domingo, 9 de dezembro de 2007
sábado, 8 de dezembro de 2007
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
Au Kam San e os protestos de Leonel Alves e de Coutinho, As novas formas de reitegração, Os miúdos também sofrem
Au Kam San pisa o risco
Foi um acontecimento inédito em oito anos de vida da Assembleia Legislativa (AL) da RAEM. Ontem, o deputado Leonel Alves fez um voto de protesto formal em relação à intervenção de Au Kam San no período antes da ordem do dia. Ao voto de protesto de Alves juntou-se um outro: Pereira Coutinho também manifestou a sua indignação em relação às declarações feitas pelo membro da Associação Novo Macau Democrático (ANMD).
Na origem deste momento nada comum, e que gerou alguma tensão no hemiciclo, estiveram as comparações feitas por Au entre a administração portuguesa e a actual, utilizando termos que deixaram Alves e Coutinho visivelmente indignados. O deputado da ANMD começou por falar das duas manifestações realizadas este ano, a 1 de Maio e a 1 de Outubro, para dizer, logo a seguir, que a população de Macau não tolera “actos ilegais, incorrectos ou injustos”, ao contrário do que acontecia “na época da governação colonial”, em que “os cidadãos nada podiam fazer quanto aos actos praticados pelos administradores não indígenas”.
Com a criação da RAEM, continuou Au Kam San, deveria ter sido dado início “a uma nova etapa”, mas tal não aconteceu, apontou. “Os recursos políticos do Governo da RAEM são monopolizados por uma minoria, tal como os recursos económicos, que são roubados à vontade por uma outra minoria”, atirou Au, para em seguida afirmar que “essas minorias vendem os bens do Estado a preço de saldo a título do amor à pátria e a Macau, roubos esses que atingem um grau tão feroz que até os governantes colonialistas teriam dificuldade em com eles rivalizar”.
Esta sequência de palavras deixou Leonel Alves muito descontente, usando da palavra no período antes da ordem do dia, o que não é seu hábito. Mal o membro da Associação Novo Macau Democrático acabou de falar, o advogado pediu para intervir. De pé, Alves fez uma análise daqueles que considera serem os objectivos de Au Kam San, dizendo que “todas as pessoas sabem que está em preparação uma manifestação para o próximo dia 20 e que é preciso criar o ambiente propício, com a utilização de slogans primários e fáceis, de incitação à população”. Depois, condenou veementemente as palavras do deputado “pela falta de exactidão e de diplomacia de algumas afirmações” feitas.
Entendendo serem “muito graves” as referências feitas aos “governantes colonialistas”, Leonel Alves desafiou Au Kam San a apresentar provas do que disse, recordando que, enquanto deputado, o membro da ANMD tem responsabilidades acrescidas. “Exige-se que seja feita prova do que disse”, reiterou, sustentando que “afirmações deste teor podem provocar incidentes diplomáticos entre Portugal e a República Popular da China”.
Os reparos do advogado não ficaram por aqui. Leonel Alves disse que Au Kam Sam deveria saber que “roubo significa furto com violência” antes de empregar tal termo para tecer considerações que devem ser feitas através de uma análise de carácter político, e não com o recurso a “slogans fáceis e primários que podem induzir pessoas incautas em erro”.
Também Pereira Coutinho quis demonstrar o seu descontentamento em relação ao conteúdo da intervenção de Au Kan San. A dada altura, o “democrata” tinha dito que “os recursos públicos roubados nestes últimos oito anos atingiram valores superiores aos roubados pelos portugueses durante quatrocentos anos”. Para Coutinho, a forma como deputado falou é “ofensiva não só para com os portugueses que cá estão como para aqueles que viveram em Macau ao longo da História”.
Findos os votos de protesto, a presidente da AL deu autorização a Au Kam San para voltar a falar, lembrando, no entanto, que “não há diálogo” no período antes da ordem do dia. O deputado disse apenas que assumia a responsabilidade política das declarações feitas e que não concordava com as críticas dos seus colegas, embora respeitasse as suas opiniões.
Isabel Castro
Centro Lai Cheng aposta em novas formas de reintegração
Regras rígidas. Horários para cumprir. Zero de flexibilidade. Tudo em prol de um objectivo final: a reintegração na sociedade de jovens infractores. A funcionar desde dia 19 de Novembro, o centro de acolhimento Lai Cheng já conta com sete menores. Jovens a quem, dada a menor gravidade dos crimes cometidos, lhes foi aplicada a medida de colocação em residência temporária. É o primeiro do género, e exclusivo para rapazes, mas a partir do início do próximo ano deverá começar a funcionar um centro de acolhimento destinado a raparigas.
São sete jovens com idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos. Dois têm um emprego, dois estão à espera do início das aulas, e três frequentam a escola. O dia-a-dia no centro de acolhimento repete-se. Às 6 horas toca o despertador. Depois de alguns minutos de exercício físico, os jovens abandonam o centro para os respectivos locais de emprego ou estudo. Às 16 horas regressam. Seguem-se duas horas de estudo e leitura. O jantar é às 19 horas. Três horas depois, apagam-se as luzes. Tirando os fins-de-semana, em que os jovens contam com actividades de grupo e terapia, os dias repetem-se.
“São regras rígidas. Não se podem alterar”, explicou Vincent Wan, director do centro. Para a chefe do departamento de Reinserção Social, Melody Ip, é necessário. “Aqui resulta. Porque é precisamente pela comparação com os outros jovens, que estes menores se sentem motivados”, explica. “Estes menores cometeram, no geral, crimes menos graves, como furto ou perturbação da ordem pública. E normalmente estão fora do controlo dos pais – saem com os amigos e regressam a casa apenas de madrugada. Aqui queremos que voltem ao ritmo normal”, conta.
O tempo de permanência no centro não é muito longo. No mínimo um mês, no máximo um ano. Findo esse período, se “não se habituarem às regras”, podem ser encaminhados para o Instituto de Menores. Na pior das hipóteses, claro. Se a adaptação for boa, regressam a casa. Mas, até ao momento, não houve quaisquer problemas. “Chegam a horas todos os dias. Estou impressionada. Nem tem havido quaisquer conflitos”, declara Melody Ip.
Com capacidade para acolher 70 jovens, nos próximos seis meses espera-se que “chegue a 30”, enquanto no caso das raparigas esse número, no mesmo período, não deverá ascender a mais do que duas. “Normalmente, os rapazes têm mais problemas que as raparigas”, explica. Porquê um centro apenas para rapazes? A separação dá-se porque, “corre-se o risco de eventuais envolvimentos amorosos”.
O centro conta com agentes de segurança privada, assistentes sociais, estando a ser dirigido pela Associação de Jovens Cristãos (YMCA), sob supervisão do departamento de Reinserção Social. Mas são os monitores que têm um contacto mais directo com os jovens. “São jovens que não têm mais do que 25 anos. Se fossem mais velhos poderia haver conflitos de gerações. Assim, podem ser uma espécie de mentores, criando-se uma importante ligação”, conta. Uma ligação que ainda não se criou, dado que o “centro só abriu há 15 dias”, explica Vincent.
Constituindo um regime de semi-internamento, fora das paredes do centro Lai Cheng não há controlo. Pelo menos da parte dos profissionais. Mas os empregadores e as escolas estão avisados, e entram em comunicação com o centro sempre que necessário. Não acontece o mesmo no interior do centro. Composto por vários quartos individuais e conjuntos, salas de inspecção, salas de aconselhamento, salas de refeições e salas de estar, tendo de obedecer aos tais horários, os menores não podem circular livremente pelo edifício de três andares.
Podendo acolher jovens com idades compreendidas entre os 12 e os 21 anos, o centro, que se situa no antigo edifício Mei Lam Garden, é uma das consequências da entrada em vigor do novo Regime Tutelar e Educativo dos Jovens Infractores, uma vez que permitirá pôr em prática a execução de uma das novas medidas previstas na lei: a “colocação em unidade de residência temporária”.
“Lai”, em cantonense, significa encorajamento, enquanto “cheng” quer dizer juventude. Porque a ideia é “não estigmatizar”. Uma medida que surge na sequência da aprovação do novo regime tutelar educativo, um diploma que vem criar oito medidas para punir os adolescentes: admoestação judicial, reconciliação com o ofendido, imposição de normas de conduta, serviço a favor da comunidade, acompanhamento educativo, colocação em unidade de residência temporária e internamento.
Infelicidade, tristeza, depressão e stress. São palavras que parecem remeter apenas para o universo dos adultos. Pelo contrário, quando olhamos para as crianças e jovens, pensamos nos termos alegria, animação, gargalhadas e vivacidade. Não quer isto dizer que os mais pequenos não enfrentem problemas semelhantes aos dos adultos.
A depressão é uma doença do foro psicológico que também afecta as pessoas de palmo e meio. No entanto, existe uma diferença essencial no modo como as crianças e adolescentes exteriorizam os sintomas. São sinais que, normalmente, os mais crescidos interpretam da maneira menos correcta.
“Os pais têm que estar em alerta”. O aviso é de Kay Chang, psicóloga clínica, que amanhã conduz um workshop intitulado “Kicking the Blues: Helping Children and Teenagers Handle Depressive Moods”, no Hotel Grandview, na Taipa.
“O que aconteceu aos nossos filhos? Qual é a melhor forma de lidar com eles quando os dias não lhes parecem correr bem?” Ao longo de duas horas, a académica formada na Universidade Alliant, na Califórnia, vai responder a estas e a muitas outras perguntas, numa iniciativa que é organizada pelo instituto Ripples Psychological Ensemble.
Mais do que a infância, a adolescência é um dos períodos mais críticos do percurso de um indivíduo até à sua idade adulta. Tudo influencia o modo como as crianças ultrapassam as várias fases de desenvolvimento. Um dos principais factores é o meio social no qual estamos inseridos. Macau, claro está, representa um caso particular.
O desenvolvimento acelerado da economia e as constantes mudanças sociais que tal situação implica também se reflectem na estabilidade mental dos mais pequenos.
“Com a nova realidade do território, as famílias passaram a ter um diferente ritmo diário. Os pais estão mais ocupados e stressados”, apontou Kay Chang.
São as experiências entre especialista e pacientes que estão a falar. Segundo a psicóloga e académica, ainda não há estudos concretos e dados estatísticos sobre esta matéria. No entanto, dentro do consultório, as alterações nas relações pessoais e no dia-a-dia, bem como os divórcios dos progenitores (em número sempre crescente), são as razões mais apontadas pelos pequenos pacientes para justificarem os seus comportamentos depressivos.
No caso dos adolescentes, além dos problemas com o aspecto físico e os namorados e namoradas, a psicóloga encontrou uma característica especialmente relacionada com a RAEM - o “valor do dinheiro”. “A noção da importância do dinheiro mudou drasticamente nos últimos anos”, frisou a mesma responsável.
“É difícil para os adolescentes perceberem porque é que os pais dos amigos têm mais posses do que os seus. Exigem ter os mesmos objectos caros que os colegas têm”, explicou.
A par disto, há ainda a situação dos filhos de famílias expatriadas. Estas crianças têm que atravessar um período de adaptação a uma nova realidade. Tudo começa de novo. Além da escola e amigos, os mais pequenos têm que descobrir um novo território e uma organização social diferente.
“São mudanças que os adultos conseguem digerir de uma maneira muito fácil, ao contrário das crianças”, observou a oradora do workshop que se destina a pais e encarregados de educação. A língua veicular do seminário é a inglesa.
“Vou alertar os pais e as mães para os comportamentos estranhos e as alterações de humor dos seus rebentos. É necessário ter atenção aos sinais”, reiterou Kay Chang. Quais são então os sintomas de depressão entre crianças e adolescentes? “São diferentes dos adultos que normalmente se sentem tristes, com pouca energia ou sofrem de falta de apetite”, explicou a psicóloga.
Os comportamentos depressivos nos mais novos revelam-se através da redução do rendimento escolar, quando se queixam demasiado e choram facilmente. Atitudes que são, quase sempre, associadas a outros motivos. Se os jovens começam a revelar menos interesse em sair com os amigos e se mostram mais cansados do que o habitual também há razões para disparar o alerta vermelho.
A estes sintomas Kay Chang chama de “estratégias saudáveis” para lidar com a depressão. Há ainda aquelas que a especialista denomina de “não tão saudáveis”, que acontecem quando as pessoas de palmo e meio pensam e falam muito no tema morte ou quando adoptam comportamentos de risco. Isto é, abusar do consumo de bebidas alcoólicas e passar muito tempo na Internet a jogar on-line.
Detectados e interpretados todos os sinais, qual é o próximo passo? O conselho da psicóloga é consultar um profissional. “Alguém mais experiente que possa juntar todos os sintomas e fazer uma análise global”.
De acordo com estudos efectuados nos Estados Unidos, 2,5 por cento das crianças sofrem de depressão. Se estivermos a falar apenas de adolescentes, este valor ascende para os oito por cento.
Kay Chang é a directora da delegação de Macau do instituto Ripples Psychological Ensemble, uma organização independente de profissionais que pretende oferecer serviços de psicologia de carácter internacional. Agora também estabelecido em Macau, este grupo quer funcionar como um agente positivo de mudança, trabalhando tanto com o público em geral, como com organizações e empresas.
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Castanheira Lourenço regressa o TUI, Radiografia da comunidade cabo-verdiana
Cerco cerrado
A testemunha foi arrolada pelo colectivo, que se mostrou nitidamente insatisfeito com o facto de o primeiro depoimento de Castanheira Lourenço, no passado dia 19, não ter sido mais pormenorizado. Em causa está o ajuste directo, por parte do Governo, do contrato de gestão e manutenção das Portas do Cerco à empresa Tong Lei, adjudicação esta que a acusação entende ter sido feita de forma ilícita.
No primeiro depoimento prestado, o antigo responsável pelo GDI tinha considerado normal o ajuste directo do contrato à Tong Lei, uma vez que foi a empresa responsável pela obra, sendo assim conhecedora do processo. Castanheira Lourenço tinha dito também que a empresa estava capacitada para desenvolver o trabalho em análise. Segundo a acusação, a Tong Lei não tinha este tipo de actividade inscrito no seu objecto social na altura em que foi escolhida para executar as tarefas.
Já depois da ida do ex-coordenador do GDI ao TUI, foram aditados três artigos aos autos, na sequência do depoimento de uma testemunha que explicou que a Tong Lei contratou uma outra empresa, a Nam Ou, para fazer a gestão e manutenção das Portas do Cerco. O facto de Castanheira Lourenço não ter mencionado a existência desta subempreitada deixou o Tribunal descontente, com Viriato Lima a afirmar que a testemunha omitiu informações ao TUI.
Na resposta, o ex-coordenador argumentou que não lhe foram colocadas questões de modo a que tivesse que dar tantos detalhes, explicando ainda que as subcontratações são procedimentos normais em empreitadas. Referiu também que a relação contratual foi estabelecida com a Tong Lei, tendo o GDI lidado com a proposta por esta apresentada e não com empresas que esta tenha subcontratado.
Ainda sobre este contrato, a testemunha explicou que o ajuste directo resultou do facto de não ter havido tempo para efectuar um concurso público, afirmação que levou os juízes a quererem saber os prazos da conclusão das obras e a altura em que foi decidida a adjudicação à empresa de Tang Kin Man. Castanheira Lourenço voltou a referir que a ideia inicial era entregar a gestão e a manutenção das Portas do Cerco ao Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), tal não tendo sido possível porque o organismo não detinha condições para desempenhar o trabalho.
Disse também que o processo de negociação com o IACM, gerido por Custódia de Sousa (ver texto nesta página), foi demorado, pelo que a solução encontrada por Ao Man Long (e que recebeu a sua concordância técnica), foi avançar para o ajuste directo à Tong Lei, que conhecia melhor do que nenhuma outra empresa os trabalhos a efectuar. Tratou-se de uma solução transitória, acrescentou a testemunha.
Aquando da primeira deslocação ao TUI, Castanheira Lourenço tinha defendido a razoabilidade do ajuste directo dando o exemplo do Centro Cultural de Macau (CCM), em que não foi adoptado este procedimento, tendo daí decorrido conflitos na assunção da responsabilidade, com duas empresas diferentes a atribuírem falhas uma à outra. Em reposta ao juiz Lai Kin Hong, uma testemunha ouvida posteriormente pelo TUI (um subempreiteiro da Tong Lei constituído arguido no processo conexo) disse não ter tido conhecimento de quaisquer problemas no CCM, cuja construção esteve a cargo da empresa de Tang Kin Man.
Ontem, o antigo coordenador do GDI precisou que foi o próprio presidente da comissão instaladora do CCM que lhe falou dos conflitos existentes que surgiram na manutenção do espaço.
Castanheira Lourenço foi também chamado ao TUI para prestar mais esclarecimentos sobre as obras adicionais feitas no parque subterrâneo do posto fronteiriço, trabalhos esses que a testemunha tinha justificado com o facto de a população ter reivindicado uma maior ventilação, embora o projecto inicial estivesse de acordo com os padrões internacionais. Numa sessão posterior, um investigador do Comissariado Contra a Corrupção garantiu que estas obras se deveram a falhas no projecto. Ontem, o ex-responsável pelo GDI disse ter a certeza que o projecto seguia as normas internacionais porque foram feitos dois relatórios sobre a matéria, além de um estudo de uma empresa de Hong Kong especialista na matéria.
Da inquirição de Castanheira Lourenço, destaque ainda para as interrupções do Ministério Público às respostas da testemunha, numa inquirição feita num tom bastante mais “duro” do que as que se ouviram, até à data, na sala de audiências do TUI. A determinada altura, o juiz Lai Kin Hong chegou mesmo a lembrar que a testemunha tinha prestado juramento. Comparando com o que tinha dito na sessão de 19 de Novembro, Castanheira Lourenço manteve os mesmos argumentos e respostas, reiterando que Ao Man Long nunca interferiu na adjudicação das obras a cargo do GDI.
A testemunha dos pormenores
Voltou ontem ao TUI a consultora do GDI responsável pelo acompanhamento das obras nas Portas do Cerco. À semelhança do que aconteceu no passado dia 19, quando a testemunha esteve no TUI pela primeira vez, depondo depois de Castanheira Lourenço, Custódia de Sousa sustentou as respostas dadas pelo antigo coordenador do GDI, acrescentando mais pormenores técnicos sobre os trabalhos, uma vez que os acompanhou a par e passo.
A testemunha, arrolada pela defesa depois dos juízes terem manifestado a intenção de chamarem Castanheira Lourenço para voltar a depor, começou por fornecer mais detalhes sobre o ajuste directo do contrato de gestão e manutenção das Portas do Cerco à Tong Lei, referindo que tinha conhecimento da subcontratação da Nam Ou pela empresa de Tang Kin Man, uma vez que a lista dos subcontratados foi enviada ao GDI.
Em resposta ao Ministério Público, que colocou em causa a adjudicação deste contrato e quis saber qual o papel verdadeiramente desempenhado pela Tong Lei (uma vez que esta subcontratou a prestação de serviços), a testemunha explicou que, além de gerir as várias empresas envolvidas na manutenção do espaço, a adjudicatária era ainda responsável pelos trabalhos de reparação de construção civil.
A acusação questionou se estes trabalhos não estavam dentro da garantia a que a Tong Lei estava contratualmente obrigada, uma vez que foi a responsável pela obra, tendo a testemunha explicado que há aspectos cuja responsabilidade se pode imputar à empresa fornecedora do serviço, sendo que outros decorrem da má utilização ou de acidentes que não estão abrangidos pelas garantias.
Numa das sessões do julgamento do ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas, um investigador do Comissariado Contra a Corrupção apontou erros ao projecto de construção do muro da Unidade Táctica de Intervenção da Polícia, atribuindo a necessidade de várias obras adicionais a estas falhas. Recorde-se que tanto Castanheira Lourenço como Custódia de Sousa tinham justificado estas trabalhos com o facto das Forças de Segurança terem feito vários pedidos após a concepção do projecto inicial.
Custódia de Sousa foi para o Tribunal bem preparada, com a lista dos ofícios trocados entre as Forças de Segurança e o GDI, dando a conhecer, ponto por ponto, as várias exigências que foram sendo feitas ao Gabinete e que tiveram como consequência as várias obras adicionais, que a acusação entende serem resultantes do favorecimento da Tong Lei pelo arguido.
Tal como aconteceu na sessão de 19 de Novembro, quando foi ouvida pela primeira vez, Custódia de Sousa não hesitou, uma única vez, nas respostas a dar, reiterando vários aspectos respeitantes à obra que tinham constado das suas primeiras declarações. A técnica do GDI e o seu antigo superior, Castanheira Lourenço, negaram em Tribunal alguma vez terem recebido indicações do ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas para alterarem classificações em concursos públicos ou privilegiarem empresários.
O julgamento de Ao Man Long, detido há precisamente um ano, continua amanhã, estando prevista a inquirição das testemunhas arroladas pela defesa. De acordo com Nuno Simões, advogado de Ao Man Long, serão cerca de 15 as pessoas a ouvir, não devendo ser necessário mais do que dia e meio para os depoimentos.
A vez dos arquitectos
Um investigador do Comissariado Contra a Corrupção questionou, há dias, a qualidade dos projectos das Portas do Cerco, atribuindo algumas das muitas obras adicionais a deficiências na planificação do trabalho. O Tribunal de Última Instância decidiu, por isso chamar os projectistas para saber o que tinham a dizer sobre a necessidade destes trabalhos complementares.
José Catita e José Pereira Chan foram os arquitectos responsáveis pelos projectos do edifício das Portas do Cerco e do parque subterrâneo de autocarros, respectivamente. A ida ao Tribunal não veio acrescentar informações de revelo: ambos os arquitectos explicaram aos juízes que, após entregue o projecto e adjudicada a obra ao empreiteiro responsável, as suas funções são de mera assistência técnica. Obras adicionais são da inteira responsabilidade do dono da obra, neste caso o Governo, e as estruturas provisórias, como passagens superiores para peões (duas das obras adicionais adjudicadas à empresa Tong Lei, responsável por toda a construção), são feitas pelo empreiteiro, não estando dependentes do trabalho de arquitectos.
José Pereira Chan pronunciou-se sobre a polémica obra adicional feita no parque subterrâneo, relativa ao sistema de ventilação. O arquitecto defendeu que, quando elabora um projecto, pensa não só na sua funcionalidade e no cumprimento das regras mas também nos custos que representam para o dono da obra. Por isso, considera que foi um “esbanjamento de erário público” a colocação (posterior à obra inicial) de aparelhos de ar condicionado no parque, só para “apaziguar a população”, considerando inútil a solução adoptada por se tratar de um espaço aberto e refutando qualquer responsabilidade em relação aos trabalhos adicionais que o Governo decidiu fazer.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn
Não sabe se parte ou se fica. É este o dilema que, nos últimos tempos, tem afligido Márcia Silva. Uma estudante cabo-verdiana de Comunicação na Universidade de Macau que está prestes a terminar a licenciatura que a trouxe ao território. Há três anos, veio parar à RAEM por via de uma bolsa de estudos concedida pelo Governo do seu país. Eram vários os pontos do globo que tinha à sua disposição, mas o exotismo do Oriente falou mais alto. “Candidatei-me para Macau, porque queria vir para um sítio diferente”, frisa.
As saudades do país das ilhas do Oceano Atlântico transparecem ao longo do discurso. “Não foi fácil a adaptação, mas a comunidade cabo-verdiana local tem-me ajudado muito. Se há uma diferença que posso apontar ao meu povo é que está sempre unido, fazemos muitas reuniões, festas e cachupadas”, salienta.
É forte a vontade de lembrar a terra. Foi, por isso mesmo, que um grupo de residentes naturais deste país africano se juntou para formar uma associação. Isto já lá vão oito anos, na altura da criação da RAEM. Tudo se processou em duas fases, segundo explica um dos fundadores da organização, Mário Évora.
“As actividades da comunidade iniciaram-se sem uma estrutura formal, dado o reduzido número de elementos cabo-verdianos a residir, naqueles tempos, no território. Éramos responsáveis pela promoção de exposições de pintura, recepções a artistas conterrâneos, bem como de entidades oficiais”, recorda o mesmo responsável.
A decisão de formalizar a associação partiu de uma “questão numérica”. “Começaram a chegar mais cabo-verdianos e concluímos que assim era mais fácil trabalhar ad hoc”, acrescentou.
Actualmente, há cerca de 40 elementos cabo-verdianos a residir e estudar em Macau. Um número considerável se tivermos em conta que há 26 anos só existia “meia dúzia” de cidadãos deste país africano. Foi nesta altura que chegou ao território Dani Pinto, um dos responsáveis pela parte cultural e recreativa da Associação Amizade Macau Cabo Verde. A Cultura é uma das imagens de marca do país. Por isso, a organização assumiu o papel de promoção desta característica única.
No entanto, segundo o responsável, a importância da comunidade para Macau não se resume apenas à componente cultural. “Os cabo-verdianos são pessoas com um nível considerável de formação. Não podemos falar de uma elite, mas somos uma comunidade muito bem vista no território. Grande parte de nós tem uma profissão nas áreas da função pública, na advocacia, medicina, entre outros”, sustenta.
Para Dani Pinto, o povo cabo-verdiano define-se numa frase em tempos usada por um ministro. “Uma vez perguntaram-lhe, o que é que Cabo Verde tem para oferecer? Ele respondeu: Latitude, longitude e cabo-verdianos”, conta.
A comunidade deste país africano que está estabelecida em Macau não difere muito do resto do mundo. Cabo Verde tem a particularidade do número de cidadãos emigrantes ser superior à própria população.
Márcia Silva faz parte de um dos grupos que caracteriza esta comunidade lusófona da RAEM – os bolseiros. A par dos quadros qualificados, a população estudantil é a menina dos olhos dos membros da comunidade.
“É com orgulho que admito que o contingente de estudantes que vem para a RAEM tem 100 por cento de sucesso escolar. Muitos ficaram cá e aqui criaram as suas raízes”, sublinha Dani Pinto.
Uma decisão que Márcia Silva tem que tomar até Junho, altura para a qual está marcada a sua cerimónia de graduação. “Às vezes digo que fico, outras que vou. O mais provável é acabar por ficar, como a maior parte dos cabo-verdianos que fazem o mesmo caminho que eu aqui em Macau”, confessa.
Quanto ao futuro da comunidade, Mário Évora não faz previsões que haja um aumento significativo do número de compatriotas no território. “Não consigo adivinhar cabo-verdianos a virem para Macau fora do actual contexto, isto é estudantes bolseiros e quadros qualificados”, defende.
Relativamente à organização de actividades, será realizado um torneio de futsal de Cabo Verde no início do próximo ano e um evento cultural que Dani Pinto prefere deixar no segredo dos deuses. A associação lusófona tem ainda intenção de organizar mais iniciativas fora da Festa da Lusofonia.
Uma “lacuna” que, segundo o responsável, está associada às comunidades de expressão em língua portuguesa. “A nossa intenção é dar o primeiro passo para resolver este problema”, afirma Dani Pinto.
É assim o povo de Cabo Verde. Lutador e pró-activo. Já o dizia Ovídio Martins, escritor e jornalista natural de uma das ilhas do arquipélago africano - “Continua(re)mos de pé, num desafio aos deuses e aos homens”.
Márcia Silva não fala em verso, mas as características que destaca nos seus conterrâneos são as mesmas que estão escondidas nesta frase. “As pessoas de Cabo Verde são trabalhadoras, inteligentes e lutam pelo que querem. Não ficam à espera que as coisas lhes caiam nas mãos. Têm ambição e interesses. O cabo-verdiano quer provar a si próprio que consegue atingir os seus objectivos.”
Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Saúde na voz
Por uma melhor comunicação
Existem nove terapeutas da fala no território, um número “insuficiente” face aos habitantes de Macau. Tendo criado uma associação no passado dia 24 de Novembro, estes profissionais juntaram-se para sensibilizar Governo e associações para a necessidade de mais terapeutas. Ainda a pensar no plano para o próximo ano, Tommy Ian, presidente do organismo, adiantou que “um dia de promoção de saúde na voz ou de diagnóstico gratuito a crianças” são hipóteses viáveis.
Pensando em Hong Kong, em que “o número de terapeutas ascende aos 700 para uma população de sete milhões”, Tommy Ian não deixa de salientar que Macau fica muito atrás. “Somos nove para 700 mil pessoas – claramente há falta de profissionais”, declarou. Porquê? “É entendimento comum enraizado que quando as crianças não sabem falar, mais vale esperar. Ou então que tomando medicamentos ou recorrendo à medicina chinesa, tal venha a acontecer. No caso dos idosos que, por exemplo, sofreram uma trombose e deixaram de falar, as pessoas dizem que é o destino”, explica Tommy Ian. Uma falta de preocupação que se estende a organismos oficiais e ao Governo.
Mas o presidente da Associação dos Terapeutas da Fala de Macau (MAST em inglês) realça a importância da terapia da fala. “Ajudamos crianças com problemas de fala, deglutição, aprendizagem e articulação, dislexia, síndroma de Down, para além de idosos que sofreram uma trombose tendo perdido a capacidade de comunicação, ou adultos com problemas de articulação e gaguez”, declarou. E através da terapia da fala, “pode fazer-se a diferença na qualidade de vida das pessoas”.
Dos nove profissionais a actuar no território, apenas Tommy Ian trabalha numa clínica privada. “Seis trabalham na Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, um trabalha no Instituto de Acção Social e outro no Centro Hospitalar Conde São Januário – apenas dois destes lidam com idosos e adultos”, conta. Por isso, defende, “talvez se possam recrutar mais profissionais de Taiwan ou Hong Kong”.
Tendo em conta que a principal área de intervenção são as crianças, os métodos usados são especiais. “Primeiro falamos com as crianças e os pais, vemos qual a dimensão do problema e usamos brinquedos e jogos para pô-los mais à vontade”, explica. Sempre através da diversão. Mais difícil é trabalhar com idosos, porque “alguns deles, depois de uma trombose, podem ter problemas de compreensão e não mexer os músculos faciais – precisamos de avaliar a capacidade de escrever e ler”. Mas, mais importante, é “lidar com as emoções, porque muitos deles têm depressões”.
Macau é um local especial, dado o cruzamento de culturas. E é porque existe essa interculturalidade que “os profissionais que actuam em Macau são de Hong Kong, Taiwan e Portugal”. No total, acabam por comunicar em mandarim, cantonês, inglês e português. E quanto a uma eventual barreira cultural? “Para alguns terapeutas pode existir, mas desde que gostes de crianças, e que saibas qual o seu brinquedo favorito, é fácil trabalhar”. Algo que também “depende dos pais”. Mas, mais importante do que superar barreiras culturais, “são as competências”, afirma.
A terapia da fala incide a sua actividade no tratamento. No que toca à prevenção, pouco se pode fazer quanto a doenças crónicas. Mas o mesmo não se pode dizer no que “toca a profissionais, como professores ou vendedores, que usam demasiado a voz, podendo sugerir-se formas de abusar menos”. No que toca aos problemas de linguagem das crianças, a prevenção pode passar por “sugestões aos pais sobre como interagir melhor, de forma a ajudar”.
Natural de Hong Kong, falando um inglês fluente, aos 27 anos, Tommy Ian só chegou a Macau em 2004, estando actualmente a trabalhar para uma clínica privada e para a escola da Concórdia. “Gosto de brincar e interagir com crianças. Quanto aos adultos, gosto de ensiná-los a lidar com as suas dificuldades. Para quem gosta de interagir e ajudar, a terapia da fala é a melhor opção”, concluiu.
Uma terapeuta portuguesa
Carla Luz Silva, 35 anos, é terapeuta da fala em Macau. Natural do território, trabalha principalmente com crianças dos seis aos 15 anos. Lidando com meninos naturais de Macau, portugueses ou filipinos que se deparam com problemas de aprendizagem do português, o principal obstáculo ao seu trabalho é a “falta de livros de estudo e testes na língua lusa”, recorrendo, por isso, aos de língua inglesa. E nem sempre se adequam. É o caso dos chamados testes de articulação – “existem fonemas na língua portuguesa que não existem em inglês”.
Mas a maioria dos problemas que batem à porta de Carla Luz Silva passam por “problemas de articulação”. Tratam-se de crianças encaminhadas pelas educadoras, depois de dois anos em que se verifica um “fraco domínio do português”. Cabe depois à terapeuta averiguar se “têm pouco domínio da língua ou se existe alguma dificuldade de aprendizagem”. Contudo, dado que são bilingues, torna-se difícil averiguar a fonte do problema. “Muitas vezes os pais não falam em português com os filhos em casa, deixando essa tarefa para a escola, mas na escola fala-se cantonês, inglês e português”, explica. Daí resulta a dificuldade em perceber se existe um “mau domínio da língua” ou “problemas de aprendizagem”.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
Cabo Verde quer mais cooperação, O que o CCAC sabia, Culturas cruzadas em debate
Desejos de maior cooperação turística
Mais cooperação, principalmente no âmbito do turismo. Eis as intenções manifestadas pelo ministro da Economia, Crescimento e Competitividade de Cabo Verde à chegada ao território. Uma visita de dois dias à RAEM que não poderia deixar de acontecer, “no quadro de uma passagem pela República Popular da China”, conforme declarou ao Tai Chung Pou.
De acordo com José Brito, Macau seria sempre um destino obrigatório, ou não residisse aqui “uma comunidade cabo-verdiana lusófona”, para além de haver uma relação estreita com o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Mas, acima de tudo, é tendo em conta o “potencial de desenvolvimento e cooperação entre Cabo Verde e Macau”, que esta visita se enquadra, até porque, conforme adiantou o governante, Cabo Verde espera que a cooperação se estenda a outras áreas, para além da tradicional “formação e ensino”.
Constando do programa da visita algumas reuniões de trabalho com o secretariado permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, com o Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM) e com o cônsul honorário de Cabo Verde na RAEM, David Chow, o governante afirmou ainda ao Tai Chung Pou que espera “mais investimentos”, para além de conhecer melhor a “experiência de Macau, sobretudo no domínio do turismo”. No que toca à formação e ensino, a cooperação já está assente, mas Cabo Verde quer mais. Por isso, o ministro espera que “se possa ir mais longe em termos de investimento”.
Com o acordo de dupla tributação entre Macau e Cabo Verde a constar das Linhas de Acção Governativa (LAG) para 2008, o ministro afirma que “o acordo já estava quase pronto, mas um problema técnico impediu que fosse assinado”. Contudo, espera “assinar na primeira oportunidade”. Um acordo que trará “vantagens para os dois lados”.
Não querendo levantar o véu quanto ao que espera e ao que poderá resultar desta visita oficial, José Brito afirmou que apenas depois dos encontros oficiais poderá ter mais novidades. Quanto à situação da comunidade cabo-verdiana residente em Macau, só após o encontro com a comunidade “terá mais sensibilidade sobre as suas preocupações”.
Recorde-se que para hoje estão previstas reuniões de trabalho com o secretário para a Economia e Finanças da RAEM, Francis Tam, um encontro com o Chefe do Executivo, Edmund Ho, para além de decorrer a cerimónia de assinatura do protocolo de geminação entre a RAEM e a Cidade da Praia.
Da comitiva que acompanha o governante fazem parte ainda o embaixador de Cabo Verde em Pequim, Júlio Morais, bem como o presidente da câmara municipal da Praia, Felisberto Vieira, o presidente da câmara municipal de Santa Cruz, Orlando Sanches, o administrador da Cabo Verde Investimentos, Alexandre Fontes, para além de vários empresários.
Luciana Leitão
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn
Testemunha diz que suspeitas sobre a Sam Meng Fai começaram em 2005
A busca desconhecida do CCAC
A busca desconhecida do CCAC
Desde meados de 2005 que o Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) suspeitava que a Sam Meng Fai praticava crimes de corrupção activa, tendo mesmo chegado a fazer uma busca nas instalações da empresa detida por Ho Meng Fai, empresário constituído arguido no processo conexo ao do ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas.
A revelação das suspeitas em torno da empresa foi feita ontem por um assessor jurídico do CCAC, Wu Ka Wai, que foi ao Tribunal de Última Instância (TUI) depor no âmbito do julgamento de Ao Man Long, que responde por 76 crimes, a maioria de corrupção passiva para acto ilícito e de branqueamento de capitais. Segundo a acusação, foi precisamente na relação que o ex-secretário mantinha com Ho Meng Fai que foi praticada uma significativa parte dos crimes de corrupção, sendo este o empresário (num total de quatro) que mais dinheiro terá dado ao antigo governante como forma de compensação pela adjudicação de empreitadas.
De acordo com o depoimento de Wu Ka Wai, em 2005 o CCAC recebeu uma denúncia que indicava que a Sam Meng Fai teria subornado um funcionário público. Na altura, explicou o assessor jurídico do organismo de combate à corrupção, não havia nada que apontasse para o envolvimento de Ao Man Long. O CCAC considerou, contudo, que havia indícios de subornos, pelo que efectuou uma busca aos escritórios da empresa.
Segundo a mesma testemunha, foram encontrados registos bancários e documentos sobre transferências de “mais de um milhão de patacas” cada para contas dos funcionários de Ho Meng Fai. “Suspeitámos que não se tratassem de procedimentos normais”, disse ainda o assessor jurídico, sem ter, contudo, indicado qual foi o passo que o CCAC tomou a seguir.
Sabe-se apenas que os documentos encontrados em 2005 foram anexos aos autos da acusação de Ao Man Long, detido mais de um ano depois da busca feita pelo Comissariado à Sam Meng Fai.
A revelação feita pela testemunha surgiu no meio de um depoimento que abrangeu temas tão diferentes como o telemóvel que o arguido usava (mas que estava em nome do cunhado) e através do qual faria contactos essencialmente com empreiteiros, e as razões pelas quais determinadas obras implicadas no processo foram adjudicadas de forma ilegal. O assessor considera que houve violação da lei na forma como foi redigido o caderno de encargos da primeira fase de construção da Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental, no ajuste directo do contrato de prestação de serviços de gestão e de manutenção das instalações das Portas do Cerco à Tong Lei, na adjudicação directa da Estação de Tratamento de Água Residuais do Aeroporto de Macau à Engenharia Hidráulica, na autorização da construção das torres no lote 5 de Pac On, na troca de terrenos que envolve uma parcela situada na Rua Fernão Mendes Pinto, na Taipa, e na concessão do terreno onde estão construídas as vivendas de Hac Sa.
Em relação à Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental, Wu Ka Wai alegou que a ausência, no caderno de encargos, da indicação de empreitadas posteriores a atribuir à mesma empresa foi prejudicial para os demais concorrentes que, caso tivessem conhecimento deste facto, apresentariam, por certo, valores inferiores no concurso público que definiu a adjudicação da primeira fase.
A defesa insistiu bastante neste ponto do depoimento, perguntando à testemunha se os empreiteiros a concurso não tinham consciência, pelo caderno de encargos, que seriam necessárias outras obras para que a Nave ficasse completa. O assessor jurídico disse que “podiam não saber”. Recorde-se que a primeira fase da Nave consistiu apenas na construção da estrutura do edifício, sem quaisquer trabalhos realizados, por exemplo, no interior do recinto desportivo.
Outra das declarações contestadas pela defesa – e que levantou também dúvidas ao colectivo de juízes – prendeu-se com o facto de o assessor jurídico ter justificado a ilegalidade cometida na construção das torres de Pac On com uma lei datada de 1963. A defesa quis saber se essa lei tinha sido alguma vez utilizada no indeferimento de obras privadas em Macau depois de 1987, ano em que foi emitida uma circular que terá modificado algumas directrizes do diploma, nomeadamente a altura dos edifícios. Wu Ka Wai respondeu dizendo que só tinha estudado as obras constantes do processo, reiterando que não se cumpriu a lei no caso em análise. Nuno Simões perguntou então se todos os edifícios altos de Macau, incluindo a polémica construção no sopé do Farol da Guia, estavam a desrespeitar a legislação, tendo a testemunha respondido que não tinha dados para se pronunciar.
Uns minutos depois, o presidente do TUI, Sam Hou Fai, mostrou não estar convencido com o esclarecimento prestado pelo assessor do CCAC, voltando a colocar a mesma questão e perguntando, também, se as declarações feitas acerca das ilegalidades alegadamente cometidas eram resultado das suas opiniões pessoais. A testemunha disse que sim, acrescentando também serem fruto da sua experiência profissional.
À baila veio de novo a polémica busca levada a cabo pelo CCAC à residência de Ao Man Long (onde foi apreendida a maioria das provas documentais) feita, segundo a defesa, sem que o arguido tivesse sido notificado para estar presente ou se fazer representar. Inquirido por Nuno Simões, o assessor assegurou que foi tudo feito de acordo com a lei, tendo sido entregue cópia do mandado de busca ao agente da polícia que se encontrava destacado na residência oficial do ex-secretário, sendo que este entregou o documento ao seu superior. Ainda em resposta ao advogado, a testemunha disse que o agente não assistiu à diligência do CCAC.
De acordo com o Código do Processo Penal (CPP) de Macau, a busca em domicílios deve ser feita na presença do residente ou de alguém que o represente que até pode ser, no limite, o porteiro. Por tal não ter acontecido, a defesa requereu a nulidade da obtenção do meio de prova, indeferida pelo TUI. Esta decisão esteve na origem da interposição de um recurso pela defesa, que veio levantar, em termos práticos, uma questão determinante para o processo. É que a lei processual de Macau não prevê a avaliação de recursos em relação a decisões tomadas pelo Tribunal de Última Instância, mesmo que estas digam respeito a um processo que está a ser julgado em primeira instância, como é o caso de Ao Man Long. A lacuna faz com que não esteja, assim, garantido, o direito a um grau de recurso previsto pela Lei Básica da RAEM.
Segundo o que apurou o Tai Chung Pou, ao final da tarde de ontem, e dez dias passados da apresentação do recurso, o TUI ainda não tinha emitido o respectivo despacho de admissibilidade, um procedimento formal em que o Tribunal tem que avaliar a forma como foi interposto. Caso cumpra as directrizes determinadas pelo CPP, compete ao Tribunal identificar qual a instância que avaliará o recurso, bem como determinar se tem ou não efeitos suspensivos.
Investigadores explicam contas feitas pelo CCAC
Os depoimentos dos pormenores
O Tribunal de Última Instância (TUI) ouviu ontem mais dois investigadores do Comissariado Contra a Corrupção (CCAC). À semelhança do que aconteceu nas sessões anteriores, estas duas testemunhas, arroladas pelo Ministério Público (MP), prestaram depoimento com o auxílio de material informático, projectando em ecrãs da sala de audiências os documentos que levaram o CCAC a concluir haver matéria que indicia a prática dos crimes imputados a Ao Man Long.
O primeiro investigador ouvido, Io Fu Chun, foi o responsável pela averiguação dos alegados subornos do empresário Ho Meng Fai, proprietário da empresa Sam Meng Fai, ao antigo secretário para os Transportes e Obras Públicas, tendo ainda apresentado os documentos que levam o CCAC a crer que o arguido recebeu, em troca do favorecimento na adjudicação de várias obras em Macau, um total de 163,193 milhões de patacas, valor depositado em várias contas bancárias de Hong Kong.
De acordo com a testemunha, os valores pagos por Ho Meng Fai chegaram às contas alegadamente geridas por Ao Man Long entre 2004 e Junho de 2006, através de nove complicados processos de transferências. O investigador explicou que o empresário, cujo paradeiro actual é desconhecido, recorria à irmã mais nova, bem como a funcionários da Sam Meng Fai e a empreiteiros com os quais mantinha relações de trabalho, para fazer chegar o dinheiro às contas da Citygrand e da Ecoline, duas offshores que a acusação entende que eram totalmente controladas pelo arguido.
Para estes pagamentos, eram também utilizadas duas empresas da irmã de Ho Meng Fai, sendo que parte dos cheques entregues foram endossados pelo pai de Ao Man Long, Ao Veng Kong, e depositados em contas que estariam sob o controlo do antigo governante. A dada altura, Io Fu Chun fez referência a um cheque endossado pelo arguido com um outro nome que alegadamente utilizava.
Ao longo do depoimento, a testemunha foi mostrando cópias de cheques e de recibos de depósitos bancários, entre outros documentos. O investigador do CCAC disse ainda que os valores estudados coincidiam com os apontamentos feitos por Ao nos seus cadernos pessoais. Inquirido pela acusação acerca da proveniência da documentação mostrada, Io Fu Chun disse ter sido enviada pelos bancos de Hong Kong ao abrigo da cooperação judiciária com a RAEM.
Recorde-se que, na passada semana, a defesa (que ontem não inquiriu as testemunhas do CCAC ouvidas durante a manhã) perguntou a um investigador do organismo se detinha documentação dos bancos sobre o valor total depositado nas contas bancárias de Hong Kong. Ficou-se a saber, pelas questões do advogado Nuno Simões e pelo depoimento feito, que o CCAC obteve apenas a confirmação dos montantes totais depositados no Banco da China. Quanto às outras entidades bancárias, não forneceram às autoridades de Macau os saldos das contas, depois da detenção de Ao Man Long.
Ontem, não foi exibido qualquer saldo de conta, mas sim cópias de cheques e de documentos referentes a depósitos e transferências. O outro investigador do CCAC ouvido durante a manhã - que foi ao TUI falar da alegada relação entre o arguido e as empresas Tong Lei e Chong Tit – prestou depoimento de forma semelhante, utilizando, contudo, um extracto da conta do empresário Chan Tong Sang para demonstrar como é que, após receber o valor das obras adjudicadas pelo Governo, este fazia transferências de uma determinada percentagem para outras contas, para mais tarde o dinheiro chegar a Ao Man Long.
Segundo esta testemunha, a Tong Lei, do empresário Tang Kin Man (que se encontra em paradeiro desconhecido) pagou um total de 45,44 milhões de patacas, entre 2003 e Junho de 2006, em sete momentos diferentes. Com um esquema de transferências bastante mais simples do que o alegadamente utilizado por Ho Meng Fai, o empresário recorria ao apoio da sua secretária e também de um amigo para o levantamento de cheques e depósitos em contas de Hong Kong.
O dinheiro era depois depositado em contas bancárias cujos titulares eram Lee Se Cheong (um amigo da família de Ao falecido no ano passado e que chegou a ser administrador da CEM, surgindo o seu nome associado ao processo num dos crimes de abuso de poder imputados ao ex-secretário) e Ao Chan Wai Choi (cunhada do arguido), com cheques endossados por estes.
Ainda pelo que disse o investigador do CCAC, Tang Kin Man detinha uma empresa em Hong Kong com a secretária, a Sucess Land Group Limited, através da qual eram emitidos cheques em nome da Ecoline, outra offshore alegadamente gerida pelo antigo secretário.
Quanto a Chan Tong Sang, o investigador explicou que o empresário pagou ao arguido 19 milhões de patacas em subornos, pagamentos que eram também feitos com a ajuda de terceiros. De acordo com o depoimento desta testemunha, uma empresa que terá ajudado o proprietário da Chong Tit nas transferências de valores recebeu uma quota-parte, em jeito de compensação pelo serviço prestado. Os cheques mostrados pelo investigador estavam endossados por Ao Veng Kong.
Da lista de testemunhas arroladas pelo MP faziam ainda parte mais dois investigadores do CCAC que deveriam ter sido inquiridos ontem, mas a acusação acabou por dispensá-los. O mesmo aconteceu com o empresário Chan Tong Sang, que foi notificado duas vezes para ir ao TUI, não tendo comparecido e apresentado atestado médico para justificar a ausência.
Diz que disse mas não disse
Um funcionário da Engenharia Hidráulica, empresa que gere a Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Macau e a ETAR do Aeroporto, foi ontem ao TUI dizer que ouviu rumores, na empresa, sobre alegados subornos a Ao Man Long, desconhecendo, no entanto, pormenores sobre a matéria.
Mark Lawrence Hollings foi chamado ao TUI depois de, numa das sessões do julgamento, uma das ex-funcionárias da empresa ter afirmado que este lhe tinha contado que o responsável máximo pela Engenharia Hidráulica, Richard Robinson, quando estava embriagado, lhe dizia que transportava na mala uma grande quantia de dinheiro para dar a Ao Man Long.
A testemunha negou alguma vez ter feito tal afirmação, vincando que nunca ouviu sequer falar de malas. Confirmou, contudo, a existência de rumores sobre alegados subornos ao ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas, admitindo a hipótese de terem vindo de Richard Robinson. O responsável da Engenharia Hidráulica deixou Macau há cinco anos.
Ontem, foi também inquirida a gerente da Nam Ou, empresa contratada pela Tong Lei para fazer a gestão das Portas do Cerco. Wong Chan Lai limitou-se a explicar os procedimentos da empresa, que entrava em contacto com a Tong Lei e as empresas fornecedoras de determinados equipamentos, pelos quais não detinha qualquer responsabilidade.
A contratação da Nam Ou pela Tong Lei passou a ser conhecida já durante o julgamento, tendo este facto sido aditado à acusação. Por causa desta contratação, o TUI decidiu chamar o antigo coordenador do Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas, Castanheira Lourenço, que tinha já estado no Tribunal no passado dia 19.
O julgamento de Ao Man Long continua amanhã, ainda com a audição de testemunhas. A defesa explicou ontem ao colectivo que não deverá precisar de mais de um dia e meio para ouvir as cerca de 15 testemunhas que arrolou.
Isabel Castro
Terra de encontro de culturas. Esta é uma das mensagens veiculadas pelos slogans turísticos de Macau. O multiculturalismo é uma das bases históricas desta região. Em cada canto, fachada de edifício ou ruas antigas é notável a mistura entre as referências chinesas e portuguesas.
Com a prosperidade económica, virou-se mais uma página da História do território. Desta vez, os agentes catalisadores da mudança não foram os descobridores lusitanos, mas sim a liberalização do sector do Jogo. Estabeleceu-se a RAEM, conhecida hoje em todo o mundo como a Las Vegas da Ásia. Os casinos e o progresso a eles associado atraem ainda mais pessoas, oriundas de diversos países. A par do processo de internacionalização do território, crescem as comunidades estrangeiras.
O cruzamento de culturas neste ponto minúsculo do mapa atingiu um nível exponencial e os causadores desta situação são muitas vezes denominados de expatriados. Leanda Lee estabeleceu, no entanto, uma terminologia diferente no que diz respeito a este fenómeno. A académica introduziu o conceito de “impatriados”.
“O caso dos ‘impatriados’ é típico de Macau. As pessoas são ‘puxadas’ para trabalhar na RAEM pelas próprias organizações locais. É o que acontece com os casinos que precisam de mão-de-obra qualificada e vão procurá-la no estrangeiro”, explicou Leanda Lee. A expatriação consiste, por sua vez, quando um grupo empresarial envia os seus trabalhadores para o exterior, para exercerem funções temporariamente noutra empresa.
Se para os expatriados a adaptação à região já é complicada, a situação dos “impatriados” é muito mais complexa. Estas pessoas não têm o apoio da sua empresa na retaguarda e isso condiciona o processo de inserção na comunidade, afectando as vivências no posto de trabalho, na família e no quotidiano.
Estas foram as primeiras observações da investigação que a académica está a realizar no âmbito da tese de doutoramento. As mesmas ideias serão desenvolvidas num workshop que terá lugar no próximo sábado no hotel Grandview, na Taipa. Uma iniciativa que está inserida num ciclo de seminários promovidos pelo instituto Ripples Psychological Ensemble.
“Ajustamentos no Cruzamento de Culturas: Trabalho, Família e Vida em Macau” é o tema da palestra. Ao longo de duas horas, Leanda Lee vai conversar com os participantes “para tentar perceber como é viver na RAEM, quais são as suas dificuldades e alegrias no processo de adaptação, bem como a relação com as entidades empregadoras e o próprio Governo”, explicou.
Ao longo do seu trabalho de investigação, a académica distinguiu as três áreas mais problemáticas – o emprego, o quotidiano e a interacção. “Esta última é a mais difícil de ultrapassar, porque tem que ver com as normas culturais de comunicação”, frisou.
Nas palavras da australiana, em Macau este problema atinge um nível de extrema complexidade. “Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, aqui o importante não é compreender toda a mensagem, mas sim o seu conteúdo. O que ficou por dizer é mais essencial do que realmente foi dito”, acrescentou.
No seio das famílias, os chamados grupos “impatriados” confrontam-se normalmente com a dificuldade de acesso às instalações desportivas e o contacto com diferentes métodos de prestação de serviços médicos. “Macau tem infra-estruturas excelentes, mas as crianças não podem usufruir das actividades desportivas, porque são organizadas para os utentes chineses e portugueses”, salientou.
Relativamente ao dia-a-dia, os estrangeiros que chegam ao território sentem-se pouco apoiados pelo Executivo e pelos empregadores. “Quando falo no Governo refiro-me à burocracia. É muito difícil perceber um sistema que está em constante mudança e sofre de falta de transparência”, defendeu.
“Ajustamentos no Cruzamento de Culturas: Trabalho, Família e Vida em Macau” é o primeiro workshop realizado por Leanda Lee em Macau. Apesar de ter elementos que já foram apresentados na Malásia e nos Estados Unidos, este seminário foi desenhado especificamente para o território.
“Através dos estudos já realizados no âmbito da investigação, quero ver se as pessoas concordam com as minhas conclusões, ao mesmo tempo que pretendo dar-lhes uma moldura teórica sobre os seus problemas. Muitas vezes os indivíduos querem adaptar-se, mas não percebem porque é que não conseguem. Este trabalho funcionará como uma base que servirá o processo de integração”.
O instituto Ripples Psychologial Ensemble é uma organização independente de profissionais que pretendem oferecer serviços de psicologia de carácter internacional. Agora também com representação em Macau, este grupo quer funcionar como um agente positivo de mudança, trabalhando tanto com o público em geral, como com organizações e empresas.
Alexandra Lages
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Vida para São Lázaro, Ao Man Long em preventiva há quase um ano, Gonzaga Gomes em filme, A luta pela cultura em Hong Kong
Mais vida em São Lázaro
“A filha já está com a cara da mãe”, exclama Alexandre Assis enquanto perscruta cada fotografia em busca de gente conhecida. Acompanhado do fiel amigo de quatro patas “Tó Zé”, o macaense com 60 anos vai recordando em cada película fotográfica a Macau da sua infância, uma fase da sua vida que foi passada ali mesmo, no Bairro de São Lázaro.
A mostra que Alexandre Assis contempla com atenção faz parte de uma actividade cultural organizada pela Associação Promotora para as Indústrias Criativas na Freguesia de São Lázaro. Estiveram em exibição dezenas de fotografias antigas da vida quotidiana macaense no bairro que, em tempos, fazia parte da “cidade cristã”.
São momentos de casamentos, comemorações familiares, as famosas festas do Teatro D. Pedro V, paradas militares, entre tantos outros episódios, que ficaram imortalizados e que estiveram expostos nas paredes da calçada da igreja ao longo do último fim-de-semana. Uma iniciativa fortemente aplaudida pelos membros da comunidade macaense, que lamentam ver fechadas as portas e as janelas do bairro histórico.
“Falta vida ao bairro, tem pouco movimento. Deviam promover mais actividades deste género, mas em permanência”, defende Joaquim Santos, um dos residentes que passou parte da tarde de domingo em São Lázaro. Permitir o estabelecimento de vendedores ambulantes, abrir as casas ao comércio e à habitação são algumas das ideias lançadas pelos filhos da terra.
“Antigamente existia aqui a Old Ladies House, havia artistas locais e actividades aos fins-de-semana. Era bom agitar um pouco o quotidiano do bairro que está muito parado”, defendeu Noemi Morais Alves, que também compareceu na actividade. “É preciso fazer algo agora que há tantos casinos, já temos saudades de uma Macau assim”, acrescenta.
A par da exposição fotográfica, a Associação Promotora para as Indústrias Criativas na Freguesia de São Lázaro organizou petiscos típicos macaenses, jogos e brinquedos dos tempos antigos, postos de venda com vendilhões ambulantes, bem como espectáculos de artistas locais. Sem mãos a medir com o trabalho, a secretária da associação organizadora, Constance Ho, concorda com as críticas dos participantes ressalvando, contudo, que é difícil agradar a gregos e a troianos.
“Quando se promove este tipo de eventos há sempre dois tipos de vozes. Uns concordam com a organização de actividades e reclamam mais, mas outros queixam-se do barulho e da confusão”, vinca. “Não podemos satisfazer toda a gente”, lamenta.
Em 2004, o Governo anunciou um plano para a Freguesia de São Lázaro – criar um centro para as indústrias criativas e artistas locais. As mesmas intenções das autoridades foram reiteradas recentemente, aquando da apresentação das Linhas de Acção Governativa para 2008.
O secretário para os Transportes e Obras Públicas, Lau Si Io, prometeu avaliar a situação das construções desta zona, definindo o futuro planeamento urbanístico com o objectivo de tornar a área num centro para a indústria cultural. Além disso, será estudada a reformulação do equipamento de travessia pedonal das vias circundantes no sentido de unificá-las, formando uma zona exclusivamente para peões que ligue a Praça do Tap Seac à Fortaleza do Monte, percurso turístico que já existe e se pretende ver reforçado.
“O bairro está totalmente escondido”, lamenta Jaime Gomes. “O Executivo devia restaurar as habitações ou investir em comércio tradicional e artesanal, porque iria atrair muitos turistas”, garante.
Estão ainda frescas as memórias do bairro nos seus tempos áureos. Uma época em que as casas eram ocupadas por famílias de classe média, como a de “Venâncio Xavier que era polícia aposentado”, recorda Jaime Gomes. “Havia muita segurança. Como na altura não tínhamos ar condicionado dormíamos com as janelas abertas. Bastava um apito e ia tudo a correr atrás do ladrão”, conta sorrindo.
A actividade cultural na calçada da Igreja de S. Lázaro atraiu ainda Manuel Silva. Não é macaense, mas vive em Macau há 20 anos e conheceu este local histórico em diferentes fases de conservação. Mais do que um mero observador, o português participou nos trabalhos de electrificação da freguesia ao serviço da Companhia de Electricidade de Macau.
“Há 20 anos estava muito degradado, quase sem lojas, e o movimento era reduzido”, recorda. “Quando instalaram os candeeiros adivinhava-se uma restauração do bairro”, completa. Manuel Silva ainda se lembra de ser feita a calçada portuguesa e da remoção dos fios de electricidade que atravessavam as ruas, os chamados “chau min”.
Ao contrário de Alexandre, Joaquim, Noemi e Jaime, que acreditam nas intenções de revitalização do Governo, o português considera que o bairro continua em risco de desaparecer. “Este espaço não só está subaproveitado, como parece caminhar outra vez para a degradação. Já o vi melhor.”
Promover a criatividade
Nasceu em 2004, quando o Governo da RAEM anunciou que a zona do Bairro de S. Lázaro iria funcionar como o berço de indústrias criativas de Macau. A Associação Promotora para as Indústrias Criativas na Freguesia de São Lázaro não tem sócios, apenas os membros suficientes para uma direcção.
“O nosso objectivo é dar um estímulo ao desenvolvimento artístico deste lugar. Quando o Chefe do Executivo revelou o seu projecto, pensámos que um grupo deste género poderia ser de grande ajuda”, contou a secretária da organização sem fins lucrativos, Constance Ho.
O sonho do grupo financiado pelo Governo e pela Fundação Macau é ver São Lázaro transformar-se à imagem e semelhança do bairro cultural que está agora a ser desenvolvido no território do outro lado do Delta do Rio das Pérolas. Volvidos três anos do estabelecimento da Associação Promotora para as Indústrias Criativas nesta freguesia histórica, a direcção tem consciência que ainda há muito trabalho pela frente.
No entanto, Constance Ho já consegue ver algumas mudanças, desde o estabelecimento de algumas lojas de design e de outros espaços dedicados às indústrias criativas. Em termos de projectos futuros, tudo está dependente do pedido feito ao Executivo para a concessão de um novo espaço.
“Precisamos de um edifício que possa servir melhor os artistas locais. Temos um projecto para estabelecer uma sede aqui na freguesia, com capacidade para albergar artistas, para que estes possam desenvolver as suas ideias e actividades.”
Ao Man Long em prisão preventiva há quase um ano
Julgamento retomado hoje
Julgamento retomado hoje
Decorre hoje no Tribunal de Última Instância (TUI) mais uma sessão do julgamento do antigo secretário para os Transportes e Obras Públicas, Ao Man Long, acusado da prática de 76 crimes, a maioria de corrupção passiva para acto ilícito e branqueamento de capitais. A três dias de ser completado um ano da prisão preventiva do ex-governante, o julgamento vai já para a 13ª sessão, continuando a ser desconhecida a forma como o TUI vai garantir ao arguido o direito ao recurso.
Depois de, na passada semana, terem comparecido no TUI 18 arguidos de processos conexos que estão a decorrer no Tribunal Judicial de Base e que, nesta condição, optaram por não prestar depoimento, o dia de hoje deverá servir para ouvir as poucas testemunhas arroladas que ainda não foram inquiridas. Ao contrário do que aconteceu nas primeiras semanas, com sessões às segundas, quartas e sextas-feiras, por decisão do colectivo de juízes não se cumpriu mais uma etapa do julgamento na passada sexta-feira.
Recorde-se que, das cerca de cem pessoas que o TUI deveria inquirir, algumas encontram-se em parte incerta, sendo outras arguidas no processo conexo ao de Ao Man Long. Uma testemunha que deveria ter sido ouvida na passada semana e que não compareceu em Tribunal, apesar de ter sido notificada, deverá ser inquirida hoje ou na próxima sessão, uma vez que o colectivo de juízes presidido por Sam Hou Fai pediu a intervenção da polícia no caso.
Ao TUI vai ainda regressar Castanheira Lourenço, antigo coordenador do Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas, que prestou um longo depoimento no passado dia 19. O Tribunal decidiu arrolar de novo a testemunha depois de, numa sessão posterior, terem sido adicionados três artigos à acusação, relacionados com os trabalhos de manutenção da praça das Portas do Cerco.
Ao TUI vai também voltar Custódia de Sousa, consultora do GDI que esteve a trabalhar no projecto em questão, e que foi igualmente ouvida no TUI no passado dia 19. A técnica regressa a pedido da defesa do antigo secretário para os Transportes e Obras Públicas.
O aditamento que motivou o arrolamento destas duas testemunhas surgiu na sequência do depoimento feito por um investigador chefe do Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) sobre a manutenção e gestão da praça das Portas do Cerco, obra adjudicada directamente à Tong Lei, num processo da responsabilidade do GDI. A acusação sustenta que a empresa de Tong Kin Man foi favorecida por Ao Man Long em diversas obras, sendo que, no caso concreto, o secretário é acusado de ter aprovado o despacho da adjudicação directa à Tong Lei sem que o objecto social desta contemplasse o tipo de trabalho que o contrato definia.
O investigador do CCAC disse que a Tong Lei contratou uma outra empresa para levar a cabo os trabalhos contemplados no contrato assinado com o Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas. O TUI considerou a informação de relevo para o caso e decidiu ouvir de novo Castanheira Lourenço.
Na semana em que se assinala um ano da detenção e exoneração do cargo de Ao Man Long, continua por esclarecer como é que o sistema judicial da RAEM pretende assegurar ao arguido o direito ao recurso. O ex-secretário encontra-se a ser julgado pelo TUI porque era titular de um alto cargo político, mas o seu processo está a ser avaliado em primeira instância. Sucede que a Lei de Bases de Organização Judiciária e o Código do Processo Penal não determinam competências ao TUI para avaliar um recurso de uma decisão que tenha sido tomada em primeira instância pelo próprio Tribunal. O direito de decorrer das decisões do TUI não se aplica apenas aquando da leitura do acórdão, mas também durante o julgamento.
Há exactamente dez dias, o advogado de Ao Man Long, Nuno Simões, anunciou que ia recorrer de uma decisão do TUI, que indeferiu o pedido de nulidade em relação ao meio de obtenção de prova. A defesa contesta a legalidade da forma como o CCAC fez a busca à residência do antigo secretário – onde foi encontrada grande parte das provas documentais que sustentam a acusação – por este não ter sido notificado para estar presente ou se fazer representar.
Hoje, termina o prazo para Nuno Simões apresentar a motivação do recurso. Desconhece-se, por enquanto, se o TUI já emitiu o despacho de admissibilidade do recurso. O Código do Processo Penal de Macau não define um prazo para este procedimento meramente formal, mas é hábito dos tribunais emitirem o despacho tão cedo quanto possível, que define, entre outras matérias, qual a instância competente para avaliar o recurso.
Coloca-se, logo aqui, um problema para o Tribunal presidido por Sam Hou Fai que, de acordo com o Código Civil, “não pode abster-se de julgar, invocando a falta ou obscuridade da lei”: se considerar que o recurso interposto por Simões cumpre as determinações processuais, o TUI tem que informar a defesa de qual a instância que vai avaliar o recurso - instância essa que se desconhece devido à lacuna da lei processual de Macau - bem como se o recurso tem ou não efeito suspensivo.
Isabel Castro
Luís Campos Brás, realizador português, filma documentário sobre Gonzaga GomesHistória das estranhas afinidades
Macau foi um acaso que aconteceu há três anos tendo passado, desde então, a ser um local onde regressa com frequência. Desta vez, durante seis semanas, Luís Campos Brás anda à descoberta de quem foi Luís Gonzaga Gomes, personagem que lhe era totalmente desconhecida até a Casa de Portugal lhe ter lançado o repto para fazer o filme que está agora a rodar. “É um documentário algo diferente daqueles que costumo fazer, porque tem uma componente biográfica, embora não esteja a fazer um filme biográfico”, explica o realizador português.
Luís Campos Brás é o autor de “Voltar Amagao”, filme sobre o regresso de jovens ao território no pós-RAEM, que o público local pôde ver no ano passado e que será de novo projectado, no próximo dia 13, no auditório do Consulado-Geral de Portugal. O documentário teve na origem a curiosidade do jovem realizador relativamente a um fenómeno a que assistiu durante um período de férias em Macau. Já no caso do trabalho que está a desenvolver sobre o Luís Gonzaga Gomes, a história tem outros contornos.
“Depois do ‘Voltar Amagao’, a presidente da Casa de Portugal pediu-me para fazer um DVD, cujos lucros das vendas revertem a favor de um jardim-escola em Timor-Leste. Fiz o DVD e pediram-me para fazer um filme sobre Luís Gonzaga Gomes”, conta. Em Portugal, estava a desenvolver um projecto na Cova da Moura, no Moinho da Juventude, em parceria com um realizador brasileiro, que ficou em “stand-by” para regressar a Macau, de câmara e tripé na bagagem. “Luís Gonzaga Gomes era uma figura que desconhecia”, explica. Agora, feita muita investigação e gravados alguns depoimentos sobre o emblemático macaense, “já conheço mais ou menos”, diz.
Sobre a personagem central deste seu novo documentário, esclarece Luís Campos Brás que não está a estudar Gonzaga Gomes, “apenas a tentar percebê-lo para o figurar, que é algo completamente diferente”. Deste exercício de compreensão tem resultado a descoberta de “aspectos muito interessantes”. O realizador realça o facto de ter sido “um homem com uma capacidade de trabalho inacreditável, que aprendeu italiano e alemão por correspondência só para perceber as óperas que ouvia”.
Para Campos Brás, “isto tem um sentido muito grande, ao mesmo tempo que considero ser algo inatingível, este lado de homem do Renascimento”. “Julgo que estas características se deviam também ao facto de ser uma pessoa muito pouco social, encontrando no trabalho a forma de preencher outros espaços,” interpreta.
O método de trabalho do realizador reside, sobretudo, nas conversas com pessoas que o conheceram e na pesquisa de material de arquivo. “Gonzaga Gomes tinha programas na rádio mas os registos daquela época não foram guardados. No entanto, há muito material de arquivo de pessoas a falarem sobre ele, bem como imagens de Macau da altura.” O documentário não se vai basear no lado pessoal de Gonzaga Gomes, até porque “a sua vida social era muito fechada”, mas sim “na personagem intelectual e cultural, que estava em imensos sítios diferentes a fazer muitas coisas, um lado que pode ser muito interessante de explorar”.
Desta convivência diária com a memória de Gonzaga Gomes resultam, diz Luís Campos Brás, “estranhas afinidades”. Talvez seja o lado inatingível do homem da cultura macaense, fechado sobre si próprio, concentrado num patamar mais elevado da procura da cultura. “Estudou essencialmente as suas origens, era um apaixonado por literatura e responsável por fazer alguns livros muito importantes de chinês para português e vice-versa”, recorda ainda o realizador.
Luís Campos Brás chegou pela primeira vez a Macau há três anos, uma viagem de férias que teve, na razão da escolha do destino, a vontade de se querer afastar o mais possível de Portugal. Depois de um filme no qual esteve embrenhado durante três anos, conta, “estava esgotado emocionalmente e queria vir para o mais longe possível onde tivesse algum amigo que me recebesse”. A vinda a Macau coincidiu com a descoberta da Ásia, que o deixou bem impressionado logo à chegada a Hong Kong. “Acho que posso dizer que fiquei apaixonado pelo Oriente”, diz.
Das três semanas que passou na altura no território surgiu a ideia de fazer o “Voltar Amagao”. De um outro regresso, no ano passado, resultou a recolha de novas imagens para mais um filme, que ainda não está montado, este “mais conceptual, que não tem propriamente a ver com Macau, mas sim comigo”. Realizador que conta apenas com ele próprio na sua equipa de filmagem, admite os perigos de uma proximidade em demasia com aquilo que faz, mas sublinha também as vantagens que resultam da independência de poder andar sozinho de câmara e microfone em punho. “São as novas tecnologias e não acho que haja menos qualidade.”
Ao contrário de “Voltar Amagao”, que nasceu da vontade de satisfazer uma curiosidade, o documentário sobre Luís Gonzaga Gomes é o resultado de uma encomenda. O grau de envolvimento e o método de trabalho são iguais, apenas a ideia tem uma origem diferente, explica. “Em termos de concepção, de ideologia à planificação, daquilo que me interessa no tema, vem tudo de dentro de mim”, sublinha.
Quanto ao primeiro documentário rodado em Macau, e que vai voltar a poder ser visto já este mês, o realizador faz um balanço pessoal satisfatório, dizendo que “não é o filme que tinha idealizado como sendo o máximo onde posso chegar, mas não está muito longe”. Campos Brás tinha, como objectivo, passar a emotividade que sente quando está em Macau e que viveu na altura em que esteve a filmar. “Acho que, à semelhança dos meus outros filmes, só passa quando se vê três vezes e, claro está, que ninguém vai ver o filme três vezes...”, diz com um sorriso.
No que toca às reacções dos espectadores, o “Voltar Amagao” foi bem acolhido, conta. “Esteve na Cinemateca, em vários museus, de Norte a Sul, teve alguma visibilidade, que era o que queria. Não entrou no DocLisboa, como pretendia, mas vai passar no Panorama, que é um festival para os que não entraram no DocLisboa”, resume. É Macau na tela, na perspectiva de um jovem realizador português, que leva até ao outro lado do mundo aquilo que só aqui se sente.
Ada Wong, presidente do Conselho de Bairro de Wan Chai
Uma mulher pela Cultura
Uma mulher pela Cultura
Revestida por telhas partidas e pedaços de tijolo, a casa King Yin Lei em Hong Kong foi salva no último minuto, tendo-se transformado numa forma de despertar o interesse daqueles que nunca se preocuparam por aí além com questões ligadas à conservação patrimonial. Ada Wong, a presidente do Conselho de Bairro de Wan Chai e uma activa defensora da cultura, considera que, ainda assim, o exemplo não bastou, pelo não está optimista: na sua opinião, 99 por cento dos residentes de Hong Kong não percebem a importância da preservação do património.
A 14 de Setembro deste ano, a mansão com 70 anos de idade na encosta de Wan Chai foi considerada monumento a preservar apenas três dias antes de uma agendada demolição não autorizada, uma classificação considerada “decisiva” pelo Antiquities Advisory Board da antiga colónia britânica. A verdade é que, já em 2004, altura em que o edifício foi leiloado, que o Conselho de Bairro de Wai Chai veio a público mostrar a preocupação em torno da conservação de King Yin Lei.
“Continuo a achar que tudo isto é, de alguma forma, superficial”, diz Ada Wong. Para a responsável pelo Conselho de Bairro de Wan Chai, trata-se de uma questão de valores: de Hong Kong a Macau, passando pela China Continental, a tendência generalizada é acabar com os edifícios antigos para construir novos projectos e rentabilizar a terra – uma das fontes de receitas das autoridades governamentais. “As autoridades governamentais precisam de ter uma nova visão quanto à preservação patrimonial”, defende Wong. “Neste momento não há qualquer filosofia em relação a esta matéria. As acções são desencadeadas tendo em conta as compensações imediatas que daí advêm.”
Não obstante a polémica criada, há cerca de um ano, com os casos do Star Ferry Pier e do Queen’s Pier, Ada Wong não acredita que a maioria dos residentes de Hong Kong esteja sensibilizada e tenha aprendido o suficiente sobre a importância da preservação do património. “Em Hong Kong, o pensamento dominante sempre foi o da demolição, não houve qualquer mudança. Ou então, no passado, toda a gente considerava que na demolição é que estava o ganho e, hoje e dia, um por cento da população está atenta e vem para a rua pedir para que se pense se a destruição será a melhor opção”, aponta a responsável. “Conheço demasiadas pessoas que pura e simplesmente não querem saber”, acrescenta.
A fraca resposta obtida na segunda ronda de auscultação pública sobre o desenvolvimento do projecto para o Bairro Cultural de West Kowloon é uma das provas do pouco interesse dos residentes de Hong Kong em relação a questões culturais vincado por Ada Wong. A maioria das consultas públicas foca, sobretudo, o “hardware” em vez do “software”. Mas é este último aspecto que preocupa mais a presidente do Conselho de Bairro de Wan Chai. É que, explica, embora as pessoas acolham com satisfação as novas infra-estruturas, estão muito pouco interessadas em relação aos seus conteúdos, não visitando museus e galerias com frequência. “Se não existem esses hábitos culturais, será possível criá-los a curto prazo?”, lança Wong.
A responsável demonstra-se particularmente preocupada com o facto destes projectos culturais serem vistos, essencialmente, como uma atracção turística, mais a mais pelo facto de serem o resultado de recomendações das autoridades do Turismo do território. “Claro que tem que haver uma preocupação com a sustentabilidade, ao proporcionar bons programas que façam os turistas ter vontade de regressar. Mas este é precisamente o objectivo que me parece ser mais difícil de alcançar.”
No entanto, defende Ada Wong, as actividades culturais devem ser acessíveis a todos os residentes da região administrativa especial e as novas gerações devem ter ao seu dispor ofertas ao nível universitário que incluam as Belas Artes, Comunicação e Criação Visual e Design, de modo a que se possa criar uma atmosfera favorável à sobrevivência dos espaços culturais. “Muitos adolescentes estão, na realidade, interessados em Artes e Design, mas a Administração não oferece suficientes vias. Há carências ao nível da docência e não existem estágios em número satisfatório”, aponta.
Ainda presidente do Conselho de Bairro de Wan Chai, Ada Wong não se recandidatou a um segundo mandato nas eleições realizadas no mês passado. “Nos meus 13 anos de vida pública, foram raras as vezes que tive tempo para desenvolver as pesquisas que pretendia acerca dos muitos problemas que enfrentei. A pesquisa é muito importante para podermos saber com o que lidamos e encontrarmos soluções adequadas.” Assim sendo, Wong espera poder dedicar-se, brevemente, à pesquisa nas áreas que constituem a sua maior preocupação: assuntos culturais e educativos. A criação de uma organização específica para esta tarefa é uma das possibilidades que está a ponderar.
Embora o Conselho de Bairro de Wan Chai tenha lançado uma série de novos projectos – publicações sobre o património e workshops sobre o desenvolvimento urbanístico são apenas alguns exemplos – Ada Wong nem sempre pôde contar com o apoio dos seus colegas. No ano passado, aquando da votação do projecto de desenvolvimento urbanístico da Li Tung Street, oito dos 11 conselheiros votaram a favor do plano de demolição de todos os edifícios. O voto de Wong estava entre os três que se opuseram à ideia.
Sem meias palavras, a responsável afirma que “há muita gente que apoia as propostas governamentais porque não tem capacidade para fazer uma análise independente”. Existe ainda o facto de “ser mais fácil ir com a corrente do que contra ela”, acrescenta.
Em jeito de balanço sobre o trabalho feito à frente do Conselho de Bairro de Wan Chai, Ada Wong considera não ter sido particularmente bem sucedida mas, ressalva, sente-se satisfeita por ter conseguido introduzir algumas ideias inovadoras. “Estes conceitos terão que ser desenvolvidos pelos outros conselheiros. Claro está que poderão não concordar e deixar os projectos na gaveta”, teme. Se assim for, nada mais lhe resta a não ser conformar-se com a situação. “A política é assim mesmo”, remata.
Kahon Chan, em Hong Kong,
com Isabel Castro
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