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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Os planos de Baxter, Uma surpresa chamada Lionel Vai Tac Leong

Departamento de Português quer dar mais espaço
à lusofonia

Os planos de Baxter

Internacionalização é a palavra-chave da lista de trabalhos da nova direcção do departamento de Português da Universidade de Macau (UM). Há quatro meses a ocupar o lugar de director, Alan Baxter não tem tido mãos a medir. Os projectos multiplicam-se: as licenciaturas e os mestrados estão em fase de revisão e há programas de mobilidade para estudantes em preparação, entre tantas outras iniciativas. Os primeiros resultados vão surgir já no próximo ano lectivo.
Aumentar o leque de opções em Portugal e partir à descoberta do Brasil e de África. São estes os objectivos do departamento de Português no que toca aos novos projectos de mobilidade de estudantes.
Actualmente, os alunos do terceiro ano da licenciatura de Língua e Cultura Portuguesas têm oportunidade de efectuar um semestre na Universidade Clássica, em Lisboa. No entanto, a partir de Setembro, os estudantes poderão conhecer os métodos de ensino das Universidades de Coimbra e do Minho.
Relativamente ao Brasil, os custos de deslocação dificultam a concretização deste projecto, mas há a possibilidade de enviar o primeiro grupo para terras de Vera Cruz ainda no próximo ano. “Estão em progresso algumas conversas preliminares com a Universidade de Campinas, no Brasil. O problema é a distância, mas é importante fazer um esforço neste sentido”, frisou o mesmo responsável.
As ambições de chegar ao continente africano são as únicas que ainda não possuem calendário. Contudo, Moçambique é uma das hipóteses, visto que estão já em andamento conversações com a Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo.
A par disso, o departamento de Português pretende ainda criar um programa de estágios. “No quarto ano da licenciatura, queremos desenvolver um esquema de estágios, por enquanto apenas a nível local”, informou Alan Baxter.
Nas palavras do académico, as principais vias profissionalizantes do curso da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UM são as relações internacionais e comerciais, trabalhos de interface, assim como serviços de interpretação e tradução. Ora, numa altura em que os contactos entre a China e os países de expressão portuguesa são cada vez mais fortes, torna-se fundamental que os alunos conheçam o contexto social, histórico e cultural de cada uma destas nações.
É este um dos sentidos segundo os quais está a ser realizada a revisão do programa de licenciatura. Um trabalho que coincidiu com a nomeação de Alan Baxter. “Temos em mente tratar de dois assuntos essenciais. Um deles é a questão da língua, queremos apostar bastante na qualidade em termos das melhores práticas a nível internacional, e outro são as disciplinas de conteúdo”, explicou.
Com cerca de 240 estudantes de um total de 1400, divididos pelas várias opções oferecidas pelo departamento de Português, o curso de licenciatura tem uma duração de quatro anos. A primeira metade é mais dedicada aos estudos linguísticos intensivos, enquanto a segunda se debruça nas disciplinas de tipo tradicional, como a História e a Literatura.
“A minha intenção é, além de estender para o terceiro e quarto anos o ensino da língua propriamente dita, trabalhar ao mesmo tempo os aspectos sócio-económico e cultural relativamente ao mundo lusófono inteiro. Isto tendo em conta os contactos entre a China, África, Portugal, Brasil e União Europeia”, apontou.
O objectivo deste projecto é, segundo Alan Baxter, fazer um trabalho mais actual em termos da realidade lusófona, manter as disciplinas tradicionais, mas complementando com matérias mais pertinentes no que diz respeito aos contactos internacionais que envolvem a língua portuguesa. Neste conjunto, incluem-se, por exemplo, a história contemporânea e as questões de política actual.
O plano de estudos do grau de mestrado está também em processo de revisão. Quanto ao curso mais recente, lançado no ano passado, em Interpretação e Tradução, “está a ter êxito”, mas Alan Baxter não se dá por satisfeito. “Quero consolidar e desenvolver mais esta formação, principalmente ao nível da pós-graduação na área de tradução”, defendeu.
Relativamente ao mestrado em Língua e Cultura Portuguesas, pode esperar-se também uma alteração substancial. Actualmente, o curso de dois anos está dividido em três vertentes: Linguística, História e Literatura. “O que estamos a planear na revisão actual é criar um mestrado único com opções disciplinares, em vez de três mestrados”, explicou o responsável.
“Seria muito positivo que um estudante de Linguística pudesse estudar algumas disciplinas de História. Há toda uma série de conjugações possíveis com muitos benefícios. Por exemplo, para compreender a questão do patuá é necessário conhecer a História de Macau”, acrescentou.
As actividades do departamento de Português da UM desenvolvem-se a dois níveis. O primeiro diz respeito à licenciatura. Além do curso em Língua e Cultura Portuguesas, existe um conjunto de cursos com uma duração mais curta pensados para todos os estudantes de outras faculdades da UM - o “minor” em Estudos Portugueses e o curso de Língua Portuguesa. Na área do Direito, há duas formações em língua portuguesa para alunos chineses e lusófonos.
No que diz respeito ao nível de pós-graduação, além do mestrado em Língua e Cultura Portuguesas e em Tradução e Interpretação, o departamento de Português oferece um plano de estudos de doutoramento em Linguística Aplicada, nomeadamente nas áreas de aquisição de língua e técnicas de aprendizagem, e em Sociolinguística.

Criar um corpo docente virado para a investigação

As estratégias do novo director do departamento de Português da Universidade de Macau (UM) não se resumem somente à organização dos currículos. Alan Baxter tem planos bem definidos quanto ao seu corpo docente. Sempre com os olhos postos na qualidade das práticas de ensino e do trabalho de investigação. Duas vias que, segundo o responsável, servem para elevar o reconhecimento da UM no estrangeiro, bem como atrair estudantes de outros cantos do mundo.
“Quero que o departamento seja bem conhecido pela sua especialização, isto é, docência e investigação actualizada”, defendeu. O plano do também director do Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos do mesmo estabelecimento de ensino é desenvolver um quadro bem forte na área do ensino do português como segunda língua formado por docentes com interesse pela investigação.
“Hoje em dia não se pode ensinar uma língua sem estar dentro dos desenvolvimentos e tendências actuais, bem como os produtos das investigações mais recentes. Quem ensina um idioma estrangeiro tem que estar actualizado”, sustentou o mesmo responsável.
Actualmente com um corpo docente de 24 profissionais, Alan Baxter pretende fazer aumentar este número para 26, ainda durante este ano lectivo. Por outro lado, dentro de 18 meses o departamento vai poder contar com mais três professores doutores, docentes que já pertencem ao quadro.
Além disso, o responsável pretende criar quadros especializados em áreas específicas. A primeira diz respeito aos assuntos de português para Direito. Um trabalho que está já em fase de andamento. Em segundo lugar, será criado um sector do corpo docente mais dedicado à área de Tradução e Interpretação. “Haverá mais espaço para estas disciplinas”, salientou.
Este ano, a UM atribuiu uma bolsa ao Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos. Isto quer dizer que, durante cinco anos, o grupo de investigadores na área da linguística do departamento de Português vai receber financiamento para desenvolver os seus trabalhos.
A equipa formada por 11 académicos é comandada por Alan Baxter. Além de projectos de Linguística Aplicada, há ainda a vertente de Sociolinguística. É aqui que entram os projectos associados ao patuá e ao pápia kristang, o crioulo de Malaca, cujo objectivo é dar apoio às comunidades em questão para ajudar à manutenção e preservação destas manifestações linguísticas.
Uma nomeação polémica

A nomeação de Alan Baxter para os comandos do departamento de Português da UM e do Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos gerou polémica entre a comunidade portuguesa da RAEM. Acontece que o licenciado em Filosofia e Mestre e Doutor em Linguística é australiano.
Nas palavras do académico, as principais preocupações estão ligadas ao facto de este usar a norma do português do Brasil, enquanto que as regras vigentes da língua lusitana em Macau são as de Portugal. Alan Baxter garante que este vínculo não será violado; no entanto, num espaço com as características de Macau, é preciso dar espaço à lusofonia.
“É evidente que uma universidade que ensina o português, neste século, localizada na China, tem que ter em atenção que o país ao lado é o maior parceiro económico dos países de língua portuguesa”, sustentou. Tal deverá, segundo Alan Baxter, processar-se desde o nível dos quadros de professores até aos conteúdos dos currículos.
“A minha visão é que temos que trabalhar mais a temática lusófona, sem esquecer que o vínculo com Portugal é realmente central e muito importante. Por isso, além de portugueses e brasileiros, eu gostaria de ter um corpo docente formado também por africanos. Isto não quer dizer, de jeito nenhum, que vamos privilegiar uma determinada variante do português.”
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão

Eleitos os delegados de Macau à 11ª Assembleia Popular Nacional

Vai Tac Leong e Lau Ngai Leung consensuais

Estão escolhidos os representantes de Macau junto da 11ª Assembleia Popular Nacional (APN). Doze pessoas de diferentes quadrantes da RAEM foram ontem escolhidas num processo eleitoral que decorreu na Torre de Macau. Os empresários Lionel Vai Tac Leong e Lau Ngai Leung reuniram o maior número de votos: 304 nomeações num total de 319. O colégio eleitoral é constituído por 325 membros; ao sufrágio apresentaram-se 17 candidatos.
Os cinco actuais delegados de Macau renovaram os seus mandatos. Além de Lionel Vai Tac Leong, são seis as caras novas da RAEM junto da APN.
Dos resultados de ontem, destaque ainda para o facto de o empresário Ho Iat Seng, que tinha reunido o maior número de cartas de nomeação, não ter conseguido mais do que o quinto lugar na classificação geral. Três das quatro mulheres candidatas alcançaram um lugar na Assembleia Popular Nacional.
O vice-presidente e secretário-geral do Comité Permanente da APN, Sheng Huaren, esteve presente neste segundo plenário, que culminou com a eleição dos delegados, e que foi presidido pelo Chefe do Executivo da RAEM, Edmund Ho. No discurso que proferiu depois das eleições, Sheng congratulou os recém-eleitos representantes da RAEM, tendo ainda realçado que o processo eleitoral para a 11ª APN em Macau decorreu de acordo com a lei e de forma democrática.
“É uma eleição aberta e justa”, disse. “Acredito que o processo merecerá o reconhecimento dos diferentes sectores da sociedade de Macau”, acrescentou Sheng Huaren.
Em relação aos actuais delegados à 10ª APN, o responsável elogiou a sua efectiva contribuição para o desenvolvimento da economia do país, a implementação do princípio “Um País, Dois Sistemas” e a manutenção da prosperidade e da estabilidade em Macau.
Os doze delegados eleitos serão formalmente empossados depois de um processo de auditoria detalhado levado a cabo pelo Comité Permanente da 10ª Assembleia Popular Nacional, segundo informa a Xinhua.
Lionel Vai Tac Leong, empresário natural de Macau, tem 46 anos e era o candidato local mais novo à APN. Candidatou-se pela primeira vez e o resultado que conquistou foi a maior surpresa desta eleição para a Assembleia Popular Nacional. Membro do Conselho Executivo, é tido como sendo um político de formação liberal. Quanto a Lau Ngai Leung, o empresário é natural de Fujian e a sua reeleição para a APN era dada como certa.
À Rádio Macau, Leonel Alves, membro do colégio eleitoral, considerou estar aberto um ciclo de renovação, tendo sublinhado o significado da votação alcançada por Lionel Vai Tac Leong. “A China entrou num ciclo em que pessoas novas, de sangue novo, começam a estar em todos os aparelhos de Estado. Macau também acompanhou este passo, com pessoas novas, com grande vontade de contribuir para a nação, o que é positivo”, disse.
Quanto às características de Lionel Vai Tac Leong, Alves disse tratar-se de “uma personalidade local com muito prestígio, que tem vindo a desenvolver um trabalho importante ao nível do Conselho Executivo e também de outras vertentes da sociedade”, entendo que o número de cartas de nomeação que conquistou significa que “pode contar com largos sectores da sociedade de Macau para grandes tarefas que se avizinham”.
Também em declarações à Rádio Macau, e ainda sobre o valor de Lionel Vai Tac Leong, o arquitecto Carlos Marreiros, que integra o colégio eleitoral, o novo delegado à APN tem trabalhado para a modernização da economia e do progresso da RAEM. “É um jovem formado no estrangeiro, domina mais de duas línguas, é um empresário dinâmico e, nos últimos anos, tem vindo a destacar-se pelo seu trabalho em prol da sociedade. Teve uma votação muito expressiva”, vincou.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

História na Universidade de Macau; Breve história de um fórum de Hong Kong; Macau, cidade de pouca solidão,


Primeiros cursos na variante de História da UM abrem em Setembro

Dentro de quatro anos, poderão sair para o mercado de trabalho recém-licenciados habilitados para ministrar aulas de História. A Universidade de Macau (UM) anunciou ontem em Boletim Oficial a criação dos primeiros cursos de Letras na variante de História do estabelecimento de ensino superior.
As inscrições para o mestrado e licenciatura arrancam no mês de Setembro, a mesma altura em que, segundo a vice-directora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UM, Maria Antónia Espadinha, poderá ser estabelecido um departamento de História. O objectivo desta iniciativa é formar professores e investigadores nesta área científica.
“Há uma ideia em criar um departamento de História que já está a ser lançada. De acordo com as previsões, essa estrutura poderá ganhar corpo antes do início do próximo ano lectivo, dependendo do avanço dos trâmites legais”, explicou ao Tai Chung Pou a mesma responsável.
São várias as razões que levaram a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas a apostar na criação de um plano de estudos para licenciatura e mestrado em Letras, na variante de História. “Em Macau, não havia um curso de História e também não existia formação na mesma área”, contextualizou Maria Antónia Espadinha, acrescentando que, no âmbito do ensino, são os professores de chinês que dão esta disciplina nas escolas.
Embora seja uma formação em Letras com variante em História, esta iniciativa significa o primeiro passo para colmatar a carência de profissionais especializados neste campo do saber. “Não pode haver educação moderna em Macau sem cursos deste género”, frisou a vice-directora da faculdade.
Nas palavras da responsável, o território é um lugar privilegiado para estudar História. Em particular, porque tem um manancial de informação que favorece a investigação, algo que é notório pelo número de arquivos históricos de todo o género de documentação que existe na região. “Durante todos estes anos, o território foi um ponto de encontro entre o mundo e a China. Por aqui passaram vários povos e deixaram marcas e influências”, notou.
O número de vagas para a licenciatura é limitado. Cada ano, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas vai receber, pelo menos no início, apenas 25 alunos. Já o curso de grau de mestrado admite cerca de 10 estudantes. A língua veicular de ambas as formações é a inglesa, com a chinesa a assumir uma função complementar.
A licenciatura terá uma duração de quatro anos. No plano de Estudos, a área científica que mais se destaca é a História. Entre as disciplinas obrigatórias encontram-se História de Macau e três matérias dedicadas à História da China - Moderna, Antiga e Contemporânea -, bem como História Geral.
A par disso, há ainda cadeiras de carácter mais geral e multidisciplinar. Isto é, Língua Inglesa, Introdução à Sociologia, Métodos Quantitativos de Investigação Social, Introdução à Ciência Política, Estudos Ambientais e Princípios da Economia. De resto, os alunos têm um leque de disciplinas de opção, como a História Comparada e História Geral ou matérias importadas de outras licenciaturas.
Relativamente ao curso de grau de mestrado, terá a duração de dois anos lectivos. Como é normal neste tipo de especializações, além da obtenção de 24 unidades de crédito, os mestrandos terão de elaborar uma dissertação que deve ser sujeita a discussão e aprovação.
O plano de estudos divide-se em três áreas da História. A primeira denomina-se Disciplinas Temáticas e é formada por 10 cadeiras das quais se destacam Macau, China e o Património Mundial, o estudo do território em várias épocas históricas desde a Dinastia Ming à actualidade, Piratas na História Mundial, Diásporas no Sul da China, Família e Género na História da Ásia, entre outros.
A área intitulada Disciplinas Profissionais é formada apenas por Teoria e Prática da História, nível avançado, e Estudos Independentes. Disciplinas Temáticas da História, nível avançado, é a última área composta por 12 matérias, destacando-se Direito e Sociedade na China Antiga, Religiões Indianas, Chinesas e Japonesas, Interacções e Intercâmbios entre o Oriente e o Ocidente e Cultura Asiática.
Alexandra Lages

Breve história de um fórum de Hong Kong na Internet

A distância entre virtual e real

O HKGolden.com é, provavelmente, o fórum da Internet mais popular de Hong Kong. Criado em 2000 por vendedores de computadores no Golden Computer Centre, a secção de debate do site foi, em tempos, o local favorito de troca de ideias para os amantes da informática. A história complicou-se desde esses tempos - com a linha entre a liberdade de pensamento e os insultos a ser frequentemente ultrapassada – mas o breve percurso do HKGolden.com dá-nos uma boa contextualização do que é a cultura cibernética de Hong Kong e a sua influência fora da esfera virtual.
Estabelecido e mantido por “Mr. Jim” até Junho de 2003, o fórum do HKGolden.com é agora gerido por um servidor web e por uma empresa de ensino da área da informática, tendo visitas permanentes de mais de dez mil utilizadores, com cerca de dez respostas a serem inseridas por minuto.
Nos últimos anos, a imprensa começou a citar comentários de vários fóruns de Hong Kong sobre assuntos da actualidade, representando a opinião pública, uma tendência que é mais visível no Apple Daily e nas secções ligadas ao mundo do espectáculo. O HKGolden.com, a par do Discuss.com.hk e do UWants, tornaram-se casos de sucesso em termos de comentários da população. O Apple Daily tem mesmo uma secção diária em que publica resumos de vídeos interessantes, fotografias e mexericos que são veiculados na Internet, incluindo material do HKGolden.com. O Discuss.com.hk tem, no entanto, maior exposição pública.
O próprio HKGolden.com tornou-se notícia por diversas ocasiões, ao serem feitas acusações de restrição à liberdade de expressão e por, no Verão passado, ter estado semanas com falhas no servidor. O fórum adquiriu conotações políticas em 2005, quando um grupo de membros se organizou em torno da promoção da manifestação pró-democracia de Dezembro. O actual estado de liberdade de expressão do fórum é, contudo, bastante questionável.
Para o “blogger” “HK-X-Force”, um aluno de Engenharia Electrónica da Universidade Chinesa de Hong Kong, o espírito do HKGolden.com alterou-se profundamente desde que mudou de mãos, em 2003. Nos primeiros tempos, lembra no seu blog, os utilizadores do fórum eram, na maioria, entusiastas da informática que mantinham discussões com muito interesse, mas a secção de “chat” começou a crescer e foi implementado um sistema para aumentar as receitas.
Os regulamentos do fórum eram respeitados por poucos e começaram a surgir grupos de membros dentro do HKGolden.com com interesses “invisíveis" que interromperam a gestão do fórum. Um grupo designado “Big Mouth Group” ficou conhecido pelo facto de os seus membros recorrerem com frequência à violência verbal em relação aos restantes participantes do fórum com ideias divergentes.
O novo operador, o Fevaworks, tentou impor regras em 2004 ao criar um sistema de substituição automática de certas frases e ao proibir o acesso ao fórum de todos aqueles que não cumprem os regulamentos. De nada adiantou. A resposta dada pelos membros fez com que o fórum tivesse encerrado durante alguns dias. Na reabertura, acabaram-se as regras de participação e a linguagem utilizada não é sujeita, actualmente, a qualquer espécie de controlo. As consequências fizeram-se sentir de imediato e conseguiram chegar ao mundo da comunicação em papel, ao atingir um jornalista do Ming Pao, num caso que ocorreu em Julho passado.
Numa reportagem sobre um grupo de estudantes de uma escola secundária envolvidos em sexo de grupo, o Ming Pao denunciou um membro do HKGolden.com, de nome “Nike”, por distribuir, na Internet, um grande número de vídeos pornográficos (23 por dia). No artigo, o jornal acusava o membro de promover conceitos incorrectos sobre sexo entre os adolescentes. “Nike” foi de imediato desactivado do fórum, acusado pela Justiça por distribuir filmes piratas e condenado, mas outros membros do HKGolden.com juntaram-se rapidamente em sua defesa, denegrindo a imagem do Ming Pao.
Dois dias mais tarde, a editora do Ming Pao assinou um artigo intitulado “Uma carta para Nike” em que explicou qual a relação entre crimes de âmbito sexual à distribuição de filmes pornográficos, tendo terminado o texto com a frase “Espero que a nossa reportagem não tenha causado muitos inconvenientes”.
A “carta” foi considerada provocadora e a editora do jornal ficou numa posição de grande fragilidade. Houve quem tivesse descoberto o endereço do blog pessoal da jornalistas e as caixas de comentários encheram-se rapidamente de comentários insultuosos. Começaram a ser publicadas fotografias da vida privada da editora, incluindo imagens em fato de banho, tendo sido atacada em todos os aspectos “virtualmente” possíveis.
O autor do blog “Speechlessness” fez uma análise do caso e olhou para outros pontos do globo, para perceber até que ponto a esfera virtual afecta a real. De acordo com um estudo publicado nos Estados Unidos, 32 por cento dos adolescentes entrevistados tinham sido alvo de actividades online que poderiam ter (ou tiveram) consequências no seu quotidiano. Em Hong Kong, uma pesquisa feita pela Associação de Professores e Leitores revela que 34 por cento dos membros recebe mensagens difamatórias ou intimidatórias. Em dois pontos tão distintos do globo, há comportamentos virtuais que em pouco se distinguem.
O tipo de abordagem e de intervenção que começou a dominar o HKGolden.com teve consequências negativas noutros fóruns e na Wikipedia. P.Y. Yick, um dos colaboradores da enciclopédia de livre acesso, antigo utilizador do HKGolden.com, considera que a “invasão” da cultura dominante do fórum é uma verdadeira dor de cabeça para os cibernautas locais.
Em 2006, começaram a ser publicados na Wikipedia artigos sem quaisquer princípios de objectividade, fontes ou referências, a maioria copiados de uma outra enciclopédia de livre acesso. Textos sobre questões gerais e definições foram alterados pelos membros do HKGolden.com, que têm uma linguagem muito própria, que só os membros são capazes de dominar na plenitude. Além disso, os perfis de figuras públicas que não agradam ao grupo foram alteradas e ridicularizadas.
A “invasão” dos “goldeners” ganhou uma dimensão ainda maior em Agosto de 2006, quando os membros do HKGolden.com participaram numa conferência em Hong Kong em que estavam também presentes colaboradores da Wikipedia. O debate acabou com um violento confronto de ideias que deixou boquiabertos os participantes oriundos do estrangeiro. No livro de convidados, os “golderners” deixaram a sua imagem de marca: o desenho de palhaços, em vez dos seus nomes.
O trabalho árduo dos editores da Wikipedia fez com que a informação fosse recuperada e apagados os dados insultuosos, pelo que os vestígios da “goldenização” mal se vêem. P.Y. Yick, que em tempos foi um membro activo do tão polémico fórum, está agora totalmente concentrado no desempenho nas suas tarefas na Wikipédia. Segundo explicou, estava cansado de ataques pessoais e de argumentos pouco sólidos no debate online. “Sentia-me como se estivesse a falar com miúdos”, disse.

Linguagem e imagem

“Plástico duro” e “palhaço” são os conceitos mais marcantes da cultura criada dentro da esfera do HKGolden.com. “Plástico duro” tem semelhanças, em termos fonéticos, com uma irritante frase em cantonês que significa estúpido e ignorante. O termo evoluiu para outras expressões consideradas igualmente irritantes, como “plástico falso”, designação usada para os membros que tentam chamar a atenção de forma estúpida. Os “plásticos bem intencionados” são os utilizadores genuinamente estúpidos.
A par deste peculiar código dos “goldeners”, foi também criada uma imagem que tem a cara de palhaço como ponto de partida, tendo-se transformado num verdadeiro ícone do grupo. Os utilizadores adoptaram o desenho e alteraram-no graficamente, criado centenas de palhaços com diferentes significados, utilizando com frequência a imagem de marca de produtos bem conhecidos.
Os membros mais radicais até fizeram do palhaço uma “religião” – uma atitude considerada sarcástica em relação ao Cristianismo. Um grupo começou a organizar “cerimónias” aos domingos e fizeram adaptações de orações.
Há já também t-shirts com o desenho do palhaço nos mercados de rua, mas a cultura icónica deste fenómeno virtual está ainda longe de chegar, de forma efectiva, ao mundo real.
Kahon Chan, em Hong Kong, com Isabel Castro


Socióloga investiga emoções da população local

Macau, cidade de pouca solidão

A solidão é uma emoção estranha aos chineses de Macau, em particular aos idosos. Quem o afirma é a socióloga Regina Paz, que tem vindo a realizar uma investigação desde 2005, cujo objecto de estudo é precisamente as emoções deste povo – especificamente, a solidão, o embaraço e o perdão.
A fase da recolha de informação já está terminada. Tendo sido entregue um questionário cujo modelo corresponde ao da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA) e já foi distribuído noutros países, foram recebidas 1400 respostas de homens e de mulheres adultas. Resta agora interpretar os resultados. Contudo, Regina Paz já pode avançar com uma conclusão, a de que, independentemente da idade, habilitação ou género, os chineses residentes em Macau não se sentem sós. “Os europeus queixam-se mais da solidão”, diz. Explicações ainda não tem, apenas suspeitas. “Atribuo isso a jogos como o mahjong”, que coloca as pessoas em torno de uma mesa, bem como ao “clima” ameno que leva as pessoas para fora de casa. Além disso, estão mais preocupados com a “manutenção da saúde” e com o cuidado com o “bem-estar físico”, levando à existência “de mais contactos” e “saídas em grupo”. As oportunidades de encontros esporádicos entre as pessoas são também muito frequentes, porque “a terra é pequena, podendo os residentes manter uma grande interacção”. Uma situação que não acontece na Europa, já que ali cabe às instituições organizar iniciativas de interessem aos idosos. É por isso que lá existem tantos centros de convívio e “em Macau não”.
Uma resposta que não gerou surpresa é que “os homens são muito mais sós do que as mulheres”, algo que tem sido “uma constante” nos países onde tem sido distribuído o questionário. Quanto às diferenças etárias, “os mais novos sofrem mais de solidão dos que os que estão acima dos 50 – estes estão mais apoiados”. Contudo, as respostas quanto à carência ou não de intimidade são aparentemente contraditórias, tendo os “mais velhos revelado uma maior carência de intimidade”. Uma justificação poderá ser a interpretação “errada” de que “esta intimidade” referia-se a “laços românticos”.
Um dado que muito a intrigou passa por as pessoas com uma “prática forte da religião popular chinesa, tradicional” – uma fusão entre budismo, taoísmo e culto aos antepassados - terem revelado menor solidão do que os budistas ou taoístas. Uma explicação poderá passar por os praticantes desta religião se deslocarem em grupo aos templos para resolver problemas de família e orar.
Quanto ao embaraço, o trabalho realizado por Regina Paz ainda não está uma fase avançada, talvez devido à “escassa bibliografia”. Em termos gerais, trata-se de “uma sensação indesejada por se ter infringido involuntariamente uma regra ou uma norma que é agradável aos outros, ou que nós temos como desejada”. Contudo, é importante salientar que o embaraço só existe “em função da atenção que os outros têm sobre nós”. Por isso, é importante também aferir o grau de “sociabilidade” para chegar a conclusões.
Um dado quase certo é que “os mais jovens são muitíssimo mais vulneráveis a situações de embaraço do que os idosos”. Outro ponto que, num futuro próximo, será explorado passa pelo embaraço dos animais. Considerações que pretende aprofundar, porque, na sua opinião, os ”animais em situação desastrada ficam muito constrangidos e só querem sair dali”.
Manifestando um maior “interesse” pela questão do embaraço do que pelas outras emoções, Regina Paz afirma que, perante um percalço social, “se uma pessoa não ficar visivelmente atrapalhada nem tentar remediar aquilo que fez, não é bem vista pelos outros”. Neste caso, então, “balbuciar ou corar é considerado uma mais-valia”.
Mas os modos como se processa o embaraço são “culturalmente diferentes”. Observando os chineses, chega a uma conclusão. “O chinês mete os olhos no chão e tenta sair dali muito depressa”, conta. Já quanto aos ocidentais, são outras as reacções, até porque são “mais confrontacionais”.
Contudo, as dificuldades de interpretação desta emoção são muitas, dada a escassa bibliografia. Regina Paz arrisca uma justificação: “Julgo que os sociólogos não estarão sensibilizados para a grande importância do embaraço”. Algo que é desvalorizado mas que, na opinião da socióloga, “pode limitar as competências individuais” e atingir dimensões “quase patológicas”. No “tímido o risco do embaraço está sempre presente e é muito alto, enquanto o embaraço é frequente, temporário, e a pessoa não está sempre a pensar nisso”.
Já no que toca ao perdão, a “perda de face” teve de ser incluída nos questionários distribuídos em Macau. “Perder a face é um dano à dignidade e pode criar sentimentos de grande ressentimento”, explica. Todos os povos passam por isto, mas os nomes que lhe dão são diferentes. “Dignidade, respeito, estatuto”, enumera. O que torna característico quanto ao povo asiático é a reacção, que leva a que “fique extremamente amarrotado na sua respeitabilidade, na sua reputação”. Porque o ocidental é “confrontacional” e resolve tudo no momento, “a vingança do chinês é qualquer coisa temível”, declara. Inserindo a perda de face na categoria do perdão, Regina Paz explica a opção. “Ninguém numa situação embaraçosa deixa de perder a face - é garantido que a perde”, diz.
A comparação entre budistas e cristãos no que toca ao ressentimento foi um dado que muito a intrigou e que já resultou num trabalho publicado no “International Journal for the Psychology of Religion”. “Muitos chineses no questionário assinalaram ser cristãos e budistas, para além de praticar a religião popular da China”, declara. Algo que não acontece na Europa, já que as pessoas apenas declaram ser crentes ou não crentes. “Fiquei fascinada com a diversidade de respostas e com a quantidade de pessoas que eram budistas e cristãos ao mesmo tempo”, explica. Daí surgiu um trabalho, cuja principal conclusão é que “nos cristãos a capacidade para reduzir o ressentimento é mais elevada do que nos budistas”. Talvez por constituir uma “transposição da imagem e semelhança de Deus em que a redução do ressentimento se atenua”. Já quanto aos budistas, o ressentimento dá-se por “outros motivos”.
Estando a ser realizado este mesmo trabalho de investigação em outros locais do mundo, como Moçambique, França, Portugal, por outros sociólogos que se uniram por “simpatias comuns”, todos vão discutindo os avanços realizados. “Esforçamo-nos por que esse projecto seja nosso”, diz.
Procurando uma “representação miniaturizada dos censos”, Regina Paz queria “chegar a toda a gente”, tendo sido a distribuição “relativamente aleatória”, apenas procurando atingir todos os segmentos. Um único obstáculo à recolha de informação. Muitos dos idosos contactados eram “analfabetos funcionais”, o que levava a que precisasse de ser acompanhada por uma chinesa que, em conversa, lia o questionário e apontava as respostas. Os grupos etários abrangidos foram vários: dos 18 aos 25 anos, dos 26 aos 30 anos, dos 30 aos 40, dos 41 aos 50, dos 51 aos 64, tendo agrupado posteriormente os que têm mais de 65 anos.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn


sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

No mundo da ARTM, Crianças com agendas cheias, As árvores de Hong Kong

Vidas roubadas pelo vício

Alucinações, medo da recaída, vozes que lhe dizem para se revoltar. É o dia-a-dia de Choi. Natural de Macau, aos 27 anos, está há seis meses à procura de tratamento na comunidade terapêutica da Associação de Reabilitação de Toxicodependentes (ARTM). Chegou a tentar abandonar o projecto. Desistiu. Mas as tais vozes que ouve diariamente continuam a persegui-lo.
Aos 12 anos consumiu, pela primeira vez, uns comprimidos que nem sabe bem identificar. Instigado pelos amigos, acabou por experimentar. “Senti-me muito bem, feliz, estimulado”, conta. E porque a sensação era “boa”, continuava a comprar, regularmente, numa loja em Macau. Aos 14 anos, deixou.
Quatro anos depois, começou a consumir regularmente – um consumo muito mais “pesado” e numa base diária. Desde ecstasy, passando pela ketamina, anfetaminas, chegando mesmo à cocaína. E, claro, nunca deixando de lado os comprimidos para dormir.
No início, pensava que “não estava viciado”. Só há dois anos começou a perceber que a droga era indispensável para a sua sobrevivência. Sentiu-se dependente. “Acordava e a primeira coisa que fazia era tomar os comprimidos para dormir”, conta. As outras drogas, lentamente, deixou de tomar. “Senti medo quando comecei a ter alucinações”, explica.
Quanto aos pais e irmão, no início ninguém sequer desconfiava. Mas um dia, quando Choi tinha 18 anos, descobriram ketamina no seu quarto. Nada fizeram. Sem trabalhar e sem estudar, chegou a pedir dinheiro à mãe para sustentar o vício. Pedia aos jogadores dos casinos. Ou traficava. Tudo servia.
O seu círculo de amigos também consumia drogas. E namoradas, só teve uma, que o abandonou assim que se apercebeu do vício.
Contudo, os contornos do seu passado ainda estão “confusos”. O que fez, e o que deixou de fazer. Lembra-se de ter “roubado um motociclo” e pouco mais. “Psicologicamente estava muito instável”, declara.
Há seis meses, a família incentivou-o a entrar na comunidade da ARTM. Mas tem sido “difícil”, confessa. Ouve vozes. Tem alucinações. Sente-se muito dividido. E continua a ter vontade de consumir drogas. Repartir um espaço pequeno com os colegas é o “menor dos seus problemas”. O maior passa pelas “vozes”. O futuro é uma incógnita. Já chegou a abandonar o projecto, mas voltou cinco dias depois. Tem medo de uma recaída.
Um medo também partilhado por Chi Wa. Aos 44 anos, este ex-toxicodependente colabora agora com a comunidade terapêutica da ARTM. Terminado o tratamento, acabou por permanecer no local onde se sentiu bem acolhido. “Tenho medo de não aguentar lá fora e recair”, explica.
Começou a “consumir heroína na penitenciária”, quando tinha apenas 26 anos. “Os meus amigos incentivaram-me, e o tempo passava mais rapidamente”, conta. Sete meses depois foi libertado. Deixou de consumir. Recaiu ao tentar ajudar um amigo que travava a mesma luta.
Seguiram-se 15 anos de total dependência. “Cheguei a trabalhar num casino, pedia também dinheiro aos turistas, roubei a outras pessoas”, conta. Morava com os pais que ignoraram durante nove anos o pesadelo que vivia Chi Wa. Aliás, o pai nunca soube. Apenas a mãe e o irmão descobriram. Lentamente, deixou de ter amigos. E de relacionamentos amorosos estáveis passou a ter encontros esporádicos com “amigas que também consumiam”.
Há três anos apercebeu-se que tinha um problema. “Não trabalhava, sentia-me mal”, explica. Um período difícil que também contou com cinco incursões pela prisão. “Primeiro, um ano. Depois, sete meses. Seguiu-se um período de oito dias. Posteriormente, foi um ano e meio. E finalmente estive dois meses preso”, conta. Sempre por questões relacionadas com consumo ou tráfico de droga.
Da primeira vez que entrou na ARTM, apenas permaneceu por quatro meses. Desistiu. Mas retrocedeu. E pediu para ser novamente aceite. Desde então, nunca mais abandonou a comunidade terapêutica. Depois de um ano de tratamento, acabou por ficar durante mais dois anos a colaborar com a comunidade. “Fisicamente é fácil abandonar as drogas, mas é mais difícil em termos psicológicos”, explica. Mas acabou por se adaptar às regras impostas, ao convívio com os colegas. E hoje dá-lhes orientações. Quanto a sair da ARTM é impensável, porque teme “ter demasiado tempo livre para pensar”. E arranjar outro emprego, enquanto ex-toxicodependente, será “difícil”.

Uma luz ao fundo do túnel

Assim que se entra na comunidade terapêutica da Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau (ARTM), em Coloane, a primeira imagem que se tem é uma árvore de Natal. Percorrendo os olhos pelo espaço em volta, vêem-se paredes pintadas pelos residentes, uma mesa de refeições disposta num pátio ao ar livre que serve de entrada e dezenas de cães que saltam amistosamente. Aqui moram 11 toxicodependentes que procuram um rumo para a vida. E que partilham o espaço com uma equipa técnica composta por dois psicólogos, dois monitores, para além do corpo administrativo, e dois ex-toxicodependentes que deverão passar a colaborar.
As infra-estruturas “são velhas”, e o espaço interno “não é muito grande”, pelo menos no que toca ao edifício onde se situam os três quartos dos residentes e a sala de snooker e matraquilhos. Mas repartidos por vários pequenos espaços adjacentes encontram-se um ginásio, uma sala de computadores, uma cozinha e uma farmácia. Um dos refúgios mais procurados é uma sala equipada com vários instrumentos musicais, cujas paredes estão ilustradas com desenhos feitos pelos residentes.
Separado por um portão do pátio principal, encontra-se um quintal menor, onde os residentes convivem rodeados por dezenas de cães e gatos, que pertencem à Anima – Sociedade Protectora dos Animais de Macau. Um espaço onde também se encontra uma pequena horta, várias árvores de fruto, e um lago com uma ponte.
A comunidade terapêutica tem espaço para acolher 14 utentes, no máximo. Neste momento, “11 estão ainda em processo de recuperação, dois estão a trabalhar como monitores e um tem vindo apenas aos fins-de-semana”, conta o presidente da ARTM, Augusto Nogueira. O mais novo tem 15 anos, enquanto o mais velho tem 78 anos - um indivíduo que já “recaiu várias vezes”. São 11 utentes do sexo masculino. “Já chegámos a ter uma residente há uns anos, mas tivemos problemas porque envolveu-se sentimentalmente com os colegas”, conta.
O tratamento deverá durar no máximo um ano. Assim que dá entrada na comunidade, nos primeiros dez dias, o utente passa pelo processo de “desintoxicação” acompanhado de medicação prescrita. Nesse período, são acompanhados por duas pessoas “durante 24 horas”, e por um “guia de passeio, um residente mais velho”. Está autorizado a “passear perto da comunidade”. Passados três ou quatro dias, passa a integrar uma equipa de cozinha, sendo logo “introduzido no grupo de intervenção”. Segue-se, posteriormente, a integração no comité de controlo dinâmico, uma fase que dura três meses. Passam depois a ser considerados guias assim que completarem seis meses, “já assumindo deslocações à rua e idas a casa”, terminando o processo como guias-orientadores. Ao final de um ano, ainda podem permanecer durante mais tempo na comunidade, dependendo dos casos.
O dia-a-dia repete-se. Acordam às 8h00 e deitam-se às 23h00. Entre actividades terapêuticas, workshops, reuniões individuais e de grupo, aulas de inglês, informática e ginástica, têm espaço para jogar uma partida de snooker, ver televisão, usar o computador e tocar um instrumento musical. Se desrespeitarem determinadas regras podem ser expulsos. São elas, a proibição do consumo de álcool e de droga, o envolvimento em cenas de pancadaria ou a criação dos chamados “subgrupos”. “Já expulsámos um residente que, depois de uma ida a casa, veio completamente drogado”, declara.
Normalmente, “adaptam-se bem uns aos outros”, apenas ocorrendo conflitos muito esporadicamente. Caso aconteça, “têm de pedir desculpa ao colectivo ou serão expulsos”. Muitos acabam por ficar pelo caminho, desistindo do tratamento. Outros terminam, mas “recaem”. No final, pode dizer-se que existe “uma taxa de sucesso na ordem dos 40 por cento”. Muitos pedem para continuar a colaborar.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Vantagens e desvantagens das actividades extracurriculares

Quem corre por gosto...

Se os dias fossem mais longos e as aulas não começassem tão cedo, Marta Oliveira, 11 anos de idade, “se calhar” ainda se inscrevia em mais actividades extracurriculares. Nesta matéria, a aluna do 6º ano da Escola Portuguesa de Macau (EPM) é quase uma recordista.
Formas para ocupar os tempos livres das crianças é algo que não falta no território. “A cidade é pequena, chega-se a todo o lado e é fácil os miúdos conseguirem frequentar todas as actividades durante a semana”, explica a psicóloga Goretti Lima.
Neste sentido, os estabelecimentos de ensino procuram oferecer aos seus alunos um leque de opções o mais diversificado possível. Um projecto completo de actividades extracurriculares é também uma boa estratégia para atrair mais crianças.
Todas estas características fazem de Macau um caso especial no que toca à ocupação dos tempos livres. Tantas ofertas, com tamanhas facilidades logísticas, podem representar, porém, um pau de dois bicos.
“Não sei se é mesmo verdade, mas oiço histórias de crianças que estão ocupadas até às 20h30 de segunda a sexta-feira, chegam a casa e ainda têm que fazer os trabalhos da escola. Além disso, durante o fim-de-semana, também algo na agenda”, observou a psicóloga. Se, por um lado, é salutar manter os mais pequenos ocupados, por outro, uma situação exagerada pode implicar um reverso da medalha.
“As crianças precisam de brincar. É muito importante o desenvolvimento da capacidade de fantasiar, só assim poderão ser adultos felizes”, defendeu. Segundo Goretti Lima, pode ser preocupante se, devido a uma carga exagerada de actividades extracurriculares, os mais pequenos não tiverem tempo para se dedicar às bonecas, aos carrinhos e às brincadeiras típicas da infância.
“Se passarem demasiado tempo entre quatro paredes podem perder a oportunidade de fazer as suas próprias experiências, sem que estejam a ser comandados por alguém”, vincou. Entre as possíveis consequências desta situação pode figurar a falta de criatividade.
Música, ballet, pintura em porcelana, natação, expressão dramática e ginástica são as matérias com que Marta preenche as suas horas livres. A jovem vence de longe todos os companheiros de turma. “Na minha sala, o máximo que os meus colegas têm são três ou quatro actividades”, explica. No fim de cada ano lectivo, a dinâmica estudante também não se deixa ficar atrás de ninguém.
“No ano passado, fiquei na comissão de excelência, que são os quatro melhores alunos da turma”, conta. Talvez com uma agenda mais preenchida do que muitos adultos, não é a falta de tempo que afecta o rendimento escolar da estudante, mas sim as férias grandes de Verão.
“Durante as férias esqueço-me sempre de tudo. Por isso no primeiro período de aulas recupero a matéria e no segundo e terceiro, que são os que realmente interessam, começo a subir”, aponta. Mesmo assim, antes da paragem de Natal, Marta já está a contar com “duas ou três” notas 5, quase tudo 4 e está à espera de um 3, embora não saiba ainda bem em qual disciplina.
Ao longo dos sete dias da semana, a quinta-feira é o seu “único dia livre”. A manhã é apenas ocupada com algumas aulas das 12 disciplinas que formam o programa curricular do 6º ano de escolaridade. De resto, nos outros dias úteis, a estudante, que pondera ser arquitecta quando for crescida, sai de casa para, às 8h00, estar sentada na sua carteira da escola. Depois, só volta ao calor do lar entre as 17h00 e as 20h00, dependendo dos dias. Aos sábados e domingos, passa sempre uma hora a interpretar as músicas clássicas através das técnicas do ballet.
Para Goretti Lima, as actividades são positivas, visto que desenvolvem outro tipo de capacidades cujas matérias do currículo escolar não preenche totalmente. “Tudo o que está ligado à Arte e ao Desporto é de ressalvar”, sustentou. É sempre bom ter as crianças ocupadas, quando elas gostam e estão ali porque o escolheram por eles próprios”, alertou. “Não me parece correcto que encham os horários dos miúdos por obrigação”, acrescentou.
No entanto, quando é a criança que opta por manter um horário bem preenchido o que devem fazer os pais? “É importante que alertem os filhos. Devem perguntar-lhes se é isso que realmente querem, confrontando-os com a situação e explicar que não vão ter tanto tempo para brincar”, aconselhou.
No caso de Marta, é ela gere o seu programa de tempos livres consoante as suas próprias necessidades. No ano passado, era ainda mais extensa a lista de actividades extracurriculares.
Ao todo eram uma dezena, teve que deixar algumas pelo caminho, como o folclore, cujo horário estava sobreposto com outro passatempo. “Como entrei para o 6º ano, tornou-se mais difícil, porque preciso de mais tempo para estudar e desisti de algumas”, contou.
Administrar tantas actividades com os afazeres escolares pode parecer impossível para uma jovem de 11 anos mas, segundo a aluna da EPM, é apenas uma questão de hábito e de vontade. Quem corre por gosto não cansa.

TV e consolas só com os pais

Num mundo em que as novas tecnologias estão a mudar os hábitos do quotidiano, as crianças também não escapam a este fenómeno. Não é nova a preocupação com o facto de os mais pequenos trocarem as pracetas e o ar livre pelo interior das casas. Os berlindes e os piões foram substituídos pelos “joysticks” das consolas de jogos, bem como pela televisão.
De acordo com a psicóloga Goretti Lima, há uma maneira de tornar esta situação mais vantajosa para a formação das crianças. “Não sou contra a televisão ou os jogos de consola, desde que os miúdos não o façam sozinhos. É muito importante que sejam acompanhados pelos pais, para falarem sobre aquilo que estão a ver, interpretando a história”, defendeu.
Nas palavras da especialista, é essencial que os adultos partilhem nem que seja 15 minutos por dia com os seus rebentos. “Os pais devem brincar com as crianças, lendo um livro ou contando uma história.”
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Sociedade civil em Hong Kong atenta aos espaços verdes

Os guardiões das árvores

Desde que um dos ramos principais da icónica “Árvore dos Desejos” de Hong Kong se partiu há dois anos, os residentes da selva de cimento começaram a perceber que até mesmo as árvores de grandes dimensões podem ser de uma enorme fragilidade. Enquanto o Governo continua relutante em criar novos dispositivos legais para proteger as árvores, os ambientalistas decidiram criar bases de dados para que a população possa ajudar a preservar o tesouro verde de uma das cidades mais densamente povoadas do mundo.
As reivindicações por uma lei de protecção abrangente em relação a esta matéria subiram de tom quando uma figueira-de-bengala de duzentos anos no Parque de Kowloon ficou com o tronco parcialmente danificado durante uma forte ventania em Agosto passado. C.Y. Jim, professor de Geografia da Universidade de Hong Kong e especialista em árvores, entende que a construção de um campo de futebol nas imediações, há cerca de uma década, danificou as raízes da figueira-de-bengala, que deixaram de ter acesso à água, o que foi prejudicando lentamente a saúde da árvore.
O Departamento de Serviços Culturais e de Entretenimento (LCSD, na sigla inglesa) gere, em simultâneo, o espaço de lazer e a árvore moribunda. Os responsáveis recusaram a hipótese de uma intervenção no campo de futebol e insistiram que desde o início deste ano que começaram a prestar uma atenção especial à figueira-de-bengala, depois de uma anormal queda de folhas, argumentando não ser da sua responsabilidade se esta não resiste a uma tempestade tropical.
Depois deste episódio, foi criado um grupo de especialistas para tentar salvar as árvores moribundas, mas os estragos parecem ser irreversíveis, não obstante todos os esforços que possam ser feitos.
O LCSD é responsável pela maioria das árvores que se encontram nos espaços públicos de Hong Kong. Neste momento, existem nove equipas de conservação que reúnem, na totalidade, 110 membros, e que têm como tarefa ajudar à preservação de 720 mil árvores espalhadas pelo território. Em 2001, foi criada um base de dados relativa às árvores ao cuidado do departamento público, onde se incluem informações como as espécies, peso, diâmetro do tronco, características e condições de desenvolvimento.
Depois da queda da árvore do Parque de Kowloon, e não obstante o LCSD ter negado qualquer responsabilidade em relação ao incidente, chegou-se à conclusão de que as mais de 700 mil árvores requerem um número maior de recursos humanos que possam ajudar nos trabalhos de preservação.
Enquanto o departamento público continua a trabalhar numa proposta detalhada em relação à possibilidade de entregar a manutenção das árvores a outras entidades, as organizações ambientalistas começaram já a desenvolver projectos de voluntariado com vista a sensibilizar a população para a necessidade de preservação dos espaços verdes, acções que têm como objectivo final criar uma enorme de rede de monitorização das árvores do espaço urbano.
Criada em Abril do ano passado, a Associação “Tree Lovers” esteve entre as primeiras organizações a lançar campanhas de conservação das árvores, na tentativa de conquistar a participação activa dos residentes. Desde então, tem organizado palestras em que são dadas pistas para que a população possa ajudar a identificar problemas nas árvores e lançou uma iniciativa anual, o Dia dos Amantes da Árvores, realizada no mês de Dezembro, de modo a passar a mensagem a um maior número e pessoas.
As pessoas que participam nas conferências passam a fazer parte do grupo de “Tree Lovers” e entrarem em contacto com o escritório da associação se detectarem problemas em árvores, qualquer que seja a sua localização. A organização entra imediatamente em acção: se o caso for urgente, é de imediato comunicado ao LCSD e, se se considerar necessário, denuncia-se o problema junto dos órgãos de comunicação social. Entretanto, os membros da associação de conservação vão inserindo os detalhes relativos às árvores numa base de dados, que será tornada pública, dizem, quando houver um conjunto de informações razoável.
No final do mês passado, mais de 400 residentes tinham já aderido ao grupo. Para Ken So, um dos responsáveis da direcção, a resposta é muito positiva. “Os problemas nas árvores centenárias de Hong Kong são muito recentes. Esperamos conseguir recolher o maior número de informações para que possam ser comparadas com os dados do LCSD, complementando o trabalho que está a ser feito pelo departamento”, explica.
A associação está também a trabalhar no sentido de se criar uma legislação uniformizada sobre a protecção das árvores. “Embora muitas delas sejam espécies protegidas, muitas outras não têm qualquer protecção”, alerta. “Nos terrenos privados, as árvores centenárias podem ser derrubadas sem que ninguém possa actuar. Esperamos que este quadro possa ser alterado em breve.”
Com um trabalho diferente da associação de conservação, uma outra organização, a “HK.Loves.Tree” opta por enfatizar a interacção entre as pessoas e as árvores, usando uma estratégia diferente. Resultante do esforço conjunto entre a fundação de beneficência da NWS Holdings (a empresa mãe da NWFF de Macau e operadora local de autocarros públicos) e a Green Power, este programa pretende captar a atenção da população mais jovem, logo a partir da infância, tendo ainda criado também uma base de dados que se pode ser consultada pelos residentes.
O facto de ser financiado pelo sector privado permite aos impulsionadores do programa desenvolver outro tipo de actividades e chegar a um maior número de pessoas. Para o primeiro ano de actividade, a “HK.Loves.Tree” vai enfatizar as árvores mais características do território – a figueira-de-bengala – através de uma série de concursos e programas educativos junto das escolas primárias e secundárias de Hong Kong, sendo que está ainda planeada a eleição da figueira-de-bengala preferida da população local. Uma equipa de voluntários constituída por trabalhadores da NWS deslocou-se aos principais parques da cidade para aprender mais sobre as árvores e os cuidados de que necessitam.
Mancy Chan, gestora de Relações Públicas da Green Power, explica que a figueira-de-bengala se tornou um ícone de Hone Kong devido ao seu porte imponente e à relação que as pessoas desenvolvera com a árvore. “Quase que podemos chamar às figueiras-de-bengala a árvore da cidade. É muito comum na ruas e é um ponto de encontro para os grupos de pessoas mais idosas. Estão ainda ligadas à vitalidade e são um símbolo da capacidade de adaptação dos residentes de Hong Kong.”
Depois do caso da “Árvore dos Desejos”, conta Mancy Chan, as pessoas tornaram-se muito mais sensíveis às questões relacionadas com os espaços verdes da cidade. “Durante os festivais, em que é pendurada iluminação nas árvores, recebemos telefonemas de pessoas preocupadas com os possíveis estragos que as luzes podem provocar”. A base de dados que está a ser criada inclui informações apenas sobre as figueiras-de-bengala, sendo que o alargamento a outras espécies deverá ser feito dentro de dois ou três anos.
O departamento governamental responsável pela questão diz acolher bem as intenções das associações ambientalistas em relação à criação de bases de dados e garante estar disposto a trabalhar em conjunto para que os padrões de conservação das árvores seja elevados. Ainda não se conseguiu perceber se as bases de dados não oficiais são uma ajuda efectiva, sendo certo, por outro lado, que muitos dos problemas que afectam as árvores centenárias não são visíveis a olho nu.
A equipa de peritos do LCSD utiliza uma série de equipamentos para inspeccionar as condições de saúde das árvores. Uma vez que todos os nutrientes se encontram nas camadas mais profundas, uma árvore pode parecer perfeitamente saudável e ter uma cavidade interior a ocupar 90 por cento do tronco. Um destes exemplos é uma nogueira de iguape localizada junto a um mercado em Kennedy Town. Noutros casos semelhantes, o LCSD colocaria uma estrutura em madeira para apoiar a árvore mas, neste caso, um outro departamento governamental, que gere o mercado, rejeitou a ideia argumentando que iria bloquear o acesso ao espaço de venda de produtos. “Estamos a avaliar a situação”, comentou, sem mais pormenores, um porta-voz do LCSD.
Kahon Chan, em Hong Kong,
com Isabel Castro

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Música na Escola Portuguesa de Macau

Programa musical da Escola Portuguesa de Macau

Música para a vida

A lição do dia está já escrita no quadro. Pessoas de palmo e meio entram em reboliço pela sala de aula adentro. Neste espaço da Escola Portuguesa de Macau (EPM), os instrumentos musicais, CDs e pautas substituem os cadernos, lápis e canetas. É a música que comanda o programa curricular.
A disposição dos alunos é um hino à vivacidade e à alegria. “Não têm que ir buscar nada?”. Foi o sinal da mestra. Meninos e meninas saltam das cadeiras. A pouco e pouco, vão saindo da pequena sala de arrumações a carregar o instrumento que vão usar durante os 45 minutos de duração do ensaio.
O tamanho do xilofone de Noel não lhe permite regressar à carteira. Instala-se no corredor entre as mesas. Sentado num degrau, não desprega o olhar das lâminas. “Aprendi a tocar há três anos”, explica, hipnotizado com o xilofone. “Não é difícil. Primeiro a professora ensina-nos as notas e também temos a ajuda das cores”, vinca. Cada fatia de madeira do instrumento tem uma bolinha colorida.
O aluno de 10 anos faz parte do grupo dos elementos mais velhos da Orquesta Orff. Na verdade, Noel é um resistente. “Estranhamente, a maior parte dos miúdos abandona o grupo quando entra para o quinto ano”, explica a professora de música da EPM, Paula Balonas. O aumento do número de disciplinas e do volume dos deveres escolares pode ser uma das razões do êxodo.
“Esta iniciativa foi criada em 2005, mas todos os anos temos um conjunto novo de elementos. Isto dificulta a situação, porque podíamos estar a trabalhar três peças de uma dificuldade incrível e assim ficamo-nos pelo mais básico. É uma questão difícil de gerir”, lamentou a responsável.
Oito dos 20 alunos que este ano formam o grupo são novatos. “São uns heróis quando querem, quando não querem são uma desgraça”, brinca a professora. Juntamente com a Banda da Escola, a mini orquestra esgota as actividades musicais do estabelecimento de ensino em língua portuguesa. A estas crianças cabe-lhes a responsabilidade de colorir com música as festas escolares.
É a primeira vez que as três famílias de instrumentos do grupo musical se juntam para ensaiar o repertório surpresa que está a ser preparado para a Festa de Natal, agendada para dia 8 do próximo mês. “Flautas, percussão e lâminas tocam em separado 45 minutos por semana”, contextualiza a professora.
A missão não é fácil de cumprir, por isso, há que lutar contra o tempo para tocar sem desafinar. “Rabinhos para trás, costas direitas e queixo levantado”, são as indicações da mestra para o grupo dos instrumentos de sopro. “A segunda parte da pauta as lâminas não sabem, por isso tocam só as percussões”, avisa.
Faz-se silêncio. Paula Balonas inicia a contagem ao mesmo tempo que estala os dedos. Inês segura um sininho em cada mão e segue a professora com máxima concentração. É o “tlim” do seu instrumento que abre a melodia. As flautas são o naipe que entra mais tarde.
De vez em quando, Matilde perde-se do grupo. Uma carteira atrás, a irmã mais velha, Inês, está atenta. Aproxima-se com a flauta nos lábios para orientar a menina de sete anos. “Ela tem os dedos pequeninos e tem dificuldade a tapar os buraquinhos”, explicam os colegas.
O problema não se resume, contudo, a este tipo de desproporção. “A Matilde ainda não sabe ler todas as notas. Conhece o sol e depois perde-se, é normal”, notou Paula Balonas. No primeiro ciclo, os estudantes só começam a aprender a ler a pauta no terceiro ano de escolaridade. Matilde ainda está na segunda classe.
O programa curricular da escola primária reserva 90 minutos por semana à educação musical. No primeiro ano, as crianças começam a ser sensibilizadas para a música, desenvolvem o controlo da expressão corporal e a psicomotricidade. A professora senta-se ao piano e os alunos têm que se movimentar consoante o ritmo da melodia. Mal conseguem suster as gargalhadas tal é o divertimento.
No ano da Matilde, inicia-se a aprendizagem do ritmo, bem como alguma execução instrumental, muito baseada na imitação. Na terceira classe, os pequenos começam a conhecer a flauta bisel, algumas partes de melodias e as notas musicais. Com o primeiro período lectivo quase terminado, a turma da mana mais velha, Inês, Vanessa e Ana Catarina já sabe de cor e salteado que nas cinco linhas da pauta quem manda é a “mãe” clave de sol, que tem sete filhos. “Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si”, dizem todos os alunos em uníssono.
“O sol começa na casa da mãe e tem um irmão com quem se dá muito bem que é o mi e que mora na última linha. Com o sol e o mi já podemos fazer uma canção”, exclama Paula Balonas. Antes das flautas entrarem em acção, as indicações do costume. Soprar “tututu” e fazer força nos dedos. No fim da melodia, todos inspeccionam os dedos uns dos outros.
“Têm bolinhas? Perfeitas e redondinhas?”, questiona a professora. Se sim e desafinaram, então o mal é do ar a mais. “Se não é dos furinhos é do ar”, sentencia.
No último ano do primeiro ciclo os alunos já fazem música na verdadeira acepção da palavra. Tocam outros instrumentos, criam repertórios e começam a perceber como é construída uma melodia.
Para Paula Balonas, a educação musical é um dos melhores meios para ensinar e transmitir conhecimentos. “É uma linguagem muito abrangente e um excelente recurso como facilitador de aprendizagem. Um poema ou uma canção decoram-se sem tanta dificuldade se for a cantar”, defendeu a professora.
Além do desenvolvimento da capacidade de psicomotricidade, visto que as crianças têm que aprender a coordenar as duas mãos para tocar a maioria dos instrumentos, a música contribui para a formação do indivíduo. “É uma preparação para a vida, porque promove a criação do sentido de responsabilidade, solidariedade, cooperação e respeito no convívio com os outros. A amizade ganha um significado importante num grupo musical, porque cada bom resultado é uma alegria”, sublinhou.
Ao longo das aulas, a professora gosta de “espicaçar” os seus pupilos, para os motivar. “Eu digo que estão péssimos, mas não é bem assim. Eles só têm quatro aulas e fazer melhor é impossível, mas quero obrigá-los a provarem a si mesmos que são capazes de melhorar”, notou.
O orgulho em fazer tudo bem acaba por ensinar o valor do trabalho, que é compensado com os aplausos do público. “No fim das apresentações nas festas da escola, quando eles saem do palco perguntam-me sempre: ‘Foi bem Paula?’. E estão sempre à espera que eu diga que sim. É muito giro.”
A Orquestra Orff surge como um complemento àquilo que é ensinado nas aulas. O conceito deste tipo de grupo baseia-se num método pedagógico criado por Carl Orff. Os elementos das três famílias de instrumentos possibilitam que qualquer pessoa possa fazer música sem pertencer a uma verdadeira orquestra. O xilofone, os pratos ou os reco-reco, por exemplo, não exigem um estudo intensivo para produzir uma melodia do princípio ao fim.
Ao longo do ano lectivo, os alunos de Paula Balonas vão experimentar e aprender os três tipos de instrumentos. O objectivo é desenvolver as várias capacidades que cada um impõe. Quem sabe se, no segundo período lectivo, em Janeiro, Inês não vai trocar os sininhos pelo xilofone de Noel ou pela flauta de Matilde.
Alexandra Lages

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O segundo mandato de Ruben Cabral, FIMM com Maria João Pires, À tarde com poesia

Ruben Cabral assume novo mandato à frente do Instituto Inter-Universitário de Macau

Dar a volta ao texto

O responsável máximo de uma das instituições de ensino mais respeitadas de Macau é um homem que quer viver à frente do seu tempo. Ruben Cabral é o reitor do Instituto Inter-Universitário de Macau (IIUM), uma entidade criada por uma fundação detida a meias entre a Universidade Católica Portuguesa e a Universidade de Macau.
No IIUM tira-se partido do ensino moderno e modular, onde o que se quer é a interdisciplinaridade e transdisciplinaridade nos cursos. “É o futuro, que já está a acontecer”, diz Ruben Cabral em entrevista. Para o reitor, os professores querem-se “móveis” e, numa questão de dias, o seu instituto cria licenciaturas e mestrados. Tudo porque o corpo docente é maioritariamente “não-residente” e os módulos transdisciplinares permitem uma economia de recursos humanos a pensar na qualidade.
Ruben Cabral é hoje reconduzido no cargo de reitor. Está em Macau há cinco anos e não vê problemas em lado algum, apenas desafios. Sobre a sua instituição, considera que há muito a fazer, tudo, porque “não se deita sobre louros”.
Quando Ruben Cabral chegou a Macau, foi incumbido de criar cursos e desenvolver o IIUM. “O meu trabalho foi criar uma série de cursos, tanto a nível de licenciatura, como de mestrados e de doutoramentos, que respondam às necessidades do mercado da educação e da escolaridade, que são comodidades como outras quaisquer”.
Hoje, não esconde a satisfação de ver no IIUM uns 700 alunos, numa altura em que a instituição chegou ao equilíbrio financeiro e atingiu o ponto de massa crítica a que se dispôs: “A época de investimento abrandou, este ano atingimos esse ponto que é fulcral no desenvolvimento de qualquer organização. Entretanto as obras do novo campus já começaram, na Ilha Verde, porque não queremos sair de Macau, e é onde havia terreno”.
O novo campus promete ser uma pequena revolução: “As salas de aula saem das paredes, ficam suspensas, quero uma universidade aberta para a comunidade e não fechada sobre si própria. Isso representa a postura da nossa universidade, não existimos dentro de portas, mas fora delas”.
O edifício é fruto de uma parceria com o Instituto de Tecnologia de Tóquio. Os alunos de arquitectura do instituto desenvolveram o projecto do novo campus.
Com o novo campus chega também um novo curso de Design Industrial: “Vamos também entrar a sério, através de parcerias, no mundo das artes. Tentar desenvolver parcerias, com quem quiser trabalhar connosco. Podemos oferecer cursos, dar coberturas académicas ao que já exista. Estamos à espera de lançar um curso de Design industrial, para a indústria, para os interiores.”
O novo campus terá capacidade para 2800 alunos, mas Ruben Cabral quer ficar-se pelos 1800 ou dois mil. “Esta é uma universidade de investigação, nós queremos ter sempre um número reduzido de alunos e recrutar, anualmente, cerca de 35 estudantes por curso. É, portanto, uma universidade selectiva”, afirma.
O IIUM tem mais de dez licenciaturas e 15 mestrados, além de seis programas de doutoramento. Para o reitor, “o que nos interessa é ter uma universidade de excelência, nós competimos contra nós próprios e não contra nenhuma universidade, vemos o nosso papel em Macau sempre como um papel de complementaridade, não competimos em cursos, os que existem nas outras universidades nós não abrimos aqui, quando o fazemos é sempre para complementar qualquer lacuna que possa existir no panorama geral académico de Macau”.
A nova fase que a RAEM atravessa, a do desenvolvimento económico, é um sinal positivo para se mexer com o sistema de ensino local. É aqui que Ruben Cabral “puxa dos galões” adquiridos nos seus mais de 20 anos nos Estados Unidos, depois de se ter formado em Educação e ter trabalhado na área da educação comunitária, assim como em Portugal, na Universidade Católica. Ao todo, há trinta anos que “anda nisto”.
“O problema de Macau é o das civilizações, de todos, é o problema da qualificação das pessoas. Temos imensas razões para fazer mais, não estamos bem, não podemos descansar, mas estamos tão mal ou tão bem como outros lugares. Não há razão para entrarmos em agonia, mas há que mexer depressa”.
Este homem declaradamente positivista, que prefere a palavra “desafio” ao termo “problema”, defende que a qualificação das pessoas é a chave para os problemas do território. “O que aconteceu nos últimos tempos em Macau e que tem criado uma certa ansiedade é que estamos numa região do mundo onde o futuro está a acontecer. Nos últimos cinco anos houve desenvolvimentos económicos, com todas a implicações sociais tremendas para a pacatez que era esta terra, e isto é positivo porque dá um sentido de urgência às sociedades. Macau tem de reagir, há coisas a funcionar relativamente bem, outras menos, mas desde que haja algumas pessoas a liderar o resto acaba por ir.”
O período de grandes alterações que Macau tem atravessado terá, para o reitor, repercussões naturais. “Vão processar-se mudanças curriculares e em Macau vê-se o esforço que está a ser feito para a requalificação de professores e para mudança dos currículos. O desafio que existe é saber quem vai dar essas aulas. Um professor terá de reeducar-se praticamente desde o início, vai ter de aprender a pensar de outra forma e olhar para a sua área científica de maneira diferente.” Esse mesmo professor, acrescenta o reitor do IIUM, terá de “começar a ler, a estudar, a pensar e sobretudo a questionar-se. É um processo simples, mas moroso, nunca mais acaba, mas sem começar nada muda.”
Ainda sobre Educação em Macau, entende Ruben Cabral que o papel da Região bem podia ser o de um centro académico para o mundo interessado na China e na Índia. “Macau tem uma potencialidade tremenda para ser um centro académico, tremenda! Muita gente diz que há imensas universidades em Macau, no entanto, não acho que seja suficiente. Não o digo em termos de número, mas há muito espaço em Macau”.
Tudo porque o futuro está, claramente, nesta região: “A China neste momento é talvez um dos fulcros do desenvolvimento a nível mundial em todas as esferas, não só na questão industrial, mas económica, financeira, social, política, de tudo e mais alguma coisa. A Índia e a China, toda esta parte da Ásia e, obviamente, Macau, que sendo o que é, uma cidade com condições bastante boas, tem todas condições para que, por exemplo, as pessoas que vêm das Américas e da Europa, possam estudar aqui.”
O reitor estuda hoje mais do que há vinte anos, para perceber as tendências, entender o mundo em que vive e oferecer o que acha ser a resposta certa no momento certo. Tenta mesmo “antecipar-se” às necessidades, uma forma de responder aos desafios. Mostra o lado prático de um académico habituado a fazer contas e a gerir o seu “reino”. “O saber é cada vez mais fundamental. Saber não é saber coisinhas. A ciência vive da ignorância, vive daquilo que não se sabe.”
Joyce Pina
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn


Maria João Pires na despedida do FIMM de 2007

A música que não se explica

Toca Mozart desde os sete anos. Nos últimos tempos, tem estado menos presente. Mas é com Mozart que vai subir, hoje à noite, ao palco do Centro Cultural de Macau. Com Beethoven também. A casa vai estar cheia, o que não espanta. É o melhor concerto da temporada, por umas mãos que dispensam apresentações. Maria João Pires tem a identidade definida há muito tempo.
Houve um concerto que ficou na memória do território, já lá vai um quarto de século. A pianista, que hoje se apresenta com a Orquestra de Macau, no encerramento do Festival Internacional de Música, confessa que as recordações desses tempos são bastante vagas. Foi um período de muitos concertos, muito trabalho, a memória confunde-se.
As recordações de Macau são outras, mais pessoais. “Lembro-me que vim muito a Macau nessa altura porque queria encontrar alguém que ainda tivesse conhecido o meu pai, que viveu cá durante muitos anos”. Mais de metade da vida, precisa. “Eu própria não o conheci, estava muito interessada em ver se ainda havia alguém, mas não encontrei ninguém”. Destes laços afectivos nasce um carinho especial, reforçado pelos amigos que cá tem.
Quem tiver comprado atempadamente bilhete para o concerto desta noite, sabe o que pode encontrar. Aquilo que “se espera de um concerto, que é ouvir música”, resume. É que a música não se explica, “a emoção musical é difícil de descrever, porque é uma emoção diferente” de todas as outras.
Sobre os músicos que a acompanham, e com quem já ensaiou, Maria João Pires diz que a orquestra tem um alto nível de qualidade, que em nada fica a dever às outras. Quanto a Beethoven e a Mozart, não são os favoritos mas também não deixam de o ser. “É difícil dizer quais são os predilectos”, mas como são os compositores que hoje vai interpretar, assegura, serão aqueles de que vai gostar mais esta noite.
A pianista que diz ter uma visão pessimista em relação ao mundo actual e ao futuro do ser humano, e que, por isso mesmo, tenta com o seu trabalho combater as causas da falta de optimismo, parte daqui para Tóquio e depois estará em Hong Kong, nesta digressão por terras do Oriente.
Na passagem por Macau, defende que seria muito importante que as artes fossem introduzidas na vida quotidiana das pessoas. Principalmente nos dias das crianças, nas escolas, para que pudessem, através da imaginação e da criatividade que só as artes despertam, descobrirem quem são e seguirem o caminho que realmente querem. Maria João Pires não é só uma virtuosa. Há mais de duas décadas que partilha a arte com os outros. É a pedagogia da música.
Natural de Lisboa, Maria João Pires tocou pela primeira vez em público aos 4 anos de idade. Um ano depois, deu o primeiro recital. Entre 1953 e 1960, estudou no Conservatório Nacional de Lisboa com o professor Campos Coelho, tendo frequentado também os cursos de Composição, Teoria e História da Música com Francine Benoît. Os estudos prosseguiram na Alemanha, primeiramente na Academia de Música de Munique, com Rosi Schmid, e depois em Hanôver, com Karl Engel.
O reconhecimento internacional de Maria João Pires aconteceu com o Primeiro Prémio do Concurso do Bicentenário de Beethoven, em 1970. As suas estreias em Londres, na década de 1980, foram entusiasticamente aplaudidas pela crítica. A partir daí, não parou. Os palcos espalham-se por todos os continentes e os concertos são dos mais variados formatos.


Associação lança primeira revista de poesia on-line de Macau

Palavras ao entardecer

É um convite à contemplação da palavra, um momento para ouvir, absorver, reflectir. A Associação de Estórias em Macau (AEM) promove, na próxima terça-feira, uma sessão de poesia que conta com a presença de três escritores australianos. É uma troca de poemas entre Macau e a Austrália, que servirá também para apresentar a primeira revista on-line de poesia do território, uma iniciativa dos escritores que integram a AEM.
Adam Aitken, Peter Bakowski e Carolyn van Langenberg são os convidados da organização para a apresentação da poesia que escrevem em língua inglesa.
Peter Bakowski, distinguido em 1996 com o prémio Victorian Premier's Poetry Prize, pelo seu livro “In The Human Night”, é o escritor residente do programa Asialink, uma novidade do departamento de inglês da Universidade de Macau.
Quanto aos poetas locais, de acordo com as informações disponibilizadas pela AEM, a sessão será preenchida com as obras de Yao Jingming (poeta que assina com o nome Yao Feng), Lili Han, Elisa Lai, Li Ying, Agnes Vong e Amy Wong.
Com um pé na RAEM e outro na Austrália está o anfitrião do final de tarde com poesia, o australiano Christopher (Kit) Kelen, professor de Escrita Criativa na Universidade de Macau ao longo dos últimos sete anos. No dia seguinte, quarta-feira, os poetas da Austrália e de Macau atravessam a fronteira para uma sessão semelhante a realizar na Universidade Unida Internacional, em Zhuhai.
A declamação de poemas coincide com o lançamento da revista on-line em língua inglesa “Poetry Macao”, que poderá ser acedida em www.geocities.com/poetrymacao. Porque o primeiro número será lançado aquando do encontro com os escritores australianos, a tónica forte da revista vai, precisamente, para a cooperação entre Macau e a Austrália no domínio das palavras em forma de verso.
No primeiro editorial, o responsável pela coordenação do projecto, Christopher Kelen, explica que Novembro é o mês que coincide com o início do projecto Asialink em Macau, com a colaboração da Universidade de Melbourne e a presença, em Macau, de Peter Bakowski na condição de escritor residente.
“O número de estreia da “Poetry Macau” enfatiza, assim, o trabalho de Bakowski, bem como de outros poetas australianos com fortes ligações à Ásia Oriental”, diz Kelen.
Na primeira edição da revista, os interessados neste género literário poderão ainda ler trabalhos do poeta chinês Ouyang Yu, professor de literatura australiana na Universidade de Wuhan, e de Alan Jefferies, um escritor que residiu, por um longo período, em Hong Kong, e que regressou recentemente a Queensland.
As participações locais na publicação electrónica ficam a cargo do grupo de novos talentos de Macau que participaram num projecto de escrita criativa conduzido por Christopher Kelen e Yao Jiming. Agnes Vong, Amy Wong, Hilda Tam, Jenny Lao, Lili Han e Elisa Lai têm obras publicadas pela Associação de Estórias em Macau. Na revista on-line são reproduzidos alguns dos poemas que constam das edições em papel.
A AEM é a responsável pela publicação, até ao momento, de 18 volumes de poesia e prosa, tanto clássica como contemporânea. Este ano, foram lançados seis livros, em Junho passado (ver caixa), numa iniciativa conjunta com a Livraria Bookachino.
Para 2008, estão já planeadas novas edições bilingues (em inglês e chinês), bem como uma edição trilingue (com a inclusão da língua portuguesa) de uma antologia de poesia de Macau, adianta Kelen no editorial da revista. Será a primeira vez que a poesia do território poderá ser compreendida por quem lê apenas em língua inglesa, destaca o professor universitário.
Christopher Kelen diz ainda que, com a “Poetry Macao”, a Associação de Estórias de Macau pretende criar um veículo para a tradução de poesia, do chinês para o inglês e vice-versa. “É uma forma de envolver o leitor no diálogo sobre as questões da tradução e no intercâmbio cultural”, sustenta o responsável. É a descodificação e partilha de diferentes contextos culturais através da palavra escrita.
Isabel Castro



quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Barbatanas na Taipa, Estudar mandarim e cantonês em Macau

Equipa de Macau na luta por um lugar próprio na piscina

Barbatanas acabadas de estrear

Nove adolescentes fazem exercícios de aquecimento no átrio do edifício da Piscina Olímpica da Taipa. É o segundo dia de preparação para os 2.os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto (JARC), que começam no dia 26 deste mês, e o treinador traz uma novidade – barbatanas novinhas em folha e com as medidas adaptadas para competição. “Foram compradas por mim na China”, contou ao Tai Chung Pou o técnico principal da selecção de Macau da modalidade de natação com barbatana, Anthony Soleyn Cochrane.
São de cor preta e bastante pesados os equipamentos que vão unir os pés dos nadadores dentro da piscina. “Têm cerca de cinco quilos e custam cinco mil patacas cada uma do outro lado da fronteira”, acrescentou o treinador.
Na natação com barbatana, os atletas não movimentam os membros superiores e inferiores, usando apenas a força muscular. Os braços cortam a água sempre esticados e unidos e o mesmo acontece com os pés, que são calçados numa mono-barbatana.
A técnica parece ter sido roubada às sereias. Os corpos dos praticantes ondulam a uma velocidade espantosa. A cabeça fica dentro de água e os atletas respiram por um tubo. Ao chegar ao fim do percurso, a barbatana embate nas paredes da piscina quebrando em baques o silêncio da instalação desportiva.
A notícia da participação nos JARC chegou há pouco mais de duas semanas. Assim que foi informado pelo Comité Olímpico da RAEM, Anthony Cochrane pôs logo mãos à obra. Afinal, esta é uma oportunidade única para promover a disciplina e atrair mais adeptos.
Não se pense, contudo, que o responsável do Clube Subaquático de Macau (CSM) foi apanhado desprevenido. “Quando, no ano passado, se soube que a natação com barbatana tinha sido incluída na segunda edição dos JARC, comecei logo a levar os nadadores todos os fins-de-semana para a piscina de Zhuhai”, contou.
“Temos muita sorte em ter a oportunidade de participar no evento desportivo, porque, de outra forma, não conseguiríamos arranjar instalações para treinar”, acrescentou uma das treinadoras, Viena Ng. A maioria dos jovens da formação que vai defender as cores da bandeira da RAEM já salta para a água de barbatanas calçadas há dois anos. Dada a indisponibilidade de infra-estruturas desportivas, o CSM foi obrigado a recorrer às piscinas dos hotéis Hyatt e Mandarin Oriental, ou até às águas das praias de Coloane.
Na natação tradicional, o grupo de seis rapazes e três raparigas com idades compreendidas entre os 13 e 17 anos já percorreu muitas piscinas. Na disciplina em que está em causa a competição, a história é outra.
“Estes jovens têm pouca experiência e é a primeira vez que participam num evento desta natureza”, frisou Anthony. Os primeiros mergulhos não são nada fáceis. Além das barbatanas, os praticantes devem usar um tubo de respiração. É preciso aprender a técnica para expulsar a água do tubo e puxar oxigénio. O efeito é igual ao repuxo das baleias.
Para facilitar o processo de adaptação ao equipamento, os atletas começam por utilizar barbatanas separadas, parecidas com aquelas usadas no mergulho desportivo. Os pés devem ser protegidos com meias e só entram nos “sapatos aquáticos” à custa de muito sabão.
Relativamente aos movimentos corporais, são semelhantes ao estilo mariposa. A partir do momento em que se domina a técnica, mais do que nadadores, os praticantes sentem-se autênticos peixes. “Ou sereias, no caso das raparigas”, afirma entre sorrisos Viena Ng.
Lam Chon U e Wong Kaiat são dois atletas que vão disputar as provas em masculinos. Ambos com 16 anos de idade, só descobriram a natação com barbatana há um ano. Quando descrevem a disciplina, transpiram entusiasmo. “É muito rápido! Mesmo que sejam distâncias curtas, sentimos que nadámos muito mais”, exclamaram.
O sonho de Lam é “nadar até à final”, mas o colega de equipa é mais cauteloso. “Não quero ficar entre os últimos lugares. Vou dar tudo por tudo para acabar a competição com a máxima perfeição possível”, prometeu.
As atletas já trouxeram algumas medalhas para o território. Num torneio que teve lugar em Hong Kong, em Novembro do ano passado, duas nadadoras subiram ao primeiro e terceiro lugares do pódio.
Mesmo assim, nas palavras do treinador principal, a formação ainda está um pouco verde, mas existem grandes probabilidades de progressão. “Acredito que dentro de três anos conseguimos atingir um nível competitivo mais elevado e tenho muita confiança que vamos dar nas vistas nos próximos JARC, em 2009, no Vietname”, sustentou.
Para o evento desportivo que está a ser organizado em Macau e começa dentro de pouco mais de duas semanas, Anthony destaca que o mais importante é a participação e entrar no mundo competitivo com o pé direito. “Começámos muito tarde relativamente às outras selecções e não temos tempo suficiente para treinar”, referiu.
Desde o início do mês, a equipa local começou a desenvolver um programa de preparação na Piscina Olímpica da Taipa, durante cinco dias por semana. “Optámos para dar aos atletas dois dias de descanso. Em primeiro lugar, tivemos em conta que são estudantes e depois os músculos precisam de relaxar. Além disso, o esforço físico que se exige é diferente da natação normal, os praticantes devem ter os músculos das costas e na parte inferior das pernas bastante desenvolvidos”, explicou Viena Ng.
Nos JARC, os nadadores locais vão disputar provas numa piscina de 50 metros. Com as barbatanas calçadas, os atletas completam um percurso de 15 metros em 16 segundos.
Entretanto, os tubarões e sereias de Macau vão estar todos os dias no átrio da Piscina Olímpica da Taipa, a adiantar os exercícios de aquecimento. Energia não lhes falta, pois mal podem esperar para estrear as barbatanas ao som do apito dos juízes.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn



Aulas de cantonês e mandarim em Macau

De tom em tom se aprende a falar

“Ni hao” ou “Nei hou” (Olá!) são das primeiras palavras que se aprendem em mandarim e em cantonês. A língua e o dialecto são semelhantes, variando essencialmente no número de tons, quatro no mandarim (que tem ainda um tom neutro), nove no cantonês, e no número de utilizadores. A língua chinesa é a mais usada em todo o mundo; no caso do cantonês tem mais de 70 milhões de falantes.
Sara Silva, portuguesa, está em Macau há pouco mais de um mês, vinda de Tianjin, perto de Pequim, e domina o mandarim, mas na RAEM deparou-se com o cantonês, constatando que “normalmente é difícil comunicar em mandarim com os mais velhos, mas os jovens quase todos sabem falar porque aprendem na escola, na universidade ou com amigos da China”.
Porque em Macau saber falar mandarim não é garantia de se ser entendido, tem intenção de aprender a língua local. “É muito claro para mim que qualquer variante linguística é importante para o povo que a fala e, como tal, sinto que o facto de me esforçar por falar cantonês é reconhecido e apreciado pelos residentes”, remata. Na escrita, diz, as diferenças são bem mais reduzidas.
Tanto Sara Silva como outros interessados em aprender cantonês ou mandarim encontrarão algumas ofertas na cidade. Existem, pelo menos, seis instituições que leccionam habitualmente cursos para falantes de língua materna não chinesa. O Centro de Difusão de Línguas, o Jingdou Language Center, o Instituto Politécnico de Macau, o Instituto Inter-Universitário de Macau, o Instituto Internacional e a Universidade de Macau são alguns dos locais onde se pode aprender a comunicar em chinês. As ofertas variam, inclusive, no que diz respeito aos preços, que vão desde as 100 às 4800 patacas.
Para David Silva, português a residir em Macau há cerca de dois anos, sempre “pareceu natural que, estando numa terra estrangeira, aprendesse a língua local.” Foi isso que o motivou a inscrever-se num curso de cantonês promovido pelo Centro de Difusão de Línguas (CDL) da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude.
Todos os anos, esta estrutura governamental organiza vários cursos e actividades relacionadas com ambas as línguas, e também com o português, para graúdos e miúdos, nível avançado ou mais elementar. Neste momento, decorrem as aulas de cantonês para adultos na Escola Secundária Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes.
David Silva frequenta, este ano, o nível intermédio, às segundas e sextas-feiras, e mostra-se satisfeito por ter começado a aprender. O curso “deu-me uma compreensão mais alargada da gramática da língua e estendeu o meu vocabulário”, considerando por isso uma grande vantagem. No entanto, os benefícios não ficam por aqui. “Outras vantagens importantes são, por exemplo, proporcionar da oportunidade de contacto regular com a língua, existir um professor que tira as dúvidas que possa ter e, é claro, a avaliação que, implicitamente, empurra para o estudo”, conclui.
No acto de inscrição, feita no 3º andar do número 31, na Rua Formosa, transversal à Rua do Campo, pagou 250 patacas pelo primeiro módulo, sendo que cada nível tem dois módulos, num total de 60 horas. O CDL proporciona também outras actividades, com uma duração mais curta, como por exemplo o Cantinho do Cantonês, a decorrer até início de Dezembro, destinado a interessados com mais de 15 anos.
O Cantinho abre portas apenas às segundas-feiras (excepto feriados), das 18h30 às 20h, num total de 20 horas lectivas. Se o objectivo é dar um passo em frente e iniciar-se apenas na caligrafia chinesa, aprender a utilizar correctamente o pincel e desenvolver com a maior precisão possível os 64 traços básicos para desenhar os caracteres, aqui também encontra mestres que o guiarão nesta arte milenar.

Existem, pelo menos, seis instituições que leccionam habitualmente cursos para falantes de língua materna não chinesa. As ofertas variam, inclusive, no que diz respeito aos preços, que vão desde as 100 às 4800 patacas.
Com a chegada de cada vez mais forasteiros ao território, o Jingdou Language Center, cuja actividade principal é o ensino de inglês há mais de 15 anos, aplica-se também à instrução do chinês, desde 2005, para “ajudar os estrangeiros a obter ferramentas básicas para poderem integrar-se na sociedade local”, explica a responsável de marketing, Dayenne Sipaco. Situado na Rua do Almirante Costa Cabral, o centro usa o inglês para ministrar cursos de iniciação ao cantonês e mandarim, com a propina a rondar as 1.200 patacas. Após 24 horas de aulas durante dois meses, de certificado na mão, as palavras que o aluno ouve na rua irão parecer mais familiares.
No Centro de Formação Contínua e de Projectos Especiais (CFCPE), do Instituto Politécnico de Macau, Luís Lam presta esclarecimentos em português quanto ao curso de mandarim para principiantes estrangeiros. No entanto, avisa que “é preciso ter conhecimentos básicos da língua”, dado ser leccionado, na íntegra, em mandarim, e “assistir a 85 por cento das aulas para obter o certificado final”.
As inscrições estão abertas e mal se agrupem vinte e cinco pessoas, dá-se início às lições. Durante 180 horas, e por um montante global de 4800 patacas, é possível ouvir, falar, ler e escrever mandarim, em horário pós-laboral (18h30-21h30). O local escolhido é o edifício do CEM, na estrada D. Maria II. Não é fácil encontrar a informação destes cursos em Português ou Inglês no site do Instituto Politécnico de Macau, por isso, o melhor é contactar directamente a instituição, mais propriamente o CFCPE. Há também a possibilidade de ministrarem cantonês ou japonês mas, assim como a maioria dos programas cumpridos noutras escolas, iniciam os cursos apenas quando reúnem o número mínimo de inscritos, estando sempre abertos a receber pré-inscrições.
Chama-se Programa de Mandarim, arrancou pela primeira vez em Setembro do ano passado, e é bastante abrangente no que diz respeito às inscrições. Jean Lok, do Centro de Língua e Desenvolvimento Profissional do Instituto Inter-Universitário, no NAPE, frisa que o curso, “além de aprendizagem, é antes de mais uma boa experiência” destinada a “quem tiver idade superior a quinze anos”. Desde que percebam inglês, as portas abrem-se a um novo universo linguístico, do nível elementar ao avançado. O curso realiza-se em três períodos que classificam de Primavera, Verão e Outono. Também a caligrafia chinesa e as festas tradicionais importantes têm o seu lugar nesta disciplina. Actualmente, estão a decorrer cursos de diversos níveis e os seguintes arrancarão em Janeiro do próximo ano.
Para as vinte e três sessões dos níveis I, II e intermédio, num total de 45 horas, o aluno paga 3090 patacas, incluindo materiais de apoio e outras despesas, e frequenta as classes duas vezes por semana, das 19h às 21, havendo também a possibilidade de um horário diurno, entre as 13h e as 15h.
No Instituto Internacional de Macau, também no NAPE, os próximos cursos estão prestes a começar. O nível I abre as portas a partir do dia 16 de Outubro, às terças e quintas, das 18h30 às 20h, prolongando-se até Fevereiro. Também o segundo nível do curso de mandarim terá início neste mês, com a data limite de recepção de inscrições até ao dia 24, e terminará em Fevereiro. Xialing Ren Duncan, com mais de 20 anos de experiência no ensino desta língua, orienta as aulas de hora e meia que acontecem todos os sábados a partir das 11 horas. O primeiro nível do programa, 48 horas, fica por 2400 patacas e o segundo, 21 horas, custa ao aluno 2100 patacas. A língua de ensino é o inglês.
Também no Centro de Educação Contínua da Universidade de Macau (CCE, sigla em inglês) estão prestes a iniciar cursos de mandarim, nível elementar e avançado, a partir do dia 13. Assim como acontece no Instituto Internacional, as aulas elementares realizam-se durante a semana, terças e quintas, e as aulas avançadas ao sábado. O valor da propina varia entre as 2000 e as 2500 patacas, dependendo do nível. Durante 30 horas, aprendem-se as estruturas das frases, falar, ler e escrever, tendo como base a escrita romanizada do chinês (pinyin), conteúdos semelhantes, aliás, nos vários cursos das instituições já mencionadas. O CCE frisa que os manuais e os CD não estão incluídos no preço da propina. Também o cantonês é ensinado na ilha da Taipa, estando prevista a abertura do curso em Novembro, e, na mesma altura, irão divulgar os horários e informação associada.
Para quem não quiser sair de casa, há soluções na internet. No site www.fsi-language-courses.com existem lições virtuais, gratuitas, com fornecimento de manuais e de conversas áudio para treinar o ouvido.

Centro de Difusão de Línguas – 28400615
Jingdou Language Center – 28525149
Instituto Politécnico de Macau – 28317485
Instituto Inter-Universitário de Macau – 7964420
Instituto Internacional – 28751727
Universidade de Macau – 3974545
Sandra Gomes
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn