domingo, 14 de outubro de 2007

O criador do “táxi de Cantão”, A paz no centro da cidade

Filipe Bragança, designer de automóveis

O criador do “táxi de Cantão”

Foi Macau, mas podia ter sido outro sítio qualquer, desde que fosse a Oriente. O então território sob administração portuguesa pouco lhe dizia, mas o facto de ser uma porta de entrada para a China não o fez pensar duas vezes. “Na altura, o país estava já a desenhar-se como a fábrica do mundo. Para um designer, o melhor sítio para estar é o local de produção, porque se pode acompanhar directamente o que se está a ser feito”, sentencia.
Filipe Bragança é português, as origens estão em Coimbra, mas cresceu e estudou na Suíça, onde viveu até se mudar para Macau, já lá vai uma década. Tem uma profissão pouco vulgar: concebe automóveis amigos do ambiente. Para a história ficará como o responsável pela criação do “táxi de Cantão”, um carro a energia eléctrica que deverá começar a circular em breve nas ruas da capital de Cantão, substituindo os actuais veículos de aluguer.
Designer industrial de formação, Filipe Bragança estudou no sítio certo para desenvolver uma paixão de miúdo: a indústria automóvel. Especializou-se no ramo e, pouco tempo depois, começou a desenvolver o conceito do desenvolvimento sustentável em matéria de transportes. Estávamos no início da década de 1990. Os países mais avançados da Europa apostavam em visões tecnológicas que na Ásia passavam despercebidas.
Num rápido retrato autobiográfico, Filipe Bragança conta que trabalhou, na Suíça, em vários projectos. “Eu fazia parte de um grupo de designers que eram consultores para grandes empresas como a Honda, a BMW, a Alfa Romeo e a Renault”. Trabalhou no desenvolvimento de projectos de concepção de automóveis mas também em grupos de investigação para “o desenvolvimento de meios de transporte que facilitam a deslocação de pessoas nos centros urbanos”.
Acabou por se tornar especialista na utilização de energias alternativas não poluentes na indústria automóvel. “Não são só carros para particulares mas também transportes públicos e motociclos, enfim, tudo o que é meio de transporte”. Quando ainda estava a viver na Europa, a equipa de Bragança desenvolveu um veículo a energia eléctrica com três rodas, uma tecnologia que é produzida actualmente na Polónia. Não imaginava, então, que a experiência viria a ser-lhe de grande utilidade em plena China, mais de dez anos depois.
A história da vinda para Macau é igual a tantas outras: um colega de trabalho sabia da sua vontade de experimentar a Ásia e há um dia em que Filipe Bragança é contactado pelo Instituto Politécnico de Macau para vir coordenar o curso de Design. “Queria vir para o Oriente, com duas finalidades: conseguir perceber a cultura e tentar aplicar toda a experiência europeia de alta tecnologia que tinha adquirido até ao momento”.
O designer admite que “pouco sabia” de Macau. “A verdade é que só quando se vive cá é que se sabe mesmo”, constata. Veio encontrar um mundo completamente diferente daquele a que estava habituado. “Foi como da noite para o dia. Na Suíça é tudo programado, muito limpo, em ordem, arrumadinho, as coisas funcionam. Não há uma noção de hierarquia tão forte como aqui.” Na enunciação das diferenças, espaço ainda para a rapidez de acção a partir do momento que as decisões são tomadas. “Este mundo é completamente diferente, há uma fase do processo que na China acontece mais devagar”.
Não obstante o contraste entre o “caos” asiático e a asséptica Suíça, o português que poucas vezes tem oportunidade de falar a língua materna adaptou-se bem. “Por uma questão de feitio mas também devido à minha profissão”. É que, explica, “estando aqui há uma série de coisas que é mais fácil de pôr em prática. Já na altura, “a margem de desenvolvimento de novas ideias nos países do norte da Europa era bastante reduzida porque, em matéria de design - da cadeira à televisão, passando pelo automóvel - tínhamos chegado a um nível bastante alto”.
No plano prático, a Europa apresentava ainda outra dificuldade: o custo do desenvolvimento das ideias. “Temos sempre que criar um protótipo, o que sai bastante caro. Estando numa zona onde as matérias-primas são baratas e fáceis de encontrar, é muito mais fácil avançar para a concretização de novos produtos”.
Nos primeiros anos de experiência de Macau, as atenções estiveram viradas para a coordenação do curso de Design do Instituto Politécnico. Em 2001, o curso foi reestruturado, Bragança saiu do estabelecimento de ensino e criou uma empresa de design. Foi nessa altura que a vida lhe pregou uma irónica partida que seria decisiva, segundo conta, para o início de uma nova fase em Macau.
“Em tom de brincadeira, disse-lhes que fazia melhor por menos. No dia seguinte, convidaram-me para fazer uma apresentação para o Governo da província de Guangdong.” As autoridades chinesas perguntaram-lhe se estava interessado em desenvolver um projecto para ser aplicado a táxis, Filipe Bragança apresentou o conceito e deu-se início ao processo que agora está em fase de protótipo
“Tive um acidente de viação bastante grave, na Ponte Nobre de Carvalho, que me fez parar durante um período de ano e meio”. A actividade profissional sofreu um interregno, a vida pessoal também mudou, e quando a situação voltou à normalidade passou a ser tudo diferente.
Filipe Bragança foi “descoberto” por um grupo de Hong Kong que sabia que havia um designer de automóveis em Macau. “Na altura, eu era o único no Delta do Rio das Pérolas”. A empresa em causa investe em instituições de ensino superior na China, através da instalação de novas tecnologias, e tinha acabado de levar um equipamento para a Universidade de Tecnologia de Cantão. Dava-se o caso de ninguém o saber utilizar.
“Convidaram-me para ir dar um seminário. Tive oportunidade de ver o que pretendiam e quais as necessidades que tinham”, relata. Pouco tempo depois, aquando da entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMS) foi chamado para uma segunda palestra, desta feita “sobre os desafios da China em matéria de design, face o contexto da adesão à OMC”. Bragança conta que foi “um sucesso, era um designer no meio de todos aqueles industriais, que estavam à espera que eu lhes desse umas receitas mágicas para os fazer vender ainda mais”.
Entre a audiência estavam os responsáveis de uma empresa que tinha desenvolvido um carro eléctrico, “onde tinham já investido milhões”, e que lhe mostraram o projecto. “Em tom de brincadeira, disse-lhes que fazia melhor por menos e o que aconteceu foi que, no dia seguinte, convidaram-me para fazer uma apresentação para o Governo da província de Guangdong.” As autoridades chinesas perguntaram-lhe se estava interessado em desenvolver um projecto de carro eléctrico, para ser aplicado a táxis, Filipe Bragança apresentou o conceito e deu-se início ao processo que agora está em fase de protótipo.
“O carro anda, funciona muito bem. É dos carros eléctricos de quatro lugares mais rápidos a nível mundial”. Em preparação está a produção de uma mini-série, mas o todo o processo está a demorar mais do que o previsto. “O protótipo deveria ter ficado pronto cerca de um ano e meio mais cedo, só ficou concluído este ano, em Maio”. O “táxi de Cantão”, nome pelo qual é conhecido, ainda não foi baptizado, o autor criou só uma categoria, que se chama ECUV, as iniciais de “Electric Commuter Urban Vehicle”.
As autoridades de Hong Kong também estão interessadas em participar neste projecto, o designer fez uma série de seminários sobre o assunto na região vizinha e sabe que estão a decorrer conversações há cerca de dois anos. Quanto à RAEM, o director do curso de Design recentemente criado pelo Instituto Inter-Universitário de Macau não foi contactado no sentido de trazer para cá a tecnologia amiga do ambiente.
Embora não esconda o desejo de um dia ver o ECUV a circular nas ruas da cidade, Filipe Bragança, que é também professor da Universidade Sun Yat-sen de Cantão, é um português muito mais próximo da China do que do antigo território sob administração portuguesa. Em tom pragmático, explica que “em Cantão fizeram-me uma proposta, ofereceram-me condições que outros não ofereceram”. Criou uma equipa de raiz na universidade chinesa, é um dos fundadores do laboratório de engenharia da instituição académica, local onde foi construído o protótipo.
“Claro está que gostava muito que chegasse a Macau, a Hong Kong, a Singapura”, sublinha. Responsável pelo design de outros veículos, o táxi de Cantão tem um significado especial. “Só não desenhei o motor, tudo o resto é meu”, conta. Do design da carroçaria ao do interior, passando pelo tamanho do chassis à estrutura do carro, o trabalho é todo de Bragança.
Recentemente, foi o responsável pela concepção de design de um outro carro, também ele a energia eléctrica, que já está a ser produzido para testes em Zhuhai, e que deverá ser comercializado em Portugal. O EMUV (“Electric Mobility Urban Vehicle”) é um citadino de pequenas dimensões, de quatro lugares ou “dois mais dois”, que faz lembrar o Smart. A semelhança não é motivo para espanto. “Um dos meus primeiros projectos foi para o Smart, fiz parte da equipa que desenhou o primeiro protótipo, que mais tarde foi vendido e desenvolvido pela Mercedes-Benz”.
No caso do EMUV, Filipe Bragança é o responsável pelo design da carroçaria, estando a restante concepção a cargo da empresa que o produz. No entanto, sublinha, “os carros são feitos na China mas a qualidade é a de um produto europeu, está concebido de acordo com as mais recentes normas europeias de segurança”.
O mesmo princípio de aplica ao “táxi de Cantão” mas como o projecto é todo ele da autoria do designer, a relação com o objecto é mais forte. É quase como se fosse um “filho com quatro rodas”. “A primeira vez que o testei foi só com o chassis, sem a carroçaria. Acho que ainda hoje não tenho a consciência plena do que senti”, recorda. “Adoro conduzir, os carros são a minha paixão, então até me esqueço de que fui eu que o fiz”.
Bragança conta que quando está a fazer testes no circuito, dentro do campus universitário, “há carros que param e querem ver o meu, até fico admirado com estas manifestações”. “É aí que percebo o potencial do projecto, se bem que, do meu ponto de vista, este estilo de design já está um pouco ultrapassado”.
Para o criativo, o design tem que ser “provocador”. “As pessoas podem gostar ou não, mas falam, discutem, e isso é o mais importante. A minha filosofia no design é criar momentos e produtos que façam as pessoas reagir”. Quanto à sua própria reacção, acredita que acontecerá quando o EMUV passar do protótipo para a comercialização. “Espero trazê-lo para Macau e conduzir aqui. Então, claro está que vou sentir que o carro é meu”, sorri. “Afinal, é a minha assinatura a circular”.

“Verde” por dentro e por fora

Não é só o facto de funcionar a energia eléctrica que faz com que o ECUV, nome técnico para o “táxi de Cantão”, seja um carro amigo do ambiente. “Isto não é só um veículo com quatro rodas, mas sim um conceito de construção ambiental. Todo o processo envolve uma cadeia baseada no desenvolvimento sustentado”, explica Filipe Bragança, o autor do projecto.
Além de utilizar uma energia não poluente, a carroçaria do EMUV não é convencional, uma vez que dispensa o metal. “É construída num material ao que se poderá chamar primo do plástico, é da mesma família”. Este material dispensa a utilização de tintas, o que minimiza o impacto ambiental, porque a carroçaria já é construída da cor que se deseja.
“Insere-se um pó num molde que funciona por rotação. Não são precisas tintas, o que faz com que o tempo de produção, o espaço necessário e os poluentes sejam reduzidos substancialmente”. Ou seja, não é só o produto final que respeita o ambiente, mas todo o processo de construção do veículo.
Com uma série de desenhos e fotografias na mão, Bragança descodifica a sua criação. “O chassis é como se fosse uma prancha de skate, onde se pode incorporar qualquer design de exterior. A mesma plataforma aguenta capas diferentes”, diz. “O carro não tem pilar B, o que facilita imenso o acesso, não só para táxis como para veículos familiares”. A carroçaria não tem a divisão comum dos carros entre as portas da frente e as de trás. No ECUV, quando as portas se abrem, surge um espaço único, mais amplo e de fácil acesso.
O “táxi de Cantão” foi desenhado a pensar na confusão das cidades. “As portas são em ‘borboleta’, o que dá a vantagem de poder estacionar em sítios estreitos, porque só são precisos 20 centímetros para se puderem abrir”. As portas sobem, ocupando espaço na vertical e não na horizontal.
Quanto à autonomia do carro, as baterias do ECUV aguentam entre 250 a 400 quilómetros, dependendo da velocidade a que se conduza. “Fizemos testes a 96 quilómetros à hora e atingimos os 400, mas foi a uma velocidade constante, em auto-estrada”. Para carregar estas baterias, existem várias formas. Na corrente comum, demoram entre seis a oito horas mas existe um método mais rápido, “uma descarga eléctrica”, que prepara o carro em apenas sete minutos. “É o mesmo tempo que se demora numa bomba de gasolina”, compara o designer. “O conceito prevê ainda que se possa mudar as baterias numa estação semelhante às automáticas para lavagem de automóveis”. O carro entra, é içado, a bateria é substituída, volta ao nível do chão e está pronto para seguir viagem, depois de uma “ida às boxes” de cinco minutos.
A velocidade máxima a que o EMUV anda é determinada pelos construtores. O protótipo feito em Cantão chega aos 130 quilómetros por hora, mas tem capacidade para circular a 185.
Filipe Bragança garante que se trata de um veículo muito fácil de conduzir. “Tem cerca de 50 por cento menos de componentes do que um carro convencional. O condutor pode concentrar-se muito mais na estrada. Só precisa de acelerar e travar, não tem caixa de velocidades, mas também não é um carro automático”. O designer explica: “Existe um redutor que transforma a energia. Quando se acelera é porque queremos mais energia, que vai das baterias para o motor eléctrico”. A caixa de velocidades não existe – há lugar apenas para uma pequena alavanca com duas posições, “para a frente e para trás”, e um ponto neutro.
De aspecto futurista, este carro não é, sublinha Filipe Bragança, um “carrinho de golfe”. É um “automóvel a sério, que se conduz muito bem”. A grande diferença em relação à maioria dos veículos que circula no mundo é o grau de amizade com o ambiente. O EMUV é todo “verde”, por dentro e por fora.
Isabel Castro
António Falcão/ bloomland.cn

Passos em volta

Esta cidade é como as pessoas: quando se olha para o mapa, não se encontram duas ruas iguais. Cada bairro tem as suas histórias, vontades, artes, desejos, esperanças e desesperos. Os seus segredos sussurrados. São passos em volta à redescoberta da urbe.

Colina da Penha a partir do Largo do Lilau

A paz no centro da cidade

São passos em redor do Largo do Lilau aqueles que propomos esta semana. “É o convite a um percurso saudável e calmo, onde andar a pé permite contemplar espaços verdes e também elementos da História”, descreve o designer Manuel Correia da Silva, anfitrião destes momentos de (re)descoberta da cidade.
O Largo do Lilau é o ponto de partida e de chegada para uma viagem que contempla duas realidades distintas, sempre à volta da Colina da Penha. “De um lado, na direcção do Porto Interior, temos a Macau ‘real’, densamente povoada,” aponta Correia da Silva. Do outro, encontram-se os exemplares mais distintos da arquitectura habitacional de Macau, “o local onde vive a alta sociedade local, o Palácio de Santa Sancha, o antigo Hotel Bela Vista, entre outros edifícios”.
Existe outro aspecto de interesse que o designer realça: o facto de, neste espaço da cidade, estarem alguns dos monumentos classificados pela UNESCO na lista de Património Mundial. Ainda no Lilau, vê-se a Casa do Mandarim, juntamente com outros edifícios antigos que vale a pena observar ao pormenor (1).
O Lilau, que em tempos se chamava “Nilau”, tem associado ao espaço a famosa bica, que já não existe mas deu origem ao célebre “quem bebe água do Lilau, não mais esquece Macau”. A designação “Nilau” era também usada para identificar o que hoje conhecemos como sendo a Colina da Penha. Em 1622, quando foi construída a ermida em honra de Nossa Senhora da Penha de França, esta zona passou a ter então um nome mais católico.
Pela Rua de Santiago da Barra chega-se ao Quartel dos Mouros, edifício que integra também a lista da UNESCO. Nesta artéria da cidade, Manuel Correia da Silva chama a atenção para um pormenor num “edifício em decadência, um brasão português que está ainda conservado” (2). “São estes pormenores que vale a pena contemplar com atenção”, sublinha.
Subindo a Colina da Penha, “de costas para o Porto Interior e a caminho da parte nobre, existem locais excelentes para ver a cidade, como o Miradouro de Santa Sancha”. Para Correia da Silva, embora a zona de Macau seja muito central, a sua elevação e as características que se mantêm permitem um “certo distanciamento do resto da cidade”. É um espaço propício à reflexão.
Junto ao Palacete de Santa Sancha, a paisagem enche-se de verde (3), “um aspecto desta zona que faz com seja única neste contexto urbano”. Toda a área mantém uma dignidade e imponência que só a História é capaz de dar, se bem que a Penha de hoje seja, do ponto de vista arquitectónico, menos rica do que foi no passado. O Palacete de Santa Sancha, actual residência oficial do Chefe do Executivo, foi construído na segunda metade do século XIX, pelo Barão do Cercal, António Alexandrino de Melo. Proprietário também do que viria a ser o Palácio do Governo, o Barão caiu em desgraça e vendeu as duas propriedades por uma bagatela.
Depois de ter sido alugado às Missões Estrangeiras de Paris, foi adquirido pelo empresário Herbert Dent, conta o P. Manuel Teixeira. Em 1923 foi vendido ao Governo, chegou a ser uma maternidade durante dois anos e depois serviu de espaço a um museu. O Governador Tamagnini Barbosa elegeu o palacete para sua casa, onde morreu em 1940, tendo os seus sucessores mantido o edifício para residência oficial.
Não muito longe, um outro exemplo de arquitectura colonial: o antigo Hotel Bela Vista, actual residência consular de Portugal em Macau (4). Inscrito em 1900 na Conservatória do Registo Predial com o nome Boa Vista, pertencia a um capitão da Marinha Mercante Inglesa, William Edward Clarke, que o hipotecou pouco tempo depois.
Espaço de aventuras e de desventuras, chegou a ser propriedade da Santa Casa da Misericórdia, até ser adquirido pelo Governo, em 1923. Entre 1934 e 1937, esteve alugado ao Governo inglês e, nos anos da invasão nipónica na China, foi o tecto de refugiados oriundos de Xangai. O P. Manuel Teixeira atribui a este período a alteração do nome para Bela Vista, modificação esta feita oralmente, uma vez que não chegou a registada, de acordo com as suas investigações.
No antigo Hotel Bela Vista, é tempo de regressar ao ponto de partida. Manuel Correia da Silva destaca outros detalhes urbanos, de um género completamente diferente, que podem ser encontrados no caminho de regresso. “Como este edifício que tem uma estrutura muito interessante”, diz, olhando para uma construção emoldurada a vermelho (5). “Já estamos numa realidade completamente diferente”.
É desta multiplicidade de elementos urbanos que Macau se faz. Estes passos em volta privilegiaram um dos últimos redutos de paz quase total.

Manuel Correia da Silva*, percursos e imagens
Isabel Castro, texto
* É designer em Macau. Em 2004, foi o vencedor de um concurso do Instituto Cultural sobre os percursos históricos da cidade, no âmbito da conservação do património de Macau.



sábado, 13 de outubro de 2007

Tai chi chuan em Macau

Aprender tai chi chuan em Macau

A arte da paciência

As rápidas transformações da tecnologia e da economia fazem com que as pessoas que vivem sob influências urbanas tenham uma vida cada vez mais stressante. Não pára de aumentar o número de gente que, dia após dia, passa pelo menos oito horas em frente a um computador.
Além do facto de serem cada vez mais reduzidas as possibilidades de exercitar o corpo com regularidade, a sensação de cansaço bate à porta mais cedo. Os tempos da guerra por estas bandas já acabaram, mas há uma violência urbana que produz efeitos bem visíveis.
Numa tentativa de contrariar esta tendência, são muitas as pessoas que optaram por praticar exercício físico, não só para libertar as tensões acumuladas no quotidiano mas para manterem também o bem-estar físico. Além das modalidades desportivas mais comuns, como o futebol, o basquetebol e o ténis, as técnicas milenares de exercício físico parecem estar a ser reabilitadas e a conhecer uma crescente popularidade.
O ioga, com origens na Índia que se perdem no tempo, é talvez o melhor exemplo desta recuperação de técnicas antigas, sendo uma actividade popular em Macau, dada a oferta variada de escolas e programas. Mais enigmático e menos acessível à maioria das pessoas que não falam chinês é o tai chi chuan.
Arte marcial tradicional da China, o tai chi chuan tem origem no Taoísmo. Erradamente considerado um desporto destinado à terceira idade, a actividade é, na realidade, uma forma efectiva de libertar a tal violência urbana acumulada e pode desempenhar um importante papel na formação de jovens. Em termos práticos, começa-se por treinar um conjunto de movimentos muito lentos, que podem ser usados como forma de luta.
O que torna o tai chi chuan especial e o distingue das artes marciais convencionais é o facto de não se usar a força como trunfo. A quietude vence o movimento, a dureza é vencida pela suavidade e o rápido é batido pelo lento. A subtileza é a arma mais forte nesta arte que encontra uma forte ligação à filosofia de Lao Tse.
Das várias escolas de Macau, a da família Ng é considerada uma das mais famosas e tradicionais. Em 1953, Ho Yin, o pai do actual Chefe do Executivo, Edmund Ho, organizou um espectáculo de tai chi chuan que serviu para recolher fundos para as obras de caridade do Hospital Kiang Wu. Para o combate foram convidados o filho mais velho da família Ng, Kung Yi, que na altura tinha 53 anos. O adversário, Chan Hac Fu, de uma outra escola, era muito mais novo, com apenas 35.
Sabia-se, desde o início, que não iria haver um vencedor nem um vencido, nem sequer um empate. No entanto, o estilo elegante do mestre Ng convenceu o público, elevando a consideração dos peritos na matéria pela escola da família.
No próximo dia 23, vai ser inaugurada com pompa e circunstância a Associação de Pesquisa de Tai Chi Chuan da Família Ng. O movimento é liderado pelo mestre Lau Wing Him, um antigo discípulo de Ng Kung Chou, o segundo filho da afamada família. Nascido em 1930 em Cantão, o mestre Lau começou a aprender tai chi chuan com 21 anos de idade.
“Quando era novo não tinha noção do impacto real deste tipo de exercício, praticava tai chi chuan porque queria desenvolver determinadas capacidades”, conta. À medida que o tempo foi passando, as perspectivas foram-se alterando e começou a sentir os benefícios da prática a longo prazo, pelo que não esconde a gratidão que sente pelos seus mestres.
Ao olhar para o rosto sorridente de Lau Wing Him, dificilmente se imagina que é também um conceituado mestre de kung fu. Aos 77 anos, enquanto explica aos alunos algumas técnicas de tai chi chuan, mostra como é que uma série de movimentos subtis, sem o emprego de qualquer força, pode fazer os estudantes recuar alguns passos ou até mesmo com quem percam o equilíbrio e acabem no chão.
Com um sorriso sereno, o mestre Lau conta que o segredo está no “estudo da força”. “A essência do tai chi chuan consiste no aproveitamento da violência oriunda do adversário. Temos que aprender a usar e a redireccionar essa força de modo a que atinja quem a despoletou. Quanto maior for a força do adversário, maior será aquela que vai receber em resposta”. O professor realça que esta prática milenar tem como objectivo tornar as pessoas “mais pacíficas”. “Claro está que, se formos atacados, não vamos ficar parados sem reagir. Acabamos com a violência devolvendo-a à sua origem”.
Lau começou a dar aulas de tai chi chuan na China em 1958. Em 1981, mudou de continente para ir viver no Equador, onde esteve a trabalhar num restaurante pertencente a familiares. Durante os tempos livros partilhava a arte do tai chi chuan com a comunidade chinesa radicada no país e também com alunos locais.
Em 1995, decidiu regressar à China mas acabou por não ficar muito tempo na sua terra natal, tendo sido convidado para dar aulas na Europa e nos Estados Unidos da América. De país em país, foi ensinando os mistérios do tai chi chuan até que voltou ao Oriente e se fixou em Macau.
Sobre o ensino da arte a estrangeiros, Lau Wing Him diz que é frequente encontrar alunos mais empenhados do que os de nacionalidade chinesa. “A única dificuldade para o estrangeiros na aprendizagem prende-se com o facto de serem oriundos de uma cultura muito diferente. Por vezes, é difícil traduzir expressões filosóficas chinesas aos principiantes”, refere.
Não desanimem, no entanto, as pessoas interessadas em começar a praticar. “À medida que vão treinando, esta questão resolve-se porque aprendem mais com a experiência que vão tendo do que com aquilo que eu lhes possa transmitir oralmente”.
Em relação ao processo geral de aprendizagem de tai chi chuan, o mestre Lau diz que “ter paciência é importante”. “Os alunos têm que acreditar nos princípios básicos, não se devem esquecer que a dureza é vencida pela suavidade”, recomenda. “Uma vez que o tai chi chuan não depende da força, tem que se ultrapassar a tentação de a utilizar. Quem ignorar esta ideia e recorrer constantemente à força física nunca será capaz de apreender o verdadeiro espírito do tai chi chuan”, avisa.
Convidado a fazer uma avaliação das suas próprias capacidade enquanto praticante, Lau sorri de novo e diz nunca ter participado em competições. “Na China organizam-se muitas competições como forma de espectáculo, de exibição. Às vezes sou desafiado mas recuso”, afirma.
“O verdadeiro objectivo do tai chu chuan não é o combate, mas sim o nosso bem-estar e o equilíbrio do que nos rodeia”, vinca o mestre. “Não posso dizer que sou o melhor praticante do mundo, mas tenho a certeza de que sei o que é o espírito do tai chi chuan”.
Alice Kok com Isabel Castro
Fotografia: Alice Kok

A associação onde o Mestre Lau dá aulas aceita inscrições de alunos de todas as idades e nacionalidades. Está localizada na Rua da Restauração, nº 27C-D, r/c, em Macau. O telefone é o 2821 6962.


Outros temas na edição impressa:

Obras da primeira fase começam para o ano - Macau com metro em 2011
Comité Central do PCC termina sessão plenária nas vésperas do Congresso - Limpezas à casa
Governo aposta na energia importada de Zhuhai - Central da CEM vai abaixo
Venetian com todas as lojas abertas até ao Natal - Complexo da ilusão









sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Danças em competição, Uma radiografia da violência infantil na China

Selecção de Macau aposta dois trunfos para Jogos em Recinto Coberto

Competição no salão de baile

Em frente ao Centro de Actividades Turísticas, jovens de calças largas e ténis ensaiam movimentos ao som de hip hop enquanto se miram no reflexo dos vidros. O ar é concentrado, mostrando muita devoção à dança. No piso mais acima, no entanto, a música já é outra. Os bailarinos são mais velhos.
Bailando aos pares, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, o grupo ignora a melodia que sai das colunas da aparelhagem de áudio. Estes casais estão unidos pela paixão à modalidade e por um objectivo muito particular. Não fossem eles a selecção de Macau de dança desportiva que, dentro de duas semanas, irá participar nos 2.os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto (JARC).
São 10 as duplas que vão rodopiar no salão de baile em defesa da bandeira da RAEM. O evento desportivo terá dois estilos em competição: standard e latino. A Federação de Dança Desportiva de Macau (FDDM) apostou em ambos os ritmos com quatro pares a dançar ao som do samba, cha cha cha, rumba, paso doble e jive, e outros seis na valsa, tango, valsa vienense, foxtrot lento e quickstep.
Segundo a organização dos JARC, a dança desportiva está entre as modalidades mais concorridas em termos de público. A FDDM não quer desiludir a população local e decidiu jogar com os trunfos mais altos: dois pares campeões.
Michelle Loi e Dickson Zhou são parceiros no salão de baile desde 2000 e vencem tudo o que há de torneios de danças latinas no território há cinco anos consecutivos. A experiência ainda não conseguiu, contudo, matar o friozinho no estômago que surge com a aproximação dos JARC. “Estamos um pouco ansiosos e nervosos, mas queremos ganhar para honrar Macau”, afirmou o elemento masculino e professor de dança.
A China e o Japão são os adversários mais temidos, com muitas provas dadas nas rodas competitivas. “A RAEM está ainda muito atrasada nesta modalidade. Existe uma grande diferença entre nós e os outros participantes. Em primeiro lugar, temos pouca população e, noutros países asiáticos, os pares começam a treinar desde a escola primária”, explicou o mesmo responsável.
Na última competição internacional na qual estiveram presentes, os atletas conseguiram o 3º lugar. Este ano, Michelle e Dickson ensaiam a pensar num dos três degraus do pódio. As expectativas da dupla estão mais concentradas na rumba, mas também vão dar um pé de dança no cha cha cha e no “medley” dos cinco estilos.
Na sessão de treino livre, os ritmos das músicas vão-se alternando entre latinas e standard. Nada que afecte a concentração dos bailarinos, que estudam os passos ao pormenor, com cada movimento do elemento feminino a emanar sensualidade. “Comecei a dançar aos 14 anos. Via os meus pais e achei que era uma actividade especial. Gosto da música, a forma de expressão e o facto de me sentir sensual”, destacou Michelle. As nódoas negras dos dedos dos pés que saem de fora dos sapatos de salto alto deixam adivinhar horas e horas de treino.
O par de campeões dispensa a atenção do treinador. Alan Li ocupa-se dos bailarinos mais jovens. “O Governo deu-nos apoios para o aluguer das instalações e para trazer especialistas de fora do território”, explicou a directora executiva da FDDM, Fiona Tang. Li, o ex-dançarino com 25 anos de experiência e 11 vezes campeão, vem de Hong Kong dois dias por semana para auxiliar na preparação dos atletas.
Na formação das danças standard, a situação é mais complicada. A federação contratou dois treinadores da China, mas só estão disponíveis uma vez por semana. “Têm uma agenda muito preenchida”, sublinhou a mesma responsável.
À custa das circunstâncias, a equipa das valsas e do tango teve que ser dividida em dois grupos – os atletas com um nível mais elevado e os menos experientes.
No Coliseu da Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental de Macau, as atenções vão estar também focadas em Ken Iong e Shirley Wong, o par campeão nas danças clássicas. Conheceram-se no salão de baile, casaram e competem de mão dada há uma década.
É ao som das melodias tristes do tango e da valsa vienense que se sentem mais confiantes. O casal está consciente, porém, da sua condição de amador e não tem aspirações muito elevadas para os JARC. “Esperamos ficar no top 6 ou, na melhor das hipóteses, nos três primeiros lugares. Sabemos que é muito difícil competir com a China, Japão e Coreia do Sul”, sustentou Shirley.
Campeões à parte, a selecção da RAEM tem dois ou três anos de experiência. Um “handicap” que condiciona muito a conquista de pontos no salão de dança.
Tirando as dificuldades em organizar treinos e encontrar professores medalhados, nada parece estragar a música da equipa do território. A 14 dias do começo dos JARC há, apenas, um pormenor ainda por resolver: as indumentárias dos bailarinos estão a dar dores de cabeça a Fiona Tang.
“O Governo não quer dar subsídios para os fatos porque, no ano passado, financiou roupas novas dos dançarinos para os Jogos Asiáticos. Os elementos da selecção não querem usar os mesmos vestidos como sinal de respeito ao novo evento desportivo”, referiu. O número de diamantes das vestes da selecção da RAEM vai então depender do bolso de cada participante.


Homens precisam-se

“Há muita gente interessada em aprender danças de salão em Macau, principalmente os jovens. O problema é que há um desequilíbrio entre os sexos. Há mais elementos femininos a querer dançar do que masculinos”. Pretendentes não faltam à Federação de Dança Desportiva de Macau (FDDM), como explicou a directora executiva, Fiona Tang. O mais difícil é conseguir formar pares.
Além disso, é necessário que os níveis de técnica, estatura física e até a personalidade coincidam nos dois dançarinos. Só assim conseguirão alcançar o sucesso de mão dada nos salões de baile das competições internacionais.
De dois em dois meses, a FDDM em parceria com o Instituto do Desporto organiza um curso para principiantes. Para quem preferir um método de ensino diferente, os membros da associação desportiva promovem aulas privadas.
Criada em 2001, a FDDM tem cerca de 60 pares que participam em competições locais, dos quais 18 são representantes da RAEM nos eventos internacionais. Para ver com os próprios olhos como se dança em Macau basta aparecer no próximo torneio aberto que terá lugar entre Novembro e Dezembro deste ano.
Alexandra Lages
António Falcão/ bloomland.cn

Agência oficial chinesa faz radiografia crítica da violência infantil no país

O direito a crescer devagar

É necessário que toda a sociedade se mobilize para defender as crianças da violência. “Os pais precisam de reformular conceitos e adoptarem métodos de educação modernos. O Governo deve também criar um sistema de monitorização mais eficaz para proteger as crianças dentro e fora de casa”
Chen Cai tem 17 anos mas é magro e tímido como uma criança. É assim que a Agência Xinhua descreve este adolescente que cresceu antes do tempo e que é apenas um entre os muitos jovens e crianças da China sem direito à infância.
Numa reportagem com uma abordagem pouco comum dos problemas sociais do país, a agência oficial chinesa conta que Chen foi vítima de trabalhos forçados e de tortura numa fábrica de tijolos detida por um privado, na província de Shanxi, no norte da China. A experiência não lhe deu tempo para continuar a ser miúdo.
Natural da província de Sichuan, no sudoeste do país, Chen desistiu da escola no ano passado para poder contribuir para a economia da família, com grandes dificuldades financeiras. O jovem foi levado à força da terra natal e vendido à fábrica de tijolos, onde era obrigado a trabalhar 20 horas por dia e punido à chicotada, ao menor sinal de desobediência.
Quando foi encontrado por assistentes sociais, em Junho passado, na sequência de uma mega operação policial na China – despoletada por queixas de pais cujos filhos tinham sido raptados -, Chen tinha o pulso direito partido. “Pensei que ia passar o resto da minha vida como escravo”, desabafou o jovem, a recuperar dos meses de pesadelo no Centro de Prevenção para o Abuso de Crianças, em Xian, no noroeste da província de Shaanxi.
Depois de várias semanas de tratamento, Chen já consegue mexer a mão outra vez, mas as marcas psicológicas são bem mais difíceis de curar. No centro de Xian, recebe acompanhamento médico gratuito e também aconselhamento psicológico.
O centro, patrocinado pela Sociedade Internacional para a Prevenção do Abuso e Negligência Infantil (ISPCAN, na sigla em inglês) e pelo Hospital da Amizade de Shaanxi, é a primeira instituição não-governamental na China a assegurar tratamento médico e psicológico a crianças vítimas de abusos. Desde a abertura do centro, em Janeiro do ano passado, foram tratadas mais de 90 vítimas de abusos psicológicos, emocionais e sexuais, explicou à Xinhua o fundador da instituição, Jiao Fuyong.
“Os abusos e as atitudes negligentes causam muitas mortes e doenças graves entre as crianças chinesas, principalmente nas zonas rurais”, vincou o responsável. O antigo pediatra do Hospital Popular Provincial de Shaanxi contou ter tratado muitas crianças com ferimentos e até fracturas dos ossos provocados por maus tratos na escola e em casa.
“Muitas vítimas não têm acompanhamento apropriado às situações que viveram”, disse. “São poucas as pessoas que encaram este problema de forma séria, porque na China acredita-se que este tipo de preocupações são típicas de quem quer estragar as crianças com mimos”, criticou.
Numa pesquisa efectuada em Dezembro passado por Jiao e o seu grupo de trabalho, chegou-se à conclusão de que 60 por cento dos alunos de 276 escolas primárias são vítimas de violência doméstica por alegado mau comportamento ou aproveitamento escolar insuficiente.
Desde o passado dia 1 de Junho que a China tem nova legislação sobre esta matéria. A Lei de Protecção de Menores condena a violência familiar para com as crianças. No entanto, a reforma legislativa que o Governo Central está a levar a cabo tem que ser acompanhada pela mudança de mentalidades, para que estes direitos fundamentais sejam efectivamente garantidos.
A agência oficial chinesa destaca que às autoridades só chegam os casos que resultaram em óbitos ou em ferimentos muito graves. A violência doméstica “moderada” e quotidiana, que deixa marcas impossíveis de apagar, não é alvo de queixas, o que dificulta a intervenção governamental.
Em Maio passado, denuncia a Xinhua, em Zhengzhou, uma criança de três anos foi espancada até à morte pelos pais por não ser capaz de ler.
A violência nas escolas é também uma realidade à qual não se pode fugir, alerta o pediatra. Wang Li, de 15 anos, fico surda de um ouvido há dois anos, depois de ter sido alvo da fúria de um professor, numa escola dos subúrbios de Pucheng, em Shaanxi. Foi espancada por se ter dirigido ao professor pelo primeiro nome, algo que é considerado desrespeitoso.
A jovem entrou em estado de depressão, recusando-se a sair de casa e com crises de choro frequentes. As circunstâncias familiares também não ajudam. “A mãe contribuiu para agravar o trauma ao estar constantemente a lembrar o incidente e a jurar vingança”, relatou Jiao. A adolescente está a ser tratada no centro do médico há seis meses, depois de uma associação feminina da província ter sabido do caso através das queixas da família. “Quando aqui chegou, aninhava-se no chão e recusava-se a falar com quem quer que fosse”, relata Xue Na, uma voluntária do centro.
Wang e a mãe estiveram num programa de terapia e aconselhamento durante seis semanas, período ao fim do qual a jovem voltou a comunicar e a progenitora deixou de falar insistentemente no episódio traumático, acrescentou Xue.
O centro tem uma equipa de pediatras, enfermeiras e psicólogos de hospitais locais, contando ainda com o apoio de voluntários recrutados noutros pontos do país e do estrangeiro, que ajudam nos serviços de enfermagem e editam as publicações da instituição.
“Vítimas como Chen e Wang têm muita sorte, se tal é possível dadas as suas desgraças. A maioria das crianças vítimas de abuso não recebe qualquer tratamento”, frisou Lei Tao, o gestor de relações públicas do centro. “Às vezes recebemos queixas de violência doméstica contra crianças, nós vamos ao local, mas é-nos negada a entrada e nada podemos fazer”, lamenta o responsável.
Na China, existem várias associações e organismos não-governamentais cujo trabalho está relacionado com a prevenção do abuso de crianças, mas “dedicam-se mais ao trabalho teórico do que à ajuda concreta”, denunciou Lei.
A Xinhua entrevistou ainda Kimberly Svevo, directora executiva da Sociedade Internacional para a Prevenção do Abuso e Negligência Infantil, que realçou o facto de a China estar ainda “muito atrás dos países desenvolvidos no que toca à prevenção dos abusos infantis”. “O centro de Xian ajuda a colmatar a falha”, considerou.
“Com os fundos e a orientação profissional do ISPCAN, estamos a fazer o que podemos para ajudar crianças maltratadas e para dar formação aos pais, professores e assistentes sociais”, disse o director do centro.
No entanto, é necessário que toda a sociedade se mobilize para defender as crianças da violência. “Os pais precisam de reformular conceitos e adoptarem métodos de educação modernos. O Governo deve também criar um sistema de monitorização mais eficaz para proteger as crianças dentro e fora de casa”, apontou o mesmo responsável.
O centro conta ainda com apoio jurídico, mas a dimensão da problemática social exige um outro tipo de intervenção, a nível nacional. “Deveria ser criada uma organização para identificar famílias problemáticas e garantir defesa legal aos menores vítimas de violência”, defendeu a vice-presidente da Associação dos Advogados de Shenzhen, Zhang Haixia.
O modelo é importado, nada tem de inovador, mas não existe na China. “À suspeita de violência doméstica, os agentes dessa organização seriam chamados e recolheriam informações dos vizinhos e de familiares para poderem agir”, explicou a advogada. “Nos casos graves, a organização chamaria a polícia para poder intervir e a custódia das crianças seria entregue a outras pessoas”.

Outros temas na edição impressa:

Grande Prémio de Macau com 280 pilotos de 33 países - André Couto traz híbrido a Macau
Tsang diz que Hong Kong não vai legalizar casinos - Podem mas não querem
Feira Internacional de Macau abre as portas na quarta-feira - Lusofonia em força

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Conceito de identidade macaense nas novas gerações, O pequeno pássaro de Macau no cinema de Hong Kong

Conceito de identidade macaense nas novas gerações

Simplesmente de Macau

“Acho que sou macaense”. A frase saiu entre muitos risos, numa mistura dos sentimentos de indecisão e timidez. Numa terra de encontro de culturas, a identificação para com uma comunidade não parece ser a preocupação do dia-a-dia de Margarida Cardoso. Criada a falar duas línguas no ambiente familiar, a única certeza da jovem de 21 anos é que não se sente parte nem de Portugal, nem da China, mas sim de Macau. Porque ela e esta terra têm, exactamente, a mesma alma.
Os traços do rosto não enganam. Nascida no território, fruto da união de mãe chinesa e pai português, a estudante de Sociologia viveu neste canto do Sul da China metade da vida. Os primeiros seis anos de escola foram feitos em língua portuguesa, mas o seu primeiro idioma é o cantonês, diz.
A língua de Camões está em terceiro lugar, a seguir à inglesa. Aos 12 anos de idade, Margarida viajou para a Austrália, de onde regressou com um português um pouco destreinado. “Habituei-me a falar inglês, vivia com as minhas tias chinesas e não havia pessoas portuguesas por perto”, lembrou.
O grupo de amigos da estudante é formado por jovens chineses e macaenses. O mais-que-tudo também é chinês. Quanto aos portugueses, “conheço algumas pessoas, mas não sou tão próxima deles”, sublinhou.
A língua que domina entre os companheiros volta a ser a oriental, até com aqueles com quem partilha as mesmas raízes. Com a melhor amiga, fala um “chinês misturado com umas palavras portuguesas”. O idioma lusitano serve como se fosse um código, que em redor não se entende, confessou com um ar traquina.
O nome da amiga de longa data de Margarida, transpira Lusitanidade. Laurentina Madalena da Silva. Assim se apresenta a jovem de 21 anos. Secretária de profissão, atende os telefonemas e responde consoante a língua do interlocutor. Se do outro lado da linha lhe falam em cantonês, passa as informações para o papel em caracteres. Se for em português, já usa o alfabeto ocidental.
Ao contrário da futura socióloga, Tina, como gosta de ser chamada, sabe escrever e ler em chinês. “A minha mãe obrigava-me, mas já me esqueci um pouco porque não pratiquei”, referiu.
O grupo de amigos da estudante é formado por jovens chineses e macaenses. O mais-que-tudo também é chinês. Quanto aos portugueses, “conheço algumas pessoas, mas não sou tão próxima deles”
Os perfis familiares das duas amigas são semelhantes. A segunda sente, porém, que perdeu uma grande parte das referências portuguesas com o falecimento do pai. Mesmo assim, a língua de Camões é eleita em segundo lugar e só depois é que vem aquela das terras de Sua Majestade.
Mais segura, define-se como macaense, porque é o resultado de duas “metades”. “Sou filha de mãe chinesa e pai português, sei falar as duas línguas e vivo em Macau, que é a mistura de duas culturas”, afirmou.
Afinal, o que é ser macaense? Quais são as características que definem esta comunidade, cujos alguns elementos se organizam e defendem uma cultura própria? O conceito chega a ser mais complexo do que aparenta.
A investigadora Inês Pessoa diz que o termo é utilizado para “referenciar não a nacionalidade, mas a pertença étnica e/ou a naturalidade dos elementos que constituem um dos mais importantes grupos socioculturais presentes na região, também conhecidos por ‘filhos da terra’ ou ‘portugueses do Oriente’”. Macaense não define todos aqueles que nasceram em Macau “independentemente da sua pertença comunitária”, porque se entende que à naturalidade deve ser acrescida a ascendência étnica de tais indivíduos, sustentou a académica portuguesa.
Conhecido do mundo da Cultura local, João Ó é apologista de outra teoria – a herança geracional. Algo que, ao contrário do que muita gente pensa, o arquitecto e artista plástico não tem. “Não sei porque é que as pessoas pensam que sou macaense, quando me referenciam assim fico meio chocado”, confessou.
Acontece que João Ó é filho de pai português e mãe chinesa nascida em Macau, mas criada em Portugal. O arquitecto é natural de Lisboa e veio para o território com oito meses de idade. “Não me sinto macaense simplesmente por ligação à terra, se tenho uma origem é portuguesa, e a cultura europeia sempre me fascinou”, sustentou.
O português é a língua de eleição em casa. “Eu tive um problema inicial. Comecei a falar só aos 3 anos, porque tinha uma ama chinesa e não conseguia desencravar dos dois idiomas. Tal e qual como se está a passar agora com o meu sobrinho. Entre os 3 e os 7 anos, pensava em chinês, falava em português e a estrutura da frase saía sempre errada”, recordou.
O sentimento comunitário não existe, mas é certo que o residente de 30 anos fez um percurso de vida e tem características que condizem com o enquadramento dos residentes macaenses. A fisionomia e o facto de falar as duas línguas, embora só escreva em português, sendo “analfabeto no chinês”, como diz ser, são alguns ingredientes macaenses.
Além disso, João Ó estudou no liceu português e partiu para Portugal para ingressar na universidade, como a maior parte dos “filhos da terra”. Curiosamente, nem Margarida nem Tina têm esta relação com o país da família paterna. A primeira é aluna da Universidade de Macau e a segunda decidiu não prosseguir os estudos.
Não obstante o fascínio pela Europa, o arquitecto permanece na região por motivos de aspiração profissional. Os pais, que estiveram inseridos no êxodo de 1999, não se adaptaram a Portugal. A “equipa familiar” decidiu regressar à RAEM.
João Ó não se vê vestido na pele de macaense, o território é apenas uma casa. Quando lhe perguntam de onde é responde ser de Portugal. “Depois explico a história das misturas e aquela confusão toda. No currículo digo que sou português, é o país onde nasci, mas vivi a minha adolescência em Macau”, completou.
Recusa-se, todavia, a ficar limitado entre duas terras. “Sou um cidadão do mundo e sinto-me mais livre nesse aspecto. Gosto de saber que estou à vontade entre dois mundos”.
Igualmente sem barreiras linguísticas que as afastem de qualquer uma das duas comunidades que coexistem na RAEM, as duas amigas sentem-se no meio da ponte entre Portugal e China. Não se identificam totalmente com nenhum dos dois países.
“Não sou como os portugueses. Quando estou em casa vejo a televisão chinesa e não a portuguesa. Não tenho tanto contacto com Portugal, a não ser com o meu pai. Por outro lado, sei que também não sou chinesa, porque tenho um modo de pensar diferente dos meus amigos”, mostrou Margarida.
“Antiquada e pouco aberta” é como a estudante de Sociologia classifica a mentalidade do mundo que a rodeia. Há um fosso entre modos de pensar com o qual a jovem esbarra quotidianamente. “Noto as reacções dos meus amigos da universidade quando uso uma camisola com alças. Normalmente, as raparigas chinesas tapam os ombros”, apontou. Tina, por sua vez, acrescentou que as amigas não compreendem o facto de ela ter amigos rapazes e os acompanhar nas saídas à noite. “As minhas amigas dizem-me: ‘Ah, como és capaz de fazer uma coisa dessas?!’”, gracejou.
Embora encontrem a sua identificação cultural na terra onde nasceram, não é em Macau que sonham viver. Margarida, principalmente, gostaria de voltar para Melbourne, no país dos cangurus. A dimensão do território não condiz com as aspirações das duas jovens.
“Imagino-me a viver em Macau, mas gostava de sair. Não para a China, porque não gosto da qualidade de vida. E para Portugal também não. Estive lá há muitos anos com o meu pai e achei um bocado aborrecido. Não gostei muito e foi a imagem com que fiquei”, sublinhou Tina.
De Portugal, a dupla de amigas destaca a cozinha e põe de parte o cinema, a música e a literatura. Dos sabores chineses, são pouco adeptas. “Gosto mais da comida portuguesa. Da chinesa é só mais ou menos. Eu vou à China todas as semanas, mas é só para arranjar as minhas unhas”, rematou Tina.

Ser macaense é “cool”

“Os macaenses mais velhos têm um ar diferente, não me sinto igual a eles, mas sei que pertenço à comunidade”. É com uma ponta de orgulho que Laurentina Silva assume as suas origens, ao mesmo tempo que confessa não ter “grande interesse” nem participar, com regularidade, nas actividades organizadas pelo grupo social. Será então que as novas gerações dos chamados “filhos da terra” se estão a afastar das suas raízes? Há uma tendência para, aos poucos e poucos, a comunidade como hoje a conhecemos se diluir?
O presidente da Associação dos Macaenses (ADM), Miguel de Senna Fernandes, admite que o mundo globalizado traz consigo vários desafios. Recusando-se a “fazer futurologia”, o advogado está, porém, convicto de que “os macaenses nunca vão deixar de o ser, porque o bicho é forte de mais para deixar de se entranhar. Nos tempos que correm, as pessoas podem escolher caminhos distintos mas, lá no fundo da sua alma, sabem que têm referências culturais diferentes dos outros residentes da RAEM”, defendeu.
Num mundo de diferenças, a diferença é Macau, assim o diz o slogan turístico. Logo, segundo o ponto de vista do presidente da ADM, numa RAEM globalizada, todos os dias “bombardeada” com novas referências culturais, os macaenses vão saber adaptar-se. “Há coisas essenciais que nunca se apagam, mesmo quando a comunidade está dispersa – a relação com a portugalidade nas suas variadíssimas formas e a ligação com o território”, sustentou.
Relativamente à existência de uma tendência de afastamento da juventude, Miguel de Senna Fernandes acredita que ninguém tem dados para avaliar a situação. Todas as gerações colocaram dúvidas face aos herdeiros, é uma constante, disse.
É natural que os mais novos se afastem dos seus modelos. Isso faz parte desta fase da vida, explicou. “Os jovens criam sempre os seus próprios grupos de amigos, desenvolvem o seu próprio estilo e o que os move é o ser ‘cool’ (fixe em português)”, brincou.
Ora, para o causídico, a identidade macaense pode ser uma forma de afirmação dos jovens, porque o que é “cool” é diferente e é isso que a juventude procura. O mesmo se aplica ao dialecto tradicional e ao grupo de teatro.
“É um grupo bastante jovem e que tem todas as potencialidades de atrair essa camada de macaenses. Quando eu falo patuá estou a dizer uma coisa que tu não sabes, mas os meus amigos sim. É uma espécie de arma”, sublinhou.
O sucesso dos Dóci Papiaçám confirma-se entre os jovens, que vão tornando mais numerosa a plateia. Laurentina é uma das entusiastas. “Acho o patuá giro. Já fui assistir a peças, não entendo muito bem, mas é cómico”, notou.
Estas palavras são tudo o que o dinamizador do grupo, Miguel de Senna Fernandes, precisa de ouvir. “Se uma pessoa diz que é cómico isso para mim basta e só significa que o projecto tem pernas para andar”.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Vincent Hoi, realizador de Macau

O pássaro pequeno em grandes voos

A inexistência de indústria cinematográfica em Macau é um facto que muitos de nós constatam sem grandes queixas. Há muitos anos que se criou o hábito de sintonizar a televisão nas frequências emitidas a partir de Hong Kong, aceitando a influência desta cultura audiovisual específica e fazendo dela o nosso padrão.
A indústria cinematográfica de Hong Kong tem sido reconhecida internacionalmente, pelo que parece não haver qualquer razão para que se crie uma própria de Macau. Devido à proximidade entre as duas regiões administrativas especiais, a comparação é inevitável, chegando-se à conclusão de que Macau não tem capacidade de produção equivalente, em quantidade e qualidade.
Não obstante este fenómeno generalizado, existem excepções que fazem parte da realidade e merecem ser observadas. Pela primeira vez, um realizador de Macau foi convidado para participar no Festival de Cinema Asiático de Hong Kong, através da apresentação de um filme totalmente rodado em Macau, o que faz reforçar a tese de que as generalizações são sempre perigosas.
Vincent Hoi Kok Ming, conhecido por muitos residentes locais como “Xiu Niu” (Pequeno Pássaro), é o protagonista de um filme especial, criando algo onde antes nada existia, tendo como ponto de partida uma grande força de vontade.

O irmão mais velho fez as vezes de operador de câmara e a película foi editada com a ajuda de uma velhinha Hi8 e um gravador VHS. “Foi um processo doloroso mas deu-me imenso prazer e percebi que não queria ficar por ali”.
Nascido em Macau em 1970, Vincent Hoi pertence a uma geração fortemente influenciada pela cultura televisiva de Hong Kong. Num regresso à infância, o realizador recorda que queria ser presidente da câmara por causa da admiração que tinha pela personagem principal de uma série muito famosa rodada na então colónia britânica. “The Bund” (ou “A Marginal de Xangai”) foi protagonizada por Chow Yun- fat e é um dos maiores clássicos da história da televisão de Hong Kong.
Embora tivesse esta influência audiovisual desde muito cedo, foram ainda necessários alguns anos até que Vincent Hoi tivesse começado a interessar-se por cinema. Licenciado pela Universidade de Macau, quando esta instituição ainda se chamava Universidade da Ásia Oriental, a formação inicial do cineasta foi na área de Marketing. A opção por esta via deveu-se às poucas escolhas que o ensino superior apresentava na altura. “Parecia-me que o Marketing era uma opção razoável, as pessoas falavam imenso desta área”. Foi a última vez que tentou pertencer à multidão. O destino reservou-lhe um caminho muito diferente do convencional.
No último ano da faculdade, Vincent Hoi teve que produzir um anúncio televisivo como trabalho final de curso. “Não recebemos qualquer formação técnica específica e não tínhamos computador disponível. Eu e alguns colegas de turma começámos por arranjar uma câmara, alguns actores, escrevemos uma história e foi assim que fizemos o filme”.
O irmão mais velho fez as vezes de operador de câmara e a película foi editada com os tradicionais meios analógicos, com a ajuda de uma velhinha Hi8 e um gravador VHS. “Foi um processo doloroso”, conta, “mas deu-me imenso prazer e percebi que não queria ficar por ali”. O anúncio caseiro de Vincent recebeu a melhor nota da turma.
Depois do curso terminado, o realizador começou a trabalhar no Macau Jockey Club como produtor do circuito interno de televisão. “O nome do cargo soa bem mas, na realidade, fazia tarefas triviais como comprar o almoço para a equipa e carregar material pesado para as filmagens”, ri-se, enquanto recorda o primeiro emprego. “Mas a verdade é que tive oportunidade de aprender mais sobre o processo audiovisual, nomeadamente sobre a edição”.
Seguiram-se anos em que Vincent Hoi foi saltando de trabalho em trabalho, sem nunca ter deixado de se interessar pela imagem em movimento. Frequentou cursos da Escola de Artes Visuais organizados por cinéfilos de Macau e assim teve oportunidade de ficar a conhecer o cinema que se fazia no mundo. Foi um período de consolidação da certeza que já tinha: queria trabalhar no meio audiovisual.
À primeira oportunidade que teve, mudou-se para Hong Kong e passou a trabalhar na empresa de televisão por cabo do território vizinho. Foi um período importante porque a vida em Hong Kong deu-lhe a oportunidade de ter um acesso mais facilitado ao mundo dos filmes. “Ia ao cinema todas as noites, depois do trabalho, tentava analisar os filmes e imaginava como seria se um dia fizesse o meu”.
O regresso a Macau deveu-se a um problema de saúde e, em 1997, começou a trabalhar na Teledifusão de Macau. Os dois anos em que esteve no canal chinês da estação pública de televisão serviram para decidir, de uma vez por todas, tentar ser um realizador independente. “Não gostei do trabalho que fiz na TDM. Recolhia informação para os programas de informação e era suposto criar os conteúdos. Acompanhava as equipas de filmagem no exterior, mas havia alturas em que nem o realizador sabia bem o que pretendia, éramos amadores e pouco organizados”, critica. “Não acho que houvesse falta de talento, mas sim de espírito de trabalho. Era todo um sistema que não nos motivava. Então decidi sair”.
Logo no ano seguinte a ter deixado o emprego certo, Vincent Hoi começa a trabalhar como freelancer em produções audiovisuais. A empresa de produção que criou na altura, e que numa tradução livre para português se chama “Pássaro Celestial”, continua a funcionar até hoje. O realizador começou a receber encomendas para anúncios comerciais e pequenos filmes institucionais do Governo e de escolas.
Em 2001, “Xiu Niu” lança-se em voos mais altos e roda a sua primeira longa-metragem, “Aim VS Peep”. A equipa era toda de Macau e toda ela solidária com os sonhos de Vincent. “Ninguém quis ser pago pelo trabalho que fez!”, recorda. A experiência foi de extrema importância. “Passei imenso tempo a preparar o filme e tinha uma verba muito pequena para o fazer. A equipa era composta por amigos e nem toda a gente era profissional, mas havia uma enorme força de vontade, que nos uniu muito”, conta. “Mesmo que o resultado final tenha sido considerado mais um ‘exercício’ do que um produto profissional, penso que foi um episódio importante no processo de crescimento do cinema em Macau e, claro está, na minha vida”.
Esta primeira tentativa no âmbito das longas-metragens não sossegou Vincent, que quis perceber por onde é que poderia melhorar. “O meu primeiro filme não era suficientemente bom, não fui capaz de criar a atmosfera que queria. A experiência serviu-me, no entanto, para perceber que o aspecto mais importante enquanto realizador é a capacidade de criar trabalhos que são fiéis às minhas ideias”.
Agora que Vincent Hoi apresentou a sua segunda longa-metragem, “Before Dawn Cracks”, no Festival de Cinema Asiático de Hong Kong, tem razões para acreditar que ser um realizador independente em Macau não foi um sonho incompatível com a realidade. “Percebi que as técnicas são apenas um aspecto exterior, pode-se pedir a outras pessoas para tratar desta questão, se quisermos. O mais importante vem de dentro. Podemos não ter muitos recursos nem apoios, as autoridades e os empresários podem não financiar este tipo de projectos nem terem interesse em desenvolver a indústria cinematográfica, mas enquanto cidadãos de Macau temos sempre algo a dizer”, defende. “Há algo que é só nosso, valores que são específicos de Macau e que pessoas de outros sítios poderão estar interessadas em conhecer”.
Numa área de difícil projecção, Vincent Hoi conseguiu fazer-se ouvir fora de Macau, o que faz com que haja razões para que outros deixem de lado o pessimismo e a timidez. O realizador é, na realidade, muito optimista em relação ao futuro do cinema aqui dentro de casa. “Eu sou apenas um exemplo muito pequeno daquilo que pode ser o início de algo de grandes dimensões. Não me considero bom, mas gostaria de ser”, diz, num exercício de autocrítica. “Se funcionou no meu caso, então isto significa que existem hipóteses para muitos de nós. Com o desenvolvimento das tecnologias, as produções tornaram-se mais acessíveis, acredito que mais realizadores de Macau vão conseguir encontrar o seu espaço e fazer ouvir a sua voz”.

Alice Kok com Isabel Castro
Fotografia: Alice Kok

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Barbatanas na Taipa, Estudar mandarim e cantonês em Macau

Equipa de Macau na luta por um lugar próprio na piscina

Barbatanas acabadas de estrear

Nove adolescentes fazem exercícios de aquecimento no átrio do edifício da Piscina Olímpica da Taipa. É o segundo dia de preparação para os 2.os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto (JARC), que começam no dia 26 deste mês, e o treinador traz uma novidade – barbatanas novinhas em folha e com as medidas adaptadas para competição. “Foram compradas por mim na China”, contou ao Tai Chung Pou o técnico principal da selecção de Macau da modalidade de natação com barbatana, Anthony Soleyn Cochrane.
São de cor preta e bastante pesados os equipamentos que vão unir os pés dos nadadores dentro da piscina. “Têm cerca de cinco quilos e custam cinco mil patacas cada uma do outro lado da fronteira”, acrescentou o treinador.
Na natação com barbatana, os atletas não movimentam os membros superiores e inferiores, usando apenas a força muscular. Os braços cortam a água sempre esticados e unidos e o mesmo acontece com os pés, que são calçados numa mono-barbatana.
A técnica parece ter sido roubada às sereias. Os corpos dos praticantes ondulam a uma velocidade espantosa. A cabeça fica dentro de água e os atletas respiram por um tubo. Ao chegar ao fim do percurso, a barbatana embate nas paredes da piscina quebrando em baques o silêncio da instalação desportiva.
A notícia da participação nos JARC chegou há pouco mais de duas semanas. Assim que foi informado pelo Comité Olímpico da RAEM, Anthony Cochrane pôs logo mãos à obra. Afinal, esta é uma oportunidade única para promover a disciplina e atrair mais adeptos.
Não se pense, contudo, que o responsável do Clube Subaquático de Macau (CSM) foi apanhado desprevenido. “Quando, no ano passado, se soube que a natação com barbatana tinha sido incluída na segunda edição dos JARC, comecei logo a levar os nadadores todos os fins-de-semana para a piscina de Zhuhai”, contou.
“Temos muita sorte em ter a oportunidade de participar no evento desportivo, porque, de outra forma, não conseguiríamos arranjar instalações para treinar”, acrescentou uma das treinadoras, Viena Ng. A maioria dos jovens da formação que vai defender as cores da bandeira da RAEM já salta para a água de barbatanas calçadas há dois anos. Dada a indisponibilidade de infra-estruturas desportivas, o CSM foi obrigado a recorrer às piscinas dos hotéis Hyatt e Mandarin Oriental, ou até às águas das praias de Coloane.
Na natação tradicional, o grupo de seis rapazes e três raparigas com idades compreendidas entre os 13 e 17 anos já percorreu muitas piscinas. Na disciplina em que está em causa a competição, a história é outra.
“Estes jovens têm pouca experiência e é a primeira vez que participam num evento desta natureza”, frisou Anthony. Os primeiros mergulhos não são nada fáceis. Além das barbatanas, os praticantes devem usar um tubo de respiração. É preciso aprender a técnica para expulsar a água do tubo e puxar oxigénio. O efeito é igual ao repuxo das baleias.
Para facilitar o processo de adaptação ao equipamento, os atletas começam por utilizar barbatanas separadas, parecidas com aquelas usadas no mergulho desportivo. Os pés devem ser protegidos com meias e só entram nos “sapatos aquáticos” à custa de muito sabão.
Relativamente aos movimentos corporais, são semelhantes ao estilo mariposa. A partir do momento em que se domina a técnica, mais do que nadadores, os praticantes sentem-se autênticos peixes. “Ou sereias, no caso das raparigas”, afirma entre sorrisos Viena Ng.
Lam Chon U e Wong Kaiat são dois atletas que vão disputar as provas em masculinos. Ambos com 16 anos de idade, só descobriram a natação com barbatana há um ano. Quando descrevem a disciplina, transpiram entusiasmo. “É muito rápido! Mesmo que sejam distâncias curtas, sentimos que nadámos muito mais”, exclamaram.
O sonho de Lam é “nadar até à final”, mas o colega de equipa é mais cauteloso. “Não quero ficar entre os últimos lugares. Vou dar tudo por tudo para acabar a competição com a máxima perfeição possível”, prometeu.
As atletas já trouxeram algumas medalhas para o território. Num torneio que teve lugar em Hong Kong, em Novembro do ano passado, duas nadadoras subiram ao primeiro e terceiro lugares do pódio.
Mesmo assim, nas palavras do treinador principal, a formação ainda está um pouco verde, mas existem grandes probabilidades de progressão. “Acredito que dentro de três anos conseguimos atingir um nível competitivo mais elevado e tenho muita confiança que vamos dar nas vistas nos próximos JARC, em 2009, no Vietname”, sustentou.
Para o evento desportivo que está a ser organizado em Macau e começa dentro de pouco mais de duas semanas, Anthony destaca que o mais importante é a participação e entrar no mundo competitivo com o pé direito. “Começámos muito tarde relativamente às outras selecções e não temos tempo suficiente para treinar”, referiu.
Desde o início do mês, a equipa local começou a desenvolver um programa de preparação na Piscina Olímpica da Taipa, durante cinco dias por semana. “Optámos para dar aos atletas dois dias de descanso. Em primeiro lugar, tivemos em conta que são estudantes e depois os músculos precisam de relaxar. Além disso, o esforço físico que se exige é diferente da natação normal, os praticantes devem ter os músculos das costas e na parte inferior das pernas bastante desenvolvidos”, explicou Viena Ng.
Nos JARC, os nadadores locais vão disputar provas numa piscina de 50 metros. Com as barbatanas calçadas, os atletas completam um percurso de 15 metros em 16 segundos.
Entretanto, os tubarões e sereias de Macau vão estar todos os dias no átrio da Piscina Olímpica da Taipa, a adiantar os exercícios de aquecimento. Energia não lhes falta, pois mal podem esperar para estrear as barbatanas ao som do apito dos juízes.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn



Aulas de cantonês e mandarim em Macau

De tom em tom se aprende a falar

“Ni hao” ou “Nei hou” (Olá!) são das primeiras palavras que se aprendem em mandarim e em cantonês. A língua e o dialecto são semelhantes, variando essencialmente no número de tons, quatro no mandarim (que tem ainda um tom neutro), nove no cantonês, e no número de utilizadores. A língua chinesa é a mais usada em todo o mundo; no caso do cantonês tem mais de 70 milhões de falantes.
Sara Silva, portuguesa, está em Macau há pouco mais de um mês, vinda de Tianjin, perto de Pequim, e domina o mandarim, mas na RAEM deparou-se com o cantonês, constatando que “normalmente é difícil comunicar em mandarim com os mais velhos, mas os jovens quase todos sabem falar porque aprendem na escola, na universidade ou com amigos da China”.
Porque em Macau saber falar mandarim não é garantia de se ser entendido, tem intenção de aprender a língua local. “É muito claro para mim que qualquer variante linguística é importante para o povo que a fala e, como tal, sinto que o facto de me esforçar por falar cantonês é reconhecido e apreciado pelos residentes”, remata. Na escrita, diz, as diferenças são bem mais reduzidas.
Tanto Sara Silva como outros interessados em aprender cantonês ou mandarim encontrarão algumas ofertas na cidade. Existem, pelo menos, seis instituições que leccionam habitualmente cursos para falantes de língua materna não chinesa. O Centro de Difusão de Línguas, o Jingdou Language Center, o Instituto Politécnico de Macau, o Instituto Inter-Universitário de Macau, o Instituto Internacional e a Universidade de Macau são alguns dos locais onde se pode aprender a comunicar em chinês. As ofertas variam, inclusive, no que diz respeito aos preços, que vão desde as 100 às 4800 patacas.
Para David Silva, português a residir em Macau há cerca de dois anos, sempre “pareceu natural que, estando numa terra estrangeira, aprendesse a língua local.” Foi isso que o motivou a inscrever-se num curso de cantonês promovido pelo Centro de Difusão de Línguas (CDL) da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude.
Todos os anos, esta estrutura governamental organiza vários cursos e actividades relacionadas com ambas as línguas, e também com o português, para graúdos e miúdos, nível avançado ou mais elementar. Neste momento, decorrem as aulas de cantonês para adultos na Escola Secundária Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes.
David Silva frequenta, este ano, o nível intermédio, às segundas e sextas-feiras, e mostra-se satisfeito por ter começado a aprender. O curso “deu-me uma compreensão mais alargada da gramática da língua e estendeu o meu vocabulário”, considerando por isso uma grande vantagem. No entanto, os benefícios não ficam por aqui. “Outras vantagens importantes são, por exemplo, proporcionar da oportunidade de contacto regular com a língua, existir um professor que tira as dúvidas que possa ter e, é claro, a avaliação que, implicitamente, empurra para o estudo”, conclui.
No acto de inscrição, feita no 3º andar do número 31, na Rua Formosa, transversal à Rua do Campo, pagou 250 patacas pelo primeiro módulo, sendo que cada nível tem dois módulos, num total de 60 horas. O CDL proporciona também outras actividades, com uma duração mais curta, como por exemplo o Cantinho do Cantonês, a decorrer até início de Dezembro, destinado a interessados com mais de 15 anos.
O Cantinho abre portas apenas às segundas-feiras (excepto feriados), das 18h30 às 20h, num total de 20 horas lectivas. Se o objectivo é dar um passo em frente e iniciar-se apenas na caligrafia chinesa, aprender a utilizar correctamente o pincel e desenvolver com a maior precisão possível os 64 traços básicos para desenhar os caracteres, aqui também encontra mestres que o guiarão nesta arte milenar.

Existem, pelo menos, seis instituições que leccionam habitualmente cursos para falantes de língua materna não chinesa. As ofertas variam, inclusive, no que diz respeito aos preços, que vão desde as 100 às 4800 patacas.
Com a chegada de cada vez mais forasteiros ao território, o Jingdou Language Center, cuja actividade principal é o ensino de inglês há mais de 15 anos, aplica-se também à instrução do chinês, desde 2005, para “ajudar os estrangeiros a obter ferramentas básicas para poderem integrar-se na sociedade local”, explica a responsável de marketing, Dayenne Sipaco. Situado na Rua do Almirante Costa Cabral, o centro usa o inglês para ministrar cursos de iniciação ao cantonês e mandarim, com a propina a rondar as 1.200 patacas. Após 24 horas de aulas durante dois meses, de certificado na mão, as palavras que o aluno ouve na rua irão parecer mais familiares.
No Centro de Formação Contínua e de Projectos Especiais (CFCPE), do Instituto Politécnico de Macau, Luís Lam presta esclarecimentos em português quanto ao curso de mandarim para principiantes estrangeiros. No entanto, avisa que “é preciso ter conhecimentos básicos da língua”, dado ser leccionado, na íntegra, em mandarim, e “assistir a 85 por cento das aulas para obter o certificado final”.
As inscrições estão abertas e mal se agrupem vinte e cinco pessoas, dá-se início às lições. Durante 180 horas, e por um montante global de 4800 patacas, é possível ouvir, falar, ler e escrever mandarim, em horário pós-laboral (18h30-21h30). O local escolhido é o edifício do CEM, na estrada D. Maria II. Não é fácil encontrar a informação destes cursos em Português ou Inglês no site do Instituto Politécnico de Macau, por isso, o melhor é contactar directamente a instituição, mais propriamente o CFCPE. Há também a possibilidade de ministrarem cantonês ou japonês mas, assim como a maioria dos programas cumpridos noutras escolas, iniciam os cursos apenas quando reúnem o número mínimo de inscritos, estando sempre abertos a receber pré-inscrições.
Chama-se Programa de Mandarim, arrancou pela primeira vez em Setembro do ano passado, e é bastante abrangente no que diz respeito às inscrições. Jean Lok, do Centro de Língua e Desenvolvimento Profissional do Instituto Inter-Universitário, no NAPE, frisa que o curso, “além de aprendizagem, é antes de mais uma boa experiência” destinada a “quem tiver idade superior a quinze anos”. Desde que percebam inglês, as portas abrem-se a um novo universo linguístico, do nível elementar ao avançado. O curso realiza-se em três períodos que classificam de Primavera, Verão e Outono. Também a caligrafia chinesa e as festas tradicionais importantes têm o seu lugar nesta disciplina. Actualmente, estão a decorrer cursos de diversos níveis e os seguintes arrancarão em Janeiro do próximo ano.
Para as vinte e três sessões dos níveis I, II e intermédio, num total de 45 horas, o aluno paga 3090 patacas, incluindo materiais de apoio e outras despesas, e frequenta as classes duas vezes por semana, das 19h às 21, havendo também a possibilidade de um horário diurno, entre as 13h e as 15h.
No Instituto Internacional de Macau, também no NAPE, os próximos cursos estão prestes a começar. O nível I abre as portas a partir do dia 16 de Outubro, às terças e quintas, das 18h30 às 20h, prolongando-se até Fevereiro. Também o segundo nível do curso de mandarim terá início neste mês, com a data limite de recepção de inscrições até ao dia 24, e terminará em Fevereiro. Xialing Ren Duncan, com mais de 20 anos de experiência no ensino desta língua, orienta as aulas de hora e meia que acontecem todos os sábados a partir das 11 horas. O primeiro nível do programa, 48 horas, fica por 2400 patacas e o segundo, 21 horas, custa ao aluno 2100 patacas. A língua de ensino é o inglês.
Também no Centro de Educação Contínua da Universidade de Macau (CCE, sigla em inglês) estão prestes a iniciar cursos de mandarim, nível elementar e avançado, a partir do dia 13. Assim como acontece no Instituto Internacional, as aulas elementares realizam-se durante a semana, terças e quintas, e as aulas avançadas ao sábado. O valor da propina varia entre as 2000 e as 2500 patacas, dependendo do nível. Durante 30 horas, aprendem-se as estruturas das frases, falar, ler e escrever, tendo como base a escrita romanizada do chinês (pinyin), conteúdos semelhantes, aliás, nos vários cursos das instituições já mencionadas. O CCE frisa que os manuais e os CD não estão incluídos no preço da propina. Também o cantonês é ensinado na ilha da Taipa, estando prevista a abertura do curso em Novembro, e, na mesma altura, irão divulgar os horários e informação associada.
Para quem não quiser sair de casa, há soluções na internet. No site www.fsi-language-courses.com existem lições virtuais, gratuitas, com fornecimento de manuais e de conversas áudio para treinar o ouvido.

Centro de Difusão de Línguas – 28400615
Jingdou Language Center – 28525149
Instituto Politécnico de Macau – 28317485
Instituto Inter-Universitário de Macau – 7964420
Instituto Internacional – 28751727
Universidade de Macau – 3974545
Sandra Gomes
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Os hábitos de leitura dos jovens de Macau, Escalada desportiva a caminho dos Jogos

Inquérito sobre hábitos de leitura dos jovens traça cenário pouco optimista em Macau

Um livro de vez em quando

A maioria dos jovens de Macau que frequentam o ensino secundário complementar, com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos, não lê mais do que um livro por mês. Esta é uma das conclusões de um estudo levado a cabo pela Revista da Nova Geração, uma publicação local em língua chinesa.
A revista decidiu distribuir inquéritos nas escolas secundárias de Macau e comparar os números com um trabalho semelhante efectuado por jornais chineses, que se dedicaram ao estudo dos hábitos de leitura nos dois lados do Estreito de Taiwan. Os estudantes de Taipé são aqueles que mais lêem, comparativamente com os jovens de Pequim, Xangai, Hong Kong e Macau.
Quanto à “profundidade” dos conteúdos, os leitores das duas maiores cidades chinesas são os mais abertos a diferentes tipos de literatura, demonstrando-se interessados em obras que exigem maior capacidade de abstracção e compreensão.
Curiosamente, os adolescentes de Hong Kong são os que menos horizontes têm em termos literários: as bandas desenhadas locais e os romances de escritores da região administrativa especial são as obras preferidas, aventurando-se pouco no trabalho de descoberta de literatura que vá além das fronteiras da cidade.
Já em Macau a situação é bastante diferente. Embora os jovens não elejam a leitura como principal forma de passar o tempo livre, a diversidade de géneros literários é satisfatória. No entanto, é nos autores de língua chinesa, dos contemporâneos aos clássicos, que se encontram os autores preferidos. As excepções aplicam-se nas escolhas de J.K. Rowling, a autora da série Harry Potter, e do japonês kafkiano Haruki Murakami. Merece destaque o facto de o pai do modernismo literário da China, Lu Xun, aparecer como o terceiro escritor favorito dos adolescentes da RAEM.
Em Macau, não existe um plano de estudos homogéneo para os estabelecimentos de ensino. A pesquisa feita pela Revista da Nova Geração foca apenas os livros que não entram nos currículos variados das escolas da RAEM. A primeira conclusão a que os autores chegaram foi o facto de 57,6 por cento dos inquiridos ler apenas um livro extracurricular por mês. Quase 23 por cento dos jovens acaba dois livros no espaço de trinta dias, enquanto apenas 8,6 por cento chega ao fim do terceiro livro.
Quanto ao número de horas passadas a ler por semana, 40,5 por cento dos adolescentes está sessenta minutos (ou menos) a ler livros extracurriculares, sendo que 20 por cento confessou não ler qualquer obra literária que não seja obrigatória na escola. A maioria dos inquiridos prefere passar esta hora a ler jornais.
De assinalar o facto de os estudantes em Macau não prestarem grande atenção à banda desenhada, com 50,9 por cento a afirmar não tocar em álbuns de BD. Comparando este número com os dados obtidos na pesquisa efectuada pelo “China Times” e pelo “Mingpao News”, o dado é surpreendente: os adolescentes de Hong Kong e de Taiwan são verdadeiros fãs das histórias contadas em quadradinhos.
Já no que toca à forma de obtenção dos livros que lêem, a maioria (49,4 por cento) compra livros, mas o valor gasto mensalmente na aquisição de literatura encaixa com os hábitos de leitura pouco enraizados. Mais de 77 por cento gasta, da mesada, um valor inferior a cem patacas, com apenas 3,3 por cento a despender entre 300 e 500 patacas por mês. Quase 25 por cento dos auscultados não comprou um único livro no ano passado e 42 por cento recorre, por norma, ao empréstimo.

57,6% lê apenas um livro por mês
25% não comprou um único livro em 2006
55,4% requisita livros nas bibliotecas
50,9% não lê banda desenhada

As bibliotecas da cidade são a forma mais comum para se terem os livros que não se compram, com 55,4 por cento dos jovens a frequentarem estes espaços para levarem obras para casa. Mais de 25 por cento pede livros emprestados aos amigos. Os autores do estudo sugerem um papel mais pró-activo da rede de bibliotecas de Macau, de modo a cativar mais estudantes.
O número de livros lidos pelos estudantes de Macau não é significativo, mas a variedade de estilos é relevante. O romance é o género de eleição, mas as obras biográficas, os livros sobre ciências naturais, filosofia e arte estão entre as preferências dos adolescentes.
As respostas dadas pelos estudantes do ensino secundário complementar quando se pede para eleger o livro favorito revela diversidade nas escolhas, que vão dos clássicos chineses, como “A verdadeira história de Ah Q”, de Lu Xun, às aventuras de Harry Potter.
As opções literárias dos estudantes da RAEM ficam, contudo, aquém dos hábitos dos alunos de Pequim e Xangai, no que à diversidade e profundidade de conteúdo diz respeito. Nas duas principais cidades chinesas, os jovens lêem Gabriel García Marquez, Arthur Schopenhauer, Chekhov, Milan Kundera, Italo Calvino, Li Ao e Wang Xiaobo, entre outros. O contraste é grande com Hong Kong, que apresenta um cenário bem mais pessimista do que o verificado em Macau, na medida em que os hábitos literários são essenciais para a capacidade de comunicação.
Os responsáveis por este estudo indicam que 42 por cento dos jovens de Hong Kong não são capazes de ler um livro por mês. As actividades extracurriculares preferidas são passear e conversar; já aqueles que lêem, elegem como favoritos escritores de Hong Kong, como Ah Nong, Au Lok Man, Ho Chin e Ni Kuang, autores de histórias para crianças e de literatura classificada como “cor-de-rosa”.
A escritora de Taiwan Fu Yue An, que fez a análise dos hábitos literários dos dois lados do Estreito, considera que as obras lidas pela juventude de Hong Kong pouco têm a ver com a cultura chinesa. “Temos razões para acreditar que, comparativamente com outras cidades, os horizontes literários dos adolescentes de Hong Kong são muito limitados”, acrescentou a mesma responsável.
Se bem que a situação seja melhor do que na região vizinha, os pais, professores e demais responsáveis do sistema educativo de Macau não têm razões para achar que o cenário dos jovens da RAEM é animador e devem ter um papel mais activo em matéria de criação de hábitos de leitura. Os autores da pesquisa assinalam que o facto desta nova geração se concentrar, em demasia, na imagem, dando pouco valor à palavra escrita, faz com que as capacidades de redacção, de compreensão e de comunicação sejam pouco desenvolvidas. Os livros são ainda essenciais para estimular a criatividade e abrem as portas para um mundo sem fim.
A análise da responsabilidade da Revista da Nova Geração foi feita com base em inquéritos distribuídos nas salas de aula das Escolas para Filhos e Irmãos dos Operários de Macau, Pui Ching, Estrela do Mar e Hou Kong. Foram preenchidos 269 questionários.
Isabel Castro com Ina Chiu
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn


Escalada desportiva vai defender Macau
nos Jogos em Recinto Coberto

Trepar o mais alto possível

Ao chegar ao Jardim do Lago, Ana Sofia não consegue despregar o olhar da parede de escalada desportiva com 15 metros de altura. A mãe, Adelina, lá acedeu aos pedidos insistentes, mas de nada adiantou. “Não pode subir, porque não tem sapatilhas”, informou o instrutor. A aventura da menina de oito anos de idade ficou então adiada para o próximo fim-de-semana. Todos os sábados e domingos à tarde, durante a maior parte do ano, os membros do Clube de Escalada Guia Macau (CEGM) estão estacionados no espaço verde situado na Taipa, na estrada que faz a ligação à ponte da Amizade.
Desde Julho que há, contudo, outro incentivo para se ligarem por cordas à plataforma. Estão a chegar os 2.os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto (JARC) e a RAEM vai ter dois representantes na disciplina de escalada desportiva, inserida na modalidade de desportos radicais. Há que trepar muito para conseguir alcançar as finais e subir o mais alto possível na tabela de classificação.
Macau vai fazer-se representar por dois atletas, que participam em masculinos e femininos. Além da escalada desportiva, a modalidade de desportos radicais vai incluir bicicleta stunt, skateboard e patins em linha vert. Leo Fong e Uni Cheong serão, portanto, os únicos defensores das cores da bandeira da RAEM no conjunto das actividades que privilegiam a adrenalina.
“Vou fazer os possíveis para entrar na semifinal, mas vai ser difícil porque os adversários são mais profissionalizados e fortes. Vem muito pessoal de locais que promovem esta modalidade há muitos anos, como a China, o Japão, a Coreia do Sul e Hong Kong”, explicou, em declarações ao Tai Chung Pou, o estudante de Desporto do Instituto Politécnico de Macau.
É com o mesmo espírito com que escala a parede do Jardim do Lago que o jovem de 24 anos encara a competição desportiva que terá início no dia 26 deste mês. “Não sinto qualquer tipo de pressão, porque já estou habituado a este tipo de eventos. O mais importante é divertir-me”, frisou sorridente.
Leo já enverga o arnês, o cinto revestido que amarra o atleta à corda, como se de outra peça de vestuário se tratasse. Descobriu o prazer de escalar há cerca de seis anos e já perdeu a conta aos torneios em que participou. “Em Maio ou Junho deste ano, fiquei em 2º lugar no Torneio Aberto de Hong Kong”, recordou.
A última participação do atleta numa competição foi em Julho, num torneio organizado pela Universidade de Macau. Foi a partir desde evento, que a CEGM seleccionou os representantes da RAEM nos JARC. Leo e Uni subiram mais alto e mais depressa e isso deu-lhes acesso directo ao Pavilhão da Universidade de Ciência e Tecnologia, as instalações que foram construídas de raiz para acolher os desportos radicais.
Experiência também não falta à residente de 29 anos de idade que vai disputar o pódio nos femininos. A professora de Geografia vive entre as cordas dinâmicas, fitas e cordeletes há cerca de seis anos e, tal como o colega de equipa, participou nos últimos JARC. Em Banguecoque, corria o ano de 2005, a exibição do duo de Macau não foi muito expressiva, ficando-se pelos últimos lugares da tabela de classificação.
A pouco mas de 15 dias da segunda edição do evento desportivo, a praticante sente a tensão e a ansiedade a aumentarem. “Desde que participei na competição na Tailândia que comecei a sentir-me mais pressionada. Além disso, estou muito preocupada com a minha condição física, porque me feri na perna”, notou ao Tai Chung Pou.
A escalada desportiva divide-se em diferentes variantes. Normalmente, esta modalidade é praticada em pequenas falésias que variam entre 20 e 60 metros de altura sob condições controladas de segurança. Nos JARC, porém, os atletas vão escalar debaixo de tecto.
O pavilhão que está a ser ultimado no Cotai vai albergar a segunda parede com medidas estandardizadas do território. Os praticantes têm que trepar paredes preparadas com adarras, simulando pedaços de pedra e situações encontradas nas rochas naturais, como desníveis, inclinações negativas (com mais de 90 graus), tectos, obstáculos, etc.
Tudo será preparado para que os atletas tenham que enfrentar situações semelhantes àquelas encontradas no meio natural. Para isso, vão ser criadas vias com diferentes níveis de complexidade, o que vai exigir níveis distintos de técnica e esforço físico.
A escalada desportiva implica que os praticantes possuam uma certa resistência e força físicas. A pensar nos JARC, Leo tem vindo a desenvolver um programa de treinos durante cinco dias por semana que também inclui trabalhos de ginásio.
No Jardim do Lago, o jovem aproveita ainda para transmitir os seus conhecimentos aos residentes que se sentem atraídos pelas alturas. Foi o que aconteceu com Jessica. “É preciso saber onde pôr as mãos e os pés”, frisou depois de uma primeira tentativa pouco feliz de trepar a parede.
Após algumas dicas dadas por Leo, foi a força física que traiu a jovem filipina que, já com os pés bem assentes na terra, não conseguia esconder a excitação. “Sempre quis experimentar, é muito divertido e quero voltar a fazer na próxima semana”, acrescentou.
O local onde mora a única parede de escalada com as medidas estandardizadas tem, todavia, os dias contados. “Ouvi dizer que o jardim vai ser demolido, mas ainda não sabemos quando”, contou o responsável do CEGM, Rogério Nogueira.
“Estamos muito preocupados com a situação da modalidade após a demolição. Parece que a parede vai ser transferida para o jardim da Universidade de Ciência e Tecnologia, mas é apenas um zunzum e não temos ainda nenhuma certeza”. A estrutura adaptada para a prática de escalada desportiva foi inaugurada há quatro anos e partilha o espaço com dois campos de futebol e basquetebol, jardim e zona para piqueniques.

Escalada desportiva em Macau

Onde e como praticar

O Clube de Escalada Guia Macau (CEGM) é uma associação com mais de uma centena de membros e promove várias iniciativas para a comunidade. Todos os fins-de-semana, a partir das 15 horas, os elementos da associação fazem de ponte entre os cidadãos curiosos e a parede do Jardim do Lago, na Taipa.
A actividade é gratuita e está sob a chancela do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais. “Basta assinar o registo cada vez que se pretende escalar”, explicou ao Tai Chung Pou o responsável do CEGM, Rogério Nogueira.
O organismo governamental promove ainda, anualmente, em conjunto com a associação desportiva local, um curso de iniciação à escalada desportiva. De acordo com o mesmo responsável, a acção de formação, que tem a duração de 10 horas, aborda apenas as medidas de segurança.
“As pessoas aprendem como devem proteger o atleta que está a escalar. No final do curso, têm que fazer um exame e só depois podem entrar no nosso clube”, acrescentou Rogério Nogueira. Uma vez por ano, o CEGM organiza ainda visitas até Guiling, na China, para praticar escalada em montanhas verdadeiras. “Macau é muito baixo”, frisou o atleta.
A adrenalina das alturas atrai muitas pessoas para a modalidade. No Jardim do Lago, situado na estrada que faz a ligação à ponte da Amizade, os participantes dos jogos que se disputam nos campos de basquetebol e futebol param para assistir à exibição dos atletas.
No entanto, nas palavras de Rogério Nogueira, muita gente experimenta, mas poucas ficam agarradas à modalidade. “É um desporto que implica bastante energia, resistência, prática e a realização de muitos cursos”.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn


segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Muay Thai em Macau, O professor de vinhos

Muay Thai quer conquistar mais adeptos
com Jogos em Recinto Coberto

Lutar contra o esquecimento

Mais do que subir ao pódio com as medalhas ao peito, o grande objectivo da selecção de Muay Thai de Macau é conquistar o apoio da população através de boas exibições. Em causa está a sobrevivência da modalidade, cuja popularidade tem vindo a decair nos últimos anos. Para cumprir este plano à risca nos 2.os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto (JARC) que se avizinham, os homens do boxe tailandês da RAEM estabeleceram um programa intensivo de treinos.
Mais do que uma luta, este desporto é considerado uma arte marcial na Tailândia. O que chama mais a atenção são os chutos e socos devastadores, sendo a disciplina que melhor uso faz dos cotovelos e joelhos.
Actualmente, o Muay Thai divide-se nas variantes amador e profissional. A profissionalização da modalidade foi estabelecida para promover a utilização de equipamentos protectores pelos lutadores. Mesmo assim, estes atletas sobem ao ringue apenas de calções e luvas.
Dentro de três semanas, nos JARC, os residentes poderão assistir a nove combates divididos pelas diferentes categorias de peso. Cada selecção só pode, contudo, participar em cinco destes eventos. O objectivo é evitar que as equipas mais fortes, como o Irão, a Tailândia ou o Cazaquistão, coloquem as outras formações a um canto da competição.
É a única forma de dar espaço às selecções mais fracas para sonhar com as medalhas, defendeu ao Tai Chung Pou o director da Associação de Muay Thai de Macau e treinador principal da equipa local, Siu Kuok Veng. “Embora sejam considerados amadores, muitos atletas são, na verdade, semiprofissionais. Pelo contrário, os lutadores de Macau são verdadeiros amadores e só treinam quando têm tempo livre. A diferença é bastante significativa quando se está dentro do ringue”, explicou.
Os cinco membros da formação da RAEM que se vão bater nos JARC foram seleccionados a partir de uma série de combates organizados entre o Verão de 2006 e o mês de Abril deste ano. Após a convocação, os pugilistas locais passaram a cumprir um programa de treinos nas tardes de segunda a sexta-feira, ao longo de quatro meses consecutivos. Desde Agosto, o quinteto de lutadores começou a treinar sete dias por semana. Além disso, o atleta de nacionalidade tailandesa que integra a formação preferiu terminar a preparação na sua terra natal.

Os JARC são encarados pela associação como uma lufada de ar fresco para o boxe tailandês. O evento desportivo pode cativar mais adeptos e afastar a imagem de que esta arte marcial é apenas uma modalidade violenta.
Outra parte da equipa viajou até Zhuhai. Do outro lado da fronteira, dois lutadores locais tiveram oportunidade de se juntar à selecção chinesa e realizar treinos durante dias inteiros, tal e qual como verdadeiros profissionais. Já dois estudantes que também vão defender as cores da bandeira da RAEM não tiveram autorização dos professores para sair da região.
Ng Kuok Kun é um dos pugilistas que falhou o programa de Zhuhai. A escola apenas lhe concedeu 10 dias de férias especiais para poder participar nos JARC, por isso o jovem de 17 anos de idade só pode treinar depois das aulas.
Na cidade da província de Guangdong, os atletas acordavam às 5 da manhã para realizarem corrida. Após o pequeno-almoço, atacavam os sacos de boxe e entravam em lutas simuladas. O dia ficava completo com duas sessões de Muay Thai, depois do almoço e do jantar.
Para o técnico responsável pela equipa, este programa até pode não ter contribuído para a elevação do nível de luta dos homens de Macau, mas pelo menos garantiu um maior controlo sobre os lutadores. “No território, eles podem voltar para casa após os treinos, mas o que é que fazem depois? Quem é que tem a certeza que no dia seguinte vão estar novamente presentes no ginásio?”, questionou.
Siu Kuok Veng frisou que, em combate, os elementos psicológicos valem mais do que a técnica. “A equipa pode não obedecer às nossas ordens e continuar a fazer vida nocturna e a beber com os amigos. Não há nada que nos garanta o que é que eles fazem fora do ringue”, acrescentou.
A Associação de Muay Thai local organizou ainda encontros com pugilistas da China, Japão e Tailândia para que os atletas da RAEM aprendessem a lidar com vários estilos e técnicas de luta. Apesar de, nos primeiros JARC, em 2005, a selecção local ter alcançado bons resultados, regressando de Banguecoque com uma medalha de ouro e duas de prata, este ano as esperanças do treinador estão apenas centradas no bronze, dois exemplares, de preferência. Na altura, a disciplina estava ainda integrada nos desportos de demonstração.
O boxe tailandês está a atravessar um grande desafio – falta de recursos humanos. “Na mesma altura em que um jovem está a atingir um certo nível, encontra um emprego num casino e deixa de ter tempo para treinar”, lamentou Siu.
Nos anos 1990, existia mais de uma dúzia de ginásios de Muay Thai abertos no território. No entanto, apenas um conseguiu sobreviver. O treinador local acredita que a principal razão para a decadência da modalidade seja a falta de fundos, aliada à ausência de vitórias nas grandes competições.
Os JARC são, contudo, encarados pela associação como uma lufada de ar fresco para o boxe tailandês. O evento desportivo organizado na RAEM pode cativar mais adeptos e afastar a imagem de que esta arte marcial é apenas uma modalidade violenta. “O Muay Thai é um desporto e essa é a mensagem mais importante que deve ser transmitida”.
Kahon Chan com Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn



Hugo Bandeira, docente de F&B
no Instituto de Formação Turística

Retrato de um professor feliz

A tarefa não é fácil, tendo em consideração a cultura dominante local, mas os resultados deixam-no muito entusiasmado e com vontade de continuar. Hugo Bandeira é um homem que visivelmente se entrega aos desafios que a vida lhe foi trazendo, mais ou menos por acaso, e capaz de transformar as obrigações profissionais em paixões.
Nascido em Macau, Hugo Bandeira, docente do Instituto de Formação Turística (IFT), foi criado em Portugal, na terra onde estão as grandes caves do vinho mais famoso do país. “Voltei para cá com quinze anos, posso dizer que passei metade da vida num lado, metade no outro”, contabiliza. “Esta segunda parte, passada aqui em Macau, está a correr-me muito bem. Apaixonei-me por esta terra e por cá fiquei”, diz, de uma assentada só.
Pertencente à primeira “fornada” de alunos do IFT, o agora professor do estabelecimento de ensino descobriu em Macau o interesse pela hotelaria. “O meu irmão está ligado ao turismo e tenho primos que estavam ligados à hotelaria”, contextualiza. “Começou a fascinar-me, não só a área em si mas o facto de começar por baixo para poder chegar ao topo e ter o conhecimento completo da estrutura de um hotel”.
A hotelaria é um ramo profissional que funciona como uma escada. “Há certos empregos em que se chega a chefe e não se sabe o que se passa noutros níveis da empresa. Na hotelaria tal não é assim: começa-se por baixo e vai-se subindo, só com muito treino é que se chega ao topo”, afirma Bandeira.
De regresso aos tempos do liceu, o professor conta que ainda esteve para frequentar a Escola de Hotelaria do Porto, por ser, na altura, uma das melhores da Europa e por conhecer bem a cidade. Deu-se o caso de, entretanto, o Instituto de Formação Turística abrir as portas. “Acabei por apostar ficar cá porque achei que os melhores hotéis estavam todos na Ásia. Não via grande lógica em ir para Portugal quando tinha a oportunidade de estar aqui”. A atalho de foice e dando um salto no tempo, Hugo Bandeira conclui ser “feliz com a escolha e feliz com a profissão”.
Professor de vinhos no IFT, não estava nos seus planos iniciais trabalhar na área de alimentação e bebidas, que na linguagem profissional assume a designação de F&B, iniciais do inglês “food and beverage”. “Achava que era um trabalho chato e complicado. Sempre tive a ideia de seguir a secção de quartos. Quando acabei o curso, assim foi”.
Há mais de dez anos, este ramo que Hugo Bandeira escolheu não apresentava grandes compensações económicas. Prestes a casar e com responsabilidades acrescidas, decidiu aceitar uma vaga que apareceu aparecido na sua antiga escola. “Vim trabalhar no departamento de alimentação e bebidas, na altura não havia a hipótese de dar aulas. Apaixonei-me por F&B, comecei a interessar-me por vinhos e hoje em dia é essa a minha especialidade”, resume. A saída de um docente para Portugal, há uns anos, deu-lhe a oportunidade de passar para as salas de aulas e ensinar aos jovens alunos do IFT o bê-á-bá da arte do vinho.

Uma das grandes satisfações que tenho é pegar numa turma de 20 ou 30 alunos e chegar ao fim do ano com duas mãos cheias de estudantes interessados por vinho, quando no princípio do ano nem sequer bebiam

“Não é fácil, nesta parte do mundo”, começa por dizer, quando questionado sobre as aulas. “A cultura sobre vinho que os alunos têm é pobre, porque estão habituados a viver chá, quando há álcool envolvido é a aguardente de arroz, muito forte”. Os estudantes são quase todos de Macau e da China, pelo que “não têm o contacto com vinho que se tem em Portugal, onde há muito vinho à volta da gastronomia”. Assim sendo, quando chegam ao IFT, com 17 e 18 anos, “a primeira vez que provam vinho é um choque e é mesmo uma luta convencê-los a apreciar”.
Não se julgue, no entanto, que é uma luta inglória, bem antes pelo contrário. É nesta partilha cultural que está o desafio. “Uma das grandes satisfações que tenho é pegar numa turma de 20 ou 30 alunos e chegar ao fim do ano com duas mãos cheias de estudantes interessados por vinho, quando no princípio do ano nem sequer bebiam. Já querem experimentar, fazer perguntas e frequentar outros cursos”, refere.
Bandeira tem a mesma sensação com outro tipo de alunos, não os do bacharelato, mas os profissionais de hotelaria que frequentam as acções organizadas pelo Instituto de Formação Turística. As dificuldades no início são as mesmas, “não têm cultura vínica”, mas as transformações conseguidas são gratificantes. “Tenho uma grande satisfação em ir a hotéis, ser servido por um desses meus ex-alunos e ele recomendar-me um vinho”.
Até se ter capacidade para sugerir um bom néctar dos deuses, vai um longo caminho, que começa com os ensinamentos básicos. “O primeiro contacto passa por saber provar e aprender o que se deve procurar nos vinhos”. O professor explica tudo, a começar pela noção de que vinhos há muitos, do branco ao tinto, passando pelo espumante e pelo vinho de sobremesa. “É essa a primeira mensagem que se tem que passar. Vinho não é só vinho, tem muito que saber”.
Depois chega a fase mais complicada, a de saber reconhecer diferenças entre cinco vinhos tintos na mesa. “Há quem goste mais de um, outros preferem um diferente, mas ninguém está errado, porque o gosto é subjectivo”, atesta Hugo Bandeira. Nas primeiras aulas incluem-se também noções sobre a produção vinícola. “São sempre para tentar fazer com que os alunos percebam o que é o vinho e como é feito”, e isto porque “há muitos estudantes que não sabem que vem das uvas”. Tratando-se de um produto com o qual não estão familiarizados, “chamam vinho a tudo, do uísque à vodka, alguns pensam que o vinho vem das maçãs”.
O docente conta já ter acontecido dizer que um vinho cheira a manga e a primeira reacção dos alunos ser perguntar se a fruta é adicionada ao vinho. “Por tudo isto é que me sinto satisfeito com o interesse que adquirem e os resultados que conseguem alcançar”.
Com o crescimento verificado nos últimos tempos ao nível da hotelaria, saber de vinhos é um valor acrescentado para quem trabalha num hotel ou restaurante de Macau de padrões internacionais. Prova disso, aponta Hugo Bandeira, é a explosão que se está a verificar no mercado. “Durante imenso anos tivemos meia dúzia de empresários que importavam vinhos portugueses, um ou outro mandava vir vinhos de outros locais, mas era um negócio muito estagnado, sem grande movimento”, analisa. “Hoje em dia, são imensas companhias de importação e exportação a fazer negócio em Macau. Há muito interesse das grandes empresas importadoras de Hong Kong, que estão a abrir sucursais aqui”.
É a consequência directa da entrada de grandes unidades hoteleiras no território. “Estes casinos trouxeram um nível de exigência maior, porque querem ter listas com vinhos bons e variedades que não existiam em Macau”. Para acompanhar esta alteração verificada, são necessários recursos humanos à altura. No IFT, assegura o docente, está a ser desenvolvido “um grande programa de vinhos”, sendo que existe interesse em, no futuro, “termos um curso que seja só sobre vinhos”. Fora do Instituto de Formação Turística, assiste-se à abertura de programas por entidades privadas.
Já esta semana, o IFT dá início a um novo curso de vinho leccionado através do “Wine and Spirit Education Trust” de Londres, uma instituição reconhecida internacionalmente. “Foi engraçado porque abrimos inscrições há já algum tempo, para encomendarmos o material de estudo, e não tivemos grande resposta”, conta Bandeira. “De repente, de um momento, para o outro, o curso encheu”.
A instituição está a pensar organizar mais programas educativos do género para fazer frente à procura e, no próximo ano, vai lançar mais um nível, permitindo a continuação dos estudos a quem já aprendeu as noções básicas.
“Assiste-se a uma grande evolução, começámos com um nível básico, demos 3 ou 4 cursos, cada turma tinha cerca de 20 pessoas. Agora, muitas dessas pessoas já se estão a inscrever no segundo nível e, no futuro, de certeza que se vão inscrever no terceiro”, diz o responsável pela disciplina. “Neste momento é uma mais-valia ter formação especificamente nesta área, não só pela quantidade e qualidade dos vinhos, mas também pela procura dos grandes casinos e hotéis”.
Considerando as características do mercado de produção de vinhos, Hugo Bandeira não deixa em paz as listas de vinhos que vai encontrando, analisando-as cuidadosamente, e todos os dias viaja na rede global à procura de novidades. Testar novos vinhos é também um hábito do quotidiano e não há prova em Macau em que não participe. “Uma vez por ano vou a Singapura, onde há uma grande feira. Sempre que há provas de vinhos lá está o Hugo”, diz, com entusiasmo, o homem que tropeçou em F&B para se apaixonar pela docência e não voltar a pensar na secção de quartos.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn