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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Os dias da Rádio


Fórum na Ou Mun Tin Toi, o canal chinês de rádio

Quem fala assim é de Macau

Há oito anos que Chan Kam Fei, uma dona de casa chinesa que mora na Taipa, sintoniza o canal chinês da Rádio Macau, em 100.7 FM, todos os dias de manhã.
Por volta das sete e meia liga o aparelho que tem na sala e por lá fica, “sintonizada” até às dez e meia, altura em que sai à rua para as voltas do costume, com uma paragem obrigatória no mercado municipal da ilha para a compra. Tem de preparar o almoço da família.
O que a faz ouvir a rádio não é a música nem a informação. É o programa Fórum Macau, “Ou Mun Kong Cheong”, onde nos últimos meses o tom crítico em relação ao Governo subiu. O programa, que foi para o ar a 1 de Janeiro de 1999, é hoje um dos raros barómetros da sociedade chinesa e macaense de Macau.
De tudo se fala. As chamadas dos ouvintes são emitidas em directo e pequena é a “rede” de segurança dos seus quatro apresentadores sentados no estúdio da Avenida Dr. Rodrigo Rodrigues, rodeados de jornais chineses. “Por vezes há mesmo palavrões no ar!”, afirmou a senhora Fei do alto dos seus 45 anos, mãe de dois filhos. “Oiço todos os dias porque me interessa saber o que as pessoas dizem”, acrescenta.

“Houve um membro do Governo que ligou uma vez para corrigir uma informação que tinha sido dita no programa. Um outro ouvinte ligou para dar os bons dias”.
Chan Si Ka, assistente de produção

A senhora Kam Fei acredita em tudo o que é dito no estúdio porque “o Fórum Macau é um programa em directo, como poderiam eles enganar as pessoas?”.
O programa começa às oito em ponto, com as notícias da manhã. O momento mais nobre do canal.
Iu Veng Ion e Cheang Kok Keong, as duas “estrelas” fundadoras do programa, são conhecidos em toda a cidade, pelo menos por onde se fala e entende cantonês: “Como é que não os conhecemos?”, afirma Glória, uma jovem chinesa que trabalha numa associação local. “Estão todos os dias na rádio, falam com toda a gente”.
No estúdio existem ainda duas vozes femininas, que vão rodando. Uma delas diz as horas e o estado do tempo, a outra é produtora da redacção do canal chinês da Rádio Macau.
O programa levanta questões, analisa a imprensa diária e coloca nas “ondas hertzianas” os temas quentes do dia. Normalmente os ataques são feitos ao trânsito “caótico”, à falta de lugares para o estacionamento ou ao “estado da saúde” em Macau.
Recentemente, os casinos dominaram o tempo de antena e ainda mais recentemente o caso de corrupção que levou à detenção do antigo secretário para as Obras Públicas, Ao Man Long. “A vida está cara, os preços aumentaram, se não for na rádio, onde podemos falar dessas coisas?”, questiona Fei, que não lê muito os jornais e diz não ter tempo para a televisão. “Na rádio fico a saber tudo”. Não há dúvida de que é fã do programa.
Os dois apresentadores-estrela que para o público só têm “voz” consideram-se “opinion makers” em Macau: “Sim, diz Iu Veng Io, muitas vezes sentimos que temos uma forma de ver a sociedade e transmitimos essa visão. É um passo em frente, se calhar por isso marcamos a agenda”.
Uma agenda que encontra eco na imprensa em língua chinesa que se publica em Macau e, por vezes, até na portuguesa: “A população de Macau está habituada a que o programa dê em primeira mão muitos dos assuntos importantes que as pessoas desconhecem. Esses temas são depois debatidos por todos”, concluiu Iu, que é presidente da Associação de Cultura Juvenil de Macau.
Chiang Kuok Keung é académico, presidente da Associação para Protecção do Património Histórico e Cultural de Macau e presidente da Associação Promotora de Media de Macau, reforça a explicação com exemplos: “A história da demolição da Casa Azul fomos nós que demos em primeira mão. Nós lançámos o tema”. Iu aguarda impaciente a sua vez: “Nós também lançamos a discussão em torno da pneumonia atípica em Macau!”.
E a reacção dos ouvintes? “Existe mais abertura para o diálogo agora”, afirmou Iu. Em que sentido? “A população pensa que, havendo um governo local, pode haver mais diálogo, pode falar, sente que é ouvida”. Cheang completa o pensamento: “Para além disso, agora, e devido ao desenvolvimento económico e às diferenças sociais, há mais temas e problemas para debatermos”.
E as autoridades locais, como reagem a eventuais críticas no vosso programa? Cheang pondera as palavras: “Muitos departamentos aceitam, agora, responder às nossas questões. Já o fizeram. Até podem não dizer nada, como já aconteceu, mas respondem.” Iu aproveita para lançar um repto: “Queríamos muito falar com os quadros mais altos, mas até agora não passámos de directores de serviço”.
O estúdio está dividido em duas partes: a sala onde estão os apresentadores do programa e a sala onde está o técnico de som e Chan Si Ka a “menina” que recebe e filtra os telefonemas.
Uma enorme janela divide as divisões. Os telefonemas são anunciados através de folhas A4 que Ka cola ao vidro. Aos apresentadores basta ler o papel para saber o nome do interveniente e o tema. “Por dia recebemos uns 20 telefonemas, por vezes de ouvintes muito zangados. Há também aqueles que não têm nada para dizer, apenas querem companhia, e quando estão no ar falam muito. A esses temos de cortar a linha...”, afirma Ka, com um sorriso enorme.
Há um ano que trabalha com a equipa do Fórum Macau. Pode não ser o trabalho mais interessante do mundo, mas “é muito divertido”, confessa.
Quando rebentou o escândalo Ao Man Long o programa recebeu mais de 100 telefonemas. “Um recorde”, garante. Alguns momentos curiosos que Ka recorda: “Houve um membro do Governo que ligou uma vez para corrigir uma informação que tinha sido dita no programa. Um outro ouvinte ligou para dar os bons dias”.
No dia em que o Tai Chung Pou em Portguês foi ao estúdio onde decorre o Fórum Macau não teve a “sorte” de assistir a um dia “quente” de programa. Os ouvintes ligavam para se queixar da falta de táxis em Macau. Um chegou mesmo a denunciar um taxista que se recusou levá-lo por ser um percurso curto. O ouvinte afirmou que até chamou a polícia, mas o agente terá dito que não pertencia ao departamento responsável pela questão. “O que fez?”, perguntaram do estúdio. “Acabei por me rir de tudo isto, é assim que se desenvolve a cidade...”
Joyce Pina
Fotografia: António Falcão/bloomland.cn


Hélder Fernando, produtor e realizador da Rádio Macau

Pelo interior da pele

Anda há mais de quarenta anos à procura da resposta, mas os dicionários são sempre limitados quando se procuram palavras para definir muitas coisas. É isso que a rádio é, “são muitas coisas”, é “a paixão da vida” dele. E as paixões são sempre difíceis de descrever, de justificar, de perceber. “A rádio é aquilo que me dá a vida, às vezes dá muita dor”.
Hélder Fernando dispensa apresentações. Alguns nunca lhe viram o rosto mas adivinham quem é só pela voz. É uma daquelas vozes radiofónicas, profundas, bem colocadas, pertencente a uma espécie quase em vias de extinção. Todos os dias, ao longo de anos, num estúdio ali na Avenida Dr. Rodrigo Rodrigues, fecha a porta que deixa o barulho da rua do lado de fora. Carrega num botão, o sinal “no ar” aparece, o microfone está ligado e assim faz o exercício nunca solitário de dar alma à rádio.
A rádio dá muita dor mas não tem culpa, “é a maneira como as coisas são geridas dentro das rádios”. “Mas vale a pena, porque é um estado de espírito”, garante. A rádio é a liberdade também, “é nós conseguirmos passar a mensagem sem estarmos preocupados com o penteado ou com a gravata que está mal colocada”, lança. Um despojamento que se ensina aos que se convidam para a antena. “Os escritores, os poetas, os músicos, os cientistas, aqueles que nós trazemos para o estúdio, para eles próprios também passarem as mensagens, também se vêem despojados dessa necessidade que a televisão tem, por exemplo, de parecerem melhor”.
E tudo isto leva Hélder Fernando a concluir que “a palavra é a coisa mais importante que o ser humano tem”. A rádio é essencialmente palavra, “o exercício da palavra ouvida e da palavra dita”. “É a maior de todas as paixões”, sorri.
A rádio, que “é uma mulher, indiscutivelmente” apareceu na vida de Hélder Fernando quando tinha 17 anos, no teatro radiofónico em Moçambique, no Rádio Clube, com Sara Pinto Coelho. Seguiu-se a Rádio Universidade e produtoras privadas na então Lourenço Marques. Após o 25 de Abril de 1974, o jovem jornalista torna-se elemento efectivo do Rádio Clube de Moçambique, “porque até lá a juventude não podia entrar para os quadros, que eram dominados pelo sistema”.
Foi em Moçambique, nesses primeiros tempos de vida radiofónica, que ganhou a componente multifacetada ao microfone. “A gente fazia tudo, reportagem, notícias, programas, entrevistas, programas ao vivo”. Eram tempos de emissões activas, de uma “rádio muito directa”, com poucos programas gravados. O Rádio Clube de Moçambique tinha então “três canais em língua portuguesa, nove canais em dialectos locais e um em língua inglesa”.
Da terra de onde considera ser natural - porque embora nascido em Lisboa deixou a capital com apenas um mês de idade -, Hélder Fernando recorda ainda o teatro radiofónico e depois a independência, “todas aquelas reportagens antes e depois dessa transformação de Moçambique a que assisti”. Pouco tempo depois, em 1975, foi para Portugal. Foram oito anos de jornalismo na Antena 1, na Rádio Difusão Portuguesa, até Macau aparecer no mapa de vida, em 1983.


“Isto é um bocadinho meu, aqui vou amando, aqui vou chorando muitas vezes e aqui tenho grandes alegrias [...] é uma terra que é a minha terra, por dentro da pele e não à flor da pele”.

Macau não começou de maneira óbvia, começou em onda curta. Três meses depois de cá ter chegado, para “profissionalizar o jornalismo” que se fazia nestas bandas do império, foi exonerado das suas funções. “A administração saiu, saí eu e muitos camaradas que tinham vindo na altura comigo, como o caso do Adelino Gomes, que é um paradigma”, conta. Ao contrário dos restantes jornalistas que vieram para o território, Hélder Fernando decidiu ficar, a trabalhar na imprensa, no então semanário Tribuna de Macau.
Seguiram-se três anos sem rádio, sem olhar para o relógio e contar os segundos que faltam para a hora certa. Foram os piores de todos. “Quando estive de 1983 a 1986 sem fazer rádio, sei aquilo que sofri. Não foi só por esse motivo, mas foram os piores anos de toda a minha vida”, deixa escorregar. “Coincidindo ou não, foram os anos em que não fiz rádio”.
O regresso à paixão da vida dele fez-se através de um convite de António Duarte, que “deixou de ser assessor de Carlos Melancia para ser director da Rádio e pediu-me para dar formação a uma série de pessoas que foram trabalhar para a televisão, que tinha começado em 1984.” O convite foi alargado para fazer um programa ao fim de tarde, das 6 às 8.
O tempo da rádio corre mais depressa do que o da rua e, um ano depois, em 1987, Hélder Fernando volta para a Teledifusão de Macau, desta feita como funcionário. Deixou para trás o Gabinete de Comunicação Social (GCS), onde era chefe do departamento de Publicações, a sua “passagem pelos corredores de algum poder”. Dessa etapa ficou a Revista Macau, que criou e dirigiu nos primeiros números, “quando era toda feita no GCS, incluindo a parte gráfica, e impressa na Imprensa Oficial”.
O homem que diz não conseguir imaginar-se a deixar de fazer rádio não esconde o que está atrás do microfone. O que é que se sente quando faltam dois segundos para entrar no ar? A resposta desdobra-se em duas. “Sinto uma grande alegria por ligar o microfone e dizer ‘boa noite’, ‘boa tarde’ ou ‘bom dia’, é como se estivesse ao pé de um ente querido”.
Depois, confessa sentir também “um profundo medo de não agradar às pessoas, de dizer-lhes coisas que não querem ouvir, de passar músicas ou de entrevistar pessoas que elas não querem ouvir”. Uma sensação agravada pelo “desconhecimento de quais são as preferências do auditório em Macau, porque ninguém sabe quais são, não sei para quantos é que estou a falar, que idade é que têm, onde é que me ouvem, em que condições me ouvem, o que é que pretendem ouvir”. Tem “uma sensação de abismo diária, isso é uma realidade” para a qual contribui (também) a inexistência de estudos sobre o auditório em língua portuguesa. “É todos os dias uma prova de fogo que eu e os meus companheiros de trabalho temos que enfrentar. Mas isso faz parte do risco desta alegria imensa que temos em comunicar”.
Há quase 25 anos em Macau, Hélder Fernando tem uma relação especial com os ouvintes, aquela que só o tempo e a dimensão do espaço permitem cultivar. Em Moçambique o auditório perdia-se no tamanho do país, em Portugal a rádio era nacional, aqui é “uma rádio de proximidade”. “A minha relação com o auditório de língua portuguesa que escuta a Rádio Macau, não só os meus tempos de antena, é uma relação de grande carinho, de grande emoção”.
As novas tecnologias vieram ajudar à comunicação entre quem está dentro do estúdio e quem sintoniza a 98 FM. “Permite-nos receber manifestações de carinho por todas as formas. Isso eu nunca esqueço todos os dias, porque todos os dias tenho manifestações de grande carinho”, diz, com ternura na voz. “Não deixo de responder a nenhum e-mail e termino sempre -principalmente àqueles que me escrevem pela primeira vez, com uma grande generosidade -, pedindo que me digam também quando não concordam comigo”.
A relação com os ouvintes muda conforme as características do potencial auditório. Esta parte de Macau, hoje e agora, é mais comunicativa que noutros tempos, porque “há pessoas que chegaram recentemente e têm hábitos de comunicar com a rádio, que é uma coisa que os antigos foram perdendo”, depois de épocas distantes em que a relação era de grande intensidade. “Temos passatempos na rádio em que a participação tão simpática e tão generosa das pessoas – e não é por causa dos prémios, que são simbólicos – se prende exactamente por quererem comunicar”. O homem que ama a rádio diz que isto lhe enche de “felicidade e entusiasmo” e lhe dá “uma alma nova todos os dias”.
Embora a rádio seja o meio onde encaixa, aquele que a perspectiva de deixar traz dor, o jornalista que se diz “desactivado” nunca deixou de escrever em jornais. No Hoje Macau, tem há anos uma crónica semanal que dá pelo nome de “À Flor da pele”, um exercício de análise e de reflexão sobre vários universos, o de dentro e o de fora.
É a relação com Macau à flor da pele? “Não, é ao contrário do título do espaço, a minha relação com Macau é mesmo pelo interior da pele”. Hélder Fernando explica: “Sou moçambicano e não fui criado numa grande cidade, até aos 18 anos vivi numa pequena vila. Vim de quase 29 anos de Moçambique e tenho quase 25 de Macau”. Diz já sentir esta terra “como proprietário emocional deste espaço, isto é um bocadinho meu, aqui vou amando, aqui vou chorando muitas vezes e aqui tenho grandes alegrias”, que é como quem diz “é uma terra que é a minha terra, por dentro da pele e não à flor da pele”.
A conversa volta sempre à rádio que Hélder Fernando ama e que “é uma mulher”, o não significa que seja uma mulher bonita. “Já gostei muito de mulheres que não eram propriamente bonitas”, e surge a metáfora com o espaço, “eu gosto muito de Macau, que não é uma terra particularmente bonita, tem uma beleza que entendi que ela devia ter e é uma beleza de mulher”. Com um só fôlego, diz que “é uma terra cada vez menos elegante, não há uma cor de pele desta mulher que é Macau, como não há uma cor da pele da mulher rádio”. É “feminina, emociona-me muito quando falo de Macau, não sei se é bonita, o termo é redutor, mas é uma mulher fantástica”.
Faltam poucos minutos para o fim, não tarda nada desliga-se o microfone. À conversa vem o episódio de quando Hélder Fernando emprestou a voz, em 1999, a um sinal horário há muito anunciado. “É meia-noite em Macau”, anunciou sem surpresa mas com uma imensa solenidade, para outra voz, logo de seguida, anunciar a criação da Região Administrativa Especial. É um som que a Rádio lembra sempre, por altura de 20 de Dezembro. No outro de 99, não se imaginava que agora fosse assim, essa é a surpresa. Hélder Fernando olha agora para “os companheiros e companheiras de profissão”, metade deles pós-RAEM, e esse olhar “diz-lhe das coisas profissionalmente mais importantes na vida”.
“Assiste-se hoje a uma profissionalização, com as pessoas que chegaram nestes últimos anos. Vejo com muito carinho a vinda de jornalistas - de comunicadores, se quisermos - para os jornais, para a rádio e para a televisão. Oxalá que não só essas pessoas se mantenham como venham outras e que haja um ciclo permanente de novo sangue”, desafia. “É que faz falta a esta terra ter novos olhares sobre ela e não olhares cristalizados como aqueles que corremos o risco de ter, nós que estamos cá há 20 anos,” alerta o homem que veio profissionalizar a Rádio Macau e dar formação a então jovens potenciais jornalistas. “Tenho aprendido com os meus companheiros de trabalho a observar Macau de uma maneira muito mais rejuvenescedora e, se calhar, muito mais objectiva”. É assim, o homem da rádio, pelo interior da pele.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/bloomland.cn

sábado, 15 de setembro de 2007

Vida de Maestro, Lusofonia, o Mandarim da Casa





“Quando eu era garoto, ia a concertos com o meu pai [...]. Ficava sempre encantado com aquilo que se passava no fosso da orquestra, era uma coisa mágica, os cantores no palco, os bailarinos, e ali uma pessoa a dirigir aquela gente toda. Pensava sempre que, um dia, eu queria estar ali”







Maestro Oswaldo Veiga Jardim

Uma sinfonia para Macau

Moscovo era o destino musicalmente mais lógico e a bolsa para a então União Soviética já estava ganha, mas Macau, uma cidade sobre a qual nada sabia, apareceu no caminho. Pensou duas vezes, pediu conselhos, decidiu pelo trabalho em vez do estudo que o esperava numa escola russa. Veio com um contrato de um ano, está cá há quase vinte. Seria uma história como tantas outras, mas maestros brasileiros unanimemente aplaudidos pela crítica da especialidade não se encontram todos os dias nas ruas de Macau.
Oswaldo Veiga Jardim, o maestro que o tempo fez ser mais daqui do que do Brasil, não perdeu a musicalidade com que fala, própria da língua portuguesa que vive do outro lado do Atlântico. Os gestos acompanham, sempre, o ritmo compassado mas vivo com que lembra tempos que parecem mais distantes do que são e fala de um presente muito intenso, o presente dele. Carioca do bairro da Lapa, do centro do Rio de Janeiro, pede um chá de limão e não um café.
A música surgiu por via da família, “tanto da parte do pai como da mãe”. “O meu avô materno era mestre de banda e educou todos os filhos na música. Ouviu-se sempre muita música lá em casa”, conta. “Quando eu tinha 5 ou 6 anos de idade, a minha mãe decidiu que eu teria um professor de música e comecei a estudar piano e teoria musical”. Descobriu-se rapidamente que tinha talento, “avancei rápido”, sempre ao piano, e estava tudo encaminhado para ser concertista, tinha sido já distinguido com vários prémios no Brasil. Mas a vontade do adolescente Veiga Jardim fez com que tivesse concorrido à licenciatura em Regência, “é assim que se diz no Brasil”, para a qual entrou sem ter a idade necessária e que, por isso, frequentou com uma autorização especial do Ministério da Educação.
“Quando eu era garoto, ia a concertos com o meu pai, à opera, bailado, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Ficava sempre encantado com aquilo que se passava no fosso da orquestra, era uma coisa mágica, os cantores no palco, os bailarinos, e ali uma pessoa a dirigir aquela gente toda. Pensava sempre que, um dia, eu queria estar ali”. Terminou o curso em direcção de orquestra com apenas 21 anos, com a distinção magna cum laude. A imprensa brasileira de então realçava o facto de ser “o mais jovem regente brasileiro de que se tem notícia”.
Quando a hipótese Macau apareceu a Veiga Jardim, o maestro estava a viver em Madrid, depois de ter ganho o prémio Dell’Arte, uma iniciativa da professora de piano e agente Myrian Dauelsberg, destinada a financiar o estudo no estrangeiro de jovens talentosos. A passagem rápida pela Europa valeu-lhe algumas distinções importantes e o contacto com o mundo musical do Velho Continente, mas mais uma vez o nome de Myrian Dauelsberg, que tinha sido sua professora, apareceu como sinónimo de mudança. “O marido era violoncelista e tinha sido convidado para actuar no primeiro Festival Internacional de Música de Macau. Como ela era empresária, perguntaram-lhe se conhecia algum jovem maestro que estivesse em início de carreira e que quisesse vir para cá trabalhar e reorganizar a orquestra. Ela pensou logo em mim”, explica Veiga Jardim. “Falei com aquele que iria ser meu professor na União Soviética, que me aconselhou a vir, porque eu ia ter a oportunidade de ser maestro, na prática. Estou aqui até hoje”, sorri.
No final da década de 1980, o jovem maestro com uma experiência única para a idade e um currículo invejável, tanto sentado ao piano como à frente de orquestras, aterra em Macau cheio de projectos e com uma energia que, passados 18 anos, continua bem presente e se sente no staccato das palavras. “Com a pouca experiência que tinha mas que era alguma comparada com a que das pessoas que aqui trabalhavam, fiz logo um diagnóstico que penso que era acertado, apesar da medicação dada pelo Governo não ter sido a mais adequada”. Veiga Jardim veio dirigir uma orquestra que era, na altura, uma formação de câmara, pouco flexível em termos de repertório. “Quando a gente chega numa cidade que é culturalmente heterogénea como é o caso de Macau, não pode pensar em oferecer coisas que sejam de difícil assimilação. O repertório de uma orquestra de câmara é normalmente pouco apelativo para a audiência que encontrei na altura em Macau, porque poucas eram as pessoas que tinham um passado com ligações fortes à música erudita”.
Para o maestro, a solução implicava reformular o formato da orquestra, transformando-a em sinfónica, capaz de captar um público mais abrangente, pela flexibilidade de repertório que permite. O projecto de Veiga Jardim passava pela sensibilização de públicos, pela criação de hábitos, pela definição de temporadas devidamente anunciadas. A ideia foi inicialmente bem acolhida por quem detinha o poder, numa altura em que Carlos Melancia era o governador de Macau e concordava, segundo destaca o maestro, com a necessidade de haver uma orquestra e não apenas um grupo de músicos. “Apesar das dificuldades que encontrei, renovei o contrato pela primeira vez por ter sentido que havia esse apoio”, diz.
A ideia do jovem maestro que queria profissionalizar a música em Macau acabou por ter que ser readaptada, com as alterações políticas e consequentes alterações de prioridades no âmbito da cultura. O projecto oficial da reformulação da orquestra não chegou a concretizar-se, mas conseguiu-se uma verba, que serviu para criar a Macau Sinfonietta. “Decidimos fazer uma selecção, chamar músicos de Hong Kong que tinham disponibilidade para vir a Macau e que se juntavam aos músicos locais que tínhamos escolhido. Fizeram-se grandes amizades”. E também grandes concertos, a avaliar pela crítica que se publicou nos jornais, incluindo os de Hong Kong. “A Macau Sinfonietta, uma formação muito credível, na sua estreia sob a condução do maestro brasileiro Veiga Jardim, foi admirável,” escreveu o Standard em 1989.
Com a Macau Sinfonietta o maestro dirigiu concertos em que participaram nomes sonantes como Sequeira Costa e o Coro da Fundação Gulbenkian de Lisboa, dois nomes portugueses entre outros de relevo. Entre 1989 e 1995, o maestro conduziu cerca de cem concertos, com a formação local e outras da Ásia. Quanto ao projecto sinfónico de Macau, e depois de dois anos com participações muito aplaudidas no Festival Internacional, “as coisas começaram a ficar difíceis, as prioridades em relação à cultura passaram a ser outras”. Com a mudança da direcção do Festival a orquestra perdeu espaço, as apostas foram outras, “a aparição da orquestra local já não tinha o impacto que teve”. Pouco tempo depois a Sinfonietta desapareceu, mas não o encanto que criou. Estava lançada a semente que, anos mais tarde, serviu de inspiração ao aparecimento de uma outra orquestra.
Entretanto, na partitura do maestro entraram outros instrumentos de trabalho na música. Em conjunto com Maria da Graça Marques, fez um exaustivo trabalho de divulgação da música de Macau, “um resgate da memória musical”, publicado na Revista Macau. O interesse pela pesquisa e pela abordagem científica levou-o a uma tarefa estóica, ainda em concretização: uma tese de doutoramento sobre a vida musical de Macau desde a chegada dos portugueses à região até 1999.
Ainda nos anos noventa, Veiga Jardim fez o trabalho de composição da banda sonora do filme “A Trança Feiticeira”, a adaptação ao cinema da obra de Henrique de Senna Fernandes. Na área do ensino, concebeu o programa do curso de Música do Instituto Politécnico de Macau, onde lecciona desde 1997. Na mesma altura, Hoi Kin Wa, antigo violinista da Macau Sinfonietta, cria a Associação da Orquestra Sinfónica Jovem de Macau. “É um projecto que me é muito querido, sou director musical honorário desde o princípio. Concordei em trabalhar logo com ele porque senti que foi uma das pessoas que mais sofreu com a extinção da orquestra, ele próprio disse-me que nunca tinha experimentado uma emoção tão grande como quando tocamos Brahms, Tchaikowsky, Schumann”.
A oportunidade que se criou no início dos anos noventa ao permitir que jovens músicos tocassem grandes obras voltou a acontecer, desta feita num outro local da cidade, para músicos de outra geração. É uma escola de música especial, onde se ensina a tocar em orquestra sinfónica. “Muitos dos músicos de Hong Kong da Macau Sinfonietta estão a colaborar na Orquestra Jovem, são professores que vêm cá por causa do passado que se construiu”, conta. Quanto aos alunos, só na orquestra principal são 75 - há uma formação B para os mais pequenos -, conduzidos por Veiga Jardim em Macau e nas tournés que vão fazendo, e que este ano incluiu a Austrália e Singapura. “É uma espécie de continuação do trabalho que tínhamos começado no Instituto”. A orquestra jovem tem vindo a crescer e, no panorama da aprendizagem de Macau, desenvolve um papel único. Muitos destes jovens instrumentistas carimbaram entretanto o passaporte para voos musicais mais altos.
Veiga Jardim não acredita que, no que à música diz respeito, se possa estar à espera que as condições sejam criadas para depois se trabalhar. “Nós é que temos que as criar. A música é fundamental na vida do Homem, faz parte da nossa cultura”. Num regresso de memória ao Brasil, o maestro cita o músico Geraldo Vandré ao defender “que quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, para voltar à China e elogiar a forma como “se apoiam agora estes projectos, que a administração representante de uma cultura ocidental acarinhou mas sempre com reservas”.
No ano passado, o maestro brasileiro que confessa já ser mais de Macau que do Rio, recebeu do Executivo da RAEM a medalha de mérito cultural. “Quando me telefonaram chorei de emoção. Olhei também para o passado, reconciliei-me com alguns dos fantasmas que tinha.” Moscovo não chegou a acontecer, a vida decide-se também nas cidades onde se acorda todos os dias. Macau é a casa, o sorriso é carioca.

Isabel Castro


Novo espaço na Internet sobre Lusofonia nasceu em Macau

Cidadania virtual assumida

Apareceu esta semana na Internet um novo espaço destinado a trocar ideias e conhecimentos nas mais diversas áreas do mundo lusófono. Chama-se Fórum da Lusofonia, tem como mote “Uma Língua, muitas Pátrias”, é destinado a todos aqueles que partilham a língua portuguesa e foi criado em Macau. Mora em http://forumlusofonia.com.
O autor da “acção” é o artista plástico António Conceição Júnior, que começa por esclarecer que podia ter sido um acto cívico de outra pessoa qualquer. A ideia surgiu na sequência de outros projectos que deixaram de existir, como “o Fórum do antigo Terravista que pertencia ao Eng. Roberto Carneiro e que tinha exactamente esse tema da Lusofonia”. Perdeu-lhe o rasto, fez uma primeira tentativa “com um Forum já pronto e gratuito, mas tinha demasiados anúncios e não era do meu agrado”. “Finalmente, e estas coisas têm muito a ver com conjunções casuais, resolvi pedir ajuda ao Tiago, filho de amigos nossos que viveram cá em Macau e que hoje é formado em informática, que teve a gentileza de configurar este Forum e a coisa pegou”, contextualiza.

“Hoje em dia o conceito de vizinhança não é geográfico, mas de afinidades e de respeito pelas diferenças”
António Conceição Júnior, artista plástico


Não há objectivos definidos à partida, embora o fórum obedeça a uma estrutura que ajuda o utilizador a encontrar o local virtual que mais lhe interessa, quer seja em termos de temáticas quer no que toca à própria localização geográfica. “Os objectivos são aqueles que os participantes quiserem traçar. Acho que o espaço virtual requer, por um lado, uma cidadania virtual assumida, enquanto que por outro deve dar livre curso aos impulsos dos utilizadores. Eventualmente, com o tempo e a maior divulgação, as pessoas irão encontrar a riqueza das diferenças”.
Conceição Júnior destaca ainda que “vivemos uma era virtual e penso que deve ser a sociedade civil, não importa onde ou quem, a tomar iniciativas”. “Hoje em dia o conceito de vizinhança não é geográfico, mas de afinidades e de respeito pelas diferenças. Daí que sendo o Português a minha língua materna, achei interessante proporcionar um espaço de conversa e de intercâmbio onde não só portugueses como luso-falantes, independentemente da sua localização geográfica, possam participar e interagir”.
Ao fim de pouco mais de “escassas 48 horas”, refere o autor da iniciativa, “já há membros de Portugal, do Brasil, dos Estados Unidos, de Macau, do Reino Unido”. “É gratificante, sobretudo porque são pessoas todas bonitas, com coisas bonitas e que se unem nem amplexo de diversidade. Quase todos os primeiros contactos originaram uma sucessiva divulgação do Forum e isso é gratificante”.
A propósito do conceito que preside ao forum virtual, o artista plástico defende a lusofonia enquanto sinónimo de diversidade. “Mal de nós se houvesse uma cultura homogénea. É na riqueza do desdobramento linguístico e cultural dos diferentes modos de se ser português ou luso-falante que a fecundidade dos cruzamentos culturais atinge a sua plenitude”, declara. “Sou absolutamente contrário ao etnocentrismo ou a predomínios, preconceitos e outras formas de tentativas de domínio”.
António Conceição Júnior, que afirma não se considerar “um purista nem um conservador”, analisa o conceito de lusofonia - relativamente recente quando comparado com outros movimentos sociológicos que tiveram na comunhão do idioma o ponto de partida - dizendo que “há que ter sempre em aberto um espaço para a expansão, em alternativa a posturas redutoras”. “Penso que lusofonia é apenas um termo que deveria ser suficientemente amplo para, sem constrangimentos, unir em vez de dividir, abarcar em vez de sufocar”, sustenta. E é para isso que o Forum serve.

Isabel Castro



Zheng Guanying, o pensador que influenciou Sun Yat Sen e Mao Zedong

O Mandarim da Casa

As cidades são feitas das pessoas que as habitam e os monumentos juntam, ao valor arquitectónico, as histórias que as paredes ouviram. No vasto e diversificado património de Macau – o reconhecido pela UNESCO, o localmente classificado e o outro, que sobrevive esquecido – a componente humana existe com grande força, muitas vezes anónima, outras identificada, quase sempre associada a venturas, desventuras e feitos heróicos.
A Casa do Mandarim, conjunto de pavilhões de habitação cujo valor mundial foi reconhecido em 2005, tem um elevado peso histórico pelo tipo de arquitectura que representa e pela localização, pois fica num dos berços da cidade, dizem os especialistas. Mas há mais neste edifício para além do tijolo azul e da disposição tradicional de paredes e pilares: existe uma história de vida, livros escritos que influenciaram a China da época e que revelavam a diferença que Macau sempre foi. É o Mandarim da Casa, o habitante do final do século sem o qual a importância do edifício não seria a mesma.
Em português, o local que está a ser alvo de recuperação e que deve ser aberto ao público daqui a meia dúzia de meses, refere-se apenas ao título do proprietário, residente em Macau durante a decadente Dinastia Qing do final do século XIX. Em cantonês, a designação do monumento é mais elucidativa: é a casa com o apelido da família, que em mandarim se diz Zheng.
O Mandarim da Casa, Zheng Guanying, nasceu em 1842 na província de Guangdong. Homem de negócios bem sucedido, ficou para a China moderna como um pensador reformista, capaz de influenciar dois dos homens que mudaram o século XX no país: Sun Yat Seng e Mao Zedong. Carlos Marreiros, arquitecto que tem acompanhado as obras na casa e conhecedor da história deste mandarim, considera que, quando se fala de Zheng Guanying, se está perante um “caso único”.
“Macau tem nomes sonantes a nível internacional entre portugueses e estrangeiros que por cá passaram”, lança. “Como Camões, seja ou não mito, George Chinnery ou até mesmo Camilo Pessanha. São figuras que não são só de Macau, são do universo mundial”. O cenário muda quando se fala de gente da terra. “Que eu saiba, chineses não há”, explica. “Só ele”.
Estamos a falar dos finais do século XIX. Zheng Guanying foi “um homem de negócios de grande sucesso, comercializava com a zona de Cantão, com Xangai e outros portos importantes”, lembra Marreiros. “Ele conheceu uma Macau oitocentista, uma Macau porto franco. Com a experiência de negócios que tinha e a sua formação começou a teorizar sobre economia”. E sobre tudo aquilo que se relacionava com uma sociedade moderna que não existia na China, mas que se começava a desenhar na vontade de alguns espíritos revolucionários de então.

“A base de um país é o seu povo. Não existe outra forma de governo se não aquela que se preocupa com o seu povo”
Zheng Guanying

Em 1893, em Macau, na casa com a esplanada virada para o Porto Interior e as embarcações oriundas de cidades distantes, Zheng concluiu a sua obra mais importante na área da economia, da política e da educação. Desapontado com Xangai e o clima de corrupção de um já enfraquecido feudalismo, o pensador escreve que a China deveria seguir o exemplo do Ocidente da época, nomeadamente ao nível administrativo. Acreditava que as fraquezas do país se deviam ao autoritarismo da política e encorajava a transparência na gestão.
A soberania Qing estava em decadência mas, em simultâneo, as forças estrangeiras eram tidas como uma ameaça ao país. As teorias de Zheng não eram só tidas como revolucionárias mas também ofensivas. Em “Advertências em Tempo de Prosperidade” - obra constituída por um total de 57 artigos, sobre matérias diversas, da educação à defesa nacional – o autor faz diversas análises e sugestões, dissecando os perigos da China que crescia ensombrada por uma política que considerava inadequada.
Carlos Marreiros acredita que Macau foi um campo de análise produtivo para o Mandarim, nomeadamente na vertente económica. “Escreveu um ensaio muito importante, em que teorizava sobre a economia a partir dos portos livres, os portos francos como Macau era, e a vantagem que a auto-enclausurada China teria se, a partir deste princípio de economia livre, movimentasse as suas economias por todo o mundo”. Por outras palavras, “poder-se-á dizer que ele foi pioneiro para a China da chamada economia liberal”.
A obra “Advertências em Tempo de Prosperidade” foi publicada na China e “foi livro de mesa de cabeceira primeiro de Sun Yat Sen, enquanto preparava a revolução republicana, e depois do próprio Mao Zedong”. Presume-se que em Macau tenha trocado ideias com o pai da República da China, que terá dado origem a uma relação de grande confiança. “A importância do Mandarim enquanto pensador de influência reforça o valor da casa onde habitou”, diz Carlos Marreiros, mais a mais tendo em conta “o enorme país que a China é”.
Os escritos de Zheng Guanying contemplam também a educação e a importância da literatura. A Biblioteca Central de Macau cita o habitante da zona do Lilau, grande defensor deste tipo de instituições. Mais uma vez, o modelo estava a Ocidente, pois dizia que “a formação de recursos humanos dos países ocidentais resulta do concurso de três elementos: os estabelecimentos de ensino, os jornais e as bibliotecas”. Num dos artigos, intitulado “Coleccionar Livros”, Zheng Guanying sustentou que “coleccionar livros para satisfazer as necessidades dos leitores é considerado uma contribuição meritória” e que “a China devia generalizar o estabelecimento de bibliotecas, à semelhança dos países ocidentais”.
Quando a Casa do Mandarim estiver reconstruída e aberta ao público, deverá ser criado um centro de pesquisa e um núcleo museológico sobre o habitante que deu o nome ao edifício. O Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura anunciou, há tempos, a intenção de tentar, junto de Xangai, recuperar obras que Zheng lá deixou. A Biblioteca Central de Macau dispõe já de alguns manuscritos do homem que dedicava particular atenção à condição humana e aos modelos do relacionamento entre o poder e a pessoas: “A base de um país é o seu povo. Não existe outra forma de governo se não aquela que se preocupa com o seu povo”.

Alice Kok e Isabel Castro




terça-feira, 11 de setembro de 2007

Senna Fernandes no Cenáculo, National Geographic em Macau

Segunda fase do cenáculo pode arrancar no próximo mês

Senna Fernandes recorda Gonzaga Gomes

A segunda fase do “Cenáculo Luís Gonzaga Gomes” pode arrancar já no próximo mês. Segundo o secretário do Instituto Internacional de Macau (IIM), Luís Sá Cunha, a primeira sessão do grupo que foi extinto há 15 anos será comandada pelo escritor Henrique Senna Fernandes. No capítulo das publicações, o mesmo responsável espera ver sair até Dezembro a primeira reedição assinada pelo sinólogo macaense.
“A primeira sessão de evocação é aberta a todas as pessoas que queiram participar e será realizada por Henrique Senna Fernandes”, avançou ao Tai Chung Pou Luís Sá Cunha. O advogado e também professor dispensa apresentações, visto ser o mais famoso escritor contemporâneo de Macau, em língua portuguesa.
O cenáculo será sedeado na Sala Luís Gonzaga Gomes que está situada nas instalações do IIM. No mesmo local, estão a ser reunidos livros, fotografias, objectos e documentos relacionados com o sinólogo macaense. A restauração do grupo está inserida no programa de comemorações do centenário do nascimento do escritor que vai contar com a cooperação de onze associações locais de matriz portuguesa.
Quando foi criado em 1991, numa iniciativa da Revista de Cultura, o objectivo do cenáculo era “estimular o diálogo e o intercâmbio cultural luso-chinês”, explicou Luís Sá Cunha. “A figura de Gonzaga Gomes surgiu-nos como um símbolo vivo de tudo isso, visto que passou a vida inteira a prestar um serviço inigualável a Macau”, frisou o mesmo responsável.
Nas palavras do secretário do IIM, o escritor e historiador foi, durante quatro séculos, o expoente máximo de ponte entre culturas. “Inho Gomes”, como também era carinhosamente tratado, publicou vários livros e lutou pelo ensino da língua chinesa nas escolas lusófonas. Tudo com o propósito de aproximar o universo chinês da comunidade portuguesa.
Muitas destas obras encontram-se esgotadas há quase duas décadas e serão reeditadas também no âmbito do programa comemorativo dos cem anos do nascimento de Gonzaga Gomes. De acordo com Luís Sá Cunha, a primeira obra pode estar nas bancas ainda antes do final deste ano. “Esperamos ter meia dúzia das principais publicações estejam prontas até Julho, mas em Dezembro estamos a pensar ter já um ou outro livro lançado”, acrescentou.

Alexandra Lages


Estação televisiva prepara série de documentários sobre a RAEM

Macau Geographic

São quatrocentas horas de filmagens, muitas imagens e sons recolhidos ao longo de quase sete meses de permanência em Macau. São entrevistas nas ruas, nos táxis, mas também nos escritórios dos homens que fazem negócios na RAEM, sobretudo os que estão na área do jogo. Depois de tratados, sons e imagens vão dar origem a quatro documentários, com a duração de uma hora cada, a serem transmitidos no canal televisivo National Geographic, em Janeiro ou Fevereiro, o mais tardar.
“Como temos muitas imagens, o trabalho de edição vai demorar cerca de três ou quatro meses”, explica Johny Burke, jornalista responsável pela “pequena equipa” que durante mais de meio ano recolheu e guardou Macau em formato digital. A chegada deu-se nos primeiros meses do ano, o toque de partida soou alguns dias depois da tão aguardada inauguração do Venetian Resort, o casino que o mundo quis pôr nos jornais e nos horários nobres da TV.
O fim da presença da equipa do National Geographic em Macau prende-se, naturalmente, com o cair do véu veneziano mas o jornalista promete que o trabalho não vai ser única e exclusivamente centrado nas roletas, “embora o tema seja dominante, como é na economia local”. “Vamos tentar focar o que aconteceu nos últimos anos mas em especial estes últimos meses, em que estivemos cá”, conta. “Queremos mostrar o contraste entre o antigo e o novo, entre o Oriente e Ocidente, o que acontece à cultura local quando há uma entrada massiva de uma cultura estrangeira, com a chegada dos americanos e dos casinos, e tudo adquire uma escala maior,” especifica o britânico.

“Conheci algumas pessoas que me ensinaram bastante sobre Macau, foi importante ver este mundo através dos olhos delas”

Johny Burke quis conhecer as cidades todas que Macau consegue ser, “das pessoas que fazem muito dinheiro aos que desempenham tarefas como distribuir bebidas nos casinos ou conduzir táxis”. O que significa que os documentários não vão ser “pintados” apenas com néons, mármores e pilares acabados de estrear. O jornalista diz ainda procurar, no trabalho que faz, distanciar as impressões pessoais, pois o que guarda das cidades “são as pessoas e as relações que têm com o espaço onde vivem”.
“Conheci algumas pessoas que me ensinaram bastante sobre Macau, foi importante ver este mundo através dos olhos delas”, reflecte. Como o taxista “sem educação, que gosta de beber, fumar e jogar, e que adora conversar com as pessoas”. Foi um achado nas ruas de Macau, à noite, que permitiu ao jornalista ouvir relatos de “coisas fantásticas” que acontecem depois do sol se pôr, que “é quando a cidade acorda, não obstante o frenesim do dia”. “Fazendo parte do estrato social mais baixo, permitiu-me perceber como é a vida desta parte da população”, vinca Burke, “e como anda nas ruas e tem contacto com milhares de pessoas todos os dias, sabe o que acontece na cidade”.
A cidade que o repórter descobriu a bordo de um táxi é “muito jogo”, do apostador que “perdeu tudo e quer pagar a bandeirada com os últimos dez yuans para chegar à fronteira e voltar para a China, aos que chegam a Macau e contam histórias sobre os milhões que vão jogar”. A outra cidade, que encontrou a um nível menos próximo do chão, assegura que vai guardar com o carinho que as grandes descobertas merecem. “Fui à Torre de Macau fazer algumas imagens da cidade e um dos rapazes locais, que trabalha no bungy jumping, contou-me que gostava, no fim do turno dele, às oito da noite, ficar deitado no topo da torre, amarrado, olhar para o céu e a cidade, porque só assim tem a distância necessária para poder pensar e depois voltar à terra”.
Sendo um britânico atento a Hong Kong, com um trabalho já feito na China e uma passagem de apenas um dia por Macau, em 1999, na condição de turista, confessa ter ficado “surpreendido com o facto de haver pouca população portuguesa, tive a sensação de que é uma espécie de sombra”, como se fosse “um filme em que ela existe, a História também, mas aparecem em segundo plano”.
Durante a estadia em Macau, Burke viajou até à China para um refúgio em Wu Dang Shan, “o berço do taoísmo e o local ideal para aprender tai chi”. Interessado em artes marciais, fez um curso de uma semana, partilhou casa com meia dúzia de jovens locais que não falavam inglês e com os quais comunicava “através da partilha das coisas simples da vida, como as refeições". Da vila chinesa trouxe mais umas dezenas de horas de imagens e o valor da experiência, “muito interessante”, porque “as pessoas vivem felizes, sem o nosso cepticismo”.
Com experiências de reportagem no Iraque e no Texas, mas também um pouco por todo a Europa, o jornalista de 32 anos que trabalha por conta própria e para empresas como a BBC e o Channel 4, diz querer voltar a Macau, “não para trabalhar, mas para passar apenas uns tempos.” É que, inaugurações de casinos à parte, “adorei acordar de manhã e ver pessoas a passear com os pássaros e as gaiolas, é que não se vê disso em Londres”.

Isabel Castro