos. A edição de Hong Kong e Macau do Lonely Planet destina-se aos públicos que nunca estiveram nestes locais. Logo, defende, a escritora, as pessoas devem ser informadas de todos os aspectos que influenciam o quotidiano de um destino turístico.
“A minha tarefa não é só dizer o que há de interessante em Macau, mas também quais são os problemas da cidade. O trânsito e a falta de mão-de-obra da RAEM são alguns dos temas focados no guia. Hoje em dia, toda a gente quer um trabalho num casino e não quer ser motorista, por exemplo. Por isso é tão difícil apanhar um táxi no centro da cidade”, nota.
Escrever sobre a antiga cidade do nome de Deus foi um desafio para Chung Wah Chow. À semelhança de qualquer outro território asiático, a RAEM muda “a uma velocidade incrível”. Poucos meses após ter entregue o trabalho, enquanto folheia o livro que tem dias de vida, a autora encontra já alguns dados desactualizados.
“O problema da maioria dos guias é que, quando são postos à venda, só já 30 por cento da informação é que está actualizada. Alguns locais que eu recomendo, como o café Ou Mun, já não existem. Macau está a mudar demasiado rápido.”

Uma advogada que trocou o Direito pelas viagens

Ténis, roupa confortável e mochila às costas. Viajar, conhecer novas culturas e pessoas são as prioridades de Chung Wah Chow. Licenciou-se em Direito na Universidade de Hong Kong, mas nunca agarrou a profissão. Tem cara de menina, mas já conta com 32 anos de vida e diz saber o que quer. Nada que se relacione com sapatos, fatos, horários e escritórios. Hoje é escritora da editora de guias turísticos Lonely Planet, mas Chung Wah Chow já trabalhou para organizações não-governamentais (ONG) e deu a volta ao mundo. O ambiente e a cultura são os principais campos de interesse da hongkonger que se apaixonou pelo patuá.
“Depois de me licenciar, não quis ser advogada, porque é uma carreira muito aborrecida. Eu queria um trabalho fora de portas em que não tivesse que usar fatos e sapatos todos os dias”, conta a escritora.
O primeiro emprego de Chung Wah Chow foi na Greenpeace, como ajudante de campanha. Durante dois anos, a residente de Hong Kong participou no combate à poluição fluvial e ao tratamento irresponsável dos lixos tóxicos.
Terminada a tarefa na ONG internacional, lançou-se numa viagem pelo mundo. Começou na província de Guangdong, passou pela América Central, Canadá, Europa, Turquia, países do Leste euroepu, Irão, Paquistão e China. De regresso à terra natal, iniciou um curso de mestrado sobre a história das línguas nas ex-colónias da China. Hong Kong e Macau ocuparam o lugar central da investigação académica.
Entretanto, Chung Wah Chow voltou aos corredores de uma ONG. Desta vez, foi a Amnistia Internacional, onde trabalhou em casos de refugiados.
Em 2006, entrou na equipa da editora de guias turísticos Lonely Planet, tornando-se escritora. A primeira tarefa foi refazer a secção dedicada a Macau do livro que engloba as duas regiões administrativas especiais. Foi na sequência deste projecto que descobriu e começou a explorar o conceito de identidade macaense. Fascinada pela história das línguas, apaixonou-se pelo patuá. O dialecto dos filhos da terra será o tema de desenvolvimento de projectos futuros, mal a autora termine os trabalhos que tem em mãos.
Na edição de Fevereiro deste ano do guia, foi ainda responsável pela secção das excursões em Macau e na cidade vizinha de Zhuhai. Até Agosto, a escritora deve acabar outro livro da Lonely Planet sobre a província de Guangdong e a região de Xinjiang.
Os projectos de Chung Wah Chow não terminam aqui. As preocupações ambientais são o mote da iniciativa que está a promover com a organização World Wildlife Fund. O objectivo deste trabalho é mostrar como é possível viajar sem provocar um impacto negativo no clima dos países de destino. “Há métodos de viajar mais amigos do ambiente”, defende.
Macau faz parte deste projecto. A escritora deve perscrutar o território novamente, mas agora com o propósito de encontrar maneiras dos turistas não afectarem o ambiente da cidade e influenciarem negativamente o clima. No entanto, não tem sido fácil.
“Vim à RAEM procurar algumas informações sobre o padrão de viagem aqui, mas não há postos de reciclagem e a maior parte dos casinos não tem preocupações de conservação energética. Ainda não tenho uma solução. Tenho que voltar para fazer mais investigação.”
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Castanheira Lourenço ouvido hoje em Tribunal

O antigo coordenador do Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas (GDI), Castanheira Lourenço, deverá ser hoje ouvido na qualidade de testemunha de acusação no julgamento que tem como arguidos os familiares de Ao Man Long e três empresários de Macau, e que está a decorrer no Tribunal Judicial de Base (TJB).
Castanheira Lourenço deverá ser questionado sobre a forma como o GDI avaliou vários concursos públicos para a adjudicação de obras públicas no território. Recorde-se que, no âmbito do processo de corrupção e branqueamento de capitais, a maioria das obras mencionadas teve o Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas, na altura dos factos dirigido por Castanheira Lourenço, como responsável pela avaliação das propostas a concurso público.
O antigo responsável pelo GDI - que deixou o cargo poucos dias antes do início do julgamento do ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas – foi também testemunha do julgamento de Ao Man Long, condenado no final do mês passado a 27 anos de prisão.
Ao contrário dos responsáveis pela Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes, que admitiram ter alterado as pontuações dos concursos públicos por indicação do ex-governante, Castanheira Lourenço assegurou, nas duas inquirições que lhe foram feitas no Tribunal de Última Instância (TUI), não ter havido qualquer intervenção de Ao Man Long na escolha das empresas adjudicatárias.
Não obstante a versão dos acontecimentos do antigo coordenador do GDI - que em tudo pareceu coincidir com a das restantes testemunhas que trabalham no gabinete de projectos -, o colectivo de juízes do TUI entendeu que as informações prestadas por Castanheira Lourenço contribuíram para se chegar à conclusão de que o ex-secretário é culpado dos crimes que lhe tinham sido imputados.
Recorde-se que são arguidos no presente processo o pai, irmão, cunhada e mulher de Ao Man Long (esta última a ser julgada à revelia e procurada pelas autoridades policiais internacionais), bem como os empresários Frederico Nolasco da Silva, Ho Meng Fai (também em parte incerta) e Chan Tong Sang. Os familiares do antigo secretário são acusados de o terem ajudado a abrir contas bancárias fora de Macau, num processo de branqueamento de capitais.
Os empresários respondem também por corrupção passiva, sendo Ho Meng Fai o arguido com um maior número de crimes desta tipologia. A empresa do proprietário da Sam Meng Fai foi a responsável pela construção de obras de grande envergadura em Macau, como a Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental, os trabalhos de embelezamento do Jardim das Artes e a intervenção na Rotunda do Lisboa. Todos estes processos passaram pelo GDI.
Isabel Castro

Divulgado programa do Festival Internacional de Cinema de Hong Kong

O momento da Sétima Arte

Já é conhecido o programa do 32º Festival Internacional de Cinema de Hong Kong (HKIFF, na sigla inglesa). O evento mais importante da região vizinha no que à Sétima Arte diz respeito realiza-se entre os dias 17 de Março e 6 de Abril e conta com quase 300 filmes de 46 países e regiões. Os momentos mais importantes do evento foram destacados numa conferência de imprensa realizada no final da passada semana.
De acordo com nota enviada à imprensa pela organização, entre os realizadores locais que participam este ano no HKIFF estão Ann Hui, com o filme “The Way We Are”, Vincent Chui, com “Love is Elsewhere”, e Shu Kei e Mandrew Kwan Man-hin, com um trabalho conjunto intitulado “Coffee or Tea”.
Em conferência de imprensa, o presidente da organização, Wilfred Wong, manifestou o seu optimismo em relação ao crescente estatuto de Hong Kong como “cidade de produção cinematográfica de dimensão mundial”, tendo referido estar “particularmente orgulhoso” com o crescente número de produções locais a serem reconhecidas e distinguidas internacionalmente.
O realizador homenageado na edição de 2008 do HKIFF é Eric Tsang, que contribuiu para o festival com oito filmes, bem como com três películas em que desempenhou o trabalho de produtor – a trilogia “Winds of September”, que inclui os filmes de estreia de três jovens realizadores da China Continental, Taiwan e Hong Kong.
Eric Tsang foi homenageado durante a conferência de imprensa, ao ser transmitido uma película de 4 minutos em que estão reunidas imagens mais significativas do seu trabalho de realização, um tributo editado pelo cineasta Wong Chin Po. Presente na apresentação do programa do HKIFF, Tsang disse estar muito satisfeito com o facto de ter sido escolhido como o realizador em destaque na edição deste ano do festival, tendo prometido que vai continuar a formar novos cineastas e a promover o cinema.
É actor, realizador e produtor de cinema e de televisão. Nascido em 1953, Eric Tsang Chi-wai tornou-se muito popular com a série “Super Trio”, que a estação televisiva TVB transmitiu ao longo de uma década. Pela popularidade alcançada, Tsang é convidado com frequência para a apresentação de galas e de cerimónias.
Figura polémica, o realizador de Hong Kong, antigo atleta profissional, entrou no mundo do cinema com a participação em comédias. A viragem na carreira deu-se no momento em que começou a desenvolver parceiras com Alan Tam, tendo desde então sido distinguido com vários prémios, tanto na realização de películas como no seu trabalho de actor.
A conferência de imprensa contou também com a presença dos realizadores de Hong Kong Ann Hui, Shu Kei e Mandrew Kwan Man-hin, tendo também participado vários actores que entram nos filmes produzidos em Hong Kong.
Durante o período da sua realização, o HKIFF deverá levar a Hong Kong vários cineastas internacionais. O realizador russo Sergei Bodrov, nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro com o filme “Mongol”, e Peter Greenaway, que participa no festival com o filme “Nightwatching”, são os nomes de vulto esperados na antiga colónia britânica.
Alem de “Mongol”, a 32ª edição do HKIFF vai projectar duas outras películas nomeadas este ano para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro: “The Counterfeiters”, de Stefan Ruzowitzky, e “Beaufort”, de Joseph Cedar.
Os bilhetes para assistir ao festival podem ser reservados desde o passado sábado, através da Internet, sendo que as bilheteiras abrem no próximo dia 6 de Março. No ano passado, o HKIFF vendeu mais 20 por cento de ingressos do que no ano anterior, com a organização a aumentar a duração do festival de 16 para 23 dias.
A par do festival de cinema, realizam-se em Hong Kong dois eventos associados. A 17 de Março, dia em que se começa o HKIFF, acontece a gala dos Prémios do Cinema Asiático (AFA, na sigla inglesa). A segunda edição dos AFA, que distinguem os melhores trabalhos cinematográficos da sétima arte asiática, está agendada para o Grande Auditório do centro de Convenções e Exposições de Hong Kong.
De 17 a 19 de Março, o território acolhe também o Fórum de Hong Kong sobre Financiamento do Cinema da Ásia.

Realizadores filmam preparação de Pequim para Jogos Olímpicos

As cinco curtas internacionais

São cinco curtas-metragens sobre a preparação da cidade anfitriã dos Jogos Olímpicos de Pequim, feitas por outros tantos realizadores, que serão transmitidas em breve pelas televisões da China e do estrangeiro.
A Comissão Organizadora dos Jogos Olímpicos de Pequim (BOCOG) anunciou este fim-de-semana ter convidado os cineastas Giuseppe Tornatore, de Itália, Majid Majidi, do Irão, Patrice Leconte, de França, Daryl Goodrich, do Reino Unido, e Andrew Lau, de Hong Kong, para a realização de cinco películas sobre a forma como a população chinesa se está a preparar para receber o maior evento multidesportivo do mundo, que se realiza em Pequim de 8 a 24 de Agosto próximo.
O projecto chama-se “Vision Beijing” e demorou 600 dias a ser concretizado, segundo Wang Hui, um dos elementos da BOCOG. Os cinco filmes vão ser transmitidos pela CCTV 2 já na próxima quinta-feira. Em datas ainda não anunciadas, serão também passados pela Beijing TV e pelas estações televisivas nacionais de Itália, França e Irão, de acordo com a agência oficial de notícias chinesa. O site sohu.com vai disponibilizar os filmes para que possam ser vistos on-line em todo o mundo.
Para Tornatore, a realização da sua curta-metragem não foi a primeira viagem à China com a equipa de filmagem. O realizador de “Cinema Paraíso” esteve no país em 1988, altura em que rodou “Reunion”, uma película que contava a história de um encontro entre um grupo de estudantes e o seu antigo professor, trinta anos depois de deixada a escola.
Para Majid Majidi, tratou-se da primeira deslocação ao país anfitrião dos Jogos Olímpicos, contextualiza a Agência Xinhua. “Estou muito impressionado com as pessoas de terceira idade, que têm uma grande paixão pela vida”, disse.
No entanto, o realizador, que foi nomeado em 1998 para o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro com o filme "Children of Heaven", escolheu os mais novos para protagonistas da sua curta. Em “Colors Fly”, Majidi foi à procura daquilo que as crianças chinesas sentem em relação aos Jogos.
O francês Patrice Leconte também desconhecia a cidade mas foi o aspecto estrutural da capital que preferiu enfatizar. "Beijing - A Film Impressionistic" foca o lado físico de Pequim, do Palácio de Verão aos recintos olímpicos, passando pelas mais modernas construções da capital.
Daryl Goodrich é ex-atleta e combinou, em diversos momentos da sua carreira, o desporto e o cinema. Juntou-se ao projecto “Vision Beijing” depois de ter feito, com reconhecido sucesso, o filme promocional para a candidatura de Londres às Olimpíadas de 2012.
A curta de cinco minutos de duração, intitulada “Belief”, tem como tema principal o trabalho árduo que a competição desportiva exige. “Fui convidado para fazer um filme sobre desporto e crianças, uma celebração dos Jogos Olímpicos”, disse. “Foi isso que fiz e é essa a razão que me trouxe a Pequim. Tive uma excelente estadia”, disse, citado pela Xinhua.
Andrew Lau, o único realizador chinês deste lote de cinco eleitos pela BOCOG, optou por descodificar a gastronomia chinesa e a relação dos alimentos com a cultura do país, num filme que dá pelo nome "Color, Fragrance, Taste Beijing". “Adoro comida, pelo que sou a pessoa certa para fazer um filme sobre o assunto”, disse Lau, durante uma conferência de imprensa realizada em Pequim.
O caso Steven Spielberg acabou por vir à baila durante o encontro com os jornalistas. O realizador de Hong Kong disse ter ficado “chocado” com a posição assumida pelo cineasta norte-americano. “Fiquei chocado... É óbvio que os Jogos Olímpicos são um evento desportivo que nada tem a ver com a política”, afirmou.
Steven Spielberg abandonou a organização dos Jogos Olímpicos de Pequim, na qual desempenhava a função de conselheiro para as cerimónias de abertura e de encerramento, no passado dia 12. O realizador justificou a sua posição alegando ser contra a política da China em relação ao conflito do Darfur, no Sudão.

Caligrafias

Olhar para o futuro do desporto


Macau deve trabalhar arduamente para o desenvolvimento do desporto na região. A ideia foi defendida este domingo pelo articulista do jornal Va Kio, Lok Tin, num texto em que analisa o futuro da RAEM no âmbito desportivo. O território poderá ser bem-sucedido nesta matéria se souber aproveitar as oportunidades que estão a surgir, defende o autor. Para que isso seja possível, é necessário “separar o trigo do joio” e saber canalizar as energias para a luta certa.
Lok Tin começa por afirmar que, com os Jogos Olímpicos de Pequim à porta, Macau vai tornar-se um local popular, com os estágios de diferentes delegações desportivas. Recorda depois que Manuel Silvério, 1º vice-presidente do Comité Olímpico de Macau (COM), afirmou recentemente que a Associação Olímpica Britânica vai enviar para a RAEM 250 atletas, de 15 modalidades desportivas, para aqui realizarem o estágio de preparação para as Olimpíadas. “O COM recebeu também pedidos no mesmo sentido de países como Portugal, Cabo Verde, Brasil, Moçambique, Timor-Leste, Rússia, Argentina e Estados Unidos, entre outros”, refere.
Para Lok Tin, este fenómeno pode ser considerado uma “benesse” para a RAEM. “Para organizar os não muito conhecidos Jogos da Ásia Oriental 2005, Macau construiu uma série de recintos desportivos. Na altura, a população mostrou-se preocupada com a questão da utilização destes espaços após a realização dos Jogos. Tornar-se-iam inúteis e não mais do que um sítio para os mosquitos viverem?”, recorda. “O problema que agora se coloca é saber como se devem aproveitar para aumentar a fama de Macau, o desenvolvimento do desporto e da indústria de turismo desportivo.”
Uma vez que as delegações desportivas aos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 são suficientes para garantir a ocupação dos recintos durante este ano, Lok Tin dá um salto no tempo para recordar que, após cumprida esta “tarefa”, os responsáveis pela área devem ter em mente que tanto a Europa como os Estados Unidos estão efectivamente interessados em promover o mercado desportivo asiático. “Se Macau souber aproveitar esta oportunidade, poderá retirar grandes benefícios e ter sucesso no desenvolvimento do turismo desportivo e de entretenimento”, defende o articulista.
Assim sendo, entende Lok Tin que a questão está nas mãos dos residentes. “Acredito que os erros e os actos indecentes ocorridos durante os Jogos da Ásia Oriental 2005 devem ser uma preocupação do Comissariado Contra a Corrupção. Nós devemos olhar em frente e trabalhar arduamente para o nosso futuro, ao dar ideias e opiniões”, atira. “A promoção das actividades desportivas trará mais oportunidades de emprego. Se despendemos grande parte da nossa energia numa batalha cuja conclusão é difícil de tirar, temo que o nosso tempo seja gasto em vão.”

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Espaço de fuga à confusão, Os monumentos não vivem sozinhos, Macau aos corações

Sala de convívio da Santa Casa da Misericórdia de Macau

Espaço de fuga à confusão

A poucos metros do ambiente frenético tão característico da Praça do Leal Senado, há um espaço onde os ponteiros do relógio parecem andar mais devagar. O branco das paredes continua imaculado e as mesas e cadeiras dão a impressão de terem sido acabadas de estrear. Inaugurada há sete anos, a sala de convívio da Santa Casa da Misericórdia permanece imune à erosão do tempo.
O espaço não nasceu para ser um local público, mas sim para servir de ponto de encontro da irmandade. Contudo, as portas estão abertas para todos aqueles que abraçam o espírito da instituição de solidariedade. Ali, é possível partilhar uma refeição, trocar dois dedos de conversa ou simplesmente desfrutar de algumas actividades de lazer.
As iguarias que são servidas pretendem homenagear o melhor da gastronomia macaense e portuguesa. Os sabores são, no entanto, apenas um dos ingredientes de uma receita de sucesso. Todos são bem recebidos, num espaço que une a qualidade do serviço à simpatia do pessoal. Criar um ambiente alegre e descontraído era o objectivo número um da direcção da Santa Casa da Misericórdia quando pensou em abrir esta sala de convívio.
“O centro de convívio faz parte de um projecto que está mais centrado na vertente cultural da própria irmandade. Como instituição de solidariedade social que somos, a promoção de actividades culturais não faz parte das nossas competências. No entanto, estas iniciativas são importantes para congregar e convergir pessoas”, explicou o provedor da Santa Casa da Misericórdia, António José de Freitas.
A sala, cujos interiores foram desenhados pelo arquitecto Carlos Marreiros, é gerida de uma maneira muito prática e simples. As pessoas chegam, podem sentar-se confortavelmente e assistir televisão, ler um livro ou uma revista. Os membros da irmandade têm ainda à sua disposição um computador com ligação à Internet.
Há quatro conjuntos semanais de pratos do dia que funcionam numa lógica de rotatividade. Por isso, pelo menos uma vez por mês é possível saborear o famoso minchi, frango assado, dobrada com grão, arroz de pato, bacalhau à Brás, entre outros.
O sistema que comanda o cardápio é explicado por motivos logísticos. “As refeições vêm todos os dias da nossa creche. Aqui não temos uma cozinha com condições suficientes para confeccionar pratos em grandes quantidades e optámos por esta via alternativa”, sublinhou o mesmo responsável.
Diariamente, são servidas em média 25 refeições num espaço com uma lotação de 34 comensais. Com o tempo, o sucesso do tempero trouxe alguns problemas de espaço. Por isso, “o método mais seguro para conseguir mesa é telefonar no dia anterior e fazer uma marcação”, aconselhou o gerente do centro, Fernando Bastos. A prioridade é dada consoante a ordem das chamadas telefónicas.
As portas estão abertas seis dias por semana das 10h00 às 18h30. Além dos almoços, ao longo do horário de funcionamento, é possível escolher pratos mais leves. Aos sábados, são servidos apenas snacks.
Os preços das refeições causam espanto tendo em conta as tendências da inflação que caracterizam a actualidade económica do território. Algo que conferiu ainda mais popularidade ao espaço. O prato do dia custa 45 patacas para os irmãos da Santa Casa da Misericórdia de Macau, enquanto os não irmãos têm que pagar mais 10 por cento deste valor.
Uma tabela que tem sido mantida com algum esforço. “Como o espaço não tem fins lucrativos, os preços que estamos a praticar são apenas de custo. Contudo, com a inflação a subir em flecha tudo está a ficar mais caro, dificultando um pouco a situação”, lamentou o provedor da Santa Casa.
Apesar destas questões económicas, é com “orgulho” que tanto António José de Freitas como a gerência do espaço fazem o balanço da iniciativa. “Estamos muito orgulhosos da obra feita. Valeu a pena a aposta. Esta é a imagem que queremos dar da Santa Casa”, sublinhou o provedor da instituição de solidariedade social.
Na verdade, a sala de convívio faz parte de um projecto maior que engloba toda a travessa onde está localizada. Fernando Bastos ainda tem viva na memória a imagem do local antes de ser sujeito a obras de embelezamento. “O espaço estava iluminado apenas por uma lâmpada. Só por volta de 2000 é que foram instalados postes de electricidade. As únicas pessoas que passavam aqui eram os moradores”, recordou.
“A travessa era frequentada por toxicodependentes e muita gente estacionava neste espaço as suas motorizadas. Mais parecia um depósito de motas”, lembrou, por sua vez, o provedor da Santa Casa da Misericórdia.
Hoje, o cenário é bem diferente. A rua sem saída que se situa entre o edifício da instituição de solidariedade e a Farmácia Popular é uma paragem obrigatória da zona turística. “Qualquer turista que passe pelo coração do Leal Senado sente-se atraído pela beleza da travessa e vem tirar uma fotografia”, apontou António José de Freitas.
Tudo foi sujeito a um processo de restauração e embelezamento. Os edifícios foram pintados da mesma cor, as placas de publicidade dos escritórios ali existentes obedecem ao mesmo padrão e o espaço foi iluminado. No topo, foi instalado um busto de D. Belchior Carneiro Leitão. O jesuíta português é considerado o primeiro bispo de Macau e, no geral, da China. A par disso, o eclesiástico foi um dos fundadores da Santa Casa da Misericórdia da antiga cidade do nome de Deus.
Cada flash disparado das máquinas fotográficas dos turistas aumenta o sentimento de orgulho dos elementos da irmandade da instituição. “Se por cada fotografia doassem uma pataca à Santa Casa isso era óptimo para as receitas”, brincou António José de Freitas.
Cinco séculos a cuidar de quem mais precisa

A origem da Santa Casa da Misericórdia em Macau quase que se confunde com a história do território. A instituição foi criada em 1569, tornando-se na primeira fundação europeia de caridade e beneficência, com preocupações centradas na camadas mais desfavorecidas da sociedade. Em pleno século XXI, a organização optou por alargar o seu campo de acção. Além de reforçar a actividade social, virou-se também para o âmbito cultural.
Durante muitos anos, a Santa Casa da Misericórdia foi uma das únicas bóias de salvação dos mais necessitados, dando um contributo enorme para o desenvolvimento da assistência social no território. “O espírito de bem-fazer e de ajudar as pessoas carenciadas não passa despercebido à cidade, devido à longa história da Santa Casa junto das gentes de Macau”, frisou o provedor da instituição, António José de Freitas.
Nos últimos 50 anos, para responder às necessidades comunitárias, a Diocese decidiu avançar com novos projectos de carácter social. Algumas dessas iniciativas estão a cargo da Santa Casa.
Actualmente, a instituição é responsável por um lar que acolhe 23 idosos, uma creche com cerca de uma centena de crianças e um centro para invisuais com 50 utentes. A par da vertente social, a direcção da Santa Casa decidiu piscar o olho ao aspecto histórico e cultural.
Na Travessa da Misericórdia, localiza-se a entrada do núcleo museológico. Ali estão expostas peças de arte que combinam as influências culturais chinesas e portuguesas. Um exemplo é a ampla colecção de porcelanas pintadas com o símbolo da Companhia de Jesus.
Prova viva de que a Santa Casa pretende colmatar as diferentes necessidades da população local é o seu envolvimento no projecto de desenvolvimento das indústrias criativas no Bairro de São Lázaro. O albergue da instituição vai ser um dos principais palcos da organização de actividades culturais e recreativas.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Marreiros defende alteração das regras de construção urbana no contexto do património

Os monumentos não vivem sozinhos

A alteração da legislação de protecção ao património cultural deve ser acompanhada por algumas reformas, de índole mais geral, em relação à construção urbana de Macau. A leitura é feita por Carlos Marreiros, arquitecto que, há 25 anos, esteve envolvido nos trabalhos de preparação dos primeiros diplomas que vieram definir as regras de preservação do património do território.
Segundo adiantou esta semana o vice-presidente do Instituto Cultural da RAEM, Stephen Chan, até ao final do mês deverá estar concluída a anteproposta de lei sobre a protecção do património cultural, que será submetida a consulta pública.
Carlos Marreiros desconhece quais as intenções concretas do diploma que o Governo está a ultimar mas, instado pelo Tai Chung Pou a pronunciar-se sobre os principais aspectos que esta nova legislação deverá contemplar, o arquitecto deixou algumas sugestões, alertando, em simultâneo, para problemas com os quais a cidade já se defronta e que podem vir a piorar.
A ausência de um planeamento urbano geral dificulta a preservação patrimonial. Assim, Marreiros defende que a alteração legislativa deve ser acompanhada pela criação de um plano de intervenção urbanística geral, conjugado com planos sectoriais. “A preservação do património não se limita aos edifícios em si”, sublinha. “É preciso que haja regras para as zonas que envolvem esses edifícios, o mesmo se aplicando aos conjuntos classificados, que são ainda mais difíceis de proteger.”
A actual legislação de Macau prevê a classificação do património em várias categorias: monumentos, edifícios de interesse arquitectónico, conjuntos, sítios e zonas de protecção. Em relação aos monumentos em si, o edifício enquanto estrutura física, entende Carlos Marreiros que o Governo tem feito “um bom trabalho” e que, de uma maneira geral, “têm sido salvaguardados”.
Só que o património vale também por aquilo que o rodeia. Os conjuntos são “o grande desafio”. “Muitos deles, são pequenas ilhas patrimoniais, frágeis no contexto urbano”, vinca. É preciso pensar em formas de proteger os eixos visuais destes locais, para que o conjunto possa ser visto como um todo, defende.
“É uma questão muito complicada. Como é que um conjunto de edifícios pequenos, com dois ou três andares, pode apresentar um ar patrimonial se tem, ao lado, torres enormes?”, questiona. A resposta passa pela definição de zonas de protecção “muito bem definidas”, tendo em conta não só os monumentos como também o ângulo de visibilidade. “Os edifícios novos não podem prejudicar a leitura.”
O Farol da Guia é um exemplo incontornável, que já se tornou recorrente, e que é sinónimo do que não se deve fazer. “O grande problema não é patrimonial, mas sim em termos de plano director, que tarda em aparecer”, constata. “Não há um instrumento urbanístico para a gestão de toda a cidade.”
Carlos Marreiros entende que não é só a altura que prejudica a leitura do património no contexto urbano, mas também a densidade de construção. “A área bruta de construção de um lote é grande, deve ser controlada”, defende, de modo a que, em vez, de prédios compactos e blocos maciços, a cidade seja dotada de uma dinâmica e de espaços de respiração. Para que tal seja possível, defende, “é preciso legislar no sentido de criar zonas de transferência da área bruta de construção”, ou seja, o proprietário do terreno tem menos área para construir em determinado lote, mas é ressarcido noutro ponto da cidade.

Onde estão as colinas?

Eram sete, ou continuam a ser, mas já não se conseguem contar. Quem chega a Macau encontra uma urbe com contornos muitos distintos daqueles que lhe chamaram a cidade das sete colinas. Carlos Marreiros não defende cidades mortas, que não evoluem na perspectiva física, mas não deixa de lamentar que a ausência de um plano geral de construção que permita assegurar que alguns aspectos paisagísticos são preservados. “Era a cidade das sete colinas. Onde estão elas?”, lança.
Como o “boom” de construção ainda não acabou, a península está cheia e a Taipa ficará, em breve, sem espaço para novos edifícios, o arquitecto defende que se deve apostar nos aterros. O plano para conquistar terra ao mar foi anunciado pelo ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas, Ao Man Long. A partir do momento em que foi detido, deixou de se falar da questão.
“O património não é só a arquitectura”, sublinha Carlos Marreiros. “São os sítios e a paisagem.” Uma vez que Coloane, embora com menos património em termos arquitectónicos, tem este lado da paisagem bem preservado, há que o manter. “Para evitar a construção na ilha, há que aterrar”, sustenta. E, sobretudo, planificar, encontrar uma estratégia global, articulada com a reforma do sistema de transportes.
Isabel Castro

Lojas e restaurantes da cidade preparam-se para o dia

Macau imbuída do espírito de São Valentim

Um dia de comércio. Sobem os preços das flores e dos chocolates e os restaurantes oferecem ementas especiais. Assim é o Dia de São Valentim. No seio dos ocidentais é uma realidade sobejamente conhecida. A comunidade chinesa de Macau também celebra? Inquiridos pelo Tai Chung Pou, tanto os comerciantes como os residentes da RAEM, especialmente os mais jovens, declararam que celebram o Dia de São Valentim com pompa e circunstância. Quanto ao Dia Chinês dos Namorados, que este ano calha a 21 de Fevereiro, poucos conhecem e só os mais velhos celebram.
Karen, 40 anos, secretária, natural de Macau, não liga ao Dia de São Valentim nem ao Dia Chinês dos Namorados. “Já estou velha para isso”, comenta. Os preços aumentam e a vontade de celebrar o casamento diminui. “Fica tudo mais caro. Há vários anos que deixei de comemorar”, diz. Não porque o amor tenha diminuído ao longo dos anos, mas porque o emprego, os filhos e os preços não permitem. Nem mesmo em casa irá celebrar. Até porque, tem casa cheia e um jantar a dois será praticamente impossível. “Acho que os mais jovens continuam a festejar o Dia de São Valentim”, declara. E o Dia Chinês dos Namorados? Nem sabe.
Por seu turno, Joshua Tai, 26 anos, residente na RAEM, a trabalhar na área do marketing, irá levar hoje a namorada a jantar. “Levo-a às compras e pago algumas coisas – normalmente não são chocolates nem flores, talvez roupa”, diz. Por enquanto, não reservou mesa em nenhum restaurante especial. “Está tudo mais caro, as flores, a roupa, tudo”, queixa-se.
Para Joshua, só faz sentido comemorar o Dia de São Valentim e não o Dia Chinês dos Namorados. Talvez se tenha perdido a tradição. “Para mim, é mais normal a data que é comemorada internacionalmente”, diz. Quanto ao Dia Chinês, apenas os “mais velhos e mais tradicionais” comemoram. “Por exemplo, os meus pais. Saem para jantar ou organizam uma refeição especial em casa”, conta.
É pensando nos mais jovens que as lojas de Macau colocam enfeites nas montras. Bonecos de peluche, chocolates, flores e corações são os elementos decorativos mais visíveis. Cindy, dona de uma loja de flores numa das ruas principais de Macau, afirma que “esta altura é sempre muito ocupada”. Namorados e maridos querem escolher as flores mais bonitas para oferecer. Este ano têm escolhido principalmente “as rosas de diferentes cores” e, em segundo lugar, “as túlipas”.
Os ramos têm de ser bonitos e decorados com “mais ornamentos”, como laços e cartões especiais. A montra está decorada com corações e chocolates, a pensar neste dia. Algo que só acontece nesta altura, já que o Dia Chinês dos Namorados passa despercebido. Aliás, Cindy nem se recordava do dia quando inquirida pelo Tai Chung Pou. Pediu ajuda às colegas que, após uns minutos de discussão e depois de olharem para o calendário, afirmaram que calhava a 21 de Fevereiro. “Hoje é realmente a data mais internacional”, explica.
Um pouco mais acima, na mesma rua, está uma banca de flores especialmente montada para este dia. “Estamos a vender flores para namorados e maridos oferecerem”, afirmou uma das responsáveis, Rosa Kwok. Escolheram a Rua Pedro Nolasco da Silva por ser uma das principais artérias da cidade. E, até ao início da tarde de ontem, já tinha sido uma aposta ganha. Os principais clientes são “adolescentes”, em busca das flores perfeitas.
Também os restaurantes se estão a preparar. Uma das responsáveis pelo restaurante Flor Bela afirmou que esta quinta-feira terão as portas abertas, apesar de ser o dia de folga. “Estou sozinha em Macau. Prefiro ficar a trabalhar”, diz. Prevendo casa cheia para hoje, irá oferecer rosas a quem resolver comemorar o dia no seu restaurante. Um mimo para quem ali quer celebrar uma data especial.
No hotel Mandarin os restaurantes também estão a postos para o Dia de São Valentim. O Mezzaluna, o Café Bela Vista, o NAAM, o Tung Yee Heen e o Vasco apresentam menus específicos e um ambiente romântico decorado a rigor. As ementas não são particularmente económicas. No caso do restaurante Mezzaluna, por exemplo, cada casal deverá pagar 2988 patacas – inclui um menu de oito pratos e um “presente especial”. Quanto ao Dia Chinês dos Namorados, “não é popular entre a sociedade de Macau”, afirmou Reta Wong, do departamento de comunicação do hotel Mandarin. Por isso, nada têm preparado para 21 de Fevereiro.
O patrono dos apaixonados

Em muitos países, o Dia dos Namorados é também denominado o Dia de São Valentim, uma data em que se celebra a união entre casais. É comum a troca de cartões e presentes, tais como as tradicionais caixas de bombons em formato de coração.
Dizem os estudiosos que a celebração tem origem num obscuro dia de jejum em homenagem a São Valentim. A associação ao amor romântico só chega depois do fim da Idade Média.
Símbolos modernos incluem a silhueta de um coração e a figura de um Cupido com asas.
Reza a lenda que o Imperador Claudius II, durante o seu mandato, proibiu a realização de casamentos, com o objectivo de formar um poderoso exército. Ignorando as ordens do Imperador, um bispo romano chamado Valentim continuou a celebrar casamentos. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, uma jovem cega, Asterius, visitou o bispo. Os dois acabaram por se apaixonar e a jovem recuperou a visão. Valentim foi decapitado a 14 de Fevereiro de 270 d.C.
Outras das histórias frequentemente contadas retrata São Valentim como um simples mártir que, em meados do séc. III d.C., tinha recusado abdicar da fé cristã que professava.
Algumas pessoas acreditam que se comemora a 14 de Fevereiro por ter sido o dia da morte de São Valentim. Outros reivindicam que a Igreja Católica decidiu celebrar a ocasião nesta data como uma forma de cristianizar as celebrações pagãs da Lupercália. Isto porque, na Antiga Roma, Fevereiro era o mês oficial do início da Primavera e era considerado um tempo de purificação. O dia 14 de Fevereiro era o dia dedicado à Deusa Juno que, além de rainha de todos os Deuses, era também, para os romanos, a Deusa das mulheres e do casamento. No dia seguinte, 15 de Fevereiro, iniciava-se assim a Lupercália que celebrava o amor e a juventude.
Ao longo dos tempos, as tradições de São Valentim foram adquirindo um grau de complexidade cada vez maior. Foram-se criando novas tradições, lendas e brincadeiras, como é o caso das mensagens apaixonadas. Aliás, a tradicional troca de cartões, cartas e bilhetes apaixonados no dia 14 de Fevereiro teve origem na própria lenda de São Valentim, quando este teria deixado um bilhete à filha do seu carcereiro.
Dia Chinês dos Namorados

Calhando no 15º dia do primeiro mês do ano lunar, o Festival de Lanternas tem lugar numa noite de lua cheia, e assinala o fim das festividades do Ano Novo Lunar. Um dia em que os mercados de flores, restaurantes, casas e parques são iluminados e decorados por lanternas, e que também é conhecido como o Dia Chinês dos Namorados. Afinal, durante o festival, os solteiros costumam juntar-se para jogos amorosos com lanternas de forma a iluminar o seu amado ou amada. Este ano calha a 21 de Fevereiro.
Mas o dia originalmente apontado como o dia dos namorados, mas que já nem é celebrado, é, na realidade, o sétimo dia do sétimo mês do ano lunar. Existem duas versões para a origem deste dia. Uma delas determina que as sete filhas da Deusa do Céu, numa das suas descidas do céu, conheceram um bonito mortal. Uma das filhas, ao banhar-se no rio, decidiu tirar as roupas. Foram, naturalmente, obrigados a casar e viveram felizes por vários anos. Eventualmente, a Deusa do Céu ordenou que a filha regressasse ao céu. Com pena do casal, acabou permitir que descesse à terra uma vez por ano na sétima noite da sétima lua, altura em que tudo estaria preparado para o reencontro dos dois apaixonados. De acordo com a segunda lenda, o Imperador de Jade do Céu, com pena de dois discípulos solteiros, Niu Lang e Zhi Nu, decidiu juntá-los. Mas, dado que se apaixonaram e acabaram por negligenciar o trabalho, o Imperador afirmou que apenas uma vez por ano poderiam juntar-se – na sétima noite na sétima lua.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Radiografia da comunidade timorense na RAEM, Arquitectos de Hong Kong debatem problemas da cidade

Radiografia da comunidade timorense na RAEM

Macau, a segunda casa

Figuras de pessoas de mãos dadas. Outro logótipo não encaixaria tão bem com o espírito de uma associação que se chama Amizade Macau Timor. Entre os dois territórios, há tradições culturais partilhadas e laços que a história criou, mas que foram fortalecidos por algo mais. Durante os 24 anos de ocupação indonésia, a antiga cidade do nome de Deus foi um dos focos externos de resistência do povo timorense.
Aqui, centenas de refugiados foram recebidos de braços abertos e muitos conseguiram chegar a Portugal graças ao financiamento da então Administração portuguesa.
A população local abraçou incondicionalmente a causa timorense. Tanto que, em 1999, quando Timor decidiu em referendo a via da independência, houve quem não conseguisse separar-se do território que os tratou como parte da família.
Agostinho Pereira tinha 15 anos de idade quando finalmente conseguiu comprar um passaporte em Jacarta, a capital do país invasor. “Era aluno da Escola da Diocese que acabou por ser obrigada a fechar. Entretanto comecei a ser perseguido pelos indonésios e o meu irmão deu-me dinheiro para tentar vir para Macau”, conta o actual presidente da Associação Amizade Macau Timor.
Em 1993, o jovem estudante alcançou o território. O primeiro grupo a abandonar o país era formado por timorenses de etnia chinesa, sendo Agostinho Pereira um dos primeiros a sair logo após esta comunidade. Mas porquê este canto do mundo?
É uma questão de raízes culturais e históricas. “Nós conhecíamos Macau dos livros da escola que também falavam das ex-colónias portuguesas como Angola. Sabíamos que o território existia e quando víamos chineses pensávamos logo que eram de Macau e não da China”, conta, mal contendo as gargalhadas ao recordar as convicções de infância. Até as moedas e as notas chegaram a ser comuns entre os dois territórios e “isso marca muito”, acrescenta.
Colada à história da presença da comunidade timorense na antiga cidade do nome de Deus está uma figura incontestável: o Padre Francisco Fernandes. É um exemplo de uma vida inteira passada em prol da causa de Timor Lorosae. Agostinho tornou-se um dos braços direitos do sacerdote. O Centro de Refugiados da Ilha Verde era o quartel-general das acções do povo que nunca perdeu a vontade de lutar.
Todos os meses chegavam refugiados que eram recebidos pessoalmente onde quer que fosse que desembarcassem. “Eu juntava os passaportes em minha casa para, no dia seguinte, os acompanhar aos serviços de migração”, recorda.
Refugiado é, contudo, uma palavra que não agrada a Agostinho. Não do ponto de vista da semântica, mas sim no que diz respeito à acção da população anfitriã.
“O conceito ‘lusófono’ foi mesmo muito bem entendido, porque não sentíamos aquela ameaça de sermos refugiados. Quando aqui cheguei, tinha a impressão de estar em Timor, pois éramos tratados como locais. As pessoas tratavam-nos bem e vinham visitar-nos regularmente. Não havia aquele cenário de camiões com comida e sapatos como acontecia no Kosovo”, aponta.
Agostinho Pereira e os companheiros tinham a sensação de serem “refugiados de luxo”, de “alta categoria”. Em vez de arroz, o centro recebia garrafas de vinho e azeite. Eram organizadas festas e bailes com as portas abertas para toda a comunidade local. “Um centro de refugiados com danças?! Então os refugiados bebem vinho e comem chouriço?! Que luxo!”, exclama Agostinho Pereira, ainda meio incrédulo com as próprias recordações.
Macau apoiou esta comunidade lusófona oferecendo um tecto, roupas, comida e até aulas de língua portuguesa no Instituto Português do Oriente. Por sua vez, Timor retribuiu a generosidade com animadas festas e apresentações nas escolas do território. Localizado na zona norte, o Centro de Refugiados funcionava “como se fosse uma vila”, ninguém estava excluído.
“Somos uma comunidade alegre. Os timorenses não são gente de se agarrar às coisas tristes e ficar a contemplar o sofrimento”, defende.
A par da entreajuda, a população local solidarizou-se com a luta pela independência de Timor Lorosae. Mais do que respeitados enquanto indivíduos, Agostinho Pereira e os seus companheiros sentiram-se ouvidos e compreendidos.
Ao mesmo tempo que iam chegando os refugiados, foram sendo criados grupos paralelos dedicados à resistência contra o país invasor. No início dos anos 1990, o Padre Francisco Fernandes criou a Associação de Tatamailau (nome do ponto mais alto do território timorense). Esta organização promoveu várias conferências que trouxeram à região oradores de renome internacional para discutir a situação de Timor-Leste.
Na mesma altura, surgiu ainda o Grupo de Macau de Resistência Timorense. De acordo com António Mota, outra das figuras proeminentes da comunidade lusófona na RAEM, este projecto era de carácter pró-integração indonésia. Os promotores da iniciativa chegaram a viajar até ao maior arquipélago do mundo para se reunirem com o recentemente falecido presidente Suharto.
Macau era o local perfeito para manter comunicações com todos os grupos resistentes espalhados pelo continente asiático. “Tínhamos contacto com a comunidade estudantil na Indonésia que queria vir para cá”, exemplifica.
O ponto alto da solidariedade da população local foi a marcha pacífica por Timor, em Novembro de 1991, após o massacre dos estudantes no cemitério de Santa Cruz. “Portugueses e macaenses juntaram-se aos timorenses num manifesto que largou do Leal Senado e terminou a lançar velas acesas ao rio perto da Ponte Nobre de Carvalho”, recorda António Mota. No total, três centenas de pessoas associaram-se em nome da paz no país.
Mais de duas décadas após a ocupação da Indonésia, Timor Lorosae obteve o estatuto de nação independente, tornando-se o país mais jovem do mundo. A luta chegou ao fim e a existência do Centro de Refugiados da Ilha Verde perdeu o sentido.
“O Padre Fernandes fez um inquérito para saber quem queria ficar. No entanto, foi imposta uma condição - todos tinham que abandonar o centro e só permanecia quem tivesse emprego”, conta.
Em cerca de 450 refugiados timorenses, houve uma pequena parte que não conseguiu apartar-se de Macau. O dirigente associativo foi um desses exemplos. Hoje, a comunidade timorense lusófona estima-se em pouco mais de seis dezenas, sendo também formada por elementos que vieram para o território completar os seus estudos ou procurar emprego. No entanto, se juntarmos os timorenses de etnia chinesa, o número ascende aos duzentos, afirma Agostinho Pereira.
A Associação Amizade Macau Timor foi um dos frutos da nova etapa da vida da comunidade no território. Foi pensada em 1999 e oficializada dois anos mais tarde. O objectivo principal da organização é continuar a promover as ligações entre as duas culturas ao nível histórico, social e económico.
Quanto a projectos para o futuro, Agostinho Pereira ambiciona trazer para Macau mais estudantes para que um maior número de jovens possa contribuir para um “Timor melhor”. “É preciso dar vida ao nosso país”.
Refugiados ou não, os timorenses encontraram em Macau uma “segunda casa”. A forma como foram recebidos no período em que precisavam de mais amparo nunca mais será esquecida, não só pela geração de Agostinho Pereira, mas por uma comunidade inteira. “Este tratamento acaba por ficar como uma grande marca. Ser português não é ter passaporte. É aquele que é tratado e respeitado como tal.”
Um bom início nas relações sino-timorenses

“Triste”, assim se diz sentir o presidente da Associação Amizade Macau Timor, Agostinho Pereira, quando fala nas relações comerciais entre o seu país e a China. Residente em Macau, o dirigente associativo nota que o Governo de Díli está a perder terreno, em relação aos restantes países lusófonos, no que toca às oportunidades que os laços com a China podem oferecer.
No entanto, nem tudo são más notícias. Ao longo dos últimos anos, assinaram-se tratados de cooperação bilateral que podem ser apenas a primeira página de uma história com um final feliz. O mais recente foi oficializado no final do mês passado.
“O Governo de Timor devia aproveitar melhor, não esperar mais e actuar rapidamente”, protesta Agostinho Pereira. De facto, a nação mais jovem do mundo faz parte do grupo de países lusófonos que está no fundo da tabela em termos de trocas comerciais com a China.
De acordo com o estudo de mercado disponibilizado na página de Internet do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau, em 2003 e 2004 não foram registadas compras de produtos timorenses por parte da China. Por sua vez, em 2005, o gigante asiático vendeu a Timor um total de 1,27 milhões de dólares norte-americanos.
Um cenário que, doravante, poderá começar a alterar-se. No final do mês passado, os Governos da China e de Timor-Leste assinaram em Díli acordos de cooperação que levarão Pequim a apoiar o novo parceiro com um total de 1,57 mil milhões de dólares norte-americanos.
Os protocolos oficializados pelo primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, e pelo vice-ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wu Dawei, o mais alto dignitário da China a visitar Timor-Leste, englobam a cooperação técnica e económica, a construção de um quartel e de um alojamento para os soldados, bem como a aquisição de equipamento para o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Timor.
Esta não foi, contudo, a primeira visita chinesa ao território lusófono, provando assim o interesse de Pequim em investir naquele país. No final do ano passado, um grupo de potenciais investidores da China Continental deslocou-se a Timor-Leste para apresentar ao Governo timorense projectos no valor de mais de 100 milhões de dólares. Do pacote de investimentos constavam a criação de um banco comercial, um centro comercial e uma zona de desenvolvimento portuária, além da construção de uma rede viária e do desenvolvimento de pistas de aviação.
O estabelecimento de uma nova zona comercial fronteiriça, de explorações agrícolas, bem como a edificação de reservatórios de água e a criação de um grupo nacional timorense de arte e cultura de demonstração são outras propostas de investimento.
A verdade é que o país lusófono tenta ainda reerguer-se de mais de duas décadas de ocupação indonésia, sendo o comércio externo, na generalidade, uma actividade ainda de limitado campo de acção. Oito anos após a independência, Timor procura uma estabilidade política e social que é vital para o futuro da economia, mas que tem enfrentado uma série de problemas ao longo da sua tentativa de reconstrução.
A nação actualmente governada por Xanana Gusmão é tida como um dos países mais pobres do mundo. A situação agravou-se quando se deu um decréscimo na ajuda internacional, levando a uma contracção do Produto Interno Bruto entre 2002 e 2004.
Foi sob a liderança da Organização das Nações Unidas que grande parte do sector agrícola timorense conseguiu converter-se de colheitas de subsistência para culturas de renda. Tal significou uma tentativa de criar uma economia orientada para a exportação.
Esta opção tem falhado devido à constante flutuação de preços do mercado internacional nas culturas escolhidas para o comércio. Em particular, o café, que enfrenta um decréscimo de valor há cerca de 20 anos. Por esta razão, agravada ainda pela falta das antigas colheitas de subsistência, Timor-Leste começou em 2006 a atravessar uma ausência crónica de alimentos.
As esperanças de um futuro melhor estão depositadas no desenvolvimento da exploração de reservas de petróleo localizadas no oceano. Um projecto que já rende aos cofres do Governo mais de 40 milhões de dólares norte-americanos por ano.

Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Arquitectos debatem problemas da cidade

O que falta a Hong Kong
para estar no topo do mundo


Arquitectos e académicos de Hong Kong estiveram recentemente reunidos para diagnosticarem os problemas da cidade e tentarem perceber como é que ela se deve desenvolver. O debate terminou com uma conclusão consensual: é necessários que todos os agentes envolvidos na construção urbanística trabalhem tendo em conta a necessidade de afirmação mundial de Hong Kong, para que a cidade seja global.
Os problemas na área da arquitectura na antiga colónia britânica não são de agora e existem exemplos que demonstram como o trabalho dos arquitectos nem sempre correspondeu às expectativas e gostos dos residentes. O Centro Cultural de Hong Kong e a Biblioteca Central são apenas duas das construções mais contestadas da cidade.
Nos últimos anos, sobretudo ao nível da construção pública, tem-se assistido a um esforço para encontrar um ponto de equilíbrio entre as tendências arquitectónicas e as exigências dos utentes dos espaços. No entanto, no que às obras privadas diz respeito, o descontentamento continua, com os edifícios novos a estreitarem a cidade e a ameaçarem a respiração das ruas. A linha do horizonte também tem mudado, com cada vez mais arranha-céus a darem um contorno diferente a uma cidade cuja forma é reconhecida internacionalmente.
Com o desenvolvimento de projectos virados para a água, como o Bairro Cultural de Kowloon e a reestruturação do Aeroporto Kai Tak, as preocupações dos arquitectos têm aumentado e existe uma pressão cada vez maior para que a cidade conquiste um lugar, ao nível arquitectónico, na lista de urbes mundiais como Nova Iorque e Londres.
Na realidade, a edição de Janeiro passado da revista Time faz uma análise às três cidades, numa linha “Ny-lon-kong”, identificando semelhanças e ligações. Hong Kong aparece, assim, a par destas cidades globais, não conseguindo, contudo, corresponder aos padrões em termos culturais e artísticos.
O reputado arquitecto Rocco Yim, que desenhou o edifício da Sede do Governo em Admiralty, entende que a antiga colónia britânica apresenta características próprias mas está longe de atingir a perfeição. “O problema é que a nossa arquitectura é inferior à de outras cidades. As nossas ruas são vivas, mas essa vitalidade não se encontra nos edifícios. Por exemplo, Lan Kwai Fong não vale pelos edifícios mas sim pela atmosfera criada pelos bares”, explica.
“Um amigo meu estrangeiro chamou-me a atenção para o típico bloco residencial da cidade e disse-me, em seguida, que enquanto este tipo de arquitectura não for abandonado, continuamos a pertencer ao terceiro mundo.” Rocco Yim assume a sua quota-parte de responsabilidade no processo: “Enquanto arquitecto, a trabalhar há 20 anos e sem uma obra verdadeiramente significativa, posso culpar a minha incapacidade, bem como a sociedade de Hong Kong, que se rege por valores económicos.”
Vincent Ng, membro do Instituto de Arquitectos de Hong Kong e do pró-democrata Partido Cívico, considera que na origem do “desastre” arquitectónico da cidade estão as políticas governamentais e os investidores que têm apenas em mente o lucro fácil. “A venda de terrenos é demasiado importante e estão a ser planeados lotes maiores com uma grande densidade de construção. Já não se fala em espaço urbano, mas como maximizar a área de construção de modo a permitir aos investidores atingirem os seus objectivos”, atira.
Embora o Governo tenha começado, recentemente, a dar resposta às exigências de espaço e ventilação, desenvolvendo ainda tentativas de preservação do património, Rocco Yim acredita que é necessário fazer-se uma avaliação completa do estado da arquitectura de Hong Kong. “Começamos a ver mudanças em termos de ventilação e assistimos a campanhas de conservação, mas tudo isto se deve à capacidade de iniciativa da população, que quer resolver problemas visíveis. Quando se entra no campo artístico, o caso muda de figura e há pessoas que não entendem o que é a criatividade. Vão ser precisos, no mínimo, vinte anos, para que haja esse envolvimento dos residentes.”
Leo Lee, académico da Universidade Chinesa e antigo docente da Universidade de Harvard, rejeita a aplicação da ideia de “consenso” na área da arquitectura. “O conceito fundamental deve ser determinado por quem define as políticas do território e não é necessário que haja consenso. Na realidade, o consenso não existe e nem sempre a maioria está certa”, diz.
Para Lee, Hong Kong deve ainda preservar o encontro entre Ocidente e Oriente. “Sempre defendi que é a fusão de estilos que faz com que uma cidade seja moderna. Quem diz que a cidade é um ‘deserto cultural’ não sabe nada sobre Hong Kong.” No entanto, o Governo tem que fazer mais, aponta o especialista, que compara a cidade com Taiwan, Macau e até Shenzhen, para dizer que o Executivo tem vindo a negligenciar o campo cultural.
“O Governo tem um plano detalhado especificamente sobre a área cultural? Incentiva a produção de artigos e debates? Não. Se não se fala de cultura, como é que se podem trocar ideias e evoluir?”, questiona. “Ando a falar disto há tanto tempo que começo a ficar cansado.”
Lau Sai-leung tem obrigação de conhecer bem as limitações no diálogo entre académicos e autoridades governamentais. Em tempos, foi um crítico acérrimo das questões públicas, até que se juntou, enquanto consultor a tempo inteiro, à Unidade Central de Política, o organismo de estratégia para a Administração. Lau acredita que continuam por resolver problemas deixados pela gestão britânica e que a falta de valores nas decisões faz com que não haja procedimentos democráticos, necessários para resolver conflitos.
O académico confessa estar desiludido em relação à forma como têm agido elites e grupos de intelectuais locais. “Não se discutem conceitos artísticos – este é o grande constrangimento de Hong Kong. Não vamos atingir o estatuto de grande cidade se não formos capazes de alargar perspectivas”, frisa. Lau Sai-leung entende que chegou a hora de os intelectuais se expressarem e contribuírem para a evolução da cidade, em vez de estarem à espera que o trabalho seja feito pela Administração. “Considero que se comete um grande erro quando todas as expectativas estão direccionadas para o Governo. As autoridades de Nova Iorque e de Londres são todas elas vanguardistas?”, pergunta. “As elites servem para equilibrar a acção governativa, que funciona sempre, em última análise, tendo em vista a necessidade de angariar votos e o apoio da população.”
Ainda assim, acredita no futuro da cidade. “A RTHK não é, por certo, a BBC, mas nós temos bases sólidas. Para que possamos ser uma cidade global, precisamos de ter influência em termos regionais e mundiais, na área da economia, mas também ao nível cultural. Se conseguirmos que assim seja, quem cá vive terá mais orgulho na cidade e um maior envolvimento.”
Kahon Chan, em Hong Kong,
com Isabel Castro

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Acórdão do caso Ao Man Long é conhecido amanhã, Julgamento do processo conexo continua no TJB, João Guedes: O investigador presente do passado

TUI marcou leitura do acórdão para amanhã

O primeiro dia do resto da vida de Ao Man Long

Está marcada para amanhã, quarta-feira, a leitura do acórdão do processo que tem Ao Man Long como arguido. Acusado de 76 crimes, a maioria de corrupção passiva para acto ilícito e branqueamento de capitais, o antigo secretário para os Transportes e Obras Públicas está detido preventivamente desde 6 de Dezembro de 2006, tendo sido de imediato exonerado do cargo.
O julgamento mais mediático do pós-RAEM começou a 5 de Novembro último, com três audiências semanais a decorrerem, ao longo de mês e meio, no Tribunal de Última Instância (TUI), onde decorre o processo de Ao por este ser, à altura da prática dos alegados crimes, titular de um alto cargo do Governo.
O antigo governante negou, durante todo o julgamento, ter praticado os crimes que lhe são imputados. A acusação tentou provar que o ex-secretário recebeu ilicitamente 800 milhões de patacas em troca de favorecimentos de empresários, sobretudo da área da construção civil, em processos de concursos públicos e adjudicação de obras.
O Ministério Público arrolou como testemunhas vários dirigentes e funcionários dos dois departamentos que lidam com construções em Macau – o Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas (GDI) e a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT).
A inquirição destes grupos de testemunhas resultou em duas versões completamente distintas: enquanto a DSSOPT garante que Ao Man Long era o responsável pela decisão final na adjudicação de obras públicas - mesmo nas sujeitas a concurso público, cujos resultados mandava alterar -, os funcionários do GDI asseguraram que nunca houve qualquer manipulação de resultados nem indicações do antigo secretário em relação às adjudicatárias.
No processo de Ao Man Long, são feitas menções a mais de três dezenas de obras, a larga maioria de índole pública. No entanto, é ainda acusado de ter recebido elevadas quantias do empresário Ho Meng Fai por ter facilitado processos de inspecção relativos às obras privadas de três casinos de Macau.
Além dos crimes de corrupção passiva para acto ilícito, o arguido responde também por branqueamento de capitais. O ex-secretário controlaria várias empresas offshore, sedeadas fora de Macau, bem como contas bancárias que tinham os familiares e amigos como titulares, onde terá depositado as avultadas quantias que recebia dos empresários locais.
O julgamento de Ao Man Long ficou ainda marcado pelo facto de, segundo a interpretação da Lei de Bases de Organização Judiciária feita pelo colectivo do TUI, o arguido não ter direito a recorrer das decisões tomadas pelos juízes durante o julgamento e do acórdão que amanhã vai ser conhecido.
Embora o entendimento do TUI tenha sido expresso num despacho sobre a admissibilidade de um recurso interposto pelo defensor do ex-secretário, Nuno Simões, durante o julgamento, o colectivo aproveitou a oportunidade para deixar bem claro que, caso haja intenção de recorrer da sentença, o arguido não o poderá fazer, uma vez que, embora julgado em primeira instância pelo TUI, a lei não prevê instância de recurso para estes casos.
A questão gerou alguma polémica em Macau, com vários advogados a defenderem a alteração da Lei de Bases de Organização Judiciária. Se amanhã considerar o acórdão injusto, Ao Man Long não deverá poder recorrer, com a mesma impossibilidade a ser colocada ao Ministério Público, na eventualidade de discordar da decisão judicial.
Em meados de Dezembro, a terminar a audiência em que foram feitas as alegações finais, o presidente do colectivo do TUI responsável pela avaliação deste caso, Sam Hou Fai, não marcou qualquer data para a leitura do acórdão, alegando a complexidade do processo.
Num breve comunicado emitido ao final da tarde de ontem, o Tribunal de Última Instância informa que a leitura do acórdão do processo comum colectivo nº 36/2007, que envolve o ex-secretário para as Obras Públicas e Transportes, está marcada para as 15h30 de amanhã.

Isabel Castro

Quatro testemunhas oriundas da DSSOPT ouvidas em tribunal Instruções superiores não eram questionadas

Em mais uma sessão do julgamento do caso de alegada corrupção que envolve os familiares de Ao Man Long e três empresários, foram ouvidas três técnicos superiores das Obras Públicas e o chefe de divisão – todos membros de comissões de avaliação de obras submetidas a concurso público. Todos confirmaram ter recebido instruções dos respectivos superiores hierárquicos no sentido de proceder a “ajustes” em algumas obras de forma a garantir que certas empresas vencessem o concurso – é o caso do auto-silo de veículos pesados da Ponte Flor de Lótus, que resultou na atribuição, de acordo com as testemunhas, da obra à empresa Chong Tit.
O chefe de divisão das Obras Públicas, Lok Wai Cho, membro de várias comissões de avaliação, afirmou ter recebido instruções do chefe do departamento no que toca ao silo para automóveis pesados no COTAI para que, no final, vencesse a empresa Chong Tit. Foi o último depoimento, mas o mais marcante da audiência de ontem. O técnico, que nunca questionou a legalidade das indicações, afirmou, no entanto, que estas “não eram muito justas”. Questionado por Luís Pinto, advogado de Frederico Nolasco, a testemunha confirmou que os membros da comissão de avaliação recebiam as mesmas indicações e conversavam sobre o assunto. Indicações, contudo, que apenas iriam no sentido de favorecer a empresa e não de alterar de alguma maneira a pontuação atribuída, facto que o colectivo de juízes estranhou. Um depoimento, aliás, que não foi coincidente com o de algumas testemunhas, como o técnico superior dos serviços de Obras Públicas e Transportes, Lei Son Fat, que confirmou ter recebido instruções do seu superior hierárquico, Lok Wai Cho, no sentido de “ajustar a pontuação” – apenas no que toca à sua “especialidade”, a energia eléctrica. Isto quanto à construção do auto-silo da Ponte Flor de Lótus e o auto-silo do Jardim das Artes. “Não nos foi dada justificação”, disse perante o colectivo de juízas. Recebida tal instrução, Lei Son Fat afirma “não ter elevado a pontuação”, mas o resultado final coincidiu com o que alegadamente o superior hierárquico terá exigido. Quanto aos colegas de comissão, a testemunha afirmou desconhecer se tinham feito ajustamentos. Uma situação que, de acordo com a testemunha, era “rara”. Contudo, à pergunta do delegado do Ministério Público sobre se, nos concursos em que participou, em grande parte das obras com auto-silos, foram dadas instruções, a testemunha confirmou. Instruções “amigáveis” que comparou a “uma conversa entre colegas”.
Outro técnico superior do departamento das Obras Públicas, Chan Wei Hong, confirmou também ter recebido “indicações no sentido de serem retirados certos materiais da lista para que não constassem da classificação” por parte do superior hierárquico, Lok Wai Cho. Indicações que nunca questionou. “Não podia pôr em causa indicações do superior”, disse. Até porque há “certas coisas no trabalho em que nós não podemos ser extremistas e a minha pontuação não ia afectar a decisão final”. E confirmou que houve alturas em que os documentos por si entregues chegaram a ser devolvidos – mas “era raro”. Quanto aos colegas de comissão, apenas “deduz” que também lhes tenha sido comunicada essa instrução. Nos casos em que lhe foi pedido um “reajustamento” no que toca à sua área – elevadores, ventilação e sistema de combate a incêndio -, ficou “inconformado e sentiu-se inseguro”.
Quanto a eventuais imprecisões no depoimento prestado ontem, a delegada do Ministério Público alertou para o facto de, aquando das declarações prestadas ao Comissariado Contra a Corrupção (CCAC), terem sido mais pormenorizadas. “Recordava-me melhor. Na altura padecia de cancro e há dois anos fui operado”, justificou. Mas de algo se lembra – de que teve instruções verbais por parte do Lok Wai Cho no sentido de garantir que a empresa Chon Tit ficasse em primeiro lugar no concurso público que levou à construção do auto-silo. “Se é dito é para se fazer, uma pessoa não questiona”, afirmou. Instruções que apenas implicavam um clique “no sistema Excel e fazer ‘delete’ a certas rubricas”. E que normalmente podiam resultar em documentos preenchidos pelos membros da comissão que depois eram devolvidos aos técnicos.
Já a terceira testemunha, um técnico superior dos serviços de Obras Públicas e Transportes, Leong Sio Kuan, que também participou em algumas obras como membro da comissão de avaliação, nomeadamente no caso do Centro de Tiro, afirmou perante o colectivo que foi “necessário alterar o resultado” no sentido de “elevar a pontuação da empresa Sam Meng Fai”. Contudo, desconhece se os outros membros da comissão também procederam aos “ajustes”. Questionado por Pedro Redinha, advogado de Ho Meng Fai, Leong acabou por afirmar saber que “toda a equipa recebeu instruções”. Indicações que acabaram por resultar na alteração dos resultados, nomeadamente no que toca aos concursos públicos da obra do Centro de Tiro e da Capitania dos Portos. Se os colegas da comissão efectuaram também tais “ajustes”, a testemunha não soube responder.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Hotéis de Hong Kong tentam manter funcionários

Em Macau trabalha-se muito

A indústria hoteleira de Hong Kong está a tentar manter os funcionários ao oferecer um aumento salarial sem precedentes na história do sector. Este ano, e face a competição de Macau no que aos recursos humanos diz respeito, os salários auferidos nos hotéis da antiga colónia aumentaram cerca de cinco por cento.
A concorrência de Macau não é, contudo, tão alarmante como se possa pensar, a avaliar pelos dados agora revelados pelo director executivo da Federação de Proprietários de Hong Kong. Segundo Michael Li Hon-shing, cerca de um quarto dos trabalhadores da indústria que abandonaram Hong Kong para virem para Macau já não estão na RAEM. A razão? “Voltaram para casa porque, em Macau, os salários altos não compensam a grande carga de trabalho que têm”, afirmou o responsável.
Em declarações à imprensa da região vizinha, Michael Li Hon-shing avançou que a Federação chegou a acordo com as associações de trabalhadores do sector em relação a um aumento dos salários entre quatro a cinco por cento, além da atribuição de um bónus equivalente a três meses de vencimento para os 43 mil funcionários dos mais de 130 hotéis.
Um aumento salarial destas proporções na indústria hoteleira é algo que nunca aconteceu em Hong Kong, sendo que algumas unidades de três estrelas estão a oferecer compensações ainda mais generosas para garantirem o nível de competitividade.
Para Li, a questão da quantidade de recursos humanos não é a única que preocupa o sector. “Precisamos também de assegurar a qualidade, através da formação profissional”, expressou.
Em 2007, os hotéis de Macau deixaram as unidades de Hong Kong com menos dez por cento da mão-de-obra. Um resort da RAEM, que a imprensa da região vizinha não identifica, empregou mais de mil trabalhadores oriundos da antiga colónia britânica. No entanto, entre 20 a 30 por cento destes funcionários desistiram dos seus cargos e voltaram para Hong Kong, dada a sobrecarga de trabalho em Macau, derivada do reduzido número de trabalhadores nas unidades hoteleiras. Segundo a imprensa da região vizinha, alguns gestores não têm equipas para gerir e o muito trabalho que lhes é delegado não chega para compensar os salários mais elevados.
Não obstante este cenário, o director executivo da Federação de Proprietários de Hong Kong acredita que mais cem gestores deverão mudar-se, nas próximas semanas, para postos de trabalho na RAEM.
Para o período do Ano Novo chinês, a taxa de ocupação dos hotéis de três estrelas de Hong Kong atingiu já os 95 por cento, enquanto que as unidades de cinco estrelas têm já oitenta por cento dos quartos reservados. As perspectivas de negócio para este ano são animadoras, devido ao crescimento económico da China e ao permanente aumento do número de turistas do Continente. No entanto, ressalvou Li Hong-shing, o estado da economia norte-americana poderá ter repercussões para as receitas do sector. Por outro lado, a indústria hoteleira de Hong Kong tem estado a apostar na captação de turistas para que estes parem na região administrativa especial, antes de seguirem para Pequim para assistirem aos Jogos Olímpicos de 2008.

João Guedes, jornalista e escritor

O investigador presente do passado

São duas vidas completamente distintas, como se fossem as de dois homens, com Macau a marcar o fim de uma e o início de outra, em tudo diferente. Ou então não: a vinda para o território só alterou o método e o objecto. Ninguém pode ser quem não é e João Guedes transportou os hábitos e capacidades para um novo meio.
Já lá vão 27 anos desde que deixou de ser investigador criminal para passar a vestir a pele do jornalista. A verdade é que “o jornalismo é muito parecido, há muita investigação”. Hoje em dia, não tanta quanto gostaria, que a velocidade do tempo não o permite. É o jornalismo do quotidiano que faz os dias. Mas a investigação está lá sempre, de uma forma ou de outra.
Nascido na região de Lamego, há quase três décadas no território, João Guedes, jornalista da Teledifusão de Macau desde o início das operações da televisão, autor de vários livros, apaixonado por literatura e história, sente-se mais daqui do que de outro local qualquer. “É interessante, acaba-se por se gostar de Macau... e ao fim destes anos todos perde-se muito a ligação a Portugal”, sorri. “Vou lá todos os anos, mas é um país que já não tem muito a ver comigo. Tenho a família toda aqui, de modo que Macau é a minha pátria”, abrevia, com uma gargalhada.
Foi precisamente por questões familiares que se mudou para Macau. Para trás deixou a carreira de investigação criminal na Polícia Judiciária, que o levou a passar por Paris e Inglaterra. Em 1981, pediu uma licença ilimitada, que lhe foi concedida. Começava então a segunda vida, a de Macau.
O Gabinete de Comunicação Social era o destino à chegada. “Na altura, estava a formar-se a televisão e fui convidado para integrar a TDM. Estive dois ou três anos na rádio, depois passei para a televisão.” Contam-se um ano na Tribuna de Macau, um período no Correio de Macau e colaborações com outros jornais. Mas o território é significado de televisão, muita televisão.
“Colaborei no lançamento do novo figurino da informação, juntamente com Judite de Sousa, Fernando Maia Cerqueira e José Alberto de Sousa”, conta. “Em 1984, passei a apresentar o resumo da informação na televisão, segmento de notícias emitido, então, diariamente às 18 horas.” Um ano depois, chegava a apresentação do telejornal. Em 1987, começou a dirigir a informação da TDM. Treze anos depois, foi nomeado director de informação e programas portugueses. Desde Junho de 2005 que é assessor da informação para os canais portugueses de rádio e televisão.
Pelo meio, perde-se o número às entrevistas a nomes sonantes da política e da história, umas quantas viagens, programas e documentários sobre questões tão diversas como a presença de Camões em Macau, a história portuguesa no Japão e a vida no final da década de 1980 na Coreia do Norte. Ao trabalho na TDM junta o de correspondente, tanto de televisão como de imprensa, com colaborações para Agência France Press, a revista Sábado, o Hong Kong Standard e o Expresso, entre outros. Foi correspondente da CNN e da portuguesa RTP.
João Guedes tem uma ligação forte à forma de comunicação que a televisão assume, mas gosta também de rádio. “E gosto essencialmente de escrever”, sintetiza. E é aqui que entram os livros e que a capacidade de investigar encontra espaço para fugir aos limites que o jornalismo do quotidiano impõe. Quando chegou a Macau, descobriu que havia muito para descobrir. “As pessoas passavam por aqui um ano ou dois, a história ia-se esquecendo”, conta. “Lembro-me que, quando cheguei, encontrei temas que não fazia ideia sequer que existiam e só as pessoas mais velhas se lembravam de ter ouvido falar.” Depois, havia também os assuntos “tabu”, como o “1,2,3”. “Ninguém falava disso, acabei por escrever sobre o tema. O mesmo se passou com os conflitos de 1922, que já tinham caído no esquecimento.”
João Guedes escreveu sobre temáticas variadas, sempre com os séculos XIX e XX a servirem de enquadramento, e é o autor de um livro sobre uma questão sensível que nenhum escritor de língua portuguesa tinha, até então, abordado: as seitas. “Tive contacto com as seitas de Macau quando estava na Polícia Judiciária em Portugal”, recorda. “Quando cheguei aqui fascinou-me esse mundo. Tinha bons contactos na polícia, fui investigando a história e reparei que não havia nada em português sobre as seitas.” E assim escreveu livro “As Seitas - Histórias do Crime e da Política em Macau”, obra que aborda as associações secretas chinesas em Macau desde inícios do século XIX até 1978.
“Não é um trabalho muito profundo, mas foi o primeiro a aparecer em português. A bibliografia em inglês é extensíssima, mas em português só havia alguns artigos de jornal e um ou outro livro muito antigo que fazia referências às seitas”, analisa. O tema é “fascinante”, porque se trata de “um mundo de facetas, de aparências, de coisas que não se conhecem e, por isso, muito interessante de investigar”, sendo que continua a despertar interesse ao investigador que pediu licença ilimitada para ser jornalista em Macau. “Ainda hoje vou guardando coisas sobre as seitas mas não tenciono escrever mais nada sobre o assunto.”
Sobre outras questões João Guedes poderá ainda escrever mas, diz, está numa fase de “pouca produção literária”. No computador vão-se guardando textos mas não existem datas nem metas para cumprir. É o tempo que corre demasiado depressa e deixa poucas horas do dia para a pesquisa, trabalho do qual sente saudades, quer no papel de investigador, quer enquanto jornalista.
Macau tem pano para mangas para quem se interessar por história. E porque não o presente, investigar o que se passa agora? “Não acho que tenha grande interesse, mais a mais porque é difícil discernir as coisas, está tudo a acontecer muito depressa. Ao se escrever sobre o que se passa hoje corre-se o risco de dizer asneiras”, atira. É que Macau é um enigma.
“Não é possível conhecer Macau”, diz. Os 27 anos de residência a Oriente não acabam com a capacidade de ser surpreendido. “O território tem uma população flutuante muito grande, esta sociedade está em permanente mudança, ainda mais agora com os novos casinos e esta americanização, que traz coisas novas, forma movimentos diferentes”, analisa. “O quotidiano altera-se. Macau está hoje radicalmente diferente do que era antes de 1999, em todos os aspectos.”
Por uma questão de nostalgia, João Guedes “gostava mais do Macau antigo”, mas não vira as costas ao momento presente. “Não tenho nada contra este desenvolvimento. Acho que se está a desenvolver o melhor possível dentro dos condicionalismos que tem, porque Macau é uma cidade pequena e tem investimento a mais.”
É este desenvolvimento que faz com que o trabalho do dia-a-dia continue a ser “aliciante”. “Macau está numa nova fase, em que acontecem muitas coisas, é interessante ir acompanhando, continuam a acontecer coisas que não esperava.” Ao final de tantos anos, a cidade continua a surpreendê-lo. “Quanto mais conheço Macau, mais surpresas acontecem”, constata.
O jornalista que divide o seu tempo entre a televisão e os livros (os seus e os dos outros) descobriu que gostava de escrever ainda em adolescente, quando começou a ser redactor da revista do colégio onde estudou. Tinha uns 13 ou 14 anos e era colaborador da revista “Contr’O Vento”, publicação que acolhia artigos de escritores externos. “Alguns, como Frias dos Santos, eram apenas conhecidos a nível regional. Outros, como António Quadros e Aquilino Ribeiro, eram universalmente reconhecidos e dignavam-se inserir artigos nessas páginas.” Agora, “mais de quarenta anos passados, a honra que tal significa mais se me afigura importante”, diz. “Era um miúdo a redigir artigos tolos e eles os grandes escritores que escreviam coisas sérias e importantes”.
A paixão pela literatura vem desses tempos, “em casa toda a gente lia, havia essa mania”, e embora “a escrita a sério” tenha começado só em Macau, os hábitos de leitura vêm de sempre. Não é fácil fazer a lista de favoritos; Dostoievsky acaba por surgir em primeiro lugar. “Foi um dos escritores que me marcou fortemente. São romances densos, com aspectos sociais intensos, e que ainda tinham a ver com a vida do meu tempo.” João Guedes descodifica a comparação: “Portugal, antes do 25 de Abril, ainda não estava muito distanciado da Rússia do século XIX.”
Tolstoi faz parte também das preferências, bem como “alguns brasileiros”. “Vou enchendo a minha casa de livros. Ficar com o que leio só para mim é um bocado redutor.” Às terças-feiras, João Guedes partilha as palavras que lê com os espectadores da TDM. “Conto às pessoas o que leio e do que gosto.” É a literatura sempre presente. E a eterna ligação ao ecrã.
Os livros de João Guedes

As Seitas - Histórias do Crime e da Política em Macau,
Livros do Oriente, Abril de 1991.

Macau Via da Seda,
Missão de Macau em Lisboa, 1992.

O Sortilégio de Macau,
Com fotografias de António Conceição Júnior (inédito)

Laboratório Constitucional,
Livros do Oriente,
Instituto Português do Oriente, 1995

História do Desporto em Macau,
Inédito (Aguarda publicação).
Instituto dos Desportos de Macau, 1995.

Duas Instituições Macaenses (1871 – 1878 – 1998)
Em parceria com José Silveira Machado.
Edição APIM, 1998

Dicionário da História de Macau (em fase de publicação),
Instituto de Estudos Portugueses da Universidade de Macau.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn