quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Coutinho, José Chu e a desilusão; Festa das Lanternas em Macau; Crónica de viagem ao Bangladesh

Deputado protesta contra respostas dadas por representante do Governo

Coutinho, José Chu e a desilusão

Foram anos e anos de queixas numa interpelação só. Pereira Coutinho diz que nunca se viveu um momento tão mau na Função Pública, no que ao moral dos trabalhadores diz respeito. José Chu, director dos Serviços de Administração Pública (SAFP), tem uma visão bem diferente do cenário traçado pelo também presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM).
Sem apresentar novidades em relação aos temas focados pelo deputado, José Chu contestou as críticas de Coutinho. A resposta esteve longe de convencer o deputado que, no final da intervenção do director dos SAFP, disse estar “muito desiludido”. “Vendo bem as questões que coloquei, só respondeu às perguntas mais simples. É uma postura que muito me desilude. As perguntas foram colocadas de forma clara. Mais valia dizer que não consegue responder”, lamentou Coutinho.
A verdade é que a desilusão começou logo no início da sessão e teve a ver com a própria presença de Chu na Assembleia. O deputado considerou que, sendo as suas questões de ordem política e estratégica, à Assembleia deveria ter ido a Secretária, pois o director de serviços é apenas um “executor”. A presidente da AL, Susana Chou, lembrou que, nos termos regimentais, o órgão não tem possibilidade de escolher qual o representante do Governo que vai à Assembleia responder às interpelações dos deputados.
Resolvido este ponto prévio, passou-se então para a rápida troca de perguntas e respostas entre Coutinho e Chu. Resumindo a interpelação, o presidente da ATFPM criticou a eliminação da reforma e da pensão de sobrevivência, substituídas em 2007 pelo novo regime de previdência, a inexistência de um “sistema credível” de responsabilização dos titulares dos principais cargos políticos, a “continuada escandalosa exploração dos trabalhadores, através de contratos de prestação de serviços, de aquisição de serviços e de tarefas”, a estagnação das carreiras e “os baixos salários do pessoal da linha da frente” quando comparados com os vencimentos dos trabalhadores das concessionárias do jogo com funções semelhantes.
O deputado perguntou quanto tempo mais precisa o Governo para resolver a lista de problemas que focou, quais as medidas estão a ser adoptadas para elevar “o baixo moral” e para que “a competência seja uma das principais qualidades para a prestação de serviços públicos”.
José Chu refutou o cenário traçado pelo presidente da ATFPM, começando pelo regime de previdência. “Tem contribuído positivamente, desde sua a entrada em vigor. Mais de seis mil trabalhadores que não beneficiavam de nenhuma garantia estão agora integrados no sistema”, disse. Quanto à responsabilização das chefias, assegurou, “o Governo está empenhado”. Ao contrário do que diz Pereira Coutinho, o “pessoal da linha da frente” ganha “consideravelmente mais” do que os funcionários dos casinos, acrescentou o director dos SAFP, enquanto lia um mapa comparativo. O responsável anunciou que vai ser criado um centro de formação especializado para os funcionários públicos e disse que tem “havido intercâmbio e diálogo com os trabalhadores”.
O deputado insistiu na questão da responsabilização dos principais titulares de cargos públicos. Susana Chou passou a palavra a José Chu, que se limitou a dizer que a sua resposta foi “global”, pelo que não tinha mais nada a acrescentar. Au Kam San tentou dar uma ajuda e pediu que fosse dada resposta à questão sobre a forma como o Governo pretende levantar o moral dos funcionários. “A esmagadora maioria dos trabalhadores reconhece as políticas e medidas adoptadas pelo Governo. O público também reconhece os esforços dos funcionários”, disse o director dos SAFP, minimizando a questão. De qualquer modo, acrescentou, “quanto à questão do moral, o Governo tem vindo a desenvolver trabalhos”. Como? Não disse.
Embora já não tivesse tempo para voltar a usar da palavra, Susana Chou concedeu a Pereira Coutinho um minuto para expressar o seu desagrado. A primeira interpelação das cinco ontem apresentadas acabava assim com uma clara sensação de desconforto. Para os dois lados da barricada.
Isabel Castro

Futebol profissional gera reacções opostas entre elementos da modalidade desportiva

Um passo maior do que as pernas?

“Se for mesmo criada uma liga de futebol profissional em Macau é claro que deixaria o meu emprego e alinhava por uma das equipas.” Pelé nasceu para ser craque da bola e foi com esse objectivo que viajou há cerca de uma década para o território. Contudo, à semelhança de tantos outros jogadores lusófonos, o sonho caiu por terra. Futebol profissional sempre foi algo inexistente na região. No entanto, o mundo do desporto-rei local prepara-se para uma reviravolta.
A Associação de Futebol de Macau (AFM) confirmou esta semana à imprensa de Hong Kong que está a ser planeada a criação de uma liga feita só com equipas profissionais, que podem entrar em campo já no próximo ano. A notícia originou surpresa entre as várias figuras ligadas ao futebol de Macau.
Do conjunto de dirigentes, treinadores e jogadores contactados pelo Tai Chung Pou, alguns manifestaram alegria e satisfação puras perante a iniciativa, mas há também quem torça o nariz. Apoiantes ou não dos novos planos da direcção da AFM, o certo é que muitas questões são colocadas à criação da Super Liga de Futebol de Macau. Das bancadas, os representantes e elementos da modalidade no território aguardam o pontapé de saída para a segunda metade da história.
“Impraticável.” É esta a visão do novo projecto da AFM aos olhos do proprietário das equipas Monte Carlo e Heng Tai, Firmino Mendonça. Aquele que é apelidado como o “patrão” do futebol de Macau afirmou desconhecer por completo os planos da associação e, por isso, escusou-se a alongar os comentários. Contudo, o empresário considera “difícil” a concretização deste projecto.
As razões que alimentam a posição de Firmino Mendonça são as mesmas apontadas por José Eduardo, popularmente conhecido por Dedé, jogador do Heng Tai e da selecção de veteranos de Macau. Para o futebolista, a criação da divisão profissional significa uma oportunidade de progresso da modalidade desportiva, mas o cepticismo é a tónica dominante do residente que veio para o território em busca de carreira há 21 anos.
“É um impulso feito um bocado às cegas. Falta ao futebol de Macau toda uma estrutura e uma base onde se possa agarrar, bem como uma verdadeira mentalidade desportiva”, defendeu. “Estão mesmo a querer dar um passo maior do que as pernas”, acrescentou.
Para sustentar uma liga profissional de futebol são precisos, segundo Dedé, três peças fundamentais: jogadores, financiamento e infra-estruturas. As perguntas multiplicam-se. “Onde é que se vai buscar tanto dinheiro? E jogadores? Quanto tempo durará o campeonato à custa dos fundos? Seis meses? E depois? Acaba-se o futebol?”, apontou.
De acordo com as notícias que têm circulado na imprensa de Hong Kong, a AFM planeia criar a liga de profissionais com a ajuda de empresas privadas. O presidente da associação, Cheong Coc Veng, afirmou que o bom estado da economia da RAEM é o factor catalisador destas mudanças no futebol do território, havendo cada vez mais grupos empresariais a manifestar interesse em investir na modalidade.
Até agora, o que chegou do outro lado do extremo do Delta do Rio das Pérolas é que já existem quatro equipas formadas, mas que a associação pretende atingir um conjunto de seis. Ao contrário das formações amadoras existentes, os onzes compostos por profissionais não terão limites de jogadores estrangeiros.
Algo que deixa indignado Dedé. “Cortam as pernas a umas equipas e favorecem outras. Isto é dar o dito por não dito”, acusou.
Recorde-se que os clubes amadores actualmente divididos pelas três divisões são obrigados a limitar o número de atletas residentes não permanentes para oito por equipa e quatro por partida. Uma medida que foi imposta pela FIFA e a Confederação Asiática de Futebol, mas que aparentemente não terá efeito na divisão profissional.
As intenções da direcção liderada por Cheong Coc Veng são há algum tempo conhecidas pelo Governo. “Desde o ano passado que o Instituto do Desporto de Macau (IDM) tem conhecimento dos planos da AFM”, adiantou o vice-presidente do organismo governamental, José Tavares.
“É uma boa tentativa para que o nosso futebol dê uma volta e que tenha outra dinâmica, disciplina e essência. O projecto conta com todo o apoio do IDM, mesmo que no final não produza resultados”, acrescentou o mesmo responsável. Qualquer ajuda concedida pelo IDM será apenas de carácter logístico e não monetário, fez questão de destacar José Tavares.
Os moldes do financiamento é outra das questões que preocupam Dedé. “As assistências dos estádios estão vazias. Como é que um casino vai investir numa equipa sem fim ou retorno certo?”, questionou. A par disso, o atleta lançou ainda o problema dos jogadores. Será preciso, segundo o também treinador, uma grande quantidade de recursos humanos para alimentar seis equipas profissionais. A solução passaria por contratar futebolistas locais.
Contudo, grande parte dos atletas amadores de Macau já “têm as suas vidas feitas”. “Não os vejo a deitar fora uma carreira com futuro para daqui a meia dúzia de anos se reformarem do futebol”, sustentou.
Mais confiança tem Rui Cardoso, dirigente do Sport Macau e Benfica. “Não podemos ser cépticos. É um bom passo e o momento certo para avançar. Não podemos dizer que não vai resultar. É preciso tentar”, frisou. São também muitas as interrogações colocadas pelo ex-futebolista. No entanto, o mais importante para o responsável são as vantagens que poderá trazer para o desporto rei da RAEM uma liga profissional de futebol.
Tendo em conta que os “encarnados” se dedicam de corpo e alma à formação de jogadores, a notícia não podia ser melhor recebida por Rui Cardoso. “As camadas jovens vão estar mais motivadas, porque sabem que existirá uma competição séria além da amadora e isso vai exigir uma maior concentração e uma melhor condição física”, explicou.
O mesmo se aplica aos jogadores, profissionais na área do desporto e até dirigentes desportivos. “A partir do momento em que existe uma divisão profissional, tudo será profissional. Desde os atletas, treinadores, preparadores físicos, massagistas e dirigentes. É uma oferta de emprego motivante”, notou.
Resta agora saber se as actuais equipas de Macau têm as portas abertas para participar na liga profissional. José Tavares diz que sim. “Tudo é possível, desde que as formações alterem os seus estatutos”, explicou o vice-presidente do IDM.
Mais pormenores dos planos da AFM poderão ser conhecidos já amanhã. De acordo com fonte da entidade associativa, em declarações ao Tai Chung Pou, será organizado um encontro da associação onde provavelmente vai ser apresentado oficialmente ao futebol de Macau o novo projecto.
Alexandra Lages

Em Macau quase não se comemora a Festa das Lanternas

Uma tradição perdida

Quase desaparecida. Nem consta do calendário oficial. Assim é a Festa das Lanternas em Macau que se realiza hoje. Uma data que assinala o fim das festividades de Ano Novo chinês e que calha no 15º dia do primeiro mês lunar. Um “simbólico apagar da iluminação” que acolheu a chegada do Ano do Rato e um “regressar ao trabalho”, afirma a socióloga que se dedica à investigação da sociedade chinesa, Regina Paz.
No fundo, prende-se com a “necessidade de luz”. Um “pedido para que a noite seja curta” e os dias mais longos. Mas em Macau já não é particularmente celebrado. “É comemorado aqui e ali – está mais diluído”, conta. Apagam-se as lanternas. A Primavera “está a chegar e os dias a aumentar”, avizinhando-se um período maior de sol. Em termos sociais, “quer dizer que param os festejos e metem-se mãos à obra”. Para assinalar a data poderá, quanto muito, “haver um jantar de família dentro ou fora de casa”. E, claro, as lanternas são uma constante da tradição chinesa e não desaparecem só porque terminam as festividades de Ano Novo chinês. “Para nos guiar e não nos perdermos”, diz. É também o dia em que os casados deixam de oferecer envelopes recheados de dinheiro, ou lai-si.
De acordo com várias pessoas contactadas pelo jornal Tai Chung Pou, a data que também coincide com o Dia Chinês dos Namorados apenas é celebrada “pelos mais idosos”. Tradicionalmente, estarão associados à festividade alguns enigmas chineses que são colocados no interior ou por baixo das lanternas.
A maior atracção do Festival Yuan Xiao – como também é designado - é um mar de lanternas de todas as formas e cores que pode ser encontrado pelas ruas chinesas. Começou a celebrar-se durante a dinastia Han (206 a.C – 221 d.C), tornando-se popular durante as dinastias Tang e Song. À noite, as pessoas deslocam-se para as ruas erguendo uma série de lanternas, debaixo da lua cheia, para observar a dança do dragão e do leão, decifrando enigmas, desfrutando dos típicos “dumplings” de arroz glutinoso chamados Yuan Xiao e lançando fogos-de-artifício. Um dia de diversão para velhos e novos. Os “dumplings” simbolizam a união familiar e a felicidade. E são recheados com nozes, sésamo, pétalas de rosa ou carne e vegetais. O modo de cozinhá-los varia do Norte ao Sul da China.
O festival é também marcado por enigmas que são pendurados debaixo das lanternas para que todos possam ler. Enigmas que estão longe de serem convencionais. Um exemplo: “Em que cidade não existem mulheres?” A resposta é: Seul. O nome em chinês é “Han Cheng”, em que Han significa homem e Cheng, cidade.
É também a única altura em que as mulheres podem sair de casa para se divertirem sem sentirem o mínimo de culpa. Eis porque também é considerado o Dia Chinês dos Namorados. Uma oportunidade para os solteiros conhecerem a eventual cara-metade.
Tradicionalmente, lanternas de várias formas e feitios, de vários materiais, estão expostas em feiras de lanternas. Um símbolo da sabedoria e do dom para o artesanato do povo chinês, já que pode ser feito de palhinhas, vidro, melancia, papel ou seda.
Algumas lendas estão por detrás da origem do festival. Conta-se que o começou com a dinastia Han, quando um ministro ouviu uma empregada, chamada Yuan Xiao, a chorar porque não poderia regressar a casa por ocasião do Ano Novo chinês. Com pena, o governante dirigiu-se então ao Imperador e alegou que a cidade estaria destinada a ser destruída por um incêndio 16 dias depois do Ano Novo por ordem do Deus do Fogo. A população, amedrontada, perguntou ao ministro o que poderia fazer. Foi então que o governante afirmou que o Deus do Fogo iria disfarçar-se no 13º dia de mulher vestida de vermelho e que os populares deveriam encontrá-la. Assim, incitada pelo ministro, uma das empregadas, erguendo um vestido vermelho, andou pelas ruas da cidade no 13º dia do primeiro mês. Rapidamente, as pessoas se aperceberam que seria o Deus do Fogo. Assim que se aproximaram, a jovem entregou uma carta aos populares, dizendo que se tratava de um decreto do Imperador Jade dos Céus que devia ser entregue ao imperador. A carta dizia: “Terás azar! No 15º dia do primeiro mês, o Deus do Fogo incendiar-te-á.” Assim que leu o documento, o Imperador pediu ajuda ao ministro. Foi então que o governante incitou o Imperador a ordenar que todos os populares fizessem uma grande lanterna vermelha e a pendurassem no 15º dia. Os populares deveriam sair à rua para ver a lanterna, juntamente com o Imperador e todos os que vivessem no palácio. “Só assim o Deus do Fogo não o encontrará”, dizia o ministro. Como o Deus do Fogo não importunou o Imperador, desde então, em todos os 15º dias do primeiro mês lunar, toda a nação deverá celebrar com lanternas. Pelo menos, é uma das versões contadas da história.
Se se celebra ou não em Macau, é o que hoje se vai ver. Certo é que todos os contactados pelo Tai Chung Pou afirmaram nem se lembrar desse dia. Nem mesmo no site oficial do Turismo constava qualquer referência à data. Em 2005 e 2006, o Governo de Macau organizou uma série de actividades que incluíam jogos, teatro de marionetas, espectáculos de magia e ópera chinesa no Jardim Lou Lim Ieoc e no Largo do Senado. Quanto ao ano passado e ao corrente, nada está programado no site oficial.
Luciana Leitão, com Ina Chiu

Crónica de viagem ao Bangladesh

O país que são dois

Custam 29,9 dólares de Hong Kong e são de uma cor só. As t-shirts da H&M têm uma enorme etiqueta cosida no colar com a indicação “made in Bangladesh”. É uma forma simples de se ficar saber que o país tem uma indústria manufactureira com baixos custos de produção. As notícias sobre o Bangladesh que aparecem nos órgãos de comunicação social são, por norma, relativas a casos de corrupção ou a inundações. No entanto, o país parece que está a mudar lentamente. A questão que se coloca é até que ponto poderá ir a florescente classe média numa nação que padece sempre de algum mal.
Não é preciso dizer o que se vai fazer ao Bangladesh para facilmente se adivinhar o propósito da viagem. No avião, em pleno Ano Novo chinês, a hospedeira lamentava a sorte dos passageiros que, durante os feriados mais populares do ano, continuavam a ter que trabalhar. Com efeito, o turismo é área que quase não existe no país, sobretudo se o compararmos com o seu gigante vizinho, a Índia. À excepção do icónico edifício do Parlamento, desenhado pelo famoso arquitecto Louis Kahn, e de uma meia dúzia de memoriais, a capital do Bangladesh, Dhaka, bem como a segunda maior cidade, Chittagong, têm poucos locais que se possam classificar como sendo de interesse turístico.
Localizado entre a Índia e o Myanmar, antiga Birmânia, o Bangladesh era uma província isolada do Paquistão até ter conquistado a independência, corria o ano de 1971. Não obstante o facto de ter uma significativa reserva de gás natural (calculada em 135,8 mil milhões de metros cúbicos em 2006), a economia da nação islâmica tem estado estagnada desde a sua independência, à mercê de administrações corruptas e pouco eficientes.
O ambiente político que se vive nos dias que correm deixa poucas esperanças de que o país encontre o seu rumo. Em 2007, o presidente interino Iajuddin Ahmed cancelou as eleições e instaurou um governo de excepção apoiado no exército. As manifestações de rua e as greves estão terminantemente proibidas. Dois antigos primeiros-ministros, Khaleda Zia e Sheikh Hasina, continuam presos por corrupção e extorsão, respectivamente.
Para o final deste ano estão agendadas eleições mas os locais duvidam que o Governo cumpra a palavra dada. Quanto à corrupção (o Bangladesh é o 8º pior país neste parâmetro), está bem presente no quotidiano e não é nada difícil de detectar.
As infra-estruturas básicas não chegam a existir. As duas principais cidades do país não têm uma via rápida que as ligue. A companhia aérea nacional, recentemente privatizada, não tem verbas que lhe permitam fazer reparações nos DC-10 e A310, que acusam os anos de voo. O fornecimento de electricidade não é assegurado e todos os dias falha a luz. Não espanta, tendo em conta o contexto, que o Bangladesh não seja um destino turístico.
No entanto, existe uma outra dimensão na vida do país: a classe média (ou alta, dependendo dos padrões de avaliação). Os reluzentes jipes japoneses e as limusinas nas ruas de Dhaka são a fase mais visível do fenómeno, que ganha contornos mais explícitos no bairro elevado da capital, Gulshan. Os hotéis de luxo e os bons restaurantes, que também os há, conseguem contornar os problemas básicos, como o fornecimento de energia, com geradores próprios.
A vida próspera desta classe de elite também se sente em Chittagong, a segunda maior cidade do país, que tem o maior porto do Bangladesh. Além dos centros comerciais e dos edifícios de escritórios em vidro, obras recentes de arquitectura moderna, é possível encontrar restaurantes de luxo, como um buffet instalado num edifício “arte deco”, que tinha aberto as portas poucos dias antes da nossa visita. Um jantar neste elegante espaço, de nome Ambrosia, que até tem um porteiro a receber os clientes, custa apenas 300 takas, ou seja, menos de 40 patacas. Parece o valor perfeito, mas está longe de ser suportável para a maioria dos habitantes.
No primeiro dia passado em Chittagong, surgiu a oportunidade de conhecer Mohsin Musa, um bem-sucedido comerciante especializado em ferro-velho. Um convite para jantar em sua casa permitiu ter noção de como vive esta classe privilegiada de um país pouco afortunado. Mohsin Musa vive num condomínio fechado. A garagem na cave tem um elevador com acesso exclusivo ao apartamento no 9º andar. A casa, com duas salas de estar e três quartos de grandes dimensões, tem varandas a toda a volta, que permitem uma vista geral sobre Chittagong. Os preços praticados no mercado imobiliário subiram consideravelmente nos últimos anos mas, ainda assim, o apartamento onde vive Mohsin Musa custa 600 patacas por metro quadrado.
O repasto oferecido combina com o ambiente. A fruta é importada e a melhor carne, só para as visitas, é servida por volta das 22h00, hora a que por norma se janta no Bangladesh. A família não é numerosa, comparativamente com os agregados familiares que vivem em casas de menores dimensões.
As duas pequenas filhas gémeas do casal Musa dominam o reino do 9º andar e entretêm as visitas com demonstrações ao piano, resultado de aulas particulares. São felizes mas partilham um problema que afecta muitas crianças de Hong Kong e de Macau: os pais têm pouco tempo para elas. Ao contrário da maioria das mulheres da nação islâmica, a mãe trabalha – dá aulas numa escola primária.
A conversa passa a ter então como tema as empregadas domésticas e o facto de serem essenciais na manutenção do equilíbrio familiar e profissional. Musa explica que por 500 takas é possível ter uma empregada a tempo inteiro. Um jantar no Ambrosia custa 300.
E assim se regressa à realidade do Bangladesh, país profundamente dividido política e socialmente. O Produto Interno Bruto per capita foi estimado em 1400 dólares norte-americanos em 2007, um valor mínimo quando comparando com o PIB de Macau de 2006 (28.436 dólares). O sector dos serviços, onde se incluem as actividades comerciais, contribuiu para 52 por cento do PIB, mas apenas 25 por cento da população activa trabalha nesta área.
Em 2000, 28 por cento do consumo tinha sido feito pelos dez agregados familiares mais ricos do país, enquanto 45 por cento dos 150 milhões de bengalis viviam abaixo do limiar da pobreza, de acordo com cálculos de 2004. O desemprego é de apenas 2,5 por cento mas uma parte considerável dos recursos humanos emigrou para os países islâmicos do Médio Oriente. As remessas desta parte da população, calculadas em 4,8 mil milhões de dólares (2005-2006), são a locomotiva da economia do Bangladesh.
O grande número de emigrantes fez com que o país tivesse aberto o seu espaço aéreo, ente Outubro e Dezembro do ano passado, de modo a que os trabalhadores pudessem regressar aos países onde estão a viver. A companhia aérea Biman não estava a ser capaz de dar conta do recado. Uma situação semelhante viveu-se no Ano Novo Chinês. O aeroporto de Chittagong, porta de regresso à capital e a outros destinos mais longínquos, estava cheio de pessoas que se despediam dos seus familiares.
A higiene pública é uma das grandes preocupações do Bangladesh. Em Chittagong, os mercados de rua e o lixo que se acumula nas artérias da cidade fazem com que os mosquitos tenham as condições ideais para viverem e se reproduzirem à velocidade da luz. Existe um grande receio em relação à gripe das aves, uma vez que foram detectados vários casos em aviários do país, mas há corvos em todos os lados, à procura de restos no lixo.
O facto de se viajar num confortável carro com ar condicionado não apaga a realidade. No meio do trânsito, vêem-se vendedores de pipocas, toalhas, artesanato e até romances em inglês. Nos vidros dos automóveis batem ainda idosos, crianças, pessoas portadoras de deficiências e mães com filhos ao colo, que pedem esmolas.
Experienciados dois diferentes países num só, chega a hora do regresso. Faltava pouco para a meia-noite quando cheguei ao Aeroporto de Dhaka. Fora das instalações, colados às grades, dir-se-ia que estavam exactamente os mesmos rostos que me deixaram uma forte impressão aquando da minha primeira visita ao país, já lá vão oito anos. Não se sabe se esperam por alguém mas nota-se que, em vez de esperança, há um olhar de desespero. Estão talvez a aguardar a hora da saída.
Kahon Chan

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

AFM anunciou liga de profissionais para 2009, Quem faltava mais ao trabalho?, A poesia de Macau por Kelen

AFM anunciou liga de profissionais para 2009

Futebol de Macau em vias de crescimento

Não podiam ser melhores as notícias para o futuro do futebol em Macau. Imagine-se uma liga profissional, sem limite para jogadores estrangeiros por cada equipa. Este é um sonho antigo dos amantes do desporto-rei sem trono na RAEM que vai ser concretizado já no próximo ano. O anúncio foi feito pelo presidente da Associação de Futebol da RAEM (AFM), Chong Coc Veng, ao jornal de Hong Kong Ta Kung Pao. O Tai Chung Pou entrou em contacto com a associação, mas nenhum responsável se demonstrou disponível para declarações sobre o assunto.
A AFM está a planear criar uma divisão profissional de futebol que pode contar com quatro ou seis formações. Chong Coc Veng afirmou que até já existe uma designação provisória para a nova iniciativa: Super Liga de Futebol de Macau. Ao contrário das actuais divisões amadoras, afirmou o dirigente associativo, a profissional não terá limite de jogadores estrangeiros por equipa. Neste sentido, a AFM irá receber de braços abertos futebolistas de Hong Kong, do Sudeste Asiático e de África.
O passo de gigante que irá acontecer na modalidade desportiva na região deve-se ao desenvolvimento económico da RAEM. “A situação da economia de Macau está cada vez melhor e há muitas empresas privadas interessadas em investir no futebol”, explicou Chong Coc Veng.
Algumas operadoras de casinos confirmaram já o seu interesse em patrocinar as equipas, acrescentou o mesmo responsável. Segundo os cálculos da AFM, espera-se que a nova liga de profissionais implique despesas superiores a cinco milhões de patacas.
O percurso do actual campeonato de futebol de 11 de Macau pode caracterizar-se como um relvado esburacado. Há três divisões em disputa com um calendário que funciona aos altos e baixos. Um desses exemplos é o andamento da principal competição do território, isto é, a primeira liga.
São oito as equipas que disputam o mais importante título futebolístico da RAEM. Ao longo da época realizam-se 42 partidas, sem contar com a Taça de Macau. Todas no mesmo campo, o Estádio da Universidade de Ciência de Ciência e Tecnologia de Macau.
Este ano, o futebol local voltou a surpreender pela negativa. Em primeiro lugar, o campeonato foi suspenso até Maio para dar espaço aos jogos da Taça. Entretanto, todas as competições foram suspensas devido à saturação do relvado por excesso de utilização. Os jogadores foram obrigados a pendurar temporariamente as chuteiras e esperar que a relva cresça.
A par do amadorismo, o desporto-rei no território é influenciado pela falta de espaço. São poucas as formações que organizam treinos regulares devido aos problemas de aluguer de campos. Algo que prejudica bastante a prestação dos atletas e o espectáculo do futebol. O resultado? Bancadas praticamente vazias.
Desde o ano passado, a vida das equipas da RAEM tornou-se ainda mais difícil. Primeiro surgiu a aplicação das restrições à emissão de vistos individuais em várias províncias do Continente. Esta situação causou algumas mossas nas estratégias dos clubes cujas formações são reforçadas por futebolistas que chegam do outro lado da fronteira, nomeadamente da província de Guangdong.
Pouco tempo depois, a AFM anunciou a aplicação de uma nova regra imposta pela FIFA e pela Confederação Asiática de Futebol. Os jogadores de futebol titulares de BIR de residente não permanente deixaram de ser considerados locais e passam a integrar o grupo de estrangeiros aos olhos da organização.
Tal obrigou novamente as equipas a uma reestruturação para poderem participar no campeonato. Tudo porque a AFM limita o número de estrangeiros a oito por formação e a quatro por partida. Actualmente, são cerca de 25 os atletas que alinham na primeira divisão do campeonato de futebol de Macau.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Cunhada de Ao Man Long e coordenadora-adjunta do GDI trocam acusações

Quem faltava mais ao trabalho?

Ambas trabalhavam na Lei Pou Fat, uma empresa de capitais maioritariamente públicos. A cunhada de Ao Man Long, Ao Chan Wai Choi, exercia as funções de empregada de limpeza e estafeta, enquanto a coordenadora-adjunta do Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-Estruturas (GDI), Pun Pou Leng, era uma das representantes do Governo. Uma troca de acusações sobre a assiduidade no trabalho foi o que se ouviu ontem no decorrer de mais uma audiência de julgamento do caso conexo ao de Ao Man Long no Tribunal Judicial de Base (TJB). Quem lançou a farpa foi Pun Pou Leng. Ao Chan Wai Choi ripostou.
Na empresa em que também o antigo coordenador do GDI, Castanheira Lourenço, detinha funções, Pun Pou Leng afirmou que o antigo secretário para as Obras Públicas e Transportes “deu o nome de uma pessoa a Lourenço e disse que arranjasse um posto para ela”. Essa pessoa, de acordo com a testemunha, era Ao Chan Wai Choi. “Sei que ela tinha funções simples – entrega de documentos e limpeza”, disse perante o colectivo de juízas. E realçou ainda o salário “acima da média” da funcionária.
Apesar de assumir que apenas comparecia na empresa Lei Pou Fat “em média, uma vez por semana”, foi rápida em afirmar que a cunhada do antigo governante “não era muito pontual” e “faltava muitas vezes”. Tudo porque tinha ouvido comentários de outros trabalhadores. Em resposta ao advogado Pedro Leal, a coordenadora-adjunta afirmou que “trabalhava na empresa apenas em tempo parcial”. E, garante, “das vezes que lá ia não via a arguida”. Declarações que repetiu várias vezes. E que motivaram um pedido de uso da palavra por parte da arguida Ao Chan Wai Choi.
“Falou de faltas. Mas quando não estava disponível eu avisava sempre a secretária e combinávamos as horas para trabalhar”, afirmou. E realçou que, em algumas das ocasiões em que a representante do GDI se deslocava às instalações da empresa Lei Pou Fat, a cunhada de Ao Man Long “estava dentro do quarto”, não tendo, por isso, sido avistada. O que, destaca, “não quer dizer que não esteja em serviço”. Não deixou, contudo, de vincar que Pun Pou Leng comparecia “uma vez por mês” e não uma vez por semana.
Uma acusação que mereceu um contra-ataque por parte da coordenadora-adjunta do GDI. “Estou a referir-me a um período que começa em 2001. Desde o ingresso dela, o desempenho foi sempre assim”, reforçou. Um desempenho marcado por “muitas faltas”, reiterou.
Recorde-se que a referência à empresa Lei Pou Fat foi uma novidade em relação ao que já tinha sido referido no depoimento prestado pela testemunha no Tribunal de Última Instância (TUI) e que tal não consta da matéria de acusação. Inquirida pelos delegados do Ministério Público, pelo colectivo de juízes e por dois advogados durante quase quatro horas, a sessão de ontem acabou por se arrastar, resultando no adiamento do depoimento do antigo coordenador do GDI, Castanheira Lourenço, para a próxima segunda-feira.

Chutar para cima

Foi a testemunha mais importante do dia de ontem. Pun Pou Leng respondeu sobre os projectos que surgem associados a Frederico Nolasco e à CSR e repetiu o que já tinha afirmado perante o Tribunal de Última Instância. Em destaque esteve a Estação de Tratamento de Resíduos Sólidos e Perigosos e o aumento de 60 para 90 milhões do contrato atribuído à CSR, dispensando um novo concurso público. Aumento que, garante a coordenadora-adjunta do GDI, surgiu por indicação do secretário.
Pun Pou Leng pedia opiniões a Ao Man Long principalmente no que toca aos resíduos sólidos e tratamento de águas residuais. Opiniões meramente técnicas. E, garante, nunca recebeu instruções para alterar as pontuações de concursos públicos. No que toca à adjudicação à CSR da Estação de Tratamento de Resíduos Especiais e Perigosos, Pun Pou Leng assegurou que não pediu a opinião do antigo secretário para as Obras Públicas e Transportes. Apenas afirmou que o antigo governante veio a indicar um aumento do volume de resíduos a tratar de 12 para 24 toneladas, resultando no aumento de 60 para 90 milhões de patacas. A alteração do contrato não resultou num novo concurso público. A testemunha afirmou ainda que tal deve-se a empresas como a CEM que apenas tomaram conhecimento do estudo realizado pelo Governo depois de lançado o concurso público.
“Não teve a ver com instruções emitidas pelo engenheiro Lourenço, mas por necessidades sentidas quando as empresas afirmaram que tinham lixo para ser tratado só depois do concurso”, assegura. Destaque para um pormenor revelado pelo causídico Luís Pinto - o de que existe uma norma que figura no contrato que permite ao dono da obra concordar com alterações sem lançar um novo concurso público. A testemunha acabou por afirmar que “não se recorda” da existência de tal norma.
Quanto à renovação do contrato de “quase exclusividade” de recolha de resíduos sólidos que liga o Governo e a CSR, Pun afirmou que não seria necessário um novo concurso público, já que, depois de sete anos de contrato, seria “aceitável” uma renovação automática, tal como aconteceu em 1999. Até porque, depois de falar com o secretário, chegou-se à conclusão de que “uma empresa concessionária com uma equipa fixa no que toca a esta prestação de serviços, é melhor manter do que lançar um novo concurso”.
No que toca à atribuição à CSR do projecto-piloto de recolha automática, de acordo com Pun, faria sentido que coubesse à empresa habituada a lidar com os resíduos sólidos de Macau. Tanto que tal foi incluído na renovação do contrato entre a CSR e o Executivo.
A coordenadora-adjunta do GDI afirmou, por diversas vezes, que consultou o antigo governante apenas porque este tinha conhecimentos na área. E vincou que não foram dadas quaisquer indicações para alterar os resultados dos concursos.
Numa sessão marcada pela inquirição da testemunha Pun Pou Lei, foi ainda ouvido um assessor do GDI que participou no concurso para o pavilhão desportivo do Instituto Politécnico de Macau e nos arruamentos junto ao Jardim das Artes. Em nenhum dos casos houve grelhas provisórias ou foram dadas indicações por parte do superior hierárquico no sentido de alterar pontuações, de acordo com a testemunha.
Luciana Leitão

Kit Kelen fala hoje da poesia de Macau no Instituto Ricci

Um lugar ao sol para os poetas locais
Vai falar-se em rima hoje no pequeno auditório do Instituto Ricci de Macau (IRM). Christopher (Kit) Kelen é o orador do fórum mensal da instituição local. Ao longo da sessão, o professor de escrita criativa da Universidade de Macau vai apresentar alguns dos poemas que farão parte da primeira antologia de poesia “made in” Macau publicada em língua inglesa no território. Uma obra cujo lançamento está agendado para o final deste ano e que tem a missão de “mostrar ao mundo que a RAEM não é apenas um local onde se passa meio dia e se pode gastar dinheiro”. As quadras e os sonetos são o ponto de partida da tese defendida por Kit Kelen. Tudo poderá ser conhecido “in loco” ali perto da Praça do Tap Seac, pelas 18h30.
“Macau não é uma cidade que se esgota nos casinos ou no turismo. Há todo um património cultural para mostrar ao mundo. Este território tem grandes oportunidades ao nível das artes, principalmente do ponto de vista da poesia”, sustentou Kit Kelen em declarações ao Tai Chung Pou.
Ao longo da sessão do fórum mensal do IRM, o docente de origem australiana vai apresentar os dois novos projectos da Associação de Estórias de Macau (AEM), uma organização da qual é um dos principais dinamizadores. O primeiro é uma antologia de poesia de autores locais portugueses, chineses e ingleses. A obra será publicada em língua inglesa e já conta com 36 poemas. Contudo, o objectivo é lançar uma compilação de cerca de 60 textos.
“Estou surpreendido com a quantidade de bons poetas que existem no território. Como tal, acho que se pode dizer que Macau é uma cidade de poetas e que é mais um ponto de cultura do que um destino de casinos”, sublinhou.
A par da antologia, a associação está ainda a preparar um segundo livro. Esta publicação servirá de apoio à compilação de poemas, na medida em que pretende explicar o contexto dos trabalhos. Isto é, quem são os poetas, de onde vêm, o que fazem e o que representa Macau para o seu sujeito lírico.
Os títulos dos livros ainda não estão definidos, mas já se sabe que o segundo volume estará disponível nas montras das livrarias no próximo ano. É preciso trabalhar rapidamente e com afinco, porque estas duas obras são “essenciais” para a cultura literária da RAEM. E porquê?
“Uma grande quantidade de excelente poesia está a ser produzida hoje em dia em Macau e é preciso torná-la acessível ao público internacional”, explica Kit Kelen. Por um lado, o mundo precisa de novos poemas, por outro, as vozes do território necessitam de ser ouvidas. É esta a convicção do também poeta e autor de várias obras literárias.
Para lá das mesas de apostas, efeitos visuais dos néons e aglomerados de visitantes, a RAEM tem uma necessidade que já se tornou “aguda”. A cidade “precisa de se apresentar ao exterior como um lugar onde existe produção cultural séria”, frisou.
Para os poetas locais conquistarem um lugar ao sol no cenário internacional basta pouco, diz Kit Kelen. A poesia de Macau prima por possuir características próprias, algo que surge por transferência da essência desta terra.
Por poesia local entende-se versos escritos por residentes ou por outros autores que escrevem sobre o território. “‘Sobre Macau’ é algo que abrange toda uma gama de elementos, porque a região pode ser encarada como um estado de espírito. Este conceito sugere muitas coisas. Por exemplo, o facto de ter sido durante muito tempo um portal entre a China e o Ocidente, a sede do Império Português no Oriente. Foi também a antiga cidade do nome de Deus ou dos deuses”, exemplificou.
O território é um local de boa sorte. Um lugar de ociosidade tropical. Uma cidade à beira do rio com aspirações litorais. Um sítio de desconfiança e dissimulação. Miscigenação e interacção cultural. Tudo isto é Macau e a sua poesia, conclui.
No fórum mensal do IRM, que hoje terá Kit Kelen como personagem principal, haverá ainda lugar para promover o novo jornal on-line de poesia da RAEM – o Poetry Macao. A publicação virtual de cariz internacional pretende ser um espaço partilhado por poetas locais e estrangeiros.
A mais recente aposta da Associação de Estórias de Macau concede ainda a oportunidade dos autores discutirem cada poema, além de oferecer traduções de textos originalmente produzidos em chinês ou noutras línguas que não a inglesa. De acordo com o coordenador do projecto, Kit Kelen, o próximo trabalho que será disponibilizado na página de Internet será uma colecção de poemas sobre o Ano do Rato. “A intenção é publicar suplementos anuais baseados em cada ano do calendário lunar chinês”, avançou o mesmo responsável.

De escudo e espada pela poesia de Macau

Antero de Quental, poeta português, defendia a poesia enquanto arma social. Em Macau, há também um guerreiro que utiliza as rimas como instrumento de combate. O propósito é, no entanto, bem diferente. As batalhas de Christopher (Kit) Kelen pretendem conquistar visibilidade e importância para os poetas da terra, tanto ao nível local como internacional.
Desde os anos 1970, que o professor de Escrita Criativa e Literatura da Universidade de Macau publica poemas e obras literárias no contexto internacional. O trabalho mais recente do autor de origem australiana foi lançado no ano passado pela editora Cinnamon Press no Reino Unido.
Na RAEM, Kit Kelen reside há cerca de sete anos. Os projectos desenvolvidos são inúmeros e diversificados. Além de ser editor do jornal on-line Poetry Macau, o professor universitário é responsável pela secção de poesia da revista mensal cultural “Macao Closer”.
O departamento da Universidade de Oxford de Literatura Australiana define Kelen como um autor dotado de uma típica argúcia inovativa e intelectual. O australiano licenciou-se em Literatura e Linguística na Universidade de Sydney, possuindo ainda um curso de grau de doutoramento sobre o ensino do processo da escrita.
Kit Kelen colecciona também vários prémios. A primeira distinção surgiu em 1992, pelo seu primeiro livro de poesia intitulado “The Naming of the Harbor and the Trees”. O território é uma das suas temáticas de eleição. O seu longo poema intitulado “Macau” foi nomeado para o prestigiado prémio Newcastle Poetry.
Alexandra Lages

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Assembleia reúne amanhã para interpelar Governo, Retrato de um calígrafo de Macau

Interpelações orais apresentadas pelos deputados amanhã em plenário

Os mesmos de sempre

Eliminar as barracas que ainda existem no território, apoiar as actividades da Associação de Educação Especial para Adultos Surdos, elevar o moral dos trabalhadores da Administração Pública, generalizar a concessão de terrenos através de concurso público ou mesmo limitar a altura dos edifícios de Macau são as interpelações orais que serão ouvidas amanhã na AL. Pretensões que não são propriamente novas, mas que serão novamente apresentadas em plenário pelos deputados Leong Heng Teng, Chan Meng Kam, Pereira Coutinho, Au Kam San e Ng Kuok Cheong.
As obras param. Os trabalhos não avançam. E projectos como os de construção da rede viária, silos automóveis ou de habitação pública ficam a meio gás, porque as barracas que ainda existem em Macau continuam no mesmo sítio há anos. Pelo menos é o que irá alegar junto dos colegas do hemiciclo Leong Heng Teng. Para o deputado, entre os casos mais flagrantes estão as barracas “na zona entre a Rua Central de Toi San e a Rua de Lei Pou Ch’ôn”, na Povoação de Chun Su Mei, Taipa, e na Ilha Verde”. No caso de Toi San e Lei Pou Ch’ôn, o que fica afectado é o “plano de reordenamento do trânsito”. Quanto à Ilha Verde, “devido à falta de fiscalização da Administração, nestes últimos anos as barracas existentes naquela zona têm sido ocupadas por novos moradores”. Com base nestas premissas, o deputado quer saber como é feita a fiscalização a cargo do Governo. Além disso, Leong Heng Teng pergunta ao Executivo se aos moradores que venderam as suas barracas a terceiros após ter sido paga uma compensação para abandonar o local, lhes foi imputada responsabilidade judicial.
Por seu turno, Chan Meng Kam e Ung Choi Kun irão interpelar o Governo sobre o apoio às actividades da Associação de Educação Especial para Adultos Surdos. De acordo com os deputados, há já alguns anos que os representantes deste organismo têm vindo a reivindicar ao Governo a “disponibilização de assistentes sociais”, bem como “o empréstimo da casa de Lou Kau para a realização de uma exposição de artesanato produzido por surdos”. Por isso, perguntam os deputados “quais são os requisitos exigidos para requerer apoio”. Querem ainda saber se “não há possibilidade de disponibilizar um local para exposição dos produtos artesanais produzidos por pessoas portadoras de deficiência auditiva”. E, relembrando o apoio manifestado aos deficientes aquando da apresentação das Linhas de Acção Governativa para 2008, perguntou se realmente o “Governo vai concretizar o que definiu nas suas políticas”.
Já Pereira Coutinho irá relembrar que a moral dos trabalhadores da Administração Pública é “a mais baixa de sempre” e exigir medidas de combate por parte do Executivo. O deputado refere apenas alguns factores que, na sua opinião, contribuem para uma “situação dolorosa” – são eles, “a eliminação da reforma e da pensão de sobrevivência, a inexistência de um sistema credível de responsabilização dos titulares dos principais cargos políticos, a escandalosa exploração dos trabalhadores através de contratos de prestação de serviços, contratos de aquisição de serviços e de contratos de tarefas para execução de trabalhos de longa duração, os baixos salários”.
Limitar a altura das construções de Macau será a preocupação manifestada por Ng Kuok Cheong durante o período da ordem do dia. O deputado irá recordar que o “Plano Director Urbanístico continua em estudo e o estorvo das futuras construções para a paisagem das duas colinas também continua por resolver”. E lamenta que “com o pretexto de aumentar o número de parques de estacionamento, a Administração autorize a construção de edifícios altos nas mais diversas zonas”. Assim, são várias as perguntas que o deputado coloca ao Governo: “Qual foi a decisão do Governo da RAEM em relação ao limite de altura das novas construções na zona de Guia? Quanto aos edifícios de luxo de grande altura, a construir na Baía da Praia Grande e cuja altura corresponde a duas colinas da Penha, como se vai conservar a linha de contorno da Penha bem como a paisagem da Ermida da Nossa Senhora da Penha?” Por outro lado, o deputado quer ainda saber se o Governo “não pode mobilizar de imediato os recursos de terrenos que tem em mão e remodelar os edifícios propriedade do Governo que se encontram desocupados e dispersos por várias zonas da cidade”.
Por último, Au Kam San, relembrando que “desde o estabelecimento da RAEM têm sido concedidos sem concurso público mais de cem terrenos”, pergunta se “não se deveria criar um regime de concessão de terrenos que conseguisse articular-se com o espírito da Lei de Terras”. E alega que da concessão de terrenos através de concurso público deverá resultar o aumento das receitas do cofre do Governo.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn


Testemunhas do GDI começam hoje a ser ouvidas

Alegadas irregularidades na fiscalização das Obras Públicas

Os técnicos do departamento de Obras Públicas chegaram a assinar por várias vezes relatórios de vistoria de obras que nunca chegaram a visitar. Foi uma das principais ideias no retomar da sessão de julgamento do processo conexo ao do antigo secretário para os Transportes e Obras Públicas, Ao Man Long, condenado no final do mês passado a 27 anos de prisão por crimes de corrupção passiva e de branqueamento de capitais.
Uma sessão morna onde foram ouvidos alguns funcionários da DSSOPT, de acordo com a Rádio Macau. Segundo o engenheiro electrotécnico das Obras Públicas, Arnaldo Batalha, funcionário da divisão de Edificações Públicas, após a direcção de serviços ter contratado uma empresa de consultadoria para a fiscalização das empreitadas, os técnicos deixaram de ser forçados a visitar os estaleiros. “Tudo seria normal” se não tivessem de assinar no fim das obras os relatórios de vistoria. Em declarações ao Tribunal Judicial de Base (TJB), Arnaldo Batalha considerou o procedimento incorrecto.
E repetiu o que já tinha afirmado perante o Tribunal de Última Instância (TUI) no decorrer do julgamento do antigo secretário para as Obras Públicas e Transportes – que se tinha recusado a alterar pontuações de projectos submetidos a concurso público, porque lhe competia avaliar a componente eléctrica, um factor objectivo e dificilmente alterável. Em segundo lugar, reiterou que não tinha procedido a alterações porque não lhe foram dadas razões legítimas. Além disso, adiantou que era o chefe de divisão, Lok Wai Choi, que dava instruções aos técnicos que integravam as comissões de avaliação de concursos. A testemunha afirmou ainda que se recorda de ter havido instruções sobre a empresa que devia ser vencedora dos concursos no que toca à construção do pavilhão desportivo do Instituto Politécnico de Macau e também para a primeira fase da Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental.
Por seu turno, o chefe do departamento de Edificações Públicas, Chiang Ngoc Va, afirmou ter dado instruções aos subordinados para falsificar resultados em metade dos concursos públicos em que participou. Foi o caso dos silos da Flor de Lótus, do Jardim das Artes e da Avenida Carlos d’Assumpção. No caso do silo do COTAI, afirma que as instruções foram dadas antes mesmo de ter sido elaborada uma grelha provisória de classificações.
Hoje deverão começar a ser ouvidos os depoimentos de responsáveis do Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-Estruturas (GDI). Recorde-se que as testemunhas ouvidas até ao momento no TJB afirmaram que os resultados dos concursos públicos eram alterados por indicações superiores, versão que só veio confirmar o que estas testemunhas tinham afirmado perante o TUI. Quanto aos elementos do GDI, é de realçar que no TUI apresentaram uma versão completamente distinta da forma como decorriam os processos de adjudicação – isto é, sem ilegalidades.
Recorde-se que são arguidos neste processo o pai, irmão, cunhada e mulher de Ao Man Long (esta última a ser julgada à revelia e procurada pelas autoridades policiais internacionais), bem como os empresários Frederico Nolasco da Silva, Ho Meng Fai (também em parte incerta) e Chan Tong Sang. Os familiares do antigo secretário são acusados de o terem ajudado a abrir contas bancárias fora de Macau, num processo de branqueamento de capitais. Os empresários respondem também por corrupção passiva, sendo Ho Meng Fai o arguido com um maior número de crimes desta tipologia.

Retrato de um calígrafo de Macau

A dança do pincel

“Fok un sin heng.” Na tradução literal significa “quem for boa pessoa, terá felicidade” ou, de uma forma adaptada, “quem dá, também recebe”.
Foi o que Mok Wa Kei deixou escrito na tira de papel vermelho. Com a tinta-da-china ainda fresca, o professor fala da caligrafia, arte que o apaixonou há muitos anos: “É pintura, desenho, música, dança e, o que realmente me impressiona, é que engloba todas estas vertentes”, sustenta Mok Wa Kei, um dos fundadores da Associação de Caligrafia de Macau. Assim como a música, propaga-se pelo tempo; assim como a dança, desenvolve-se em movimentos ou gestos rítmicos; assim como o desenho e a pintura, traça imagens.
Mas nem só da contemplação da arte vive o homem. No dia-a-dia, Mok tem tudo cronometrado, desde aulas particulares de escrita caligráfica a formação dirigida a professores numa escola secundária do centro da cidade, “para que possam ensinar os seus próprios alunos”, até porque recursos humanos conhecedores desta disciplina, reconhece, “são escassos e os estudantes pouco dela percebem”. E é isso que Mok pretende mudar.
O seu percurso começou há muito tempo. Recorda o grande mestre, o seu pai, natural da província de Guangdong, que “nas vésperas do ano novo escrevia, por encomenda, frases de fortuna, saúde e felicidade”, mas que não tinha tempo para lhe ensinar os primeiros traços. Mok ficava impressionado a admirar a destreza com que pintava e ia fazendo alguns exercícios de cópia que agora desvaloriza.
Só ousou pegar no pincel “a sério” quando chegou aos 30 anos. Depois da Universidade de Macau ser inaugurada, em 1981, na altura designada de Universidade da Ásia Oriental, inscreveu-se para aprender caligrafia com o professor Lam Kan, natural de Macau. Em 1989, aperfeiçoou a técnica numa escola particular com um professor que vinha da China Continental, Lin Ka San, altura “em que a migração chinesa em Macau começava a ser forte”.
Inspirado por todos os caracteres que viu o pai desenhar, foi-se apaixonando por esta estética chinesa. Antes de entrar de corpo e alma na dança do pincel, o professor Mok já pintava e nas suas telas introduzia poesia caligrafada. Justifica que “a caligrafia é cultura chinesa e, por isso, quis aperfeiçoá-la, também para que as minhas telas ganhassem qualidade”, contrariando o que considera uma verdade absoluta: “Uma pintura com uma fraca caligrafia deixa de ter qualidade.”
Na verdade, pintura e caligrafia são como artes irmãs, de mãos dadas, inspiradas uma na outra e vice-versa, usando os mesmos suportes e instrumentos.
Porque o objectivo final é atingir a perfeição, concretizou mais um curso de dois anos organizado pela Associação de Calígrafos de Pequim e pela Escola de Xi’an, capital da província de Shaanxi. As aulas repartiam-se entre Macau e estas cidades chinesas.
Foi depois desta formação que sentiu a segurança necessária para passar para o lado de lá e ensinar aquilo que, durante anos, já tinha aprendido e treinado. Com o professor Lin Ka San, que também destaca como um dos melhores, criou, há 19 anos, a Associação de Caligrafia Ngai Lam de Macau. Já em 2005, une-se a outro professor, Chan Chon Seng, da Universidade de Macau, para fundar a Associação de Caligrafia e Artes Chinesas de Macau.
Assume-se sempre como professor e não como calígrafo, porque o que gosta realmente é de ensinar: “Fico contente por ver os meus alunos a aprender e evoluir.”
Faz viagens regulares à China Continental para se informar e observar caligrafias, já que no território “não há muitos especialistas na matéria”. Quanto ao futuro, mostra-se optimista, mesmo face ao uso generalizado dos computadores onde o idioma chinês foi introduzido nos anos 70, o que considera um ponto a favor: “A caligrafia vai ser cada vez mais valorizada como arte!”
As origens e os mestres

Os primeiros sinais de escrita remontam à dinastia Shang, com inscrições pictográficas ordenadas em linhas verticais em carapaças de tartaruga e ossos. Na dinastia seguinte, a Chou, uma das mais longas, criaram-se estilos de escrita diferentes em várias províncias. A capital situava-se perto da actual cidade de Xi’an.
O imperador Qin Shi Huang, da dinastia Qin, além de percursor da muralha da China e dos soldados de terracota, protagonizou a união do país, abolindo o feudalismo, e a unificação da escrita, tornando-se a grafia oficial nas regiões conquistadas, essencialmente em documentos. Chegou aos nossos dias naquilo que conhecemos como sinete, usado normalmente em assinaturas.
Acredita-se que na dinastia Han foi inventado o papel como o conhecemos hoje, a partir de fibras vegetais, contribuindo para uma nova era da caligrafia. A chamada “escrita normal” foi desenvolvida para dar resposta ao aumento de documentos oficiais, sendo mais fácil de escrever que a escrita de selo. Aquela escrita floresceu na dinastia Tang e passou a ser também uma forma de arte reveladora de emoções. Um dos calígrafos famosos é Yen Chen-Ch’in (705-785 d.C.) que deixou uma marca duradoura na história da caligrafia chinesa.
Considerado o sábio da caligrafia e definido por muitos como o grande calígrafo de todos os tempos, Wang Xizhi (dinastia Jin do Leste) começou a aprender aos cinco anos e mostrou um rápido progresso na qualidade da sua escrita, tornando-se conhecido como menino-prodígio.
O seu trabalho mais famoso é o Prefácio dos Poemas Compostos no Pavilhão das Orquídeas, constituído por 324 caracteres e 28 linhas. Comparava a caligrafia à arte da guerra, em que a folha seria o campo de batalha, o pincel seria a espada, a tinta, o comandante, a habilidade, os oficiais, a composição, a estratégia. Quando se começa a batalha, os traços e linhas seguem ordens do comandante e os giros e retrocessos são golpes mortais.
Sete filhos foram a descendência de Xizhi, todos óptimos calígrafos. O melhor era o mais novo, Wang Xianzhi, que se esquecia de dormir e comer em prol da arte e revelava uma escrita mais fluida que a do pai.
Destaque também para Su Shi, pintor, escritor, poeta e mestre da caligrafia da Dinastia Song, conhecido também pelo seu pseudónimo Dongpo, e natural da província de Sichuan. Detentor de vários cargos políticos, mas também de liberdade de expressão e crítica na sua poesia, valeu-lhe vários períodos de exílio. Tanto na escrita como na pintura, combinava espontaneidade, vivacidade, objectividade e descrições vivas de fenómenos naturais.
Idioma ou arte?

Há quem considere que o nascimento da escrita tenha acontecido na China. Acredita-se que os actuais ideogramas chineses contam com mais de 3 mil anos de história.
O imperador Kang Xi, o segundo imperador Qin a governar a China entre 1661 e 1722, um dos reinados mais longos, compilou o primeiro dicionário completo com cerca de 50 mil caracteres chineses que é usado ainda hoje.
Apesar deste e de outros dicionários de língua chinesa contabilizarem cerca de 50 mil caracteres, a maioria caiu em desuso. Por outro lado, para se conseguir ler um jornal basta conhecer no máximo até dois mil caracteres.
“O que vemos na rua ou nos jornais são apenas ideogramas desta escrita, são apenas caracteres que têm uma imagem mas falta-lhes o conteúdo, o espírito da palavra”, explica Mok Wa Kei, avançando que “com a caligrafia exprimimos sentimento. O mesmo carácter é diferente se for pintado quando estiver calmo ou zangado. Reflecte a personalidade do autor”. Já aquilo que se traça no papel com a tinta-da-china pode ter inspirações diversas: “pode ser a reprodução de uma poesia já existente ou basear-se na emoção que se sente no momento”, conclui.
A caligrafia chinesa é indissociável do idioma, da cultura e da história e inspirou a escrita do Japão, Vietname e Coreia do Sul.
Papel, pincel e tinta-da-china

Os materiais são diversos e podem ir desde os mais luxuosos em papel ou seda, até aos mais baratos. Normalmente são finos, brancos ou vermelhos, lisos ou com motivos dourados. “Os preços dos mais acessíveis variam entre 1,50 e 5 patacas” garante o professor.
O pincel pode ser de vários tamanhos de acordo com o estilo ou volume da caligrafia que se pretender.
A tinta chama-se tinta-da-china, originalmente composta por óleos vegetais carbonizados, muito negra e que oferece uma vasta paleta de matizes quanto ao brilho, profundidade, espessura, secura ou humidade, que se tornam reais pelo serpentear do pincel. Movimentos rápidos, sismográficos ou lentos e arrastados, assim como mais disciplinados ou rebeldes. Quando impressa no papel ou seda torna-se permanente.
Há também no mercado diversos manuais que os aprendizes podem usar imitando os caracteres.
Sandra Gomes
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Rafael Hui refuta hipótese de candidatura a Chefe do Executivo de Macau, Do dojo para a vida

Rafael Hui refuta hipótese de candidatura a Chefe do Executivo de Macau

A teoria da impossibilidade

“Não vou ser o Chefe do Executivo de Macau.” O antigo secretário chefe do Governo de Hong Kong, Rafael Hui Si-yan, refutou este fim-de-semana estar interessado em ser o sucessor de Edmund Ho na liderança do Governo da RAEM.
As declarações de Rafael Hui foram feitas à imprensa em língua chinesa de Macau, depois de os jornais de Hong Kong terem, no passado mês de Dezembro, colocado a possibilidade de Rafael Hui, actual membro do Conselho Executivo de Hong Kong, ser um dos nomes pensados por Pequim para a RAEM.
Confrontado com a hipótese, Rafael Hui disse ser “impossível”, palavra que utilizou por diversas vezes na breve entrevista que concedeu à imprensa de Macau. “Mas acredita no que dizem os jornais de Hong Kong?”, respondeu ainda ao jornalista autor da questão.
O membro do Conselho Executivo de Hong Kong deixou o cargo de secretário chefe da Administração da antiga colónia britânica no ano passado. A possibilidade de poder vir a ser o sucessor de Edmund Ho no Governo de Macau surgiu depois da crise desencadeada pelo caso Ao Man Long. No entanto, este cenário nunca foi encarado com credibilidade nos círculos político e empresarial de Hong Kong.
Hui foi recentemente nomeado para o Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC). Este fim-de-semana, esteve em Zhuhai onde decorreu um encontro dos membros da CCPPC com as autoridades de Pequim. As perguntas dos jornalistas de Macau foram colocadas durante a pausa para o almoço na cidade chinesa.
O antigo número dois do Executivo de Hong Kong disse não ter mantido qualquer conversa com o Governo Central no sentido da apresentação de uma candidatura a Macau. O facto de ter ligações familiares ao território não faz com que o cenário seja, sequer, traçado pelo político. “É impossível, impossível”, reiterou.
O avô materno de Rafael Hui é Chui Lok Chee, um empresário de Macau de grande sucesso. O tio materno, Chui Lok Kei, foi o fundador do Banco Seng Heng e desempenhou funções políticas de topo ao lado de Ho Yin, pai de Edmund Ho.
O nome de Rafael Hui surgiu, pela primeira vez, como possível sucessor de Edmund Ho, no passado dia 3 de Dezembro, num artigo do Apple Daily. O jornal de Hong Kong baseava a sua tese no facto de o antigo secretário chefe ter ligações familiares a Macau e em rumores do círculo político local.
A notícia de que Rafael Hui é uma hipótese a não ter em consideração surge poucos dias depois de o jornal Va Kio ter lançado o debate em torno da sucessão de Edmund Ho. Na semana passada, e como o Tai Chung Pou deu conta, Ng Chan, a mais influente articulista da imprensa local, publicou um artigo em que explorou os diferentes nomes que podem vir a ocupar o mais alto cargo político da RAEM.
O empresário Ho Iat Seng e o procurador da RAEM, Ho Chio Meng, são as duas personalidades de Macau que apresentam características para poderem vir a ser escolhidos para a liderança dos destinos políticos de Macau. No entanto, têm ambas condicionalismos que poderão ser difíceis de contornar. Quando falta pouco mais de um ano para as eleições, e sem ninguém ter demonstrado ainda publicamente vontade de se candidatar, o assunto continua, no entanto e por enquanto, no domínio da mera especulação política. Como parece ser o caso de Rafael Hui, o homem que diz não querer ser Chefe do Executivo de Macau.

O político de Hong Kong com família em Macau

Membro do Conselho Executivo de Hong Kong, Rafael Hui ingressou na Função Pública em 1970. Depois da demissão de Tung Chee-hua, já sob a liderança de Donald Tsang, Hui assumiu o cargo de secretário chefe da Administração, passando assim a ser o número dois do Governo de Hong Kong. No entanto, esteve no cargo apenas dois anos, não tendo acompanhado o Chefe do Executivo da RAEHK no seu segundo mandato.
Numa entrevista a uma publicação de deputados pró-democratas de Hong Kong, quando anunciou que não pretendia continuar a desempenhar funções no Governo de Tsang, Rafael Hui afirmou que ponderava sair de Hong Kong. “A minha mãe tem propriedades em Macau e posso voltar para lá depois de me reformar”, disse.
A ligação do político a Macau era desconhecida até ao primeiro encontro entre o Chefe do Executivo da RAEM e o seu homólogo de Hong Kong, Tung Chee-hua, em 1999. A imprensa da antiga colónia britânica descobriu que a mãe de Rafael Hui pertence à família Chui, sendo que o actual membro do Conselho Executivo é próximo de Edmund Ho desde a infância.
A teoria do Apple Daily baseava-se nas relações familiares de Rafael Hui mas não só: a experiência e capacidade ao serviço da Administração, bem como a sua extensa rede de relações pessoais, faziam com que fosse entendido como “o candidato mais competitivo” para o Executivo de Macau.
A imprensa de Hong Kong especulou também sobre a possibilidade de Hui ser nomeado membro do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês por Macau, mas a teoria não se comprovou. Foi escolhido para organismo consultivo máximo do país, mas sim por Hong Kong, onde continua a desempenhar funções de carácter político.
Julgamento de familiares de Ao Man Long retomado hoje

É hoje retomado, no Tribunal Judicial de Base (TJB), o julgamento do processo conexo ao do antigo secretário para os Transportes e Obras Públicas, Ao Man Long, condenado no final do mês passado a 27 anos de prisão por crimes de corrupção passiva e branqueamento de capitais.
Depois de uma pausa devido às férias judiciais, por altura do Ano Novo chinês, o colectivo presidido pela juíza Alice Costa deverá continuar a ouvir as testemunhas arroladas pela acusação. Durante a audiência marcada para hoje deverão ser inquiridas testemunhas que trabalham na Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes, bem como funcionários do Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas (GDI).
Recorde-se que são arguidos neste processo o pai, irmão, cunhada e mulher de Ao Man Long (esta última a ser julgada à revelia e procurada pelas autoridades policiais internacionais), bem como os empresários Frederico Nolasco da Silva, Ho Meng Fai (também em parte incerta) e Chan Tong Sang. Os familiares do antigo secretário são acusados de o terem ajudado a abrir contas bancárias fora de Macau, num processo de branqueamento de capitais. Os empresários respondem também por corrupção passiva, sendo Ho Meng Fai o arguido com um maior número de crimes desta tipologia.
O proprietário da empresa Sam Meng Fai admitiu, em declarações prestadas durante a fase de investigação e lidas já durante o corrente julgamento, ter feito pagamentos a Ao Man Long, que os exigiu a troco de recomendações feitas a investidores estrangeiros. O empresário refutou, contudo, ter pago qualquer valor ao ex-secretário para ser beneficiado em concursos de adjudicação de obras públicas - a maioria dos projectos mencionados na acusação.
A versão dos acontecimentos apresentada em tribunal por Frederico Nolasco da Silva coincide, de modo geral, com o testemunho de Ho Meng Fai. O administrador da CSR – Companhia de Resíduos de Macau admitiu, logo no início do julgamento, ter feito pagamentos a Ao Man Long e disse ter consciência de que a prática era ilegal. Nolasco da Silva frisou, no entanto, que só o fez porque o ex-secretário o pressionou nesse sentido, pelo que o empresário temeu consequências para a sua empresa e os seus 400 trabalhadores.
De um modo geral, as testemunhas ouvidas até ao momento no TJB – muitas delas tinham já prestado depoimento no processo do ex-secretário – afirmaram que os resultados dos concursos públicos eram alterados por indicações superiores. Resta agora ouvir as declarações dos funcionários do GDI que, no processo do Tribunal de Última Instância, apresentaram uma versão completamente distinta da forma como decorriam os processos de adjudicação – sem ilegalidades, segundo disseram os vários técnicos e responsáveis que testemunharam na altura.
Quanto aos familiares, pai, irmão e cunhada disseram no TJB desconhecer os fins para os quais se destinavam as contas bancárias abertas em Hong Kong e no Reino Unido. São os únicos três arguidos que se encontram em prisão preventiva.
Isabel Castro

Associação de Karatedo dos Veteranos de Seigo Tada de Macau

Do dojo para a vida

Aos sábados e domingos “não falhava”. O mestre José Martins Achiam deslocava-se propositadamente de Hong Kong até Macau para conduzir treinos de karatedo. Eram sessões árduas que duravam cinco longas horas, sem espaço para diversões. Corriam os anos 1960. Naqueles tempos, não havia dojos, quimonos ou tatamis. Com ou sem tecto, fizesse chuva ou sol, frio ou calor, nada interrompia as aulas.
Karatedo era sinónimo de dureza e austeridade. As dores que sobravam das sessões de exercício físico ainda estão bem vivas na memória de Fernando Bastos e dos seus companheiros. “Tínhamos treinos no Seminário de São José. Trazíamos os músculos das pernas tão inchados que nos custava a descer a rampa”, recorda o antigo pupilo do mestre Achiam.
As dores são, no entanto, fugazes. É com saudade e carinho que se fala daquela época. Sentado à mesa com o mestre e alguns antigos companheiros de dojo, Fernando Bastos recorda com alegria as histórias e aventuras que lhe marcaram a juventude. Durante décadas, o karatedo representou para várias gerações de macaenses e portugueses residentes no território mais do que uma arte marcial - foi uma verdadeira escola de vida.
Para não deixar morrer tanto a arte como as recordações, foi recentemente criada a Associação de Karatedo dos Veteranos de Seigo Tada de Macau. A organização de carácter sócio-cultural é formada por cerca de uma centena e meia de elementos que, na verdade, são uma família que foi crescendo à medida que José Martins Achiam foi coleccionando alunos.
“São karatecas reformados que foram praticantes do mestre Achiam. Por razões pessoais deixaram de praticar. Por isso, pensaram formar esta associação para voltar a juntar a família”, explica o secretário-geral da Federação de Karatedo de Macau e membro da nova organização, Daniel Ferreira.
O projecto da associação nasceu em 2005, mas foi apenas no ano passado que os veteranos decidiram “levar a ideia a sério”, conta o mesmo responsável. O período serviu para “deixar a ideia amadurecer”. Primeiro, foi preciso receber a bênção do mestre Achiam e a autorização de utilização do título Seigo Tada da parte das autoridades desportivas japonesas. Só depois, em meados do ano passado, se decidiu avançar.
São dois os objectivos da estrutura associativa: além de organizar actividades sócio-culturais, os membros têm a missão de promover a arte marcial junto das camadas jovens. Os veteranos ficam assim responsáveis por ministrar treinos onde os mais pequenos aprendem os movimentos básicos. “A idade já não perdoa”, brinca Fernando Bastos, também secretário da direcção da nova associação. É que, para fazer parte do grupo, é preciso ter completado pelo menos 38 primaveras.
Ser veterano de karatedo em Macau é algo mais do que uma mera soma de anos. Além do mestre em comum, este grupo de karatecas partilha um espírito e uma época próprios.
Nos anos 1960, os treinos de José Martins Achiam eram apenas extensíveis a jovens macaenses, portugueses e militares em serviço em Macau. Os pupilos começavam a aprender os primeiros movimentos já quase homens feitos, com 15 ou 16 anos.
Dentro das aulas, quem mandava era o mestre, independentemente das patentes militares. “Eu costumava dizer: aqui quem manda sou eu. Quem se ria tinha logo que fazer flexões”, recorda com um sorriso José Martins Achiam, também presidente da Federação de Karatedo de Macau.
“O nosso treino de karatedo era mais severo do que na recruta militar. Saíamos do ginásio com os pés cheios de bolhas, esfregávamos no soalho na rua e ficavam em carne viva”, assinala Fernando Bastos. “Eu quase que matava os moços”, acrescenta, entre risos, o mestre. Cada aula era uma aventura.
“Uma vez levantámo-nos às 5h00 para ir treinar para Coloane. Fomos a correr semi-nus até Cheok Va. Lá fizemos exercícios dentro de água, com a temperatura a rondar os dois graus Célsius. Houve um que ia morrendo. Era o mais fraquinho, tivemos que lhe dar saqué, para recuperar os sentidos”, conta o secretário da Associação dos Veteranos.
“Estava lá um polícia todo encasacado que olhava e dizia: Esta malta é maluca!”, completa José Martins Achiam. “Para ser um bom karateca é preciso ser maluco. Tal e qual como eu”, exclama.
São tempos que já não voltam. Tempos em que o ensino do karatedo era feito com base na arte marcial, como forma de defesa a um ataque. “Hoje, já segue os parâmetros de uma modalidade desportiva. Os treinos são mais suaves”, explica o secretário-geral da Federação de Karatedo de Macau e membro da nova associação de Veteranos, Daniel Ferreira.
Durante muitos anos, as aulas do mestre serviram de iniciação ao serviço militar. Depois de se experimentar os métodos rigorosos de José Martins Achiam, a recruta parecia um campo de férias.
“Quem treinava karatedo era dispensado do exercício físico e das lutas corpo a corpo”, sublinha Alberto Francisco, membro da Associação de Veteranos. “Os oficiais não queriam que participássemos nestas actividades”, acrescenta.
Quando José Martins Achiam introduziu o karatedo no território, esta arte marcial era proibida por lei, ditavam as regras do regime de Salazar. “Em todos os treinos que dava no seminário de São José vinha sempre a polícia de investigação”, nota. A administração portuguesa receava que se estivesse ali a formar um “bando de malfeitores”. Uma ideia que se desvaneceu quando as autoridades conheceram o método de ensino do mestre. “Num grupo de cerca de 100 alunos, não se podia ouvir uma mosca a voar. Quem falava era só eu”, frisa. Tanto que o karatedo recebeu o aval do Governador pouco tempo depois de José Martins Achiam começar a ministrar os primeiros treinos.
A arte marcial era pouco conhecida em Macau. Os jovens pupilos procuravam nos livros depois do horário da escola, mas só encontravam informações sobre jujitsu, conta Alfredo Francisco. “Após algumas aulas com o mestre, começámos a ver que o que fazia o James Bond nos filmes não era karate”, completa.
Actualmente, o karatedo é a modalidade que dá mais cartas nas competições desportivas internacionais. As portas do dojo abriram-se à comunidade chinesa e agora são milhares os praticantes desta arte marcial no território em todos os estilos. No total, existem 18 associações locais dedicadas a esta modalidade.
Os veteranos são os responsáveis pela defesa da presença em Macau dos ensinamentos do seu mestre-avô, o japonês Seigo Tada. “Somos todos uns carolas”, conclui José Martins Achiam a conversa à mesa. Para saber quem são estes karatecas basta ter atenção a um pormenor: na mão direita, no dedo anelar, trazem um anel de ouro com um punho fechado em relevo. O karatedo juntou-os no dojo e uniu-os para a vida.

Federação de Karatedo organiza torneio no próximo mês

A Federação de Karatedo de Macau vai organizar um torneio aberto no próximo mês. A data e o local do evento estão ainda por confirmar, segundo avançou ao Tai Chung Pou o secretário-geral da organização desportiva, Daniel Ferreira. Esta iniciativa tem como objectivo encontrar novos talentos para representar a selecção da RAEM nas competições internacionais.
O karatedo é das modalidades que mais troféus tem conquistado além fronteiras. Embora não existam lutadores profissionais no território, no ano passado, o Governo abriu um centro de formação com um espaço exclusivo para os atletas de competição.
No total, afirma o secretário-geral da Federação de Karatedo de Macau, existem cerca de 22 ginásios espalhados na região. “Em termos de conquista de medalhas ao nível do continente asiático, Macau está na terceira posição, com o Japão e o Irão a ocuparem o primeiro e o segundo lugares, respectivamente”, informou o mesmo responsável.
A falta de atletas com categorias de peso mais elevadas é único problema que impede a selecção da RAEM de ir mais além. Hoje em dia, Macau dá cartas nos 50 quilos femininos e até nos 75 masculinos, mas não existem atletas que possam defender a fasquia dos 80 quilos.
Alunos e entusiastas é, no entanto, algo que não falta nos dojos do território. O karatedo é uma modalidade muito popular em Macau, reunindo sobretudo o apoio e interesse dos pais e encarregados de educação, explica Daniel Ferreira. “Este desporto promove não só a disciplina, mas também o respeito e a consideração pelo outro”, frisa.

O mestre de Macau

José Martins Achiam é um nome incontornável da história do karatedo em Macau. O “mestre”, como lhe chamam os seus antigos alunos, aparece referenciado na biografia de Seigo Tada, o japonês que popularizou o estilo Goju Ryu no Japão e no mundo. Este estilo da arte marcial japonesa desenvolveu-se no Brasil, Portugal, Canadá, Austrália e Estados Unidos sob influência do mestre Achiam. Em terras de Vera Cruz, por exemplo, o mestre Luís Pedruco foi discípulo do famoso karateca macaense.
Definindo-se como fanático pelo karatedo, o ponto de partida do mestre foi, no entanto, o judo. Sob orientação paterna, José Martins Achiam aprendeu os primeiros golpes da arte marcial ainda em Macau.
A falta de postos de trabalho na antiga cidade do nome de Deus obrigou-o a procurar emprego em Hong Kong. “Na altura, quando acabávamos o serviço militar, os jovens macaenses choravam porque sabiam que não iam conseguir emprego. Para um lugar na função pública, havia 50 candidatos”, recorda o também presidente da Federação de Karatedo de Macau.
Neste cenário, Hong Kong figurava-se como a terra das oportunidades. Foi lá, numa das praias da então colónia britânica, que José Martins Achiam encontrou Yukiaki Yoki, que mais tarde viria a ser o seu mestre. O japonês praticava movimentos que o jovem macaense e os amigos não conseguiam entender. “Ninguém sabia o que era o karate”, salienta. Contudo, o desconhecido fascinou-os.
“Pedimos-lhe para nos treinar, mas ele rejeitou várias vezes. Tanto insistimos que acabou por concordar”, nota.
Em 1965, a técnica denominada Seigokan foi oficialmente introduzida em Hong Kong. Um ano depois, José Martins Achiam, já graduado cinturão castanho, começou a ensinar o estilo Goju Ryu Seigokan ao primeiro grupo de amigos em Macau.
A austeridade, dureza e rigor eram as características do mestre dentro do dojo. “Comecei com 23 alunos e uma semana depois só restavam oito”, afirma. Ser duro é um dos princípios para se chegar à vitória, defende. “Durante sete anos, fui campeão em Hong Kong”, aponta.
Actualmente, José Martins Achiam tem 64 anos de idade e já só treina “uma ou duas vezes por mês”. No entanto, entre as quatro paredes do dojo, o bichinho do karatedo fala mais alto.
“Quando vou ao ginásio não consigo ficar parado e ver alguém a fazer asneiras. Tenho que me intrometer e mostrar como se fazem as coisas correctamente.”
Alexandra Lages
Fotografia: Carmo Correia

sábado, 16 de fevereiro de 2008

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A educação sexual que falta;Ho depois de Ho, Alves depois de Chou; constrAction para aprender; Henan e Guizhou em Macau

Escândalo de Hong Kong recupera debate sobre educação sexual na RAEM

Um tabu difícil de quebrar

Sexo e todas as questões associadas à sexualidade circulam quase a toda a hora nos meios de comunicação social, sobretudo nos novos media. Adeptos ferrenhos das novas tecnologias, os jovens de Macau estão expostos e atentos a estes conteúdos. A descoberta da sexualidade é típica desta fase da vida e os sentidos estão ultra despertos a tudo o que esteja relacionado com a temática sexo.
Muita informação não é, contudo, significado de conhecimento e, muito menos, de esclarecimento. Esta é uma ideia que tem sido constantemente debatida pelos educadores e especialistas junto das autoridades da RAEM. No calor do lar e principalmente nas escolas, defendem vários quadrantes da sociedade, as barreiras devem ser derrubadas e o tabus quebrados: é preciso falar sobre sexo com os mais jovens.
Mais. A própria comunidade precisa de encarar a questão de frente, sustenta Gertina van Schalkwyk, professora assistente de psicologia da Universidade de Macau. “O nível de existência de tabus revela-se até pela falta de informação disponível sobre casos de gravidez entre adolescentes ou de contracção do vírus HIV”, exemplifica a académica, em declarações ao Tai Chung Pou.
O primeiro passo, nota a especialista, é a promoção da educação sexual nos estabelecimentos de ensino. Uma medida defendida por várias personalidades atentas à situação da juventude de Macau e que, recorrentemente, salta para as páginas dos jornais locais.
A discussão sobre a educação sexual dos mais jovens nas escolas regressou à opinião pública na sequência da polémica divulgação na Internet de fotos de conteúdo sexual envolvendo celebridades de Hong Kong. De acordo com um diário do território vizinho, 40 por cento dos estudantes do ensino primário e secundário da RAEHK tiveram acesso a estas imagens.
Entretanto, aumentam os receios das autoridades da ex-colónia britânica de que o escândalo provoque uma crise moral entre a juventude. Apesar de reportar ao outro extremo do Delta do Rio das Pérolas, a controvérsia teve também um “impacto negativo” em Macau, defendeu em declarações ao Ou Mun o presidente da Associação de Educação de Macau, Ho Sio Kam. As celebridades de Hong Kong são largamente cultivadas entre a população mas nova do território.
A exposição dos adolescentes a estes conteúdos é apenas um dos lados do problema, alertou o dirigente associativo. “A educação social não só é inexistente nas escolas ou em casa, como em toda a comunidade e nos meios de comunicação”, destaca. Na actual sociedade de informação em que vivemos, acrescenta Ho Sio Kam, se os jovens não conseguem esclarecer as suas dúvidas, tal dificultará a formação de um conceito correcto sobre o que é o sexo.
A mesma visão é partilhada por Gertina van Schalkwyk. “A falta de actividades de educação sexual é um assunto sério que deve ser considerado pelas autoridades. Os jovens não têm conhecimentos suficientes para estabelecer uma relação amorosa saudável, bem como impor fronteiras face ao companheiro”, sustenta.
Nas palavras da académica, há uma indefinição dos papéis de género, ou seja os conceitos de controlo e igualdade. “A juventude de hoje enfrenta problemas de segurança emocional e, muitas vezes, o sexo torna-se uma maneira de manter a relação amorosa”, explica.
Neste sentido, o programa de educação sexual deveria não só explorar a parte da sexualidade, prevenção da gravidez indesejada e doenças, mas também o lado da auto-estima e de como desenvolver relações pessoais de uma forma saudável. É este o caminho apontado por Gertina van Schalkwyk.
Entre as oito mil chamadas recebidas pela linha de apoio da Caritas, apenas cerca de 100 são realizadas por jovens e adolescentes, informa Paul Pun. Problemas relacionados com a sexualidade são alguns dos motivos que levam estes residentes a procurar a ajuda da instituição local.
Embora considere que a falta de esclarecimento sexual não é um dos problemas fundamentais da juventude da RAEM, Paul Pun concorda que os mais novos ainda não sabem lidar com esta questão. “Os jovens estão cada vez mais abertos relativamente à sexualidade, mas não sabem nada sobre sexo”, sublinha o responsável.
O Governo e os estabelecimentos de ensino devem, segundo Paul Pun, apostar em programas de educação sexual não só para ensinar, mas também para ouvir. “Os mais jovens precisam de alguém que oiça as suas dúvidas, os tente compreender e orientar”, aponta.
A propagação de doenças sexualmente transmissíveis é outra questão que pode ser minimizada através da educação sexual. É uma convicção geral entre especialistas e educadores. O último alerta foi lançado no final do ano pela associação “Teen Aids”, que realizou um estudo em Macau e Hong Kong sobre os hábitos sexuais dos jovens.
A principal preocupação verificada entre os inquiridos diz respeito à gravidez, sendo descurados os riscos de infecção do vírus HIV. A utilização do preservativo enquanto método contraceptivo ainda não está enraizada na mentalidade das comunidades mais jovens.
Segundo o relatório do estudo, muitos adolescentes optaram por praticar sexo oral ou anal como forma de impedir a gravidez. Por outro lado, alguns entrevistados afirmaram evitar trazer consigo preservativos para evitar que as namoradas pensassem que são “pervertidos”, enquanto outros achavam que é preciso atingir a maioridade para comprar preservativos.
Os dados existentes sobre casos de residentes seropositivos não especifica a faixa etária. No entanto, de acordo com os números divulgados pela Comissão de Luta contra a Sida de Macau, sabe-se que, até Setembro do ano passado, tinham sido registados 382 casos de infecção por HIV, dos quais 121 são residentes da RAEM. No capítulo das pessoas infectadas localmente, 39 por cento contraíram o vírus por via sexual.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/bloomland.cn

Va Kio lança debate sobre futuros líderes da RAEM

Ho depois de Ho, Alves depois de Chou

Continua a ser um mistério e, por isso, um mero exercício de especulação. Quando falta pouco mais de um ano para as eleições para o Chefe do Executivo, continua a não haver ideia, entre a opinião pública de Macau, de quem poderá ser o sucessor de Edmund Ho. Ninguém avançou publicamente com uma intenção de candidatura. O que Pequim poderá estar a pensar sobre a matéria a Pequim pertence. Para já.
Curiosamente, há quatro anos, quando se começou a pensar que o actual Chefe do Executivo não poderia cumprir um terceiro mandato, havia uma lista maior de prováveis sucessores. O caso Ao Man Long veio não só eliminar um dos potenciais candidatos – ele próprio – como terá fragilizado os restantes membros do Executivo que eram apontados, nas últimas eleições, como candidatos com fortes hipóteses: Francis Tam e Chui Sai On.
Nos últimos dois dias, a questão da sucessão foi relançada pelo Va Kio. Ng Chan, provavelmente a única colunista de Macau com influência efectiva junto das esferas de poder, publicou na passada quarta-feira um artigo em que analisa o futuro da Assembleia Legislativa. Ontem, foi a vez de tocar num assunto que parece ser mais complicado de perspectivar do que a escolha do próximo presidente do órgão legislativo.
De modo resumido, diz Ng Chan que o empresário Ho Iat Seng e o procurador da RAEM, Ho Chio Meng, são as duas personalidades da RAEM que apresentam características para poderem vir a ser titulares do mais alto cargo político de Macau. No entanto, têm ambas condicionalismos que poderão ser difíceis de contornar.
Há muito que o empresário Ho Iat Seng é falado como sendo uma provável escolha de Pequim para os destinos da RAEM. Ng Chan lembra que as suas funções políticas antes da transferência de administração eram escassas, mas que a sua estreia enquanto membro do colégio eleitoral que escolheu Edmund Ho correu bem. Membro do Comité Permanente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, o irmão da deputada e também empresária Tina Ho tem feito um bom trabalho no organismo chinês, mas peca pela falta de visibilidade junto da população de Macau. Algo que, ainda assim, não é incontornável, aponta Ng Chan.
Ho Chio Meng é uma hipótese que só recentemente se começou a desenhar. Se o caso Ao Man Long prejudicou o próprio, parece, contudo, ter beneficiado, do ponto de vista político, o procurador da RAEM. Visto como homem sem ligações nem interesses, é tido entre a população local como sendo capaz de fazer valer a lei. O senão? A sua falta de experiência em termos administrativos.
Conclusão da história: “As perspectivas não são claras mas servem para se criar uma discussão em torno do assunto. Quem quer que seja o próximo líder, terá que ser dotado de capacidade de visão e, sobretudo, ser capaz de reformular a forma de governação.” Ng Chan entende que o próximo Governo não pode estar “nas mãos de um homem só”, que é como quem diz, um Chefe do Executivo forte e secretários que nem por isso.
Quanto à Assembleia Legislativa, que conhecerá nova legislatura também no próximo ano, Ng Chan explica que Leonel Alves, deputado e membro do Conselho Executivo, é tido, neste momento, como o mais forte candidato à presidência do órgão legislativo. Susana Chou não se deverá recandidatar, Lau Cheok Va, o actual vice-presidente, seria um bom sucessor, dada a sua experiência, se não fosse a idade (63 anos) e os seus problemas de saúde.
A par de Leonel Alves, que tem 51 anos e está na Assembleia desde 1984, surge José Chui Sai Peng. Neste “duelo”, Alves sai a ganhar, pelo factor experiência. Ng Chan detecta no advogado um obstáculo – o facto de não dominar a escrita chinesa – mas entende que, em menos de dois anos, esse problema poderá ser ultrapassado. “Muito pode ainda acontecer”, conclui Ng Chan, “mas é tempo de começarmos a olhar para os movimentos subtis”. E mais não diz.
Isabel Castro

Centro de Indústrias Criativas apresenta workshop “constrAction”

A democratização do design de Macau

Não é preciso ter experiência na matéria nem dominar lápis e esquadro. Pode nunca ter tido qualquer contacto com o design. Aliás, a ideia é mesmo essa – ultrapassar a esfera dos criativos e dar ferramentas a pessoas de diferentes contextos, para que passem a ser criadores. Basta imaginação e interesse pela questão. Disponibilidade durante as tardes de seis sábados e vontade de aprender.
Começa amanhã, no Centro de Indústrias Criativas, o workshop “constrAction”. O responsável pelo ateliê é o arquitecto Nuno Soares, que concebeu o conceito de mobiliário que dá pelo mesmo nome do workshop. “O objectivo principal é transformar ideias num objecto”, explica o arquitecto. Não é preciso ter presente ou passado artísticos. “É destinado a pessoas que nunca tenham tido contacto com esta área. Vamos procurar desmistificar o processo do design e da construção.”
O “constrAction” assenta num conceito simples. Trata-se de um “sistema de design e construção de peças essenciais de uma habitação, utilizando materiais de construção de Macau e um sistema métrico modular que organiza cada peça e permite múltiplas associações e interacções entre os vários objectos, formando um conjunto diversificado mas coerente”.
Cada objecto pode ser montado de forma diferente, de acordo com a vontade do utilizador que participa criativamente no acto de construção, fazendo os seus próprios objectos. É a aposta na versatilidade, em que um sofá pode ser virado ao contrário e transformado numa mesa, por exemplo.
“É um sistema flexível e aberto, sem limite de peças, que dialoga com o contexto incorporando elementos da cultura urbana da cidade de Macau, na concepção de suportes de comportamentos quotidianos”, acrescenta o autor deste conceito de mobiliário, que aproveita materiais de construção típicos do território.
Com este ateliê, pretende-se promover o design contemporâneo, recorrendo a uma ideia que nasceu em Macau e que em Macau faz sentido. Durante as seis aulas do workshop, dividas em partes teóricas e práticas, “de oficina”, Nuno Soares vai explicar como se desenvolve todo este processo, da parte do desenho até se chegar à fase do protótipo. No final do trabalho, o resultado vai ser um conjunto de peças, todas elas dentro do mesmo sistema de construção, mas com diferentes aspectos, resultantes da criatividade de cada participante.
O sistema “constrAction” foi concebido por Nuno Soares mas “mais duas ou três pessoas” já exploraram o conceito. Agora, avança-se para a divulgação pública do método de concepção, algo que não é comum no mundo do design, que só se torna próximo do público no momento da aquisição das peças, não no da sua construção. O arquitecto explica que “não há truques escondidos” neste sistema modelar. “Quem observar bem as peças pode construí-las. No workshop vou dar a parte pedagógica.”
Esta partilha de um projecto da sua autoria é um estímulo, um desafio. “É muito estimulante ver como outras pessoas podem pegar nestas bases e desenvolvê-las. Será muito interessante ver como uma coisa que eu concebi vai ser transformada por outros”, perspectiva o arquitecto. Contribui-se, assim, para uma certa desmistificação do design que, afinal, pode estar ao alcance de todos. Joga-se ainda com os elementos de Macau, com a sua identidade.
O workshop termina no dia 29 de Março. Os melhores trabalhos serão seleccionados e farão parte de uma exposição composta por duas vertentes: as obras de Nuno Soares e as peças dos participantes. “Será uma oportunidade para que as pessoas tenham um feedback dos seus trabalhos”, rematou o responsável pelo ateliê.
Isabel Castro

Exposição no Jardim Lou Lim Ieoc

Festival da Primavera de Henan e Guizhou em Macau

Fotos, figuras em barro e farinha, bonecos trajados a rigor. Eis o que se vê quando se entra na Casa Cultural de Chá de Macau ou no Pavilhão do Jardim Lou Lim Ieoc, os dois espaços por onde se reparte uma exposição sobre Encontro de Costumes Exóticos. Imagens coloridas que se reportam às festividades de Ano Novo Chinês nas províncias de Henan e Ghuizhou. E permitem espreitar momentos tão característicos como a dança Lusheng – quando os rapazes da minoria Miao tentam impressionar as raparigas oferecendo colares de flores.
O espaço que acolhe a exposição já é, por si só, especial. Percorrendo as pontes e observando as árvores, estatuetas de pedra e flores do Jardim Lou Lim Ieoc, chega-se à Casa Cultural de Chá. Logo à entrada, estão dois bonecos em tamanho real que representam elementos dos Miao, da província de Guizhou, trajando vestidos bordados coloridos que são usados durante o Festival da Primavera. Virando à esquerda, os visitantes podem entrar no mundo colorido de Henan e observar figuras coloridas em vidro que são usadas no teatro de sombras de Loshan – uma das mais características expressões artísticas de Jianghuai que remonta ao período do imperador Jiajing da dinastia Ming. Ou brinquedos em madeira cuja função principal é divertir as crianças. Pela parede repartem-se várias lanças, que normalmente são distribuídas aos populares durante as festividades. Nos mostradores encontram-se imagens em barro que simbolizam os 12 signos chineses.
Continuando a caminhar pela Casa Cultural de Chá, está também exposta uma grande figura que representa um unicórnio, normalmente usado em Henan para uma dança que decorre no período das festividades do Ano Novo. Espalhadas pelas paredes vêem-se várias fotos alusivas a costumes e hábitos da minoria Miao. Ainda se podem ver alguns tambores de bronze, instrumentos frequentemente utilizados numa série de rituais. Aliás, em Guizhou, o tambor, além de ser um instrumento musical, é um símbolo de autoridade e estatuto popular no seio dos povos Miao, Buyi, Shui, Yao, sendo por isso utilizado numa dança.
No centro da Casa Cultural do Chá está uma árvore falsa cujos ramos erguem os chamados lai si, envelopes que escondem ofertas dos casados ou mais velhos aos jovens solteiros. Sinal de felicidade e harmonia para o ano que agora começa.
Mas a exposição não termina ali. Saindo do espaço que é designado de Casa Cultural do Chá, caminha-se um pouco e chega-se ao Pavilhão do Jardim Lou Lim Ieoc. Assim que se entra, virando à direita, entra-se no mundo de festividades da Província de Henan. Expostos nas paredes estão trajes usados principalmente nas sessões de ópera chinesa. Nos mostradores vêem-se ainda várias imagens em papel de arroz alusivas ao Ano Novo Chinês. Não podiam faltar também as réplicas dos 12 signos do zodíaco chinês em pano. A destacar ainda as simpáticas figuras humanas de barro que, apesar da forma e aparência primitiva e simples, encerram metáforas profundas sobre a vida humana – as legendas que acompanham as figuras são disso ilustrativas. Oferendas ao Deus da Cozinha, Limpar a Casa para o Festival da Primavera e Confecção de Sonhos são apenas algumas das legendas.
Continuando a percorrer o espaço em volta, encontra-se uma réplica do unicórnio, fotos e adereços usados durante uma dança onde esta personagem mítica desempenha o papel principal. Nos mostradores podem ver-se as figuras de barro de Huaiyang, ou Ninigou, objectos que estão associados aos cultos de veneração ancestrais, representando personagens espirituais antigas. Todavia, hoje em dia, já se popularizaram e passaram a ser considerados objectos do quotidiano. Continuando o percurso, chega-se então ao universo do Festival do Ano Novo Chinês em Guizhou. Um universo onde a minoria Miao é o elemento dominante. Seja através de fatos típicos coloridos, ou através de fotos.
A exposição estará patente até dia 9 de Março, das 9h00 às 19h00, encerrando apenas às segundas-feiras, e foi organizada por ocasião do Festival da Primavera, pelo Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais em cooperação com entidades das províncias de Henan e Guizhou. No dia 22 deste mês terá ainda lugar uma conferência sobre as tradições nas respectivas províncias.
Luciana Leitão

Livro de Moisés Fernandes sobre relações luso-chinesas

Macau continua no centro

Analisar o papel de Macau no desenrolar das relações comerciais e diplomáticas entre Portugal e a China é a proposta do sinólogo Moisés Fernandes com o livro “Confluência de Interesses: Macau nas Relações Luso-Chinesas Contemporâneas, 1945-2005”. Uma publicação que será lançada no próximo dia 21 e que contém “documentos históricos inéditos”, além de aprofundar vários episódios tensos das relações entre os dois países. Relações que “sempre tiveram - e irão continuar a ter durante muito tempo - Macau como pedra angular”.
Analisando especificamente o período entre 1945 e 2005, mas não esquecendo o peso dos anos anteriores a este período, o também director do Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa conclui, no final do livro, que “Macau continua a ser o centro das relações entre Portugal e China”. Os motivos apontados são vários: “Macau tem um estatuto especial na China, além de ter vindo a assumir um papel mais importante no que toca ao comércio externo com Angola e Brasil, já que as relações comerciais de Portugal com a China ainda são incipientes.” Uma das principais conclusões no fim de um livro que recorda alguns episódios muito importantes da História no que toca às relações entre Portugal e China.
Tratando-se de uma compilação de alguns textos que já foram publicados, mas que contém também artigos inéditos, Moisés Fernandes descreve e analisa momentos como os do período pós-guerra. “Os portugueses e todos os cidadãos tinham direitos especiais na China e depois acabou”, conta. Algo que teve repercussões, principalmente para as comunidades macaenses que se encontravam espalhadas pela costa chinesa. Outro ponto importante focado no livro passa pela pressão que foi feita ao então Presidente do Conselho de Ministros, António Salazar, para reconhecer a República Popular da China aquando da ascensão ao poder do Partido Comunista Chinês. “Salazar recusou por duas vezes”, disse.
O conflito nas Portas do Cerco que opôs Portugal e a China em 1952 também foi alvo de desenvolvimento por Moisés Fernandes. “Portugal estava a ser pressionado pelo Ocidente para limitar as exportações para a China”, conta. Depois de ter cedido à pressão, desenrolou-se o conflito.
A primeira vez em que o Governo Chinês “se pronunciou sobre Macau” mereceu também grande desenvolvimento no livro. Em 1955, numa declaração oficial, o Executivo afirmou que se tratava de “território chinês ocupado por Portugal, uma situação que mais tarde seria definida”.
O conflito sino-soviético foi um dos períodos mais assinalados. Na altura, diz Moisés Fernandes, a então União Soviética dizia que havia uma “contradição” quando a China apoiava os movimentos de libertação da África lusófona e “nada fazia quanto a Macau e a Hong Kong”. Ainda na senda deste conflito, Moisés Fernandes publica também uma carta escrita pelo primeiro-ministro chinês a Salazar, convidando-o a “denunciar um acordo de proliferação nuclear da Rússia e dos EUA”, já que “a China se opunha por também estar interessada”.
Um livro que surge depois de “Macau na Política Externa Chinesa – 1949-1979”, também da autoria de Moisés Fernandes. Além de adicionar a digitalização de documentos importantes, inclui mais desenvolvimentos sobre conflitos que só muito superficialmente foram referidos no primeiro livro.
Luciana Leitão