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sexta-feira, 11 de abril de 2008

Líderes mundiais reunidos no Fórum Boao em Hainão, Mestrados e doutoramentos em Macau

Líderes mundiais reunidos no Fórum Boao em Hainão

Por uma Ásia “verde”

O presidente da China, Hu Jintao, não poderia faltar. Começa hoje, em Hainão, o Fórum Boao para a Ásia, uma reunião anual que congrega líderes mundiais e que este ano terá por tema principal a protecção do ambiente. Esperam-se personalidades como o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, o Presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, e empresários para, num ambiente informal, discutirem questões ligadas ao desenvolvimento económico. Uma oportunidade anual que vem enfatizar “a crescente importância que a China tem na senda internacional, congregando líderes que não são só políticos nacionais, mas também empresários famosos e académicos”, conforme declarou ao Tai Chung Pou o presidente do Instituto de Estudos Europeus, José Sales Marques.
Sendo equiparado ao Fórum Davos, na Suiça, o Fórum Boao para a Ásia é uma oportunidade importante “para troca de informações”, marcando “o papel da China como facilitador do diálogo”, focando aspectos de “desenvolvimento económico e segurança”. Sempre num “ambiente informal”. Estando, provavelmente, longe do palco questões políticas como a da independência de Taiwan, é de realçar ainda a presença já confirmada do vice-presidente eleito da ilha, Vincent Siew. A ideia é que “a cooperação na Ásia seja uma ‘win-win situation’, em que todos têm a ganhar”, afirma Sales Marques.
Numa recente conferência de imprensa, o secretário-geral da iniciativa, Long Yongtu, dizia que “a força do painel de oradores para o evento deste ano é um testemunho da importância e influência do Fórum Boao para a Ásia”, tendo-se tornado “uma plataforma de discussão para o futuro político, económico e social do continente”. Serão três dias de debate que, conforme informação veiculada no site da Internet, irá procurar “encaminhar-se rumo à eficiência energética, de forma a assegurar o futuro da Ásia através das fontes de energia renováveis”.
Em declarações também publicadas no site, o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, afirmou estar “ansioso” por contribuir para tais discussões. “Tenho uma ligação pessoal à China, e estou muito contente por ter a possibilidade de regressar. Mas, mais importante, estou entusiasmado por poder ter algo a dizer neste diálogo”, diz.
Recorde-se que o vice-presidente eleito de Taiwan, Vincent Siew, afirmou esperar encontrar-se com os dirigentes chineses no Fórum Boao. Salientando não poder dizer se os encontros que prevê manter incluem o Presidente Hu Jintao, Vincent Siew disse que "durante anos" se encontrou com os principais dirigentes chineses no fórum e que este ano espera o mesmo. O mesmo responsável escusou-se, contudo, a dizer quando é que poderia encontrar-se com Hu Jintao, e garantiu "respeitar os preparativos da organização". O vice-presidente eleito já participou cinco vezes no fórum Boao como presidente da Fundação para o Mercado Comum do Estreito de Taiwan, uma organização não-governamental por si criada, e já esteve reunido com o Presidente chinês. "Considero o fórum como uma oportunidade para expandir as operações económicas de Taiwan para outros pontos do globo e irei aproveitar a reunião para demonstrar a sinceridade e boa vontade de Taiwan ao continente chinês e fazer disso a nossa base de mútua confiança", afirmou Vincent Siew.
O Fórum Boao para a Ásia deverá contar com cerca de mil participantes de cerca de 12 países. Entre os principais intervenientes, contam-se, além dos já mencionados, a Presidente do Chile, Michelle Bachelet, o primeiro-ministro do Cazaquistão, Karim Massimov, o Presidente da Mongólia, Nambar Enkhbayara, os Chefes do Executivo de Macau e Hong Kong, além do antigo secretário de Estado dos EUA, Colin Powell. Uma longa lista de nomes sonantes à qual se juntam ainda vários empresários.
Luciana Leitão
Fotografia: Xinhua

Governo organiza evento internacional sobre protecção ambiental

Macau, aquela plataforma

Comércio, economia e agora também o ambiente. O Governo quer transformar Macau numa plataforma de cooperação de tecnologias para as indústrias amigas do ambiente, tanto ao nível regional como internacional. É com este objectivo que vai ser organizada, entre os dias 23 e 25 deste mês, a primeira edição do Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental Macau 2008 (MIECF, na sigla inglesa), que terá lugar no Centro de Exposições e Convenções do Venetian. O evento traz ao território 54 personalidades e especialistas na matéria, oriundos de 15 países e regiões, além de mais de uma centena de empresas (ver texto nesta página).
Água, Energia e Desenvolvimento Sustentável serão as três palavras de ordem durante o seminário. “São três questões que levantam preocupações a nível internacional”, explicou a presidente substituta da comissão executiva do Conselho do Ambiente, Vong Man Hung, durante a conferência de imprensa que se realizou ontem. “É a primeira vez que este tipo de evento é organizado em Macau e queremos ser uma plataforma de cooperação para os nossos vizinhos do Delta do Rio das Pérolas e o exterior”, frisou a mesma responsável.
“Macau pode tirar partido das vantagens geográficas e económicas, assumindo-se como uma plataforma de intercâmbio entre a China e os países europeus, nomeadamente no que toca à introdução de políticas e tecnologias de protecção ambiental dos países da Europa, com o objectivo de promover a conservação da água e energia e as indústrias de reciclagem na China”, defendeu, por sua vez, a vogal da comissão executiva do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau, Echo Chan.
O MIECF representa a quarta aposta deste ano do Governo centrada no ambiente. Recorde-se que, em Janeiro, Macau aderiu ao protocolo de Quioto, ao mesmo tempo que foi lançado o regulamento administrativo que proíbe a comercialização de motas com motor de combustão interna a dois tempos e estabelece limites de emissão de gases aos diferentes modelos de motociclos. No final do próximo ano ou no início de 2010, prevê-se que o gás natural já esteja disponível para uso doméstico.
Quanto a novidades, Vong Man Hung nada adiantou. Questionada sobre medidas aplicadas nos grandes empreendimentos turísticos que estão actualmente em construção, como os casinos, a representante do Conselho do Ambiente apenas salientou que “o sector hoteleiro está a ser encorajado para adoptar esquemas mais verdes de consumo de água e energia, através do concurso para o hotel mais amigo do ambiente”.
Ao longo dos três dias do seminário, as apresentações vão basear-se em diversas matérias, destacando-se a “Agenda para a cooperação internacional”, “Poupança de energia e redução de emissões” e “Cidades inteligentes/ecológicas e políticas sustentadas para os transportes”. A título de exemplo, os oradores vão focar-se em questões ambientais e soluções eficazes, nas tecnologias que podem ser aplicadas nas diferentes indústrias e como podem as tecnologias ecológicas de baixo custo contribuir para suster parte dos danos provocados ao meio ambiente.
Durante o evento, serão ainda abordadas estratégias para que os países se possam comprometer com políticas públicas que visem impulsionar a inovação no que toca à protecção ambiental.

Empresas de Macau expõem tecnologias de protecção ambiental

São 26 os representantes locais na primeira edição na Exposição Internacional de Cooperação Ambiental Macau 2008, um evento que se realiza no Centro de Convenções e Exposições no Venetian, entre os dias 23 e 25 deste mês. A par de seminários, a iniciativa inclui uma mostra na qual uma centena de empresas oriundas de várias regiões chinesas e do estrangeiro vão exibir tecnologias de protecção ambiental.
De acordo com a vogal da comissão executiva do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau, Echo Chan, um total de 115 entidades e empresas irão colocar expositores no espaço destinado à exposição, que terá uma área de 6900 metros quadrados. O Pavilhão de Macau vai marcar presença no evento, com 69 stands e 26 participantes, incluindo departamentos do Governo.
A área do Delta do Rio das Pérolas tem um total de 813 metros quadrados. São 80 as empresas provenientes das diferentes províncias e regiões e vão mostrar os mais recentes desenvolvimentos no sector das indústrias verdes.
Nos primeiros dois dias do MIECF, as portas do espaço da exposição estão abertas apenas a representantes do sector empresarial. Na mostra, será ainda possível conhecer as ofertas amigas do ambiente de outros países fora do contexto asiático, como Portugal e Suécia, por exemplo.
Alexandra Lages

Abertas as inscrições para mestrados e doutoramentos em Macau

A um passo do conhecimento

Existem inúmeras áreas de investigação disponíveis em Macau para quem deseja aprofundar o conhecimento. Pós-graduações, mestrados e doutoramentos são alguns dos meios para o conseguir. As datas em que têm início variam conforme as instituições de ensino, mas normalmente são dois os períodos: Setembro e Fevereiro.
Neste momento, as inscrições estão abertas para os mestrados que vão iniciar no último trimestre do ano. Até ao próximo dia 25 os interessados podem matricular-se nos mestrados e pós-graduações que vão decorrer na Universidade de Macau (ver caixa). Esta é também a altura certa para se candidatar aos cursos de investigação, que conferem o grau de mestrado ou doutoramento, no Instituto Inter-Universitário de Macau (IIUM).
O professor Ivo Carneiro de Sousa, vice-reitor para a Investigação e Relações Internacionais do IIUM, confirma que a investigação é a grande aposta estratégica e afirma, sem receios de interpretação, que a instituição “é pequena e de elite”.
Está em curso, pela primeira vez, um mestrado em Estudos Comparados entre China e Europa, que começou em Fevereiro deste ano, e em Setembro arrancam três novas áreas de investigação - Estudos Latino-Americanos, Estudos Lusófonos e Estudos da Mulher - , totalizando quinze mestrados diferentes. Mais de 190 interessados já entregaram as candidaturas para ingressar nos mestrados e 36 tencionam realizar o doutoramento.
A frequência das aulas divide-se por módulos, o que “flexibiliza o estudo”. Caso alguém inicie o mestrado fora dos prazos, frequentará os módulos em falta no ano seguinte.
As portas abriram-se para a investigação em 1997, com um mestrado em Educação, um ano após a fundação do Instituto Inter-Universitário no território, que resultou de uma parceria entre a Universidade Católica Portuguesa e a Diocese de Macau.
Ainda hoje a investigação em Educação é a mais procurada, a par do MBA (Master in Business Administration).
No campo da Educação, Ivo Carneiro de Sousa destaca teses relevantes.
Porque é que os alunos estudam língua inglesa durante 10 ou 12 anos, mas chegam ao fim sem saber falar? Este foi o problema levantado por uma das teses, relativamente ao ensino de inglês nas escolas de Macau. A investigação deu origem a algumas respostas. “Como o inglês não é uma língua de comunicação, dificilmente era falada pelos alunos”, revela Ivo Carneiro de Sousa, adiantando que o sistema de ensino também estaria na origem do problema, pois “sendo essencialmente baseado na memorização, não permitia aos alunos aplicar os conceitos gramaticais na comunicação oral”.
A necessidade da criação de um centro de professores (Teacher’s Centre) foi fundamentada por uma outra tese de mestrado. O centro “permitiria o encontro de professores, e consequente partilha de experiências e recursos, num espaço que privilegiaria a comunicação transversal, distante de regulamentos e da estrutura vertical de cada estabelecimento de ensino”, explica. “A criação deste núcleo implicaria a reorganização da profissão”, conclui o responsável.
Também noutras áreas vão surgindo abordagens interessantes. Por exemplo, no mestrado de História e Património estão a ser feitos estudos sobre pátios de Macau, farmácias chinesas, além de um arquitecto chinês “estar a debruçar-se sobre o Porto Interior”.
O vice-reitor para a investigação constata que há muitas pessoas que “ainda não perceberam que Macau tem um património único, sendo a única cidade europeia na Ásia e, ao mesmo tempo, uma cidade chinesa muito antiga”, em que não há grandes cruzamentos ou misturas. O responsável dá como exemplo as fábricas de panchões, que estão também a ser alvo de uma outra investigação, em que a arquitectura é semelhante, não por uma influência natural ou cruzamento de culturas, mas “por imposição de regulamentos militares que remontam ao séc. XIX”.
O professor é da opinião que “uma tese não termina na sua defesa”. Existem duas hipóteses em cima da mesa: “Ou fica a dormir numa prateleira ou é dada a conhecer”.
Mediante os estudos válidos e projectos inteligentes que ali vê nascer, frisa que uma das funções da instituição de ensino superior em que está inserido é sempre “promover a divulgação na comunidade científica”, através da publicação de artigos em revistas ou jornais de âmbito internacional ou proporcionando a participação em conferências e seminários, usando o inglês como língua veicular “para atingir o máximo de pessoas possível”, esclarece.
O objectivo principal no campo da investigação, seja ao nível de mestrados ou doutoramentos, é cumprir as áreas estratégias que a instituição definiu: Globalização e os seus impactos; Mudança Social e Desenvolvimento Sustentável, abrangendo três grandes áreas geográficas como a região do Delta do Rio das Pérolas, Sudeste Asiático (Indonésia, Tailândia, Filipinas) e os países lusófonos.
Quanto às novas áreas de investigação que vão começar em Setembro, Ivo Sousa espera ver “estudos comparados entre a América Latina e a China, no âmbito da política, da sociedade, relacionando os níveis de integração regional ou a circulação nos mercados globais”, no caso do mestrado em Estudos Latino-americanos.
Nas comemorações do Dia Internacional da Mulher, surgiram também abordagens que gostaria que fossem trabalhadas no mestrado de Estudos da Mulher, como “o problema do tráfico humano, a prostituição, a subalternidade no trabalho, os direitos associados à maternidade”, entre outros.
Já no caso dos Estudos Lusófonos, o vice-reitor considera importantes as “investigações comparadas por sector, por exemplo, em matéria de florestas, pesca, têxteis, sistema bancário, em países como Moçambique ou Angola”, uma vez que Macau é um território que serve de plataforma entre a China e os países lusófonos e cuja análise em determinadas áreas é “bastante necessária”.
Para 2009, um novo doutoramento poderá arrancar no IIUM, denominado Estudos Globais, cujo mês limite de inscrições é Outubro deste ano.
Até à data, têm sido possível superar dificuldades na contratação de docentes especializados, mas se o objectivo é evoluir para esta área e outras, como Psicologia Social, Psicologia Jurídica ou Arquitectura, vai tornar-se um desafio complicado. “Vamos ter de competir com outras universidades que também solicitam a mesma massa crítica que nós”, remata o professor, que desabafa: “Por exemplo, em Macau só existe uma pessoa doutorada em Arquitectura!”

A investigação na Universidade de Macau e no Instituto Politécnico

Na Universidade de Macau, a maioria das faculdades disponibiliza formação que vai para além do grau de licenciatura. Na faculdade de Direito, além das pós-graduações de Introdução ao Direito de Macau – curta duração e do Curso de Adaptação ao Direito de Macau, entre outras, destinadas especialmente aos licenciados que chegam ao território para trabalhar, são proporcionados também mestrados em Ciências Jurídicas e Ciências Jurídico-Políticas em língua veicular portuguesa. Estudos específicos em Direito Internacional, Direito da União Europeia ou Sistemas Jurídicos Comparados são outras possibilidades mas, desta feita, em língua inglesa.
A Faculdade de Gestão de Empresas conta com um MBA (Master in Business Administration).
Na Educação, os mestrados desdobram-se em áreas específicas: Administração Educacional, Psicologia Educacional, Currículo e Ensino. O único que tem a indicação de que não irá abrir vagas é o mestrado de Educação em Aconselhamento Escolar.
Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, o Departamento de Comunicação confere também a possibilidade de estudar Comunicação e Novos Media (em inglês).
No Departamento de Português, dirigido por Alan Baxter, as ofertas variam entre Língua e Cultura Portuguesa (Linguística, Literatura e História) e Tradução. Já o Departamento de Psicologia não oferece a opção de mestrado.
Em alguns casos pode concluir-se o mestrado em dois anos, ou entre três a quatro anos, como é o caso da maioria dos programas de mestrado da Faculdade de Ciência e Tecnologia.
O Centro de Educação Contínua da Universidade de Macau organiza diversos cursos, seminários e workshops, mas no que diz respeito a mestrados, Olívia Lei, do Centro, disse que estão ainda na fase de planeamento, pelo que nada pode adiantar. “Talvez em Setembro já haja novidades”.
O Instituto Politécnico de Macau estabeleceu parcerias com várias universidades chinesas e também com algumas instituições de ensino superior sediadas em Hong Kong e Inglaterra, para possibilitarem aos alunos o acesso ao grau de mestrado. As áreas de formação vão da educação física às telecomunicações, passando pela enfermagem.

Sandra Gomes
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

quinta-feira, 27 de março de 2008

A ilusão do jogador, Macau arrasou em Tens de Hong Kong, Arte às cegas

Investigador do Canadá em seminário da Universidade de Macau

A ilusão do jogador

Não é o jogador que domina o jogo, mas sim o contrário. Nada mais é do que uma questão de sorte. Quando esta premissa deixa de ser uma realidade, e o indivíduo se deixa dominar por uma “ilusão”, então está dado o sinal de alarme. O caminho para a doença está a um passo. Conclusões do psicólogo e académico canadiano, Robert Ladouceur, presente ontem na Universidade de Macau para um seminário sobre o jogo.
Perante uma plateia cheia de académicos, curiosos, jornalistas e estudantes, Robert Ladouceur apresentou os resultados de estudos realizados, ao longo de vários anos, no que toca, principalmente, ao mundo de Las Vegas, aquele que conhece melhor, mas que poderão ser adaptados ao universo asiático. Com a legalização do jogo a ser uma realidade nos países ocidentais e asiáticos, Robert Ladouceur veio discutir o desenvolvimento de sérias patologias ligadas ao vício do jogo que levam à necessidade de recorrer a ajuda especializada.
Garantindo que as probabilidades não são favoráveis, e que apenas uma pequena percentagem, em raras ocasiões, consegue realmente ganhar, o académico lançou uma pergunta à audiência: “Se se joga apenas pela possibilidade de vir a ganhar e tão poucos realmente conseguem, porque é que as pessoas continuam a jogar?” Um aparente “paradoxo”, intimamente ligado ao verdadeiro motivo que leva as pessoas a continuar. A resposta, baseada em exemplos e casos práticos, foi rápida: “Enquanto jogamos a maioria esquece-se que o resultado é um mero produto do acaso.”
Dando inúmeros exemplos do que tem vindo a assistir em Las Vegas, Ladouceur afirma que frases como “vou vencer a máquina”, ou o facto de, quando estão a jogar à roleta, algumas pessoas analisarem os números que saíram anteriormente de forma a prever o resultado, mostram que uma grande percentagem se esquece de que se trata apenas de um fruto do acaso. Tendo inquirido vários indivíduos sobre o que comentam, manifestam ou expressam antes de lançar os dados ou indicar os números, apercebeu-se de que “75 a 80 por cento tem monólogos internos baseados em falsas percepções”. Por isso, se ouvem frases como “hoje é o meu dia para ganhar, perdi duas noites de seguida”, “estou numa maré de sorte” ou “a sorte tem de mudar”. Assim, salienta o académico, há um denominador comum a todos estes comportamentos: “todos estes indivíduos relacionam factores que são independentes por natureza”. Factores que podem ser “jogos anteriores, sensações ou outros”. Uma forma de tentar prever o imprevisível, remata.
O que acontece é que “a maioria pensará que tem uma estratégia qualquer”, quando, na realidade, se esquecem que “o resultado do jogo é fruto do acaso”. Porque é que tal sucede? A resposta certa não se sabe. “Talvez porque toda a nossa vida temos ouvido dos nossos pais e professores que temos de pensar nos eventos passados para aprender”, diz. Mas, adverte, “o jogo é a única actividade humana em que é inteligente não ter em conta eventos ou factores anteriores”.
Baseando-se em modelos de estudo determinados por investigadores dos EUA, Custer e Milt, o académico salienta que “ganhar logo no início uma grande quantia aumenta as expectativas, no sentido de encorajar a jogar cada vez mais – e tal deverá persistir mesmo depois de sofrer perdas”. Por isso, é que surgem comentários, no desenrolar de um jogo, como: “Não sabes jogar, não segues o padrão certo”. Sinais de alarme. Sintomas do desenvolvimento de uma patologia.
Dados teóricos que foram comprovados na prática por Ladouceur. Aliás, revela, a “maioria afirma no tratamento que teve grandes vitórias no início”. Em jeito de prevenção, o especialista alerta: “Atenção à forma como interpretam as vitórias.”
O académico divide os jogadores em quatro tipos: os que jogam raramente (baixo risco), os que o fazem por diversão (risco moderado), os que jogam esporadicamente (alto risco) e os que têm uma patologia (jogadores problemáticos). Pertencendo a maioria ao grupo de risco moderado, o académico não deixa de salientar que é preocupante que “cinco por cento da população total que joga tenha problemas”.
Como se identifica uma patologia? Quando se ouvem expressões como “jogo porque adoro baccarat” ou “não estou viciado, apenas adoro sentar-me numa mesa redonda”. São indícios de que aquela pessoa já “perdeu o controlo sob o jogo”, com as inerentes consequências para “a família e o emprego”, podendo, inclusivamente, “roubar dinheiro” e repetir, continuadamente, o jogo para “recuperar as perdas”. Quando se usa dinheiro que não se tem “significa que se está a tentar ganhar o que se perdeu”.
Coloca-se então a questão do tratamento. Citando Custer, um psiquiatra famoso na área, Ladouceur afirma que “só quando se reconhece que o dinheiro está perdido para sempre” é que se está “curado”. E quando se supera a “ilusão” de que “dinheiro ganho atrai mais dinheiro”. Mas, afirma, declarar a derrota face ao jogo é “muito difícil para o jogador”.
Assim, as componentes do tratamento psiquiátrico passam por “perceber o conceito de acaso, admitir e ter consciência das percepções erradas que levam a relacionar factores independentes por natureza, corrigir cognitivamente essas falsas percepções”. Os resultados poderão não tardar a surgir e, “daí a seis meses, pode estar curado”.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Equipa de râguebi da RAEM não sofreu um único ponto

Macau arrasou em Tens de Hong Kong

Os jogadores da SJM Macau foram reis e senhores no Torneio de Tens que decorreu ontem em Hong Kong. A equipa derrubou as equipas adversárias sem sofrer um único ponto e arrecadou o troféu principal da competição. A participação serviu de preparação para a próxima missão dos atletas da RAEM: o Torneio Asiático de Tens que se realiza no início do próximo mês nas Filipinas.
A SJM Macau conquistou ontem a vitória e trouxe para casa a “Cup” da competição que se joga com 10 jogadores de cada lado do relvado e é anualmente organizada pela Liga de Râguebi de Hong Hong. Após terem assegurado a passagem à disputa da taça principal do torneio – existe ainda a Taça Playte e a Bowl – os atletas que defendem as cores de Macau na antiga colónia britânica venceram os adversários Kowloon Mallons por 33-0.
Por tradição, o Tens de Hong Kong antecede a realização do Mundial de Sevens da RAEHK, evento desportivo que conta com a participação de algumas das selecções mais fortes da modalidade a nível mundial e que terá a presença da equipa portuguesa. Na edição deste ano, o torneio de 10 contra 10 reuniu 24 conjuntos.
Com alguma experiência no campeonato da liga do território vizinho, a SJM Macau não teve uma época desportiva feliz, terminando com um número de derrotas considerável. No entanto, é na variante de tens que Macau obtém os melhores resultados.
“Sempre jogámos muito mais na variante de 10 do que de 15, devido ao problema da falta de jogadores. Como temos atletas adaptados para certas posições torna-se mais complicado distribuí-los pelo relvado. Por outro lado, o tens é mais a essência do râguebi, há mais espaço para carga e passe”, explicou em declarações ao Tai Chung Pou o capitão da SJM Macau, Ricardo Pina.
No dia 6 do próximo mês, os jogadores da RAEM viajam para Manila, nas Filipinas, para disputarem o Torneio Asiático de Tens. “Os resultados desta competição em Hong Kong servem de preparação para este campeonato”, frisou o atleta.
Segundo Ricardo Pina, o objectivo da equipa é chegar a uma das finais do torneio. Em Manila, em vez de três, disputam-se quatro taças. A par da cup, da Playte e da Bowl, existe o troféu Shield. O capitão da formação ambiciona um lugar na final nas três primeiras competições.
O torneio de Manila não é desconhecido para a maioria dos jogadores da Associação de Râguebi de Macau. Há 10 anos que a organização local marca presença na competição que junta 36 equipas, não só asiáticas, mas também europeias e de outros cantos do mundo.
No entanto, a formação da RAEM fez um interregno no ano passado. Uma pausa que aumenta o entusiasmo de Ricardo Pina. “Vamos voltar em força para um torneio que é muito importante”, prometeu.
Alexandra Lages

Trabalhos de crianças expostos em “Para Além da Escuridão”

Arte às cegas

Bengalas coloridas, com formas de animais, que tilintam quando são agitadas. Máscaras e óculos com surpresas. Instrumentos musicais feitas de todo o tipo de materiais. Quadros concebidos para serem tocados. As crianças dos cursos do Museu de Arte de Macau (MAM) receberam um desafio: criar obras que permitissem experienciar a deficiência visual. As ideias mais originais estão expostas no espaço cultural.
A mostra destina-se a miúdos e graúdos. É um jogo de sentidos, com uma forte componente lúdica, que pretende levar o público a relacionar-se com as peças e experimentar a sensação de escuridão total. Após sensibilizar os mais pequenos para o privilégio que é poder ver o mundo, a iniciativa visa alertar o público em geral sobre as dificuldades vividas pelos deficientes visuais. É a última chamada para contemplar as obras de “Para Além da Escuridão” - a exposição patente no MAM termina no dia 7 do próximo mês.
Os vidros que envolvem a porta do espaço da mostra estão cobertos de negro. No entanto, o interior é dominado pela cor. Cada secção da iniciativa é indicada por percursos de manchas de tinta de várias cores. O primeiro desafio de “Para Além da Escuridão” é o “Túnel do Som”.
Os mais pequenos devem pegar nas bengalas para cegos e nos olhos milagrosos que estão pendurados na parede. São objectos cor-de-laranja, pretos, rosa ou amarelos que foram concebidos para servir de apoio às pessoas invisuais. As formas de animais revelam o toque especial dado pelos pequenos artistas, que também se lembraram de utilizar materiais que tilintam quando são agitados.
Já os óculos com lentes do tamanho de metade de um ovo são colocados no rosto com a ajuda de um elástico. As “viseiras de glaucoma” foram criadas pelas turmas infantis para mostrar a sensação de deficiência visual e recomendar a protecção da vista. Glaucoma é conhecido como o ladrão sorrateiro da visão, sendo uma doença que afecta gradualmente o nervo óptico.
As crianças devem ultrapassar as cortinas pretas no “Túnel do Som” devidamente equipadas. Lá dentro, devem tentar encontrar a saída entre um sem fim de fios pendurados, fabricados com tecido e objectos que emitem sons com o movimento. Terminada a viagem, um cartaz colado no chão da saída pergunta: “Como se sente? Feliz? Assustado? Deliciosamente surpreendido?” No fim de contas, o Túnel do Som é mais uma estratégia para fazer os participantes experimentarem, durante pouco mais de cinco minutos, as dificuldades e barreiras do dia-a-dia da vida das pessoas invisuais.
À volta da estrutura que dá forma ao túnel encontram-se afixados vários trabalhos das turmas dos cursos de arte infantil do MAM. Há as luvas sensoriais feitas de plástico, com bolinhas de barro no seu interior e enfeitadas com pinturas e colagens, que representam o tacto, um dos sentidos mais importantes para quem não consegue ver.
Com o mesmo objectivo, estão expostos os trabalhos das séries “Criando Texturas”. Ao contrário das exposições normais, estes quadros foram feitos para serem tocados. Fechando os olhos e através do tacto, é possível descobrir que as crianças desenharam flores, animais e corações, entre outros. Para este resultado final, foram utilizadas duas técnicas: a aplicação de massa de modelagem ou colagem de materiais em placas de madeira.
Depois, encontra-se a parte da exposição intitulada “Ping-Ping Bang-Bang”. Os termos estranhos do título são onomatopeias dos ruídos produzidos pelas dezenas de garrafas ali expostas. “Para quem é cego, o sentido de audição assume uma grande importância na percepção do mundo exterior”, explica o cartaz informativo. É por esta razão que as bengalas que se encontram no princípio da mostra produzem sons. O mesmo conceito foi aplicado em garrafas usadas, com a única diferença que os diferentes materiais e técnicas aqui aplicadas possuem uma componente lúdica. São instrumentos musicais.
O “Túnel dos Pirilampos Brilhantes” é a parte que se segue. À entrada avisa-se que é necessária a utilização de uma lanterna. “Tactear na escuridão e sentir o que é ser cego” é o desafio lançado neste segundo jogo da mostra. Do outro lado da cortina de pano preto rasgado em tiras, as paredes do espaço foram invadidas por pirilampos cujos olhos ficam fluorescentes com o contacto com a luz. A mensagem que os pirilampos de cartolina pretendem transmitir é a importância de proteger a vista.
À saída do túnel, estão suspensas por fio-de’coco várias “Máscaras Surpresa”. Com caixas de cartão, os alunos dos cursos de arte construíram máscaras com diferentes tipos de óculos que permitem experienciar as deficiências visuais das pessoas. Espreitando para dentro dos objectos feitos à medida de cabeças de crianças e de adultos, vê-se através dos olhos de quem sofre de cataratas, glaucoma e “macula lutea”.
Já de fora do espaço que envolve o “Túnel dos Pirilampos”, estão dispostos no chão pneus com rolos de papel no centro. É a secção intitulada “Olhar para o mundo de olhos fechados”. Os mais pequenos ouviram com os olhos vendados histórias sobre crianças invisuais e foram desafiados a desenhar as personagens. Os trabalhos podem ser contemplados nos rolos de papel dentro dos “olhos de fantasia com rodinhas”.
Enquanto se caminha para a porta da saída, há uma tela onde está a rodar o vídeo que mostra os principais momentos das aulas dos cursos de arte infantil. Com vendas pretas, as crianças trabalham nas suas obras e até se sentam à mesa a comer.
Mais à frente, estão ainda patentes pinturas de meninos e meninas invisuais oriundos de várias províncias chinesas que foram curados no âmbito de projectos de tratamento de organizações não-governamentais. São pinturas expressivas e carregadas de detalhe. Algumas conseguem transmitir alguns momentos da vida destas crianças. É o caso do quadro que mostra um menino a ser tratado por um médico ou de outro que representa um jogo de cabra-cega.
“De acordo com as estatísticas, quase 180 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de deficiência visual aguda e calcula-se que, em 2020, sem um plano sistemático de prevenção, outros 76 milhões perderão o uso da vista. Ou seja, há inúmeros indivíduos em risco de ficarem cegos ou que já vivem num mundo sem luz. Mas sabia que a deficiência visual pode ser evitada em cerca de 75 por cento dos casos?”. É a questão lançada em jeito de alerta no prefácio da exposição “Para Além da Escuridão”. Uma mostra que vai continuar a ver a luz do dia por pouco mais de uma semana.
Alexandra Lages

China Daily publica estudo sobre ensino no país

População chinesa desiludida com a educação

Quatro em cada dez chineses queixam-se de que existe um enorme fosso entre o investimento feito na educação e as vantagens retiradas, aponta um estudo feito a nível nacional. O relatório do grupo de consultoria e pesquisa “The Horizon”, citado ontem pelo jornal China Daily, inclui inquéritos feitos a 3355 pessoas, com idades compreendidas entre os 16 e os 60 anos, residentes nas zonas rurais e nas cidades, incluindo sete metrópoles, como Pequim e Xangai.
O estudo permitiu chegar à conclusão de que apenas 16 por cento dos inquiridos acredita que os investimentos feitos na educação darão lucro. Os que têm uma maior formação académica são precisamente aqueles que estão mais desapontados com a qualidade da educação que receberam.
“Mesmo tendo um mestrado, não consigo ter um emprego decente numa grande empresa”, lamentou-se Mao Xin, um residente de Pequim de 26 anos. “Os meus conhecimentos empíricos não me trouxeram qualquer vantagem e não tenho armas para competir.” Mao teve que rever em baixa as suas expectativas e trabalhar numa pequena empresa privada, auferindo um salário igual ao de colegas que nem licenciatura têm.
“Desiludi os meus pais, que me deram, pelo menos, 30 mil yuan para eu poder frequentar o curso de pós-graduação numa universidade de qualidade, durante três anos”, acrescentou, em declarações ao jornal oficial chinês em língua inglesa.
Os habitantes das zonas rurais têm percepções acerca da educação consideravelmente mais positivas do que os residentes das áreas urbanas, indica ainda o relatório.
“A nossa educação tem sido desenvolvida a pensar nos exames”, começou por explicar Huo Qingwen, vice-director de um centro de serviços de testes da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim. “O resultado deste estudo não me surpreende, uma vez que ouço queixas não só dos alunos, como também dos professores, a quem tem sido exigido que se concentram na taxa de aprovação dos seus estudantes.”
O Ministério da Educação pediu às escolas e às universidades que abandonem gradualmente o sistema de ensino orientado, única e exclusivamente, para os exames, depois de cada vez mais estudantes se queixarem de que os graus académicos não os estão a dotar de bases mínimas de experiência e de competência. “O mercado de trabalho está sedento de pessoas com talento, mas muitos dos licenciados não apresentam as competências exigidas para tarefas em que é necessário ter experiência e sentido criativo”, acrescentou Huo.
Há quem tenha, contudo, uma opinião bem diferente sobre a qualidade da educação. “Não acredito que a qualidade do ensino seja a principal causa do aumento do desemprego da China”, afirmou ao China Daily Hong Chengwen, professor de gestão na Universidade Normal de Pequim. “As vagas no mercado de trabalho não acompanharam o ritmo do desenvolvimento económico dos últimos anos”, acrescentou.
Para o docente, estar-se-á perante o efeito “dominó” se o Governo não levar a cabo acções mais eficientes para controlar a taxa de desemprego. “As pessoas têm grandes expectativas em relação a melhores salários quando investem mais na educação”, afirmou o académico, dizendo ainda que “uma taxa de desemprego baixa irá influenciar o desejo dos chineses em terem uma formação académica superior, especialmente entre aqueles que menos possibilidades têm de estudar neste momento”.
Os comentários de Hong foram feitos numa altura em que já se sabe que diminuiu o número de estudantes candidatos ao exame nacional para a entrada em cursos de pós-graduação, um fenómeno inédito na última década. Segundo dados oficiais, 1,2 milhões de pessoas inscreveram-se este ano para o exame, o que representa uma descida de seis por cento comparativamente com 2007.
O China Daily ouviu ainda as entidades patronais. Vivian Guo, directora executiva de um empresa privada em Pequim, explicou que a sua companhia contrata as pessoas que mais possam contribuir pelos menores custos possíveis.
“A maioria dos licenciados prefere postos de trabalho nas grandes cidades, o que causa um desequilíbrio nos recursos humanos das áreas urbanas e das zonas rurais”, constatou Hong Chengwen. “Teriam mais hipóteses de progressão na carreira se optassem por começar a trabalhar nas áreas rurais e na região Oeste. O Governo tem estado a incentivar a deslocalização de profissionais para lá”, sustentou.
Os custos financeiros do sistema educativo são outra questão da qual os chineses se queixam. O estudo revela que os agregados familiares das zonas urbanas gastam, em média, um quarto do vencimento em educação. Nas áreas rurais, o ensino chega a levar um terço dos rendimentos familiares.
Dados oficiais indicam que 150 milhões de estudantes de escolas primárias e secundárias beneficiam actualmente da isenção de propinas, no âmbito de medidas introduzidas em 2006. No entanto, denuncia o China Daily, há escolas que violam as regras, exigindo pagamentos extra em troca de “um melhor ambiente educativo”.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Chengdu, uma surpresa ao virar da esquina;Exposição de cerâmica de Macau e Guangdong na Galeria do Tap Seac

Chengdu, a quinta maior cidade da China

Uma surpresa ao virar da esquina

Picante. Insólita. Surpreendente. Três adjectivos que descrevem bem Chengdu, na província de Sichuan. A primeira impressão é a que se tem nas grandes cidades chinesas – enormes estradas de betão e viadutos de cimento desproporcionais. Mas basta perder-se um pouco a pé para descobrir a comida, as ruas tradicionais, o povo, os jardins e os monumentos. E a calma. Nem mesmo o facto de estar situada quase junto à fronteira com Lhasa, e de contar com uma grande comunidade de tibetanos, a perturba. Pelo menos, aparentemente. As surpresas ao virar da esquina na quinta maior cidade do país.
“Hello, hello” ouve-se frequentemente pelas ruas. São os habitantes locais que saúdam os estrangeiros depois de um longo olhar inquiridor. O inglês normalmente não passa disso. O que se segue são palavras do dialecto local, semelhante ao mandarim. Mas nem só de falar vive a comunicação. O sorriso está lançado e as portas da cidade estão abertas.
Em pleno centro de Chengdu situa-se a estátua gigante de pedra do antigo líder do Partido Comunista, e impulsionador da Revolução Cultural, Mao Zedong. Com a mão erguida em jeito de “estou a olhar para vocês”, a enorme figura está disposta a um nível bem superior a qualquer um dos elementos da paisagem. A poucos metros de distância, vale a pena parar para observar o espectacular estádio desportivo. Mais uma obra monumental.
Caminhando a pé, de autocarro ou de táxi – desde que esteja preparado para uma eventual condução em contra-mão -, além das inúmeras casas de chá, restaurantes e lojas que vendem bugigangas, depara-se com um trânsito caótico, a que ficam imunes as bicicletas, que circulam numa via reservada. Não raras vezes se vêem ciclistas, motociclistas e peões, impávidos e serenos, nas passadeiras, à espera que o sinal mude. E, sem medo, avançam rumo à sua via. Um cenário, no mínimo, curioso. Mas normal – e saudável - para uma cidade que é completamente plana.
Pelo caminho, encontram-se alguns militares ou civis “mascarados”. O que é certo é que, em Chengdu, existe pelo menos uma rua repleta de lojas que vendem exclusivamente uniformes, calçado e restante material militar. Para os profissionais ou para meros curiosos e entusiastas.
Por todo o lado, os cheiros. Não são maus. São bons. É o cheiro da comida. Mas cuidado. Para apreciar a comida de Chengdu – bem como de toda a província -, é preciso gostar muito de picante. E, mesmo apreciando, há que estar preparado para alguns efeitos colaterais, como ficar com os lábios dormentes, tal é a intensidade do chili e da malagueta.
Em cada rua, uma surpresa. De repente, num muro vulgar uma figura impecavelmente pintada por algum artista local. As flores e as plantas que se encontram por todo o lado. O rio claro e límpido, sem indícios de mau cheiro. Nos jardins espalhados pela cidade encontram-se pessoas a comer, a jogar às cartas, a fazer tai-chi, ou mesmo a cantar. Passeando pelas ruas, é frequente encontrar um rádio a alto volume e pessoas a dançar ao som da música. Aquelas danças tradicionais, tão características da cultura chinesa.
Não muito longe da praça central de Tianfu, vale a pena ver o mosteiro budista Wenshu, um espaço onde monges e cidadãos convivem serenamente. Sendo um espaço de oração, encontram-se vários ensinamentos budistas escritos em chinês e em inglês – caso raro – espalhados pelo lugar sagrado. Caminhando pelo mosteiro, encontra-se ainda um jardim, onde idosos e jovens praticam tai-chi, observam os animais no lago ou conversam animadamente. Saindo do espaço religioso, o visitante encontra-se num quarteirão comercial que em nada destoa do monumento. Em casas tradicionais inspiradas no mosteiro, vendem-se as sedas e tecidos de Sichuan, comida ou livros. O local ideal para comprar uma lembrança.
Partindo dali de autocarro chega à rua dos tibetanos. Um local onde se vendem recordações, tecidos e comida característica daquele ponto do mapa. Um local onde, é quase certo, se avistam tibetanos. Desta vez, dados os recentes incidentes em Lhasa, contava com policiamento extra. Carros e agentes repartiam o espaço com tibetanos e transeuntes. Ali perto, o templo Wuhou. Um local de oração onde, além das figuras pitorescas esculpidas nas plantas ou árvores cuidadosamente podadas, estão representadas principalmente as figuras do período dos Três Reinos (220 d.C. – 80 d.C.). Entre jardins lindíssimos, encontram-se ainda locais destinados à interpretação de ópera chinesa que tem lugar à noite.
Relativamente perto, vale a pena espreitar o templo taoísta Green Ram. Desta vez, ao invés dos monges, encontram-se taoistas trajados a azul escuro. E são inúmeras as bandeiras e os símbolos alusivos ao Yin e Yang e à natureza. Saindo do templo, é de aproveitar um passeio pelo Parque do Povo, onde além de casas de chá, situadas no meio da natureza, há jogos para crianças e espaços para descansar, conversar e comer.
Percorrer as ruas. Perder-se nos caminhos que rodeiam o rio. Perder-se na tranquilidade da paisagem. Quase se esquece dos viadutos de cimento e das longas avenidas com prédios altos e mosaicos não particularmente bonitos. Descobrir as árvores de bambu, as cadeiras tão características construídas com este material e os vários parques bem cuidados espalhados pela cidade. Ou os resquícios de outros tempos. É o caso do bairro tradicional atrás do Hotel Shangri-la. Quarteirões que sobreviveram à modernização. Um sítio onde impera o comércio tradicional, as ruas estreitas e animadas, os becos, as senhoras sentadas nas ruas, os pátios a servir de acesso às casas. O local ideal para capturar o tempo e obter boas fotografias.
À noite, a não perder a animação. E as surpresas. Vale a pena perder-se numa visita a Cunxi, um local interdito a viaturas, onde o transeunte pode passar pelos espaços comerciais e pelos restaurantes. Descontraidamente. E terminar a noite num dos bares da zona.
Chendgu, uma cidade de surpresas, onde o verde convive com o betão. Onde as bicicletas convivem com os automóveis. Onde as tasquinhas chinesas convivem com os restaurantes ocidentais. Onde as livrarias chinesas se misturam com as ocidentais. Onde, inesperadamente, se encontram pontos como a “Bookworm”, um espaço junto ao Consulado dos Estados Unidos, que vende livros em inglês sobre a Ásia e que serve de biblioteca, restaurante e bar. Uma agradável surpresa, ideal para terminar o dia.

O Buda Gigante de Leshan

Um Buda gigante esculpido num penhasco ou um dos grandes símbolos da China, o panda. Duas atracções nas redondezas de Chengdu, que vale a pena visitar.
Situado no sopé do Monte Lingyun, em Leshan, a algumas dezenas de quilómetros de Chengdu, está aquele que é considerado o grande orgulho da cidade e o seu ex-líbris, o Buda gigante. Listado como Património Mundial da UNESCO, e situado junto aos templos Lingyun, Tiangwang, Daxiong, até subir todas as escadas e percorrer os trilhos que vão dar ao penhasco, ainda há muito para ver. Na confluência entre o rio Dadu e o Min, além da paisagem espectacular de flores e água, destaque para as várias representações do Buda do Sudeste Asiático.
Depois de uma longa subida, e de muito exercitar as pernas, vê-se finalmente o Buda Gigante – são 71 metros de altura e só o dedo grande do pé mede 8,5 metros. Foi concebido por um monge budista chamado Haitong em 713 a.C., na esperança de que a figura viesse acalmar as perigosas correntes e proteger os pescadores. Acabaria por estar completo quase 90 anos depois da morte de Haitong. Observar o Buda Gigante de vários ângulos é obrigatório. Só assim se tem noção do seu tamanho real. Só assim se tem percepção da sua importância para a China. Passar de barco para avistá-lo também é uma hipótese.
Na terra do bambu, os pandas, outro dos símbolos da China. A poucos quilómetros de Chengdu, basta apanhar um táxi ou um autocarro e rapidamente se chega ao Centro de Pesquisa e Criação de Pandas. Um espaço que nasceu da captura de seis pandas selvagens e cujo principal intuito é preservar a espécie quase extinta, fazendo nascer, através de inseminação artificial, mais animais. O resultado é um local onde esta espécie muito semelhante ao urso, ao ar livre, alimentando-se de bambu, está separada por um fosso e um muro dos visitantes. A uma pequena distância dos inúmeros curiosos que acorrem todos os dias ao centro. Destaque ainda para a presença do chamado panda vermelho, uma espécie também quase extinta, que de panda só tem o nome, já que pertence à família dos guaxinins.
Vivendo nas florestas de Sichuan, o panda é também o símbolo da cidade de Chengdu. Por todo o lado surgem as referências ao animal que fascina as pessoas pelo mundo fora. Basta olhar em volta para ver as imagens e as alusões turísticas, comerciais e históricas a esta espécie em vias de extinção. Uma passagem pelo Centro de Pesquisa e Criação de Pandas é obrigatória.
Luciana Leitão (texto e fotografias)

Exposição de cerâmica de Macau e Guangdong na Galeria do Tap Seac

Descubra as sete diferenças

Das figuras de gente aos momentos históricos, a criatividade ao serviço da arte de moldar o barro é o que se pode encontrar na Galeria do Tap Seac. Artistas de Macau e da província de Guangdong juntaram as suas obras no mesmo espaço a convite do Instituto Cultural, na “Exposição de Cerâmica Contemporânea 2008”. Divididos por várias salas, os 38 trabalhos dos 15 criadores revelam técnicas e bagagens culturais distintas. Passear pela mostra é algo mais do que uma contemplação da cerâmica chinesa. É uma descoberta das diferenças entre as concepções artísticas “made in” Macau e da província vizinha.
Entre as cerâmicas provenientes de Guangdong, dominam os temas relacionados com a história da China, com recurso às técnicas mais tradicionais. Pelo menos é o que se encontra nas primeiras salas da galeria. Mal se entra, no chão, à direita, estão expostas duas espécies de formações militares. “Naquele Momento Estávamos” é o título do conjunto de obras da autoria do artista da província da China Continental Huang Qianghua. Cerca de uma dezena de figuras humanas com cerca de um palmo de altura estão alinhadas, vestidas com fatos militares, segurando um livro vermelho. A cena faz lembrar os tempos da Revolução Cultural.
Ao lado, as pequenas estátuas vestem a pele de um exército da antiguidade num trabalho intitulado “O General da Família Yang”. O mesmo tema militar é repetido nos “Aliados em Taoyuan”. Todos os trabalhos foram concebidos através da mesma técnica, o barro é a base material que foi queimada com lenha.
A sala da parte esquerda do espaço é totalmente ocupada com cerâmicas da série “Novo Ser Humano”. Mais uma vez, são notáveis as diferenças entre as esculturas assinadas por artistas de Macau e da província de Guangdong.
O criador local Sou Pui Kun apresenta três bustos incompletos e desfigurados, conjugando o barro com o acrílico e as fibras ópticas. Já Zhang Wenzhi, oriundo da província vizinha, utilizou o barro grosseiro para dar corpo a três obras. Duas assemelham-se a potes de porcelana, destacando-se as decorações monocromáticas. Há ainda uma figura vermelha assinada pelo mesmo artista, que representa um rosto humano visto de perfil.
No espaço que se segue, prevalece o tema militar e/ou político. Li Jing trouxe da província de Guangdong três trabalhos subordinados ao tema “Memória Vermelha”. Os pequenos homens de barro, cujo tamanho da cabeça é desproporcional ao corpo, posam de um modo autoritário.
Da parte de Macau, Alice Lee Shun Yu expõe uma caixa de costura entornada criada em porcelana, com agulhas verdadeiras incluídas. Através do barro e da técnica da queima por oxidação, a artista local criou “Memórias sobre Amendoins”. São vários amendoins gigantes, alguns com forma humana, que estão espalhados numa mesa.
Num regresso às temáticas orientais, Alice Lee tentou retratar o “Desabrochar das Bombax num Dia Primaveril”, combinando a porcelana e o veludo. Esta espécie de árvore encontra-se no Sul tropical da Ásia, Norte da Austrália e África tropical. As flores vermelhas destas plantas, que chegam a alcançar entre 30 a 40 metros de altura, surgem entre Janeiro e Março.
A parede do espaço contíguo à segunda sala é ocupada por máscaras de porcelana pintada criadas na província de Guangdong. É uma homenagem aos próximos Jogos Olímpicos de Pequim que se organizam em Agosto. “No mesmo mundo, no mesmo piso” é a ideia que o artista pretende transmitir.
James Wong, residente em Macau, contribuiu para a mostra com dois trabalhos. “Contos Dobrados I e II” são cerâmicas produzidas em barro vidrado, um dos exemplos de obras que se demarcam das demais por não desenvolverem uma temática local, nacional ou tradicional, mas sim contemporânea.
Atravessando o corredor principal, no centro, à direita, dominam os materiais eléctricos criados em porcelana branca, da autoria do artista da província de Guangdong Simon Ho Siu Chong. A parede maior é o suporte de “Distâncias Iguais”. São 405 pequenas tomadas, lâmpadas e fichas eléctricas de porcelana.
Na parede ao lado, repete-se a concepção artística. O trabalho “Natureza Morta” é composto por 20 peças rectangulares que representam materiais eléctricos. Da mesma série, há ainda uma escultura formada por um conjunto comprimido numa espécie de cubo de lâmpadas e fichas eléctricas. Simon Ho nasceu em Sidney, na Austrália, mas as suas raízes são de Cantão.
Nesta sala, o único criador que representa Macau é Konstantin Bessmertny com a sua “Almofada para a República”. Para criar esta escultura em porcelana branca pintada, o artista de nacionalidade russa escolheu a técnica de queima por oxidação.
No chão do espaço contíguo, Zhuo Zhengyao expõe três “Séries de Tianju” concebidas em barro de Fosham. Já Josefina Maria Bañares usou o barro em combinação com o plástico e o pano para dar forma a pequenos “Trabalhadores”.
Subindo as escadas, chega-se às últimas salas da exposição de cerâmica chinesa. No primeiro patamar, Diana Maria Bañares de Jesus partilha o espaço com o artista de Guangdong Wang Qi, com as suas obras de barro grosseiro de Shivan.
A criadora de Macau apresenta trabalhos inspirados no Largo do Senado. Três figuras, apenas da cintura para baixo, sentadas em bancos, mostram os diversos tipos de pessoas que se podem encontrar no mais movimentado local do centro histórico da cidade.
Pai e filho com cabeça de produtos de fast-food parecem representar a cultura ocidental que invade a zona. Os famosos sacos azuis e vermelhos transportados pelos comerciantes chineses são usados para dar corpo a dois residentes que descansam trocando uns dedos de conversa. O turista tem a cabeça em forma de saco dos biscoitos tradicionais de Macau e segura uma máquina fotográfica.
No final da exposição, apenas a província de Guangdong marca presença. Através do barro grosseiro, os artistas Tan Hongyu e Yi Hua apresentam um conjunto de cinco esculturas que assumem a forma de um cão, um anjo e “Mulheres Belas”, entre outras.
A cerâmica chinesa vai habitar a Galeria do Tap Seac até o dia 4 de Maio, entre as 10h00 e as 19h00. A entrada é gratuita.

Cerâmica para desenvolver indústrias culturais

Mostrar “trabalhos de grande qualidade” é apenas um dos objectivos da “Exposição de Cerâmica Contemporânea da Província de Guangdong e Macau 2008”, organizada pelo Instituto Cultural (IC), que vai estar patente na Galeria do Tap Seac até ao dia 4 de Maio. O evento tem ambições mais altas que se centram no desenvolvimento de pesquisa e promoção das indústrias culturais em Macau. Uma meta que pretende ser alcançada não só abrindo mais uma vez as portas à cerâmica, mas também através da realização de workshops.
As obras de 15 artistas da província de Guangdong e da RAEM pretendem revelar novos aspectos da cerâmica contemporânea chinesa, bem como divulgar e promover os artistas e as suas criações. Em particular, no que respeita ao tipo de materiais que usam e às suas diferentes concepções artísticas.
A mostra pode representar uma plataforma onde os artistas procuram a sua posição e estilo, com base nos traços tradicionais, contemporâneos, orientais e ocidentais. Na Galeria Tap Seac, encontram-se trabalhos sobre temas locais e nacionais, ou ideias inovadoras.
De acordo com uma nota divulgada pelo IC, nos últimos anos, Macau tem assistido a um desenvolvimento considerável no mercado da arte da cerâmica. É na sequência deste fenómeno que o organismo governamental decidiu promover a exposição, visando aprofundar o conhecimento dos residentes sobre este mundo da arte de moldar o barro, bem como o seu desenvolvimento no território e na província de Guangdong.
Para concretizar este objectivo, a organização da exposição irá realizar dois workshops destinados a jovens e crianças nos dias 6 e 13 do próximo mês, entre as 14h00 e as 16h00. A participação nesta iniciativa é gratuita.
Alexandra Lages

A história de Fuxi e Nuwa

O confronto dos seres humanos com o deus do Trovão

Estando nós absortos na luz proveniente do computador, não demos conta da mudança rápida do tempo. Somos interrompidos quando, pela falta de luz, a máquina se desliga e logo se ouve um estrondoso ribombar de um trovão que nos traz à memória duas histórias da mitologia chinesa.
O deus do Trovão (Leigong) constantemente pairava nos céus e fustigava os agricultores com inúmeras tempestades e intensas trovoadas e chuvas que deitavam a perder as culturas dos campos.
Um dia, farto de trabalhar para no fim perder tudo, um camponês, ao aperceber-se, pelo adensar das nuvens no céu, que o deus do Trovão se aproximava, resolveu confrontá-lo. Dependurando uma gaiola de ferro na parte de fora da casa, desafiou o deus para um combate. Furioso perante o desplante daquele terreno ser, atirou-se dos céus para acabar com o provocador. Mas o agricultor com a sua forquilha de ferro e cabo de madeira apanhou-o e num movimento rápido meteu-o dentro da gaiola, fechando-lhe a porta. O deus fora derrotado e logo parou de chover.
Precisando de ir fazer umas compras, antes de partir o agricultor avisou os seus dois filhos para se afastarem da gaiola, não se dirigirem ao deus e muito menos darem-lhe água.
As duas crianças, o rapaz de nome Fuxi e a rapariga chamada Nuwa, andavam a brincar já que, desde há muito tempo não se encontrava um dia tão bonito e ensolarado, quando o deus do Trovão se começou a lamentar pelo calor que fazia. Assim preso não podia falar com o deus das Águas e só as crianças o poderiam salvar. As crianças, lembrando-se dos avisos do seu pai, tentaram ignorá-lo, mas a insistência com que o deus clamava por compaixão, agora murcho e com um aspecto inofensivo, mexeu com elas. Começaram a ter pena e após este prometer não lhes tocar, pensando não haver grande mal em lhe tirar a sede, assim lhe deram um pouco de água para beber.
Mas mal o deus tocou na água, logo a sua força e poder voltaram, libertando-se da jaula. As crianças assustadas iam fugir quando o deus do Trovão lhes lembrou que não lhes faria mal e deu-lhes um dos seus dentes dizendo que este os protegeria da vingança que iria dar aos humanos, pela desfeita de o terem capturado.
O lavrador, com o cair das primeiras gotas, logo percebeu que o deus do Trovão se tinha libertado. Mas nada pôde fazer já que o deus do Trovão, conjuntamente com o deus das Águas rodopiando, abriram tamanha tempestade que durante dias inundaram todas as terras e até as mais altas montanhas ficaram cobertas de água. Ninguém se salvou excepto os dois irmãos pois, logo após plantarem o dente na terra, este se transformou numa enorme cabaça. Quando as águas começaram a chegar, esta dividiu-se em duas metades e as crianças colocaram-se em cada uma das partes. Nas agitadas águas navegaram durante dias mas as correntes, devido ao deus do Vento, levaram-nas por caminhos diferentes, separando-as.
As águas estavam a chegar ao Céu e então o Deus do Céu ordenou aos deuses seus subordinados para pararem e voltarem a colocá-las nos seus leitos.
Já outra história, que ouvimos contar quando, na parte Leste da província de Gansu, visitamos a cidade de Tianshui, apresenta-nos uma versão diferente acerca do nascimento mitológico de Fuxi, um dos três Ancestrais chineses.
Fuxi era filho do deus do Trovão e de uma jovem mulher, a única filha de um casal que habitava no Noroeste, na província de Gansu, junto ao rio do Trovão, próximo do lago com o mesmo nome, onde o deus também vivia.
A jovem, farta dos maus humores do deus do Trovão, que constantemente infligia inundações às povoações junto ao rio, um dia resolveu ir falar-lhe e perguntar qual a razão dele não ir habitar o céu como os outros deuses. Perante tal desplante, mas rendido à beleza da rapariga, acordou retirar-se para o céu, se ela casasse com ele. Passados nove meses tiveram um filho e como a ela estava vedado o regresso à sua terra, resolveu que o seu filho deveria crescer fora daquele fechado lugar e, se possível, na sua terra natal, entre os humanos. Um dia, aproveitando a ausência do deus Trovão, colocou a criança dentro duma enorme cabaça e deixou que o rio a levasse. Aconteceu que o pai da jovem estava a pescar e ao ver a enorme cabaça retirou-a do rio levando-a para casa. Assim que o casal a talhou, dela saiu uma criança que envergava uma camisola bordada, que reconheceram ser proveniente da camisa da filha. Deram-lhe o nome de Fuxi, que significa oriundo de uma cabaça. A criança crescia rapidamente, distinguindo-se das outras por ser alta, forte e muito inteligente. Por ser filho de um deus podia subir ao céu pela escada celestial e assim, como era um observador atento, ao olhar para o Céu observou os fenómenos celestes e olhando para baixo, viu-os na Terra. Descobriu que o que dentro de si se passava, estava conotado com o exterior. Viajou por terras com propriedades de solos diferentes e viu muitos outros animais. Terá usado nós numa corda para fixar certos factos. Tendo criado um método de fazer redes de pesca inspirando-se nas teias de aranhas, foi um pioneiro na domesticação de animais, no lavrar a terra, no cozinhar os alimentos e no uso do almofariz e da mó.
Estas duas histórias mitológicas relatam o desaforo dos seres humanos que se atrevem a provocar um deus do Céu. Se umas vezes essa atitude faz que aconteçam as calamidades, por vezes levam ao aparecimento de seres, filhos dos deuses, que mudam os caminhos à História.
A pequena borrasca que se abatera sobre Macau terminara e a electricidade tinha regressado, retirando a mitologia dos nossos pensamentos e colocando-nos de novo a receber a luz proveniente do ecrã do computador.
José Simões Morais

quarta-feira, 19 de março de 2008

Nuno Jorge em entrevista revela preocupações e lutas, Primeiro-ministro acusa o Dalai Lama de hipocrisia

Nuno Jorge em entrevista revela preocupações e lutas

O homem e as causas

Clube dos Rotários, Cruz Vermelha, Associação dos Arquitectos de Macau, Organização das Famílias da Ásia e Pacífico (OFAP), Federação Internacional de Organizações Não Governamentais para a Prevenção da Droga e Abuso de Substâncias (IFNGO), Associação dos Profissionais de Turismo. Uma longa lista de organizações que têm, pelo menos, um denominador comum. Nuno Jorge pertence a todas elas e preside a algumas. Arquitecto de profissão, é amante das causas sociais nos tempos livres. “O bicho apanhou-me com os Rotários”, confidenciou o presidente da Associação dos Arquitectos de Macau ao Tai Chung Pou numa longa entrevista. Avesso a questões de foro privado, Nuno Jorge optou por apenas comentar aquilo que é público. Fica por conhecer o homem por detrás do associativista.
Fruto de uma certa tradição familiar, já que o pai também foi presidente da Cruz Vermelha em Macau, Nuno Jorge deixou-se cativar desde cedo pelas causas sociais. E descobriu que “as coisas não se deixam de fazer por causa de dinheiro, o dinheiro aparece sempre. As coisas deixam de se fazer, muitas vezes, por má organização, ou porque os objectivos não são claros”. O que acaba, muitas vezes, por resultar em “nepotismo e corrupção”. É por ser contra “aproveitamentos pessoais” que tem optado por manter a discrição nas suas intervenções públicas.
No caso dos Rotários – grandes desencadeadores do “bichinho” associativista e solidário -, trata-se de uma “organização de voluntários que pagam e tem um custo pessoal de tempo e dinheiro”. Por isso, apenas se faz o que “vale a pena fazer”. Dado o contacto transversal com a sociedade, torna-se “estimulante em termos intelectuais e dá uma compreensão muito maior do mundo em que vivemos”. Surgem então outros interesses, outras questões e outra perspectiva do mundo em que se vive. “Se tivermos uma oportunidade de fazer o bem sem grande custo porque é que não vamos fazer?”, interroga. Daí a dedicação à causa da “solidariedade humana”. “Temos na nossa sociedade dois pecados – um que é fazer mal e outro que é, tendo oportunidade de fazer bem, não o fazer”, declara. “Mais tarde ou mais cedo, qualquer benefício que haja também se reflecte em nós próprios”, acrescenta.
Depois, foi a vez de se dedicar à Cruz Vermelha e à “questão da dignidade da pessoa humana”. Deparando-se com o problema dos refugiados e da separação do núcleo familiar, apercebeu-se de que “família é um elo fundamental da sociedade”. Até porque, recordando as palavras de um antigo governante da China do qual não se lembra o nome, “não há melhor segurança social do que a família”. Um facto que confirmou quando integrou a equipa da Cruz Vermelha, tanto quando foi vice-presidente da organização em Portugal, como quando fez parte da direcção na China.
Surgiu então a presidência da Organização das Famílias da Ásia e Pacífico (OFAP). Um projecto que tem sido proveitoso para ter “experiências fabulosas”. Por exemplo, em Xangai, lançou-se um projecto-piloto que passa por “a mesma carrinha que faz a recolha das crianças, recolhe os idosos. Os idosos vão ajudar a tomar conta das crianças com um interesse completamente diferente, descontraído, com tempo, contam estórias, ensinam os caracteres”. Uma experiência que “permite reduzir o número de assistentes sociais, melhorar a qualidade do tempo que as crianças passam nas creches e criar o elo entre gerações”, declara convicto.
Com cargos em várias associações, além da sua actividade profissional, Nuno Jorge não se queixa de falta de tempo. “Costumo dizer que se quer qualquer coisa feita arranje uma pessoa muito ocupada ou um preguiçoso - o preguiçoso não quer fazer duas vezes e a pessoa muito ocupada também não tem tempo disponível, tem de aprender a lidar com as coisas e despachá-las”, afirma. Qual deles é? Não sabe. Talvez um pouco dos dois, declara.
Entre todas as associações, a Cruz Vermelha, assume prontamente, é a que mais o estimula. “É aquilo que entra no sangue, morde o bicho e nunca mais nos conseguimos desligar”, diz. Porque é uma ideologia e um modo de ver a vida sem “juízos de valores”. “Não há guerras boas, todas as guerras são más. Não há vítimas más, todas as vítimas são boas”, cita uma frase que muito se ouve a propósito do Direito Humanitário Internacional. Uma frase que, na sua opinião, é o cerne da questão.
Um defensor acérrimo do associativismo, Nuno Jorge defende a “importância”, até para “o próprio desenvolvimento pessoal”. Uma pessoa sozinha não funciona da mesma maneira que integrada num grupo. “Aprendemos uns com os outros”, vinca. Dada a era da Internet, e as facilidades que daí advêm, Nuno Jorge teme que se perca o contacto humano. “É muito diferente fazermos esta entrevista cara a cara do que fazermos por telefone. Nunca seria a mesma coisa”, exemplificou.
Um extenso currículo

Natural do território, educado no seio de uma tradicional família macaense, Nuno Jorge é o presidente da IFNGO, tendo ainda assumido a representação na Organização das Nações Unidas (Nova Iorque) e no Departamento de Drogas e Crime (Viena), além de ter assento como observador no Conselho Económico e Social das Nações Unidas (ECOSOC).
O arquitecto licenciou-se na Escola Superior de Belas Artes em Lisboa. Foi também na capital que estudou Gestão e Organização Empresarial com um “major” em Marketing no Instituto Superior de Novas Profissões. Desenvolveu estudos no campo da Matemática, Informática, bem como Preservação de Património, sendo ainda ex-aluno da Universidade de Hawai, em Honolulu.
É membro da Sociedade Geográfica de Lisboa, da Sociedade de Belas Artes e do Círculo Literário de Lisboa. Dedicado a trabalho voluntário, muitos dos seus esforços concentraram-se na Cruz Vermelha. Foi presidente do organismo em Macau e é presidente honorário desde então, além de ter pertencido à direcção da Cruz Vermelha Chinesa e de ter sido vice-presidente da Cruz Vermelha Portuguesa. Há já 33 anos que é membro do Clube dos Rotários – tendo sido inclusivamente governador -, participando e presidindo a inúmeros comités internacionais.
Foi-lhe atribuído um prémio pelo seu trabalho de preservação no Forte e Pousada de São Tiago pela Associação de Viagens da Região Ásia Pacífico (PATA), além de ter recebido uma medalha por mérito profissional e de valor, ambas concedidas por Macau, bem como várias honras da Coreia, Rússia e Portugal, incluindo um título de honra da Cruz Vermelha de Portugal.
Presidindo à Organização das Famílias da Ásia e Pacífico (OFAP), Nuno Jorge é também membro do Comité Internacional do Fórum Mundial de Abu Dhabi do Comité Internacional e é, de momento, presidente da Associação de Macau dos Profissionais de Turismo. Numa longa lista, destaque ainda para um cargo: é o actual presidente da Associação dos Arquitectos de Macau.

Plano urbanístico não será a “receita imediata”

Mais importante do que a existência de um plano de urbanização e de regulamentos de construção urbana é que “sejam bem feitos”, alertou o presidente da Associação dos Arquitectos de Macau, Nuno Jorge. E o desenvolvimento do território “foi muito mais rápido do que a possibilidade de elaboração de tais diplomas”.
Na opinião de Nuno Jorge, é mais importante “pensar em objectivo de desenvolvimento e alterar algumas normas”. A ser uma realidade, um plano de urbanização “nunca estaria pronto em menos de dois anos”.
Quanto ao desenvolvimento urbanístico de Macau, está longe de ser considerado “um caos”, já que, apesar de tudo, ainda há uma zona da UNESCO “bem protegida”. Contudo, há que ter em atenção certas questões. “O aumento da densidade tem de ser acompanhado de mais espaços verdes e de uma nova imagem dos transportes públicos”, exemplifica. Aspectos que “poderão ser contemplados num plano de pormenor”. Até porque, Macau vive uma conjuntura “tão acelerada que não se compadece com um tratamento mais profundo”.
Sobre o que tem vindo a ser construído, Nuno Jorge defende que tem “qualidade”. Referindo-se essencialmente aos casinos, afirma que “os mais emblemáticos são peças de arquitectura”. E, acrescenta, “aquilo que se fez na generalidade está certo - pode não estar bem feito em termos puristas de arquitectura ou de urbanismo, mas as medidas tomadas estão certas”. Foi feito com a “rapidez suficiente” para o “investimento surgir”.
Há já um ano à frente da Associação dos Arquitectos, Nuno Jorge afirma que uma das principais batalhas é a acreditação profissional. Mas, na sua opinião, muitos dos objectivos que tinha proposto, conseguiu realizar. “Avançámos com grupos de interesse e seminários. Tentámos, face à realidade social, dar um benefício que é tentar providenciar um seguro de grupo da classe profissional”, garantiu. No próximo dia 12 de Abril, por exemplo, a associação junta-se a outros organismos para “começar uma jornada de debates e seminários sobre a ruptura climática”.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Primeiro-ministro acusa o Dalai Lama de hipocrisia

Jogos Olímpicos não vão ser afectados

Wen Jiabao acusou ontem o Dalai Lama e a sua "camarilha" de terem organizado as revoltas em Lhasa, a capital tibetana, e qualificou-os de "hipócritas" por defenderem o diálogo pacífico e, ao mesmo tempo, fomentarem actos violentos.
Na única conferência de imprensa que concede anualmente, no final da sessão anual da Assembleia Popular Nacional (APN), o primeiro-ministro assegurou que as acusações de "genocídio cultural", que o Dalai Lama lançou após a repressão da revolta, "não são mais do que mentiras".
Wen Jiabao, num tom mais severo do que é o habitual, assegurou que a região do Tibete, desde a sua "libertação pacífica" (em 1950) e especialmente desde as reformas económicas, avançou e desenvolveu-se.
Não obstante os conflitos que se têm vindo a registar, o primeiro-ministro chinês assegurou que a “porta do diálogo” continua aberta para o Dalai Lama, desde que este desista da posição independentista em relação ao Tibete e reconheça que a região autónoma e Taiwan são partes inalienáveis do território chinês.
“Podemos ver perfeitamente, através destas duas questões, o quão hipócrita é o Dalai Lama”, disse Wen. “Gostaria de perguntar se os incidentes em Lhasa, os distúrbios noutras partes da China e os ataques às representações diplomáticas pelo mundo fora terão alguma relação com o Dalai Lama”, lançou o principal responsável pelo Conselho de Estado. Contudo, vincou, a posição da China mantém-se. “Nós dizemos aquilo que pensamos. É preciso ver o que o Dalai Lama faz. Está tudo dependente das suas acções.”
Treze "civis inocentes", segundo Pequim (mais de cem, de acordo com os tibetanos no exílio), perderam a vida nos distúrbios da passada sexta-feira, em que os independentistas atacaram lojas e habitações e foram reprimidos pela polícia.
Ontem de madrugada terminou o ultimato dado pelas autoridades aos instigadores das revoltas para que se entregassem, pelo que agora a polícia procura os revoltosos "casa por casa", segundo informaram grupos críticos a Pequim com sede no estrangeiro.
As manifestações de Lhasa tinham também por objectivo boicotar o maior evento mulitidesportivo alguma vez organizado na República Popular da China, afirmou ainda o primeiro-ministro. "Eles queriam sabotar os Jogos Olímpicos de Pequim», afirmou.
A cinco meses do evento multidesportivo, a crise no Tibete acentuou a pressão sobre Pequim, mesmo tendo em conta que os apelos ao boicote aos Jogos Olímpicos tenham sido raros.
As forças por detrás dos conflitos “tentaram cumprir a sua agenda ao incitar tais incidentes”, referiu Wen Jiabao. O primeiro-ministro lembrou os princípios constantes da Carta Olímpica, defendendo que devem ser cumpridos. “Devemos respeitar os princípios da Carta Olímpica que ditam que os Jogos não devem ser politizados.”
Admitindo que a China não se encontra no grupo de países desenvolvidos e pode encontrar problemas deste e de outros géneros nos trabalhos de preparação dos Jogos, o responsável assegurou, durante a conferência de imprensa, que “a população chinesa é muito sincera no seu desejo de organizar uns Jogos Olímpicos bem-sucedidos”.
Wen frisou que a China é um país com cinco mil anos de história e que ser o anfitrião de umas Olimpíadas é um sonho partilhado por muitas pessoas de várias gerações. “Acho que os Jogos Olímpicos de Pequim serão um grande encontro de pessoas de todo o mundo”, sublinhou.
Ainda em relação ao evento multidesportivo que se realiza na capital entre os dias 8 e 24 de Agosto, o primeiro-ministro disse que a China quer “aprofundar os laços de amizade e a cooperação com pessoas de todo o mundo” e que a população espera que os Jogos sejam decorram com sucesso.
O líder político deixou ainda a garantia de que os atletas e os restantes participantes no evento sairão satisfeitos da experiência desportiva em Pequim. “Acredito que os sorrisos de 1,3 mil milhões de chineses receberão os sorrisos das pessoas de todo o mundo.”

Presidente apela a governação com transparência

O momento crítico da China

Hu Jintao apelou ontem aos políticos da China que governem de forma transparente e que usem o poder de maneira apropriada, de modo a que possa servir efectivamente a população. O Presidente falava no encerramento da Assembleia Popular Nacional (APN), que desde o início do mês esteve reunida em Pequim.
“Vou servir as pessoas e contribuir com o meu trabalho para o país... Sejam bons funcionários públicos e procurem, com sinceridade, proporcionar benefícios à população”, exortou Hu Jintao, no encontro que pôs fim à primeira sessão da 11ª APN.
De acordo com a Agência Xinhua, o Presidente chinês expressou ainda os seus agradecimentos aos deputados do órgão legislativo, acrescentando que a nova liderança está empenhada numa governação “limpa” e espera poder contar com a supervisão da população. “Vamos exercer uma autodisciplina rigorosa, com devoção pelas pessoas, e servir o país com cuidado, consciência e transparência”, reiterou. “Farei o meu maior esforço para não vos desiludir”, disse ainda.
Para Hu Jintao, a nova liderança do país – nomeada e aprovada, nos últimos dias, pela Assembleia Popular Nacional - vai contribuir para o avanço da democracia e o primado da lei, trabalhando para a uniformidade e autoridade do sistema legal de características socialistas, promovendo a equidade social e a justiça, bem como salvaguardar a harmonia e a estabilidade da sociedade.
“Vamos manter o princípio de ‘colocar as pessoas em primeiro lugar’, respeitar o estatuto dos cidadãos, estimular as suas características empreendedoras e salvaguardar os seus interesses e direitos”, prometeu.
Hu Jintao explicou que a nova liderança irá trabalhar de forma pragmática, “abrir a mente, procurar a verdade nos factos e acompanhar as mudanças”. O Presidente quer que “se aproveitem todas as oportunidades, se enfrentem todos os desafios, se encare a reforma e a inovação de forma corajosa e se desenvolva tudo de forma criteriosa, de acordo com os objectivos definidos”.
O líder fez ainda um balanço muito positivo do que já foi alcançado no âmbito da reforma do país e destacou a abertura e a modernização que se verificaram nos últimos cinco anos, algo que atribuiu aos esforços da população.
“A China entrou num ponto crítico da reforma e do desenvolvimento”, considerou, fazendo referência às reformas em curso no país e às mudanças verificadas no mundo. Tendo em conta o actual cenário e as tarefas a que se propõem os novos líderes, Hu entende que a China deve manter a sua orientação de abertura ao mundo, promover o desenvolvimento científico, a harmonia social e construir uma sociedade próspera em “todos os sentidos”.
A rematar, o Presidente expressou confiança na capacidade do país em relação a novas vitórias, na revitalização da nação e na contribuição para a Humanidade, dependentes do “trabalho árduo para o progresso do socialismo de características chinesas, a manutenção da união e a preparação para os perigos em termos de segurança”.
Nascido em 1942, Hu Jintao foi reeleito Presidente da China no sábado passado, cargo que ocupará até 2013. O seu primeiro mandato teve início em Março de 2003.

terça-feira, 18 de março de 2008

Hong Kong com medo de ficar para trás, Os homens da futura China

Possível expansão do aeroporto não é consensual

Hong Kong com medo de ficar para trás

O Governo de Hong Kong tem estado a ponderar a construção de uma terceira pista no aeroporto da cidade. No entanto, a ideia expansionista tem gerado alguma polémica na região: será que os benefícios para a cidade vão compensar os custos de um investimento desta envergadura?
Com serviços prestados a 47 milhões de passageiros em 2007, o Aeroporto Internacional de Hong Kong (AIHK) é, inquestionavelmente, o maior centro de aviação da Ásia. O recente desenvolvimento económico da região, principalmente da China, teve como consequência um aumento do número de passageiros do aeroporto, inaugurado em 1998, altura em que lidava com 31 milhões de viajantes por ano. No ano passado, o AIHK recebeu, em média, 810 aeronaves por dia, o que representa mais 81 por cento do que findos os primeiros doze meses de operações. Em Dezembro último, as duas pistas tinham uma taxa de ocupação de 95 por cento entre as 10h00 e as 19h00.
Dado o aumento substancial da procura da estrutura localizada em Chek Lap Kok, uma das soluções pensadas consiste na construção de mais uma pista. O primeiro plano de expansão foi oficialmente divulgado pela Autoridade do Aeroporto em Dezembro de 2006, altura em que se definiu a forma como a estrutura deverá evoluir nos próximos vinte anos. Um ano depois, foi concluído um estudo preliminar sobre o aumento da capacidade do aeroporto, elaborado por uma empresa britânica da especialidade, sendo que, para Maio deste ano, está prometida a publicação de uma outra análise sobre a construção da terceira pista.
O aeroporto suporta, neste momento, 54 aviões por hora, que poderão passar a ser 58 no próximo ano, através de uma já planeada melhoria do sistema de controlo de tráfego aéreo. Se todas as 46 medidas sugeridas pela empresa britânica forem seguidas – incluindo a relocalização de recursos humanos e a adopção de novos procedimentos de controlo de tráfego aéreo – as duas pistas poderão servir 68 aeronaves em 2015.
“Centros de aviação como Cantão e Xangai estão a planear construir a terceira, quarta e até mesmo a quinta pista. Se não decidirmos prontamente avançar para uma terceira pista, corremos o risco de deixar para os outros a capacidade de competição”, considera o presidente do conselho de administração da Cathay Pacific. Tony Tyler rejeita, desde já, a possibilidade de partilhar voos com o Aeroporto de Shenzhen, que seria ligado a Hong Kong através de um comboio rápido. Para o responsável pela companhia aérea da antiga colónia britânica, a construção da terceira pista é inevitável. “Todas as medidas que constranjam o desenvolvimento do AIHK serão prejudiciais à vida económica de Hong Kong”, disse recentemente.
O aumento da competitividade dos aeroportos da zona do Delta do Rio das Pérolas tem sido encarado como um sinal de alarme para o Aeroporto Internacional de Hong Kong. Embora a estrutura controle uma fatia de mercado totalmente desperdiçada pelo subaproveitado aeroporto de Zhuhai, as negociações com Shenzhen não correram da melhor forma e Cantão tem conhecido um grande crescimento, com voos para o Médio Oriente, a Europa e África. Os aeroportos andam à procura de formas de desenvolvimento e de capitalizar as potencialidades geradas pelas obras de expansão. Os negócios que o AIHK já faz parecem ser os alvos mais convenientes.
De acordo com uma pesquisa feita pelo Centro de Pesquisa da Universidade Chinesa de Aviação (CPUCA), divulgado em Dezembro de 2007, o aeroporto de Hong Kong atingirá a sua capacidade máxima em 2014, com as actuais duas pistas, sendo que uma terceira levará 12 anos a ser construída, isto se não houver atrasos. O mesmo relatório estima que mais uma pista aumentará em 30 por cento a capacidade da estrutura, com benefícios anuais de 56 mil milhões de dólares de Hong Kong. Quanto à poluição, implicará custos na ordem dos 400 milhões.
Law Cheung-kwok, um dos responsáveis do CPUCA, defendeu, em declarações recentes ao Wen Wei Pou, a construção da pista adicional, “custe o que custar”. E vai mais longe, ao afirmar que “Hong Kong deveria já começar a pensar na quarta pista e na possibilidade de um segundo aeroporto”. Mais uma vez, a China é o exemplo: “Xangai tem já dois grandes aeroportos e Pequim está a pensar em construir um segundo. Estão a ir ao encontro das suas necessidades. Pensar em transformar Shek Kong no nosso segundo aeroporto não é sonhar acordado.” Shek Kong é uma base aérea militar localizada nos Novos Territórios, mas há notícias que dão conta da dificuldade de aterragem de um DC-3 da década de 1930.
A convicção de Law Cheung-kwok não é partilhada por todos os peritos do sector. O antigo director do Departamento de Aviação Civil de Hong Kong, Peter Lok, faz contas diferentes aos benefícios e chega à conclusão de que a pista adicional não é sinónimo de mais cinquenta por cento da capacidade, devido ao congestionamento das rotas. A questão financeira também pesa: serão 50 mil milhões de dólares, o que equivale a quase metade da primeira fase do aeroporto, ultrapassando o orçamento da ponte do Delta.
Zheng Tian-xiang, professor da Universidade Sun Yat-sen de Cantão, entende que o projecto de 50 mil milhões é uma “missão impossível” para a Autoridade do Aeroporto de Hong Kong que, em 2006, teve lucros de apenas 1,9 mil milhões. Assim sendo, o docente recomenda ao AIHK a celebração de acordos com aeroportos nas redondezas e a introdução de mais destinos internacionais de modo a reforçar o aeroporto enquanto centro de características internacionais.
Ambientalistas dizem não ao projecto

A proposta de expansão do aeroporto de Hong Kong está longe de agradar aos grupos que se preocupam com questões ambientais. “Já foi um desastre há dez anos. Como é que é possível estarem a pensar em construir mais uma pista? Nem consigo imaginar”, exclamou Samuel Hung, presidente da Sociedade de Conservação dos Golfinhos de Hong Kong. Ao Tai Chung Pou, o responsável assegurou que, caso a Autoridade do Aeroporto lhe peça um parecer, levará um redondo “não”.
Os golfinhos brancos chineses – o símbolo da transferência de soberania de Hong Kong – são uma espécie com origem nas águas entre Tsuen Mun, nos Novos Territórios, e a ilha de Lantau. Hung explicou que a vida destes animais será seriamente perturbada se se avançar para a construção da pista, porque a água perde qualidade e o barulho aumenta, com a utilização de maquinaria e o aumento de embarcações. “A ponte entre Hong Kong, Macau e Zhuhai vai ter um impacto ambiental, mas os efeitos serão mínimos. Já a construção de aterros é diferente, porque se trata de uma ocupação do espaço. Não se pode devolver a terra ao mar.”
Para o responsável, a construção da travessia é já incontornável, pelo que é impensável levar a cabo, em simultâneo, outra construção que perturbe o habitat dos golfinhos. “O nosso mar está, neste momento, demasiado saturado para que sejam feitos mais aterros, a não ser que se pense que os golfinhos não têm qualquer importância e que podem ser sacrificados”, atirou.
Samuel Hung não acredita que o projecto reúna o apoio da população. Embora muitos dos aviões que aterram em Chep Lap Kok venham do mar, os bairros de Tsuen Wan, Tuen Mun e Ma Wan têm sofrido as consequências do barulho das aeronaves. O número de queixas tem vindo a aumentar: em 2005, ao Departamento de Aviação Civil chegaram 415 reclamações, mas em 2006 o número subiu para 442.
Segundo a Aviação Civil, os aviões que aterram entre as 23h00 e as 7h00 fazem uma rota diferente, para evitar que sobrevoem as áreas residenciais dos Novos Territórios. No entanto, as excepções decorrentes do aumento do tráfego aéreo provocam incómodos à população, até mesmo a quem vive longe do aeroporto. Como o plano para a terceira pista prevê a construção a norte dos actuais espaços para a aterragem, mais residentes de Tuen Mun e de Tsuen Wan serão afectados pelo barulho dos motores. Os conselhos de bairro já demonstraram as suas preocupações.
As obras de expansão dos aeroportos são, por norma, a melhor demonstração da divergência de interesses sociais e de conflitos significativos, como nos casos de Londres e de Tóquio. Em Hong Kong, o combate está já a ser preparado, embora o pano não tenha subido oficialmente – parece que demorará algum tempo a encontrar-se uma conclusão, mas talvez seja esta a forma como as pessoas preferem chegar a consenso.

Kahon Chan*, em Hong Kong,
com Isabel Castro

Órgão legislativo confirma nomeações para o Conselho de Estado

Os homens da futura China

A Assembleia Popular Nacional (APN) aprovou ontem a nova composição do Conselho de Estado da China. Os nomes, que surgem por indicação do primeiro-ministro Wen Jiabao, foram aprovados durante a sétima reunião plenária da APN.
Li Keqiang, Hui Liangyu, Zhang Dejiang e Wang Qishan passam assim a ser os vice-primeiros-ministros, sendo que Liu Yandong, Liang Guanglie, Ma Kai, Meng Jianzhu e Dai Bingguo receberam o aval do órgão legislativo para desempenharem as funções de conselheiros de Estado. Ma Kai foi também nomeado secretário-geral do organismo.
Os 2946 deputados à Assembleia Popular Nacional votaram ainda favoravelmente uma lista com os nomes de 25 ministros, o governador do Banco Popular da China e o auditor geral do Gabinete Nacional de Auditoria.
Sem surpresas, o órgão legislativo concordou com a ascensão política do até agora responsável pela polícia, Meng Jianzhu, e carimbou a nomeação de um novo ministro da Defesa, Liang Guanglie, que acumula a pasta com a tarefa de conselheiro de Estado. Com carreira militar e patente de general, Liang é o novo responsável por matérias sensíveis como a manutenção da paz no Estreito de Taiwan.
Sem razões para espanto foi também a nomeação de Li Keqiang para vice-primeiro-ministro. O “protegido” do Presidente Hu Jintao fica, deste modo, estrategicamente colocado para suceder a Wen Jiabao, quando o primeiro-ministro abandonar as suas funções, em 2013. Tanto Hu como Wen foram reconduzidos nos cargos por mais cinco anos durante o passado fim-de-semana.
De acordo com a agência noticiosa oficial chinesa, a reunião, que decorreu ontem à tarde, serviu ainda para decidir da composição dos comités especiais para o 11º Congresso Popular Nacional, além do Comité de Finanças e Economia, que tinha sido já aprovado no início da sessão anual da APN, que decorre em Pequim.
O plenário de escolha dos membros do Conselho de Estado é um acto que tem uma dimensão sobretudo cerimonial, uma vez que os nomes são designados pelo primeiro-ministro. Embora a votação seja secreta, não há candidatos à escolha e todos os nomeados receberam apoio unânime. Quase todos os ministros viram os seus mandatos renovados, algo que era já esperado depois do 17º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, que decorreu em Outubro passado, momento durante o qual é possível perceber a forma como a liderança se vai processar.
Li Keqiang, o promissor

Nascido em 1955 na Província de Anhui, Li Keqiang é visto como um dos mais proeminentes políticos chineses. Os analistas da política da China entendem que será o sucessor do primeiro-ministro Wen Jiabao, tese que ganha força com a nomeação para a vice-presidência. É o momento de ascensão deste membro do Partido Comunista da China, que conta com 32 anos de filiação.
Licenciado pela Escola de Economia da Universidade de Pequim, Li tirou um mestrado e o doutoramento em Economia, tendo ainda feito uma pós-graduação em Educação. Membro do Comité Permanente do Gabinete Político do Comité Central do PCC, encontra-se no topo da carreira política, ao integrar o Grupo de Líderes do Partido, do qual é, aliás, vice-secretário.
Li Keqiang começou a sua actividade política em 1976, ano em que entrou para a Brigada de Damiao, na Comuna de Damiao, na província de onde é natural. Em 1978, partiu para a capital chinesa, onde começou por estudar Direito, tendo sido, até 1982, um dos líderes da União de Estudantes da Universidade de Pequim. No ano seguinte, torna-se secretário do comité da instituição académica da Liga da Juventude Comunista da China.
Com um percurso académico fortemente ligado ao PCC, Li sai da capital em 1998 para desempenhar as funções de vice-secretário do Comité do Partido em Henan, província onde desempenhou as funções de governador interino durante um ano. Em 1999, foi nomeado governador, cargo que ocupou até 2003, tendo ainda sido designado para liderar o partido na província.
Em 2005, passou a ser secretário do PCC no Comité Provincial de Liaoning, bem como presidente do Comité Permanente da província no Congresso Popular Nacional. Em 2007, foi escolhido para o Politburo.
Wang Qishan, o intelectual

De todos os vice-primeiros-ministros, Wang Qishan é aquele que tem um percurso mais curto no Partido Comunista Chinês, no qual se filiou em 1983. Antigo presidente do município de Pequim, aos sessenta anos ocupa o lugar deixado vago pela pragmática Wu Yi, a quem chamaram a “Dama de Ferro” da China.
Com formação universitária em História e Economia, a primeira nota biográfica de Wang dá conta da sua presença nos campos de Shaanxi, onde executou trabalho manual, entre 1969 e 1971, à semelhança de outros jovens da sua geração. Em 1971, teve o seu primeiro emprego de carácter intelectual, no Museu Provincial de Shaanxi, a sua terra natal. Alguns anos mais tarde, voltou ao núcleo museológico, desta feita já detentor de um diploma universitário.
Em 1979, passou a ser investigador do Instituto de História Moderna da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Depois da entrada no Partido, continuou a fazer investigação, principalmente na área do desenvolvimento rural. No final da década de 1980, foi escolhido para desempenhar as funções de director do Centro de Pesquisa do Instituto para o Desenvolvimento Rural, um gabinete sob a alçada do Conselho de Estado. Pouco tempo depois, começou a conciliar estas funções com as de vice-governador do Banco Popular da China, sendo que em 1994 passou a ocupar o principal cargo da entidade bancária.
Em 1997, foi nomeado membro do Comité Permanente do Partido Comunista Chinês na província de Guangdong. Em 2000, chegou a vice-governador da província vizinha de Macau, ano em que foi designado director do Gabiente para a Reestruturação da Economia.
Depois de uma passagem por Hainão, vai para Pequim, tornando-se presidente do município em 2004, cargo que ocupou até ao ano passado. É o presidente executivo da Comissão Organizadora dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e integra, desde 2007, o Politburo, o grupo de líderes políticos da China.
Hui Liangyu, ligado à terra

Hui Liangyu nasceu na província de Jilin em Outubro de 1944 e tem uma carreira longa ao serviço do Partido Comunista Chinês (PCC), onde se filiou em 1966. Com formação na área da economia, é membro do Comité Permanente do Gabinete Político do Comité Central do PCC e pertence ao Grupo de Líderes do Partido.
O início da vida política de Hui coincidiu com a sua vida académica universitária, que decorreu na província onde nasceu. Em 1968, foi enviado para executar trabalho manual em Yushu, interrompendo as suas funções no Gabinete de Supervisão dos Recursos Humanos e Agrícolas de Jilin. O trabalho manual só durou um ano: em 1969 foi nomeado secretário do departamento político e presidente do gabinete geral do Comité Revolucionário de Yushu, cargo que ocupou durante três anos.
A sua ascensão no PCC começou em 1972, ainda em Yushu, onde veio a ser, três anos depois, vice-secretário do Comité local do Partido. Com trabalho realizado sobretudo na área da gestão agrícola e sem nunca abandonar a província onde nasceu, passou por diversas funções antes de ser nomeado, em 1987, vice-governador de Jilin.
Com o início da década de 1990, foram-lhe destinadas novas funções. Foi designado vice-presidente do Gabinete de Pesquisa de Política, um organismo do Comité Central do Partido Comunista Chinês.
Em 1992, abandonou Jilin e foi colocado pelo PCC em Hubei. Dois anos volvidos, deu-se uma nova mudança, ao ser escolhido para vice-secretário do Comité Provincial de Anhui do PCC. Em 1998, passou a ser o líder do partido nesta província chinesa. Em 1999, com as mesmas funções, muda-se para Jiangsu.
Foi em 2002 que chegou a membro do Politburo. No ano seguinte, foi escolhido por Wen Jiabao para integrar o Conselho de Estado, na qualidade de vice-primeiro-ministro, cargo que vai continuar a desempenhar ao longo de mais cinco anos.
Zhang Dejiang, o político que fala coreano

Natural da província de Liaoning, Zhang Dejiang tem 62 anos e pertence aos quadros do Partido Comunista Chinês (PCC) há 37. Licenciado em Economia, estudou na Coreia do Norte no início da década de 1980. Quando partiu para a Universidade Kim Il Sung, já falava coreano com fluência.
Membro do Politburo desde 2002, conhece bem o Sul da China e a província de Guangdong. No entanto, foi em Jilin que começou a sua carreira política, ao se juntar ao Comité Revolucionário local, corria o ano de 1970. Foi nesta província chinesa que desempenhou as primeiras funções de responsabilidade dentro do PCC, tendo sido secretário da representação local da Juventude Comunista.
Em 1972, dedicou-se ao estudo do coreano na Universidade de Yanbin, ainda em Jilin. Alguns anos depois, ainda durante a década de 1970, foi nomeado vice-secretário do Partido no Departamento de Coreano da Universidade e passou a ser o vice-presidente do Comité Revolucionário local. Em 1978, partiu então para a Coreia do Norte, onde estudou Economia durante dois anos, período durante o qual foi o elemento de ligação dos estudantes chineses radicados no país ao PCC.
De regresso à China, Zhang Dejiang subiu na carreira política, ao integrar o comité permanente do Comité do Partido, e na vida académica, com a nomeação para vice-reitor da Universidade de Yanbian. O político continuou na cidade da província de Jilin, tendo feito o percurso tradicional de ascensão, até chegar, em 1995, aos cargos de líder do PCC na província e presidente do Comité Permanente de Jilin no Congresso Popular Nacional.
Em 1998, mudou de província, ao deslocar-se para Zhejiang, onde continuou a desempenhar funções de topo no PCC, ao nível provincial. Em 2002, deu-se o momento que determinou a mudança na carreira: foi escolhido para o Politburo, cargo que acumulou com o de secretário do Comité do Partido na província de Guangdong, até ao ano passado.
Em Outubro passado, viu renovada a confiança política que o PCC lhe deposita, ao permanecer no grupo mais influente da China. Agora, chegou ao Conselho de Estado.
Isabel Castro,
com agências