domingo, 21 de outubro de 2007

A cidade por Harald Bruning

Harald Bruning, jornalista e director do Macau Post Daily

Um alemão na cidade

É exactamente metade da vida passada num continente que não é seu, mas que é já a casa principal, embora as origens estejam onde cresceu. Macau é mesmo assim, é um ponto de passagem para alguns, de fixação para outros, e o encanto vem de todas as pessoas que, não sendo de Macau, acabam por o ser, independentemente da nacionalidade, juntando-se às outras que sempre foram de cá.
Harald Bruning, nascido alemão, 54 anos de idade, chegou à Ásia há 27. Jornalista e director do Macau Post Daily, vive em Macau desde 1985 e o regresso ao país natal é uma hipótese que deixou de equacionar já lá vai algum tempo. É o jornalista estrangeiro com um maior número de anos numa redacção de língua chinesa mas, curiosamente, foi o facto de falar português que lhe abriu a porta de Macau.
É uma vida cheia de coincidências e pormenores. Sentado no meio da redacção que dirige, num edifício no centro da cidade de onde se vêem os telhados mais antigos da urbe, Bruning começa a história pelo início, pelas memórias que deixou a uns milhares de quilómetros de distância. “No meu passaporte está o nome de uma terra que não conheço. Talvez um dia vá lá”, conta. O jornalista fala do parâmetro “naturalidade”, uma curiosidade em relação ao local onde nasceu.
“Foi por acidente. O meu pai era militar, a minha mãe foi visitá-lo e eu nasci num complexo militar, num local que nunca mais visitei. Duas semanas depois voltámos para a cidade onde cresci”, relata. “Nasci na fronteira com a França mas considero-me da Baixa Saxónia, toda a minha família é de lá”.
Licenciado em Ciências Políticas e Económicas, começou a aprender português nos tempos de estudante universitário, em Munique. Do liceu levava já conhecimentos de espanhol e foi essa a razão pela qual decidiu aprender português, longe de imaginar que um dia lhe seria útil na Ásia. “Em muitas escolas da Alemanha o espanhol é uma das língua estrangeiras ensinadas. Quando fui para a universidade, tinha que estudar pelo menos dois idiomas estrangeiros, e achei que o espanhol e português eram parecidos”. Não demorou muito a perceber que “na realidade não é bem assim”. Passados 27 anos, o espanhol caiu quase no esquecimento, o português nem por isso.
Curso acabado, o jovem Harald Bruning mudou-se para Hong Kong, no primeiro ano da década de 1980. “Parte da minha família vivia lá, tinham negócios” na então colónia britânica. Com a Ásia chegou a entrada no mundo do trabalho porque, à excepção de algumas traduções em “part-time” quando era estudante, não tinha chegado a ter na Alemanha uma experiência profissional propriamente dita.
“Em Hong Kong, trabalhei para a empresa dos meus familiares durante dois anos. Por uma coincidência engraçada, eram agentes da empresa que equipou a Teledifusão de Macau”. Foi no papel de mediador dos aspectos contratuais para o equipamento da TDM que Bruning veio para Macau e conheceu a cidade, onde até então só tinha vindo nuns rápidos passeios turísticos. O motivo pelo qual foi escolhido para a tarefa era simples: falava português, a língua da Administração da altura. A Teledifusão de Macau foi equipada, começou em as emissões em 1984. Pouco depois, Harald Bruning mudou-se para o território.
Cinco anos depois de ter aterrado no Oriente, o licenciado em Ciências Políticas e Económicas ainda ponderou a possibilidade de regressar à Alemanha para continuar a estudar. “Gostei de Macau, decidi ficar na Ásia, mudei-me para cá”, situa. Mais de vinte anos volvidos, diz não pensar em regressar ao país natal, até por causa da profissão e do idioma em que a exerce. É que Macau representou uma mudança de rumo em termos profissionais.
“Comecei a trabalhar para o jornal Va Kio, andavam à procura de um jornalista estrangeiro”, lembra o homem que esteve quase duas décadas na redacção do segundo jornal local em língua chinesa mais lido em Macau. Ao trabalho no Va Kio juntou-se a tarefa de correspondente da agência United Press Internacional (UPI). “O correspondente da UPI tinha deixado Macau nessa altura, tinha ido para Taiwan, e estavam à procura de alguém que falasse português. Foi uma coincidência feliz”.
Da Alemanha, Harald Bruning trazia a licenciatura e no currículo uns artigos que tinha escrito para jornais, ainda no tempo de estudante. Foi Macau e a UPI que o fizeram jornalista. “Gostei muito da experiência na UPI, na altura era uma das maiores agências do mundo, tinham um escritório em Hong Kong. Aprendi a escrever notícias, ensinaram-me a fazer um ‘lead’, como ser independente, objectivo, qual a utilização das fontes”, recorda.
Em simultâneo, decorria a vida no Va Kio, que foi “muito agradável” e durou até 2004, ano em que lançou o Macau Post Daily. Ainda nas décadas de 80 e 90, Bruning teve outras experiências enquanto correspondente, primeiro no Hong Kong Standard, onde esteve 12 anos, mais tarde no South China Morning Post. O mundo das agências noticiosas foi sempre acompanhando o percurso do jornalista. Depois da UPI, seguiu-se a Reuters, que deixaria também há três anos, quando passou a estar à frente do jornal em língua inglesa.
“É um trabalho a tempo inteiro, tive que largar tudo”, explica, falando da publicação que é feita no amplo espaço da Avenida Almeida Ribeiro. “O Macau Post é detido pelas pessoas que o fazem, os jornalistas, um dos accionistas está ligado ao negócio da impressão”, contextualiza o director. “Esta ideia de lançar um jornal em inglês era comungada por várias pessoas, mas não fazíamos ideia do quão difícil seria. Não sei se faria o jornal outra vez, mas a partir do momento em que se tem um bebé não se pode, simplesmente, desistir”, lança.
O Macau Post Daily é o projecto editorial privado em língua inglesa com mais tempo de publicação. Entrou já no quarto ano de vida. Na década de 90 e já depois da mudança de milénio, foram feitas tentativas que acabaram por não resistir. O jornal dirigido por Bruning bateu já o recorde em termos de números publicados e veio preencher uma lacuna da imprensa diária, até então feita nas línguas chinesa e portuguesa.
O jornalista lembra que “mesmo nos anos 80, as pessoas perguntavam porque é que Macau não tinha um jornal em inglês”. “Várias cidades da Ásia, como Banguecoque, Taipé e Hong Kong, tinham já duas ou três publicações em inglês, mas Macau não tinha, o que era estranho. Mesmo agora não é fácil”, constata.
Nos últimos tempos, o número de potenciais leitores aumentou, dada a expansão em Macau da comunidade que só lê jornais em inglês, mas este crescimento do núcleo anglo-saxónico corresponde a um fenómeno que em nada parece ajudar à imprensa inglesa: a absorção da mão-de-obra pelos casinos.
Bruning afirma que “um dos maiores problemas são os recursos humanos, é difícil encontrar pessoas que escrevam para um jornal em língua inglesa”. A dificuldade não é só o idioma em que se trabalha, “é preciso juntar a isto alguns conhecimentos sobre Macau”. Se já não era fácil quando o projecto foi lançado, agora ainda é pior, “porque faltam recursos humanos em todas as áreas, as pessoas que têm um bom nível de inglês não acham que seja muito atractivo trabalhar num jornal e vão para a área de relações públicas”.
Ao contrário do que aconteceu com Harald Bruning, que encontrou no jornalismo a profissão de uma vida, é comum “os jovens que estudam Comunicação optarem por serem relações públicas, o que é compreensível, porque nos jornais trabalha-se à noite, aos fins de semana, tem que se estar sempre alerta”. “O jornalismo não é só um trabalho, é uma paixão, uma vocação. Se alguém entra na profissão sem paixão vai sentir-se infeliz rapidamente, porque não é um emprego das 9 às 5”, resume.
Pouco tempo depois de ter saído para as bancas, o Macau Post Daily sofreu uma reestruturação ao nível da equipa. “Olhando para trás, talvez tenha sido um bebé prematuro, teve vários pais e talvez mais do que uma mãe”, diz com um sorriso. “De qualquer forma, sobreviveu miraculosamente e agora vai no quarto ano de vida, espero que vá crescendo e seja um adolescente”.
Se nos anos 80 o jornalista ainda pensou em regressar à Europa, na década de 90 deixou pura e simplesmente de pensar nisso e agora, com um projecto em mãos, a ideia está ainda mais distante. As razões são várias, desde logo o facto de, a determinada altura, ter adoptado a língua inglesa como instrumento de trabalho. “Quando comecei a trabalhar em jornalismo na Ásia, ainda escrevi artigos em alemão, para publicações na Alemanha. Depois, deixei de o fazer, passei a escrever só em inglês. Conheço outros casos de jornalistas alemães, holandeses ou suecos que têm o mesmo problema, porque tiveram que tomar uma decisão em relação à língua e optaram por aquela em trabalham”. No caso de Bruning a escolha da escrita em inglês nem sequer foi uma decisão, “aconteceu naturalmente”. “Consigo escrever em alemão mas para fazer um artigo precisava do triplo do tempo que demoro a escrever em inglês”, sorri.
Depois, entra ainda em linha de conta o facto de Macau ser “a casa principal”. “Não precisamos de deixar a nossa identidade para termos outra casa. No meu caso até já é a principal, mas serei sempre diferente das outras pessoas de Macau, porque sou alemão, tal como acontece com os portugueses ou os fujianenses”, aponta. Lembrando Marlene Dietrich, “que deixou o país por causa desse monstro chamado Hitler, nunca voltou a viver na Alemanha e morreu em Paris”, explica que num documentário filmado pouco tempo antes de morrer, “disse que tinha nascido alemã e iria morrer alemã”.
Em Harald Bruning a noção de identidade é semelhante e defende que “todas estas pessoas devem continuar a ser o que são, porque é isso que faz com que Macau seja interessante, é um local onde não nunca assisti a nenhuma declaração de racismo aberto”.
Para o jornalista alemão, que tem a capacidade pouco vulgar de perceber o que se passa nas ruas - quer as conversas sejam em cantonês, em português ou em inglês, porque domina as três línguas -, “é notável” a forma como as diferenças convivem em Macau, “sendo um local tão pequeno”.
“Penso que será pelo facto de as pessoas daqui terem uma noção grande de tolerância, o que significa, frequentemente, serem permissivas. Isto tem um lado negativo e outro positivo”. A cidade tem uma forma de “auto-gestão” que agrada a Bruning, em contraste com alguma falta de flexibilidade europeia.
Em relação à urbe que vê da varanda da Almeida Ribeiro, o jornalista encontra diferenças óbvias quando compara à cidade pacata para onde decidiu mudar-se, mas não são tantas quanto isso. “Os edifícios são diferentes e as pessoas também, mas Macau, quando cá cheguei, já era uma contradição e continua a ser”. Bruning precisa: “É uma contradição em termos de pessoas, de edifícios, de ambiente, gastronomia. Há igrejas ao pé de casinos, prostitutas ao pé de freiras... O aspecto interessante é que tudo isto convive num espaço muito pequeno, porque noutras cidade tudo isto também existe mas há um espaço que Macau não tem”.
Nada disto é novo, “é mais rápido agora e mais visível, mas lembro-me de que nos anos 80 as pessoas já diziam que vinte anos antes Macau era muito melhor”, ri. “Conhecia pessoas em Hong Kong que conheciam a Macau dos anos 60 e diziam ‘não, a Macau real era nos anos 40’. Tenho a certeza que em 1940 se dizia isso dos anos 20”. Harald Bruning considera que “faz parte da identidade de Macau estar sempre a queixar-se de que está a mudar, mas esta mudança constante faz parte da sua identidade, no sentido em que, na essência, não se altera assim tanto”.
Macau tem “uma identidade muito forte” e o jornalista entende que não são as fronteiras que mantêm essa noção de pertença. “Macau é mais antiga que a maioria dos estados, sobreviveu ao longo de 450 anos como sendo algo diferente, minúscula num país que é colossal”. Bruning detecta uma “fronteira espiritual e uma energia suficiente para continuar a ser diferente, porque as pessoas gostam de ser diferentes, o que não significa ser contra a China”, porque “Macau faz parte dela, mas é uma parte muito especial do país, e é também um bocadinho portuguesa, o que é simpático”.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

sábado, 20 de outubro de 2007

O mundo em redor - Viagem à Mongólia

Mongólia, o país do céu azul

A terra dos 260 dias de sol

Não há setas ou tabuletas com indicação de distâncias ou direcções. Viajar pelo interior da Mongólia pressupõe seguir os trilhos já traçados pelos anteriores pneus e confiar nos conselhos das gentes locais. “Vá em frente uns 30 km, quando vir um templo vire à esquerda, conduza até ao monte, contorne-o pela direita e siga depois pela jusante do rio.”
Nem sempre, porém, é fácil encontrar este mapa descritivo, no país que tem a mais baixa densidade populacional do mundo, com apenas 1,4 pessoas por quilómetro quadrado.
Esses caminhos que serpenteiam parte dos 1,5 milhões de quilómetros quadrados daquele que foi o segundo país comunista do mundo devem estar para ficar. Numa recente sondagem realizada no país, a maioria dos quase 3 milhões de mongóis defendeu ser contra o pavimento das “estradas” do país. Uma questão de preservação da natureza, dizem.
A saída da capital da Mongólia, Ulan Bator, cria uma ilusão de curta duração. São quilómetros de cimento e sinalização que, quando menos se espera, dão lugar a pura natureza.
As mini carrinhas de fabrico russo, com dois tanques de combustível e muitos anos de rodagem, são o transporte mais comum nestas paragens.
Senhoras e senhores, apertem os cintos, a viagem vai começar!
Um espírito mais desatento pode pensar estar perante uma espécie de pónei, dado o tamanho dos cavalos do país. Dizê-lo, porém, pode ser uma ofensa dado o orgulho nacional no cavalo mongol. As dúvidas quanto à idade e maturidade do animal dissipam-se depois de proferidas, de preferência com voz grossa, as palavras “tchu tchu”, que fazem os cavalos disparar para o lado que lhes convier.
A primeira paragem, depois de 373 km (feitos a uma velocidade máxima de uns 50 km/hora) e dois pneus furados, é Kharkhorin. Foi para este local que, em 1220, Genghis Khan decidiu mudar a capital mongol. Um protagonismo político, cultural e económico de apenas 40 anos. A capital que se seguiu foi Khanbalik, ou se preferirem, Pequim.
Kharkhorin passou pelo abandono e pela destruição dos soldados manchus, já no fim do século XIV. Foi preciso esperar mais cerca de 200 anos para nascer ali o primeiro mosteiro budista da Mongólia, o Erdene Zuu Khiid. Demorou 300 anos a concluir e muito menos a destruir durante as purgas estalinistas da década de 30 do século passado. Apesar de ser uma sombra do que era, Erdene Zuu Khiid é o mais importante mosteiro do país, sobretudo após o colapso do comunismo, em 1990, e consequente regresso da liberdade religiosa.
Não é preciso ir a Kharkhorin para sentir de perto Genghis Khan. A referência nacional é omnipresente. Quando menos se espera lá está ele - em retratos pendurados nas casas ou nas tendas nómadas, desenhado numa montanha ou dando nome e cara a marcas de cigarros e vodkas.
Não está confirmado mas já não se livra da fama o homem que uniu a maioria das tribos e declarou, no início do século XIII, a formação do império mongol. Recentes testes de ADN a cromossomas Y provam que mais de 16 milhões de homens na Ásia Central partilham um antepassado comum que viveu no século XIII. Devido às vastas conquistas, territoriais e amorosas, acredita-se que Genghis Khan é o homem de que se fala.
A viagem pelo centro da Mongólia segue até Terkhiin Tsagaan Nuur, ou melhor, Grande Lago Branco. Num país de muitos lagos, este, de água doce, formado há milhares de anos por correntes de lava e rodeado de crateras de vulcões extintos, distingue-se. Em conjunto com as montanhas e as várias espécies de aves, o lago dá forma ao Parque Nacional Khorgo-Terkhiin Tsagaan Nuur.
Aos problemas mecânicos rotineiros, adiciona-se ao percurso o constante tráfego animal, típico das estepes, na recta final do Verão. Cabras, ovelhas, cavalos, iaques ou vacas são de desvio obrigatório. Um atropelamento pode custar vários salários aos condutores locais. Cerca de 40 mil tugrik (cerca de 270 patacas) é o preço a pagar pela vida de uma cabra. Um cavalo pode custar dez vezes mais. No caso dos iaques as negociações podem ser mais complexas, tendo em conta estar-se muitas vezes perante uma raça indefinida, dado o frequente cruzamento entre vaca e iaque. No topo da tabela de preços está o camelo, mais presente no sul do país, nomeadamente no deserto de Gobi, que se estende pela China. O animal vale um milhão de tugrik (cerca de 6700 patacas), num país onde um terço da população vive com menos de 240 patacas por mês.
Os caminhos do norte vão todos dar ao Parque Nacional do lago Khövsgöl: 2760 quilómetros quadrados de lago alpino, dezenas de montanhas que sobem para lá dos 2 mil metros, densas florestas de pinheiros, prados a perder de vista. Há recordes para quase tudo: o segundo maior lago em superfície do país (136 km de comprimento e 36 de largura), o mais profundo (262 metros) na Ásia Central, o segundo mais velho do globo e a 14ª maior fonte de água doce do mundo.
A passo ou a trote, os cavalos são o transporte ideal para percorrer parte dos 838 mil hectares de parque. Um espírito mais desatento pode pensar estar perante uma espécie de pónei, dado o tamanho dos cavalos do país. Dizê-lo, porém, pode ser uma ofensa dado o orgulho nacional no cavalo mongol. As dúvidas quanto à idade e maturidade do animal dissipam-se depois de proferidas, de preferência com voz grossa, as palavras “tchu tchu”, que fazem os cavalos disparar para o lado que lhes convier.
As tendas nómadas, plantadas aqui e ali nas estepes, são o mais parecido que existe com estações de serviço. Num país em que 25 por cento dos habitantes são nómadas e outros 25 são seminómadas, as tendas brancas circulares fazem são elementos indissociáveis da paisagem. Por tradição, a porta da habitação itinerante, que em média se monta e desmonta em menos de hora e meia (quatro braços são suficientes), abre-se para todos: vizinhos nómadas, turistas estrangeiros, caixeiros-viajantes, camionistas.
Uma salamandra ao centro com a chaminé a sair para fora da tenda, duas ou três camas à volta do perímetro, um ou outro móvel típico bastante colorido, e estão feitas as apresentações das “casas” de metade da população do país. Por vezes, pendurados na tenda a secar, há pedaços de carne, carregada de gordura.
No exterior, já vão sendo frequentes as parabólicas, essenciais para ter acesso a uma televisão. As visitas são brindadas com chá com leite, queijos ou até mesmo com süütei budaa, uma espécie de arroz doce à moda mongol. O barbecue é outra das especialidades do cardápio nacional, feita com a ajuda de pedras, da salamandra e de uma panela. Após 30 minutos de “molho”, as cerca de 15 pedras são retiradas das chamas e colocadas dentro de um tacho com água a ferver, ao mesmo tempo que se colocam os legumes e a carne. Mais 40 minutos, com o tacho fechado ao lume, e o barbecue está pronto a servir.
No regresso à capital, a estrada ganha alcatrão e sinais de trânsito. Amarbayasgalant Khiid é o último desvio. O mosteiro ocupa um dos três lugares do pódio do Budismo da Mongólia, o mesmo que é praticado no Tibete. Perdido nas estepes, talvez por isso tenha quase escapado às épocas mais conturbadas da história do país. Construído no século XVIII por um imperador manchu (que lhe deu o estilo arquitectónico), durante os ataques comunistas de 1937 “apenas” perdeu 10 dos 37 templos.
No final do Verão, as noites, que se espreguiçam para temperaturas negativas, já não rimam com acampamentos e tendas de campismo. As respostas possíveis são os gers turísticos, tendas semelhantes às utilizadas pelos nómadas, com a diferença de que, por vezes, nas imediações do “complexo”, há água para o banho. Condição essencial, mesmo no final do Verão mongol, é existir madeira suficiente para alimentar durante toda a noite a salamandra, colocada ao centro do ger.
Nas zonas remotas, menos turísticas, ou caso o jipe não colabore no andamento, pernoitar (gratuitamente) na tenda de uma família nómada, na sorte de se encontrar uma, é a única solução, mesmo que isso signifique colocar na horizontal 9 ou 10 corpos numa só tenda.
A viagem, de cerca de 2 mil quilómetros, pelo centro e norte da Mongólia saldou-se em 9 pneus furados, uma avaria nas mudanças e um acidente que resultou no eixo da viatura partido (consertado, 17 horas depois, pelo próprio condutor, isolado nas estepes).
Nota da autora: qualquer semelhança com a realidade, não é pura coincidência.

Texto e fotografia: Mariana Palavra






sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Hong Kong em Macau através da imprensa, "Ainda há pastores?" em discurso directo

Ou Mun lidera tabela de vendas e jornais de Hong Kong estão logo a seguir

Há espaço para todos


A maioria dos grandes jornais em língua chinesa de Hong Kong tem mais sucesso em Macau do que as publicações diárias escritas localmente. O jornal Ou Mun, no topo das vendas, é a excepção que confirma a regra. Os restantes matutinos parecem não entusiasmar os leitores da RAEM ou, pelo menos, quando chega a hora de ir à banca adquirir a leitura do dia, as preferências vão para o Ou Mun e, logo a seguir, para a imprensa produzida na antiga colónia britânica.
O fenómeno não é novo, há já muito que a comunicação social da região vizinha influencia Macau, mas não deixa de ser digno de registo, considerando que, em teoria, compete aos “media” espelharem determinado contexto social, criando uma relação de proximidade com o leitor alvo. Hong Kong não fica longe, o jornalismo feito lá presta atenção ao que se passa em Macau, mas não é concebido, originalmente, com o intuito de captar o leitor da RAEM.
Os jornais de Hong Kong à venda em Macau custam mais uma pataca do que no local de origem. Os leitores não têm qualquer problema em adquirir um produto que não foi concebido a pensar neles nem nos assuntos que os poderão interessar mais. O que têm, então, de especial os jornais dos vizinhos?
Não existem estatísticas em relação à venda de publicações diárias, pelo que é difícil encontrar números certos. A responsável por uma banca no Largo do Senado explica que o Ou Mun, o produto caseiro bem-sucedido, vende, por norma, mais cinquenta por cento do que os restantes títulos disponíveis, incluindo os que vêm de Hong Kong.
Não muito longe, numa banca da Avenida Almeida Ribeiro, a diferença de vendas do Ou Mun para os restantes jornais ronda os 30 por cento. Na lista dos mais vendidos, depois do diário de Macau, surgem o Oriental Daily, o Apple Daily e o The Sun, todos eles escritos e impressos em Hong Kong. “O Va Kio não atrai tantas pessoas”, explica a proprietária desta banca.
Embora detenha a posição mais confortável na tabela de vendas, o Ou Mun não é o mais vendido nas oito bancas que consultámos. Em duas delas, ambas na Almeida Ribeiro, explicaram que o Oriental Daily, de Hong Kong, é o diário mais procurado.
Uma das mulheres que passa o dia entre jornais, na artéria principal da cidade, deu algumas explicações adicionais sobre as tendências de venda dos matutinos. “Durante a semana, o Ou Mun é o jornal mais procurado, a não ser que tenha havido um grande acontecimento em Hong Kong. No entanto, aos fins de semana vendem-se mais cópias do Oriental Daily”, conta Wong. O facto de haver mais turistas nas ruas aos sábados e domingos é uma das razões para este aumento da procura da imprensa de Hong Kong.
Os jornais da região vizinha chegam a Macau bem cedo, pouco tempo depois de a distribuição começar a ser feita em Hong Kong. A Tak Keung Kee Magazine & Newspaper Distributor é umas das maiores empresas do género na antiga colónia britânica e tem a seu cargo a distribuição do Apple Daily, Ming Pao, Sing Tao, Hong Kong Daily News e do Hong Kong Economic Journal. Estes jornais, juntamente com o Hong Kong Economic Times, chegam a Macau pelas mãos da sucursal que a empresa mantém na RAEM.
Os jornais estão prontos de madrugada e, bem cedo, são levados para Central. Empacotados, são enviados pelo jet-foil para Macau. No Terminal Marítimo do Porto Exterior, os trabalhadores da empresa recolhem os matutinos e procedem à distribuição pelas várias bancas e lojas de conveniência da cidade.
Questionada acerca do número de jornais enviados para Macau, a empresa preferiu não dar números concretos, o que não ajuda às contas, já difíceis de fazer. Ao contrário de Hong Kong, a RAEM não tem nenhuma organização que se dedique à análise da imprensa, no que toca a vendas e outros pormenores, essenciais para as estratégias de marketing e para os departamentos de publicidade.
Para Angus Cheong, professor assistente do departamento de Comunicação da Universidade de Macau, a falta de estatísticas pode ser colmatada por uma análise atenta aos jornais. “Basta olhar para o Ou Mun, onde a publicidade consegue ter maior relevo do que os conteúdos noticiosos”, sublinhou, em entrevista ao Tai Chung Pou. “Nas outras publicações diárias, quatro ou cinco anúncios comerciais são considerados um bom resultado”.
De acordo com o docente, entre 2002 e os dias que correm não se registaram alterações de fundo nas preferências dos leitores. “O Ou Mun é lido por cerca de 90 por cento da população, enquanto que o Oriental Daily de Hong Kong é visto por 25 por cento. Entre 13 a 15 por cento dos residentes lê ainda o Apple Daily e o The Sun”, refere.
“O resto das publicações são lidas por menos de 10 por cento das pessoas, sendo que o Va Kio, o segundo maior jornal de Macau, é adquirido apenas por cinco por cento dos residentes”. “Os estudos feitos mostram que, em termos gerais, o Ou Mun domina o mercado”, conclui Angus Cheong.
São várias as justificações para o sucesso do Ou Mun, mas a principal delas, diz o professor, é o facto de “conter todas as informações que os outros jornais de Macau têm, focando ainda assuntos que mais ninguém trata”. Para Cheong, embora a presença forte de Hong Kong seja uma forte realidade em Macau, jamais será capaz de substituir o papel desempenhado pelos jornais locais, com destaque para o Ou Mun. O mesmo princípio se aplica no sentido inverso: “A imprensa local não oferece o mesmo da de Hong Kong”.
Na análise desta relação de aparente complementaridade convém acrescentar um outro factor: o impacto das estações televisivas da região mesmo aqui ao lado. “Há muitos anos que os conteúdos televisivos consumidos pelos residentes de Macau são, na grande maioria, produzidos pelas estações de Hong Kong que não focam, contudo, os detalhes de Macau”, constata o professor da instituição académica local. Assim sendo, “para saberem o que realmente se passa na cidade, as pessoas confiam nos jornais locais”.
A procura da imprensa da RAEHK prende-se com a ausência de determinados conteúdos nos diários locais. Os leitores interessados em áreas relacionadas com o entretenimento ou com questões financeiras vão buscar a informação que precisam aos jornais de Hong Kong.
A presença mais significativa de pessoas da região vizinha em Macau, quer na condição de turistas quer enquanto trabalhadores, pode ter também contribuído para um aumento das vendas dos matutinos impressos em Hong Kong, como sugerem os cálculos de cabeça feitos pelos vendedores.
Um outro fenómeno mais recente, fruto do crescimento de Macau e da imagem do território a nível internacional, prende-se com a abertura de delegações na RAEM das publicações sedeadas e impressas em Hong Kong. A EastWeek e o Hong Kong Daily News, por exemplo, têm edições ou suplementos com Macau como pano de fundo.
Tal não significa, porém, que o tipo de jornalismo feito por estes correspondentes seja direccionado para o leitor local. A presença das delegações serve para assegurar que temas como o turismo, o jogo e as convenções são convenientemente tratadas na imprensa da RAEHK. Numa análise cuidada aos jornais de Hong Kong durante o corrente mês, as notícias sobre Macau são sempre sobre estas áreas específicas, com a tónica forte na economia. Para o leitor local, não trazem grandes novidades.
Além de ser vendido nas bancas da RAEM, o Hong Kong Daily News publica um suplemento que dá pelo nome de “Macau Today”, de distribuição gratuita na cidade. Estas páginas são escritas por uma equipa de jornalistas, numa redacção em Macau. No entanto, o principal caderno do jornal não tem um interesse especial nas notícias oriundas da RAEM.
Os critérios editoriais, explicou um jornalista da delegação de Macau que optou pelo anonimato, são sobretudo definidos pela lógica das celebridades e das tragédias. “Se Edmund Ho se demitisse, claro está que isso era uma notícia com muito destaque. Se houvesse um acidente com imensas vítimas ou um edifício caísse, também seriam notícia, claro”, disse.
Como Macau não é terra de casos mediáticos todos os dias, a equipa do “Macau Today” não tem manchetes para enviar para Hong Kong com grande frequência. Porquê, então, a aposta na delegação na RAEM? “Porque quem manda assim decidiu”, lança o jornalista, sem demonstrar interesse em fazer análises de mercado mais profundas. “Claro está que não é difícil especular que o desenvolvimento recente da economia pode estar na origem da decisão", rematou.
O Hong Kong Daily News pertence ao Emperor Group, que tem uma empresa de investimentos e consultoria, um hotel-casino, uma loja de joalheira e interesses no mercado imobiliário de Macau.
Feitas as contas, no fim da história, há uma população de 7 milhões de habitantes do outro lado do Delta. A forma como os jornais de Hong Kong apresentam Macau não escapa às leis do mercado.

Liberdade de imprensa em Hong Kong já conheceu melhores dias

A espiral silenciosa

Tempos houve em que a imprensa de Hong Kong era a referência regional tanto no aspecto da qualidade da abordagem como quando se falava de liberdade de expressão. Hoje em dia, e seguindo uma tendência internacional, enfrenta uma pressão crescente resultante da cada vez mais estreita relação entre os veículos das notícias e os seus proprietários. São os “novos cães de guarda”, como definiu, há cerca de uma década, o jornalista francês Serge Halimi, que critica a relação demasiado próxima entre as redacções e as empresas que as detêm.
Doris Wong, produtora executiva do programa “Media Watch”, da estação televisiva RTHK TV, acredita que uma espiral silenciosa se tem vindo a formar entre os jornalistas e editores de Hong Kong. No trabalho que fez de balanço da imprensa da última década na região vizinha, para coincidir com os dez anos da transferência de administração de Hong Kong, Wong teve sérias dificuldades em encontrar profissionais com experiência dispostos a falar abertamente de auto-censura. “Houve mesmo uma pessoa que me desejou boa sorte, porque ia precisar dela para encontrar alguém que falasse com sinceridade”.
Para Doris Wong, a principal questão que se coloca neste momento é o relacionamento que existe entre quem detém cargos de chefia dentro dos órgãos de comunicação social e o sector empresarial, bem como o estreitamento das relações na esfera política. Dando como exemplo o South China Morning Post, jornal que chegou a estar entre os melhores do mundo, lembrou que agora é detido pelo Kerry Group que desenvolve projectos muito bem sucedidos na área do imobiliário na China.
Na semana passada, as polémicas afirmações do Chefe do Executivo de Hong Kong, Donald Tsang, com uma analogia entre a democracia e a Revolução Cultural, só foram manchete no jornal Apple Daily, com as restantes publicações em língua chinesa a optarem por outros temas para as primeiras páginas, como casos de crime. Tsang acabou por pedir desculpas públicas pela comparação utilizada.
O que se passa, neste momento, nos jornais de Hong Kong, não é claramente perceptível, referiu ainda a editora. Doris Wong não deixa, contudo, de concluir que “o preço da auto-censura é pago por toda a sociedade”. Por isso, “nem sempre o estilo irreverente dos diários de Hong Kong corresponde, na realidade, à verdadeira liberdade de imprensa”.
Kahon Chan com Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn


“Ainda há pastores?” no auditório do Consulado de Portugal

Um ano, oito prémios

Vestido a rigor com o traje tradicional de pastor, a capa sobre os ombros, numa mão o cajado, na outra um rádio com as músicas de Quim Barreiros. Para as câmaras fala dos domingos e feriados que não goza, dos amigos com quem não pode estar (excluindo algumas noites por ano), dos 365 dias de calor, frio e, acima de tudo, solidão.
É assim a vida de Hermínio, o jovem que encabeça o documentário “Ainda há pastores?”, de Jorge Pelicano.
Através de Hermínio, na altura com 27 anos, e também de Maria do Espírito Santo, com 83, Ti Grazina, que nunca tinha usado um frigorífico, António Cagatas, viúvo saudoso do vale, Rosa e Zé, crianças que os pais queriam tirar da escola, e outras famílias de Casais de Folgosinho, em Gouveia, na Serra da Estrela, o jovem realizador decidiu retratar a dura realidade de uma das profissões mais antigas do mundo: pastor.
Começou em 2001. Levou consigo uma câmara de filmar e uma grande dose de vontade, dedicação, amizade e perseverança. Começou a registar estórias. Suspendeu as filmagens. Quatro anos depois, regressou ao vale, às pessoas e às mesmas estórias. Encontrou a habitual naturalidade e simplicidade em Hermínio. Filmou-o a banhar-se nas águas geladas do Mondego, rio que atravessa o vale em tom apressado e enérgico, ou em casa, em condições precárias. Acompanhou de perto cada passo, cada vivência da serra. Viu a luz eléctrica chegar, rostos a envelhecer, olhares entristecidos e sonhos a querer brotar.
Oitenta horas de filmagens depois, Jorge Pelicano conseguiu sintetizar o palpitar de um lugar em 74 minutos, retirar as “personagens” de Casais de Folgosinho – em tempos um autêntico santuário de pastores – e perpetuá-los na tela.
A primeira apresentação aconteceu no Cine’Eco – Festival de Cinema e Vídeo de Ambiente da Serra da Estrela, em Seia, no dia 19 de Outubro de 2006. Nessa altura, a obra foi alvo das melhores críticas e valeu-lhe o Prémio Lusofonia e uma menção honrosa do júri da juventude.
Em mais de 50 salas do país, milhares de pessoas partilharam as alegrias e tristezas de quem sobe a serra e conhece as ovelhas pelo nome. A SIC Notícias exibiu o filme no final do ano passado. O pontapé de saída estava dado.
Além de Portugal, o filme traçou a sua rota também em países como Espanha, República Checa, Itália, Brasil, e sempre a somar prémios. Foi do outro lado do Atlântico, numa pequena cidade do interior, Goiás, que trouxe um dos galardões mais importantes do maior Festival de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) do mundo, que contou com a presença de mais de dez mil pessoas. Recentemente, foi considerado o melhor documentário na Galiza, Espanha, e, esta semana, ganhou uma menção honrosa no Festival Internacional de Cinema Documental da Cidade do México e o Green Award, do Environmental Film Festival Network, a maior distinção do cinema ambiental, durante a décima edição do Festival Cinemambiente, em Torino, Itália.
O reconhecimento dos júris tem contemplado, sobretudo, o conteúdo sociológico, a contribuição para o conhecimento de uma realidade específica, o trabalho de realização e, também, a fotografia, da autoria de Rosa Silva.
Depois de muitos caminhos percorridos, o filme imortalizou-se em DVD, em Junho deste ano, e já vai na terceira edição.
Com 30 anos e oito galardões debaixo do braço, Jorge Pelicano, natural da Figueira da Foz, mantém sempre o mesmo entusiasmo quando fala de “Ainda há pastores?”.

O realizador Jorge Pelicano e o pastor Hermínio, no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), no Brasil, onde ganharam o primeiro prémio
O filme-documentário estreou na 12ª edição do Cine’Eco - Festival de Cinema e Vídeo de Ambiente da Serra da Estrela, realizado em Seia, distrito da Guarda, há precisamente um ano. Como foi o seu percurso e o do filme até chegar a esse dia? O que o levou a abordar este tema? Em primeiro lugar, tenho um grande fascínio pela montanha. Os pastores, enquanto habitantes da mesma, eram algo que eu sempre desejei conhecer. Muitas vezes, andam misteriosamente escondidos e esquecidos bem no cimo das montanhas. Por outro lado, acho que era altura de prestar um tributo a estes homens e mulheres. É das profissões mais difíceis do mundo, sem feriados, férias ou fins-de-semana, e que está em vias de extinção. Para um cineasta-documentarista, a missão foi retratar uma realidade e uma cultura antes que desapareçam. Em 2001, parti para o terreno e fui ao encontro daqueles que achava que eram os últimos pastores genuínos da Serra da Estrela.
As maiores dificuldades surgiram em 2003 e 2004. Durante esses dois anos, estive parado. A motivação não era muita. Na altura, tinha outros compromissos profissionais que não me permitiram debruçar-me totalmente sobre o projecto. Mas, entretanto, decidi reformular o projecto e voltar às mesmas estórias dos pastores, quatro anos depois. O ano 2006 foi totalmente dedicado ao documentário e a motivação era cada vez maior. À margem, o frio, algum isolamento e a difícil logística do material de filmagem fizeram parte do leque das dificuldades.
Depois, seguiram-se participações em dezenas de concursos um pouco por todo o mundo. Os júris destes certames não ficaram indiferentes e o filme é agraciado com oito prémios. Na sua opinião, o que tem conquistado esses países?
Regra geral, as várias estórias do filme, em particular a do pastor Hermínio e a direcção de fotografia. Por outro lado, os júris têm valorizado o facto de eu ter retratado durante cinco anos uma realidade que corre o risco de desaparecer. Esse é o dever do documentarista.
A participação no festival brasileiro teve um sabor especial. O pastor Hermínio, personagem principal do filme, tem participado em algumas apresentações do filme, tem dado autógrafos, é conhecido, a ida ao Brasil foi repleta de emoções, viajou no cockpit do avião e concretizou o sonho de pisar o Brasil. Também foi um momento especial para o projecto, talvez o ponto alto?
Concordo. O FICA no Brasil é, provavelmente, o maior festival de cinema de ambiente do mundo. A título de exemplo, na cerimónia de entrega do prémio estavam mais de 700 pessoas a assistir e meia centena de jornalistas credenciados. Foi a primeira vez que estive no Brasil. Comigo foi o Hermínio. Ajudei a concretizar um sonho deste jovem pastor. Fomos recebidos por pessoas fantásticas que nos ajudaram bastante. Participei num dos maiores festivais de cinema de ambiente do mundo. Ganhei. Não podia ter corrido melhor. Por outro lado, este prémio veio na melhor altura. Este é o meu primeiro filme e é uma grande ajuda para dar continuidade à minha carreira.
Além do Hermínio, não esqueceu também todas as outras personagens do filme e criou até uma ligação próxima. Inclusive, apresentou uma sessão de cinema, em Gouveia, próximo de Casais de Folgosinho, a pensar neles. Sente que entraram na sua vida? E essas pessoas sentiram-se perturbadas no seu quotidiano por ter entrado no "território" delas?
O Hermínio passou a ser um amigo com quem tenho um contacto regular. Contudo, as outras personagens também começaram a fazer parte da minha vida, principalmente as duas crianças que entram no filme, a Rosa e o Zé. Depois de aparecerem na televisão, muitos foram os que tentaram ajudá-las, para que continuassem a ir à escola, contrariando a vontade dos pais. Sempre que regresso, agora em jeito de visita, à terra dos pastores, sou bem recebido, o que prova que não alterei o quotidiano das pessoas. Esse era um objectivo que fiz questão de cumprir e manter.
Em cinco anos de trabalho, certamente aconteceram histórias ou momentos curiosos, que o levaram às lágrimas ou à gargalhada…
Durante as filmagens surgiram momentos fantásticos com as personagens do filme que já referi, nomeadamente com o Hermínio, que acabou por ser a figura central. Os banhos na serra, as saídas nocturnas para as festas em Manteigas e Folgosinho foram muito divertidas. O Hermínio destacava-se entre a multidão. Uma outra figura marcante do filme foi a Maria do Espírito Santo, uma viúva com 83 anos que vive sozinha, quase perdida naquele vale há mais de 20 anos. Conversar com ela durante horas foi delicioso. Os momentos mais difíceis por que passei foram o frio e os primeiros tempos, em que tivemos que conquistar a confiança dos pastores, mas, depois de ganha, tudo foi muito mais fácil.
Acha que a realidade dura dos pastores fica encerrada neste filme, como se se tratasse de uma peça de museu?
É uma realidade dura, mas valiosa e, por isso, pode ser considerada uma peça de museu. É assim que acaba o filme. Porque estas realidades que retratei têm que ser preservadas.
Sendo o primeiro filme, isso quer dizer que novos projectos se aproximam....
Neste momento estamos a preparar uma candidatura para um subsídio do Ministério da Cultura português para realizar mais um filme. Vou novamente retratar o interior rural de Portugal e a sua desertificação, mas numa perspectiva mais interventiva.
Estou a iniciar, juntamente com a jornalista Rosa Silva, as filmagens do meu próximo documentário. Intitula-se “Pare, escute, olhe” e aborda o problema do despovoamento do interior do país, tendo como referência a desactivação, em 1991, da linha ferroviária do Tua, entre Bragança e Mirandela. Dezasseis anos depois, o documentário vai parar para reflectir, escutar o povo e olhar pelas consequências da decisão política do fecho da linha. A estreia está prevista para Outubro de 2008.
Com apenas 30 anos, com um primeiro filme no currículo e outro na forja, como é ser um jovem realizador no panorama português?
As palavras “jovem realizador” colocadas a seguir ao meu nome ainda me causam alguma confusão. É sempre difícil… mas está-me a dar um gozo enorme furar algumas barreiras e conseguir saltar vários obstáculos. Por outro lado, penso que tenho o público do nosso lado e isso é fundamental. Tudo isto nos dá motivação para seguir em frente.
Sandra Gomes

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Justiça em risco, Macau nos ecrãs do mundo

Cadeia de televisão de Singapura prepara programa sobre cidades chinesas

Macau nos ecrãs do mundo

Quais são as mais importantes urbes chinesas? “Macau, Hong Kong, Pequim e Taipé”. O que é que as distingue? “Gastronomia, lazer, arquitectura, vida nocturna, artes, transportes, moda e o oitavo elemento ainda está por decidir”, vincou Ioh Kok Hong, um realizador ao serviço da cadeia de televisão de Singapura, Channel News Asia.
Quatro dias de estadia na RAEM vão ser transformados em 14 minutos de imagens, divididas em duas partes, de um programa televisivo com meia hora de duração. Até Fevereiro do próximo ano, deverá estar montada e pronta a ser emitida uma série de oito episódios intitulados “Uma história de quatro cidades”.
A ideia é olhar para cada uma destas aortas chinesas e procurar as diferenças entre os quotidianos urbanos. “A pergunta que se coloca é: o que é torna Macau único? Cada parte do programa vai ser subordinada a um tema específico e, ao longo de trinta minutos, vamos mostrar as especificidades das quatro cidades”, explicou o mesmo responsável.
Ioh Kok Hong e o repórter de imagem Timothy Shim partem hoje da RAEM com imagens na bagagem que servirão para construir dois episódios sobre gastronomia e lazer. Pelos restaurantes da região, filmaram cinco pratos diferentes, dos quais se destacam o minchi, “arroz frito à portuguesa” e o famoso pastel de nata. A realização do programa está ainda a dar os primeiros passos, Macau foi a primeira cidade onde aterraram, mas o singapuriano já tem em mente alguns pormenores do produto final, conseguidos através de uma pesquisa feita pela Internet, livros e conversas com habitantes dos locais visados.
“É possível estabelecer um contraste entre o pastel de nata e o ‘dim sum’ de Hong Kong, por exemplo. No território vizinho, este elemento gastronómico é tipicamente chinês. Lá não existe a tradição das pastelarias, porque têm uma natureza muito portuguesa”, explicou o realizador.
A forma de se estar à mesa é outro dos aspectos divergentes. “Já repararam como os habitantes da RAEHK comem tão depressa?”, questionou com uma expressão de espanto. Em oposição ao frenesim que caracteriza o quotidiano da antiga colónia britânica, em Macau as pessoas caminham mais calmamente e intercalam as refeições com momentos de conversa. “Sem stress”, defendeu o mesmo responsável.
No capítulo do lazer, a câmara de filmar não vai ultrapassar a porta dos casinos. “O programa ‘Uma história de quatro cidades’ não pretende focar a parte turística dos locais, mas sim o estilo de vida dos habitantes. Demos uma volta de carro para fazer uns ‘shots’ das luzes e dos néons, mas o que queremos realmente conhecer é como os residentes se divertem e passam o tempo. O nosso objectivo é dar, acima de tudo, uma perspectiva humana”, notou. Neste sentido, a equipa do Channel News Asia captou as corridas de cães e o ambiente da linha de bares do espaço das Docas.
Em cada cidade, a dupla terá um anfitrião que funciona como janela para o quotidiano dos locais. Em Macau, esta função coube à jornalista Joyce Pina, que é jornalista da Euronews, presentemente a trabalhar no território. Joyce Pina será a apresentadora dos oito episódios dedicados à RAEM.
“Faz também parte da nossa missão descobrir como mudou o estilo de vida dos locais”, completou Ioh Kok Hong.
Em termos de imagem, foi o contraste entre o dia e a noite, o antigo e o novo que mais encantou o homem da câmara. “A verdadeira essência da cidade só se sente nas horas nocturnas. Quando chegam as luzes tudo se torna diferente e a atmosfera oriental dá lugar a um novo mundo muito mais ocidentalizado”, sublinhou Timothy Shim.

O programa ‘Uma história de quatro cidades’ não pretende focar a parte turística dos locais, mas sim o estilo de vida dos habitantes. Demos uma volta de carro para fazer uns ‘shots’ das luzes e dos néons, mas o que queremos realmente conhecer é como os residentes se divertem e passam o tempo.
Os monumentos listados pela UNESCO foram, no entanto, o que mais despertou o interesse do repórter que está por detrás da objectiva. A viagem de regresso está marcada para Novembro com o propósito de captar a singularidade da arquitectura de Macau, estando ainda marcada uma próxima deslocação em Dezembro que será dedicada aos restantes temas.
O projecto do programa televisivo está intimamente ligado à importância que a China está a ganhar no globo. Na realidade, Ioh e Timothy trabalham para uma empresa de produção chamada Ochre Pictures, cujos serviços foram encomendados pela cadeia televisiva. Mais do que um canal transmissor na cidade-Estado, o Channel News Asia tem uma dimensão pan-asiática, emitindo para os países do Pacífico, como a Austrália e o Médio Oriente.
O programa “Uma história de quatro cidades” está destinado a rodar pelos televisores dos quatro cantos do mundo e entrar em milhões de casas. “A CNN e a Discovery, por exemplo, estão muito interessadas em tudo o que são produtos que digam respeito à China. Neste momento, todas as histórias, conteúdos e ângulos chineses são vendáveis e todos os querem comprar”, apontou o realizador, acrescentado que isto prova a influência que o Império do Meio tem ao nível internacional.
A paragem que se segue no périplo da equipa de Singapura é Taiwan. Há ainda muitos contrastes por descobrir entre as quatro urbes irmãs, mas Ioh deixou o território com uma certeza. “A noite de Macau é uma das mais bonitas do mundo, não tem comparação com Taipei ou Hong Kong. Aqui as luzes estão acesas desde que o sol se põe até nascer, enquanto no território vizinho a partir das 22 horas a cidade já está morta. Na RAEM tudo transpira glamour e dá uma noção que aqui circula muito dinheiro”, sustentou.
Dois pares de jornadas bastaram para a equipa do Channel News Asia absorvesse a realidade do território. Nas palavras do realizador, dentro de uma década o território corre o risco de se tornar numa “cidade do inferno”, na qual vai imperar a fórmula sexo, drogas, rock’n’roll e dinheiro. “A parte bonita da região é que continua a existir pessoas simples que fazem as suas vidas normalmente. Ainda não foram corrompidas por este ambiente de Jogo, mas daqui a 10 anos estas pessoas vão começar a desaparecer, assim como os edifícios antigos”, salientou.
Ao contrário da opinião geral, não é o património que está em perigo, segundo o residente singapuriano, mas sim os pequenos bairros. “As Ruínas de S. Paulo estão protegidas pela UNESCO e ninguém se atreverá a tocar-lhes, mas as pessoas e o estilo de vida normal estão em vias de extinção. Não há nenhuma garantia de que a vida de Macau que existe longe dos casinos vá sobreviver para sempre”.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn







quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Estudo sobre qualidade de vida, Um espaço para se estar bem

Relatório indica aumento da satisfação pessoal da população

O que falta a Macau

Os investimentos em instalações desportivas e a organização de grandes eventos desta natureza no território não se reflectem na percepção da população da RAEM, segundo o Instituto Inter-Universitário de Macau (IIUM). A instituição académica divulgou ontem os resultados do terceiro relatório sobre a qualidade de vida dos residentes da RAEM, elaborado por profissionais do IIUM com o apoio das revistas “Business Inteligence” e “Macau Business”.
O estudo, que diz respeito ao terceiro trimestre do ano, incidiu sobre as áreas do Desporto e do Património, mas incluiu também a auscultação da população em relação a outras matérias, tendo concluído que a satisfação do residentes em relação às condições de vida registou, nos meses de Julho e Agosto, o nível mais elevado de sempre.
As pessoas de Macau estão desapontadas com a qualidade das instalações desportivas públicas (55,8%) e com os esforços para promover o Desporto no território (55,9%). A reorientação da actual estratégia foi o conselho deixado pelo relatório, nomeadamente “promovendo estruturas mais pequenas e aumentando o incentivo à prática desportiva entre a comunidade”, pode ler-se nas conclusões do estudo.
Ainda neste capítulo, os resultados mostram que a população é activa e pratica exercício físico regularmente. O dado mais surpreendente prende-se com a faixa etária em que o Desporto reúne maior favoritismo. O grupo dos idosos, os residentes com mais de 65 anos, reuniu 66 por cento das respostas referentes à prática desportiva diária. Deste modo, o estudo aconselha o Governo a voltar as atenções para as facções mais jovens da sociedade.
A obesidade é um problema de saúde que não afecta a população da RAEM. Apenas 1,2 por cento dos inquiridos foi categorizado como obeso. O nível de pessoas com peso a mais da região mantém-se abaixo da China (5%) e de Hong Kong (3,3%). Em oposição, a magreza é bastante frequente entre as mulheres mais jovens.
Os residentes atribuem uma grande importância à preservação do Património. No entanto, só metade dos inquiridos (49,7%) é que se mostrou familiarizada com os monumentos históricos. Esta tendência difere consoante o nível de escolaridade das pessoas, ou seja, os inquiridos com mais estudos revelaram-se mais conhecedores do património listado pela Unesco. Aumentar o nível de formação dos residentes sobre esta questão foi a proposta deixada pelo relatório sobre a qualidade de vida.
Pouco mais de metade dos inquiridos mostrou estar satisfeito face aos esforços de promoção e balanço entre a preservação do património e o desenvolvimento económico, com 56,4 e 53,8 por cento das respostas positivas, respectivamente.
Entre Julho e Agosto, a satisfação dos habitantes do território registou o nível mais elevado de sempre, com 64,4 por cento das pessoas a mostrarem-se contentes com as suas condições de vida. Segundo o investigador Richard Whitfield, este valor é considerado positivo no âmbito dos outros países asiáticos, cujos índices de satisfação se centram entre os 60 e os 70 por cento.
As relações pessoais e a saúde foram os sectores que reuniram mais opiniões positivas por parte dos inquiridos com 70,6 e 69,8 por cento das respostas, respectivamente. Por outro lado, o nível de satisfação dos habitantes revelou-se menor face à segurança em relação ao futuro (60,4%) e à realização pessoal (58,1%).
No que diz respeito à qualidade de vida da RAEM, após ter registado uma descida de três por cento no último quadrimestre, o índice de bem-estar nacional recuperou dois por cento, fixando-se actualmente nos 59,6 por cento. Em particular, a posição dos residentes face à segurança territorial (66,2%) e à situação económica (66%) reuniu a maior taxa de satisfação, enquanto a prestação geral do Governo e o estado do ambiente são os sectores da cidade que menos agradam aos residentes.
Dos mais de mil inquiridos, apenas 53,1 por cento se mostraram satisfeitos com a acção do Executivo. “O Governo é a área mais problemática. Registou-se um ligeiro aumento do nível de satisfação, mas ainda não conseguiu chegar aos valores verificados no início do ano”, sublinhou Richard Whitfield durante a apresentação do estudo.
O sentimento da população face à qualidade de vida da RAEM não acompanha a média dos outros países asiáticos. “Isto quer dizer que existe um problema, mas nada demasiado grave. Pode dizer-se que Macau está na zona amarela”, defendeu o mesmo responsável.
Recorde-se que o Chefe do Executivo, Edmund Ho, apontou a qualidade de vida dos residentes e o desenvolvimento da economia como as estratégias prioritárias na acção do Governo. No discurso proferido na recepção comemorativa do 58º aniversário da República Popular da China, o governante salientou que “a garantia de melhores condições de vida à população, em especial às comunidades mais vulneráveis, constitui sempre uma prioridade irrecusável no quadro das acções do Governo”. O problema da inflação será uma das questões que Edmund Ho quer ter debaixo de olho, através da elaboração de estudos.
A amostra do terceiro relatório sobre a qualidade de vida foi constituída por residentes em idade adulta. Entre os dias 30 de Julho e 18 de Agosto, foram realizadas 4,298 chamadas telefónicas, mas só 1,105 aceitaram responder ao inquérito, representando uma taxa de participação de 25,7 por cento. Deste número, apenas 1,089 respostas foram consideradas válidas.
O próximo estudo vai analisar os temas do Jogo e dos casinos. Além dos dados referentes aos três últimos meses do ano, a equipa do IIUM vai ainda fazer um relatório final da qualidade de vida de Macau.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

APOMAC reabriu admissão de sócios

Um espaço para se estar bem

Guilherme Silva e Pedro Córdova não têm mãos a medir. Com a entrada do mês de Outubro, chegou a época mais movimentada na Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC). Na prateleira primorosamente organizada, apenas destoa o empilhado dos envelopes que contêm os “modelos 11”, adivinhando muito trabalho a fazer nos próximos meses.
São os formulários para as declarações de rendimentos de pensões que chegam anualmente de Portugal. Até ao final do ano, a dupla da secretaria da associação local tem de tomar conta do preenchimento, certificação e envio dos documentos. Depois basta os associados irem chegando, um por um, para assinar o impresso correspondente. No caso dos membros mais carenciados e com idades avançadas, os funcionários vão a casa recolher as assinaturas ou as impressões digitais.
Guilherme e Pedro são duas das peças fundamentais para o cumprimento da missão que subjaz à existência da APOMAC: facilitar a vida dos pensionistas e reformados da RAEM e fazer todos os possíveis para promover o seu bem-estar.

Foi tudo pensado ao pormenor para proporcionar uma sensação de bem-estar aos membros. Até o ar é perfumado. “O cheiro é para cativar as pessoas, para elas se sentirem bem e voltarem mais vezes”


“A ideia da criação da associação nasceu em 2001, após a transferência de administração do território. Os fundadores pensaram em formar uma instituição da classe para auxiliar a maioria dos aposentados a resolver os seus problemas e, ao mesmo tempo, ajudá-los a tratar da correspondência que recebem da Caixa Geral de Aposentações”, explicou o presidente da APOMAC, Francisco Manhão.
O homem que se senta na cadeira da direcção desde a primeira hora conheceu de perto os problemas e dificuldades destas pessoas que são hoje chamadas de associados. “Grande parte dos aposentados são chineses e acabavam por deitar fora as cartas e, mais tarde, tinham que pagar as consequências. Pensavam que não era nada de especial e depois ficavam sujeitos a pagar IRC ou a ficar com a pensão suspensa”, recordou o responsável, que já vai no terceiro mandato.
Situações que são hoje evitadas graças à existência da APOMAC e das pessoas que diariamente trabalham debaixo do tecto do edifício-sede. Actualmente, a associação é composta por 1100 membros. São centenas de fichas pessoais nos computadores de Guilherme e Pedro, centenas de dados para actualizar todos os anos, centenas de pensões que estão à responsabilidade de duas pessoas. Os números parecem assustadores para apenas quatro mãos, mas, mesmo em plena época alta, os responsáveis mantêm o sorriso e a calma adquirida com muitos anos de experiência.
“As declarações vão chegando a partir de Março, tiramos uma cópia e começamos a preparar os impressos. Ao mesmo tempo, temos que fazer a actualização salarial quase todos os anos, é pouco mas dá muito trabalho, porque implica alterar todas as folhas”, assegurou Guilherme, o responsável pela administração.
Além das declarações da Direcção Geral das Finanças de Portugal, entre Outubro e Maio há ainda que tratar das provas de vida, das excursões turísticas, da festa do Ano Novo Chinês, da Assembleia-Geral e da preparação do aniversário da APOMAC. Em Maio de 2008, comemora-se o sétimo ano de vida da associação que foi criada com um propósito maior – disponibilizar um espaço onde os aposentados se pudessem reunir, conversar e trocar impressões entre amigos, bem como usufruir de uma série de serviços.
O sonho foi concretizado em 2003, quando o Governo cedeu dois andares de um edifício na Avenida Sidónio Pais. A primeira sede morava num sétimo andar no centro de Macau e não satisfazia as necessidades dos reformados. “Precisávamos de um espaço bastante grande onde pudéssemos desenvolver muitas actividades e vencer a nossa grande batalha, que era montar um gabinete médico”, sublinhou Francisco Manhão.
Hoje, o consultório médico funciona às mil maravilhas no segundo piso da sede da APOMAC. “A Dona Filomena vem cá quase todos os dias”, apontou um funcionário da associação. A idosa de 92 anos de idade é portadora do cartão de sócio número 60. “Veio medir a tensão arterial”, informou o enfermeiro de serviço, Augustino Assis, enquanto acompanha a associada até ao elevador.
Grande parte do primeiro andar do edifício é ocupado pelo gabinete médico e por actividades dedicadas à saúde. A última novidade é o espaço gimno-terapêutico, com uma massagista fisioterapeuta a tempo parcial, três aparelhos de ginástica e dois balneários. Foi tudo pensado ao pormenor para proporcionar uma sensação de bem-estar aos membros. Até o ar é perfumado. “O cheiro é para cativar as pessoas, para elas se sentirem bem e voltarem mais vezes”, notou o presidente.
Os registos médicos são o orgulho de Francisco Manhão. No ano passado, 1494 pessoas beneficiaram das consultas médicas, 4050 dos serviços de enfermagem e 1420 mediram a tensão arterial gratuitamente. No campo dos serviços a preço subsidiado, foram realizados 225 electrocardiogramas, 176 pensos, 2245 testes de diabetes, 12 exames ao colesterol e, desde Maio até aos nossos dias, 83 pessoas recorreram às sessões de fisioterapia.
Descendo as escadas ou apanhando o elevador, o silêncio dos trabalhos de administração e dos cuidados médicos do primeiro piso é substituído pela azáfama da preparação do almoço. As mesas da cantina já estão postas e só aguardam a chegada dos comensais.
A procura é tanta que, na sala recreativa, as mesas de mahjong são substituídas pelos pratos, copos e talheres. A popularidade da cozinha da APOMAC até foi motivo de uma reportagem no jornal Ou Mun no último domingo, provocando uma “chuva de gente à hora de jantar”, contou Francisco Manhão.
O tempero dos pratos da cantina tornou-se tão famoso que será premiado no próximo sábado pela Associação das Mulheres Empresárias de Macau, numa cerimónia que vai contar com a presença do Chefe do Executivo, Edmund Ho, e terá lugar no Venetian.
A cozinha serve almoço, lanche e jantar, sendo que existe um cardápio de pratos do dia à medida dos desejos gastronómicos de cada um. Cada prato é constituído por sopa, primeiro prato, sobremesa e chá ou café, por uma módica quantia de 23 patacas para sócios e 28 patacas para não sócios.
Por baixo das telhas tipicamente chinesas do balcão da cantina, os empregados honram todos os dias o emblema que trazem ao peito. Lurdes é uma das responsáveis pelo espaço de restauração. Há quatro anos que todos os dias, à hora de refeição, dá as boas-vindas às mesmas caras e troca dois dedos de conversa. É com um largo sorriso que descreve o seu trabalho. “A APOMAC é uma família”, frisou a funcionária filipina.
Um grupo familiar que, a partir deste mês, está destinado a crescer. Na última assembleia-geral extraordinária foi decidida a reabertura da admissão de novos sócios. Durante um período de seis meses, Guilherme e Pedro vão, então, dividir o trabalho entre os “modelos 11” e as novas propostas de sócio.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A supremacia dos mais altos, Macau virtual

Basquetebol em demonstração nos Jogos Asiáticos em Recinto Coberto

A supremacia dos mais altos

É uma modalidade onde tudo tem limites a não ser a altura dos jogadores. Directamente das ruas até aos pavilhões desportivos, o basquetebol de três contra três conquistou o reconhecimento internacional. Prova disso foi a introdução por parte da FIBA da variante do jogo da bola no cesto como desporto de demonstração nos 2.os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto de Macau (JARC), que têm início na próxima semana.
Joga-se apenas numa das metades do campo, só existe um cesto e os atletas têm que ter menos de 17 anos, enquanto o treinador não pode ultrapassar as 35 primaveras. Foi necessário revistar todas as escolas do território para garantir a participação de uma selecção local no evento desportivo. A Associação de Basquetebol de Macau (ABM) só pôde respirar de alívio há dois meses, quando finalmente conseguiu reunir um número aceitável de jogadores.

É a primeira vez que Macau participa com uma equipa de três contra três e vamos dar o nosso melhor. Não é uma questão de ganhar ou perder, isso não tem importância

Actualmente, existem 20 jovens basquetebolistas em exercício. O programa de treinos estabelecido dita que três vezes por semana, durante duas horas, devem praticar-se os dribles e os ressaltos e afinar a pontaria. Das duas dezenas, serão seleccionados os 12 melhores para defenderem as cores da bandeira da RAEM nos JARC.
As expectativas do técnico principal, Zeng Zhaozhong, relativamente ao pódio são comparáveis à altura dos jogadores: baixas. “O único objectivo traçado para o evento desportivo é que os atletas melhorem o seu desempenho e rendimento em campo e isso é mais importante do que ganhar”, vincou o mesmo responsável.
Esta posição é partilhada pelo presidente da ABM, Pau Ma Chong. “É a primeira vez que Macau participa com uma equipa de três contra três e vamos dar o nosso melhor. Não é uma questão de ganhar ou perder, isso não tem importância”, sublinhou.
Nem os cinco anos a treinar cestos que Denis Yip e Sou Pak Lam, dois jogadores da selecção do território, passaram são suficientes para sonhar com vitórias e medalhas. Os jovens já se sentem campeões só pelo facto de terem sido seleccionados. “Agora, o que interessa é progredir e aprender com esta participação”, apontou Denis, enquanto o colega quer “vencer pelo menos uma equipa adversária”.
Progressos é tudo o que o treinador proveniente da China quer ver a partir do dia 26 deste mês. “Os atletas estão muito empenhados e eu acredito que as minhas expectativas se vão concretizar”, acrescentou.
Cauteloso, Zeng Zhaozhong conhece bem o basquetebol que se pratica nos países asiáticos que Macau vai defrontar. Por isso, prefere não arriscar prognósticos. O top das formações mais fortes é ocupado pela China, Coreia e Japão, respectivamente.
Na variante que coloca três jogadores contra três, o espaço é mais reduzido, o cesto está mais perto e a probabilidade de acertar é maior. Os jogadores estão mais em contacto e a constituição física pode ser decisiva na hora do ataque.
A estatura dos atletas da RAEM constitui uma das principais desvantagens da selecção local, defendeu o técnico chinês. “Nesta variante, a altura é muito importante”, apontou.
Perto do gigante Yao Ming, o basquetebolista chinês com 2,29 metros, os jovens da RAEM têm que esticar bem o pescoço. O jogador local mais alto mede 1,81 metros, enquanto a altura média de toda a formação é de 1,77 metros.
Outra dificuldade apontada à equipa de Macau é a defesa e os ressaltos. Algo que, segundo o treinador, também é consequência da baixa estatura dos atletas. Para suplantar o que Zeng Zhaozhong considera serem as “fraquezas” da selecção, a preparação dos jovens está concentrada nas relações durante o jogo e nas marcações dos três pontos.
“Como é mais difícil pontuar debaixo do cesto, o nosso objectivo é lutar para expandir o jogo, para tentar encestar de longe. Além disso, é muito importante que os praticantes se conheçam bem em campo, porque assim exigem as características desta variante do basquetebol”, acrescentou.
As partidas que opõem grupos de três basquetebolistas em apenas meio campo são também conhecidas como “streetball” ou basquetebol de rua, numa referência à origem da modalidade que, originariamente, era praticada entre amigos nos bairros residenciais. A ligação à cultura urbana é o elemento que faz esta actividade desportiva ser tão popular entre as camadas mais jovens. De tal modo que o basquetebol de três contra três foi recomendado para ser inserido nos Jogos Olímpicos da Juventude, que terão lugar em 2010. Cada equipa só pode ter no máximo quatro jogadores, sendo que um desempenha a função de suplente.
No domingo, a ABM promoveu um torneio-teste para observar a prestação da selecção da RAEM. Os jovens tiveram oportunidade de competir a sério contra adversários superiores em idade, altura e experiência, não se saindo nada mal. A equipa que carregava o nome Macau nas costas ficou em segundo lugar, só perdendo contra os seniores.
O evento que teve lugar no Pavilhão Desportivo do Instituto Politécnico teve, porém, outra equipa em exercício: a técnica. “À parte da selecção, todo o trabalho técnico das competições de basquetebol nos JARC é nosso”, explicou Pou Ma Chong. São cerca de 80 pessoas que têm a missão de cronometrar as partidas e tomar conta das fichas técnicas, entre uma miríade de outras funções.
Atletas, técnicos e a própria associação têm um papel de charneira para o futuro do “streetball” no território. “Macau é uma região com uma dimensão reduzida e esta modalidade é ideal, porque basta ter um cesto e joga-se em qualquer sítio”.
O basquetebol de rua é praticado normalmente em recintos ao ar livre e existe ainda nas variações de um contra um e dois contra dois. Em vez de terem um rumo para chegar ao cesto o mais depressa possível, os jogadores usam “freestyles” com as mãos, os chamados “moves”, tornando o jogo mais interessante do ponto de vista técnico e menos competitivo. Os amantes desta modalidade preocupam-se principalmente em fazer mais “moves” do que cestos e preferem o jogo mais bonito do que disputado.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn



Empresa de conteúdos virtuais aposta forte na RAEM

Macau global

São 500 milhões os potenciais visitantes que estão a menos de três horas de avião de Macau. A equipa da Macau.com pensa neles todos os dias. Mas não é só na rede que a empresa quer ser pioneira e forte. A enorme ambição que a orienta vai levá-la aos telemóveis, onde em breve vai oferecer serviços semelhantes aos que existem no portal: venda de bilhetes de avião, “jet foil” ou de espectáculos, quartos de hotéis e informação resumida sobre acontecimentos, restaurantes ou entretenimento.
Um bom exemplo desse serviço? Até ao fim de Outubro, vinte bilhetes gratuitos para o concerto de Beyoncé no Venetian, para os primeiros que se registarem em linha. Outro exemplo? A equipa garante que actualiza a informação dos espectáculos em Macau cada três dias.
Para além de pensar nos potenciais clientes, todos os dias a empresa pensa em formas de atrair mais curiosos ao seu portal: “Nós oferecemos os preços mais baixos possíveis com a maior transparência”, garantiu a presidente da empresa, Christina Siaw, que é de Singapura mas que há 17 anos não vive na sua cidade-estado, porque tem estado ocupada com “dot com´s” e com o potencial comercial do mundo virtual.
Depois de meia volta ao mundo estabeleceu-se em Macau para dirigir a “dot.com” mais completa do território. E está maravilhada com o que vê: “É incrível o potencial de Macau, não existe outra cidade com esta concentração de quartos de hotel, de lugares nas salas de espectáculo e de casinos. São quase 20 mil quartos de hotel num local tão pequeno, com uns 30 mil lugares em teatros e locais públicos para espectáculos. Onde mais há disto?”.
Argumentos que lhe servem de garantia ser este um negócio destinado ao sucesso. “Mas há que trabalhar muito, apesar de ser uma oportunidade única para quem está na área do marketing”.
O fenómeno das “dot com´s” não é novo, mas em Macau apenas começou a ganhar forma nos últimos anos. O portal actual surge quando a empresa, que nasceu como GoMacau, comprou o domínio Macau.com a um particular por um preço não especificado. Christina sorri quando lhe perguntamos por quanto. Certamente o vendedor ficou rico.
A GoMacau foi lançada há precisamente um ano, a Macau.com há uns três meses e é, agora, a fusão dos dois portais.

É incrível o potencial de Macau, não existe outra cidade com esta concentração de quartos de hotel, de lugares nas salas de espectáculo e de casinos.
Trinta pessoas trabalham das 9 da manhã às seis da tarde numa sala grande, num edifício bem central, em Macau, na maior das informalidades. A presidente recebe-nos de pólo e calças de ganga e não tem gabinete. Trabalha numa mesa com um computador num dos cantos da sala rectangular. Os restantes membros da equipa estão espalhados em outras tantas mesas com o mesmo tipo de equipamento.
A língua de trabalho é o inglês, “a única forma de nos compreendermos uns aos outros, já que temos americanos, australianos, ingleses, chineses, macaenses ou malaios a trabalhar aqui”, explica a responsável. O portal funciona em seis línguas: português, inglês, coreano, japonês, chinês e chinês simplificado.
Não há nenhum português a trabalhar aqui? “Não, o portal é alimentado por colaboradores externos que escrevem os textos”. “A nossa equipa ainda está a ser criada, afirma Christina Siaw, embora seja difícil encontrar pessoal em Macau. Sessenta por cento dos nossos trabalhadores são estrangeiros, não encontramos locais capazes de preencher vagas”, acrescenta.
Até agora, as línguas mais “clicadas” no portal são o chinês e o inglês. “Os portugueses não usam muito o portal, usam-no mais os visitantes, que não os portugueses. São muitos os da grande China”. Para dinamizar o sítio e atrair mais clientes, a Macau.com vai iniciar uma abordagem mais “agressiva” aos mercados da Coreia e do Japão através de parcerias com os motores de busca como a Google, acções de relações públicas, compra de listas de correios electrónicos e realização de eventos promocionais.
A Macau.com, detida em parte pela MKW Capital Management, por sua vez accionista da Viva Macau, aposta também nas promoções para chamar a atenção e quando diz que os seus preços são os mais baratos possíveis, justifica-os com os acordos que assina com os fornecedores: “Os nossos preços acabam por ser sempre mais baratos, porque estamos na Internet”. “Não há intermediários, não gastamos dinheiro com funcionários que fazem as reservas e vendem o produto de forma física. Para além disso, quando compramos muitos bilhetes de uma só vez, ou adquirimos quartos de hotéis em grande número, o preço original baixa, e aí entramos em cena”.
Christina Siaw acrescenta: “Ao utilizarmos plataformas digitais podemos fazer sete ou oito vezes mais negócio do que uma empresa clássica, com o seu espaço físico e empregados que atendem o público directamente”.
A presidente não esconde a sua ambição: “Como queremos uma boa posição no mercado, todos os meses queremos ter promoções para atrair clientes. Para isso, juntamo-nos aos nossos parceiros e delineamos as ofertas”.
Este mês, recordou Christina, já foram oferecidos 20 bilhetes para os jogos da NBA. Até ao final do mês, para além de Beyoncé, vão ser oferecidas entradas para o Grande Prémio de Macau e para o embate entre os tenistas Roger Federer e Pete Sampras.
A Macau.com concorre com os fornecedores primários, produtores destes espectáculos e eventos, mas Christina não os teme: “Nem sequer cobramos mais do que eles, que vendem em primeira mão”. Uma relação complexa, já que a empresa alia-se com esses mesmos fornecedores quando prepara promoções para oferecer, por exemplo, bilhetes. “Macau vai ser a cidade mais visitada da região, há muita gente”, recorda Christina, como quem diz “há espaço para todos”.
“Vá ao nosso portal e veja”, lançou-nos, na hora da despedida. Fomos, e vimos que uma noite de promoção no Wynn, pela Macau.com, pode custar no mínimo 1826 dólares de Hong Kong e no Westin custa 1370 dólares de Hong Kong.
Não conseguimos reserva para o Wynn, mas através do portal a noite no Westin sairia umas 30 patacas mais barata do que se fosse reservada no sítio oficial do resort de Coloane.
Se é dos que não se deixa vencer por 30 patacas, talvez o portal o tente para a compra de bilhetes de “jet foil” e assim fugir às filas cada vez mais assustadoras do terminal marítimo do Porto Exterior. No portal, compra o bilhete, imprime um “voucher” e quando chegar ao terminal levanta o bilhete e embarca. Se lhe interessar, a Macau.com também oferece algumas promoções para hotéis em Hong Kong.
Joyce Pina
Fotografia: macau.com



segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Novo ano na Assembleia Legislativa, Ciclistas querem pódio nos Asiáticos em Recinto Coberto

Sessão legislativa 2007/2008 arranca hoje, deputados perspectivam novo ano

Tempo para fazer mais

É com a análise em sede de comissão de um diploma de difícil consenso que arranca hoje mais uma sessão legislativa, a terceira da actual legislatura. A Comissão Permanente liderada pelo deputado Cheang Chi Keong não conseguiu terminar, antes das férias de Verão, o trabalho de análise pormenorizada da proposta de lei relativa ao Regime Geral das Relações de Trabalho, a chamada Lei Laboral.
Aquele que é, porventura, um dos temas dos últimos anos alvo de um maior debate em sede de comissão não deverá ser votado na especialidade durante o corrente ano, não obstante a agenda dos próximos dias para o grupo de deputados responsável pela matéria. A terceira Comissão Permanente tem sete reuniões planeadas até ao final do mês para continuar a analisar a Lei Laboral, tentando conjugar opiniões que se diversificam conforme o sector que representam.
Em mãos a Assembleia Legislativa (AL) tem também o diploma referente ao Enquadramento das Leis e Regulamentos Administrativos, que transitou da sessão passada.
De resto, o ano que agora começa não deverá ser alvo de grandes modificações no funcionamento interno do órgão legislativo da RAEM, que aprovou recentemente alterações ao Regimento. Para amanhã estão marcadas eleições dentro das três comissões permanentes para a escolha dos principais responsáveis dos grupos de trabalho – presidentes e secretários – sucedendo o mesmo na Comissão de Regimento e Mandatos.
Perspectivando o ano legislativo que agora tem início, as opiniões dividem-se no que toca às prioridades da AL. Órgão que pouco tem feito em matéria de produção legislativa de iniciativa própria, é frequentemente alvo de críticas da população por dedicar parte substancial do trabalho à apreciação das propostas de lei da autoria do Executivo. As posições dos próprios deputados divergem na questão da iniciativa legislativa: há quem entenda que compete ao Executivo ser o proponente principal; outros defendem um papel mais activo da Assembleia no plano jurídico.
Leonel Alves, deputado eleito pela via indirecta em representação do sector profissional, entende que “chegou a hora de se criar uma consciência entre os deputados de que a AL só poderá considerar-se cabalmente empenhada nas suas tarefas através de iniciativas legislativas”. Acontece, porém, que esta iniciativa legislativa é coisa que “não se decreta, não basta que dois ou três deputados queiram legislar sobre determinado tema”, realçou o deputado.
Para Alves, a tónica deve ser colocada na criação de “meios de prospecção e investigação de questões tidas como importantes para a sociedade, recolher informações e auscultar as opiniões de diversos sectores e individualidades”. A ideia consiste em construir “um banco de dados que permitirá avançar para a elaboração técnica do texto”, explica o advogado. “Depois de oito anos de experiência constitucional, já é altura de legislar, fazer o trabalho de casa, encontrar consensos e apresentar textos legislativos para discussão pública”, reitera, sublinhado que “as restrições constitucionais quanto à iniciativa legislativa da AL são de natureza política, o que não significa que não possa debruçar-se sobre determinados temas e oferecer textos sobre a forma de ante-projecto de lei”.
Neste contexto, o deputado elege dois temas, a título de exemplo, que considera serem de grande importância social, face o desenvolvimento económico. “A legislação sobre o arrendamento foi profundamente alterada nos finais da década de 1990, passando de um regime conservador e garantístico para outro extremamente liberal e sem grandes garantias para o inquilino”, aponta. Outro tema que deveria ser tratado em sede do hemiciclo é a questão do parqueamento automóvel, continua Leonel Alves. “Desde a década de 80 que existem muitas compras e vendas em prédios urbanos, mas até hoje não se conseguiram fazer as escrituras”.
Com uma postura bastante diferente no que toca à função de produção legislativa da AL, Kwan Tsui Hang, deputada eleita por sufrágio directo pelo sector laboral, entende ser prioritário que “a Assembleia Legislativa acelere a discussão da Lei Laboral, bem como o debate do diploma referente ao Enquadramento das Leis e Regulamentos Administrativos”.
Depois de resolvidos os diplomas herdados da sessão passada, a deputada gostaria de ver chegar à AL a proposta de lei sobre os trabalhadores não residentes. Na lista de assuntos considerados importantes por Kwan, que diz desconhecer quais os planos do Governo em relação à apresentação de articulados à AL, fazem ainda parte leis relacionadas com a economia, bem como o diploma referente aos limites à actividade dos titulares dos principais órgãos após deixarem o poder.
Com uma postura política mais radical, Ng Kuok Cheong diz não ter expectativas em relação a este novo ano. “Não deposito quaisquer esperanças nas funções da AL”, lança. Quanto aos temas que deverão ser abordados por via da apresentação de legislação com origem no Executivo, o deputado da Associação Novo Macau Democrático começa por dizer que “o Governo deve ter o seu próprio calendário legislativo”, calculando, em seguida, “que devem ser apresentadas leis sobre a reforma da Administração Pública, leis relacionadas com matérias laborais e com os trabalhadores não residentes”.
Reiterando uma pretensão de longa data e pedra basilar do discurso político dos deputados democratas, Ng diz pensar que “o assunto mais urgente a legislar prende-se com a reforma do sistema político de Macau, que deve dar espaço à democracia, com a eleição por sufrágio directo e universal do Chefe do Executivo, sendo que a grande maioria dos deputados deve ser escolhida também através deste método”. Só assim, diz, “é que é possível reduzir a presença dominante dos interesses capitalistas”.
Já Leong Heng Teng, representante dos Kai Fong na Assembleia, acredita que esta nova sessão será de grandes pressões para os deputados. “Há matérias que estão ainda em discussão, que vieram da sessão passada, e outras que já foram aprovadas pelo Conselho Executivo”, contextualiza.
Para o deputado, a função principal da AL deverá ser “garantir a interacção entre as matérias legislativas e os cidadãos”, bem como fiscalizar, “de modo efectivo, a acção governativa”. Leong sublinha que “o desenvolvimento acelerado de Macau gerou problemas que exigem nova legislação, adaptada à realidade social”, acrescentando esperar que “a aprovação de mais diplomas e a implementação de novas políticas permitam uma partilha mais equilibrada da favorável situação económica” de Macau.
As “áreas urgentes” que Leong Heng Teng enumera prendem-se com a segurança social, em especial o apoio aos idosos, a qualidade de vida, o planeamento urbano e o desenvolvimento económico.
Defendendo, claramente, que a função de fiscalização da acção governativa deverá ser reforçada, em contraste com a ausência de ideias sobre a produção legislativa da AL, o deputado defende “a criação de mais grupos de trabalho específicos para analisar questões pontuais, à semelhança do que já acontece com a Comissão Eventual para a Análise dos Regimes de Concessões Públicas e de Terrenos e a Comissão Eventual para a Análise do Regime de Finanças Públicas”.
Leonel Alves vai mais longe. O deputado entende que a Assembleia deveria avançar para a criação de comissões especializadas para o acompanhamento das diferentes áreas de governação. “As Linhas de Acção Governativa são apreciadas pela AL até ao final do ano, mas no decurso da sua implementação não é feito esse trabalho de acompanhamento pelos deputados”, constata. “Seria uma forma efectiva e funcional de se cumprir a função de fiscalização da AL”.
A propósito ainda destas inovações que gostaria de ver implementadas, Alves sustenta que, a bem da transparência, “os trabalhos das comissões da Assembleia devem ser abertos ao público”. O órgão legislativo da RAEM poderia também, acrescenta o deputado, desempenhar uma função activa na divulgação da Lei Básica e de outros diplomas estruturantes da sociedade, através da organização de seminários e palestras.
As reuniões em torno da Lei Laboral marcam a agenda deste mês dos deputados à Assembleia Legislativa que têm, até ao final de Outubro, nada mais, nada menos, do que 13 sessões de trabalho, sendo que a maioria são encontros das comissões. Para amanhã à tarde, está agendada uma reunião Plenária, para a apresentação do Relatório sobre a Execução do Orçamento de 2006 e do Relatório de Auditoria da Conta Geral de 2006, pelos representantes do Governo.
Apresentação da legislação prevista no Artigo 23º da Lei Básica

Talvez para o ano

É uma dúvida que se coloca de cada vez que começa uma nova sessão legislativa. Há uns anos, falava-se com maior frequência da questão, que parece ter caído no esquecimento dos deputados mais preocupados com o assunto. Será a sessão 2007/2008 a escolhida pelo Executivo para a apresentação da legislação prevista pelo Artigo 23º da Lei Básica da RAEM?
Os deputados ouvidos pelo Tai Chung Pou acreditam, de modo geral, que Edmund Ho não deixará o cargo de Chefe do Executivo sem deixar feitas “leis que proíbam qualquer acto de traição à Pátria, de secessão, de sedição, de subversão contra o Governo Popular Central e de subtracção de segredos do Estado, leis que proíbam organizações ou associações políticas estrangeiras de exercerem actividades políticas na Região Administrativa Especial de Macau, e leis que proíbam organizações ou associações políticas da Região de estabelecerem laços com organizações ou associações políticas estrangeiras”, conforme estatui a base constitucional da RAEM.
Kwan Tsui Hang acredita que tal deverá acontecer já em 2008. Ng Kuok Cheong pensa que o processo está “dependente das intenções do Governo Central e do momento oportuno para a legislação desta matéria em Hong Kong”. Macau irá a reboque da região vizinha, atira o deputado, mas “é possível que o Governo de Macau avance com a apresentação de uma proposta de lei ainda durante esta sessão legislativa”.
Por seu turno, Leong Heng Teng diz acreditar que o diploma sobre este assunto será apresentado só na próxima sessão legislativa, ou seja, em 2008/2009.
Lembrando que a regulamentação do Artigo 23º é um dever da RAEM, imposto pela Lei Básica, Leonel Alves diz que “o ano ideal para a análise, discussão e aprovação de um diploma desta natureza é 2008,” lembrando que em 2009 realizam-se duas eleições - para o Chefe do Executivo e para a Assembleia Legislativa – pelo que “a conjuntura política não será a melhor”.
Isabel Castro com Swallow Xu


Selecção de Macau de ciclismo artístico na luta pela liderança na Ásia

As acrobacias das bicicletas vencedoras

Nos últimos dias, a luta no sector turístico entre Macau e Hong Kong tornou-se feroz, mas a competição regional não se ficará por aqui. As duas regiões administrativas especiais estão envolvidas noutra corrida, na qual está em causa uma liderança asiática. Esqueçam as estatísticas económicas e passemos ao desporto. Faltam menos de duas semanas para o início dos 2.os Jogos em Recinto Coberto (JARC) e a selecção de ciclismo artístico da RAEM não se contenta com apenas uma vitória, mas com várias.
Esta disciplina faz parte da modalidade de ciclismo de salão que também engloba o ciclismo com bola (ver caixa). Nascida na Europa há mais de um século, a variante artística consiste em ginástica acrobática em cima de bicicletas sem travões. Antes, o Japão e a Malásia eram as equipas que reuniam maior favoritismo mas, ao longo dos anos, as regiões administrativas especiais começaram a conquistar títulos atrás de títulos, explicou o treinador principal da selecção de Macau, Loh Lan Fong.
No ciclismo artístico, cada atleta ou par começa a competir com 200 pontos que, durante a exibição, vão crescendo ou não. Este desporto foi introduzido no território há mais de uma década e a Associação de Ciclismo de Macau (ACM) foi coleccionando vários troféus. Actualmente, os homens e as mulheres locais já alcançaram resultados que ultrapassam a marca dos 300 pontos. Por todo o continente asiático, só Hong Kong é que conseguiu atingir um patamar semelhante nos eventos desportivos internacionais.
Para se manter na linha da frente, cada atleta da formação que vai defender as cores da RAEM treina entre oito a 10 horas por semana apesar de, por vezes, os horários coincidirem com a escola. A forma física dos membros da equipa é avaliada nos torneios abertos que têm lugar na região três vezes por ano. Estes eventos desportivos servem ainda para descobrir novos talentos e trazer algum sangue novo para o grupo.

Se tudo correr consoante as expectativas do treinador principal, a selecção da RAEM vai arrecadar não uma, mas várias medalhas. Uma de ouro, duas de prata e outras duas de bronze
Após a conquista do primeiro e segundo lugares nos 1.os JARC, há dois anos, em Banguecoque, a esperança para a próxima competição está bem lá no alto. Desde o Verão passado, a ACM decidiu intensificar o programa de preparação para cerca de 15 horas semanais.
Na corrida aos lugares do pódio, Kehn Wong é um nome a memorizar. O estudante de engenharia electromecânica da Universidade de Macau não é um estranho entre os amantes do ciclismo artístico. Nos JARC, todas as atenções estão centradas no participante que arrecadou a medalha de prata nos últimos jogos em Banguecoque.
Kehn iniciou-se na disciplina desportiva aos 12 anos quando se juntou a um curso de Verão. Agora está entre os melhores atletas da Ásia com 330 pontos e no “ranking” dos seis ciclistas artísticos do mundo desde o campeonato que teve lugar no ano passado, na Alemanha. O país europeu é o líder mundial na disciplina desportiva.
A viver tempos de glória, o jovem quer chegar ainda mais longe e corrigir algumas falhas na sua prestação. “A minha incapacidade para realizar alguns movimentos em cima da bicicleta tem dificultado a conquista de melhores lugares”, notou.
Kehn está a viver a aproximação dos JARC com um misto dos sentimentos de ansiedade e stress. Será a primeira vez que o atleta vai competir perante os amigos e familiares.
No entanto, o membro da selecção de Macau já encontrou uma solução para suplantar a pressão. “Vou mentalizar-me que, se há tanta gente a depositar esperanças na minha vitória, porque é que não hei-de confiar em mim próprio também?”, vincou.
Em femininos, a rainha das bicicletas sem travões é June Kuan, a vencedora da medalha de ouro em 2005, na capital tailandesa. O trajecto desportivo da estudante de Educação Física e Desporto no Instituto Politécnico é semelhante ao do colega. A jovem também conheceu o ciclismo artístico há oito anos através de um curso de Verão, mas foi parar à acção de formação de pára-quedas.
“Na verdade, andava à procura de uma actividade de corridas com bicicleta e só me inscrevi no curso porque vi que tinha a palavra ciclismo”, recordou. As acrobacias acabaram por ser uma boa surpresa e foram amor à primeira vista.
June, 20 anos, decidiu levar muito a sério os JARC. De tal forma que cancelou a maior parte dos compromissos marcados para depois do almoço e evitou todos os exercícios de ginástica mais perigosos na faculdade desde o Verão do ano passado. Tudo com o objectivo de se preparar para o evento desportivo que vai ser organizado em Macau.
A ciclista artística número um da Ásia já encontrou uma forma da aliviar a pressão. “Imagino-me a competir contra mim própria e estabeleço uma comparação entre os meus resultados. Isso dá-me uma sensação de que estou a fazer apenas uma exibição e eu gosto quando o público está atento ao que estou a fazer”, apontou.
Kehn e June fazem parte de uma equipa formada por mais três elementos masculinos e dois femininos. Se tudo correr consoante as expectativas do treinador principal, a selecção da RAEM vai arrecadar não uma, mas várias medalhas. Uma de ouro, duas de prata e outras duas de bronze. Loh Lan Fong tem os planos bem definidos para a exibição no Pavilhão Desportivo da Escola Luso-Chinesa, na Taipa, local onde vão decorrer as competições de ciclismo de salão.
O optimismo do técnico é alimentado pelo que acredita ser a posição vantajosa dos praticantes locais. A constituição física e a flexibilidade são o grande trunfo da equipa do território, defendeu o mesmo responsável.
A formação de Macau é o projecto de vida do ex-ciclista. Tamanha é a devoção pela modalidade que Loh fechou a sua loja de bicicletas no ano passado para poder ter tempo para comandar os treinos. Juntamente com o irmão, também treinador, está à procura de novos atletas. O objectivo é fazer os seus homens e mulheres viverem um sonho que também já foi o seu. “Não consegui ser o número um da Ásia, mas quero que aqueles que são treinados por mim persigam esse propósito”, sublinhou.
Quando o discurso passa à parte das instalações desportivas, o sorriso apaixonado do treinador dá lugar a um franzir das sobrancelhas. O Governo atribuiu subsídios para as bicicletas e o aluguer dos centros onde se realizam os treinos. No entanto, Loh defende que o ciclismo artístico carece de um espaço próprio, onde estejam guardados todos os instrumentos necessários.
“No acto de saltar do selim para o guiador, quem se atreveria a tentar essa acrobacia sem um sistema de protecção?”, questionou. Embora não seja permitido o uso de protecções durante as competições, o técnico sustentou, em jeito de repto, que seria uma forma de prevenir a ocorrência de lesões durante os treinos, defendendo a necessidade de instalações de treino com este tipo de equipamento.
Kahon Chan com Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn