domingo, 23 de setembro de 2007

A cidade escondida

António Conceição Júnior, consultor do MAM

A arte da paixão desapaixonada

Tem a calma dos gestos própria de quem já teve tempo suficiente para fazer o processo de “decantação” essencial para relativizar o passado e também o presente. António Conceição Júnior não gosta da palavra “artista”, gostos não se discutem, é apenas um “desabafo” de alguém que se pode incluir nas “pessoas que praticam artes”. “Uma vez disseram-me que era muito difícil perceber onde é que eu pertencia, o que é que eu era, porque fazia várias coisas, e em Macau as pessoas precisavam de referências. Se fosse pintor, então levava um carimbo de pintor na testa, se fazia fotografia, era fotógrafo. Quem faz mais do que isso não é nada. Então, pronto, eu sou nada!”, ri-se.
Consultor cultural do Museu de Arte de Macau, António Conceição Júnior pratica arte nas mais diversas disciplinas, mas prefere “a audiência da plateia ao protagonismo do palco”. “Comissariar exposições é algo que me dá tanta alegria como projectos pessoais. Não sinto necessidade de protagonismo. Não me ponho em bicos de pés, não faz parte de mim”, esclarece. “Tive que o fazer durante o período em que trabalhei em moda”, recorda. “As pessoas ficam presas a um momento. O António Conceição Júnior é alfaiate, ou é costureiro, ou é estilista. Nunca atinam com a palavra certa, mas também não tem importância, diverte-me imenso”, diz, descontraído. Na realidade, frisa, “sou mera e simplesmente um cidadão de Macau e não quero ser mais do que isso”, diz.
O António Conceição Júnior que fez moda, também desenhou jóias, concebeu espadas, faz fotografia, entre muitas outras formas de expressão artística, como o domínio dos traços da caricatura que estas palavras emolduram. O domínio de várias técnicas resulta daquilo que vai descobrindo, do apetite pelo desafio e da sua própria natureza. “Passo de disciplina para disciplina porque encontro numa respostas a perguntas suscitadas pela outra”, afirma, explicando que do conhecimento da técnica do fabrico das espadas passou para a concepção de jóias em aço, para as quais também contribuíram as medalhas feitas ao longo da vida.
Esta multidisciplinaridade tem outra justificação, o facto de ser “um produto híbrido”. Para Conceição Júnior, “numa sociedade globalizada como aquela em que vivemos, a conjugação de diversas culturas é provavelmente uma das possíveis respostas ao mundo actual, isto é, estar verdadeiramente numa sociedade de informação globalizada é ser miscigenado, é ser híbrido”. “E é sobretudo estar aberto ao outro, mesmo que para isso tenhamos que nos fechar fisicamente para nos podermos abrir”, diz, moldando as palavras.
Ainda sobre a arte que faz, explica que procura a relatividade em relação ao seu trabalho. “Procuro entender que tudo o que faço é meramente subjectivo, faço-o de um modo desapaixonadamente apaixonado. Há um envolvimento distanciado ou há uma distância de envolvimento”, lança. “Às tantas é a idade que me permitiu ver as coisas com o mesmo entusiasmo, mas com alguma decantação. Todos nós, com a idade, nos tornamos alquimistas”.
Nem sempre foi assim, houve uma idade para ser artista. A conversa recua no tempo, para se perceber como surgiu o interesse pela arte. Conceição Júnior conta que “não houve nenhum clique, foi como as estações do ano”, tudo surgiu naturalmente. Quando era miúdo desenhava bem, mas nunca pensou em ser artista... “até pensar que ser artista era muito importante”, pelo que foi para Belas Artes. “Andava vestido de preto, com os braços abertos que era para mostrar que tinha o tique de trazer muitas telas debaixo do braço”, diz, soltando uma gargalhada sentida. “Depois, em termos freudianos, tive que matar esse artista, para me libertar”.

“O que realmente é imperioso é que a população no seu todo, governantes e governados, assuma que deve existir um pacto social no qual a vertente cultural é aquela que vem conferir mais-valias à análise e à tomada de consciência dos problemas da cidade, de todas as origens”

Ainda antes de todo este processo, a dicotomia Macau – Portugal. Nascido e criado em Macau, foi para Portugal com apenas 12 anos, para um colégio, onde era “o pelintra no meio dos filhos dos milionários”. “Sentia uma necessidade de rasgar horizontes e achava também que era muito romântica a ideia do colégio, por causa dos ‘Cinco’, os livros de Enid Blyton”, confessa. A vida começou a ser um “pingue-pongue, três anos cá, dois anos lá”, até ao regresso definitivo a Macau, em 1977.
O regresso a Macau surgiu na sequência de “uma ideia muito interessante do então jovem major Garcia Leandro, que era a chamada macaização dos quadros”. O primeiro governador de Macau logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 lançou o desafio, Conceição Júnior sabia para onde regressava, “é a minha terra”. Chegou com 26 anos e, no princípio do ano seguinte, entrava para o Museu Luís de Camões, onde foi conservador. “O meu ilustre antecessor tinha sido meu vizinho de bairro, colega dos meus pais no Notícias de Macau, era Luís Gonzaga Gomes, que falecera dois anos antes de eu voltar”.
Na Macau de então, “não havia nada ao nível de actividades culturais” e o jovem Conceição Júnior encontrou uma forma de se realizar ao “trabalhar para os outros, não tinha que estar centrado nas minhas coisas”. Não tardou a acontecer a Quinzena de Macau, “na sequência do levantamento daquilo que eu tinha feito interiormente sobre a forma de reflectir o que é que faltava cá”. No final da década de 70, “estávamos numa fase ‘muito arcaica’ em que os chamados artistas eram olhados um bocado de lado, eram desculpados de serem diferentes do normal por serem... artistas”.
Neste contexto, António Conceição Júnior teve espaço para criar e foi-lhe permitido “dar asas” aos seus projectos e, assim, ganhar confiança relativamente a algo que Portugal não era “capaz” de lhe dar: perceber que as suas propostas eram passíveis de serem realizadas. Chegados a este ponto, surge o esclarecimento, para não haver mal-entendidos: “Nunca pensei em mim como um profeta, alguém que vem e diz que sabe tudo, nunca foi essa a minha postura na vida. Era, isso sim, a postura de que havia muito para ser feito e que alguém tinha que o fazer. Como eu estava com as mãos na massa e sempre entendi que o Museu não era necessariamente, sobretudo naquele contexto, um espaço hermético, muito menos um espaço poeirento, fui desenvolvendo projectos, fui sendo acarinhado, as coisas aconteceram”.
Fez-se a Quinzena de Macau, reeditaram-se publicações que desde os anos 40 estavam esquecidas. Pequenas grandes conquistas que levam Conceição Júnior a concluir que “Macau sempre me deu muito mais do que qualquer outro lugar poderia dar e, sobretudo, deu-me algo que já vinha do nascimento, deu-me o multiculturalismo”. Não se pense, no entanto, que foi sempre tudo fácil. Um dos maiores sonhos ficou por concretizar, pelo menos na plenitude.
Conceição Júnior propôs a construção de um centro cultural em Macau em 1977, ainda antes de entrar para o Museu Luís de Camões. Chegou a fazer um levantamento, apresentou uma proposta, mas o projecto não foi para a frente. Onze anos depois, em plena governação de Carlos Melancia, a ideia é retomada. “Venho a saber que ele me procura, quer falar comigo, pois sabe que eu tinha proposto um Centro Cultural. Como ele soube, isso não sei”, introduz.
“Na altura fui nomeado, pelo Governador Carlos Melancia, director de um pequeno gabinete do chamado Complexo Cultural, que tinha um programa diferente, em relação ao [actual] Centro Cultural, ao contemplar uma escola de artes incorporada, virada para o Sudeste Asiático”. As escolas de arte neste ponto do mundo não tinham oferta para o exterior e “como Macau sempre foi, por natureza, um entreposto, um lugar de troca, fazia todo o sentido que fosse também um dos centros onde se encontrassem alunos de artes do Sudeste Asiático”.
O projecto compreendia ainda uma componente de ordem comercial que permitiria tornar possível a independência financeira do complexo. “O Governo de Macau não tinha que gastar dinheiro, apenas disponibilizar um terreno, para que investidores pudessem pegar no projecto, criar um grande centro comercial, um centro de convenções com hotel e, em troca, oferecer à cidade, de acordo com as nossas especificações, um centro cultural e uma escola de artes”.
O responsável pelo gabinete do projecto “tinha andado a sonhar desde 1977, as ideias estava mais ou menos claras, foi feito um estudo de viabilidade por empresas da especialidade que apontavam para um retorno financeiro anual suficiente para criar um fundo, organizado em moldes semelhantes aos da Gulbenkian, mas com uma estrutura e forma de gestão mais leve”. As mudanças políticas verificadas pouco tempo depois fizeram com que a ideia ficasse por ali, “os gabinetes de projectos tinham três anos e a situação estava num impasse”. Foi-lhe dito que “era um projecto megalómano”. Conceição Júnior só queria, sustenta, “construir um centro cultural a olhar o futuro, para os cinquenta anos seguintes”.
Vinte anos depois do agora consultor do Museu de Arte de Macau ter pensado num projecto de complexo artístico multidisciplinar, com uma forte componente de formação, o território continua a não ter uma escola específica de artes que abranjam técnicas além do design, curso garantido pelo Instituto Politécnico e mais recentemente também pelo Instituto Inter-Universitário. Não faz falta uma escola de artes em Macau? “Faz falta, mas não descontextualizada. O que realmente é imperioso é que a população no seu todo, governantes e governados, assuma que deve existir um pacto social no qual a vertente cultural é aquela que vem conferir mais-valias à análise e à tomada de consciência dos problemas da cidade, de todas as origens”. Faz falta encontrar a via para “pensar colectivamente, algo que acho maravilhoso”.
António Conceição Júnior acrescenta que “o Museu de Arte de Macau está a fazer muito dentro do que pode, em matéria de iniciação à formação artística”. Quando surge o debate sobre a atribuição de responsabilidades, diz que “há sempre espaço para mais” e a memória traz as letras de uma canção para dizer que “soube a pouco”. Para saber a tanto, há sempre vários caminhos, a começar “pelos próprios casinos que, enquanto instituições que obtêm lucro em Macau, deveriam assumir a sua quota parte de responsabilidades na vida cultural, por via do mecenato”.
António Conceição Júnior diz nunca ter amanhecido, nestas duas dezenas de anos em Macau, com vontade de voltar a partir. “Não, porque eu pertenço a isto. Se fosse americano diria ‘I belong here’”. Novo sorriso e uma pausa para acender um cigarro, que segura com a elegância de mãos criadoras. “Nem sempre a vida foi fácil mas parte do desafio estava aí, nessas barreiras que se vão encontrando”.
Isabel Castro

Passos em volta

Esta cidade é como as pessoas: quando se olha para o mapa, não se encontram duas ruas iguais. Cada bairro tem as suas histórias, vontades, artes, desejos, esperanças e desesperos. Os seus segredos sussurrados. São passos em volta à redescoberta da urbe.



Um cenário para Wong Kar Wai

Não fica longe do centro de Macau, mas aqui o tempo passa de uma forma diferente. Em tempos, foi um espaço muito vivido da cidade, um porto de chegada, sempre em mutação. “Há uma identidade mais recente do que a dos edifícios classificados. Aqui o património são as pessoas que ainda cá estão”, lança Manuel Correia da Silva, designer, o nosso anfitrião por estes passos em volta de uma cidade que vale a pena espreitar, por toda a genuidade que mantém. “Não dá para dizer onde é que o bairro começa nem acaba, tem uns braços que se prolongam”, gesticula.
O ponto de partida é na Rua dos Ervanários, ali ao pé da Rua das Estalagens, que em tempos foi a fronteira entre a cidade cristã e a chinesa. “Estas duas ruas são paralelas, são gémeas. Aqui havia uma porta, que desapareceu. Há um jogo interessante, de um lado temos o pavimento tipicamente chinês e aqui a calçada portuguesa”. No ponto em que as ruas se encontram, Manuel Correia da Silva aponta para o chão para mostrar uma flor desenhada na calçada, que em tudo se distingue do padrão que enfeita a rua. São estes pequenos pormenores, de enigmático significado, que dão sentido à cidade.
A cidade cristã fica para trás e andamos em direcção ao bazar. Manuel Correia da Silva conhece bem o bairro, vive nele todos os dias, o atelier onde trabalha está encaixado entre a Rua dos Ervanários e o Beco da Melancia. Sabe dos hábitos, reconhece rostos, indica os melhores espaços comerciais. Logo no início da Rua dos Ervanários, a primeira paragem para um lai cha”. “Neste café lindo de rua, pode tomar-se um bom pequeno-almoço. É um espaço que tem tudo a ver com este bairro... À noite é um parque de motas dos residentes, mas o frigorífico está enfiado numa caixa de metal, passa a vida aqui. É um café que aparece e desaparece”. Olhando para cima, os toldos “muito característicos desta parte da região”. “Em Hong Kong, pegaram neste material e fizeram uma marca, o “red, white and blue”, que aqui ainda é utilizado da maneira mais autêntica, com o propósito original”.
O passeio continua, rua abaixo, e Manuel Correia da Silva propõe que se olhem para as lojas, os pormenores. “Aqui as coisas não são nada sofisticadas”. Há espaços que vendem peixes e tartarugas, uma mercearia, uma pequena ourivesaria. “É um bairro de imagens mas também de sons, o mahjong faz parte da banda sonora deste bairro”. A ópera chinesa também, em becos mais escondidos.
“Este senhor da alfaiataria Va Seng faz umas cabaias muito bonitas. Temos também um médico, ‘massagista, quedas e pancadas’, com este pormenor de equipamento urbano de que gosto muito”, diz, apontando para uma estrutura de ferro que, imagina-se, “serve para que os doentes, que ele já nunca tem, se possam sentar cá fora quando o consultório está cheio”.
Existem detalhes surpreendentes nesta rua. Como “a senhora de uma loja que está sempre a ouvir o canal português de rádio”. “É uma banda sonora que não bate com o filme. É a companhia dela, a música portuguesa, as notícias em português”. Manuel Correia da Silva deixa o desafio: “Num espaço tão pequeno, cada loja, cada beco, tem estas histórias para contar. Isoladamente, contam-se em meia dúzia de palavras mas quando observadas adquirem uma dimensão cinematográfica”. O designer pensa em Wong Kar Wai, o realizador de Hong Kong, que “poderia fazer um filme aqui, porque há uma plasticidade enorme nas paredes, nas coisas velhas, nada aqui é novo, em contraponto com o que acontece do outro lado da cidade, em que está tudo a ser inaugurado”.
Manuel Correia da Silva ri e diz que “parece que está tudo pronto para fechar”. A verdade é que se trata de um ponto da cidade que vai sobrevivendo por si. “Há obras novas, mas as renovações estão a ser feitas à mesma escala. Não há qualquer tipo de restrições ao estilo de arquitectura que se faz aqui. Por ser a parte chinesa da cidade, deveria ter, na altura, um tipo de arquitectura muito específica, que ainda se vê nalguns pontos do bairro”.
Ainda nesta rua, um pequeno desvio à esquerda para ver o Beco da Pinga e descobrir “o espaço recreativo do bairro, onde se joga xadrez chinês, em mesas improvisadas”. No mesmo local, um barbeiro de rua, com uma cadeira das antigas, uma peça digna de museu, “tudo isto tem a ver cinema”. Neste beco, vale a pena olhar para as paredes, “feitas do tijolo cinzento que caracteriza os edifícios de arquitectura chinesa”. Há ainda um templo, “muito humilde mas muito bem tratado”, com inscrições protegidas por uma placa de vidro. É preciso espreitar para se verem estes pequenos detalhes. “Está tudo escondido, aqui”.
Saímos do bairro para a rua principal. É o ponto onde termina a Rua dos Ervanários e começa a Rua da Tercena, onde o passeio alarga e serve de espaço ao mercado dos tin-tins, “um acontecimento único porque, apesar de ser muito pequeno, tem características singulares e as pessoas, com a maior descontracção, vendem aquilo de que mais ninguém se lembra, como a caneta que já não escreve às pilhas usadas”.
Meia dúzia de passos e aparece o mais famoso espaço comercial do bairro, a sopa de fitas Ving Kei. O restaurante está enfeitado com as memórias do negócio familiar que começou com um carrinho de mão. O antigo Presidente da República de Portugal, Jorge Sampaio, também entra nos retratos pendurados nas paredes, numa visita feita à pequena loja. “Muita gente conhece esta loja, os turistas que andam por esta ponto da cidade vêm à procura da sopa de fitas”.
Quase no fim da rua, a paragem para ver uma “estação de reciclagem”. É neste ponto da cidade que se faz parte significativa da reconversão de materiais. Ao final do dia, assistem-se a verdadeiras procissões, “quase sempre mulheres”, com carrinhos de mãos cheios de papelão e latas. “O material é pesado e comprimido, resultam em volumes esteticamente muito interessantes”, diz Manuel Correia da Silva. “É uma actividade importante, não só do ponto de vista ambiental, mas porque é a forma de rendimento de muitas pessoas”.
Estamos ao pé da Travessa do Armazém Velho. Virando de novo à esquerda, começa um dos muitos labirintos do bairro. São becos e becos para explorar em próximos passos em volta.

Manuel Correia da Silva*, percursos e imagens
Isabel Castro, texto
* É designer em Macau. Em 2004, foi o vencedor de um concurso do Instituto Cultural sobre os percursos históricos da cidade, no âmbito da conservação do património de Macau.







sábado, 22 de setembro de 2007

Macau agora, Macau de outrora

Leonel Barros

Neco, o contador de estórias

Nunca mais tinha ido à Taipa desde que construíram a ponte Nobre de Carvalho. Leonel Barros não se importa de repetir e desfazer possíveis dúvidas. Confirma-se. Não saía da península há mais de 30 anos. “E quem não vai à Taipa, não vai a Coloane”, ironiza Neco, nome que lhe colaram à nascença.
“Costumava ir a Coloane nadar, trepar as montanhas e ainda lá estive a trabalhar”. Mas só no tempo em que o caminho marítimo era o único porto de acesso às ilhas. Leonel Barros já nem se lembra quando é que isso foi, a memória por vezes tem destas coisas. Mas só quando quer. Aos 84 anos, Neco ainda é o contador de estórias de Macau.
“Eu tinha boa memória, nunca escrevi nada, só muito mais tarde, lá pelos anos 80”, refere Leonel que aproveita a deixa para desfiar duas ou três recordações de uma assentada só. “Ainda hoje me lembro de ver e ouvir o barco do meu avô, capitão de um dos vapores da carreira Macau - Cantão”, conta. Com 13 ou 14 anos, Neco foi pela primeira vez por esse rio acima. “Estava impressionado, fomos ver os estragos dos ataques aéreos japoneses e, uma das vezes, soaram as sirenes e fomos a correr para o barco”. A bandeira portuguesa, pintada na parte superior do toldo da embarcação, era o escudo que mantinha os aviões japoneses à distância.
“Ao cair da noite ou amanhecer, quando estávamos no vapor, ouvíamos os pregões das tancareiras com as suas lojas flutuantes, a vender tudo o que um homem precisava em casa”. Mas, estas vendedoras foram talvez as que menos impressionaram o rapaz: “O que eu queria mesmo era visitar os “barcos de flores”, eram uns 300, tão bonitos!”. O avô, porém, tirou-lhe logo as ilusões: “isso não é para a tua idade, para além de ser para ricaços”. As flores eram um eufemismo para as embarcações especializadas no ópio e prostituição.
O apito dos vapores da carreira calou-se passado algum tempo, com a invasão japonesa de Cantão. Meia dúzia de anos depois, em 1943, ficou também pelo caminho o 4º ano do Liceu Nacional Infante D. Henrique: Leonel Barros teve que abandonar os estudos para cumprir o serviço militar obrigatório no Quartel de São Francisco.
Neco, o antigo soldado (49)53, não precisa de vasculhar muito no fundo do baú, para sacudir episódios da tropa que só terminou em Outubro de 1945. “Os japoneses tinham ocupado a ilha da Lapa, onde começaram a matar os velhos. O sangue atraía os tubarões para esta zona”. Não foi preciso muito para se tornarem no alvo da pesca e serem introduzidos na dieta local. Até chegarem ao quartel foi também um tirinho. “O chefe de cozinha, o cabo 610, todos os dias tinha tubarão. A pele é muita áspera, uma lixa autêntica”, afirma, enquanto torce o nariz. Parte da refeição era passada a retirar a pele do animal, apesar de nem todos se darem ao trabalho.
“Tirávamos todos a pele, bem, nem todos, os portugueses comiam tudo. Comentavam ‘Ó 53 isto é mesmo bom!’”, recorda o titular do número. Leonel Barros ainda tentou camuflar as regras: o pai envia-lhe todos os dias uma marmita ao quartel. A estratégia durou até ao tenente Gomes ter descoberto e ter-se apropriado diariamente da marmita do Neco: “53, isto é muito bom, muito melhor que tubarão”. Leonel limitava-se a encolher ombros, o mesmo que fez quando resolveu protestar por receber um pré (vencimento) de 90 patacas, menos 30 patacas do que os soldados provenientes de Portugal. “Disseram-me que não fazia sentido porque eles comiam bife e eu peixe salgado”, relembra com um sorriso de quem nunca guardou rancores.


“Muitas vezes metia-me na floresta para ver as aves. O sítio mais lindo era o Mangal, onde ficava horas a vê-las a apanhar o peixe”

A Função Pública foi o caminho que se seguiu até que uma espondilose cervical lhe ditou a reforma. Falso alarme. Neco Barros esteve depois cerca de 15 anos na CEM, tirou um curso de veterinária por correspondência e perdeu-se de amores no mini-zoo do Jardim da Flora, no canil e na antiga Granja do Parque de Seac Pai Van. “Muitas vezes metia-me na floresta para ver as aves. O sítio mais lindo era o Mangal, onde ficava horas a vê-las a apanhar o peixe”, recorda com um brilhozinho nos olhos. A paixão pelos animais eternizou-a em alguns livros, escritos e ilustrados pela própria mão, sobre aves e cobras de Macau.
Da natureza Neco foi também guardando conchas, mais de duas mil, agora expostas no Museu Marítimo. O espaço teve, desde os primeiros traços, um dedo de Leonel. Além de ter feito parte da equipa de instalação, ajudou a embalsamar os animais e até colaborou na concepção do desenho do edifício. Aliás, desenhar é uma paixão das antigas, quase forçada pelo pai, homem duro nas regras que em tenra idade ficou órfão de pai e de mãe. “O meu pai era um bom desenhador. Chamava-nos, a mim e ao meu irmão, e obrigava-nos fazer desenhos iguais aos dele”, recorda, ao mesmo tempo que ri da rigidez paterna. A queda para desenhar e pintar também era conhecida do professor de desenho que, sempre que não comparecia às aulas, “mandava aqui o Barros tomar conta da classe”.
Podia não ter hábito da escrita, mas foi sempre anotando em papéis soltos ou na memória o Macau que ia vendo passar, “esse tacho de culturas”. A curiosidade nata conduziu-o pelas ruas, pelas gentes e costumes da terra. “Quando havia alguma festividade ou quando eu via os chineses a queimarem coisas à porta eu queria saber tudo, a fundo. Ia com um caderno na mão e perguntava ‘Dim gai a?’ (porquê?)”, explica Leonel. A língua de perguntador estendia-se aos templos, onde “falava com os bonzos, perguntava tudo, deixava-me ficar lá durante horas, comia com eles”. Horas a fio para saber a origem das coisas, vasculhar as lendas e as tradições populares. Foi coleccionando tudo isso e, já a partir dos anos 80, partilhou-o através da publicação de artigos nos jornais e de vários livros, ilustrados pelo próprio punho.
Leonel pode nunca ter conhecido nenhuma das três pontes (até Setembro de 2007), mas movimenta-se como ninguém no bairro que o viu nascer, onde ainda hoje vive. A primeira morada teve-a no número 9 da Rua Tap Seac. “Se me disserem para ir dar um passeio à cidade nova, eu não sei. Depois do Hotel Lisboa já não sei andar a pé.” Às vezes aventura-se para os lados do Porto Exterior, guiado pelo único autocarro que lhe pára à porta. “Apanho o 28C que termina o percurso no centro comercial New Yahoan. Saio, vou lá almoçar e volto pelo mesmo caminho, com o 28C. Não sei mais e não quero saber. Gosto de estar em casa, a desenhar, a fazer bonecos”, afirma com orgulho.
Os 84 anos que já leva a sua relação com Macau, resume em poucas palavras, emprestadas de uma língua estrangeira: “There is no place like your own home”.
Mariana Palavra
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn


sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O melhor de Itália em Macau

Aterballetto amanhã no Centro Cultural de Macau

Heterogénea Itália

São três espectáculos num, uma espécie de mostra do que a companhia faz de melhor. “A razão que nos levou a apostar numa apresentação diferente daquelas que vamos fazer no resto da Ásia tem a ver com o facto de ser a nossa estreia em Macau. Estas três composições são muito representativas do trabalho da nossa companhia”, resumiu ao Tai Chung Pou o director artístico da Aterballetto, Mauro Bigonzetti.
A principal companhia de bailado de Itália sobe amanhã ao palco do Centro Cultural de Macau quando forem 20 horas. Ao público do território, Bigonzetii promete oferecer “energia, vitalidade e frescura”. “É a forma como nós nos apresentamos perante o público”, argumenta. “Homenagem a Bach”, “Songs” e “Cantata” foram as peças escolhidas para Macau, cidade inserida numa digressão pela Ásia que inclui Banguecoque e Daegu, na Coreia do Sul.
“Os trabalhos que levamos são muito diferentes uns dos outros. Queremos dar a Macau a possibilidade de ver as várias vertentes da nossa companhia”, reitera o director artístico. “‘Homenagem a Bach’ é uma coreografia especial que tem como ponte de partida a Divina Comédia de Dante”, introduz Bigonzetti. “Gosto imenso de música, tanto contemporânea como erudita. Confesso que tenho uma preferência por Bach”.
Não é a primeira vez que o encenador utiliza temas do mais conceituado compositor do período barroco para os trabalhos da Aterballetto. “Acho que é muito dançável. Por vezes os movimentos estão de acordo com a música, outras vezes não”. Nesta homenagem a Bach, Bigonzetti lança “Comoedia canto terzo”, para ir ao encontro da música tendencialmente harmónica de Johann Sebastian. O resultado, assegura o criador, é uma atmosfera intimista, uma viagem simbólica por algumas das composições mais conhecidas de Bach.
Terminada a homenagem, segue-se “um trabalho muito intenso para os três bailarinos” que dão forma a “Songs”, uma peça com música de Henry Purcell, outro compositor da lista dos favoritos do criador artístico. A companhia apresenta o trabalho dizendo que é uma viagem aos aspectos mais profundos da condição psicológica.
A escolha de Purcell para cenário musical prende-se com a “forma genial e singular de expressar as paixões, numa linguagem contemporânea, intemporal na abordagem do sujeito”. Concebida a pensar em dois bailarinos e uma bailarina, desde 2002 que este bailado da Aterballetto tem uma versão totalmente masculina.
A terminar o espectáculo de amanhã, a apresentação de Cantata, que Mauro Bigonzetti descreveu ao Tai Chung Pou como sendo “o caos, o instinto puro”. Este ambiente é reforçado por uma adaptação de temas da música tradicional italiana feita pelo grupo Assurd.


A Aterballetto é a principal companhia de dança de Itália em matéria de produção e distribuição, tendo sido o primeiro grupo de ballet residente independente das companhias de ópera. Mauro Bigonzetti é o director artístico desde 1997, mas já tinha passado pela companhia na década de 1980, enquanto bailarino e coreógrafo. Foi na Aterballetto que fez as suas primeiras experiências ao nível da coreografia, tendo sido projectado a nível internacional para desenvolver colaborações com as mais prestigiadas companhias de dança.
Neste momento, o repertório da Aterballetto é composto por coreografias de Mauro Bigonzetti, Michele Abbondanza, Antonella Bertoni e Itzik Galili, bem como por trabalhos de jovens coreógrafos europeus, além de criativos do mundo internacional da dança como William Forsythe e Jiri Kylian.
Em 1991, a Aterballetto tornou-se a Companhia do Centro Regional de Dança, uma associação oficialmente reconhecida e que é formada pela cidade de Reggio Emilia, a Region de Emilia-Romagna e a ATER (Associação dos Teatros de Emilia Romagna). O Centro Regional de Dança passou a desenvolver a sua actividade com a imagem da Aterballetto, congregando vários recursos do mundo da dança, em diferentes aspectos: produção, promoção, difusão, formação profissional, estudo e pesquisa. Em Abril de 2003, o centro mudou de estatuto, passando a ser a Fundação Nacional da Dança/ Companhia Aterballetto.
Criada em 1979 e gerida durante quase vinte anos pelo director artístico Amedeo Amodio, a Aterballetto construiu um importante repertório que inclui obras de Amodio e de coreógrafos internacionais de renome como Glen Tetley, Alvin Ailey e Lucinda Childs. É detentora dos direitos de produção de obras como concebidas por George Balanchine, Kenneth Mc Millan, Antony Tudor, Jose Limon, Hans Van Manen, Leonide Massine, David Parsons e Maurice Béjart.
A Fundação desenvolve, neste momento, algumas das experiências mais significativas na área da dança, ao nível do país, distinguindo-se no contexto italiano. Tem ainda pautado a actividade pela formação de jovens bailarinos, festivais e projectos direccionados para a captação de públicos.
Isabel Castro

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Macau em língua inglesa

Radiografia das revistas em inglês de Macau

O sucesso da língua franca

A ideia inicial era lançar a revista em 2003, mas o surto de pneumonia atípica trocou as voltas a Paulo Azevedo, fundador e director da Macau Business. A contenção financeira generalizada que se vivia então fez com que o projecto tivesse sido adiado até Maio de 2004, o mês em que a liberalização do sector do jogo ganhou corpo, com a inauguração do Sands, o primeiro casino fora do universo Stanley Ho. E foi o mês do aparecimento, em Macau, da primeira revista de iniciativa privada em língua inglesa.
De lá para cá, não foram só as salas de jogo que se multiplicaram; as revistas em inglês também. Neste momento, existem cinco publicações do género em Macau, cada uma com um estilo próprio, públicos alvo distintos e critérios editoriais diferentes. Para quem está dentro das redacções, a competição aumentou nos últimos tempos, porque embora as perspectivas não sejam as mesmas existem áreas de intervenção que são comuns a todas elas. “A competitividade veio aumentar a qualidade”, congratula-se Paulo Azevedo. “Há revistas muito boas em Macau”.
Antes de 2004, tinham sido algumas as tentativas de escrever no idioma que não é nenhuma das línguas oficiais da RAEM. Os projectos, de várias autorias, manifestaram-se através de jornais mas, por razões várias, não sobreviveram. Só uns meses depois da Macau Business (MB) ter sido lançada para o mercado é que surgiu o primeiro diário em língua inglesa, o Macau Post Daily.
Pelo sucesso que a publicação mensal teve logo nos primeiros números, o responsável pela Macau Business não hesita em afirmar que “foi uma aposta ganha”. Uma breve análise comparativa dos números vem reforçar a certeza do fundador da publicação: há três anos, a revista tinha 52 páginas e 2500 exemplares de tiragem. Agora, são impressos 12.500 todos os meses e há 120 páginas para ler. “Quando olho para trás e vejo aquela revista pequenina, não sei como é que as pessoas ficaram tão admiradas e gostaram tanto”, comenta Azevedo. “O número de colaboradores é agora 5 vezes maior, temos pessoal a tempo inteiro, o que não tínhamos antes, e crescemos muito”. A redacção da Macau Business é feita por 12 jornalistas, de sete nacionalidades, sendo que o painel de colaboradores ultrapassa os trinta articulistas.
Paulo Azevedo conta que o princípio não foi fácil, a começar desde logo pelo facto de não haver em Macau uma cultura forte de aposta na publicidade. “Estes projectos são muito caros e nós só vivemos da publicidade. São produtos baratos, a venda da capa são 25 patacas, um terço é para pagar a produção e o resto dá para as contas do escritório”. Por uma questão de promoção da revista, um número significativo de exemplares é distribuído gratuitamente, o que faz com que a Macau Business esteja nos aviões e nos hotéis de Macau. “O grande custo de uma revista são os salários, que são muito elevados. Nós só temos uma edição por mês, só temos uma hipótese de arranjar dinheiro para pagar os salários, e temos mais jornalistas do que a maioria dos jornais”.

Neste momento, existem cinco publicações do género em Macau, cada uma com um estilo próprio, públicos alvo distintos e critérios editoriais diferentes.

Em 2007, o cenário já é bastante melhor, o que permitiu à revista crescer, não só em número mas também na projecção que encontra. Além de ser vendida nas 52 livrarias internacionais da região administrativa especial vizinha – “foi a primeira revista de Macau a entrar no mercado de Hong Kong” – a MB “chega a todo o lado”, através das subscrições. O director ri-se quando conta que “às vezes os nossos leitores pagam com cheques de bancos que eu nem sequer sabia que existiam”.
Tratando-se de uma publicação orientada para os negócios é, no entanto, uma revista que se pretende que seja entendida por todos leitores. “A regra número um desta casa é a seguinte: temos que dar ao leitor, independentemente da formação académica, a informação que ele precisa para viver e fazer os seus negócios em Macau”. Quanto à opção de estratégia editorial, o fundador explica que as razões são “as mais óbvias”, na altura “não havia nada do género sobre negócios” e, sublinha, “negócios são negócios, é uma linguagem universal”.
Jornalista no território há muitos anos, com uma forte ligação à imprensa diária, Azevedo conclui que a menina dos seus olhos é “o reflexo de Macau”. “Não somos uma revista de jogo, mas como o jogo é o maior negócio e nós somos uma revista de negócios, reflectimos este facto”.
Unicamente virada para o jogo é a Inside Gaming, revista lançada em Setembro de 2005. “Começou por ser publicada de dois em dois meses, este ano decidimos passar as edições mensais”, introduz Kareem Jalal, editor da Inside Gaming (IG). Tal como a Macau Business, a Inside Gaming está a crescer, à medida que o mercado alvo da publicação se desenvolve, não só em Macau mas noutros pontos da Ásia, que vão apostando na legalização da indústria do jogo. “Costumávamos estar muito centrados em Macau, dados nossos os recursos humanos, mas agora estamos com uma perspectiva mais regional. À medida que outros locais legalizam o sector do jogo, vamos alargando a nossa cobertura”, diz Kareem Jalal.
Em relação à linha editorial e aos potenciais leitores, também foi sofrendo modificações. “No início, fazíamos uma revista para os profissionais do sector mas também virada para os jogadores VIP, pelo que apostámos na distribuição em massa na indústria hoteleira, mas agora estamos com outra direcção, focada essencialmente para os investidores em casinos, os profissionais dos mercados de acções e das indústrias relacionadas com o jogo”, frisa.
A revista tem desde a sua criação um total de 48 páginas, “com muito mais conteúdo do que no início”, mas deverá ser ampliada em breve, pois “já existe dificuldade em conseguir colocar todos os artigos que temos”. A tiragem mensal é de dez mil exemplares e por enquanto não deverá ser aumentada, até porque o site na Internet é outra forma de aquisição da publicação. “Nós não precisamos de ter visibilidade em livrarias, queremos é estar na secretária de todas as pessoas importantes deste sector”, remata.
Já a Macau Closer, nascida em Fevereiro passado, tenta chegar às salas de estar de diferentes leitores. Publicação mensal generalista, abrange uma grande diversidade de temas, da política à literatura, passando pela economia, ambiente, história, educação, moda e cultura. Aposta também no aspecto, não só pelo grafismo mais arrojado mas também através da ilustração e da fotografia. “Era um modelo que não havia em Macau. A tendência é para as revistas serem cada vez mais especializadas, mas achámos que o mercado ainda era demasiado pequeno para permitir fazer outras revistas especializadas que não na área da economia”, afirma Ricardo Pinto, director da Macau Closer (MC).
O responsável pela publicação, que é também o director do Jornal Ponto Final, explica que a língua inglesa foi a eleita por duas razões, sendo a primeira a viabilidade comercial do projecto. “Com a entrada de todos estes investidores americanos e australianos, viriam também para o mercado muitas empresas e marcas que estão habituadas a lidar, em todo o mundo, com a publicidade em inglês”. Depois, a abrangência que se pretende ao nível de leitores: “Não acho que haja poucas pessoas a falar português, mas é óbvio que um produto em inglês chega a um maior número de leitores. Sendo uma língua franca, que aproxima bastante as comunidades em Macau, foi também uma tentativa de fazer um produto que pudesse chegar a mais pessoas”.
Neste momento, a Macau Closer tem uma tiragem de entre 3500 a 5 mil exemplares, dependendo do mês. O objectivo, a curto prazo, é chegar a um número que ande entre os 8 mil e os 10 mil exemplares. A publicação é comercializada em Hong Kong e em breve deverá chegar a Guangdong. Ricardo Pinto constata que “os números de vendas são bastante encorajadores” e que a reacção do público tem sido muito animadora, um facto que ganha especial relevância dado “o pouco investimento feito na promoção, na altura, por questões logísticas, dada a dimensão da equipa, e motivos financeiros”.
A palavra de ordem, agora, com sete números publicados, é avançar à conquista de novos leitores, alargar o número de hotéis onde a revista marca presença. Para breve está também o lançamento do site, que “vai permitir divulgar a publicação no exterior e facilitar as assinaturas”.
Já depois da Closer, apareceram na RAEM a Destination Macau, uma revista de hospitalidade, virada para o turismo, e a Macau Tatler, vendida em conjunto com a irmã gémea de Hong Kong, uma publicação sobre o “espírito da alta sociedade”.
Isabel Castro


Raquel Bragança, professora de inglês num colégio de língua chinesa

Good Morning Miss Rachel!

O nome é português e o apelido ainda mais. No entanto, durante cinco dias da semana, manhã e tarde, Raquel Bragança responde por Miss Rachel. O local de trabalho são as salas de aula do Colégio Católico Estrela do Mar. A missão: conseguir que, no final do ano lectivo, cerca de 80 crianças chinesas saibam dizer na língua de Sua Majestade o que comeram no dia anterior e qual o percurso que fazem para chegar à escola.
“Já tenho um ano de Macau”, informa orgulhosamente a jovem professora. Com 26 anos, a portuguesa natural do Sabugal, no distrito da Guarda, está a viver um sonho que alimenta desde os tempos de infância. “Era pequena e já dava aulas de inglês enquanto brincava com os meus irmãos”, recorda. Raquel decidiu seguir as pisadas maternas. “Lembro-me de assistir às aulas da minha mãe e adorava, achava maravilhoso podermos ensinar tanta gente ao mesmo tempo e transmitir-lhe conhecimentos”, diz.
O mesmo sentimento de fascínio trespassou para o actual emprego. “Nunca me imaginei inserida no meio em que estou, aqui na China a dar inglês a crianças chinesas”, exclama. Quando chegou a Macau, começou a distribuir currículos pelos diversos centros linguísticos e as oportunidades de emprego começaram a surgir às “pinguinhas”. Grande parte dessas ofertas era para leccionar cursos pós-laborais de alemão e inglês a adultos. Em Portugal, o cenário que existe para quem faz do ensino sustento é visível pelos 43 mil profissionais que ficaram sem colocação no corrente ano lectivo. “O que resta aos professores? Poucas alternativas – ou explicações ou serem explorados a cinquenta patacas à hora!”, protesta. Recusando sujeitar-se a um ordenado equivalente àquele que ganha uma empregada de limpeza em terras portuguesas, Raquel decidiu arriscar e “vir à aventura”.
Além das formações para adultos, a jovem descobriu no território o prazer das traduções. “Estamos rodeados de livros, no meio de duas línguas a tentar arranjar a melhor solução possível”, mostra.
Contudo, é à frente do quadro negro, com o pó do giz nas mãos e dezenas de cabeças atentas aos seus ensinamentos que a licenciada em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade de Coimbra quer fazer a diferença. “É uma relação completamente diferente com o trabalho. Uma pessoa sente que está a deixar uma marca na vida de alguém. Até pode nem voltar a lembrar-se do professor, mas sabemos que lhe ensinámos alguma coisa”, defende.
Embora tivesse recebido formação para ensinar jovens do ensino secundário, foi entre os pequeninos da primária que iniciou a carreira, ainda na sua terra natal. Na sala de aula, seja em Portugal ou na China, “há que ter psicologia para lidar com os miúdos”.
O Colégio Católico Estrela do Mar surgiu por indicação de um aluno adulto que pertence às turmas do centro de línguas onde ainda trabalha todos os sábados. “Vinha no anúncio que era para professores do primeiro e segundo ano do ensino básico. Eu respondi mas nunca à espera que me aceitassem, porque pensei que ia haver muita gente a responder e que eles iriam querer alguém que falasse chinês”, lembra. Impulsiva, como diz ser, respondeu para não ficar com a “consciência pesada”. Quando, alguns dias depois, lhe telefonaram a marcar uma entrevista ficou “abismada”.
Foi a única resposta que a escola obteve e, numa questão de dias, Raquel passou a vestir a pele de Miss Rachel. Agora, todos os dias de manhã, toca a campainha e os seus “garotos” já estão alinhados à porta, divididos em duas filas, separados por sexos e organizados por “escadinha de alturas”. “Quietinhos”, aguardam a ordem para ocuparem as suas carteiras.
Além de uma nova cultura, a portuguesa conheceu um método diferente de ensino, começando pela gestão das aulas. “O sistema em que eu estou a trabalhar é com outra professora na sala. Não por eu ser estrangeira, mas é assim que funciona no primeiro e segundo ano do ensino básico daquela escola”, explica.
Sem “acordo prévio”, tudo vai surgindo “naturalmente”. Raquel é quem cumpre o currículo escolar enquanto a colega presta apoio individual. Esta segunda presença “facilita a tarefa de comunicação”, mas a língua que impera é sempre a inglesa.
“Só para esclarecer certas ideias é que a outra professora fala em chinês. De resto, utilizamos muitas imagens, gestos e damos exemplos de conversação para eles perceberem o que estamos a dizer”, mostra.


“Nunca me imaginei inserida no meio em que estou, aqui na China a dar inglês a crianças chinesas”

Apesar das aparências, comunicar em inglês com crianças de tão tenra idade é “bastante simples”. “A linguagem gestual e facial é universal”, garante. A professora tem ainda poucos meses de trabalho realizado no colégio, mas o carinho que nutre pelos seus alunos já escapa entre as palavras.
“Nunca tinha lidado com crianças tão pequenas, com seis e sete anos de idade. São tão pequeninos que eu nutro um carinho e ternura especiais por eles. Até tenho medo de lançar um olhar mais repreensivo”, confessa.
Habituada a um método de ensino tradicionalmente europeu, no qual se está a trabalhar com uma língua diferente, mas com o mesmo alfabeto, a portuguesa foi obrigada a render-se ao sistema chinês. A memorização e a repetição não se aplicam apenas à aprendizagem dos caracteres, mas também ao “What’s your name?”. A própria professora aprendeu que há poucas formas de contornar esta situação.
“Já tentei de outra maneira sem ser a soletrar as palavras e seguir as normas de ensino europeias, mas os alunos não aderem tanto, porque é mais complicado para eles. Não quer dizer que não funcione, mas demoraria mais tempo. Além de não ter tempo suficiente, não tenho a total liberdade para organizar as aulas”, constatou.
Mesmo assim, Miss Rachel tratou de arranjar o seu próprio trilho para contactar com os seus alunos. “Pego num livro e eles vêm logo ter comigo. Então começo a perguntar o que são as imagens”. A professora serve-se deste método para fazer uma “revisão” do que os pequenos aprenderam na aula, mas revestindo o exercício de uma forma lúdica”.
“É engraçado, porque depois levo uns autocolantezinhos e quando eles acertam uma pergunta colo-lhes na mão e eles vão logo mostrar aos colegas. E depois vêm logo dez, porque também querem um. É uma maneira que eu arranjei de eles me responderem”, diz entre sorrisos.
O programa curricular de inglês do ensino básico é muito semelhante ao utilizado no ensino europeu. As crianças começam por aprender o nome, a idade, a alimentação, como é que se vai para a escola, a saudação. A primeira barreira para se aprender uma língua ocidental é o alfabeto. Por isso, os pequenos chegam da escola pré-primária já com o ABC até ao Z já na ponta da língua.
“Eles já sabem dizer o mais básico, mas é muito giro. A comunicação torna-se complicada se eu perguntar o que comeram, mas ficam fascinados só de virem ter comigo para dizer ‘good morning Miss Rachel’. Ficam tão contentes e eu gosto de ver a sua satisfação”, conta.

Inglês para superior entender

Pode parecer apenas um pormenor, mas é algo que diz muito sobre a realidade de Macau. Principalmente ao nível dos recursos humanos. Esse problema que pode não travar o crescimento da indústria do turismo, mas que é passível de causar alguns acidentes de percurso. Como é o caso da redução da qualidade do serviço, uma questão que tem vindo nas letras gordas das manchetes dos jornais em língua chinesa e que é motivo da preocupação de vários quadrantes da sociedade.
Raquel Bragança dá aulas de inglês e alemão num centro de línguas. Grande parte das suas turmas de cursos pós-laborais são compostas por pessoal que trabalha nos casinos ou noutros ramos da actividade turística. “Curiosamente, essas pessoas não trabalham directamente com o público. E mesmo que assim fosse, é sabido que a grande maioria dos clientes das salas de jogo são chineses. Então, procuram a ajuda das aulas de conversação para comunicarem melhor com os seus superiores, porque esses sim são expatriados”, frisou.
Muitos dos altos cargos dos grandes hotéis e resorts ou mesmo dos espaços de jogo são ocupados por funcionários que são “importados” de países em que a língua materna não é o mandarim. No topo da lista estão os australianos, americanos, mas também é comum haver europeus à frente das empresas.
Por outro lado, quando questionada sobre o nível de inglês da população de Macau, Raquel Bragança é peremptória. “Não creio que, em Portugal, consigamos entrar numa loja e supermercado e encontrar pessoas que comunicam na língua inglesa”, notou. Nas palavras da licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, o panorama no território é “bastante positivo”. “Vejo pessoas da idade dos meus pais a falar um inglês perfeito, sem nunca terem estudado a nível universitário, por exemplo”, acrescentou.
Há vários factores que contribuíram para uma maior generalização da língua inglesa no território e que ultrapassam a proximidade com Hong Kong e as exigências trazidas pela liberalização do jogo, segundo Raquel. “Algo comum ao povo chinês é um fascínio pela aprendizagem”, frisou.
“Eles adoram aprender. Muitos a quem eu estou a dar alemão têm aulas nesse mesmo centro para aperfeiçoamento de francês e português. São pessoas muito vocacionadas para a aprendizagem”, defendeu.
Outro aspecto da vida profissional de Raquel Bragança que dá conta de um dos aspectos que caracterizam Macau. A professora tem sido bastante requisitada, tanto para leccionar inglês, alemão ou mesmo português. O facto de ser estrangeira é uma mais-valia.
“Há muita procura pelo professor estrangeiro, porque obriga os alunos a comunicarem na língua que estão a aprender”, contou. “Posso dizer que, desde o final de Agosto, já recusei quatro propostas para ensino das línguas portuguesa e inglesa em cursos pós-laborais ou mesmo para aulas particulares”, revelou.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn




quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Os dias da Rádio


Fórum na Ou Mun Tin Toi, o canal chinês de rádio

Quem fala assim é de Macau

Há oito anos que Chan Kam Fei, uma dona de casa chinesa que mora na Taipa, sintoniza o canal chinês da Rádio Macau, em 100.7 FM, todos os dias de manhã.
Por volta das sete e meia liga o aparelho que tem na sala e por lá fica, “sintonizada” até às dez e meia, altura em que sai à rua para as voltas do costume, com uma paragem obrigatória no mercado municipal da ilha para a compra. Tem de preparar o almoço da família.
O que a faz ouvir a rádio não é a música nem a informação. É o programa Fórum Macau, “Ou Mun Kong Cheong”, onde nos últimos meses o tom crítico em relação ao Governo subiu. O programa, que foi para o ar a 1 de Janeiro de 1999, é hoje um dos raros barómetros da sociedade chinesa e macaense de Macau.
De tudo se fala. As chamadas dos ouvintes são emitidas em directo e pequena é a “rede” de segurança dos seus quatro apresentadores sentados no estúdio da Avenida Dr. Rodrigo Rodrigues, rodeados de jornais chineses. “Por vezes há mesmo palavrões no ar!”, afirmou a senhora Fei do alto dos seus 45 anos, mãe de dois filhos. “Oiço todos os dias porque me interessa saber o que as pessoas dizem”, acrescenta.

“Houve um membro do Governo que ligou uma vez para corrigir uma informação que tinha sido dita no programa. Um outro ouvinte ligou para dar os bons dias”.
Chan Si Ka, assistente de produção

A senhora Kam Fei acredita em tudo o que é dito no estúdio porque “o Fórum Macau é um programa em directo, como poderiam eles enganar as pessoas?”.
O programa começa às oito em ponto, com as notícias da manhã. O momento mais nobre do canal.
Iu Veng Ion e Cheang Kok Keong, as duas “estrelas” fundadoras do programa, são conhecidos em toda a cidade, pelo menos por onde se fala e entende cantonês: “Como é que não os conhecemos?”, afirma Glória, uma jovem chinesa que trabalha numa associação local. “Estão todos os dias na rádio, falam com toda a gente”.
No estúdio existem ainda duas vozes femininas, que vão rodando. Uma delas diz as horas e o estado do tempo, a outra é produtora da redacção do canal chinês da Rádio Macau.
O programa levanta questões, analisa a imprensa diária e coloca nas “ondas hertzianas” os temas quentes do dia. Normalmente os ataques são feitos ao trânsito “caótico”, à falta de lugares para o estacionamento ou ao “estado da saúde” em Macau.
Recentemente, os casinos dominaram o tempo de antena e ainda mais recentemente o caso de corrupção que levou à detenção do antigo secretário para as Obras Públicas, Ao Man Long. “A vida está cara, os preços aumentaram, se não for na rádio, onde podemos falar dessas coisas?”, questiona Fei, que não lê muito os jornais e diz não ter tempo para a televisão. “Na rádio fico a saber tudo”. Não há dúvida de que é fã do programa.
Os dois apresentadores-estrela que para o público só têm “voz” consideram-se “opinion makers” em Macau: “Sim, diz Iu Veng Io, muitas vezes sentimos que temos uma forma de ver a sociedade e transmitimos essa visão. É um passo em frente, se calhar por isso marcamos a agenda”.
Uma agenda que encontra eco na imprensa em língua chinesa que se publica em Macau e, por vezes, até na portuguesa: “A população de Macau está habituada a que o programa dê em primeira mão muitos dos assuntos importantes que as pessoas desconhecem. Esses temas são depois debatidos por todos”, concluiu Iu, que é presidente da Associação de Cultura Juvenil de Macau.
Chiang Kuok Keung é académico, presidente da Associação para Protecção do Património Histórico e Cultural de Macau e presidente da Associação Promotora de Media de Macau, reforça a explicação com exemplos: “A história da demolição da Casa Azul fomos nós que demos em primeira mão. Nós lançámos o tema”. Iu aguarda impaciente a sua vez: “Nós também lançamos a discussão em torno da pneumonia atípica em Macau!”.
E a reacção dos ouvintes? “Existe mais abertura para o diálogo agora”, afirmou Iu. Em que sentido? “A população pensa que, havendo um governo local, pode haver mais diálogo, pode falar, sente que é ouvida”. Cheang completa o pensamento: “Para além disso, agora, e devido ao desenvolvimento económico e às diferenças sociais, há mais temas e problemas para debatermos”.
E as autoridades locais, como reagem a eventuais críticas no vosso programa? Cheang pondera as palavras: “Muitos departamentos aceitam, agora, responder às nossas questões. Já o fizeram. Até podem não dizer nada, como já aconteceu, mas respondem.” Iu aproveita para lançar um repto: “Queríamos muito falar com os quadros mais altos, mas até agora não passámos de directores de serviço”.
O estúdio está dividido em duas partes: a sala onde estão os apresentadores do programa e a sala onde está o técnico de som e Chan Si Ka a “menina” que recebe e filtra os telefonemas.
Uma enorme janela divide as divisões. Os telefonemas são anunciados através de folhas A4 que Ka cola ao vidro. Aos apresentadores basta ler o papel para saber o nome do interveniente e o tema. “Por dia recebemos uns 20 telefonemas, por vezes de ouvintes muito zangados. Há também aqueles que não têm nada para dizer, apenas querem companhia, e quando estão no ar falam muito. A esses temos de cortar a linha...”, afirma Ka, com um sorriso enorme.
Há um ano que trabalha com a equipa do Fórum Macau. Pode não ser o trabalho mais interessante do mundo, mas “é muito divertido”, confessa.
Quando rebentou o escândalo Ao Man Long o programa recebeu mais de 100 telefonemas. “Um recorde”, garante. Alguns momentos curiosos que Ka recorda: “Houve um membro do Governo que ligou uma vez para corrigir uma informação que tinha sido dita no programa. Um outro ouvinte ligou para dar os bons dias”.
No dia em que o Tai Chung Pou em Portguês foi ao estúdio onde decorre o Fórum Macau não teve a “sorte” de assistir a um dia “quente” de programa. Os ouvintes ligavam para se queixar da falta de táxis em Macau. Um chegou mesmo a denunciar um taxista que se recusou levá-lo por ser um percurso curto. O ouvinte afirmou que até chamou a polícia, mas o agente terá dito que não pertencia ao departamento responsável pela questão. “O que fez?”, perguntaram do estúdio. “Acabei por me rir de tudo isto, é assim que se desenvolve a cidade...”
Joyce Pina
Fotografia: António Falcão/bloomland.cn


Hélder Fernando, produtor e realizador da Rádio Macau

Pelo interior da pele

Anda há mais de quarenta anos à procura da resposta, mas os dicionários são sempre limitados quando se procuram palavras para definir muitas coisas. É isso que a rádio é, “são muitas coisas”, é “a paixão da vida” dele. E as paixões são sempre difíceis de descrever, de justificar, de perceber. “A rádio é aquilo que me dá a vida, às vezes dá muita dor”.
Hélder Fernando dispensa apresentações. Alguns nunca lhe viram o rosto mas adivinham quem é só pela voz. É uma daquelas vozes radiofónicas, profundas, bem colocadas, pertencente a uma espécie quase em vias de extinção. Todos os dias, ao longo de anos, num estúdio ali na Avenida Dr. Rodrigo Rodrigues, fecha a porta que deixa o barulho da rua do lado de fora. Carrega num botão, o sinal “no ar” aparece, o microfone está ligado e assim faz o exercício nunca solitário de dar alma à rádio.
A rádio dá muita dor mas não tem culpa, “é a maneira como as coisas são geridas dentro das rádios”. “Mas vale a pena, porque é um estado de espírito”, garante. A rádio é a liberdade também, “é nós conseguirmos passar a mensagem sem estarmos preocupados com o penteado ou com a gravata que está mal colocada”, lança. Um despojamento que se ensina aos que se convidam para a antena. “Os escritores, os poetas, os músicos, os cientistas, aqueles que nós trazemos para o estúdio, para eles próprios também passarem as mensagens, também se vêem despojados dessa necessidade que a televisão tem, por exemplo, de parecerem melhor”.
E tudo isto leva Hélder Fernando a concluir que “a palavra é a coisa mais importante que o ser humano tem”. A rádio é essencialmente palavra, “o exercício da palavra ouvida e da palavra dita”. “É a maior de todas as paixões”, sorri.
A rádio, que “é uma mulher, indiscutivelmente” apareceu na vida de Hélder Fernando quando tinha 17 anos, no teatro radiofónico em Moçambique, no Rádio Clube, com Sara Pinto Coelho. Seguiu-se a Rádio Universidade e produtoras privadas na então Lourenço Marques. Após o 25 de Abril de 1974, o jovem jornalista torna-se elemento efectivo do Rádio Clube de Moçambique, “porque até lá a juventude não podia entrar para os quadros, que eram dominados pelo sistema”.
Foi em Moçambique, nesses primeiros tempos de vida radiofónica, que ganhou a componente multifacetada ao microfone. “A gente fazia tudo, reportagem, notícias, programas, entrevistas, programas ao vivo”. Eram tempos de emissões activas, de uma “rádio muito directa”, com poucos programas gravados. O Rádio Clube de Moçambique tinha então “três canais em língua portuguesa, nove canais em dialectos locais e um em língua inglesa”.
Da terra de onde considera ser natural - porque embora nascido em Lisboa deixou a capital com apenas um mês de idade -, Hélder Fernando recorda ainda o teatro radiofónico e depois a independência, “todas aquelas reportagens antes e depois dessa transformação de Moçambique a que assisti”. Pouco tempo depois, em 1975, foi para Portugal. Foram oito anos de jornalismo na Antena 1, na Rádio Difusão Portuguesa, até Macau aparecer no mapa de vida, em 1983.


“Isto é um bocadinho meu, aqui vou amando, aqui vou chorando muitas vezes e aqui tenho grandes alegrias [...] é uma terra que é a minha terra, por dentro da pele e não à flor da pele”.

Macau não começou de maneira óbvia, começou em onda curta. Três meses depois de cá ter chegado, para “profissionalizar o jornalismo” que se fazia nestas bandas do império, foi exonerado das suas funções. “A administração saiu, saí eu e muitos camaradas que tinham vindo na altura comigo, como o caso do Adelino Gomes, que é um paradigma”, conta. Ao contrário dos restantes jornalistas que vieram para o território, Hélder Fernando decidiu ficar, a trabalhar na imprensa, no então semanário Tribuna de Macau.
Seguiram-se três anos sem rádio, sem olhar para o relógio e contar os segundos que faltam para a hora certa. Foram os piores de todos. “Quando estive de 1983 a 1986 sem fazer rádio, sei aquilo que sofri. Não foi só por esse motivo, mas foram os piores anos de toda a minha vida”, deixa escorregar. “Coincidindo ou não, foram os anos em que não fiz rádio”.
O regresso à paixão da vida dele fez-se através de um convite de António Duarte, que “deixou de ser assessor de Carlos Melancia para ser director da Rádio e pediu-me para dar formação a uma série de pessoas que foram trabalhar para a televisão, que tinha começado em 1984.” O convite foi alargado para fazer um programa ao fim de tarde, das 6 às 8.
O tempo da rádio corre mais depressa do que o da rua e, um ano depois, em 1987, Hélder Fernando volta para a Teledifusão de Macau, desta feita como funcionário. Deixou para trás o Gabinete de Comunicação Social (GCS), onde era chefe do departamento de Publicações, a sua “passagem pelos corredores de algum poder”. Dessa etapa ficou a Revista Macau, que criou e dirigiu nos primeiros números, “quando era toda feita no GCS, incluindo a parte gráfica, e impressa na Imprensa Oficial”.
O homem que diz não conseguir imaginar-se a deixar de fazer rádio não esconde o que está atrás do microfone. O que é que se sente quando faltam dois segundos para entrar no ar? A resposta desdobra-se em duas. “Sinto uma grande alegria por ligar o microfone e dizer ‘boa noite’, ‘boa tarde’ ou ‘bom dia’, é como se estivesse ao pé de um ente querido”.
Depois, confessa sentir também “um profundo medo de não agradar às pessoas, de dizer-lhes coisas que não querem ouvir, de passar músicas ou de entrevistar pessoas que elas não querem ouvir”. Uma sensação agravada pelo “desconhecimento de quais são as preferências do auditório em Macau, porque ninguém sabe quais são, não sei para quantos é que estou a falar, que idade é que têm, onde é que me ouvem, em que condições me ouvem, o que é que pretendem ouvir”. Tem “uma sensação de abismo diária, isso é uma realidade” para a qual contribui (também) a inexistência de estudos sobre o auditório em língua portuguesa. “É todos os dias uma prova de fogo que eu e os meus companheiros de trabalho temos que enfrentar. Mas isso faz parte do risco desta alegria imensa que temos em comunicar”.
Há quase 25 anos em Macau, Hélder Fernando tem uma relação especial com os ouvintes, aquela que só o tempo e a dimensão do espaço permitem cultivar. Em Moçambique o auditório perdia-se no tamanho do país, em Portugal a rádio era nacional, aqui é “uma rádio de proximidade”. “A minha relação com o auditório de língua portuguesa que escuta a Rádio Macau, não só os meus tempos de antena, é uma relação de grande carinho, de grande emoção”.
As novas tecnologias vieram ajudar à comunicação entre quem está dentro do estúdio e quem sintoniza a 98 FM. “Permite-nos receber manifestações de carinho por todas as formas. Isso eu nunca esqueço todos os dias, porque todos os dias tenho manifestações de grande carinho”, diz, com ternura na voz. “Não deixo de responder a nenhum e-mail e termino sempre -principalmente àqueles que me escrevem pela primeira vez, com uma grande generosidade -, pedindo que me digam também quando não concordam comigo”.
A relação com os ouvintes muda conforme as características do potencial auditório. Esta parte de Macau, hoje e agora, é mais comunicativa que noutros tempos, porque “há pessoas que chegaram recentemente e têm hábitos de comunicar com a rádio, que é uma coisa que os antigos foram perdendo”, depois de épocas distantes em que a relação era de grande intensidade. “Temos passatempos na rádio em que a participação tão simpática e tão generosa das pessoas – e não é por causa dos prémios, que são simbólicos – se prende exactamente por quererem comunicar”. O homem que ama a rádio diz que isto lhe enche de “felicidade e entusiasmo” e lhe dá “uma alma nova todos os dias”.
Embora a rádio seja o meio onde encaixa, aquele que a perspectiva de deixar traz dor, o jornalista que se diz “desactivado” nunca deixou de escrever em jornais. No Hoje Macau, tem há anos uma crónica semanal que dá pelo nome de “À Flor da pele”, um exercício de análise e de reflexão sobre vários universos, o de dentro e o de fora.
É a relação com Macau à flor da pele? “Não, é ao contrário do título do espaço, a minha relação com Macau é mesmo pelo interior da pele”. Hélder Fernando explica: “Sou moçambicano e não fui criado numa grande cidade, até aos 18 anos vivi numa pequena vila. Vim de quase 29 anos de Moçambique e tenho quase 25 de Macau”. Diz já sentir esta terra “como proprietário emocional deste espaço, isto é um bocadinho meu, aqui vou amando, aqui vou chorando muitas vezes e aqui tenho grandes alegrias”, que é como quem diz “é uma terra que é a minha terra, por dentro da pele e não à flor da pele”.
A conversa volta sempre à rádio que Hélder Fernando ama e que “é uma mulher”, o não significa que seja uma mulher bonita. “Já gostei muito de mulheres que não eram propriamente bonitas”, e surge a metáfora com o espaço, “eu gosto muito de Macau, que não é uma terra particularmente bonita, tem uma beleza que entendi que ela devia ter e é uma beleza de mulher”. Com um só fôlego, diz que “é uma terra cada vez menos elegante, não há uma cor de pele desta mulher que é Macau, como não há uma cor da pele da mulher rádio”. É “feminina, emociona-me muito quando falo de Macau, não sei se é bonita, o termo é redutor, mas é uma mulher fantástica”.
Faltam poucos minutos para o fim, não tarda nada desliga-se o microfone. À conversa vem o episódio de quando Hélder Fernando emprestou a voz, em 1999, a um sinal horário há muito anunciado. “É meia-noite em Macau”, anunciou sem surpresa mas com uma imensa solenidade, para outra voz, logo de seguida, anunciar a criação da Região Administrativa Especial. É um som que a Rádio lembra sempre, por altura de 20 de Dezembro. No outro de 99, não se imaginava que agora fosse assim, essa é a surpresa. Hélder Fernando olha agora para “os companheiros e companheiras de profissão”, metade deles pós-RAEM, e esse olhar “diz-lhe das coisas profissionalmente mais importantes na vida”.
“Assiste-se hoje a uma profissionalização, com as pessoas que chegaram nestes últimos anos. Vejo com muito carinho a vinda de jornalistas - de comunicadores, se quisermos - para os jornais, para a rádio e para a televisão. Oxalá que não só essas pessoas se mantenham como venham outras e que haja um ciclo permanente de novo sangue”, desafia. “É que faz falta a esta terra ter novos olhares sobre ela e não olhares cristalizados como aqueles que corremos o risco de ter, nós que estamos cá há 20 anos,” alerta o homem que veio profissionalizar a Rádio Macau e dar formação a então jovens potenciais jornalistas. “Tenho aprendido com os meus companheiros de trabalho a observar Macau de uma maneira muito mais rejuvenescedora e, se calhar, muito mais objectiva”. É assim, o homem da rádio, pelo interior da pele.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/bloomland.cn

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O agente "duplo"


James Chu, artista e director de arte

Como peixe dentro de água

Não é preciso recuar muito no tempo para nos lembrarmos de quando Macau era uma cidade a que muitas vezes se chamava “deserto cultural”. Quem assim falava recorria com frequência a Hong Kong como termo de comparação e apontava o facto do panorama artístico em Macau ser pouco desenvolvido. Na generalidade, a população mostrava alguma indiferença em relação a matérias artísticas. A forma como a cidade estava etiquetada era cruel para os artistas locais que tentavam inverter a situação.
Nos últimos dez anos, assistiu-se a um novo dinamismo na arte e na cultura do território, uma energia que despontou entre gente nova local, com vontade de acabar com a forma como a cidade era entendida a nível artístico. James Chu é um nome incontornável deste novo cenário construído em Macau e um exemplo dos esforços que têm vindo a ser feitos.
Quando pensa no modo como entrou no mundo da arte, James Chu Chok Son, director artístico do Museu de Arte de Macau, diz não ter sido uma opção. “Foi a arte que me escolheu, não fui eu que a escolhi”, vinca. Durante os tempos da escola secundária, teve o primeiro contacto com a serigrafia, um acontecimento que o levou, “com naturalidade”, ao circuito artístico e cultural do território. Concluídos os estudos secundários, James Chu queria aprofundar os conhecimentos, mas não havia qualquer escola de arte em Macau.
É então que, nesse ano do fim da secundária, o Instituto Politécnico de Macau cria o curso de Design e Comunicação Visual. O artista decidiu tentar. “Era algo muito comum nesse tempo, todos aqueles que queriam estudar arte matriculavam-se no curso de Design porque era o mais parecido que se conseguia encontrar”, refere. O curso acabou por se revelar muito útil, “estudar design fez com que tivesse aprendido muitas técnicas que me permitem desenvolver conceitos”.
A seguir ao bacharelato, não houve tempo para respirar: James Chu começou logo a trabalhar numa empresa de design que criou com alguns amigos. Corria o ano de 1998, rapidamente o calendário mudou para 1999. “Foi um período muito interessante para pessoas que tinham a minha idade na altura”, recorda. “Nos serviços da Função Pública, havia vagas nesta área e o mercado privado estava a começar a ganhar algum dinamismo”. Do ano da transferência de administração do território James lembra-se ainda dos portugueses que “não tinham vontade em partir e que queriam investir em Macau, de alguma forma para legitimarem a sua continuidade, e que queriam apostar em jovens como eu”.


“As formas de expressão artística que se encontram em Macau são ainda monótonas, bastante conservadoras. Estou certo de que as novas gerações terão uma outra dinâmica e serão capazes de refrescar este cenário”

De designer em início de profissão ao estatuto de designer “sénior” foi um ápice. Depois, veio a direcção artística. “O processo aconteceu em apenas um ano, havia muita oferta no mercado, que tornou possível este percurso que fiz. Aqueles que tinham vontade de trabalhar encontravam espaço para crescer”.
À experiência no sector privado seguiu-se a passagem para o público, com a entrada no departamento de infra-estruturas recreativas do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, onde começou como designer para, passados três anos, passar à condição de administrador do gabinete. “Foi um período de frustração”, confessa o artista. Durante este período, Chu não deixou de criar, os seus trabalhos foram expostos em Macau e noutros locais, como a Coreia do Sul.
A sensação de frustração não foi gerada pelo “papel duplo” enquanto artista e administrador, assegura. “Não tive qualquer problema em continuar a trabalhar como artista e gerir, em simultâneo, questões administrativas. Descobri até que era capaz de aplicar a minha criatividade em ambas as áreas, consegui encontrar uma energia criativa para aplicar a tarefas administrativas e tinha muita vontade de contribuir para o desenvolvimento da situação cultural de Macau”. A frustração tem, então, outra origem: “Desperdiçam-se muitos recursos no meio destes processos burocráticos próprio dos serviços públicos, aparecem conflitos pessoais entre pessoas com diferentes posições hierárquicas. Enfim, não consegui encontrar razões que justificassem a situação e senti-me impotente para alterar a situação”.
Pediu a demissão, pronto para começar um novo quotidiano, mas a entidade governamental fez-lhe uma contraproposta, transferindo-o para uma área menos presa a papéis e formalidades. O Museu de Arte de Macau estava a desenhar-se enquanto projecto de divulgação e promoção artística da cidade e James Chu não encontrou qualquer dificuldade em aplicar as suas ideias no trabalho da nova equipa de trabalho.
“Concentramo-nos muito na promoção da Arte e da Cultura junto do grande público. Organizamos exposições e convidamos artistas de todo o mundo para virem a Macau”, resume Chu, qual peixe dentro de água. “Mais importante ainda, entendemos a educação como forma de tornar as novas gerações mais sensíveis à importância da Arte”.
James Chu considera que “ainda há muito por fazer, dada a forma como a Cultura é entendida”. No entanto, “conseguimos já dar alguns passos até nos próprios conceitos de gestão cultural, como a introdução da figura do ‘curador’, a pessoa que é responsável pela concepção da exposição e por lançar o desafio aos artistas que a vão integrar”. Este conceito, incontornável a nível internacional, foi introduzido no Museu de Arte de Macau em 2005, por altura de uma colectiva que reuniu artistas contemporâneos da cidade. “As pessoas têm vindo, nos últimos anos, a reconhecer o trabalho feito na arte como uma força determinante para reforçar a componente cultural da cidade”.
Mais uma vez, Chu afirma que as suas funções artísticas e administrativas são compatíveis e não é difícil ter uma postura ética perante o duplo trabalho que desenvolve. “Não confundo as minhas tarefas, ou seja, se sou curador de uma exposição não vou expor trabalhos meus no evento que estou a organizar. Quando planeio uma exposição, sinto que estou, de algum modo, a preparar o caminho para outros artistas, o que resulta num alargamento da aceitação social da arte. Se um dia decidir ser artista a tempo inteiro, este trabalho feito ser-me-á benéfico, por certo”.
Para já, a criação artística como única forma de vida não está nos planos de James Chu, “é um sonho que quero realizar um dia”. Artistas em part-time são muito comuns em Macau, onde se contam pelos dedos as pessoas que fazem da arte, e exclusivamente dela, a sua vida profissional.
Instado a comentar o panorama artístico actual de Macau, Chu conclui que “a situação ainda não é satisfatória”, há que evoluir na qualidade do trabalho apresentado. “As formas de expressão artística que se encontram em Macau são ainda monótonas, bastante conservadoras. Estou certo de que as novas gerações terão uma outra dinâmica e serão capazes de refrescar este cenário”. O segredo está, explica, “na descoberta da originalidade, o factor principal da obra de arte”.
Alice Kok


James Chu tem uma exposição individual de fotografia até ao final deste mês na Rua Tomás Vieira 70A R/C, perto do Hospital Kiang Vu, que pode ser vista entre as 21h30 e as 2 da manhã, todos os dias, excepto à segunda-feira.




segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Macau, cidade de encontros

Raul Saldaña e Heidi Che, criadores de projectos para crianças

Multiculturalismo na prática

Quer se acredite ou não na globalização como forma gestão do mundo, é impossível não admitir que se tornou parte da nossa realidade. O espaço onde vivemos, Macau, é exemplo disso mesmo: a pequena aldeia de pescadores transformou-se num destino turístico com uma fama cada vez mais internacional. Se os edifícios que nos rodeiam são o corpo da cidade, a alma é feita das pessoas que cá vivem. Com o corpo a desenvolver-se, a alma é também alterada.
O crescimento da economia de Macau tem sido acompanhado por uma maior diversidade cultural no tecido humano da região. Cada vez mais talentos a nível internacional encaram Macau como a plataforma de ligação à Ásia. Os intercâmbios culturais que o território proporciona têm frequentemente resultado em experiências férteis e cheias de significado.
Raul Saldaña nasceu no México. Há seis anos, altura em que aterrou em Macau pela primeira vez, estava a dar a volta ao mundo, uma viagem que começou na América e teve uma passagem pela Europa, antes de chegar à Ásia. Educado numa aldeia mexicana, em Guadalajara, desde cedo pensou em rumar ao estrangeiro, descobrir “as terras desconhecidas”.
Fortemente influenciado pelo pai, “adepto do método ‘é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe’”, Raul Saldaña aprendeu a lição da independência bem cedo. Aos 16 anos, começou uma carreira musical enquanto compositor que já então lhe garantia a independência. Aos 17, depois de um ano a viajar pela América, decidiu vender tudo o que tinha no México e deixar o país natal. Seguiram-se alguns anos a viajar pelo mundo, até completar 25.
“Queria conhecer o mundo e andava à procura de um instrumento musical que tocasse o meu coração”, conta, “Não tinha nenhuma ideia concreta do que era, mas sentia que tinha que viajar, procurar, e que acabaria por encontrar o que desejava”.
Depois de uma passagem pela Europa, a entrada na Ásia deu-se pela Índia. A experiência teve como consequência ficar a conhecer instrumentos musicais próprios do país e uma grande diversidade de culturas.
O primeiro contacto com uma realidade chamada Macau deu-se por acaso e foi no Nepal, onde conheceu um casal de cá, uma bailarina e um músico chineses, que o desafiaram a participar em dois eventos, um no Centro Cultural e outro na “Old Ladies’ House”. Na altura, pensou que Macau seria um ponto de passagem interessante antes de se aventurar no Japão. O que não esperava era descobrir em Macau o que procurava sem saber.


Raul estava ao piano e lembra-se do olhar atento de Heidi, “muito presente”. A história de amor começou aí. Heidi Che decidiu começar uma nova vida e viajar ao lado do músico.

A descoberta chama-se Heidi Che. Filha de uma macaense e de um chinês, Heidi cresceu em Macau e considera-se “uma rapariga da cidade”, habituada a diferentes culturas e idiomas desde a infância. Aos 16 anos, depois de concluir o ensino secundário em língua inglesa, foi para o Japão estudar Relações Internacionais e Cultura. Há seis anos, quando conheceu Raul, estava em Macau de férias, decidida a regressar à universidade nipónica para concluir a licenciatura e fazer um mestrado. O encontro com o compositor mexicano mudou-lhe “completamente a vida”.
O encontro aconteceu na “Old Ladies’ House”, no espaço ao ar livre do albergue da Santa Casa da Misericórdia. Raul estava ao piano e lembra-se do olhar atento de Heidi, “muito presente”. A história de amor começou aí. Heidi Che decidiu começar uma nova vida e viajar ao lado do músico.
O músico multifacetado e a jovem de Macau da área de Relações Internacionais e Cultura pensaram então numa forma de combinar talentos e encontrar pontos em comum. Uma viagem ao Japão e o regresso de Raul Saldaña ao México, acompanhado por Heidi Che, fê-los pensar na abordagem às diferentes tradições espirituais dos contextos em que foram educados. No país natal do músico tomam a decisão do regresso à Ásia para o estabelecimento de uma vida autónoma e de um projecto ligado às crianças. Na Tailândia, frequentaram aulas para adquirirem os instrumentos necessários à realização da ideia. Depois, na China, em Yunnan, encontraram o local ideal para construírem a casa dos seus sonhos, feita por eles e que é uma espécie de “laboratório”.
Em 2003, durante o Fringe, apresentaram em várias escolas de Macau o primeiro projecto elaborado a quatro mãos. “À procura das nossas raízes” era um programa interactivo destinado a crianças, “para que pudessem aprender e perceber melhor as diferenças culturais do mundo onde vivemos, através da música, da canção e dos ritmos”, contam.
Após o sucesso deste primeiro projecto, foram os responsáveis por ateliês do género, sempre com a música como pano de fundo, não só em Macau mas também em Espanha, no México, na China, no Japão, em Hong Kong e na Tailândia. No final mês passado, apresentaram o primeiro espectáculo com crianças no Centro Cultural de Macau, intitulado “The Kumara Singers”, que além de ter sido um sucesso entre os pequenos artistas foi muito bem recebido pelos pais que decidiram inscrever as crianças no “workshop” de Verão.
Quanto à experiência do trabalho com os mais pequenos, dizem que “tem que se olhar para as crianças como o futuro do mundo, para que seja possível atribuir um significado àquilo que fazemos”. “Temos que olhar para as crianças respeitando-as e analisando o potencial que têm. Vão ser futuros artistas ou arquitectos, por exemplo, empresários bem sucedidos ou até mesmo líderes políticos. Aquilo que lhes transmitimos hoje - as nossas visões - tem sempre repercussões no futuro, pelo que adquire muita importância a forma como as crianças são educadas,” esclarecem. “Mas, claro está, o contacto com os mais velhos também tem que ser divertido”.
E é assim que o encontro entre os adultos Raul e Heidi deu origem a projectos educativos virados para as gerações mais novas, com a esperança de que “as sementes lançadas por professores e educadores possam continuar a dar fruto neste solo fértil que são as crianças, de modo a que se construa um mundo melhor”.

Alice Kok