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quarta-feira, 9 de abril de 2008

Autoridades de Macau dizem estar preparadas para tocha olímpica, Tribunal diz que AMCM não tem razão, Ciclo de cinema no Albergue

Autoridades de Macau dizem estar preparadas para transporte da tocha olímpica

Sagrada chama

A polémica tem acompanhado a viagem da tocha olímpica desde que a chama sagrada foi acesa na cidade de Olímpia, na Grécia. O percurso, que tem como mote “Jornada da Harmonia”, pouco ou nada tem tido de harmonioso. Os portadores da tocha têm sido acompanhados por fortes escoltas policiais, devido aos protestos contra a ocupação chinesa no Tibete.
Uma situação à qual a RAEM pode não escapar. O vice-presidente do Comité Olímpico de Macau (COM), Manuel Silvério, avançou que o transporte do símbolo dos Jogos Olímpicos de Pequim está a ser preparado “há vários meses”, tendo especial incidência nas questões de segurança. Por sua vez, o Corpo da Polícia de Segurança Pública (CPSP) garante que existe mão-de-obra suficiente para o evento. A chama olímpica vai percorrer as ruas de Macau no dia 3 do próximo mês.
“Há uma possibilidade [de surgirem perturbações na passagem da tocha em Macau] e temos uma responsabilidade acrescida depois de termos assistido aos últimos acontecimentos na Europa. Estaremos preparados para qualquer imprevisto”, afirmou Manuel Silvério.
Grupos de manifestantes contrários à política da China para Tibete e em matéria de Direitos Humanos perturbaram o percurso da tocha em Londres e Paris nos últimos dias. A organização do percurso da tocha na capital francesa foi obrigada a cancelar a última parte do trajecto, depois de vários manifestantes terem tentado impedir os atletas de carregar a tocha e apagar a chama com água.
A polícia de Paris referiu mesmo que a tocha olímpica se apagou devido a problemas técnicos. No entanto, a organização dos Jogos defendeu que a chama nunca chegou a ser extinguida.
De acordo com o também presidente da Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa (ACOLOP), existe uma comissão responsável pela organização e preparação de todos os pormenores do transporte da chama olímpica que já se reúne “há vários meses”. O organismo coordenado pelo mesmo responsável é formado por 10 serviços públicos, incluindo todos os sectores ligados à Segurança.
“O plano de segurança já está todo delineado e testado. Tudo faremos para proteger a chama e vamos ter todos os últimos incidentes em conta”, salientou Manuel Silvério.
Os detalhes serão divulgados “mais tarde”, avançou ao Tai Chung Pou o departamento de relações públicas do CPSP. Neste momento, as forças policiais estão a limar as últimas arestas do plano de segurança. Quanto ao número de agentes que serão recrutados para a escolta da tocha, as autoridades apenas adiantam que “existe suficiente mão-de-obra para os trabalhos de acompanhamento da tocha”.
Do outro lado do Delta do Rio das Pérolas, os serviços de imigração de Hong Kong não vão deixar entrar “pessoas indesejáveis” na região. A garantia foi deixada há dias pelo secretário para a Segurança da RAEHK, Ambrose Lee.
Para o transporte do símbolo dos Jogos Olímpicos em Macau, já estão inscritas 120 pessoas, oriundas do mundo do desporto, funcionários, dirigentes e chefias do Governo da RAEM, bem como entidades privadas. Deste conjunto, destacam-se os presidentes de três comités olímpicos de países de língua portuguesa.
Além de Manuel Silvério, o percurso da tocha olímpica em Macau terá como portadores Vicente Moura, Franklim Palma e Marcelino Macombe, respectivamente presidentes dos Comités Olímpicos de Portugal, Cabo Verde e Moçambique. Inicialmente, João Costa Alegre, presidente do Comité Olímpico de São Tomé e Príncipe, e Carlos Arthur Nuzman, líder do Comité Olímpico Brasileiro, integraram também a lista do transporte da tocha, mas tiveram de anular a sua participação por questões de agenda.
A tocha olímpica vai percorrer as principais artérias de Macau, incluindo locais turísticos, e a Taipa. O ponto de partida e de chegada é o mesmo, a Doca dos Pescadores, num circuito com uma extensão de 26 quilómetros e uma duração de oito horas.
Relativamente aos protestos no Tibete contra o domínio de Pequim durante o percurso da tocha, o presidente da ACOLOP reiterou o seu “repúdio pelas ingerências externas” neste evento. “É lamentável tudo o que tem acontecido. Estas organizações internacionais ou pessoas individuais devem respeitar o que está a ser feito à volta da juventude e do desporto.”
O percurso da tocha olímpica continua, desta vez do outro lado do Oceano Atlântico, na cidade norte-americana de São Francisco, onde também já decorreram manifestações contra a China.
Alexandra Lages
Fotografia: Agência Xinhua

Organismo queria retirar todas as regalias a directora-adjunta

Tribunal diz que AMCM não tem razão

O Tribunal de Última Instância (TUI) indeferiu um recurso apresentado pela Autoridade Monetária de Macau (AMCM), num caso que envolve uma directora-adjunta do organismo. A história começou há já alguns anos e envolve o pagamento de regalias que a trabalhadora deixou de ter, por força de uma deliberação do conselho de administração da entidade. O desfecho foi conhecido recentemente: num acórdão datado do passado dia 2, o TUI diz que a Autoridade Monetária não tem razão e explica que o organismo tem que respeitar a posição que o Tribunal de Segunda Instância (TSI) já tinha tomado sobre o assunto. Ou seja, a funcionária tem direito a determinadas regalias, que não lhe podem se retiradas pelo empregador.
A directora-adjunta tinha apresentado recurso de uma deliberação que implicava a perda de regalias que auferia. Destituída das funções de direcção, tinha regressado ao grupo, funções e categoria que detinha antes de ser nomeada mas, segundo argumentou a funcionária, a sua nomeação tinha sido feita a título definitivo, e não numa comissão de serviço. Por isso, sustentou, junto da segunda instância, o carácter efectivo da sua nomeação, considerando que a deliberação em causa tinha violado os seus direitos adquiridos.
A trabalhadora alegou ainda que havia, dentro da Autoridade Monetária de Macau, tratamento diferente para situação igual, uma vez que um outro director-adjunto, que não se encontrava, tal como ela, no exercício de funções de qualquer cargo de direcção ou chefia, tinha continuado a beneficiar das regalias que lhe tinham sido, a ela, retiradas.
O TSI deu parcialmente razão à directora-adjunta e declarou ilegal parte da deliberação da AMCM: mesmo tendo deixado de exercer o cargo, a funcionária tinha direito a receber as regalias referentes à energia eléctrica, água e telefone da habitação. A mesma instância não deu, contudo, razão à pretensão da funcionária no que toca ao parque automóvel, cartão de crédito para despesas de representação, utilização de gabinete individual de trabalho, utilização de telemóvel com chamadas pagas e atribuição de dois jornais diários, pelo que deixou de ter, efectivamente, estas regalias.
A Autoridade Monetária não ficou satisfeita com a decisão do TSI e apresentou recurso jurisdicional à última instância. O tribunal analisou o decidido pela segunda instância, bem como os estatutos da Autoridade Monetária que definem a retribuição mensal efectiva, concluindo que as despesas com o pagamento da energia eléctrica, água e telefone são pagas mensalmente e têm carácter de regularidade e permanência. Porque são prestações em espécie que têm natureza salarial, concluiu o TUI, fazem parte da retribuição mensal efectiva, pelo que a directora-adjunta continua a ter direito a receber o dinheiro referente às despesas com a habitação.
Isabel Castro

Seminário sobre luta contra o aquecimento global

Mais fácil do que se pensa

É tudo uma questão de ideias pré-concebidas, que convém desmistificar. Construir a pensar no ambiente pode trazer vantagens, tanto ao nível operacional como em termos da própria construção mas, para que tal aconteça, há um longo caminho que tem que ser feito. “É preciso construir uma consciência colectiva”, defende Rui Leão, vice-presidente da Associação de Arquitectos de Macau.
De nada adianta a um arquitecto conceber projectos ecológicos, se o construtor não quiser apostar na tecnologia certa ou o cliente não estiver disponível para aceitar uma encomenda ecologicamente respeitadora. Rui Leão assegura que “há esquemas bastante simples e tipos de construção” que permitem reduzir, por exemplo, a emissão de gases que contribuem para a poluição geral do planeta. E desengane-se quem acha que estas novas soluções são mais caras. Pelo contrário, assegura, há contrapartidas económicas imediatas e muitas mais a longo prazo, já para não falar no que realmente interessa: a saúde de toda a gente.
É a pensar na necessidade de se proteger o ambiente enquanto se concebem edifícios que a Associação dos Arquitectos de Macau organiza, no próximo sábado, um seminário sobre o aquecimento global. “É o primeiro deste género que se faz cá”, sublinhou ao Tai Chung Pou o vice-presidente da organização. A ideia é sensibilizar os profissionais da área para a temática. Mas também os outros intervenientes, que acabam por ser todos os residentes.
Organizado com o apoio do Hong Kong Civic Exchange, o seminário “Climate Disruption” vai servir ainda para apresentar um relatório elaborado pela Associação dos Advogados em conjunto com a entidade da antiga colónia britânica que versa, precisamente, sobre a emissão de gases nocivos ao ambiente resultantes do sector da construção.
Para o seminário, que tem início marcado às 14h30, os arquitectos de Macau convidaram Christine Loh, fundadora e directora executiva da Hong Kong Civic Exchange, e Bill Baron, professor do Instituto para o Ambiente da Universidade de Ciência e Tecnologia da RAEHK. A trabalhar no território vizinho desde 1989, este especialista tem sobretudo focado, na sua actividade, as políticas ambientais urbanas.
Além da discussão sobre a situação geral sobre o aquecimento global, haverá um painel de debate relativo às consequências sentidas em Macau. Para esta parte do seminário, a organização convidou o Conselho do Ambiente de Macau para se fazer representar.
A iniciativa da Associação de Arquitectos de Macau terá lugar na sede da instituição, na Avenida Coronel Mesquita.
Isabel Castro

Ciclo de cinema “Oriente-Ocidente” arranca no Albergue da Santa Casa

Luzes, câmara…. Acção!

O cinema é a “satisfação completa do nosso apetite de ilusão”, dizia A. Bazin. Apetite esse que será saciado a partir de hoje, no Albergue da Santa Casa da Misericórdia, com o filme “O Amante”, de Jean Jacques Arnaud, que marca o arranque do ciclo “Oriente-Ocidente”. Até ao dia 7 de Junho, estarão em exibição 15 filmes escolhidos pelo tema e importância no seio da indústria cinematográfica, que contarão com uma pequena apresentação a cargo de algumas figuras emblemáticas da vida artística e profissional de Macau. Hoje será a vez de Carlos Marreiros.
“É criar um precedente que não existe, que leve as pessoas às salas de cinema, criar uma iniciativa com alguma regularidade que constitua uma alternativa aos cinemas de Macau”, explica o realizador Tomé Quadros, um dos responsáveis pela escolha da programação. Os filmes foram “pensados”, não se inserindo apenas no circuito comercial.
Foi a resposta a um repto lançado pelo advogado Frederico Rato. “Foi-nos pedido que se fizesse um ciclo de cinema, utilizando a estrutura da Casa de Portugal, proporcionando alguma reflexão, que levasse as pessoas a aderir à iniciativa, que não fosse muito complexo para que no futuro possa levar a outras iniciativas do género”, conta. Tendo um espaço disponível, como o Albergue da Santa Casa da Misericórdia, tentou-se “partir do geral [o tema Oriente-Ocidente, East meets West] para o particular, abrangendo filmes que são ícones”. Convidaram-se pessoas de diferentes áreas profissionais e artísticas para apresentar cada um dos filmes, de forma a mostrar as “diferentes perspectivas do cinema”. Não se estranhe, por isso, se se vir o médico Alfredo Ritchie a apresentar “O Véu Pintado”, filme realizado por John Curran, cuja personagem principal é um médico de doenças contagiosas a trabalhar em Xangai.
Contente com a iniciativa, a presidente da Casa de Portugal, Amélia António, afirma que não é uma ideia nova. O que é novo é a existência de um espaço, como a Galeria do Albergue da Santa Casa da Misericórdia, que possibilita este tipo de projectos. “Há muito tempo que procurávamos encontrar um núcleo que dinamizasse esta área”, diz. Até porque, “não se pode esperar que sejam sempre as pessoas da direcção a dinamizar tudo”, caso contrário “muita coisa fica por fazer”, remata.
Os apresentadores dos filmes foram escolhidos “por gostarem de cinema” e terem “aptidão” para um tema em particular. Os filmes que se enquadram no tema “Ocidente-Oriente” estão relacionados “com enquadramentos sociais ou históricos” que surgem de um “encontro entre dois mundos”. São, por isso, 15 filmes que têm em comum “esta linha condutora”.
O acesso é livre e gratuito, tendo como único objectivo “o puro entretenimento, convívio e dar uma motivação para o gosto pelo cinema“. Uma iniciativa que vem apresentar ao público dois filmes por semana, às quartas-feiras e sábados, apresentados por personalidades como o arquitecto Carlos Marreiros, o cônsul Moitinho de Almeida, o médico Alfredo Ritchie, o historiador Jorge Cavalheiro ou a presidente do IPOR Maria Helena Rodrigues. Pessoas de Macau que falam sobre o cinema do mundo em que o Oriente se cruza com o Ocidente.
Luciana Leitão

Olhar para o templo de Pak Tai

Aniversário do deus do Norte

No terceiro dia da terceira Lua comemorou-se o aniversário de Pak Tai, conhecido em mandarim por Bei Dii.
As festividades começaram na passada segunda-feira e estendem-se até ao dia 10, sendo o dia 8 o mais importante, quando se realizou a dança do leão e do dragão e os crentes aí se dirigem em maior número. Por isso, ontem dirigimo-nos para a Taipa onde, no largo de Camões, está situado o templo de Pak Tai.
Construído em 1843, sofreu reparações em 1882 e em 1984. Teve um pavilhão central e dois laterais mas, como os custos eram grandes e a população da Taipa não conseguia suportar tais encargos, um dos lados foi arrendado a uma fábrica de tecelagem e o outro pavilhão lateral passou a habitação de uma família. História que vem contada por Leonel Barros no livro “Templos, Lendas e Rituais”. Ficou assim o templo reduzido ao pavilhão central onde, logo na porta de entrada, se encontram caracteres com o mais antigo nome da ilha da Taipa Grande. Na porta de dentro lê-se outro dos nomes por que era conhecida esta ilha. O sino, datado de 1844, é o objecto mais antigo do templo, sendo muito do rico recheio proveniente de 1882. Com três altares, é no central que se encontra a imagem da divindade taoista Pak Tai. Procurando discernir os elementos que a caracterizam, apesar de saber que ela tinha por baixo dos seus pés uma serpente no lado direito e uma tartaruga no esquerdo, assim como segurava na mão direita uma bandeira vermelha com caracteres dourados, nada disso conseguimos ver. As bandeiras vermelhas, com caracteres escritos a preto, encontrei-as nas mãos de devotos que as colocavam na mesa, de frente para o altar, cheia de oferendas como laranjas, bolos e vinho.
Leonel Barros diz-nos ser Pak Tai um príncipe que, com coragem, comandou 12 legiões celestes numa luta contra um Rei-Demónio que pretendia devastar a Terra. “A lenda chinesa que lhe está associada conta que teve de lutar contra uma enorme tartaruga e uma comprida serpente que, no final, acabou por derrotar, derrubando assim o demoníaco soberano.”
Na dinastia Han, as cinco direcções estavam associadas a cinco imperadores e o do Norte era representado por uma serpente enlaçanda numa tartaruga, com a virtude da água e simbolizando o Inverno.
Foi durante a dinastia Song que este deus, o Imperador Preto, começou a ser representado com a imagem de uma pessoa, o segundo Soberano, Zhuanxu, que viveu entre 2513 e 2436 a.C..
Este Imperador-deus é também um dos quatro reis-guardiões do budismo e durante a dinastia Yuan (1271-1368) foi-lhe prestado um especial culto, já que dominava o Norte, de onde esta dinastia era proveniente. Mas só na dinastia Ming ganha um lugar de destaque.
A História conta que Zhu Di, nascido em 1360 e o quarto filho do imperador Tai Zu, o fundador da dinastia Ming, foi nomeado rei de Yan quando tinha 10 anos. Aos 20 anos partiu de Nanjing para governar Beiping, pois as fronteiras do Norte encontravam-se ameaçadas pelo que restava das forças da dinastia Yuan. Em 1390 e após 10 anos de duros combates, derrotou as forças mongóis e conseguiu a rendição do ex-primeiro-ministro e de todas as suas tropas. Devido à necessidade de um grande número de soldados e de uma grande força bélica, Zhu Di conseguiu reunir um grande exército, algo que seu pai tentou que não existisse ao dispor de nenhum dos seus filhos. Em 1398 morreu Tai Zu, sucedendo-lhe o neto Yunwen, que por sua vez era sobrinho de Zhu Di. Yunwen ficou conhecido como imperador Hui Di. Este, consciente da sua posição perante os seus tios, resolveu tirar-lhes a maior parte das suas tropas, enfraquecendo-os. Apenas o príncipe de Yan, Zhu Di, continuou muito poderoso, devido às ainda constantes ameaças dos mongóis vindo do Norte. O então imperador Hui Di, por conselho dos seus ministros e receando a grande força que o seu tio dispunha, envia um grande número de tropas para prender Zhu Di e a sua família. As tropas cercaram Beiping em 1399, mas Zhu Di não se encontrava lá. Zhu Di regressa a Beiping e Zheng He aconselha-o com planos estratégicos como combater o exército de Hui Di. Na batalha de Zhengcunba, Zheng He combateu com muita bravura tendo metade do exército de Hui Di morrido e a outra metade rendido-se. Com o pretexto de combater os preversos da corte que viviam em redor do imperador, Zhu Di marchou para Nanjing com o seu exército. Antes de iniciar esta aventura escuta um mestre tauísta que lhe recomenda, para ter sucesso, pedir a ajuda ao deus Bei Di, o imperador do Norte. Assim, após 4 anos de combates, derrotou as forças de Yunwen em 1402, conquistando Nanjing (Nan=Sul), que por essa altura era ainda a capital da dinastia Ming.
Em 4 de Fevereiro de 1403, Zhu Di já como imperador Cheng Zu, proclamou que Beiping se passaria a chamar Beijing (o significado de Bei é Norte e Jing é capital), mobilizando mais de 136 mil famílias de Shanxi para irem viver em Beijing. Atingidos os objectivos, o imperador ordenou que fossem construídos templos em honra do deus-imperador do Norte em cada uma das prefeituras.
Bei Di é também considerado como a combinação de sete deuses do Norte e por isso controla essa zona, sendo reconhecido como deus da Água.
Ainda pelas palavras escritas por Leonel Barros ficamos a saber dos muitos feitos milagrosos que aconteceram na Taipa e atribuidos a Pak Tai. Para além de curar doentes, auxiliou a população quando a ilha estava para ser saqueada por piratas. Colocando um exército no local onde estes iriam desembarcar, o que muito amedrontou os invasores que fugiram, logo esses soldados desapareceram. Conta-nos também que num dos muitos incêndios que houve na Taipa, o fogo após devorar uma povoação estava-se a aproximar de uma outra contígua. A população desesperada, mandou alguém ir buscar a bandeira vermelha que se encontrava na mão direita de Pak Tai e agitando-a “o forte vento que soprava do quadrante Norte virasse para Sul, o que evitou que o fogo atingisse outras povoações”.
O Largo de Camões está ocupado por uma enorme estrutura de bambu coberta para proteger o palco onde, às 11h00, se realizou uma representação de ópera. Em frente ao templo, numa larga mesa encontram-se três enormes porcos assados, para além de outras oferendas. Após a chegada de novo ao recinto de três enormes dragões, que percorreram as ruas da Taipa, depois do chefe do Governo da RAEM lhes ter pintado os olhos, quatro leões também aí regressam. Todos os animais fazem uma vénia em frente à mesa de oferendas, entrando os leões no recinto do templo para se prostrarem perante o altar principal. Quando saem não viram as costas a Pak Tai, mas vão às recuas.
Pela praça, para além da mesa de oferendas, encontram-se mesas com comida onde as pessoas se vão servindo.
Assim, até amanhã, em frente ao Largo de Camões, é possível assistir a partir das 20hOO a um espectáculo de ópera em honra de Pak Tai.
Texto e fotografia: José Simões Morais
Artista plástico, estudioso de Questões Civilizacionais

quinta-feira, 27 de março de 2008

A ilusão do jogador, Macau arrasou em Tens de Hong Kong, Arte às cegas

Investigador do Canadá em seminário da Universidade de Macau

A ilusão do jogador

Não é o jogador que domina o jogo, mas sim o contrário. Nada mais é do que uma questão de sorte. Quando esta premissa deixa de ser uma realidade, e o indivíduo se deixa dominar por uma “ilusão”, então está dado o sinal de alarme. O caminho para a doença está a um passo. Conclusões do psicólogo e académico canadiano, Robert Ladouceur, presente ontem na Universidade de Macau para um seminário sobre o jogo.
Perante uma plateia cheia de académicos, curiosos, jornalistas e estudantes, Robert Ladouceur apresentou os resultados de estudos realizados, ao longo de vários anos, no que toca, principalmente, ao mundo de Las Vegas, aquele que conhece melhor, mas que poderão ser adaptados ao universo asiático. Com a legalização do jogo a ser uma realidade nos países ocidentais e asiáticos, Robert Ladouceur veio discutir o desenvolvimento de sérias patologias ligadas ao vício do jogo que levam à necessidade de recorrer a ajuda especializada.
Garantindo que as probabilidades não são favoráveis, e que apenas uma pequena percentagem, em raras ocasiões, consegue realmente ganhar, o académico lançou uma pergunta à audiência: “Se se joga apenas pela possibilidade de vir a ganhar e tão poucos realmente conseguem, porque é que as pessoas continuam a jogar?” Um aparente “paradoxo”, intimamente ligado ao verdadeiro motivo que leva as pessoas a continuar. A resposta, baseada em exemplos e casos práticos, foi rápida: “Enquanto jogamos a maioria esquece-se que o resultado é um mero produto do acaso.”
Dando inúmeros exemplos do que tem vindo a assistir em Las Vegas, Ladouceur afirma que frases como “vou vencer a máquina”, ou o facto de, quando estão a jogar à roleta, algumas pessoas analisarem os números que saíram anteriormente de forma a prever o resultado, mostram que uma grande percentagem se esquece de que se trata apenas de um fruto do acaso. Tendo inquirido vários indivíduos sobre o que comentam, manifestam ou expressam antes de lançar os dados ou indicar os números, apercebeu-se de que “75 a 80 por cento tem monólogos internos baseados em falsas percepções”. Por isso, se ouvem frases como “hoje é o meu dia para ganhar, perdi duas noites de seguida”, “estou numa maré de sorte” ou “a sorte tem de mudar”. Assim, salienta o académico, há um denominador comum a todos estes comportamentos: “todos estes indivíduos relacionam factores que são independentes por natureza”. Factores que podem ser “jogos anteriores, sensações ou outros”. Uma forma de tentar prever o imprevisível, remata.
O que acontece é que “a maioria pensará que tem uma estratégia qualquer”, quando, na realidade, se esquecem que “o resultado do jogo é fruto do acaso”. Porque é que tal sucede? A resposta certa não se sabe. “Talvez porque toda a nossa vida temos ouvido dos nossos pais e professores que temos de pensar nos eventos passados para aprender”, diz. Mas, adverte, “o jogo é a única actividade humana em que é inteligente não ter em conta eventos ou factores anteriores”.
Baseando-se em modelos de estudo determinados por investigadores dos EUA, Custer e Milt, o académico salienta que “ganhar logo no início uma grande quantia aumenta as expectativas, no sentido de encorajar a jogar cada vez mais – e tal deverá persistir mesmo depois de sofrer perdas”. Por isso, é que surgem comentários, no desenrolar de um jogo, como: “Não sabes jogar, não segues o padrão certo”. Sinais de alarme. Sintomas do desenvolvimento de uma patologia.
Dados teóricos que foram comprovados na prática por Ladouceur. Aliás, revela, a “maioria afirma no tratamento que teve grandes vitórias no início”. Em jeito de prevenção, o especialista alerta: “Atenção à forma como interpretam as vitórias.”
O académico divide os jogadores em quatro tipos: os que jogam raramente (baixo risco), os que o fazem por diversão (risco moderado), os que jogam esporadicamente (alto risco) e os que têm uma patologia (jogadores problemáticos). Pertencendo a maioria ao grupo de risco moderado, o académico não deixa de salientar que é preocupante que “cinco por cento da população total que joga tenha problemas”.
Como se identifica uma patologia? Quando se ouvem expressões como “jogo porque adoro baccarat” ou “não estou viciado, apenas adoro sentar-me numa mesa redonda”. São indícios de que aquela pessoa já “perdeu o controlo sob o jogo”, com as inerentes consequências para “a família e o emprego”, podendo, inclusivamente, “roubar dinheiro” e repetir, continuadamente, o jogo para “recuperar as perdas”. Quando se usa dinheiro que não se tem “significa que se está a tentar ganhar o que se perdeu”.
Coloca-se então a questão do tratamento. Citando Custer, um psiquiatra famoso na área, Ladouceur afirma que “só quando se reconhece que o dinheiro está perdido para sempre” é que se está “curado”. E quando se supera a “ilusão” de que “dinheiro ganho atrai mais dinheiro”. Mas, afirma, declarar a derrota face ao jogo é “muito difícil para o jogador”.
Assim, as componentes do tratamento psiquiátrico passam por “perceber o conceito de acaso, admitir e ter consciência das percepções erradas que levam a relacionar factores independentes por natureza, corrigir cognitivamente essas falsas percepções”. Os resultados poderão não tardar a surgir e, “daí a seis meses, pode estar curado”.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Equipa de râguebi da RAEM não sofreu um único ponto

Macau arrasou em Tens de Hong Kong

Os jogadores da SJM Macau foram reis e senhores no Torneio de Tens que decorreu ontem em Hong Kong. A equipa derrubou as equipas adversárias sem sofrer um único ponto e arrecadou o troféu principal da competição. A participação serviu de preparação para a próxima missão dos atletas da RAEM: o Torneio Asiático de Tens que se realiza no início do próximo mês nas Filipinas.
A SJM Macau conquistou ontem a vitória e trouxe para casa a “Cup” da competição que se joga com 10 jogadores de cada lado do relvado e é anualmente organizada pela Liga de Râguebi de Hong Hong. Após terem assegurado a passagem à disputa da taça principal do torneio – existe ainda a Taça Playte e a Bowl – os atletas que defendem as cores de Macau na antiga colónia britânica venceram os adversários Kowloon Mallons por 33-0.
Por tradição, o Tens de Hong Kong antecede a realização do Mundial de Sevens da RAEHK, evento desportivo que conta com a participação de algumas das selecções mais fortes da modalidade a nível mundial e que terá a presença da equipa portuguesa. Na edição deste ano, o torneio de 10 contra 10 reuniu 24 conjuntos.
Com alguma experiência no campeonato da liga do território vizinho, a SJM Macau não teve uma época desportiva feliz, terminando com um número de derrotas considerável. No entanto, é na variante de tens que Macau obtém os melhores resultados.
“Sempre jogámos muito mais na variante de 10 do que de 15, devido ao problema da falta de jogadores. Como temos atletas adaptados para certas posições torna-se mais complicado distribuí-los pelo relvado. Por outro lado, o tens é mais a essência do râguebi, há mais espaço para carga e passe”, explicou em declarações ao Tai Chung Pou o capitão da SJM Macau, Ricardo Pina.
No dia 6 do próximo mês, os jogadores da RAEM viajam para Manila, nas Filipinas, para disputarem o Torneio Asiático de Tens. “Os resultados desta competição em Hong Kong servem de preparação para este campeonato”, frisou o atleta.
Segundo Ricardo Pina, o objectivo da equipa é chegar a uma das finais do torneio. Em Manila, em vez de três, disputam-se quatro taças. A par da cup, da Playte e da Bowl, existe o troféu Shield. O capitão da formação ambiciona um lugar na final nas três primeiras competições.
O torneio de Manila não é desconhecido para a maioria dos jogadores da Associação de Râguebi de Macau. Há 10 anos que a organização local marca presença na competição que junta 36 equipas, não só asiáticas, mas também europeias e de outros cantos do mundo.
No entanto, a formação da RAEM fez um interregno no ano passado. Uma pausa que aumenta o entusiasmo de Ricardo Pina. “Vamos voltar em força para um torneio que é muito importante”, prometeu.
Alexandra Lages

Trabalhos de crianças expostos em “Para Além da Escuridão”

Arte às cegas

Bengalas coloridas, com formas de animais, que tilintam quando são agitadas. Máscaras e óculos com surpresas. Instrumentos musicais feitas de todo o tipo de materiais. Quadros concebidos para serem tocados. As crianças dos cursos do Museu de Arte de Macau (MAM) receberam um desafio: criar obras que permitissem experienciar a deficiência visual. As ideias mais originais estão expostas no espaço cultural.
A mostra destina-se a miúdos e graúdos. É um jogo de sentidos, com uma forte componente lúdica, que pretende levar o público a relacionar-se com as peças e experimentar a sensação de escuridão total. Após sensibilizar os mais pequenos para o privilégio que é poder ver o mundo, a iniciativa visa alertar o público em geral sobre as dificuldades vividas pelos deficientes visuais. É a última chamada para contemplar as obras de “Para Além da Escuridão” - a exposição patente no MAM termina no dia 7 do próximo mês.
Os vidros que envolvem a porta do espaço da mostra estão cobertos de negro. No entanto, o interior é dominado pela cor. Cada secção da iniciativa é indicada por percursos de manchas de tinta de várias cores. O primeiro desafio de “Para Além da Escuridão” é o “Túnel do Som”.
Os mais pequenos devem pegar nas bengalas para cegos e nos olhos milagrosos que estão pendurados na parede. São objectos cor-de-laranja, pretos, rosa ou amarelos que foram concebidos para servir de apoio às pessoas invisuais. As formas de animais revelam o toque especial dado pelos pequenos artistas, que também se lembraram de utilizar materiais que tilintam quando são agitados.
Já os óculos com lentes do tamanho de metade de um ovo são colocados no rosto com a ajuda de um elástico. As “viseiras de glaucoma” foram criadas pelas turmas infantis para mostrar a sensação de deficiência visual e recomendar a protecção da vista. Glaucoma é conhecido como o ladrão sorrateiro da visão, sendo uma doença que afecta gradualmente o nervo óptico.
As crianças devem ultrapassar as cortinas pretas no “Túnel do Som” devidamente equipadas. Lá dentro, devem tentar encontrar a saída entre um sem fim de fios pendurados, fabricados com tecido e objectos que emitem sons com o movimento. Terminada a viagem, um cartaz colado no chão da saída pergunta: “Como se sente? Feliz? Assustado? Deliciosamente surpreendido?” No fim de contas, o Túnel do Som é mais uma estratégia para fazer os participantes experimentarem, durante pouco mais de cinco minutos, as dificuldades e barreiras do dia-a-dia da vida das pessoas invisuais.
À volta da estrutura que dá forma ao túnel encontram-se afixados vários trabalhos das turmas dos cursos de arte infantil do MAM. Há as luvas sensoriais feitas de plástico, com bolinhas de barro no seu interior e enfeitadas com pinturas e colagens, que representam o tacto, um dos sentidos mais importantes para quem não consegue ver.
Com o mesmo objectivo, estão expostos os trabalhos das séries “Criando Texturas”. Ao contrário das exposições normais, estes quadros foram feitos para serem tocados. Fechando os olhos e através do tacto, é possível descobrir que as crianças desenharam flores, animais e corações, entre outros. Para este resultado final, foram utilizadas duas técnicas: a aplicação de massa de modelagem ou colagem de materiais em placas de madeira.
Depois, encontra-se a parte da exposição intitulada “Ping-Ping Bang-Bang”. Os termos estranhos do título são onomatopeias dos ruídos produzidos pelas dezenas de garrafas ali expostas. “Para quem é cego, o sentido de audição assume uma grande importância na percepção do mundo exterior”, explica o cartaz informativo. É por esta razão que as bengalas que se encontram no princípio da mostra produzem sons. O mesmo conceito foi aplicado em garrafas usadas, com a única diferença que os diferentes materiais e técnicas aqui aplicadas possuem uma componente lúdica. São instrumentos musicais.
O “Túnel dos Pirilampos Brilhantes” é a parte que se segue. À entrada avisa-se que é necessária a utilização de uma lanterna. “Tactear na escuridão e sentir o que é ser cego” é o desafio lançado neste segundo jogo da mostra. Do outro lado da cortina de pano preto rasgado em tiras, as paredes do espaço foram invadidas por pirilampos cujos olhos ficam fluorescentes com o contacto com a luz. A mensagem que os pirilampos de cartolina pretendem transmitir é a importância de proteger a vista.
À saída do túnel, estão suspensas por fio-de’coco várias “Máscaras Surpresa”. Com caixas de cartão, os alunos dos cursos de arte construíram máscaras com diferentes tipos de óculos que permitem experienciar as deficiências visuais das pessoas. Espreitando para dentro dos objectos feitos à medida de cabeças de crianças e de adultos, vê-se através dos olhos de quem sofre de cataratas, glaucoma e “macula lutea”.
Já de fora do espaço que envolve o “Túnel dos Pirilampos”, estão dispostos no chão pneus com rolos de papel no centro. É a secção intitulada “Olhar para o mundo de olhos fechados”. Os mais pequenos ouviram com os olhos vendados histórias sobre crianças invisuais e foram desafiados a desenhar as personagens. Os trabalhos podem ser contemplados nos rolos de papel dentro dos “olhos de fantasia com rodinhas”.
Enquanto se caminha para a porta da saída, há uma tela onde está a rodar o vídeo que mostra os principais momentos das aulas dos cursos de arte infantil. Com vendas pretas, as crianças trabalham nas suas obras e até se sentam à mesa a comer.
Mais à frente, estão ainda patentes pinturas de meninos e meninas invisuais oriundos de várias províncias chinesas que foram curados no âmbito de projectos de tratamento de organizações não-governamentais. São pinturas expressivas e carregadas de detalhe. Algumas conseguem transmitir alguns momentos da vida destas crianças. É o caso do quadro que mostra um menino a ser tratado por um médico ou de outro que representa um jogo de cabra-cega.
“De acordo com as estatísticas, quase 180 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de deficiência visual aguda e calcula-se que, em 2020, sem um plano sistemático de prevenção, outros 76 milhões perderão o uso da vista. Ou seja, há inúmeros indivíduos em risco de ficarem cegos ou que já vivem num mundo sem luz. Mas sabia que a deficiência visual pode ser evitada em cerca de 75 por cento dos casos?”. É a questão lançada em jeito de alerta no prefácio da exposição “Para Além da Escuridão”. Uma mostra que vai continuar a ver a luz do dia por pouco mais de uma semana.
Alexandra Lages

China Daily publica estudo sobre ensino no país

População chinesa desiludida com a educação

Quatro em cada dez chineses queixam-se de que existe um enorme fosso entre o investimento feito na educação e as vantagens retiradas, aponta um estudo feito a nível nacional. O relatório do grupo de consultoria e pesquisa “The Horizon”, citado ontem pelo jornal China Daily, inclui inquéritos feitos a 3355 pessoas, com idades compreendidas entre os 16 e os 60 anos, residentes nas zonas rurais e nas cidades, incluindo sete metrópoles, como Pequim e Xangai.
O estudo permitiu chegar à conclusão de que apenas 16 por cento dos inquiridos acredita que os investimentos feitos na educação darão lucro. Os que têm uma maior formação académica são precisamente aqueles que estão mais desapontados com a qualidade da educação que receberam.
“Mesmo tendo um mestrado, não consigo ter um emprego decente numa grande empresa”, lamentou-se Mao Xin, um residente de Pequim de 26 anos. “Os meus conhecimentos empíricos não me trouxeram qualquer vantagem e não tenho armas para competir.” Mao teve que rever em baixa as suas expectativas e trabalhar numa pequena empresa privada, auferindo um salário igual ao de colegas que nem licenciatura têm.
“Desiludi os meus pais, que me deram, pelo menos, 30 mil yuan para eu poder frequentar o curso de pós-graduação numa universidade de qualidade, durante três anos”, acrescentou, em declarações ao jornal oficial chinês em língua inglesa.
Os habitantes das zonas rurais têm percepções acerca da educação consideravelmente mais positivas do que os residentes das áreas urbanas, indica ainda o relatório.
“A nossa educação tem sido desenvolvida a pensar nos exames”, começou por explicar Huo Qingwen, vice-director de um centro de serviços de testes da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim. “O resultado deste estudo não me surpreende, uma vez que ouço queixas não só dos alunos, como também dos professores, a quem tem sido exigido que se concentram na taxa de aprovação dos seus estudantes.”
O Ministério da Educação pediu às escolas e às universidades que abandonem gradualmente o sistema de ensino orientado, única e exclusivamente, para os exames, depois de cada vez mais estudantes se queixarem de que os graus académicos não os estão a dotar de bases mínimas de experiência e de competência. “O mercado de trabalho está sedento de pessoas com talento, mas muitos dos licenciados não apresentam as competências exigidas para tarefas em que é necessário ter experiência e sentido criativo”, acrescentou Huo.
Há quem tenha, contudo, uma opinião bem diferente sobre a qualidade da educação. “Não acredito que a qualidade do ensino seja a principal causa do aumento do desemprego da China”, afirmou ao China Daily Hong Chengwen, professor de gestão na Universidade Normal de Pequim. “As vagas no mercado de trabalho não acompanharam o ritmo do desenvolvimento económico dos últimos anos”, acrescentou.
Para o docente, estar-se-á perante o efeito “dominó” se o Governo não levar a cabo acções mais eficientes para controlar a taxa de desemprego. “As pessoas têm grandes expectativas em relação a melhores salários quando investem mais na educação”, afirmou o académico, dizendo ainda que “uma taxa de desemprego baixa irá influenciar o desejo dos chineses em terem uma formação académica superior, especialmente entre aqueles que menos possibilidades têm de estudar neste momento”.
Os comentários de Hong foram feitos numa altura em que já se sabe que diminuiu o número de estudantes candidatos ao exame nacional para a entrada em cursos de pós-graduação, um fenómeno inédito na última década. Segundo dados oficiais, 1,2 milhões de pessoas inscreveram-se este ano para o exame, o que representa uma descida de seis por cento comparativamente com 2007.
O China Daily ouviu ainda as entidades patronais. Vivian Guo, directora executiva de um empresa privada em Pequim, explicou que a sua companhia contrata as pessoas que mais possam contribuir pelos menores custos possíveis.
“A maioria dos licenciados prefere postos de trabalho nas grandes cidades, o que causa um desequilíbrio nos recursos humanos das áreas urbanas e das zonas rurais”, constatou Hong Chengwen. “Teriam mais hipóteses de progressão na carreira se optassem por começar a trabalhar nas áreas rurais e na região Oeste. O Governo tem estado a incentivar a deslocalização de profissionais para lá”, sustentou.
Os custos financeiros do sistema educativo são outra questão da qual os chineses se queixam. O estudo revela que os agregados familiares das zonas urbanas gastam, em média, um quarto do vencimento em educação. Nas áreas rurais, o ensino chega a levar um terço dos rendimentos familiares.
Dados oficiais indicam que 150 milhões de estudantes de escolas primárias e secundárias beneficiam actualmente da isenção de propinas, no âmbito de medidas introduzidas em 2006. No entanto, denuncia o China Daily, há escolas que violam as regras, exigindo pagamentos extra em troca de “um melhor ambiente educativo”.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Hu Jintao e Wen Jiabao reconduzidos nos cargos, Pavilhão do Tap Seac acolhe exposição de tesouros olímpicos

Hu Jintao e Wen Jiabao reconduzidos nos cargos

Liderança sem surpresas

Wen Jiabao foi ontem escolhido pela Assembleia Popular Nacional (APN) para o cargo de primeiro-ministro da China, que vai ocupar durante os próximos cinco anos. Nascido em 1942 em Tianjin, Wen é o principal responsável pelo Conselho de Estado desde Março de 2003. Desde 1965 que integra o Partido Comunista da China. Engenheiro licenciado pelo Instituto de Geologia de Pequim e especialista em estruturas geológicas, Wen Jiabou tem uma pós-graduação em educação.
A nomeação do primeiro-ministro aconteceu um dia depois da recondução, por igual período de tempo, de Hu Jintao como Presidente do país.
Também ontem, o órgão legislativo chinês elegeu Guo Boxiong e Xu Caihou para a vice-presidência da Comissão Militar Central (CMC) da República Popular da China, indicou a Agência Xinhua. Liang Guanglie, Chen Bingde, Li Jinai, Liao Xilong, Chang Wanquan, Jing Zhiyuan, Wu Shengli e Xu Qiliang receberam a aprovação da APN para integrarem a CMC, na qualidade de membros.
Através de voto secreto, noticiou ainda a agência chinesa, Wang Shengjun foi eleito presidente do Supremo Tribunal Popular, enquanto Cao Jianming foi nomeado procurador-geral da Suprema Procuradoria Popular.
A Constituição da República Popular da China estipula que o responsável pelo Conselho de Estado deve ser nomeado pelo presidente de Estado, e que os candidatos para a vice-presidência e membros do CMC sejam designados pelo presidente da Comissão Militar Central. Todos os candidatos são sujeitos a votação pela Assembleia Popular Nacional. No sexto plenário da APN participaram 2986 deputados.
Já no sábado, o número um do Partido Comunista Chinês, Hu Jintao, 65 anos, foi reconduzido por cinco anos na chefia de Estado, reunindo 99,7 por cento dos votos.
Depois de ter sido confirmado em Outubro passado na liderança do Partido Comunista, Hu recebeu, sem surpresa, o apoio de 2956 delegados num total de 2965 na APN. Hu Jintao foi aplaudido prolongadamente pelos delegados antes de apertar a mão do primeiro-ministro Wen Jiabao.
Os parlamentares designaram igualmente como vice-presidente Xi Jinping, de 54 anos, o provável sucessor de Hu Jintao como líder do partido em 2012.

Membros de Macau aplaudem continuidade em Pequim

Os membros de Macau à Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) entendem que a continuidade de Hu Jintao na liderança da China é benéfica para o desenvolvimento do país. Na reacção à recondução de Hu no cargo por mais cinco anos, vários representantes da RAEM, citados ontem pela imprensa em língua chinesa, disseram que este novo mandato vai permitir a Hu desenvolver a sua maturidade política, o que terá consequências no desenvolvimento sustentado do país. Já a nomeação de Xi Jinping para a vice-presidência é entendida como se tratando de uma nova dimensão na liderança.
Leong Heng Teng e Wong Yu Kai, ambos membros da CCPPC, fizeram um balanço da liderança da China nos últimos cinco anos, chegando à conclusão de que Hu Jintao e Wen Jiabao souberam “humanizar a Administração”. Além disso, referiram, “houve um desenvolvimento da economia, assistiu-se a uma maior estabilidade social, os padrões de qualidade de vida aumentaram e foram introduzidos novos conceitos democráticos”. Para os políticos de Macau, estes resultados positivos são óbvios, o que faz com que seja natural a continuidade dos líderes.
Chung Siu Kin realçou que a administração do Presidente Hu trouxe muita energia ao desenvolvimento do país. “Após estes cinco anos de experiência, o Presidente pode continuar a desenvolver as suas políticas com base no que já foi alcançado.”
Tanto Leong como Chung consideram que o Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional tem feito um trabalho muito positivo na construção do sistema legal da China, o que se reflectiu na aprovação e revisão de vários diplomas cruciais. “A continuidade de Wu Bangguo enquanto presidente do Comité Permanente vai ser benéfica para a construção e melhoria do organização legal do país”, sublinharam.
Quanto à nomeação de Xi Jinping para vice-presidente da China, os três delegados da CCPPC acreditam que trará consequências positivas para Macau e Hong Kong, bem como para a questão de Taiwan. Durante a década de 1990, Xi trabalhou na província de Fujian, facto que lhe permitiu conhecer bem o Sul do país.

Pavilhão do Tap Seac acolhe exposição itinerante dos tesouros do COI

Uma viagem olímpica

Tochas, medalhas, equipamentos desportivos, fotografias e imagens de momentos que ficaram para a eternidade. São 731 os objectos expostos num percurso que se faz em cerca de meia hora. Glória, vitória, empenho, respeito e, principalmente, amizade entre os povos são as emoções transmitidas ao longo das várias salas e corredores. O Pavilhão Polidesportivo do Tap Seac arrumou as cadeiras, as balizas e os cestos para receber alguns dos tesouros do Museu Olímpico de Lausanne, na Suíça. Uma exposição itinerante que, desde Agosto do ano passado, viaja por mais de uma dezena de cidades chinesas e que está em Macau até ao próximo dia 30.
O Comité Olímpico Internacional (COI) e a Comissão Organizadora dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 (BOCOG), as duas entidades organizadoras da mostra, convidam os residentes de Macau a embarcar numa viagem pelo mundo olímpico, desde os seus primórdios até ao esperado evento que começa no dia 8 de Agosto na capital chinesa.
Os Jogos de Pequim abrem a exposição. Na primeira sala denominada “A China abre as suas portas ao mundo”, salta à vista a cor vermelha. A mesma tonalidade é encontrada no emblema da competição, nos carimbos chineses dos Jogos, bem como nas mascotes e na tocha.
Todos estes objectos, incluindo as medalhas que vão ser distribuídas nos Jogos Olímpicos de Agosto, podem ser contemplados na primeira sala da mostra. Ainda neste espaço, é possível observar os presentes oferecidos à BOCOG por vários comités olímpicos, incluindo pelo de Macau, as mascotes Fuwa e os modelos das mais importantes estruturas desportivas da competição, o Cubo Aquático e o Ninho de Pássaro, nome pelo qual é conhecido o Estádio Olímpico Nacional.
O ponto alto da área coberta por pistas vermelhas de atletismo é a exposição de uma réplica da tocha das nuvens auspiciosas. Desta forma, os visitantes podem tirar uma fotografia segurando o mais emblemático objecto dos Jogos de Pequim.
Na segunda sala da exposição, a luminosidade diminui para dar destaque aos elementos audiovisuais que estão a ser projectados num dos cantos do espaço circular. É o cinema “Um Mundo”. Em quatro grandes ecrãs de televisão, são transmitidos excertos das cerimónias de abertura e de encerramento das anteriores edições dos Jogos Olímpicos, bem como de algumas competições.
Do lado oposto, estão expostos quatro conjuntos de trajes usados nos momentos de inauguração de anteriores olimpíadas. A indumentária usada pela delegação do Butão em Seul, na Coreia do Sul, nos Jogos de 1988, ou as roupas usadas pelos figurantes na abertura das Olimpíadas de Atenas, na Grécia, em 2004, são alguns exemplos.
Neste espaço, é ainda introduzido o tema da mostra: “Um Mundo, Um Sonho”. Um princípio que está sempre presente nos Jogos. Isto é, construir uma humanidade em que todas as etnias, raças, culturas e línguas pertençam ao mesmo universo.
As imagens e os trajes antigos antecedem a zona que conta a história dos Jogos Olímpicos. A partir daqui, tudo é montado para nos transportar para outro tempo e espaço. As linhas arquitectónicas em forma de arco e as passagens suportadas por colunas fazem lembrar a Grécia antiga. A intenção é fazer os visitantes esquecerem que estão em Macau e transportá-los para o Museu Olímpico de Lausanne.
A primeira parte desta etapa da exposição começa por explicar todas as simbologias e princípios do movimento olímpico. Pierre de Coubertin tem uma posição de destaque na mostra. Não é para menos, já que o francês foi o fundador do COI.
No expositor dedicado ao pai das Olimpíadas da era moderna estão expostos alguns objectos e é exibido um vídeo que revela a vida e o contributo do barão para os Jogos Olímpicos. Um sabre mostra que o pedagogo e historiador, falecido em 1937, era um apaixonado praticante de desporto.
O passeio pela história dos Jogos Olímpicos não segue uma linha cronológica. Da criação do COI, a exposição salta para a antiguidade. Há réplicas de instrumentos desportivos e outros objectos usados na Grécia antiga, como as protecções usadas pelos lutadores de boxe, e os famosos vasos de cerâmica que retratam episódios das competições.
Todos os cantos da cidade de Olímpia estão apenas a um toque no monitor de computador. O programa interactivo transporta o visitante numa reconstrução das várias estruturas da urbe que acolhia os Jogos Olímpicos da Grécia antiga.
O Corredor Olímpico é a etapa que se segue. É uma estrutura composta por 25 arcos de quatro metros de altura. Textos, imagens, vídeos e objectos relembram a história das Olimpíadas de Verão, narrando ainda lendas e mitos dos eventos da era moderna, bem como as mudanças que foram sucedendo ao longo dos anos.
Outro dos pontos mais interessantes é a exposição das tochas usadas nos Jogos Olímpicos modernos, desde 1936 ao último evento organizado por Atenas em 2004. Cada uma, conta uma história diferente. Por baixo dos expositores, há ainda um micro-aparelho de vídeo que revela o percurso das tochas, do projecto ao momento final em que se acende a Torre da Tocha Olímpica.
O objecto que abre a exposição foi utilizado em Berlim. Esta tocha representa um marco da história dos Jogos modernos, porque foi a primeira que foi acesa no santuário de Olímpia. O modelo dos Jogos de Atlanta, em 1996, distingue-se das demais pelo tamanho, tendo sido pensada à semelhança das tochas usadas na antiguidade. Os traços modernos são a característica do objecto utilizado nos Jogos de Sidney, em 2000. A forma assemelha-se a um boomerang e as cores lembram o azul das águas do pacífico.
Das tochas, a viagem passa para o sector dos equipamentos desportivos e lembranças de cada edição da competição internacional. Ao longo do corredor, do lado esquerdo vêm-se objectos autografados por campeões olímpicos como a maratonista portuguesa Rosa Mota. Já do lado esquerdo, são exibidos documentários de cada uma das Olimpíadas, com notas sobre as alterações ocorridas de edição em edição.
Tudo na mostra foi organizado para dar uma noção de viagem no tempo e no espaço. Fora do corredor olímpico, estão expostas raquetes de ténis, bicicletas, fatos de natação, sapatilhas e sticks de hóquei usados em diferentes etapas da história. Há a bicicleta fabricada em madeira dos anos 1930 e o modelo aerodinâmico do presente, por exemplo.
Ainda neste espaço, estão expostas as mascotes das edições anteriores dos Jogos. Os conhecimentos aqui adquiridos podem ser de seguida testados num jogo que exige a presença de dois participantes.
A viagem passa depois para a sala da filatelia. A mostra inclui alguns selos clássicos das 15 Olimpíadas de Verão e os cartazes olímpicos. Na mesma sala, estão ainda em exposição medalhas dos Jogos da era moderna, acompanhadas por vídeos que mostram os momentos gloriosos dos atletas que subiram ao pódio.
A última etapa da viagem pela história das Olimpíadas é dedicada aos três valores da competição. A explicação de cada princípio dá ainda a conhecer casos de atletas cujos feitos ficaram para a história. O australiano Cathy Freeman é um exemplo vivo de “Respeito”, visto que foi o primeiro atleta aborígene a subir ao pódio, nos Jogos de Atlanta. A “Amizade” foi protagonizada pelo herói dos Jogos de Berlim, Jesse Owens, que deu um exemplo ao mundo nazi com a sua relação com o concorrente alemão. A romena Nádia Comaneci dá corpo ao valor da “Excelência” sendo a primeira ginasta a obter a pontuação perfeita de 10.0.
A exposição itinerante dos tesouros olímpicos do COI estará patente em Macau no Pavilhão do Tap Seac até ao final deste mês. As portas da mostra estão abertas das 10h00 às 22h00. As entradas são gratuitas.

Jogos de Pequim descodificados

O que significa o emblema dos Jogos Olímpicos de 2008? Quais são as simbologias que presidiram à concepção da tocha? E o que representam as mascotes? Todas as respostas podem ser encontradas de uma só vez num único espaço. Além de uma viagem pela história das Olimpíadas, a exposição itinerante do tesouro olímpico do Comité Olímpico Internacional, que está patente no Pavilhão Polidesportivo do Tap Seac, revela todos os pormenores do evento que terá lugar na capital chinesa dentro de pouco mais de cinco meses.
A mostra começa por desvendar todas as simbologias que envolvem o emblema da competição. Conhecido por “Pequim dançante”, a figura da edição deste ano dos Jogos Olímpicos representa um atleta que corre de braços abertos para a vitória e a felicidade. Por outro lado, o desenho representa o carácter chinês “jing”, fazendo referência à designação da cidade organizadora do evento - Beijing.
O vermelho tem sido a cor predominante nos objectos e imagens relacionadas com as Olimpíadas de 2008, visto possuir um grande significado para a cultura chinesa. A cor é associada à alegria, simboliza o vigor e representa a bênção e hospitalidade da China.
Têm 70 milímetros de diâmetro, seis milímetros de espessura e são a meta dos milhares de atletas dos 200 países que vão marcar presença em Pequim no dia 8 de Agosto. As medalhas de “jade embutido em ouro” são elogiadas como “verdadeiros requintes da arte oriental”, distinguindo-se das demais devido à pedra de jade no centro.
As mascotes Fuwa foram inspiradas nas cores dos anéis olímpicos e nas vastas terras montanhosas, rios, lagos e mares da China, bem como nos animais mais queridos pelo povo chinês. Beibei, Jingjing, Yinguing, Nini e Huanhuan representam o peixe, o panda, o antílope tibetano, a andorinha e a chama olímpica, respectivamente. Se juntarmos os nomes dos cinco Fuwa obtemos em mandarim a frase na língua inglesa correspondente a “Bem-vindo a Pequim”. Os cinco “simpáticos amigos” foram nomeados mascotes da edição deste ano dos Jogos Olímpicos no dia 11 de Novembro de 2005.
O objecto dos Jogos de Pequim que bate recordes em simbologias é a tocha. Os desenhos da parte superior são nuvens flutuantes que representam a “origem comum, a harmonia e a integração do mundo”. Valores que são comuns ao espírito olímpico. A forma de papiro tradicional simboliza a civilização humana. Por sua vez, a laca vermelha também utilizada no modelo é a característica que mais diferencia a tocha dos Jogos Olímpicos de Pequim das competições anteriores, remetendo para uma técnica que apareceu pela primeira vez na Dinastia Han. A proporção entre as extremidades pretende transmitir a ideia de elegância e dignidade.
Ao longo deste ano, a tocha com as “nuvens auspiciosas” vai participar na mais longa e extensa caminhada da história das Olimpíadas, sendo transportada pelo maior número de pessoas de sempre, numa viagem que atravessa os cinco continentes.

Alexandra Lages

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Coutinho, José Chu e a desilusão; Festa das Lanternas em Macau; Crónica de viagem ao Bangladesh

Deputado protesta contra respostas dadas por representante do Governo

Coutinho, José Chu e a desilusão

Foram anos e anos de queixas numa interpelação só. Pereira Coutinho diz que nunca se viveu um momento tão mau na Função Pública, no que ao moral dos trabalhadores diz respeito. José Chu, director dos Serviços de Administração Pública (SAFP), tem uma visão bem diferente do cenário traçado pelo também presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM).
Sem apresentar novidades em relação aos temas focados pelo deputado, José Chu contestou as críticas de Coutinho. A resposta esteve longe de convencer o deputado que, no final da intervenção do director dos SAFP, disse estar “muito desiludido”. “Vendo bem as questões que coloquei, só respondeu às perguntas mais simples. É uma postura que muito me desilude. As perguntas foram colocadas de forma clara. Mais valia dizer que não consegue responder”, lamentou Coutinho.
A verdade é que a desilusão começou logo no início da sessão e teve a ver com a própria presença de Chu na Assembleia. O deputado considerou que, sendo as suas questões de ordem política e estratégica, à Assembleia deveria ter ido a Secretária, pois o director de serviços é apenas um “executor”. A presidente da AL, Susana Chou, lembrou que, nos termos regimentais, o órgão não tem possibilidade de escolher qual o representante do Governo que vai à Assembleia responder às interpelações dos deputados.
Resolvido este ponto prévio, passou-se então para a rápida troca de perguntas e respostas entre Coutinho e Chu. Resumindo a interpelação, o presidente da ATFPM criticou a eliminação da reforma e da pensão de sobrevivência, substituídas em 2007 pelo novo regime de previdência, a inexistência de um “sistema credível” de responsabilização dos titulares dos principais cargos políticos, a “continuada escandalosa exploração dos trabalhadores, através de contratos de prestação de serviços, de aquisição de serviços e de tarefas”, a estagnação das carreiras e “os baixos salários do pessoal da linha da frente” quando comparados com os vencimentos dos trabalhadores das concessionárias do jogo com funções semelhantes.
O deputado perguntou quanto tempo mais precisa o Governo para resolver a lista de problemas que focou, quais as medidas estão a ser adoptadas para elevar “o baixo moral” e para que “a competência seja uma das principais qualidades para a prestação de serviços públicos”.
José Chu refutou o cenário traçado pelo presidente da ATFPM, começando pelo regime de previdência. “Tem contribuído positivamente, desde sua a entrada em vigor. Mais de seis mil trabalhadores que não beneficiavam de nenhuma garantia estão agora integrados no sistema”, disse. Quanto à responsabilização das chefias, assegurou, “o Governo está empenhado”. Ao contrário do que diz Pereira Coutinho, o “pessoal da linha da frente” ganha “consideravelmente mais” do que os funcionários dos casinos, acrescentou o director dos SAFP, enquanto lia um mapa comparativo. O responsável anunciou que vai ser criado um centro de formação especializado para os funcionários públicos e disse que tem “havido intercâmbio e diálogo com os trabalhadores”.
O deputado insistiu na questão da responsabilização dos principais titulares de cargos públicos. Susana Chou passou a palavra a José Chu, que se limitou a dizer que a sua resposta foi “global”, pelo que não tinha mais nada a acrescentar. Au Kam San tentou dar uma ajuda e pediu que fosse dada resposta à questão sobre a forma como o Governo pretende levantar o moral dos funcionários. “A esmagadora maioria dos trabalhadores reconhece as políticas e medidas adoptadas pelo Governo. O público também reconhece os esforços dos funcionários”, disse o director dos SAFP, minimizando a questão. De qualquer modo, acrescentou, “quanto à questão do moral, o Governo tem vindo a desenvolver trabalhos”. Como? Não disse.
Embora já não tivesse tempo para voltar a usar da palavra, Susana Chou concedeu a Pereira Coutinho um minuto para expressar o seu desagrado. A primeira interpelação das cinco ontem apresentadas acabava assim com uma clara sensação de desconforto. Para os dois lados da barricada.
Isabel Castro

Futebol profissional gera reacções opostas entre elementos da modalidade desportiva

Um passo maior do que as pernas?

“Se for mesmo criada uma liga de futebol profissional em Macau é claro que deixaria o meu emprego e alinhava por uma das equipas.” Pelé nasceu para ser craque da bola e foi com esse objectivo que viajou há cerca de uma década para o território. Contudo, à semelhança de tantos outros jogadores lusófonos, o sonho caiu por terra. Futebol profissional sempre foi algo inexistente na região. No entanto, o mundo do desporto-rei local prepara-se para uma reviravolta.
A Associação de Futebol de Macau (AFM) confirmou esta semana à imprensa de Hong Kong que está a ser planeada a criação de uma liga feita só com equipas profissionais, que podem entrar em campo já no próximo ano. A notícia originou surpresa entre as várias figuras ligadas ao futebol de Macau.
Do conjunto de dirigentes, treinadores e jogadores contactados pelo Tai Chung Pou, alguns manifestaram alegria e satisfação puras perante a iniciativa, mas há também quem torça o nariz. Apoiantes ou não dos novos planos da direcção da AFM, o certo é que muitas questões são colocadas à criação da Super Liga de Futebol de Macau. Das bancadas, os representantes e elementos da modalidade no território aguardam o pontapé de saída para a segunda metade da história.
“Impraticável.” É esta a visão do novo projecto da AFM aos olhos do proprietário das equipas Monte Carlo e Heng Tai, Firmino Mendonça. Aquele que é apelidado como o “patrão” do futebol de Macau afirmou desconhecer por completo os planos da associação e, por isso, escusou-se a alongar os comentários. Contudo, o empresário considera “difícil” a concretização deste projecto.
As razões que alimentam a posição de Firmino Mendonça são as mesmas apontadas por José Eduardo, popularmente conhecido por Dedé, jogador do Heng Tai e da selecção de veteranos de Macau. Para o futebolista, a criação da divisão profissional significa uma oportunidade de progresso da modalidade desportiva, mas o cepticismo é a tónica dominante do residente que veio para o território em busca de carreira há 21 anos.
“É um impulso feito um bocado às cegas. Falta ao futebol de Macau toda uma estrutura e uma base onde se possa agarrar, bem como uma verdadeira mentalidade desportiva”, defendeu. “Estão mesmo a querer dar um passo maior do que as pernas”, acrescentou.
Para sustentar uma liga profissional de futebol são precisos, segundo Dedé, três peças fundamentais: jogadores, financiamento e infra-estruturas. As perguntas multiplicam-se. “Onde é que se vai buscar tanto dinheiro? E jogadores? Quanto tempo durará o campeonato à custa dos fundos? Seis meses? E depois? Acaba-se o futebol?”, apontou.
De acordo com as notícias que têm circulado na imprensa de Hong Kong, a AFM planeia criar a liga de profissionais com a ajuda de empresas privadas. O presidente da associação, Cheong Coc Veng, afirmou que o bom estado da economia da RAEM é o factor catalisador destas mudanças no futebol do território, havendo cada vez mais grupos empresariais a manifestar interesse em investir na modalidade.
Até agora, o que chegou do outro lado do extremo do Delta do Rio das Pérolas é que já existem quatro equipas formadas, mas que a associação pretende atingir um conjunto de seis. Ao contrário das formações amadoras existentes, os onzes compostos por profissionais não terão limites de jogadores estrangeiros.
Algo que deixa indignado Dedé. “Cortam as pernas a umas equipas e favorecem outras. Isto é dar o dito por não dito”, acusou.
Recorde-se que os clubes amadores actualmente divididos pelas três divisões são obrigados a limitar o número de atletas residentes não permanentes para oito por equipa e quatro por partida. Uma medida que foi imposta pela FIFA e a Confederação Asiática de Futebol, mas que aparentemente não terá efeito na divisão profissional.
As intenções da direcção liderada por Cheong Coc Veng são há algum tempo conhecidas pelo Governo. “Desde o ano passado que o Instituto do Desporto de Macau (IDM) tem conhecimento dos planos da AFM”, adiantou o vice-presidente do organismo governamental, José Tavares.
“É uma boa tentativa para que o nosso futebol dê uma volta e que tenha outra dinâmica, disciplina e essência. O projecto conta com todo o apoio do IDM, mesmo que no final não produza resultados”, acrescentou o mesmo responsável. Qualquer ajuda concedida pelo IDM será apenas de carácter logístico e não monetário, fez questão de destacar José Tavares.
Os moldes do financiamento é outra das questões que preocupam Dedé. “As assistências dos estádios estão vazias. Como é que um casino vai investir numa equipa sem fim ou retorno certo?”, questionou. A par disso, o atleta lançou ainda o problema dos jogadores. Será preciso, segundo o também treinador, uma grande quantidade de recursos humanos para alimentar seis equipas profissionais. A solução passaria por contratar futebolistas locais.
Contudo, grande parte dos atletas amadores de Macau já “têm as suas vidas feitas”. “Não os vejo a deitar fora uma carreira com futuro para daqui a meia dúzia de anos se reformarem do futebol”, sustentou.
Mais confiança tem Rui Cardoso, dirigente do Sport Macau e Benfica. “Não podemos ser cépticos. É um bom passo e o momento certo para avançar. Não podemos dizer que não vai resultar. É preciso tentar”, frisou. São também muitas as interrogações colocadas pelo ex-futebolista. No entanto, o mais importante para o responsável são as vantagens que poderá trazer para o desporto rei da RAEM uma liga profissional de futebol.
Tendo em conta que os “encarnados” se dedicam de corpo e alma à formação de jogadores, a notícia não podia ser melhor recebida por Rui Cardoso. “As camadas jovens vão estar mais motivadas, porque sabem que existirá uma competição séria além da amadora e isso vai exigir uma maior concentração e uma melhor condição física”, explicou.
O mesmo se aplica aos jogadores, profissionais na área do desporto e até dirigentes desportivos. “A partir do momento em que existe uma divisão profissional, tudo será profissional. Desde os atletas, treinadores, preparadores físicos, massagistas e dirigentes. É uma oferta de emprego motivante”, notou.
Resta agora saber se as actuais equipas de Macau têm as portas abertas para participar na liga profissional. José Tavares diz que sim. “Tudo é possível, desde que as formações alterem os seus estatutos”, explicou o vice-presidente do IDM.
Mais pormenores dos planos da AFM poderão ser conhecidos já amanhã. De acordo com fonte da entidade associativa, em declarações ao Tai Chung Pou, será organizado um encontro da associação onde provavelmente vai ser apresentado oficialmente ao futebol de Macau o novo projecto.
Alexandra Lages

Em Macau quase não se comemora a Festa das Lanternas

Uma tradição perdida

Quase desaparecida. Nem consta do calendário oficial. Assim é a Festa das Lanternas em Macau que se realiza hoje. Uma data que assinala o fim das festividades de Ano Novo chinês e que calha no 15º dia do primeiro mês lunar. Um “simbólico apagar da iluminação” que acolheu a chegada do Ano do Rato e um “regressar ao trabalho”, afirma a socióloga que se dedica à investigação da sociedade chinesa, Regina Paz.
No fundo, prende-se com a “necessidade de luz”. Um “pedido para que a noite seja curta” e os dias mais longos. Mas em Macau já não é particularmente celebrado. “É comemorado aqui e ali – está mais diluído”, conta. Apagam-se as lanternas. A Primavera “está a chegar e os dias a aumentar”, avizinhando-se um período maior de sol. Em termos sociais, “quer dizer que param os festejos e metem-se mãos à obra”. Para assinalar a data poderá, quanto muito, “haver um jantar de família dentro ou fora de casa”. E, claro, as lanternas são uma constante da tradição chinesa e não desaparecem só porque terminam as festividades de Ano Novo chinês. “Para nos guiar e não nos perdermos”, diz. É também o dia em que os casados deixam de oferecer envelopes recheados de dinheiro, ou lai-si.
De acordo com várias pessoas contactadas pelo jornal Tai Chung Pou, a data que também coincide com o Dia Chinês dos Namorados apenas é celebrada “pelos mais idosos”. Tradicionalmente, estarão associados à festividade alguns enigmas chineses que são colocados no interior ou por baixo das lanternas.
A maior atracção do Festival Yuan Xiao – como também é designado - é um mar de lanternas de todas as formas e cores que pode ser encontrado pelas ruas chinesas. Começou a celebrar-se durante a dinastia Han (206 a.C – 221 d.C), tornando-se popular durante as dinastias Tang e Song. À noite, as pessoas deslocam-se para as ruas erguendo uma série de lanternas, debaixo da lua cheia, para observar a dança do dragão e do leão, decifrando enigmas, desfrutando dos típicos “dumplings” de arroz glutinoso chamados Yuan Xiao e lançando fogos-de-artifício. Um dia de diversão para velhos e novos. Os “dumplings” simbolizam a união familiar e a felicidade. E são recheados com nozes, sésamo, pétalas de rosa ou carne e vegetais. O modo de cozinhá-los varia do Norte ao Sul da China.
O festival é também marcado por enigmas que são pendurados debaixo das lanternas para que todos possam ler. Enigmas que estão longe de serem convencionais. Um exemplo: “Em que cidade não existem mulheres?” A resposta é: Seul. O nome em chinês é “Han Cheng”, em que Han significa homem e Cheng, cidade.
É também a única altura em que as mulheres podem sair de casa para se divertirem sem sentirem o mínimo de culpa. Eis porque também é considerado o Dia Chinês dos Namorados. Uma oportunidade para os solteiros conhecerem a eventual cara-metade.
Tradicionalmente, lanternas de várias formas e feitios, de vários materiais, estão expostas em feiras de lanternas. Um símbolo da sabedoria e do dom para o artesanato do povo chinês, já que pode ser feito de palhinhas, vidro, melancia, papel ou seda.
Algumas lendas estão por detrás da origem do festival. Conta-se que o começou com a dinastia Han, quando um ministro ouviu uma empregada, chamada Yuan Xiao, a chorar porque não poderia regressar a casa por ocasião do Ano Novo chinês. Com pena, o governante dirigiu-se então ao Imperador e alegou que a cidade estaria destinada a ser destruída por um incêndio 16 dias depois do Ano Novo por ordem do Deus do Fogo. A população, amedrontada, perguntou ao ministro o que poderia fazer. Foi então que o governante afirmou que o Deus do Fogo iria disfarçar-se no 13º dia de mulher vestida de vermelho e que os populares deveriam encontrá-la. Assim, incitada pelo ministro, uma das empregadas, erguendo um vestido vermelho, andou pelas ruas da cidade no 13º dia do primeiro mês. Rapidamente, as pessoas se aperceberam que seria o Deus do Fogo. Assim que se aproximaram, a jovem entregou uma carta aos populares, dizendo que se tratava de um decreto do Imperador Jade dos Céus que devia ser entregue ao imperador. A carta dizia: “Terás azar! No 15º dia do primeiro mês, o Deus do Fogo incendiar-te-á.” Assim que leu o documento, o Imperador pediu ajuda ao ministro. Foi então que o governante incitou o Imperador a ordenar que todos os populares fizessem uma grande lanterna vermelha e a pendurassem no 15º dia. Os populares deveriam sair à rua para ver a lanterna, juntamente com o Imperador e todos os que vivessem no palácio. “Só assim o Deus do Fogo não o encontrará”, dizia o ministro. Como o Deus do Fogo não importunou o Imperador, desde então, em todos os 15º dias do primeiro mês lunar, toda a nação deverá celebrar com lanternas. Pelo menos, é uma das versões contadas da história.
Se se celebra ou não em Macau, é o que hoje se vai ver. Certo é que todos os contactados pelo Tai Chung Pou afirmaram nem se lembrar desse dia. Nem mesmo no site oficial do Turismo constava qualquer referência à data. Em 2005 e 2006, o Governo de Macau organizou uma série de actividades que incluíam jogos, teatro de marionetas, espectáculos de magia e ópera chinesa no Jardim Lou Lim Ieoc e no Largo do Senado. Quanto ao ano passado e ao corrente, nada está programado no site oficial.
Luciana Leitão, com Ina Chiu

Crónica de viagem ao Bangladesh

O país que são dois

Custam 29,9 dólares de Hong Kong e são de uma cor só. As t-shirts da H&M têm uma enorme etiqueta cosida no colar com a indicação “made in Bangladesh”. É uma forma simples de se ficar saber que o país tem uma indústria manufactureira com baixos custos de produção. As notícias sobre o Bangladesh que aparecem nos órgãos de comunicação social são, por norma, relativas a casos de corrupção ou a inundações. No entanto, o país parece que está a mudar lentamente. A questão que se coloca é até que ponto poderá ir a florescente classe média numa nação que padece sempre de algum mal.
Não é preciso dizer o que se vai fazer ao Bangladesh para facilmente se adivinhar o propósito da viagem. No avião, em pleno Ano Novo chinês, a hospedeira lamentava a sorte dos passageiros que, durante os feriados mais populares do ano, continuavam a ter que trabalhar. Com efeito, o turismo é área que quase não existe no país, sobretudo se o compararmos com o seu gigante vizinho, a Índia. À excepção do icónico edifício do Parlamento, desenhado pelo famoso arquitecto Louis Kahn, e de uma meia dúzia de memoriais, a capital do Bangladesh, Dhaka, bem como a segunda maior cidade, Chittagong, têm poucos locais que se possam classificar como sendo de interesse turístico.
Localizado entre a Índia e o Myanmar, antiga Birmânia, o Bangladesh era uma província isolada do Paquistão até ter conquistado a independência, corria o ano de 1971. Não obstante o facto de ter uma significativa reserva de gás natural (calculada em 135,8 mil milhões de metros cúbicos em 2006), a economia da nação islâmica tem estado estagnada desde a sua independência, à mercê de administrações corruptas e pouco eficientes.
O ambiente político que se vive nos dias que correm deixa poucas esperanças de que o país encontre o seu rumo. Em 2007, o presidente interino Iajuddin Ahmed cancelou as eleições e instaurou um governo de excepção apoiado no exército. As manifestações de rua e as greves estão terminantemente proibidas. Dois antigos primeiros-ministros, Khaleda Zia e Sheikh Hasina, continuam presos por corrupção e extorsão, respectivamente.
Para o final deste ano estão agendadas eleições mas os locais duvidam que o Governo cumpra a palavra dada. Quanto à corrupção (o Bangladesh é o 8º pior país neste parâmetro), está bem presente no quotidiano e não é nada difícil de detectar.
As infra-estruturas básicas não chegam a existir. As duas principais cidades do país não têm uma via rápida que as ligue. A companhia aérea nacional, recentemente privatizada, não tem verbas que lhe permitam fazer reparações nos DC-10 e A310, que acusam os anos de voo. O fornecimento de electricidade não é assegurado e todos os dias falha a luz. Não espanta, tendo em conta o contexto, que o Bangladesh não seja um destino turístico.
No entanto, existe uma outra dimensão na vida do país: a classe média (ou alta, dependendo dos padrões de avaliação). Os reluzentes jipes japoneses e as limusinas nas ruas de Dhaka são a fase mais visível do fenómeno, que ganha contornos mais explícitos no bairro elevado da capital, Gulshan. Os hotéis de luxo e os bons restaurantes, que também os há, conseguem contornar os problemas básicos, como o fornecimento de energia, com geradores próprios.
A vida próspera desta classe de elite também se sente em Chittagong, a segunda maior cidade do país, que tem o maior porto do Bangladesh. Além dos centros comerciais e dos edifícios de escritórios em vidro, obras recentes de arquitectura moderna, é possível encontrar restaurantes de luxo, como um buffet instalado num edifício “arte deco”, que tinha aberto as portas poucos dias antes da nossa visita. Um jantar neste elegante espaço, de nome Ambrosia, que até tem um porteiro a receber os clientes, custa apenas 300 takas, ou seja, menos de 40 patacas. Parece o valor perfeito, mas está longe de ser suportável para a maioria dos habitantes.
No primeiro dia passado em Chittagong, surgiu a oportunidade de conhecer Mohsin Musa, um bem-sucedido comerciante especializado em ferro-velho. Um convite para jantar em sua casa permitiu ter noção de como vive esta classe privilegiada de um país pouco afortunado. Mohsin Musa vive num condomínio fechado. A garagem na cave tem um elevador com acesso exclusivo ao apartamento no 9º andar. A casa, com duas salas de estar e três quartos de grandes dimensões, tem varandas a toda a volta, que permitem uma vista geral sobre Chittagong. Os preços praticados no mercado imobiliário subiram consideravelmente nos últimos anos mas, ainda assim, o apartamento onde vive Mohsin Musa custa 600 patacas por metro quadrado.
O repasto oferecido combina com o ambiente. A fruta é importada e a melhor carne, só para as visitas, é servida por volta das 22h00, hora a que por norma se janta no Bangladesh. A família não é numerosa, comparativamente com os agregados familiares que vivem em casas de menores dimensões.
As duas pequenas filhas gémeas do casal Musa dominam o reino do 9º andar e entretêm as visitas com demonstrações ao piano, resultado de aulas particulares. São felizes mas partilham um problema que afecta muitas crianças de Hong Kong e de Macau: os pais têm pouco tempo para elas. Ao contrário da maioria das mulheres da nação islâmica, a mãe trabalha – dá aulas numa escola primária.
A conversa passa a ter então como tema as empregadas domésticas e o facto de serem essenciais na manutenção do equilíbrio familiar e profissional. Musa explica que por 500 takas é possível ter uma empregada a tempo inteiro. Um jantar no Ambrosia custa 300.
E assim se regressa à realidade do Bangladesh, país profundamente dividido política e socialmente. O Produto Interno Bruto per capita foi estimado em 1400 dólares norte-americanos em 2007, um valor mínimo quando comparando com o PIB de Macau de 2006 (28.436 dólares). O sector dos serviços, onde se incluem as actividades comerciais, contribuiu para 52 por cento do PIB, mas apenas 25 por cento da população activa trabalha nesta área.
Em 2000, 28 por cento do consumo tinha sido feito pelos dez agregados familiares mais ricos do país, enquanto 45 por cento dos 150 milhões de bengalis viviam abaixo do limiar da pobreza, de acordo com cálculos de 2004. O desemprego é de apenas 2,5 por cento mas uma parte considerável dos recursos humanos emigrou para os países islâmicos do Médio Oriente. As remessas desta parte da população, calculadas em 4,8 mil milhões de dólares (2005-2006), são a locomotiva da economia do Bangladesh.
O grande número de emigrantes fez com que o país tivesse aberto o seu espaço aéreo, ente Outubro e Dezembro do ano passado, de modo a que os trabalhadores pudessem regressar aos países onde estão a viver. A companhia aérea Biman não estava a ser capaz de dar conta do recado. Uma situação semelhante viveu-se no Ano Novo Chinês. O aeroporto de Chittagong, porta de regresso à capital e a outros destinos mais longínquos, estava cheio de pessoas que se despediam dos seus familiares.
A higiene pública é uma das grandes preocupações do Bangladesh. Em Chittagong, os mercados de rua e o lixo que se acumula nas artérias da cidade fazem com que os mosquitos tenham as condições ideais para viverem e se reproduzirem à velocidade da luz. Existe um grande receio em relação à gripe das aves, uma vez que foram detectados vários casos em aviários do país, mas há corvos em todos os lados, à procura de restos no lixo.
O facto de se viajar num confortável carro com ar condicionado não apaga a realidade. No meio do trânsito, vêem-se vendedores de pipocas, toalhas, artesanato e até romances em inglês. Nos vidros dos automóveis batem ainda idosos, crianças, pessoas portadoras de deficiências e mães com filhos ao colo, que pedem esmolas.
Experienciados dois diferentes países num só, chega a hora do regresso. Faltava pouco para a meia-noite quando cheguei ao Aeroporto de Dhaka. Fora das instalações, colados às grades, dir-se-ia que estavam exactamente os mesmos rostos que me deixaram uma forte impressão aquando da minha primeira visita ao país, já lá vão oito anos. Não se sabe se esperam por alguém mas nota-se que, em vez de esperança, há um olhar de desespero. Estão talvez a aguardar a hora da saída.
Kahon Chan

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

AFM anunciou liga de profissionais para 2009, Quem faltava mais ao trabalho?, A poesia de Macau por Kelen

AFM anunciou liga de profissionais para 2009

Futebol de Macau em vias de crescimento

Não podiam ser melhores as notícias para o futuro do futebol em Macau. Imagine-se uma liga profissional, sem limite para jogadores estrangeiros por cada equipa. Este é um sonho antigo dos amantes do desporto-rei sem trono na RAEM que vai ser concretizado já no próximo ano. O anúncio foi feito pelo presidente da Associação de Futebol da RAEM (AFM), Chong Coc Veng, ao jornal de Hong Kong Ta Kung Pao. O Tai Chung Pou entrou em contacto com a associação, mas nenhum responsável se demonstrou disponível para declarações sobre o assunto.
A AFM está a planear criar uma divisão profissional de futebol que pode contar com quatro ou seis formações. Chong Coc Veng afirmou que até já existe uma designação provisória para a nova iniciativa: Super Liga de Futebol de Macau. Ao contrário das actuais divisões amadoras, afirmou o dirigente associativo, a profissional não terá limite de jogadores estrangeiros por equipa. Neste sentido, a AFM irá receber de braços abertos futebolistas de Hong Kong, do Sudeste Asiático e de África.
O passo de gigante que irá acontecer na modalidade desportiva na região deve-se ao desenvolvimento económico da RAEM. “A situação da economia de Macau está cada vez melhor e há muitas empresas privadas interessadas em investir no futebol”, explicou Chong Coc Veng.
Algumas operadoras de casinos confirmaram já o seu interesse em patrocinar as equipas, acrescentou o mesmo responsável. Segundo os cálculos da AFM, espera-se que a nova liga de profissionais implique despesas superiores a cinco milhões de patacas.
O percurso do actual campeonato de futebol de 11 de Macau pode caracterizar-se como um relvado esburacado. Há três divisões em disputa com um calendário que funciona aos altos e baixos. Um desses exemplos é o andamento da principal competição do território, isto é, a primeira liga.
São oito as equipas que disputam o mais importante título futebolístico da RAEM. Ao longo da época realizam-se 42 partidas, sem contar com a Taça de Macau. Todas no mesmo campo, o Estádio da Universidade de Ciência de Ciência e Tecnologia de Macau.
Este ano, o futebol local voltou a surpreender pela negativa. Em primeiro lugar, o campeonato foi suspenso até Maio para dar espaço aos jogos da Taça. Entretanto, todas as competições foram suspensas devido à saturação do relvado por excesso de utilização. Os jogadores foram obrigados a pendurar temporariamente as chuteiras e esperar que a relva cresça.
A par do amadorismo, o desporto-rei no território é influenciado pela falta de espaço. São poucas as formações que organizam treinos regulares devido aos problemas de aluguer de campos. Algo que prejudica bastante a prestação dos atletas e o espectáculo do futebol. O resultado? Bancadas praticamente vazias.
Desde o ano passado, a vida das equipas da RAEM tornou-se ainda mais difícil. Primeiro surgiu a aplicação das restrições à emissão de vistos individuais em várias províncias do Continente. Esta situação causou algumas mossas nas estratégias dos clubes cujas formações são reforçadas por futebolistas que chegam do outro lado da fronteira, nomeadamente da província de Guangdong.
Pouco tempo depois, a AFM anunciou a aplicação de uma nova regra imposta pela FIFA e pela Confederação Asiática de Futebol. Os jogadores de futebol titulares de BIR de residente não permanente deixaram de ser considerados locais e passam a integrar o grupo de estrangeiros aos olhos da organização.
Tal obrigou novamente as equipas a uma reestruturação para poderem participar no campeonato. Tudo porque a AFM limita o número de estrangeiros a oito por formação e a quatro por partida. Actualmente, são cerca de 25 os atletas que alinham na primeira divisão do campeonato de futebol de Macau.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Cunhada de Ao Man Long e coordenadora-adjunta do GDI trocam acusações

Quem faltava mais ao trabalho?

Ambas trabalhavam na Lei Pou Fat, uma empresa de capitais maioritariamente públicos. A cunhada de Ao Man Long, Ao Chan Wai Choi, exercia as funções de empregada de limpeza e estafeta, enquanto a coordenadora-adjunta do Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-Estruturas (GDI), Pun Pou Leng, era uma das representantes do Governo. Uma troca de acusações sobre a assiduidade no trabalho foi o que se ouviu ontem no decorrer de mais uma audiência de julgamento do caso conexo ao de Ao Man Long no Tribunal Judicial de Base (TJB). Quem lançou a farpa foi Pun Pou Leng. Ao Chan Wai Choi ripostou.
Na empresa em que também o antigo coordenador do GDI, Castanheira Lourenço, detinha funções, Pun Pou Leng afirmou que o antigo secretário para as Obras Públicas e Transportes “deu o nome de uma pessoa a Lourenço e disse que arranjasse um posto para ela”. Essa pessoa, de acordo com a testemunha, era Ao Chan Wai Choi. “Sei que ela tinha funções simples – entrega de documentos e limpeza”, disse perante o colectivo de juízas. E realçou ainda o salário “acima da média” da funcionária.
Apesar de assumir que apenas comparecia na empresa Lei Pou Fat “em média, uma vez por semana”, foi rápida em afirmar que a cunhada do antigo governante “não era muito pontual” e “faltava muitas vezes”. Tudo porque tinha ouvido comentários de outros trabalhadores. Em resposta ao advogado Pedro Leal, a coordenadora-adjunta afirmou que “trabalhava na empresa apenas em tempo parcial”. E, garante, “das vezes que lá ia não via a arguida”. Declarações que repetiu várias vezes. E que motivaram um pedido de uso da palavra por parte da arguida Ao Chan Wai Choi.
“Falou de faltas. Mas quando não estava disponível eu avisava sempre a secretária e combinávamos as horas para trabalhar”, afirmou. E realçou que, em algumas das ocasiões em que a representante do GDI se deslocava às instalações da empresa Lei Pou Fat, a cunhada de Ao Man Long “estava dentro do quarto”, não tendo, por isso, sido avistada. O que, destaca, “não quer dizer que não esteja em serviço”. Não deixou, contudo, de vincar que Pun Pou Leng comparecia “uma vez por mês” e não uma vez por semana.
Uma acusação que mereceu um contra-ataque por parte da coordenadora-adjunta do GDI. “Estou a referir-me a um período que começa em 2001. Desde o ingresso dela, o desempenho foi sempre assim”, reforçou. Um desempenho marcado por “muitas faltas”, reiterou.
Recorde-se que a referência à empresa Lei Pou Fat foi uma novidade em relação ao que já tinha sido referido no depoimento prestado pela testemunha no Tribunal de Última Instância (TUI) e que tal não consta da matéria de acusação. Inquirida pelos delegados do Ministério Público, pelo colectivo de juízes e por dois advogados durante quase quatro horas, a sessão de ontem acabou por se arrastar, resultando no adiamento do depoimento do antigo coordenador do GDI, Castanheira Lourenço, para a próxima segunda-feira.

Chutar para cima

Foi a testemunha mais importante do dia de ontem. Pun Pou Leng respondeu sobre os projectos que surgem associados a Frederico Nolasco e à CSR e repetiu o que já tinha afirmado perante o Tribunal de Última Instância. Em destaque esteve a Estação de Tratamento de Resíduos Sólidos e Perigosos e o aumento de 60 para 90 milhões do contrato atribuído à CSR, dispensando um novo concurso público. Aumento que, garante a coordenadora-adjunta do GDI, surgiu por indicação do secretário.
Pun Pou Leng pedia opiniões a Ao Man Long principalmente no que toca aos resíduos sólidos e tratamento de águas residuais. Opiniões meramente técnicas. E, garante, nunca recebeu instruções para alterar as pontuações de concursos públicos. No que toca à adjudicação à CSR da Estação de Tratamento de Resíduos Especiais e Perigosos, Pun Pou Leng assegurou que não pediu a opinião do antigo secretário para as Obras Públicas e Transportes. Apenas afirmou que o antigo governante veio a indicar um aumento do volume de resíduos a tratar de 12 para 24 toneladas, resultando no aumento de 60 para 90 milhões de patacas. A alteração do contrato não resultou num novo concurso público. A testemunha afirmou ainda que tal deve-se a empresas como a CEM que apenas tomaram conhecimento do estudo realizado pelo Governo depois de lançado o concurso público.
“Não teve a ver com instruções emitidas pelo engenheiro Lourenço, mas por necessidades sentidas quando as empresas afirmaram que tinham lixo para ser tratado só depois do concurso”, assegura. Destaque para um pormenor revelado pelo causídico Luís Pinto - o de que existe uma norma que figura no contrato que permite ao dono da obra concordar com alterações sem lançar um novo concurso público. A testemunha acabou por afirmar que “não se recorda” da existência de tal norma.
Quanto à renovação do contrato de “quase exclusividade” de recolha de resíduos sólidos que liga o Governo e a CSR, Pun afirmou que não seria necessário um novo concurso público, já que, depois de sete anos de contrato, seria “aceitável” uma renovação automática, tal como aconteceu em 1999. Até porque, depois de falar com o secretário, chegou-se à conclusão de que “uma empresa concessionária com uma equipa fixa no que toca a esta prestação de serviços, é melhor manter do que lançar um novo concurso”.
No que toca à atribuição à CSR do projecto-piloto de recolha automática, de acordo com Pun, faria sentido que coubesse à empresa habituada a lidar com os resíduos sólidos de Macau. Tanto que tal foi incluído na renovação do contrato entre a CSR e o Executivo.
A coordenadora-adjunta do GDI afirmou, por diversas vezes, que consultou o antigo governante apenas porque este tinha conhecimentos na área. E vincou que não foram dadas quaisquer indicações para alterar os resultados dos concursos.
Numa sessão marcada pela inquirição da testemunha Pun Pou Lei, foi ainda ouvido um assessor do GDI que participou no concurso para o pavilhão desportivo do Instituto Politécnico de Macau e nos arruamentos junto ao Jardim das Artes. Em nenhum dos casos houve grelhas provisórias ou foram dadas indicações por parte do superior hierárquico no sentido de alterar pontuações, de acordo com a testemunha.
Luciana Leitão

Kit Kelen fala hoje da poesia de Macau no Instituto Ricci

Um lugar ao sol para os poetas locais
Vai falar-se em rima hoje no pequeno auditório do Instituto Ricci de Macau (IRM). Christopher (Kit) Kelen é o orador do fórum mensal da instituição local. Ao longo da sessão, o professor de escrita criativa da Universidade de Macau vai apresentar alguns dos poemas que farão parte da primeira antologia de poesia “made in” Macau publicada em língua inglesa no território. Uma obra cujo lançamento está agendado para o final deste ano e que tem a missão de “mostrar ao mundo que a RAEM não é apenas um local onde se passa meio dia e se pode gastar dinheiro”. As quadras e os sonetos são o ponto de partida da tese defendida por Kit Kelen. Tudo poderá ser conhecido “in loco” ali perto da Praça do Tap Seac, pelas 18h30.
“Macau não é uma cidade que se esgota nos casinos ou no turismo. Há todo um património cultural para mostrar ao mundo. Este território tem grandes oportunidades ao nível das artes, principalmente do ponto de vista da poesia”, sustentou Kit Kelen em declarações ao Tai Chung Pou.
Ao longo da sessão do fórum mensal do IRM, o docente de origem australiana vai apresentar os dois novos projectos da Associação de Estórias de Macau (AEM), uma organização da qual é um dos principais dinamizadores. O primeiro é uma antologia de poesia de autores locais portugueses, chineses e ingleses. A obra será publicada em língua inglesa e já conta com 36 poemas. Contudo, o objectivo é lançar uma compilação de cerca de 60 textos.
“Estou surpreendido com a quantidade de bons poetas que existem no território. Como tal, acho que se pode dizer que Macau é uma cidade de poetas e que é mais um ponto de cultura do que um destino de casinos”, sublinhou.
A par da antologia, a associação está ainda a preparar um segundo livro. Esta publicação servirá de apoio à compilação de poemas, na medida em que pretende explicar o contexto dos trabalhos. Isto é, quem são os poetas, de onde vêm, o que fazem e o que representa Macau para o seu sujeito lírico.
Os títulos dos livros ainda não estão definidos, mas já se sabe que o segundo volume estará disponível nas montras das livrarias no próximo ano. É preciso trabalhar rapidamente e com afinco, porque estas duas obras são “essenciais” para a cultura literária da RAEM. E porquê?
“Uma grande quantidade de excelente poesia está a ser produzida hoje em dia em Macau e é preciso torná-la acessível ao público internacional”, explica Kit Kelen. Por um lado, o mundo precisa de novos poemas, por outro, as vozes do território necessitam de ser ouvidas. É esta a convicção do também poeta e autor de várias obras literárias.
Para lá das mesas de apostas, efeitos visuais dos néons e aglomerados de visitantes, a RAEM tem uma necessidade que já se tornou “aguda”. A cidade “precisa de se apresentar ao exterior como um lugar onde existe produção cultural séria”, frisou.
Para os poetas locais conquistarem um lugar ao sol no cenário internacional basta pouco, diz Kit Kelen. A poesia de Macau prima por possuir características próprias, algo que surge por transferência da essência desta terra.
Por poesia local entende-se versos escritos por residentes ou por outros autores que escrevem sobre o território. “‘Sobre Macau’ é algo que abrange toda uma gama de elementos, porque a região pode ser encarada como um estado de espírito. Este conceito sugere muitas coisas. Por exemplo, o facto de ter sido durante muito tempo um portal entre a China e o Ocidente, a sede do Império Português no Oriente. Foi também a antiga cidade do nome de Deus ou dos deuses”, exemplificou.
O território é um local de boa sorte. Um lugar de ociosidade tropical. Uma cidade à beira do rio com aspirações litorais. Um sítio de desconfiança e dissimulação. Miscigenação e interacção cultural. Tudo isto é Macau e a sua poesia, conclui.
No fórum mensal do IRM, que hoje terá Kit Kelen como personagem principal, haverá ainda lugar para promover o novo jornal on-line de poesia da RAEM – o Poetry Macao. A publicação virtual de cariz internacional pretende ser um espaço partilhado por poetas locais e estrangeiros.
A mais recente aposta da Associação de Estórias de Macau concede ainda a oportunidade dos autores discutirem cada poema, além de oferecer traduções de textos originalmente produzidos em chinês ou noutras línguas que não a inglesa. De acordo com o coordenador do projecto, Kit Kelen, o próximo trabalho que será disponibilizado na página de Internet será uma colecção de poemas sobre o Ano do Rato. “A intenção é publicar suplementos anuais baseados em cada ano do calendário lunar chinês”, avançou o mesmo responsável.

De escudo e espada pela poesia de Macau

Antero de Quental, poeta português, defendia a poesia enquanto arma social. Em Macau, há também um guerreiro que utiliza as rimas como instrumento de combate. O propósito é, no entanto, bem diferente. As batalhas de Christopher (Kit) Kelen pretendem conquistar visibilidade e importância para os poetas da terra, tanto ao nível local como internacional.
Desde os anos 1970, que o professor de Escrita Criativa e Literatura da Universidade de Macau publica poemas e obras literárias no contexto internacional. O trabalho mais recente do autor de origem australiana foi lançado no ano passado pela editora Cinnamon Press no Reino Unido.
Na RAEM, Kit Kelen reside há cerca de sete anos. Os projectos desenvolvidos são inúmeros e diversificados. Além de ser editor do jornal on-line Poetry Macau, o professor universitário é responsável pela secção de poesia da revista mensal cultural “Macao Closer”.
O departamento da Universidade de Oxford de Literatura Australiana define Kelen como um autor dotado de uma típica argúcia inovativa e intelectual. O australiano licenciou-se em Literatura e Linguística na Universidade de Sydney, possuindo ainda um curso de grau de doutoramento sobre o ensino do processo da escrita.
Kit Kelen colecciona também vários prémios. A primeira distinção surgiu em 1992, pelo seu primeiro livro de poesia intitulado “The Naming of the Harbor and the Trees”. O território é uma das suas temáticas de eleição. O seu longo poema intitulado “Macau” foi nomeado para o prestigiado prémio Newcastle Poetry.
Alexandra Lages