domingo, 7 de outubro de 2007

O eterno pintor, Mercados às cores

Guilherme Ung Vai Meng, artista e director do MAM

O eterno pintor

Desenha em quase tudo o que lhe aparece à frente. Guilherme Ung Vai Meng precisa de ter sempre um lápis na mão, como se fosse o fio condutor do pensamento. Enérgico, de gargalhada convicta e convincente, o director do Museu de Arte de Macau (MAM) está longe de ser um administrativo convencional. “Olhem para aqui”, diz, enquanto folheia um “Moleskine” de tamanho A5.
“Esta é a minha agenda, eu prefiro o lápis, sempre o lápis.” A esferográfica não ajuda ao traço e o bloco de Ung Vai Meng está repleto de desenhos, entre caracteres bem definidos que codificam as tarefas do dia. O pintor já nem sabe o que significam as abstracções a grafite, desenha enquanto pensa. “Desenhar, trabalhar, administrar”, enuncia os verbos do quotidiano. “O lápis está sempre na minha mão. Só quando o chefe fala é que escrevo a esferográfica, as minhas propostas são sempre a lápis”, ri.
O princípio da escrita a grafite aplica-se a dossiês, onde os desenhos se misturam com separadores e textos saídos de computadores. Ung Vai Meng vive num mundo de desenho, de cores, de formas, num gabinete repleto de pinturas nas paredes, rolos de papel, livros e catálogos. Desde 1999 que é o responsável máximo pelo Museu de Arte de Macau, mas ficará para a história da arte local pelo trabalho enquanto pintor que se dedica também ao grafismo.
“A arte é importante não só pela produção de obras, mas como atitude de vida”, lança, com seriedade. “Cada pessoa tem uma qualidade única, uma característica forte”, diz. “O Guilherme tem uma característica, que pode ser usada de diferentes formas, na pintura, no desenho, no grafismo, no relacionamento com os colegas. Tudo se concentra na mesma característica”, afirma, num exercício de auto-descrição, como quem diz que é sempre o mesmo, independentemente do que estiver a fazer.
Nascido e criado em Macau, Guilherme Ung Vai Meng não foi um menino prodígio. Começou a estudar pintura, “a aguarela mas desde logo muito o desenho”, com o mestre Kam Cheong Leng. Quando nasceu, Macau era a cidade pacata com menos terra e mais água do que é hoje. O pintor vivia onde é hoje o Instituto Politécnico de Macau, numa casa com árvores e espaço para correr.
“Tenho cinco irmãos, eu estou no meio. O meu irmão mais velho começou a aprender a pintar mais cedo do que eu”, conta, “com o mesmo mestre que eu também tive”. Aos fins de semana, “o meu irmão ia para o atelier do mestre pintar a aguarela”. Guilherme ficava a brincar, “a apanhar pássaros e peixes”. Um dia, quis também experimentar a pintura e assim entrou para o mundo de Kam Cheong Leng. Foi esta a escola inicial, anos mais tarde passaria pelas Belas Artes do Porto e pela Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual, também em Portugal.
“As pessoas, artistas ou não, dependem de duas condições para poderem explorar as suas características”, defende. “Há algo que já nasce com elas, uma forma de sentir, um sentimento, mas outra parte importante é o ambiente familiar, os professores e os colegas, que influenciam muito”. Considerando-se um homem de “sorte”, o pintor constata que “há pessoas que têm um excelente ambiente, um bom mestre, mas falta o interior, enquanto outros sentem muito, mas falta aquilo que faz explodir”.
Ung Vai Meng utiliza o panchão como metáfora, no equivalente ocidental faz a comparação com o conceito de fogo de artifício, para descrever este processo que faz com que alguém se possa tornar artista. Não basta a pólvora no interior, é necessário que alguém o lance.
Na sua história de vida, que vai perto do meio século, as duas componentes estiveram presentes. O “sentimento” ou, se preferirmos, o talento, foi-lhe dado em herança, por via paterna. “O meu pai podia ter sido pintor, mas Macau era tão pobre”, exclama. “O meu avô tinha muito jeito para o artesanato. Durante o período da guerra, que não chegou a Macau mas trouxe muitas dificuldades, o meu avô fazia esculturas para viver”, conta.
O avô talhava figuras, animais, “galos como os de Portugal, mas não tinha jeito para pintar, pelo que chamava o meu pai”. Além de ter mão para a pintura, o progenitor de Ung Vai Meng tinha imaginação de artista. “O meu pai pintava cada lado do galo de cor diferente”, explica. “Para nós é muito artístico, mas o meu avô chamava-lhe malandro e perguntava-lhe como é que podia vender a peça com uma cor de cada lado”, conta, a rir.
Foi o pai que transmitiu o dom da criatividade e levou os filhos ao atelier de Kam Cheong Leng. “Tive muita sorte com o meu mestre”, refere. “Tive muita sorte também quando entrei para o Instituto Cultural”, na década de 80.
“Naquela altura eu não falava bem português, agora falo pior ainda”, ri-se, “comunicávamos com poucas palavras, mas havia um grande respeito entre colegas”. O primeiro trabalho que teve no Governo foi desenhar um conjunto de postais sobre o património de Macau. “Passei meses a desenhar na rua e depois entreguei os desenhos ao meu chefe”.


“Cada pessoa tem uma qualidade única, uma característica forte. O Guilherme tem uma característica, que pode ser usada de diferentes formas, na pintura, no desenho, no grafismo, no relacionamento com os colegas. Tudo se concentra na mesma característica”.
Na Macau culturalmente fraca da época havia uma excepção forte, criada por um movimento de artistas plásticos onde se incluíam os irmãos Marreiros, Carlos e Victor, Mio Pang-Fei, entre mais meia dúzia de nomes. Ung Vai Meng conheceu-os a todos e tornou-se um elemento essencial deste grupo. “Dentro do serviço havia um ambiente muito importante, foi muito bom, a vida começou a ter cor”. As dimensões reduzidas de Macau faziam-no ter vontade de conhecer outros mundos, “via catálogos, revistas, tinha muita vontade de aprender”.
O mundo abriu-se com a língua portuguesa, que continuou a aprender no Instituto Cultural. “O português foi, para mim, uma janela”, exclama no idioma em que se escreve este texto. “É como para os portugueses que não falam chinês. A partir do momento em que se pode comunicar, abre-se uma janela”. A dele deu-lhe a oportunidade de rumar até Portugal, aprofundar a técnica mas, principalmente, encontrar-se enquanto artista.
Numa descrição da sua própria obra, começa por dizer que “a carreira atravessa várias fases”. Começou pelo desenho, que continuou sempre muito presente enquanto estrutura para o abstraccionismo nas telas, a acrílico ou a óleo. As descobertas acerca dele próprio quando esteve a estudar em Portugal fizeram com que tivesse partido para a construção de um conceito de conjugação do Oriente com o Ocidente. Trocando isto por miúdos, e apontado para as paredes do seu escritório, Guilherme Ung Vai Meng diz que a ideia foi misturar a paisagem chinesa com a tridimensionalidade da técnica ocidental.
Esta fusão faz-se também ao nível dos elementos de composição. De pé, dirige o olhar para uma pintura clássica chinesa, “uma paisagem, só com árvores e água”, para rapidamente mostrar um exemplar de arte ocidental, as tais três dimensões em que, do ponto de vista clássico, a paisagem “é o cenário, o contexto”. “Na arte chinesa tradicional, as pinturas não têm pessoas, é tudo muito vazio e sossegado. Representam o isolamento que leva à reflexão, é o ambiente poético”, declama. “Então eu quis misturar tudo”. O resultado é o exercício de abstracção da sobriedade do traço chinês com a dimensão real da pintura ocidental.
Entregue à coordenação do Museu de Arte de Macau, sobra a Ung Vai Meng pouco tempo para pintar, mas tal não significa que passe um dia sem desenhar. Gosta do trabalho no MAM e elogia o ambiente que ali se respira. “Estou muito contente com os meus colegas, aqui não é preciso dizer ‘fai ti, fat ti...”. Porque “a cultura é muito importante para esta cidade”, o MAM sob a direcção do pintor não se limita à organização de exposições e artistas locais e do estrangeiro.
De novo, o conceito de tridimensionalidade, desta feita aplicada ao trabalho de administração. A primeira dimensão é a da promoção da arte local, não só com exposições mas também com cursos. “Queremos gerar o tal ambiente para que os jovens possam descobrir os seus talentos”, diz o director, que admite que faz falta uma escola de Belas-Artes em Macau mas que considera que já vão existindo condições para o desenvolvimento das qualidades artísticas. “Depois estes jovens terão que ir para fora estudar, mas aqui no Museu tentamos criar o ambiente, com toda a nossa força”, vinca.
A segunda dimensão do MAM está relacionada com a apresentação de arte vinda do estrangeiro, “de qualidade e de muitos pontos do mundo”. A terceira e última, mas não menos importante, consiste na divulgação de arte clássica e contemporânea da China. “O que se faz hoje em dia no país está a começar a ser muito apreciado a nível internacional, os preços estão, por exemplo, a subir muito. Se Macau desempenha uma função neste processo, fica na história da arte da China também, como agente de divulgação”.
As tarefas no MAM roubam-lhe o tempo para o acrílico e o óleo, pelo que decidiu apostar no “papel chinês”. Guilherme Ung Vai Meng levanta-se com agilidade e espalha pelo chão um rolo branco de grandes dimensões, em que o preto é a única cor dada pelo pincel. “Estou a experimentar utilizar menos elementos”, diz, contextualizado por um enorme quadro de cores fortes, pertencente a outra fase da sua vida artística. “Não é o minimalismo da arte ocidental, que é muito conceptual. O meu é visual, estou a concentrar-me na composição. Este traço aqui é diferente”, aponta. “Todos os elementos têm uma função própria. E, pronto, eu faço isto”, remata, com um sorriso.
Não deverá estar para breve qualquer exposição de Ung Vai Meng. Não que falte material, porque até mesmo quando viaja para fora de Macau não larga o lápis. “Se tenho uma reunião às 9 horas fujo do hotel às 7 e vou desenhar pelas cidades”, diz com uma gargalhada sentida. A questão é a incompatibilidade com as suas funções no Museu para expor dentro do próprio MAM, “não é conveniente”, e as iniciativas privadas na cidade não abundam.
Guilherme Ung Vai Meng não consegue sequer imaginar-se a deixar de desenhar e de pintar. “Não”, solta, prolongando a palavra, “não posso deixar de pintar”. É um prazer único, que nada substitui. “A arte é sempre mais importante”.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Passos em volta

Esta cidade é como as pessoas: quando se olha para o mapa, não se encontram duas ruas iguais. Cada bairro tem as suas histórias, vontades, artes, desejos, esperanças e desesperos. Os seus segredos sussurrados. São passos em volta à redescoberta da urbe.

Da Horta e Costa aos Três Candeeiros

Os mercados das cores

Não é um percurso perfeito do ponto de vista estético nem uma visita a monumentos que se fotografam para postais, mas sim uma viagem ao quotidiano de Macau, das pessoas que cá vivem. Para se sentir uma cidade, não há nada melhor do que espreitar os mercados, observar os hábitos de venda e de compra de quem está em permanência na urbe.
No ponto em que a Avenida de Horta e Costa toca na Almirante Lacerda, encontra-se o Mercado Vermelho, o mais singular de todos os espaços de venda da cidade. O mercado foi criado em 1936 para “venda pública de vegetais e outros produtos frescos”. O edifício, de dois andares, vai buscar o nome ao material em que foi construído, os tijolos vermelhos.
Desenhado de forma simétrica, tem uma torre com relógio ao centro e uma torre de vigia em cada uma das esquinas, sendo um exemplo de “art déco” pouco comum em Macau. Consta da relação do património cultural de Macau na qualidade de edifício de interesse arquitectónico.
Esta orgulhosa construção de cor vermelha é contemporânea das avenidas que a enquadram, ambas baptizadas com nomes de governadores de Macau. A Almirante Lacerda foi traçada em 1930 e deve o nome ao homem que, poucos anos antes, tinha governado Macau interinamente. Para a história, Hugo Carvalho de Lacerda Castelo Branco ficou como o homem que realizou em Macau a primeira Exposição Industrial e Feira, em 1926. Rezam os livros que esta MIF da altura terá contado com 12 mil pessoas.
Na perpendicular à Almirante Lacerda, está a outra avenida com nome de governador, uma das mais conhecidas da cidade, fama que encontra correspondência ao estatuto de Horta e Costa. Foi governador do território por duas vezes, sendo que o primeiro “reinado” decorreu entre 1884 e 1896.
À partida para Portugal, e embora gozasse de boa reputação em quase todos os sectores da sociedade de então, não deixou saudades ao bispo. “Lá se vae o Horta e Costa, esse homem nefasto para o Clero de Macau. É verdade que quasi sempre ‘tratou bem’ o clero de Seminário, mas ainda n’isso havia manhas infernais. Desgraçados homens”, escreveu o bispo D. António Joaquim de Medeiros, em troca de correspondência com Portugal, citado pelo P. Manuel Teixeira na obra Toponímia de Macau.
Para mal dos pecados dos desgraçados homens do clero local, o “nefasto” governador regressou em 1900, tendo por cá ficado mais quatro anos, antes de partir para a Índia. Da sua obra, destacam-se as preocupações com o saneamento (coisa que não existia até então em partes densamente povoadas da cidade), a instituição do Liceu de Macau e a criação da Escola Central do sexo feminino, numa altura em que as mulheres tinham um complicado acesso à educação.
Mais de um século depois, estas duas avenidas são das mais agitadas da cidade e com um valor arquitectónico relativo, excepção feita ao Mercado Vermelho. “A arquitectura do edifício contrasta com tudo o que se passa na zona, em que tudo é recente, muito incaracterístico. O edifício do mercado é um ponto de referência”, destaca Manuel Correia da Silva, anfitrião destes passos em volta.
O designer conta que “são as memórias mais coloridas dos primeiros anos de vida em Macau”. A diversidade dos produtos e o conjunto de cores constroem uma plasticidade que interessa a Correia da Silva. Do Mercado Vermelho surgiu “a força criativa que deu origem ao M.I.R.”, um candeeiro concebido a partir dos tradicionais suportes de iluminação que se encontram nesta zona da cidade.
No Mercado Vermelho encontra-se de tudo, das frutas às galinhas vivas. “Tem dois momentos altos do dia, as horas que precedem o almoço e o jantar”. Nas ruas à volta, em direcção à Rotunda Carlos da Maia, a confusão não é menor. O mercado faz-se na rua, de improviso, em torno dos Três Candeeiros. “É um mercado que mostra muito bem o quotidiano dos cidadãos de Macau”, sublinha Manuel Correia da Silva.
Para este ponto da cidade não se leva o mapa atrás, nem sequer aquele que se vai construindo mentalmente depois de anos de visitas assíduas. “O mercado dos Três Candeeiros é um labirinto, exige ir à descoberta”, recomenda o designer. “É um local para as pessoas se perderem com calma porque o valor de todo este espaço está nos pormenores, nas surpresas”.
Depois do passeio sem rumo, os passos vão dar à Rua Norte do Mercado Almirante Lacerda, ou seja, a uma das artérias mais estreitas à volta do Mercado Vermelho. A paragem faz-se na porta assinada com o número 3. “É o restaurante dos pássaros, um verdadeiro ponto cultural deste bairro”.
O restaurante, que serve comida chinesa e um chá muito apreciado por quem percebe do assunto, tem vários aspectos peculiares, desde logo pelos frequentadores que enchem o espaço logo pela manhã. “Os homens fazem-se acompanhar ao pequeno-almoço pelos seus pássaros nas gaiolas”, realça o designer. As paredes estão forradas a fotografias de Macau, “o proprietário sempre se interessou por esta arte”. “O restaurante está no meio do ruído, é um excelente local para fazer uma paragem”, recomenda.
“São as cores, a diversidade, a roupa, a fruta, as galinhas vivas e logo a seguir uma loja de bolinhos. É toda esta diversidade de produtos e a maneira de os apresentar que são um bom motivo para vir até este espaço”, diz ainda o designer. Numa urbe com cenários que dão para vários tipos de filmes, Manuel Correia da Silva aconselha aqui a mudança de suporte artístico para a máquina fotográfica, por ser este bairro um “óptimo local para captar imagens”. Depois, há que apelar aos sentidos. “Este bairro não é bonito, o que interessa é a energia que se sente”.

Manuel Correia da Silva*, percursos e imagens

Isabel Castro, texto
* É designer em Macau. Em 2004, foi o vencedor de um concurso do Instituto Cultural sobre os percursos históricos da cidade, no âmbito da conservação do património de Macau.


sábado, 6 de outubro de 2007

Bowling de Macau à procura do ouro

Equipa de bowling empenhada em alcançar o primeiro lugar

Ouro ao fundo da pista

Para trás ficaram memórias de tempos difíceis, sempre ultrapassados pelo amor à modalidade que se joga com as bolas pesadas em pistas brilhantes de tão polidas. A selecção de bowling da RAEM não quer ser apanhada desprevenida nos 2.os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto (JARC), que vão ter início dentro de três semanas. Pelo menos uma medalha tem que ficar no território, de preferência de ouro. É este o objectivo da Associação de Bowling de Macau (ABM).
Para o presidente da comissão executiva da ABM, Fong Wun Man, o bowling já venceu duas batalhas na região: integrar competições internacionais e ganhar um espaço próprio. Os olhos do dirigente desportivo ainda brilham ao contemplar o átrio de mármore do Centro de Bowling do Cotai.
“Há três anos, quando precisávamos de treinar, tínhamos que carregar as nossas próprias bolas e atravessar a fronteira todas as noites até ao centro de bowling de Zhuhai”, lembrou o mesmo responsável, em declarações ao Tai Chung Pou.
A história da modalidade na RAEM é indissociável das novas instalações. Quando foi construído para acolher os Jogos da Ásia Oriental, em 2005, o Centro de Bowling do Cotai representou um passo de gigante para o desenvolvimento da modalidade em Macau.
Antes de 2004, as equipas só eram formadas quando se aproximava um torneio internacional e o espaço existente, perto do Jardim de Camões, não reunia as condições necessárias exigidas pela Associação Internacional. Por outro lado, os preços de aluguer das instalações eram difíceis de comportar.
O evento desportivo de 2005 significou a rampa de lançamento de que a associação local estava a precisar. Foi formada uma equipa um ano antes do começo da competição e os apelos de Fong Wun Man junto da organização foram decisivos para se avançar com a construção do espaço.
Apesar da localização, visto não existirem ligações de autocarros, segundo o dirigente desportivo, o Centro de Bowling do Cotai tornou-se uma das infra-estruturas desportivas mais importantes da RAEM. “Durante os fins-de-semana e feriados, o espaço está sempre apinhado de gente e às vezes é preciso esperar três ou quatro horas por uma pista livre”, frisou.
O responsável da ABM está orgulhoso da sua visão. Fong Wun Man acreditava que o bowling iria tornar-se um desporto popular entre os residentes. Nesta modalidade, o atleta está a jogar contra si mesmo e isso permite treinar a paciência. E, só assim, é possível melhorar a prestação na pista. “A forma como jogamos baseia-se no nosso próprio estado mental. Na verdade, se nos sentirmos bem, nada nos pode influenciar”, sustentou.
Há influências que são, todavia, incontroláveis. Nos Jogos Asiáticos em Banguecoque de 1998, a claque tailandesa transportava consigo instrumentos de percussão para apoiar a sua selecção. Fong Wun Man ainda se lembra de como todo aquele barulho incomodava os jogadores de Macau, pelo que teve mesmo que se queixar à organização.
No entanto, o responsável compreende que é inevitável deixar de ter a cabeça fria quando se está com a bola entre as mãos, fixando o conjunto de pinos. Outra fonte de pressão pode ser apenas a presença dos adversários na pista mesmo ao lado.
“Se o atleta contra quem estamos a jogar é famoso na modalidade, o nível de ansiedade cresce. Mas se os jogadores locais se forem habituando a participar em competições internacionais, mais tarde ou mais cedo vão ficar familiarizados com este género de situações e deixar de competir sob stress”, notou.
Nas palavras do responsável, quando se está a jogar sob tensão é muito fácil perder o ritmo. E o ritmo de um jogador é absolutamente decisivo para se conseguir realizar um “strike”.


A selecção de Macau é composta por oito elementos, quatro homens e quatro mulheres, e já está a treinar a pensar nos JARC há um ano, com uma frequência de três vezes por semana. Com a aproximação do início do evento, desde o mês passado que o programa foi estendido para quatro sessões semanais.
Com o propósito de fomentar o “bichinho” da competição, a equipa local participou no Torneio Aberto de Bowling de Macau que terminou na semana passada. Jogadores e jogadoras vão ainda voltar a testar os lançamentos noutra iniciativa semelhante marcada para este mês.
Os planos da formação local estão centrados num dos lugares do pódio. Em particular, a medalha de ouro numa das categorias – individual ou de grupo. Pode parecer ambicioso, visto que a média de pontos da selecção local é de 210, mas Fong Wun Man espera conseguir alcançar os 220, garantindo assim o acesso às medalhas.
Na verdade, os resultados da formação que vai defender as cores da RAEM nos JARC têm vindo a melhorar. Nos anos 1990, a equipa em masculinos não tinha chegado aos 200 pontos.
O único problema é que a maioria dos jogadores adultos já não tem margem para progressão e as esperanças do dirigente desportivo estão depositadas na facção mais jovem da selecção. “Um jogador com 15 anos de idade já consegue alcançar os 210 pontos”, salientou.
Julia Lam, 31 anos de idade, é uma das atletas do sector da velha guarda da formação local. Já pratica bowling há muitos anos, mas só começou a levar a modalidade a sério em 2003.
A primeira participação no Campeonato Mundial foi um pesadelo. “Pensava que a minha técnica era fraca e estava assustadíssima, mas a partir do momento em que o treinador de Taiwan começou a trabalhar com a equipa o meu estilo de jogo mudou consideravelmente”, notou ao Tai Chung Pou.
Actualmente com uma experiência de três anos nas rodas competitivas, a professora ainda sente algum nervosismo quando sente a aproximação dos JARC. “Na verdade, como Macau é a entidade organizadora ainda me sinto mais pressionada. Vou tentar dar o meu melhor e controlar os nervos, porque quando se joga mais relaxada consegue-se atingir melhores resultados”.
Kahon Chan com Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Perdido no tempo

O bowling, tal como grande parte das modalidades desportivas, está associado a lendas milenares. No entanto, esta disciplina, o desporto preferido do Fred Flinstone, vence no que diz respeito aos pormenores macabros.
Uma das histórias diz que um arqueólogo inglês encontrou um túmulo de uma criança egípcia que tinha ao seu lado pinos e bolas. Pensa-se, então, que já no tempo dos faraós existia um tipo de bowling primitivo. Esta teoria veio revelar-se verdadeira em Maio deste ano. Após umas escavações realizadas numa província a 100 quilómetros do Cairo, capital do Egipto, uma equipa de arqueólogos descobriu uma espécie de sala de jogo bastante semelhante ao desporto que hoje conhecemos.
A câmara não tem tecto e o chão é coberto por blocos de granito. Neste local, cientistas italianos encontraram duas bolas de granito, que seriam utilizadas no jogo. Foi a primeira vez que se descobriu uma construção com tais características no Egipto. O achado data da dinastia grega dos Ptolomeus (332 a.C. – 30 d.C.), segundo a agência egípcia Mena.
Macabra é o adjectivo que melhor classifica outra lenda associada ao bowling. Conta-se que os guerreiros das tribos antigas se divertiam após as batalhas, usando os ossos das coxas dos inimigos como pinos. Os crânios serviam de bolas e eram lançados colocando o polegar e um segundo dedo nas cavidades dos olhos.
No século XII, surgiu em Inglaterra um jogo de bowling no relvado. O objectivo era colocar a bola o mais perto possível do alvo, porém, sem o derrubar. Esta actividade desportiva atingiu uma popularidade tal que o Rei Eduardo a baniu, porque temia que superasse o Arco e Flecha, um desporto que tinha uma maior importância militar.
A versão moderna da modalidade surgiu muito antes, por volta do século III ou IV, na Alemanha. Nesta época, tinha uma conotação religiosa e era jogada com nove pinos colocados em forma de losango. Martinho Lutero era um dos maiores entusiastas e diz-se que chegou a mandar construir uma pista particular em casa.
Foram encontradas várias referências do desporto em toda a Idade Média alemã. Em 1325, chegou-se até a promulgar leis que limitavam as apostas em partidas. Além disso, um importante festival em Frankfurt tinha no bowling a sua principal atracção.
A partir daí, a modalidade foi-se espalhando pela Europa. As primeiras regras foram desenvolvidas na Holanda, corria o ano de 1650. Convencionou-se a disposição dos nove pinos na pista em forma de diamante, e ainda hoje esta versão é disputada principalmente no Velho Continente.
A variante que é mais conhecida e difundida mundialmente, com os 10 pinos dispostos em forma triangular, foi criada nos Estados Unidos da América (EUA), a cavalo do século XIX. Actualmente, existem mais de 65 milhões de praticantes apenas nos EUA, onde os troféus das competições chegam a atingir os milhares de dólares americanos, tanto ao nível dos profissionais como dos amadores.
No mundo, existem cerca de 250 mil pistas, mais de 100 milhões de praticantes e 10 milhões de atletas de competição espalhados por mais de 90 países.
No âmbito olímpico, o bowling teve apenas uma única participação em 1988, em Seul, na Coreia do Sul, na condição de desporto de demonstração.





sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Portugueses na MIF, O jornalita às oito e meia, Sentimentos mistos de Hong Kong

Jorge Silva, jornalista da Teledifusão de Macau

Que horas são?

São oito e meia da noite, sem tirar nem pôr. Jorge Silva entra quase todos os dias em casa de muita gente, desconhece-se quanta ao certo. A comunidade de língua portuguesa é o público alvo, mas o apresentador da Teledifusão de Macau (TDM) não passa despercebido entre outras comunidades. Alguns espectadores têm o hábito de ver o telejornal religiosamente, sofá em frente à televisão, outros vão ouvindo o que se passa no meio das tarefas que o fim do dia traz. “As pessoas podem estar pontualmente distraídas, mas se cometemos um erro toda a gente nota”, diz Jorge Silva a sorrir.
Os “erros” fazem parte da dinâmica do meio, pode ser um “erro de linguagem, um lapso”, e isto “porque nos enganamos a ler as notícias, ou lemos muito depressa, estamos nervosos ou saltou uma palavra”. Também conta o aspecto, os espectadores são atentos à estética da questão. “Se a gravata ou o casaco estiverem tortos, as pessoas notam e comentam”, constata. “Já aconteceu amigos meus ou pessoas que encontro na rua dizerem-me ‘olha, ontem gostei disto e não gostei daquilo’”.
Jornalista, editor e apresentador, Jorge Silva trabalha na Teledifusão de Macau desde 1985, dois anos menos do que o tempo que conta de vida passada no território. Já teve oportunidade de voltar para Portugal, país que é seu mas de passagem, “o convite era excelente”, para voltar para a RTP, onde começou o seu percurso profissional. “Por várias razões acabei por optar por ficar em Macau e não estou nada arrependido”, afirma. “Depois destes anos todos, não me sinto nada cansado, gosto do que faço, gosto de apresentar, gosto de televisão”. É a adrenalina.
A TDM é à dimensão de Macau, não se pode comparar com as grandes estações internacionais, mas nem por isso o ambiente de trabalho e a forma como os segundos se atropelam, uns a correr atrás dos outros, são diferentes dos bastidores das televisões que vemos nos filmes. À medida que a hora do noticiário se aproxima, aumenta o vai e vem de gente a contar o tempo ao minuto. A adrenalina não desaparece nem depois de duas décadas de treino. O facto de o auditório não ser da dimensão de um país não alivia a carga emocional que a tarefa implica: é a velha máxima de valorização dos telespectadores, por poucos que possam ser.
“A responsabilidade é, de facto, grande, porque é em directo, sem rede, não podemos cometer erros”, sublinha o apresentador da TDM. Antes de entrar em estúdio, com o ar calmo e a voz pausada, os nervos batem à porta. “Sinto sempre a mesma emoção e o mesmo empenho”. Os hábitos vão-se repetindo ao longo dos anos e passam a ser marcas pessoais. No meio de um quotidiano que, ainda assim, consegue ser sempre diferente, não obstante a hora certa, criam-se também cumplicidades entre quem, todos os dias, tem por tarefa informar comunidades das várias línguas.
“Tenho o hábito de, quando vou para a caracterização, geralmente uns minutos antes das 8h30, fazer sempre a mesma pergunta: que horas são?”, conta Jorge Silva. “Eu tenho as minhas horas no relógio mas, como é no corredor a caminho da régie, quero que me digam pelo relógio que nos orienta. Estou a entrar na caracterização e eles estão a responder-me que faltam 4, 6, 7 minutos, por aí fora”. A pergunta do jornalista português deu origem a uma brincadeira de corredores. “Alguns câmaras que nós temos, que são chineses, como já estão habituados a isto, quando entram no corredor já são eles que me perguntam, em português, que horas são”, diz com um sorriso.
Se há momentos de descontracção nos momentos que antecedem o sinal horário e a entrada no ar, agitação também não falta, dependendo dos dias. “Há peças que ainda não estão prontas, sobretudo de actualidade local, que ficam concluídas sempre em cima da hora. Os jornalistas estão a ultimar as peças e eu, antes de ir para o tal corredor da régie, pergunto sempre nas cabines o que é que falta”, pormenoriza Jorge Silva. “Isso causa alguma agitação.”
O que o espectador vê em casa nem sempre corresponde à planificação feita ao longo do dia, o “alinhamento” que o apresentador leva com ele para o estúdio. É fruto também do improviso, da força das circunstâncias. “Às vezes a primeira peça não está pronta, ou a segunda ou a terceira, temos que saltar trabalhos e é preciso controlar tudo”. Quando Jorge Silva desaparece do ecrã para dar lugar a uma reportagem, ainda não tem a certeza, algumas vezes, de qual é a peça que se segue.
“Às vezes faltam 20 segundos e o realizador diz-me que está quase a chegar, mas ainda não está lá. E chega mesmo na hora, sou avisado que já chegou e então leio o ‘pivot’ que já estava alinhado. Se não chegar, então salto para outra peça”, descreve. É esta também a magia do meio, “é um exemplo da tal televisão em directo, com um noticiário com as dimensões que o nosso tem”. “Não é com ligações internacionais ou via satélite como em televisões com outras responsabilidades”, refere, salientando, no entanto, que há dias em que o telejornal acaba e “parece que estivemos todos sob uma grande pressão”. A “tarimba” faz com que se consigam superar esses momentos.


Jorge Silva é uma espécie de exemplo vivo da Lusofonia. Nasceu em Cabo Verde mas, ainda em criança, foi para Portugal viver. Não ficou por lá muitos anos: com a família voltou para África, desta feita para Angola, para o sul do país, uma cidade que na altura se chamava Moçâmedes mas que agora dá pelo nome de Namibe. Seguiu-se Luanda. O 25 de Abril de 1974 chegou e, “tal como muitos outros milhares de portugueses que lá estavam”, o regresso a Portugal, ao norte do país. A entrada para a faculdade significou a mudança para Lisboa, para a Universidade Nova, para estudar Comunicação Social, curso que, na altura, era novidade no país.
Na realidade, o homem que nos entra todos os dias em casa através de uma ecrã queria ser diplomata. Não que o “bichinho” da comunicação social não estivesse lá. “O meu pai sempre esteve ligado à rádio, chegou a ser presidente do Rádio Clube em Angola, em Moçâmedes”, recorda. Por várias razões, incluindo logísticas, Jorge Silva acabou por não frequentar o curso de Relações Internacionais, que na altura também era novidade e, para o bem das fãs de Macau que lhe enviam presentes, lá foi para jornalismo.
Licenciatura concluída, apareceu um estágio curricular de meio ano na RTP, uma experiência de que gostou muito e que lhe aumentou o fascínio pela televisão, que já tinha na condição de espectador. “Gosto de ver televisão, seja o for que estiver no ar...”, deixa cair.
Em 1983 houve uma hipótese de vir para Macau, para um estágio profissional, com mais três colegas. “Vim para o Gabinete de Comunicação Social, depois para um jornal diário, que era o Correio de Macau, seguiu-se o semanário Oriente, e depois fui convidado para a Rádio Macau, onde estive apenas uns meses”, resume o jornalista. Já na esfera da Teledifusão de Macau, saiu da Rádio para a televisão, onde entrou, pouco tempo depois desta ter sido criada.
“A televisão já tinha arrancado, eu tinha a experiência de apenas um estágio”, diz. “A experiência foi desde logo gratificante porque era uma televisão pequena, que estava a nascer num sítio pequeno como Macau, mas onde os desafios que se colocavam – e ainda colocam – eram, de facto, enormes”. O trabalho na TDM é diferente a vários níveis, incluindo pormenores técnicos.
“Nós aqui estávamos ‘adiantados’ em relação a Portugal porque tínhamos que montar as nossas peças, coisa que em Portugal não acontecia nem acontece, à excepção da SIC Notícias e, nas outras televisões, em casos pontuais”. O jornalista tem, por norma, um editor de imagens. “No nosso caso, aprendemos a fazer isso e outras coisas que em Portugal não se aprendiam, o que deu a todos uma grande experiência e o controlo total do nosso próprio produto. Acho que isso é muito bom para a nossa formação enquanto jornalistas televisivos e foi muito bom para mim, claro”.
Num balanço de mais de vinte anos, que “passaram a voar”, Jorge Silva diz não estar nada arrependido de ter vindo para Macau, por todas as oportunidades que a cidade lhe proporcionou. “Ainda muito jovens, passámos a editar e a coordenar redacções, mais cedo do que noutras televisões. Tudo isso, além das viagens em serviço, a vários continentes, tem sido uma experiência muito boa”, vinca.
E na rua, é reconhecido? Mais do que se está à espera, como sempre. Nos supermercados há quem acene com a cabeça, depois de olharem para ele e hesitarem no cumprimento, por não o conhecerem pessoalmente. Existem também episódios surpreendentes, como aquele em que estava em casa, dia de folga no trabalho, e a campainha tocou. “Eu, sem óculos, fui abrir a porta. Era um jovem dos Correios que me disse, meio em português meio em inglês, que tinha uma encomenda e devia assinar o talão”, conta Jorge Silva, de forma pausada. “Eu assinei, ele olha para mim e diz, em português: ‘Então, hoje estamos de folga?’”. Resposta? “Lá lhe disse que sim”, ri.
Nas Ruínas de São Paulo, foi interpelado por uma empregada de uma loja, de nacionalidade filipina, que tentou tirar uma fotografia com o apresentador, “porque costumava ver-me todos os dias na televisão e seria uma honra”. Jorge Silva respondeu-lhe que, para ele, “também seria uma honra, mas acabou por não se tirar a fotografia, porque a prima dela tinha saído uns minutos antes e tinha levado a máquina”. “Ficou aborrecida”, lamenta.
Mais recentemente, em Abril deste ano, um gesto de um grupo de telespectadoras alterou-lhe a estética da apresentação. “Recebi um telefonema de uma amiga que me disse ‘olha, achamos que estás muito bem na televisão mas nós temos uma coisa para te dizer”, narra. O jornalista quis saber, para começar, quem eram o “nós”. Do outro lado da linha, a resposta não foi muito elucidativa, apenas um “eu e as minhas amigas”. A interlocutora confessou-lhe que (elas) gostariam que usasse um lenço da lapela. “Eu, na realidade, não usava, e disse-lhe que não tinha, mas ela respondeu-me dizendo para não me preocupar. Passado uma semana, recebi em casa uma encomenda”, relata, “um pacote com lenços de seda para pôr na lapela, com um bilhete assinado por um ‘grupo de espectadoras’”.
E foi assim que Jorge Silva começou a usar lenço na lapela, todos os dias, nos dias de folga ninguém sabe, “para agradar às minhas telespectadoras”. Às oito e meia da noite.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.com



Hong Kong olha Macau com sentimentos mistos

O efeito Venetian

Os últimos dez meses em Macau têm sido espectaculares, pelo menos do ponto de vista dos que olham a Região do outro lado do Delta do Rio das Pérolas. Um alto funcionário do Governo foi detido e acusado de corrupção. Um polícia disparou para o céu num raro protesto laboral. A réplica de um mega resort de Las Vegas foi inaugurada sob um vistoso fogo de artifício, desejando as boas-vindas a mais de um milhão de visitantes.
Deixemos de lado o fogo de artifício e encaremos a realidade dos números.
O território, de apenas 24 quilómetros quadrados, conseguiu atrair 17,23 milhões de visitantes nos primeiros oito meses de 2007, apenas um milhão menos do que Hong Kong (18,24 milhões). Aliás, o Produto Interno Bruto de Macau, per capita, a preços correntes, já ultrapassou o de Hong Kong em 2006.
É difícil de acreditar que um hongueconguense consiga ignorar o que acaba de acontecer em Macau, muito em especial o facto de as suas super-estrelas Tony Leung e Chow Yun-fat – que raramente aparecem em anúncios em Hong Kong – terem surgido em anúncios de casinos de Macau. Como comentou um destacado apresentador da Rádio Comercial, Lei Wai-ling, “não é isto uma vergonha?”
Criou-se, assim um estado de espírito de preocupação em relação a Macau, com frequentes referências na imprensa à região administrativa especial, sobretudo desde a inauguração do Venetian Macao, no passado dia 28 de Agosto.
O Apple Daily, uma das publicações em língua chinesa de maior circulação de Hong Kong, tem dado corpo a esse estado de espírito ao dedicar uma atenção muito especial ao fenómeno Macau e ao que ele representa para Hong Kong. Aliás, o jornal tem vários milhares de leitores na RAEM, uma razão adicional para que o tema esteja regularmente presente nas suas páginas.
Por exemplo, em finais de Setembro dedicou boa parte das suas edições, em dois dias seguidos, a Macau. Mas não tem sido o único órgão de comunicação social de Hong Kong a demonstrar esse tipo de interesse.
Contando-se entre as maiores feiras de joalharia do mundo, a Hong Kong Jewellery and Watch Fair dividiu-se este ano por duas localizações, uma na ilha de Hong Kong, no Hong Kong Convention and Exhibition Centre, em Wanchai, e outra na AsiaWorld Expo, em Lantau. Mas as reacções de expositores que utilizaram as instalações da distante AsiaWorld Expo não foi das mais favoráveis, segundo o jornal “The Sun”, também de língua chinesa.
Uma grossista de jóias disse ao jornal que pagou 31 mil dólares de Hong Kong para arrendar uma banca, que acabou por custar quase o preço de uma nas instalações do Convention and Exhibition Centre, no centro da cidade. Com zero negócios e apenas dez pedidos de informação feitos até ao dia da reportagem, ela considera a possibilidade de no futuro se virar para Macau, caso os espaços existentes na Região garantam um bom número de visitantes.
As feiras comerciais realizadas em Hong Kong têm gozado de grande popularidade, a ponto de centenas de comerciantes serem colocados em listas de espera para grandes exposições levadas a cabo no Hong Kong Convention and Exhibition Centre. Mas o espaço acaba por ser um dos mais pequenos da região, com os seus 70 mil metros quadrados de área arrendável, ao passo que outros centros de exposições da região do Delta do Rio das Pérolas, como é o caso do Venetian Macao, alcançaram já 100 mil metros de área, que constituem agora o novo “standard”.
Enquanto as enormes salas de conferências do Venetian são um atractivo para os organizadores de feiras, o hotel de três mil quartos pertencente ao mesmo complexo turístico está a explorar a reserva de mão-de-obra de Hong Kong no sector de hotelaria. Esperando-se idêntica atitude dos restantes hotéis previstos para o mesmo espaço. Com uma taxa de ocupação de 84% e 10% de aumento nos últimos oito meses, os proprietários dos hotéis de Hong Kong não estão propriamente preocupados com as suas receitas, mas o problema da falta de mão-de-obra começa a constituir uma ameaça real. Para tentar ultrapassar este problema, a Federação dos Proprietários de Hotéis de Hong Kong está a lançar um programa especial de estágios profissionais, mas ao mesmo tempo pede aos hotéis de Macau que treinem o seu próprio pessoal, em vez de o irem recrutar a Hong Kong.
Na sua série de artigos, o Apple Daily também quis saber a visão dos ex-residentes de Macau. O músico Lee Chun-yat, que se mudou para Hong Kong em 2000, não está, na verdade, entusiasmado com a prosperidade da sua terra natal. Disse ao Apple Daily que “Macau foi capaz de liberalizar o Jogo em virtude da aprovação do Governo Central, mas em todo o caso não havia outra alternativa”, para acrescentar que o território “dificilmente terá competitividade noutros sectores”, que não o do Jogo.
Por outro lado, aprecia a liberdade de expressão que se “respira” em Hong Kong. E acrescenta: “Mas também quero mais dessa mesma liberdade em Macau, pelo que o protesto do Dia do Trabalhador foi uma coisa boa – independentemente de as exigências serem boas ou más, pelo menos puderam expressar-se.”
Emily, que nasceu no Continente e viveu a sua infância em Macau, aprecia a atmosfera acolhedora de pequena cidade da Macau em que cresceu. Mas quando entrevistada pelo Apple Daily, desabafou: “No passado, a costeleta de porco era servida sem pressas, era frita com atenção e eu precisava de esperar durante dez minutos pela sua preparação. Mas agora ela é preparada num minuto... é frustrante!”
Embora sem saber dizer se as mudanças em Macau são para bem ou para mal, ela simplesmente não está interessada em estabelecer comparações entre as duas regiões administrativas especiais. E conclui, com uma metáfora: “Hong Kong e Macau nasceram da mesma mãe, mas foram criadas por pessoas diferentes. Por que não hão-de ser ambas bem-sucedidas, cada uma à sua maneira?”
Finalmente, a contagem decrescente para as manifestações dos passados dias 30 de Setembro e 1 de Outubro foi igualmente seguida com atenção pelos jornais de Hong Kong tendo, por exemplo, o Apple Daily publicado extensas reportagens com base em entrevistas com os organizadores dos protestos.
Na sua edição de 1 de Outubro, o Ming Pao titulava que as manifestações previstas para esse dia poderiam ser caóticas e citava extensas declarações de residentes de Macau criticando as políticas do Governo. Um residente queixava-se de os terrenos em Macau estarem a ser utilizados para a construção de hotéis, em vez de lugares de estacionamento.
Por seu turno, no Apple Daily podia ler-se as acusações de que os deputados à Assembleia Legislativa são “máquinas de votar” e que a nova lei do trânsito é “um convite ao desrespeito da lei”.
No dia seguinte ao dos protestos do Dia Nacional, o Apple Daily titulava “A raiva do povo – Marcha de 10 mil manifestantes em Macau”, ultrapassando assim largamente os 6000 manifestantes reivindicados pelos organizadores e os 2000 contabilizados pela Polícia. Dentro do mesmo registo, a reportagem abria logo com as palavras de ordem contra Edmund Ho ouvidas na manifestação e fazia referência à presença de cães-patrulha da Polícia dentro de carrinhas, facto a que, diga-se de passagem, os jornalistas de Macau que acompanharam as manifestações não atribuíram significado especial.
O Ming Pao foi comparativamente mais comedido na sua contabilidade, limitando-se aos 6000 reivindicados pelos manifestantes. Enquanto o “The Sun” entrevistou dois académicos de Hong Kong, que instaram o Chefe do Executivo da RAEM a esforçar-se por melhorar as condições de vida dos residentes, para que não se repita a situação de Tung Chee-hua, antigo Chefe do Executivo de Hong Kong, que foi obrigado a demitir-se.
Kahon Chan, em Hong Kong, com Luís Ortet
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Xeque-mate e tango

Selecção de xadrez estuda estratégias para
Jogos em Recinto Coberto

À procura do xeque-mate

Todos os domingos, os jogadores da selecção de xadrez internacional de Macau vão chegando ao local combinado. Na sala emprestada do centro de formação do Instituto do Desporto, na Taipa, os xadrezistas começam por arrumar o tabuleiro e as peças. Com o cronómetro ao lado, iniciam a partida. A preparação nunca é demais, pois já se sabe que haverá adversários mais fortes do que fracos nos 2.os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto de Macau (JARC), que têm início marcado para dia 26 deste mês.
Nas competições da modalidade, vão estar em confronto 24 países e territórios. “A China, a Índia, o Vietname e as Filipinas são as equipas favoritas, porque têm grandes mestres e muitos jogadores profissionais”, frisou ao Tai Chung Pou o presidente da Associação de Xadrez de Macau (AXM), José Silveirinha.
Neste cenário, as expectativas da equipa local estão centradas na segunda fase da competição. O mais importante é mesmo a participação e o convívio, afinal o xadrez é o “passatempo preferido” destas pessoas.
Até ao momento do frente a frente, resta praticar, aprender mais e mais e estudar todos os movimentos possíveis do tabuleiro para chegar ao xeque-mate. “Desde Junho que temos vindo a contar com a ajuda de dois mestres de xadrez e um mestre internacional, todos provenientes da China. Cada um vem de três em três semanas, por causa da política de restrição de vistos individuais. Durante a manhã e a tarde de domingo, eles ensinam-nos algumas dicas”, contou ao Tai Chung Pou o jogador da equipa da RAEM, João Valle Roxo.
Estes encontros dominicais são promovidos pela AXM com o objectivo de proporcionar um treino mais estruturado aos membros da equipa. Chen De é um dos mestres da China de serviço. Sem se querer comprometer, o especialista acredita que Macau vai conseguir bons resultados nos JARC sem a equipa poder, contudo, sonhar com os lugares do pódio. “Depois destes treinos, é claro que todos vão melhorar, mas é difícil ganhar, porque a maior parte das equipas asiáticas são formadas por profissionais”, sustentou.
São seis os jogadores que vão defender as cores da RAEM em frente aos tabuleiros bicolores no evento desportivo que se avizinha. “É engraçado, porque na nossa equipa em masculinos somos um português, um chinês e um filipino”, notou João Valle Roxo.
Embora não sejam profissionais, o grupo local é um exemplo de dedicação à modalidade. “Nunca venci nada, mas fico sempre nos primeiros lugares”, destacou o advogado. Mesmo assim, sempre que as obrigações do trabalho lhe permitem, o xadrezista serve-se de todos os meios possíveis para melhorar o seu nível de jogo.
“Cada um prepara-se consoante a sua disponibilidade e preferência, eu tenho pouco tempo, mas tento estudar pelo menos uma hora por dia”, explicou. O português iniciou a sua viagem pelas peças do xadrez há sete anos, com uma paragem pelo meio e um recomeço em 2004.
No calor do lar, tal como os colegas, João Valle Roxo estuda através de livros e revistas da especialidade, participa em clubes na Internet e analisa novas e velhas jogadas através de programas no computador.
Foi graças a muitas horas nocturnas de estudo, jogos no computador e leituras que Victor Ho Cheng Fai, 31 anos de idade, conseguiu ganhar o título de mestre da Federação Internacional de Xadrez (na sigla inglesa FIDE), nas Olimpíadas do ano passado, em Itália. “Comecei a jogar aos 16 anos e estudava muito quando estava na faculdade”, lembrou.
O piloto de aviões é uma das esperanças da AXM. Destinado para o tabuleiro número um, onde se defrontam os jogadores mais fortes, Victor Ho já tem os objectivos bem definidos para os JARC. “Estou confiante e vou tentar o meu melhor, mas o que interessa é que esta competição vai ser uma boa oportunidade para melhorar as minhas capacidades e aprender com os erros”, salientou.
A mesma promessa deixou Rudy, como é tratado Rodolfo Abelgas pelos companheiros de equipa. Após um interregno de 20 anos, foi em Macau que o filipino de 47 anos de idade voltou às casas do tabuleiro. Para trás, nas ilhas que o viram nascer, ficaram horas de treino e as recordações de vitórias. “Já participei em competições em Manila e na Índia e sei o que sente um amador quando está a jogar contra um profissional”, frisou. Quando está fora do aeroporto, onde é supervisor, Rudy tenta completar pelo menos seis horas semanais de estudo e treino, mas ainda se lembra dos primeiros anos, em que passava entre oito a dez horas diárias entre peões, cavalos, bispos, torres, rei e dama. “Costumo ler livros em frente ao tabuleiro para analisar as jogadas”, contou.
Annie Salvador é uma das “damas” que compõe o trio feminino da equipa de Macau. A xadrezista começou a jogar aos 14 anos e os JARC não são a sua primeira competição internacional. No entanto, a falta de treino provoca-lhe alguma insegurança. “Tenho que readquirir experiência, porque não participo em nenhum torneio desde os tempos da faculdade”, explicou a jovem de 26 anos de idade.
Dentro de três semanas, Annie vai defender o tabuleiro 2 nos femininos, enquanto que a medalha de prata nas Olimpíadas da modalidade de 2000, em Istambul, Winnie Lee, vai enfrentar as mestres internacionais, no tabuleiro 1, e Shelley Guzan vai ocupar o lugar em frente ao tabuleiro 3.
“A inclusão do xadrez nos JARC e nos Jogos Asiáticos tem um papel muito importante no desenvolvimento da modalidade”, defendeu José Silveirinha. O vencedor de uma medalha de ouro em 1996, numa competição asiática, acredita que o futuro da disciplina em Macau será muito mais risonho.
“Em primeiro lugar, as escolas vão começar a interessar-se mais em colocar a modalidade nos seus programas de actividades extracurriculares e, depois, os jogadores locais mais fortes vão desenvolver as suas capacidades com treinos dados pelos grandes mestres chineses. Porque não podemos esquecer que a China é um dos países com xadrezistas mais fortes, em femininos já bateu todos os recordes e em masculinos estão entres os melhores do mundo”.

Muitos alunos, poucos professores

O xadrez internacional é uma actividade extracurricular comum em praticamente todas as escolas do território. Apesar de ser mais um desporto que exige maior concentração do que esforço físico, há cada vez mais adeptos em Macau, que despertam interesse pelo tabuleiro bicolor desde tenra idade.
Prova disso é o trabalho que a Associação de Xadrez de Macau (AXM) tem vindo a desenvolver no território. O número de alunos ronda as várias dezenas e a nova geração de amantes do jogo do tabuleiro já começou a somar pontos em competições internacionais, trazendo algumas medalhas para casa. No entanto, até no mundo do xadrez, as peças mais fortes continuam a ser os recursos humanos.
”Há muito potencial, mas não há pessoas disponíveis para trabalhar com os miúdos. Por isso mesmo, estamos a tentar empregar pessoas que possam ajudar a associação nestas actividades”, explicou o presidente da AXM, José Silveirinha.
É este mês que deverão arrancar as actividades extra-curriculares nas instituições escolares da região. O grupo de xadrez internacional colabora com as escolas há cinco anos. Para este ano lectivo, já tem trabalho marcado em pelo menos três estabelecimentos de ensino – Escola Portuguesa, Escola Sheng Kung Hui e a Escola Secundária Pui Va. Só na instituição de ensino em língua portuguesa, a associação costuma ter duas turmas com um total de quase 50 alunos.
Fora dos muros das escolas, o torneio aberto organizado pela AXM conta actualmente com cinco dezenas de participantes. Recorde-se que esta iniciativa vai realizar-se todos os sábados até dia 8 de Dezembro no centro de formação do Instituto de Desporto, localizado na Taipa. As inscrições continuam abertas.
Para José Silveirinha, o interesse crescente pelo jogo de tabuleiro explica-se pela evolução da sociedade. “Nos países onde existe boa qualidade de vida o xadrez também é desenvolvido”, defendeu.
Em Macau, contam-se pelos dedos o número de mestres, sendo que existem dois mestres FIDE (Federação Internacional de Xadrez) e um candidato a mestre. Em oposição, os jogadores medalhados estão a multiplicar-se de competição em competição. O mais recente foi Joel Celis que arrecadou a medalha de bronze no campeonato do mundo de sub-16, que se realizou em Singapura há dois meses.
Alexandra Lages


João Fonseca orienta aulas de dança

Vai um tango?

O gosto pelas danças e ritmos latinos e a paixão pelo tango juntaram pessoas em torno do mesmo objectivo: aprender a dançar. João Fonseca, professor de Educação Física na Escola Portuguesa de Macau, 53 anos, com formação em vários géneros da dança e seis anos de treino e aperfeiçoamento, juntou-se ao grupo para orientar as aulas.
Em Julho deste ano, realizaram as primeiras sessões, o número foi crescendo e, actualmente, estão inscritos cerca de 20 elementos. São quase todos portugueses e franceses, há ainda um americano, e estão reunidos pelo prazer de dançar, de se encontrarem em torno de um objectivo comum e conviverem. Em suma, para se divertirem.
A falta de um espaço é um factor que vai preocupando professor e “bailarinos”, mas pouco, porque não deixam de dançar por causa disso. Um passo aqui e um passo ali, onde houver espaço disponível. Todas as quartas e domingos despem a “farda” do trabalho, deixam as preocupações para trás e abraçam o seu parceiro de dança, como quem se entrega a um outro universo, por onde se deixam levar, levar e levar. A música ajuda, claro. É este o espírito. Aprendizagem, mas também convívio e partilha de experiências e conhecimentos. Os executantes entram no ritmo, trocam de par, dançam e voltam a dançar.
É assim que acontece um pouco por todo o mundo, por onde o tango já se espalhou. A nova dança de pares nasce na segunda metade do século XIX, nas capitais da Argentina e Uruguai, na zona do Rio da Prata. João Fonseca traça alguns dados históricos: “As manifestações africanas acabadas de chegar na altura juntaram-se às tradicionais pampas locais e eis que nasce o tango, também com pitada de flamenco. Inicialmente, era uma dança de rua, usada por negros”.
O baptismo terá acontecido ao misturar o nome do deus da percussão da comunidade africana residente na Argentina com a palavra tambor em espanhol (tambor), mas há quem opte por outras versões. Certo é que o tango veio para ficar, a par da miscelânea musical resultante do contacto com os sons europeus, como é o caso do bandoneón, instrumento de fole levado para a Argentina por emigrantes alemães, que rapidamente se colou à pele do tango e é hoje a sua identidade. Para não falar das vizinhas partituras habaneras, entoando, directamente de Cuba, os instrumentos de sopro e cordas.
Chegou ao outro lado do Atlântico ao apresentar-se pela primeira vez em Paris, alastrando rapidamente a outras cidades importantes, como Londres e Berlim. Os Estados Unidos da América não podiam ficar de fora e são contagiados com a nova habilidade em 1913.
À medida que se exportava a dança e a música, afastavam-se os corpos. As faces encostadas, o peito contra o peito, que tanto calor e paixão dão ao tango argentino, vão esmorecendo e dando vida a novos estilos, como a rumba ou a valsa. E isto não quer dizer que o tango ‘puro’ assista ao final dos seus dias, é antes uma consequência natural do contacto com outros povos.
João Fonseca exemplifica que “nas danças tradicionais, como é o caso do folclore português, reproduzem-se as coreografias de antigamente. No tango há constantes evoluções, o que é positivo”.
Mas as guerras e crises causam a depressão deste género fulgurante, que se afirmava cada vez mais. Aos poucos, fica esquecido nalguns períodos dos anos 30 e anos 50, também devido ao boom do rock n’roll. Nos anos 80, volta a subir à ribalta, com o empurrão do espectáculo Tango Argentino e do musical Forever Tango.
Hoje é o que se sabe, veio para ficar, pratica-se em todo o mundo, transformou-se na identidade de uma nação. Nunca é demais repetir: o tango está para a Argentina como o fado está para Portugal. Afirmação que João Fonseca também assina.


Quais os requisitos para se começar a dançar tango? Quem tem pé de chumbo também pode? “Todos temos um pouco de pé de chumbo e de pé ligeiro”, minimiza, “o importante é gostar, praticar e encontrar o ritmo”.

Ainda é mais do que isso. “Tango é paixão, valsa é harmonia e milonga é desafio”, enfatiza. E é exactamente este o desafio que professor e alunos pretendem alcançar com o progresso das aulas de dança, espaço de aprendizagem dos primeiros passos. Ou seja, o objectivo é organizar festas, chamadas universalmente de milongas, com carácter social para poderem colocar a teoria em prática, num ambiente descontraído. Tal só pode acontecer, frisa, “se se gostar mesmo de dançar”.
As milongas têm semelhanças com as festas populares portuguesas, em que os pares dançam normalmente várias músicas, podem trocar de parceiro, há um convite endereçado pelo homem às senhoras, tendo estas “o direito de aceitar ou de recusar”, constata. O que é diferente? O ritmo, os passos. E não só.
A milonga é constituída por tandas, isto é grupos de três, quatro ou mais músicas, normalmente de carácter temático (clássicos, determinado autor ou compositor), separadas por cadências mais ligeiras, designadas de cortinas. Acomodadas em redor da “pista” de dança, as senhoras aguardam o convite dos homens para dançar uma tanda. Para evitar constrangimentos, tanto para eles como para elas, tudo se passa à distância e através de discretos acenos de cabeça.
Em milongas com gente jovem é usual ultrapassarem-se estes procedimentos de etiqueta e pode suceder ser a mulher a convidar o homem. São costumes seguidos na Argentina. Noutros pontos do mundo, o protocolo varia, mas as regras estão sempre lá, adequadas à cultura do país em que se manifestam.
Estes bailes representam a oportunidade de reunir “tangueiros” de diferentes idades e níveis, proporcionando uma evolução mais rápida e natural, ao “conduzir ou ser conduzido” por alguém com mais experiência. Neste meio, o número de anos de dança que constam do currículo, assim como de rugas na face, são de extremo valor.
Actualmente, Pablo e Dana, Matias Facio e Kara Wenham, Javier Rodriguez e Andrea Misse, Miguel Zotto e Soledad Rivero são os mestres que João Fonseca elege. Alguns são casais na vida real. Se umas vezes isso contribui para incutir mais paixão e cumplicidade à dança, outras pode complicar a gestão de problemas ou desavenças, fáceis nas relações interpessoais, na própria pista de dança. Fonseca conta já ter visto “um par dançar, que estava chateado, portanto tinha alguns conflitos a resolver. Isso sentia-se bastante na dança. Muito aguerrida.”
Quais os requisitos para se começar a dançar tango? Quem tem pé de chumbo também pode? “Todos temos um pouco de pé de chumbo e de pé ligeiro”, minimiza, “o importante é gostar, praticar e encontrar o ritmo”.
Uma das alunas, Carla Silva, preenchendo requisitos ou não, queria era dançar. Amante do tango e imbuída de força de vontade, não tinha encontrado a fórmula mágica para concretizar o desejo. Ouviu falar do professor João Fonseca, frequentador de milongas em Hong Kong, e percebeu que partilhavam a mesma paixão, com a vantagem de que ele poderia ensiná-la ou orientá-la para melhorar o que já sabia.
Tudo surgiu “de uma forma natural”, diz Carla, “já tinha o desejo de dançar”, depois em conversa com amigos “percebi que havia mais interessados”, que inclusive já tinham frequentado cursos semelhantes, orientados por professores locais, mas não se sentiam totalmente satisfeitos, “faltava a parte sentimental”, justifica, adiantando que se “encontram mais presos a métodos do que ao coração”. Um pouco como acontece nas competições desportivas de dança, confirma João Fonseca, em que “falta criatividade, sentimento, com a preocupação centrada nos juízes e nas técnicas a que um concurso obriga”.
Destas conversas surgiu um grupo fiel que faz os possíveis para se encontrar às quartas e domingos. “Todos têm demonstrado vontade em continuar”, remata Carla Silva.

Aulas de Danças Latinas
Horário: Quarta-feira, das 21h às 22h30
Domingo, das 17h às 18h30
Contacto para inscrições e outras informações: João Fonseca (66877464)

Aulas com dança

São oito da manhã. Começam a chegar os primeiros alunos. Calção azul, camisola branca e ténis. Ninguém diria que estão prestes a iniciar uma sessão de danças latinas. O pavilhão gimnodesportivo da Escola Portuguesa de Macau recebe, continuamente, os sons latino-americanos e os alunos executam exercícios, uma e outra vez, até entrarem no ritmo.
Esta actividade está inserida no programa curricular da disciplina. O professor João Fonseca recorda que durante a formação na Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa, aprendeu “ballet, danças folclóricas e dança moderna”, formas diferentes de “mexer o corpo”.
Livres de telemóveis, carteiras e relógios, a Isabel, a Andreia, a Mariana e os restantes colegas de uma turma do 12º ano começam a recordar os passos básicos do tango, mas também da valsa, que aprenderam no ano passado e voltam a ser repetidos pelo professor, virado de costas para eles, mas sempre atento à aprendizagem.
“Para a frente, para o lado, para trás, agora, atenção!, rodar”. Passados alguns minutos, juntam-se aos pares, frente a frente, de mãos dadas, praticando o que aprenderam, num ritmo ora calmo ora acelerado. “O homem é que manda!”, alguém dispara. Todos mostram boa disposição.
Das delicadas danças latinas, a aula passa para um exercício de râguebi e termina com alongamentos. Para a próxima há mais. “Bom fim-de-semana!”, despede-se o professor.

Sandra Gomes
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Seis mil na rua, Orquestra Chinesa tem 20 anos

Manifestações levam para a rua seis mil pessoas

Dois protestos, muitas causas

Cerca de seis mil pessoas, entre os quais dois mil motociclistas, manifestaram-se ontem em Macau, em iniciativas separadas, contra as condições laborais e a nova Lei do Trânsito, não poupando críticas ao governo de Edmund Ho.
Os protestos, separados por poucas centenas de metros, foram organizados pela União dos Trabalhadores de Macau e pela Associação Liberal de Trabalhadores do Sector dos Jogos e do Sector da Construção Civil, decorreram de forma pacífica sempre acompanhados por um forte cordão policial.
Ao longo do percurso, de cerca de três quilómetros, foram montadas várias barreiras de segurança para evitar que os manifestantes rompessem o percurso definido pela polícia. Ao contrário do que aconteceu no 1º de Maio, desta vez as indicações dos agentes foram seguidas à risca e ninguém tentou mudar o rumo das manifestações que terminaram em frente à sede do Governo.
Convocada como uma manifestação contra a entrada em vigor do Novo Código da Estrada, os protestos acabaram por ser mais um sinal de descontentamento popular contra o Governo e no qual insistentemente foram pedidas as demissões de Edmund Ho de Chefe do Executivo, de Florinda Chan (secretária para a Administração e Justiça), de Lei Sio Peng (chefe da Polícia de Segurança Pública) e de Shuen Ka Huen (director dos Serviços de Assuntos Laborais).
Entre as palavras de ordem, muitas buzinadelas em pontos estratégicos do percurso como a sede da Brigada de Trânsito da polícia.
Durante a cerca de hora e meia que durou o percurso dos manifestantes muitos populares posicionavam-se nas varandas dos prédios ou nas passagens superiores de peões para ver a manifestação, tirar umas fotografias e acenar aos participantes que pela primeira vez saíram à rua no primeiro de Outubro, em que se celebra a Implantação da República Popular da China.
Lee Kin Yun, da Associação para o Activismo e Democracia, candidato a deputado nas legislativas de 2005 e um dos manifestantes detidos nos protestos do passado 1 de Maio, expressou grande satisfação pela adesão popular mas mostrou-se céptico quanto à mudança da política do Governo.
Para o deputado Ng Kuok Cheong, do Novo Macau Democrático, vencedor das eleições directas à Assembleia Legislativa de 2005, a realização de um protesto no Dia Nacional "é significativo" e considerou ser "muito difícil ao líder do governo não ser afectado em termos de imagem pelos casos de corrupção", refere a Agência Lusa. À Rádio Macau o deputado considerou que, “antes de 2006, as causas das manifestações eram específicas, enquanto que agora destinam-se a contestar quem detém o poder”.
Já o deputado José Pereira Coutinho, que ao contrário do que aconteceu nas manifestações realizadas em 2005 e 2006, não participou no protesto, disse à Rádio Macau não ter tido conhecimento oficial da manifestação, por ter chegada da Europa no passado fim-de-semana. Pereira Coutinho participou na recepção oficial de comemoração do 58º aniversário da criação da República Popular da China, que estava a decorrer na Torre de Macau ao mesmo tempo que nas ruas da cidade se realizavam os protestos”.
Ainda nas declarações à estação de rádio em língua portuguesa, o deputado e presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau destacou o facto de “as pessoas agora se manifestarem sem os receios que existiam nos anos anteriores”, considerando que Macau ganha com este fenómeno. Disse ainda ser importante “não serem sempre as mesmas pessoas a liderar os protestos”.
Embora tivessem sido vários os assuntos que deram origem às palavras de ordem ouvidas ontem em Macau, a manifestação começou por ter como propósito a contestação da nova Lei do Trânsito Rodoviário. Sobre a reivindicação relacionada com as regras que entraram ontem em vigor, a secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, comentou que “o Governo respeita e dá importância às opiniões e solicitações manifestadas, através de diferentes canais e conforme a lei, pela população”, indica nota do Gabinete de Comunicação Social (GCS). A responsável disse que o Governo vai continuar a reforçar a sensibilização para a necessidade de cumprimento da Lei do Trânsito Rodoviário e criar mais parques de estacionamento para corresponder à aplicação do diploma.
Florinda Chan, que falava durante a recepção na Torre de Macau, fez votos de que a população se possa adoptar e habituar à nova lei, afirmando, no entanto, que “é um dever do Governo ajudar a população a compreender e cumprir nova legislação”, pelo que as autoridades competentes “vão rever e reforçar a sensibilização” para a nova legislação.
Na mesma ocasião, e também de acordo com o GCS, o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Lau Si Io, questionado sobre futuras políticas no âmbito do trânsito rodoviário, disse que “o Governo vai continuar a ter em consideração vários factores aquando da tomada de medidas sobre esta matéria”. O governante disse que “além do aumento de número de parques de estacionamento, será tido em conta também a educação cívica, consciencialização da população sobre o estacionamento e o número de viaturas”.
Texto Lusa editado
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Orquestra Chinesa de Macau comemora vinte anos de vida

A história de um nascimento feliz

Nasceu da necessidade de criar pólos culturais em Macau, numa altura em que pouco havia na cidade. A urbe era um “deserto cultural”, lembra quem vivia na década de oitenta no território então sob administração portuguesa, e apanhava o barco até Hong Kong para assistir a um concerto de quando em vez.
Jorge Morbey chegou a Macau em 1985 e o cenário que encontrou caracterizava-se pela falta de manifestações culturais organizadas. “Tive alguns contactos com espectáculos de ópera chinesa, que se faziam normalmente em palcos de bambu, amovíveis”, recorda. “Sentimos a necessidade de que a população gerisse o seu património através de nós”, diz Morbey, que entre 1985 e 1989 foi o presidente do Instituto Cultural de Macau (ICM).
O ensino de artes era coisa que também não existia. No ano lectivo de 1985/86, arrancaram as primeiras aulas de educação artística, que mais tarde vieram dar origem ao Conservatório de Macau. “Havia uma coisa curiosa. Macau, sendo uma cidade de cultura maioritariamente chinesa, não tinha uma orquestra tradicional”, recorda Morbey.
Embora a música na China seja tão antiga quanto o país, a primeira orquestra chinesa digna dessa classificação data de 1935. Exactamente meio século depois, Hong Kong era a referência para quem trabalhava em Macau e foi da então colónia britânica que veio o professor das aulas de música chinesa inseridas no programa de ensino que o Instituto Cultural decidiu lançar. “A função do Instituto Cultural, nesse tempo, era meramente supletiva, ou seja, nós íamos onde as associações locais não tivessem capacidade”, contextualiza Jorge Morbey. “Se tivessem, apoiávamos as associações, porque é sempre melhor a sociedade civil cuidar das suas coisas do que os governos”, sustenta.
No caso do ensino da música chinesa, o ex-presidente do Instituto Cultural decidiu actuar. Foi contratado um jovem músico da Orquestra Chinesa de Hong Kong, de nome Wong Kin Wai, que dirigia os cursos, no início em todos os instrumentos. A adesão da população local às aulas de música chinesa não podia ter sido mais surpreendente. Logo no primeiro ano, inscreveram-se 190 alunos.
“Foi muito curioso porque não tínhamos instalações”, tira Morbey da memória. “Tínhamos um plano muito ambicioso para juntarmos todas as vertentes do ensino artístico num edifício só, mas tal ainda não existia”. Os cursos de instrumentos chineses começaram por ser leccionados na casa Sir Robert Ho Tung, ao lado do Teatro D. Pedro V. “Mandámos fazer tudo, desde os banquinhos à aquisição dos instrumentos chineses”.
Decorridos dois anos lectivos, Jorge Morbey, em conjunto com Maria da Graça Marques, uma das responsáveis pelo Instituto Cultural da altura, lançaram um desafio a Wong Kin Wai, que continuava a viver em Hong Kong, deslocando-se a Macau apenas para leccionar. “Perguntei-lhe quando é que estamos em condições de formar uma orquestra chinesa. Ele disse-me que já tínhamos músicos, não eram de um nível técnico elevado mas já sabiam tocar para se fazer uma formação”, conta o ex-presidente do ICM.
Wong Kin Wai mudou-se de armas e bagagens para Macau e abraçou o projecto. “Decidimos então arrancar, disse-lhe para ele continuar com a formação de novos elementos e para, com essa massa toda que já levava dois anos de curso, tentarmos fazer uma orquestra. E assim foi”.
Vinte anos depois, o maestro Wong Kin Wai continua a viver em Macau, se bem que já afastado da Orquestra Chinesa. Nestas duas décadas de existência, houve alterações diversas ao nível da composição, o número de músicos foi variando e os próprios instrumentistas foram sendo substituídos por outros. A Orquestra continua, contudo, a ser a mesma.

“Perguntei-lhe quando é que estamos em condições de formar uma orquestra chinesa. Ele [Wong Kin Wai] disse-me que já tínhamos músicos, não eram de um nível técnico elevado mas já sabiam tocar para se fazer uma formação”
Jorge Morbey, ex-presidente do Instituto Cultural de Macau
“Foi algo que ficou. Penso que a Orquestra Chinesa nunca vai acabar, seria uma estupidez”, diz Morbey. “As dinâmicas, depois de se criarem, continuam e isto é extremamente agradável”, diz, não sem uma pontinha de orgulho. Jorge Morbey recusa a paternidade da Orquestra Chinesa de Macau, mas não esconde ter uma sensação “muito gratificante” de cada vez que vai assistir a um concerto. “Não posso dizer que a Orquestra seja minha filha, nem pouco mais ou menos, mas é uma sensação muito semelhante. É como quando se constrói alguma coisa, uma casa, um livro, algo que fica”.
A Orquestra Chinesa de Macau, que actua hoje com regularidade dentro e fora do território, começou logo com grande sucesso. O ex-presidente do ICM recorda momentos que o tocaram pelo significado dos gestos. “Houve um sentimento de gratidão pelo empenho que se pôs na Orquestra Chinesa. Os músicos adaptaram para os instrumentos chineses coisas muito interessantes, a Ti’ Anica de Loulé, por exemplo, umas pecinhas portuguesas que tiveram muita graça e que caíram muito bem”, sorri.
“Chegámos à conclusão de que estávamos a servir bem, porque as pessoas retribuíram com o que podiam, ao musicarem temas populares portugueses em instrumentos chineses. Isso foi extremamente interessante”, constata Morbey. Os pequenos mimos musicais portugueses foram evoluindo e começaram a surgir composições pensadas no intercâmbio cultural e civilizacional do território.
A “Fantasia para Macau” é um dos exemplos mais significativos e continua a ser tocada pela Orquestra: à sonoridade das composições da região sul da China foi adicionado um arranjo dos “Verdes anos”, de Carlos Paredes. O resultado é surpreendente: quando menos se espera, a contrastar com o ritmo colorido da música chinesa, cheia de percussões, surgem os lânguidos “Verdes anos”, que os êr-hú, os káu-hú e os djông-hu (que fazem as vezes dos violinos) interpretam, de forma a lembrar que a música, não obstante as suas diferentes matrizes, é, sem dúvida alguma, uma linguagem universal.
Característica da Orquestra Chinesa de Macau é ainda a assiduidade com que desenvolve projectos com músicos portugueses. “Macau é o encontro de culturas, na arquitectura, na gastronomia, em muitos hábitos e tradições. A música não podia ser diferente”, lança Teresa Tou, coordenadora da Orquestra Chinesa.
Sob a alçada do Instituto Cultural da RAEM, a formação tem, nos últimos anos, desenvolvido projectos com vários músicos portugueses, por altura do Festival Internacional de Macau (FAM) e do Festival Internacional de Música (FIMM). A edição deste ano do FIMM não foge à regra, com Camané a subir ao palco do Centro Cultural, no próximo dia 16, acompanhado pelos 33 músicos da Orquestra Chinesa.
O fadista junta-se assim a um vasto grupo de cantores e instrumentistas que experimentaram esta conjugação sonora pouco vulgar noutros pontos do planeta. Rão Kyao, Pedro Caldeira Cabral, Kátia Guerreiro e a Ala dos Namorados são apenas alguns dos nomes que já passarem por cá nesta lógica musical mista. No sentido inverso, a Orquestra Chinesa de Macau actuou, numa das várias deslocações que já fez a Portugal, na Expo 98, em conjunto com Luís Represas.
Viajando vinte anos no tempo, de regresso ao final dos anos oitenta, Jorge Morbey recorda a primeira viagem a Portugal, marcada por um episódio curioso. Logo no fim do primeiro ano de vida, em Dezembro de 1988, a Orquestra Chinesa rumou a Ocidente, para dois concertos, um no Teatro Nacional São Carlos, em Lisboa, e outro no Auditório Carlos Alberto, no Porto. “Há um instrumento tradicional chinês que consiste numa estrutura que tem pendurados uns pratos”, começa por explicar o ex-presidente do ICM.
“Deu-se o caso de o avião de Londres para Lisboa não ter capacidade para levar o instrumento, de tão grande que é”. A organização de Macau definiu então dois planos, por uma questão de segurança: contratar um camião para levar o instrumento por via terrestre e enviar para Lisboa um desenho da estrutura, de modo a que, à chegada, fosse apenas necessário pendurar os pratos. “O camião chegou a tempo, não se perdeu, e os concertos foram feitos”.
Quanto à forma como foi acolhida a Orquestra Chinesa de Macau em Portugal, Morbey conta que foi “um sucesso”. “Nunca se tinha visto nada semelhante àquilo, foram concertos sensacionais”, descreve. “O Teatro de São Carlos não estava muito cheio, porque na altura tinha a fama de ser muito selectivo, mas depois fomos muitas vezes contactados por pessoas que queriam saber como é que podiam ver a Orquestra Chinesa de Macau. Já no Porto, o Auditório Carlos Alberto encheu e foi uma festa enorme. Era uma novidade”.
O sucesso em Portugal verificado em 1988 era acompanhado por um fenómeno semelhante em Macau. “Sempre achei que a cultura não podia escapar, de alguma maneira, às regras dos custos e benefícios, pelo que procurei medir a resposta do público ao investimento que se fazia”, diz o ex-presidente do ICM, enquanto folheia as suas anotações da época. “Em 1988 realizámos seis concertos aos quais assistiram, no total, 3200 pessoas. Isto foi muito importante”.
O número pode não parecer relevante quando comparado com os dados registados hoje em dia, mas os tempos eram outros e as experiências também. “A Orquestra de Macau começou a fazer os seus concertos no ballroom do Hyatt. Os primeiros concertos eram dramáticos, porque tínhamos três, cinco, seis pessoas na sala, os músicos tocavam para imensas cadeiras vazias”. Tentaram criar-se hábitos culturais, através da calendarização dos concertos da formação ocidental.
“As pessoas começaram a habituar-se. O último concerto do meu tempo enquanto presidente do Instituto Cultural de Macau já teve que ser feito no Fórum pequeno, com uma audiência de 420 pessoas”, refere Morbey. A experiência da Orquestra Chinesa de Macau foi diferente da verificada na homóloga ocidental, “a audiência cresceu muito mais rapidamente, até porque sendo música chinesa era mais fácil chegar à população”.
No próximo dia 15 de Dezembro, a Orquestra Chinesa de Macau assinala as duas décadas de vida com um concerto que “para nós é muito especial”, diz Teresa Tou. “O programa é constituído por temas que foram encomendados por nós a compositores chineses e foram feitos em torno dos conceitos de Macau”, explica a coordenadora.
No que toca ao futuro da Orquestra, actualmente dirigida por Pang Ka Pang, diz a responsável que “a aposta é na qualidade, tanto na execução dos temas tocados pelo grupo de músicos, como na formação de novos instrumentistas”. Neste momento, ao serviço da Orquestra estão vários músicos oriundos da China. A maioria é de Macau, sendo que existe apenas um instrumentista ocidental, oriundo da Rússia, um violoncelista. Yulie Ashtakov toca um dos dois instrumentos ocidentais presentes na Orquestra Chinesa. “Os violoncelos e os contrabaixos são utilizados por não haver equivalente nos instrumentos chineses para fazer os baixos”, explica Teresa Tou.
Para o ano, está programada uma digressão à Europa, sobre a qual a coordenadora não quis revelar detalhes. Até lá, são muitas as oportunidades de assistir a concertos da Orquestra em Macau, que toca com regularidade nos vários palcos da cidade.

Do arco e flecha às estantes e pautas

São uma mistura entre Oriente e Ocidente, embora sejam características apenas desta região do mundo. Não obstante o facto das manifestações musicais chinesas se perderem no tempo, as orquestras nos moldes actuais são um fenómeno recente, que data do início do século, explica Veiga Jardim, na obra “Instrumentos musicais chineses”.
De acordo com o maestro radicado em Macau, que se dedica ao estudo da história da música neste ponto do planeta, existem registos históricos que indicam que o Se (cítara grande) remonta à dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.), e que terá sido inventado pelo imperador Pau-si. Esta cítara terá sido inventada na sequência de uma outra descoberta: os arcos e as flechas para caçar animais.
“Havia o costume de, após as caçadas, se fazer uma grande festa com canções e danças. É fácil imaginar um arco retesado a ser usado como instrumento musical no acompanhamento daquelas canções primitivas”, escreve Veiga Jardim. Presume-se que os instrumentos de corda fossem usados na China ainda antes da existência de qualquer documento escrito.
A sistematização da música tradicional chinesa começou a ser feita na dinastia Tchou (1122 a 221 a.C.). “As apresentações nos templos e nas cortes eram uma das principais características desta dinastia”, ensina Veiga Jardim. Havia “música de interior” e “música de ar livre”, sendo que este último género podia contar com 170 instrumentos feitos em metal, pedra, seda, bambu, cabaça, barro e madeira.
As três dinastias que se seguiram continuaram com os hábitos musicais e introduziram novidades. O imperador Wuti, da dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.) criou um instituto de música, dando emprego a muitos artistas. A corte contava com o serviço de 128 percussionistas.
As primeiras influências ocidentais ou “bárbaras” surgiram aquando da dinastia dos Três Reinos (220 a 280 d.C.), sendo que foram trabalhadas de forma intensa durante a dinastia Tang. “O imperador Tai-tchum, que viveu entre 627 e 649, instituiu o sistema de ‘dez tipos de música’, conhecido por xu pu dji, repertório de peças musicais de estilo e origem variados”, explica o maestro. “Três dos estilos eram baseados na interpretação da música tradicional chinesa e os outros sete na música estrangeira, incluindo composições provenientes da Coreia, Ásia menor e subcontinente indiano”.
No século VIII, os músicos da corte foram obrigados a fugir para as zonas rurais devido a uma rebelião. O facto deu origem ao refinamento da música popular que se tocava fora do circuito imperial. Por volta do século XII, houve uma tentativa de recuperar os tempos musicais áureos da dinastia Tang, mas que durou pouco. Os imperadores dos séculos XIII e XIV preferiam a ópera à música instrumental; o teatro e a literatura eram as formas artísticas de eleição das dinastias Ming e Ching. Veiga Jardim explica que durante este longo período, que tem início no século XIV e termina com a criação da República da China, no início do século XX, “a música passou a ter um papel tão subalterno e tão pouco importante que os músicos chegaram a ser vistos com desprezo pelo público”.
O fim da China imperial fez com que a música instrumental voltasse a ser apreciada. Os instrumentos tradicionais chineses sofrem “aperfeiçoamentos”, tal como tinha acontecido nos séculos anteriores no Ocidente, e as técnicas de execução são alteradas. A primeira orquestra chinesa, dividida em secções e com partituras, nasceu em Nanqing, em 1935, pelo Serviço de Radiodifusão da China. Em 1953, surge a China Broadcasting Chinese Orquestra, ainda existente. A orquestra de Hong Kong foi criada em 1977, dez anos antes da composição de Macau. Veiga Jardim explica ainda que as actuais orquestras de instrumentos tradicionais chineses podem ter entre 12 a 70 executantes.
Isabel Castro

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

André Couto quase cá, Recordar Gonzaga Gomes

André Couto deverá correr com Alfa Romeo
no Grande Prémio de Macau

O menino dos nossos olhos

Não se considera especial de corrida nem diferente, mas reconhece que há um carinho generalizado da população de Macau por ser o piloto que corre com a bandeira da RAEM fora e dentro de portas. Sete anos depois de ter vencido em Fórmula 3 no Grande Prémio de Macau, corrida da categoria que tantos pilotos tem lançado para a rainha Fórmula 1, André Couto continua a ser a razão que leva ao circuito da Guia muitos espectadores, no fim-de-semana mais rápido do ano.
O piloto de 30 anos, ao serviço da equipa da Toyota no Campeonato de Super GT no Japão, não personaliza o calor que sente de cada vez que vem correr à cidade onde cresceu. Diz que podia ser ele como outro qualquer. “Ao longo dos anos mais pessoas começaram a ir ver as corridas, não por minha causa, André Couto, mas por ser um piloto de Macau. É natural que torçam por alguém da própria terra e não pelo piloto inglês ou francês”, diz, com um sorriso. “Foi isso que aconteceu. Fico mesmo contente com a forma como sou tratado e procuro fazer boas corridas para não desapontar as pessoas que cá estão e torcem por mim”.
Se tudo correr conforme está previsto, o mais especial clube de fãs de Couto poderá voltar este ano ao circuito para “puxar” pelo único piloto local vencedor do GPM. Embora ainda não esteja “confirmada a cem por cento”, a hipótese mais forte aponta para que André Couto volte a correr ao volante de um Alfa Romeo, no World Touring Car Championship (WTCC). “Está tudo a ser definido, há outras equipas interessadas, mas deverá ser com a Alfa Romeo. Ainda estamos a definir alguns aspectos, a Alfa ainda vai a Monza. Devo saber alguma coisa em breve, até porque os carros têm que vir para Macau e as inscrições têm que ser feitas”, explica, acrescentando só não poder confirmar a presença por não estar “ainda nada assinado.”
O piloto diz-se “inclinado para a Alfa Romeo” por ser uma equipa que já conhece bem. “Corri dois anos com eles, um no WTCC e antes, quando ainda não era o campeonato mundial”. Numa das provas fez a “pole position”, na outra saiu em segundo lugar. “Liderei a corrida mas fiquei no Hotel Lisboa parado”, recorda, sobre a participação na corrida inserida no WTCC. “Tenho uma boa relação com a equipa, acho que gostam de mim e eu gosto deles, trabalhámos bem nestes dois anos”. O carro também lhe agrada, “gosto do estilo de condução, consigo adaptar-me bem”.
As duas participações no GPM ao volante de um Alfa Romeo ficaram marcadas por incidentes em que a sorte, factor que também conta neste tipo de desporto, não esteve presente. “No ano em que parti da pole position tive um problema no radiador e abandonei na última volta da primeira manga, quando estava em segundo lugar”. Para Couto, o circuito de Macau é especial por várias razões, e embora conheça a pista muito bem, é sempre um grande desafio voltar à cidade para competir.


Há momentos em que o grau de nervosismo dentro de um carro se assemelha à sensação que se tem quando estamos à espera que a montanha russa comece a andar. Depois do primeiro grande momento de nervosismo que o início da partida significa, aí há tempo para pensar em quase tudo
“Como é só uma corrida, não é um campeonato, e é um circuito citadino, nem sempre o mais rápido ganha”. O truque “é andar sempre bem nos treinos, para depois poder procurar a sorte”. Quem parte de trás está sempre sujeito a estar envolvido em toques, explica o piloto, dizendo que a grande vantagem de “ir à frente é estar sujeito a menos confusão”. Na memória, está ainda a experiência do Grande Prémio do ano passado. “Tive um problema na qualificação, porque dois pilotos à minha frente bateram. Depois começou a chover e não consegui fazer uma volta de qualificação boa, pelo que parti de trás no dia da corrida”.
Em 2006, o piloto de Macau ficou em sétimo lugar, tendo conseguido recuperar várias posições em relação ao ponto de partida, o que faz com que tenha sido “uma boa corrida”. Claro está que se “tivesse partido da frente seria tudo diferente”. André Couto resume o percurso destes últimos anos: “No ano passado, dentro de uma má qualificação, a corrida foi boa; nos outros anos, tive uma qualificação boa e um resultado pior na prova”. Nada como partir à frente e chegar ao fim da corrida.
À terceira com a Alfa, a confirmar-se, será de vez? “Se o carro estiver bom e se naquele fim-de-semana estivermos ao mais alto nível – eu, os carros, os engenheiros – talvez dê para fazer alguma coisa”, atira. A tudo isto, há ainda que juntar “um pouco de sorte”, diz o piloto português.
Ainda sobre Macau, André Couto diz ser “o melhor circuito do mundo, ou pelo menos daqueles em que corri”. E não é por ser da casa que assim fala, “se perguntarem a qualquer piloto de Fórmula 3 que já correu cá ele vai falar de Macau com um brilho nos olhos”. O grau de desafio é a razão principal para este reconhecimento do circuito a nível internacional. “É muito especial, tem uma parte muito rápida cá em baixo, da saída da Melco até ao Hotel Lisboa, com curvas muito rápidas”, diz. “Depois tem a parte sinuosa lá em cima, que também é muito rápida mas que tem algumas curvas lentas, exige uma grande componente técnica. Sobe-se, desce-se, há curvas estranhas, cegas, não dá para ver a saída”.
É uma corrida que “nem dá para respirar”, conta, cheio de entusiasmo, como se fosse a primeira vez. “Eu divido o circuito em duas partes”, com a curva da Melco e o Hotel Lisboa como referências. Couto confessa que só respira “cá em baixo, lá em cima é uma parte do percurso em que é preciso estar sempre em acção, às vezes é preciso corrigir vários erros que se vai cometendo”.
Tratando-se de um circuito citadino, “a pista não agarra tanto como nos outros circuitos”, pelo que o grau de risco é maior. “Temos que passar sempre mais perto do muro para andar mais rápido, para aproveitar a pista toda. Noutro circuito consegue-se chegar ao limite mais facilmente porque se sair um pouco o carro vai um bocadinho à relva ou pisa o corrector”. Em Macau, o caso muda de figura, que “não se podem pisar correctores porque não existem, toca-se mas é no muro”.
No GPM, os níveis de concentração são muito elevados e não há margem para erros, que podem acontecer com muita facilidade. “Quando estamos mesmo no limite e já quase a bater, é quando andamos mais rápido. Às vezes até se bate um bocadinho, mas nada acontece”, ri. Acontece de quando em vez, na qualificação, bater duas ou três vezes, “só a raspar, sem prejudicar o nosso tempo, e acabamos por fazer uma grande volta”.
Num tipo de desporto em que os segundos se desdobram e fazem toda a diferença, a capacidade de ter a noção dos limites tem que ser muito bem trabalhada. André Couto explica que sabe quando chegou ao seu limite quando já está a aproveitar toda a pista. E isso percebe-se “quando saio da curva, estou em aceleração e o carro está a fugir, sei que vai parar mesmo a uns centímetros do muro”. Acontece que às vezes não pára, “dá-se um toque, um raspão, sinto um friozinho na barriga e penso ‘ai que já estraguei tudo´,” afirma, com uma enorme calma. “Depois faço outra curva e aí vejo que ainda está tudo bem, as rodas estão direitas, continuo, e às vezes é assim que se faz uma boa volta de qualificação”.
Ao volante, exige-se a um piloto capacidade para conhecer os limites e andar depressa, com a rapidez que mais ninguém tem, mas também uma grande agilidade em termos mentais. O facto de os carros ganharem asas não significa que não haja tempo para pensar, “um piloto que já tenha alguma experiência tem que pensar em muitas coisas, qual é a altura certa para arriscar mais”.
Com Macau sempre em pano de fundo, o piloto da Super-GT nipónica explica que, no Grande Prémio, “é importante, antes de mais, fazer uma volta, para se ficar com um tempo”. Depois, continua, “nos últimos 5 ou 10 minutos é arriscar um pouco mais do que o normal, passar uma ou outra curva mais rápido”. E às vezes acontece ser rápido de mais. “Quase todos os bons pilotos batem nos treinos em Macau, porque estão sempre a testar novos limites”. É impossível para quem chega “andar rápido logo no primeiro treino”. “O piloto vai ganhando confiança com o carro, a pista vai melhorando, porque vai ficando com mais borracha das outras categorias e começa a agarrar mais”.
Para quem nunca conduziu a grandes velocidades, André Couto explica que há momentos em que o grau de nervosismo dentro de um carro se assemelha à sensação que se tem quando “estamos à espera que a montanha russa comece a andar”. Depois do primeiro grande momento de nervosismo que o início da partida significa, aí há tempo para pensar em quase tudo.
“Quando a corrida vai bem e o carro está afinado, há mais tempo para olhar para a paisagem”, diz com uma grande naturalidade. Em que pensa um piloto enquanto conduz à velocidade da luz? Couto lembra um episódio “engraçado”, que aconteceu aquando da sua estreia na pista de Fuji, no Japão. “A pista é mesmo ao pé do vulcão, que é mesmo enorme e muito bonito, há uma altura do ano em que tem neve no topo”, começa por descrever. “O meu engenheiro disse-me, antes da partida, para não me distrair quando chegasse ao sector das curvas, porque houve pilotos que se distraíram a olhar para o vulcão, foram à relva e saíram de pista”.
André Couto riu-se, pensou que o engenheiro estava “a brincar”, mas certo é que quando por lá passou ficou “ligeiramente hipnotizado” a olhar para a paisagem. “Quando se sai de uma curva fica-se mesmo de frente para o vulcão, que mete respeito”. O piloto não foi à relva mas lembrou-se do aviso do engenheiro.
No Japão, a experiência é muito diferente da que se tem com uma equipa latina, refere ainda Couto, a propósito dos pormenores desconhecidos para os espectadores. “Quando está tudo a correr bem, acontece haver brincadeiras entre os engenheiros e os pilotos, através do sistema de comunicação por rádio, mesmo para tirar um pouco o nervosismo. Isto acontece mais com os latinos, no Japão a comunicação por rádio é a essencial”.
Para acabar o Campeonato de Super GT deste ano ainda faltam duas provas, uma em Autopolis e outra em Fuji, circuito onde o piloto de Macau costuma andar bem. Para a próxima temporada, a continuidade no Japão ainda não está garantida, mas tudo aponta para que fique mais um ano na equipa da Toyota, onde corre com um Lexus SC. “A Toyota tem uma lista de pilotos, eu faço parte dela e está tudo bem encaminhado”.
Sobre a experiência nipónica, Couto faz uma avaliação muito positiva. “O campeonato é bem divulgado, corro na categoria rainha do desporto automóvel do Japão”. Por norma, “há sempre cerca de 50 mil pessoas a ver as corridas, em Fuji chegam a estar 80 mil”. A estrutura é profissional, o que satisfaz os pilotos.
Quanto à presente época e já em jeito de balanço, André Couto destaca a participação numa corrida internacional que decorreu em Tokachi, em que conduziu um “híbrido”, um Toyota Super HV. “Foi a prova mais importante do ano da Toyota, que decidiu deste modo promover uns carros, que já existem no mercado, que são metade a gasolina e metade eléctricos”. A presença na competição de 24 horas com este tipo de carro não podia ter sido melhor, uma vez que a equipa do piloto de Macau ganhou a prova. “Foi excelente, estavam cerca de 50 técnicos da Toyota, foi uma corrida muito bem organizada, com muito dinheiro investido. Estivemos a testar o carro quase um ano antes da corrida, em segredo”, sussurra. Foi a prova mais bem preparada da carreira do piloto. “O resultado foi muito bom, ganhámos com 19 voltas de avanço, foi um excelente momento deste ano”.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Recordar Luís Gonzaga Gomes

Um homem comprometido com Macau

Uma vida humilde, discreta e solitária. Durante 69 anos, Luís Gonzaga Gomes recusou-se a perder tempo com actividades banais. Nascido em 1907 e tratado carinhosamente por Inho Gomes entre a comunidade macaense, viveu apaixonado pela cultura e pelas artes, mas o seu amor sempre foi Macau.
É na união entre a China e Portugal que está a alma do território e Gonzaga Gomes sabia-o bem. Por isso mesmo, impôs-se a missão de facilitar o contacto entre as culturas chinesa e portuguesa. Daí que, cem anos após o seu nascimento, as expressões que mais lhe surgem associadas sejam “agente do intercâmbio cultural” ou “ponte de entendimento” entre as duas comunidades.
“Grande sinólogo, conhecia a língua e a literatura chinesas mesmo a fundo”, destacou ao jornal Tai Chung Pou o arquitecto José Maneiras. “Gonzaga Gomes escreveu vários textos que eram publicados no jornal Notícias de Macau. As pessoas recortavam e mandavam encadernar”, lembrou.
Através desta publicação e enquanto jornalista, Inho Gomes publicou mais de centena e meia de traduções de contos, lendas, artes e tradições chinesas da região. Estes mesmos textos foram compilados e publicados em cinco volumes da colecção “Notícias de Macau” intitulados “Lendas Chinesas de Macau”, “Contos Chineses”, “Chinesices”, “Curiosidades da Macau Antiga” e “Festividades Chinesas”.
Foram mais de 30 as publicações deixadas pelo escritor e tradutor. Gonzaga Gomes não só escreveu livros na língua de Camões, como também em chinês. A já falecida Graciete Nogueira Batalha, uma filologista local, escreveu no opúsculo “Luís Gonzaga Gomes e o Intercâmbio Cultural Luso-chinês” que o intelectual macaense não se limitava a fazer traduções.
Nas palavras da também ex-vogal da Assembleia Legislativa, Inho Gomes apercebeu-se que não valia a pena divulgar algo que não fosse atraente, acessível e popular. Foi isso que fez n’ ”Os Lusíadas contados às crianças”, um livro em que traduziu para chinês alguns versos da “Mensagem” de Fernando Pessoa.
Esta obra prova a alma de pedagogo de Gonzaga Gomes, um traço de carácter que herdou dos seus pais. Ambos foram directores da Escola Central, a mãe da secção feminina e o pai da ala masculina.
Além disso, o macaense foi um acérrimo defensor do ensino da língua chinesa nas escolas lusófonas. “Lembro-me dele da minha infância, nos ‘bons tempos’ da 2ª Guerra Mundial”, ironizou José Maneiras. “Eu era aluno da escola primária onde ele era professor”, completou.
O escritor deu aulas de chinês no já extinto Liceu Nacional Infante D. Henrique. E por aqui não ficou. Os vocabulários de cantonês-português e português-cantonês e o livro intitulado “Noções Elementares da Língua Chinesa” foram fruto do seu interesse pela pedagogia.
O esforço em aproximar os chineses e os portugueses que partilhavam a mesma terra também ultrapassou os muros do liceu. Paciente e infatigável, Gonzaga Gomes traduziu para português a obra histórica “Monografia de Macau” e publicou livros como “O Estudo de Mil Caracteres”, “O Livro da Vida e da Virtude de Láucio” e “A Piedade Filial”.
“Foi um dos poucos portugueses que penetrou na língua e cultura chinesas”, salientou José Maneiras. O escritor não foi apenas um elo de aproximação entre dois povos, era, ele próprio, um homem da cultura.
A irmã mais velha transmitiu-lhe o gosto pela arte musical. Maria Margarida estudou música, canto e ballet nos Estados Unidos e ensinou-o a tocar violino. Melómano e apaixonado pelas óperas, Gonzaga Gomes dirigiu o Círculo da Cultural Musical e tocou violino no Grupo de Amadores de Teatro e Música. “Tinha uma profunda cultura musical e uma vasta discoteca. Era um homem multifacetado e bastante culto. Lembro-me que estava sempre ligado a actividades culturais”, frisou José Maneiras.
“Não era de divertimentos, preferia estar fechado no seu gabinete com os seus estudos”, salientou. A figura de Gonzaga Gomes está sempre associada à humildade e ao recolhimento. “Como pessoa era discreto, não era vaidoso, não se punha em bicos de pés. Comunicava mais por escrito ou com os amigos mais próximos. Certas pessoas consideravam-no distante, mas não. Era apenas introvertido, intelectual e concentrado”, defendeu José Maneiras, que chegou a privar com o escritor em tertúlias e ciclos culturais.
Até à data da sua morte, a 20 de Março de 1976, levou sempre uma vida monástica, dedicado às suas investigações e à correspondência com grandes académicos internacionais.
No campo da instrução, Inho Gomes fez parte de uma geração que teve como professores personalidades como Camilo Pessanha, Vicente Jorge Silva e Manuel da Silva Mendes. No entanto, celebrizou-se como autodidacta. Ao longo da sua vida, foi tirando cursos de música por correspondência da Escola Universal de Paris, sendo que optou pela mesma estratégia para aprender as línguas inglesa, italiana e alemã.
“Não tinha posses para ir estudar para Portugal. É, então, um produto de Macau. Nunca tinha saído do território até os anos 50”, sustentou José Maneiras. Socialmente activo e dedicado, Gonzaga Gomes desempenhou inúmeras funções e cargos nas áreas da cultura, do jornalismo (foi director da Emissora da Radiodifusão de Macau), em organismos e associações.
Além de ser um grande coleccionador de arte chinesa, o escritor foi ainda o responsável pela instalação do antigo Museu de Camões, hoje conhecido como Museu de Arte de Macau. Toda a sua biblioteca foi por si doada e está integrada no espólio da Biblioteca e do Arquivo de Macau.
Ainda em vida, Gonzaga Gomes recebeu um louvor do governador em funções na altura, o comandante Albano de Oliveira. Foi agraciado pelo Governo português com uma medalha de oficial da Ordem do Infante D. Henrique. E, de França, recebeu a condecoração de Cavaleiro da Ordem das Palmas. Oito anos após a sua morte, foi erigido um busto no Jardim São Francisco que pode actualmente ser visto no Jardim das Artes.
A sua obra, que foi construindo incessantemente ao longo da vida, é uma prova viva da dedicação pela terra e pelas suas gentes. O título de símbolo de Macau, Gonzaga Gomes conquistou-o não só com os seus conhecimentos e trabalhos, mas com a generosidade que o caracterizava.
Quase como um compromisso, Inho Gomes não guardou para si o seu imenso património intelectual. Toda a sua riqueza, “pô-la ao dispor de quantos a quisessem partilhar, muitas vezes queimando as próprias pestanas para poupar as dos outros”, elogiou Graciete Nogueira Batalha.


“Como pessoa era discreto, não era vaidoso, não se punha em bicos de pés. Comunicava mais por escrito ou com os amigos mais próximos. Certas pessoas consideravam-no distante, mas não. Era apenas introvertido, intelectual e concentrado”
José Maneiras sobre Gonzaga Gomes

António Conceição Júnior, artista plástico, em discurso directo

As coincidências da vida

Como é que descreve a sua experiência de convivência com Gonzaga Gomes?
A minha experiência de convivência com Luís Gonzaga Gomes é mais feita de memórias e de observação, porque eu era um miúdo ao pé dele. Existe, apesar da diferença de idades, um conjunto de ligações que, vistas à luz dos dias de hoje, parece ser uma extraordinária coincidência: éramos vizinhos, o Inho Gomes, como era conhecido, tinha sido colega de Liceu do meu pai, e ambos alunos de figuras históricas da Macau lusófona como Camilo Pessanha, Vicente Jorge Silva e Manuel da Silva Mendes. Depois, como já referi, além das nossas casas estarem lado a lado, havia, quer nele quer nos meus pais, o bichinho do jornalismo que os juntava a todos no jornal que Hermman Machado Monteiro fundara na Calçada do Tronco Velho. Nos jantares, permanecia quase sempre muito calado, insondável até, falando apenas o indispensável. Todos os colaboradores do jornal Notícias de Macau se juntavam em amena cavaqueira, ora no Fat Siu Lau de então, onde ficou famoso o "bife à Monteiro", ora no Hotel Riviera, onde vivia Hermman Monteiro, conhecido pelo "Monteiro das barbas". Desde criança que convivi com as edições dos seus livros impressas pelo próprio Notícias de Macau, datadas dos anos 40, sem dúvida esforço seu. Havia obras suas e que ele publicara sobre Manuel da Silva Mendes. Como se todo esse convívio e ligações com os meus pais não bastassem - de que eu era na maioria dos casos mero observador - fui substituí-lo como director do Museu Luís de Camões em 1978, poucos anos após a sua morte. Também aí pude analisar o seu trabalho e verificar na área museológica o que ele podia fazer com apenas quinze mil patacas anuais. Foi com muita honra e prazer que, em 1979, pude promover a reedição de algumas obras que estavam esgotadas desde os anos 40, quase todas inicialmente publicadas pelo seu esforço e dinamismo.
Como é que o descreve, que tipo de pessoa era Gonzaga Gomes?
Era uma pessoa muito reservada, solitária, que se dedicava exclusivamente aos seus múltiplos afazeres que, por serem para ele prazer, não seriam trabalho. Macau infelizmente ainda olha com ar curioso as pessoas que escolhem o prazer da sua solidão para percorrerem o caminho que querem fazer.
Qual a importância de Gonzaga Gomes para Macau e as suas gentes?
Luís Gomes constitui um exemplo paradigmático da mistura genética que os macaenses, enquanto nação de indivíduos, são, interessando-se pela diversidade das expressões culturais. Num período onde os meios de comunicação eram ainda escassos em comparação com os que hoje possuímos, Luís Gomes emerge como um símbolo exponencial das potencialidades do macaense enquanto conjugador de culturas, ecléctico e devotado. Em Luís Gonzaga Gomes, cada macaense no geral e todos os que habitaram ou habitam Macau podem encontrar apenas a essencialidade, jamais o supérfluo.
Qual a melhor palavra ou expressão para o definir?
Como já disse, é um símbolo exponencial das potencialidades do macaense enquanto conjugador cultural.
Alexandra Lages