segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Radiografia da comunidade timorense na RAEM, Arquitectos de Hong Kong debatem problemas da cidade

Radiografia da comunidade timorense na RAEM

Macau, a segunda casa

Figuras de pessoas de mãos dadas. Outro logótipo não encaixaria tão bem com o espírito de uma associação que se chama Amizade Macau Timor. Entre os dois territórios, há tradições culturais partilhadas e laços que a história criou, mas que foram fortalecidos por algo mais. Durante os 24 anos de ocupação indonésia, a antiga cidade do nome de Deus foi um dos focos externos de resistência do povo timorense.
Aqui, centenas de refugiados foram recebidos de braços abertos e muitos conseguiram chegar a Portugal graças ao financiamento da então Administração portuguesa.
A população local abraçou incondicionalmente a causa timorense. Tanto que, em 1999, quando Timor decidiu em referendo a via da independência, houve quem não conseguisse separar-se do território que os tratou como parte da família.
Agostinho Pereira tinha 15 anos de idade quando finalmente conseguiu comprar um passaporte em Jacarta, a capital do país invasor. “Era aluno da Escola da Diocese que acabou por ser obrigada a fechar. Entretanto comecei a ser perseguido pelos indonésios e o meu irmão deu-me dinheiro para tentar vir para Macau”, conta o actual presidente da Associação Amizade Macau Timor.
Em 1993, o jovem estudante alcançou o território. O primeiro grupo a abandonar o país era formado por timorenses de etnia chinesa, sendo Agostinho Pereira um dos primeiros a sair logo após esta comunidade. Mas porquê este canto do mundo?
É uma questão de raízes culturais e históricas. “Nós conhecíamos Macau dos livros da escola que também falavam das ex-colónias portuguesas como Angola. Sabíamos que o território existia e quando víamos chineses pensávamos logo que eram de Macau e não da China”, conta, mal contendo as gargalhadas ao recordar as convicções de infância. Até as moedas e as notas chegaram a ser comuns entre os dois territórios e “isso marca muito”, acrescenta.
Colada à história da presença da comunidade timorense na antiga cidade do nome de Deus está uma figura incontestável: o Padre Francisco Fernandes. É um exemplo de uma vida inteira passada em prol da causa de Timor Lorosae. Agostinho tornou-se um dos braços direitos do sacerdote. O Centro de Refugiados da Ilha Verde era o quartel-general das acções do povo que nunca perdeu a vontade de lutar.
Todos os meses chegavam refugiados que eram recebidos pessoalmente onde quer que fosse que desembarcassem. “Eu juntava os passaportes em minha casa para, no dia seguinte, os acompanhar aos serviços de migração”, recorda.
Refugiado é, contudo, uma palavra que não agrada a Agostinho. Não do ponto de vista da semântica, mas sim no que diz respeito à acção da população anfitriã.
“O conceito ‘lusófono’ foi mesmo muito bem entendido, porque não sentíamos aquela ameaça de sermos refugiados. Quando aqui cheguei, tinha a impressão de estar em Timor, pois éramos tratados como locais. As pessoas tratavam-nos bem e vinham visitar-nos regularmente. Não havia aquele cenário de camiões com comida e sapatos como acontecia no Kosovo”, aponta.
Agostinho Pereira e os companheiros tinham a sensação de serem “refugiados de luxo”, de “alta categoria”. Em vez de arroz, o centro recebia garrafas de vinho e azeite. Eram organizadas festas e bailes com as portas abertas para toda a comunidade local. “Um centro de refugiados com danças?! Então os refugiados bebem vinho e comem chouriço?! Que luxo!”, exclama Agostinho Pereira, ainda meio incrédulo com as próprias recordações.
Macau apoiou esta comunidade lusófona oferecendo um tecto, roupas, comida e até aulas de língua portuguesa no Instituto Português do Oriente. Por sua vez, Timor retribuiu a generosidade com animadas festas e apresentações nas escolas do território. Localizado na zona norte, o Centro de Refugiados funcionava “como se fosse uma vila”, ninguém estava excluído.
“Somos uma comunidade alegre. Os timorenses não são gente de se agarrar às coisas tristes e ficar a contemplar o sofrimento”, defende.
A par da entreajuda, a população local solidarizou-se com a luta pela independência de Timor Lorosae. Mais do que respeitados enquanto indivíduos, Agostinho Pereira e os seus companheiros sentiram-se ouvidos e compreendidos.
Ao mesmo tempo que iam chegando os refugiados, foram sendo criados grupos paralelos dedicados à resistência contra o país invasor. No início dos anos 1990, o Padre Francisco Fernandes criou a Associação de Tatamailau (nome do ponto mais alto do território timorense). Esta organização promoveu várias conferências que trouxeram à região oradores de renome internacional para discutir a situação de Timor-Leste.
Na mesma altura, surgiu ainda o Grupo de Macau de Resistência Timorense. De acordo com António Mota, outra das figuras proeminentes da comunidade lusófona na RAEM, este projecto era de carácter pró-integração indonésia. Os promotores da iniciativa chegaram a viajar até ao maior arquipélago do mundo para se reunirem com o recentemente falecido presidente Suharto.
Macau era o local perfeito para manter comunicações com todos os grupos resistentes espalhados pelo continente asiático. “Tínhamos contacto com a comunidade estudantil na Indonésia que queria vir para cá”, exemplifica.
O ponto alto da solidariedade da população local foi a marcha pacífica por Timor, em Novembro de 1991, após o massacre dos estudantes no cemitério de Santa Cruz. “Portugueses e macaenses juntaram-se aos timorenses num manifesto que largou do Leal Senado e terminou a lançar velas acesas ao rio perto da Ponte Nobre de Carvalho”, recorda António Mota. No total, três centenas de pessoas associaram-se em nome da paz no país.
Mais de duas décadas após a ocupação da Indonésia, Timor Lorosae obteve o estatuto de nação independente, tornando-se o país mais jovem do mundo. A luta chegou ao fim e a existência do Centro de Refugiados da Ilha Verde perdeu o sentido.
“O Padre Fernandes fez um inquérito para saber quem queria ficar. No entanto, foi imposta uma condição - todos tinham que abandonar o centro e só permanecia quem tivesse emprego”, conta.
Em cerca de 450 refugiados timorenses, houve uma pequena parte que não conseguiu apartar-se de Macau. O dirigente associativo foi um desses exemplos. Hoje, a comunidade timorense lusófona estima-se em pouco mais de seis dezenas, sendo também formada por elementos que vieram para o território completar os seus estudos ou procurar emprego. No entanto, se juntarmos os timorenses de etnia chinesa, o número ascende aos duzentos, afirma Agostinho Pereira.
A Associação Amizade Macau Timor foi um dos frutos da nova etapa da vida da comunidade no território. Foi pensada em 1999 e oficializada dois anos mais tarde. O objectivo principal da organização é continuar a promover as ligações entre as duas culturas ao nível histórico, social e económico.
Quanto a projectos para o futuro, Agostinho Pereira ambiciona trazer para Macau mais estudantes para que um maior número de jovens possa contribuir para um “Timor melhor”. “É preciso dar vida ao nosso país”.
Refugiados ou não, os timorenses encontraram em Macau uma “segunda casa”. A forma como foram recebidos no período em que precisavam de mais amparo nunca mais será esquecida, não só pela geração de Agostinho Pereira, mas por uma comunidade inteira. “Este tratamento acaba por ficar como uma grande marca. Ser português não é ter passaporte. É aquele que é tratado e respeitado como tal.”
Um bom início nas relações sino-timorenses

“Triste”, assim se diz sentir o presidente da Associação Amizade Macau Timor, Agostinho Pereira, quando fala nas relações comerciais entre o seu país e a China. Residente em Macau, o dirigente associativo nota que o Governo de Díli está a perder terreno, em relação aos restantes países lusófonos, no que toca às oportunidades que os laços com a China podem oferecer.
No entanto, nem tudo são más notícias. Ao longo dos últimos anos, assinaram-se tratados de cooperação bilateral que podem ser apenas a primeira página de uma história com um final feliz. O mais recente foi oficializado no final do mês passado.
“O Governo de Timor devia aproveitar melhor, não esperar mais e actuar rapidamente”, protesta Agostinho Pereira. De facto, a nação mais jovem do mundo faz parte do grupo de países lusófonos que está no fundo da tabela em termos de trocas comerciais com a China.
De acordo com o estudo de mercado disponibilizado na página de Internet do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau, em 2003 e 2004 não foram registadas compras de produtos timorenses por parte da China. Por sua vez, em 2005, o gigante asiático vendeu a Timor um total de 1,27 milhões de dólares norte-americanos.
Um cenário que, doravante, poderá começar a alterar-se. No final do mês passado, os Governos da China e de Timor-Leste assinaram em Díli acordos de cooperação que levarão Pequim a apoiar o novo parceiro com um total de 1,57 mil milhões de dólares norte-americanos.
Os protocolos oficializados pelo primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, e pelo vice-ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wu Dawei, o mais alto dignitário da China a visitar Timor-Leste, englobam a cooperação técnica e económica, a construção de um quartel e de um alojamento para os soldados, bem como a aquisição de equipamento para o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Timor.
Esta não foi, contudo, a primeira visita chinesa ao território lusófono, provando assim o interesse de Pequim em investir naquele país. No final do ano passado, um grupo de potenciais investidores da China Continental deslocou-se a Timor-Leste para apresentar ao Governo timorense projectos no valor de mais de 100 milhões de dólares. Do pacote de investimentos constavam a criação de um banco comercial, um centro comercial e uma zona de desenvolvimento portuária, além da construção de uma rede viária e do desenvolvimento de pistas de aviação.
O estabelecimento de uma nova zona comercial fronteiriça, de explorações agrícolas, bem como a edificação de reservatórios de água e a criação de um grupo nacional timorense de arte e cultura de demonstração são outras propostas de investimento.
A verdade é que o país lusófono tenta ainda reerguer-se de mais de duas décadas de ocupação indonésia, sendo o comércio externo, na generalidade, uma actividade ainda de limitado campo de acção. Oito anos após a independência, Timor procura uma estabilidade política e social que é vital para o futuro da economia, mas que tem enfrentado uma série de problemas ao longo da sua tentativa de reconstrução.
A nação actualmente governada por Xanana Gusmão é tida como um dos países mais pobres do mundo. A situação agravou-se quando se deu um decréscimo na ajuda internacional, levando a uma contracção do Produto Interno Bruto entre 2002 e 2004.
Foi sob a liderança da Organização das Nações Unidas que grande parte do sector agrícola timorense conseguiu converter-se de colheitas de subsistência para culturas de renda. Tal significou uma tentativa de criar uma economia orientada para a exportação.
Esta opção tem falhado devido à constante flutuação de preços do mercado internacional nas culturas escolhidas para o comércio. Em particular, o café, que enfrenta um decréscimo de valor há cerca de 20 anos. Por esta razão, agravada ainda pela falta das antigas colheitas de subsistência, Timor-Leste começou em 2006 a atravessar uma ausência crónica de alimentos.
As esperanças de um futuro melhor estão depositadas no desenvolvimento da exploração de reservas de petróleo localizadas no oceano. Um projecto que já rende aos cofres do Governo mais de 40 milhões de dólares norte-americanos por ano.

Alexandra Lages
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Arquitectos debatem problemas da cidade

O que falta a Hong Kong
para estar no topo do mundo


Arquitectos e académicos de Hong Kong estiveram recentemente reunidos para diagnosticarem os problemas da cidade e tentarem perceber como é que ela se deve desenvolver. O debate terminou com uma conclusão consensual: é necessários que todos os agentes envolvidos na construção urbanística trabalhem tendo em conta a necessidade de afirmação mundial de Hong Kong, para que a cidade seja global.
Os problemas na área da arquitectura na antiga colónia britânica não são de agora e existem exemplos que demonstram como o trabalho dos arquitectos nem sempre correspondeu às expectativas e gostos dos residentes. O Centro Cultural de Hong Kong e a Biblioteca Central são apenas duas das construções mais contestadas da cidade.
Nos últimos anos, sobretudo ao nível da construção pública, tem-se assistido a um esforço para encontrar um ponto de equilíbrio entre as tendências arquitectónicas e as exigências dos utentes dos espaços. No entanto, no que às obras privadas diz respeito, o descontentamento continua, com os edifícios novos a estreitarem a cidade e a ameaçarem a respiração das ruas. A linha do horizonte também tem mudado, com cada vez mais arranha-céus a darem um contorno diferente a uma cidade cuja forma é reconhecida internacionalmente.
Com o desenvolvimento de projectos virados para a água, como o Bairro Cultural de Kowloon e a reestruturação do Aeroporto Kai Tak, as preocupações dos arquitectos têm aumentado e existe uma pressão cada vez maior para que a cidade conquiste um lugar, ao nível arquitectónico, na lista de urbes mundiais como Nova Iorque e Londres.
Na realidade, a edição de Janeiro passado da revista Time faz uma análise às três cidades, numa linha “Ny-lon-kong”, identificando semelhanças e ligações. Hong Kong aparece, assim, a par destas cidades globais, não conseguindo, contudo, corresponder aos padrões em termos culturais e artísticos.
O reputado arquitecto Rocco Yim, que desenhou o edifício da Sede do Governo em Admiralty, entende que a antiga colónia britânica apresenta características próprias mas está longe de atingir a perfeição. “O problema é que a nossa arquitectura é inferior à de outras cidades. As nossas ruas são vivas, mas essa vitalidade não se encontra nos edifícios. Por exemplo, Lan Kwai Fong não vale pelos edifícios mas sim pela atmosfera criada pelos bares”, explica.
“Um amigo meu estrangeiro chamou-me a atenção para o típico bloco residencial da cidade e disse-me, em seguida, que enquanto este tipo de arquitectura não for abandonado, continuamos a pertencer ao terceiro mundo.” Rocco Yim assume a sua quota-parte de responsabilidade no processo: “Enquanto arquitecto, a trabalhar há 20 anos e sem uma obra verdadeiramente significativa, posso culpar a minha incapacidade, bem como a sociedade de Hong Kong, que se rege por valores económicos.”
Vincent Ng, membro do Instituto de Arquitectos de Hong Kong e do pró-democrata Partido Cívico, considera que na origem do “desastre” arquitectónico da cidade estão as políticas governamentais e os investidores que têm apenas em mente o lucro fácil. “A venda de terrenos é demasiado importante e estão a ser planeados lotes maiores com uma grande densidade de construção. Já não se fala em espaço urbano, mas como maximizar a área de construção de modo a permitir aos investidores atingirem os seus objectivos”, atira.
Embora o Governo tenha começado, recentemente, a dar resposta às exigências de espaço e ventilação, desenvolvendo ainda tentativas de preservação do património, Rocco Yim acredita que é necessário fazer-se uma avaliação completa do estado da arquitectura de Hong Kong. “Começamos a ver mudanças em termos de ventilação e assistimos a campanhas de conservação, mas tudo isto se deve à capacidade de iniciativa da população, que quer resolver problemas visíveis. Quando se entra no campo artístico, o caso muda de figura e há pessoas que não entendem o que é a criatividade. Vão ser precisos, no mínimo, vinte anos, para que haja esse envolvimento dos residentes.”
Leo Lee, académico da Universidade Chinesa e antigo docente da Universidade de Harvard, rejeita a aplicação da ideia de “consenso” na área da arquitectura. “O conceito fundamental deve ser determinado por quem define as políticas do território e não é necessário que haja consenso. Na realidade, o consenso não existe e nem sempre a maioria está certa”, diz.
Para Lee, Hong Kong deve ainda preservar o encontro entre Ocidente e Oriente. “Sempre defendi que é a fusão de estilos que faz com que uma cidade seja moderna. Quem diz que a cidade é um ‘deserto cultural’ não sabe nada sobre Hong Kong.” No entanto, o Governo tem que fazer mais, aponta o especialista, que compara a cidade com Taiwan, Macau e até Shenzhen, para dizer que o Executivo tem vindo a negligenciar o campo cultural.
“O Governo tem um plano detalhado especificamente sobre a área cultural? Incentiva a produção de artigos e debates? Não. Se não se fala de cultura, como é que se podem trocar ideias e evoluir?”, questiona. “Ando a falar disto há tanto tempo que começo a ficar cansado.”
Lau Sai-leung tem obrigação de conhecer bem as limitações no diálogo entre académicos e autoridades governamentais. Em tempos, foi um crítico acérrimo das questões públicas, até que se juntou, enquanto consultor a tempo inteiro, à Unidade Central de Política, o organismo de estratégia para a Administração. Lau acredita que continuam por resolver problemas deixados pela gestão britânica e que a falta de valores nas decisões faz com que não haja procedimentos democráticos, necessários para resolver conflitos.
O académico confessa estar desiludido em relação à forma como têm agido elites e grupos de intelectuais locais. “Não se discutem conceitos artísticos – este é o grande constrangimento de Hong Kong. Não vamos atingir o estatuto de grande cidade se não formos capazes de alargar perspectivas”, frisa. Lau Sai-leung entende que chegou a hora de os intelectuais se expressarem e contribuírem para a evolução da cidade, em vez de estarem à espera que o trabalho seja feito pela Administração. “Considero que se comete um grande erro quando todas as expectativas estão direccionadas para o Governo. As autoridades de Nova Iorque e de Londres são todas elas vanguardistas?”, pergunta. “As elites servem para equilibrar a acção governativa, que funciona sempre, em última análise, tendo em vista a necessidade de angariar votos e o apoio da população.”
Ainda assim, acredita no futuro da cidade. “A RTHK não é, por certo, a BBC, mas nós temos bases sólidas. Para que possamos ser uma cidade global, precisamos de ter influência em termos regionais e mundiais, na área da economia, mas também ao nível cultural. Se conseguirmos que assim seja, quem cá vive terá mais orgulho na cidade e um maior envolvimento.”
Kahon Chan, em Hong Kong,
com Isabel Castro

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Ao Man Long não vai interpor recurso, Aumentos na Função Pública discutidos hoje na AL

Defensor de Ao Man Long não vai interpor recurso da decisão do TUI

“O resultado seria o mesmo”

A defesa do ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas, Ao Man Long, não vai interpor recurso do acórdão do Tribunal de Última Instância (TUI) que, na quarta-feira passada, condenou o antigo governante a 27 anos de prisão pela prática de quatro dezenas de crimes de corrupção passiva, além de crimes de branqueamento de capitais.
“A questão que se coloca é que o Tribunal entende não ser admissível o recurso, pelo que a sentença transita em julgado”, considerou Nuno Simões, o advogado de Ao Man Long, em declarações ao Tai Chung Pou. Assim sendo, continuou o defensor, “interpondo ou não recurso, o resultado seria o mesmo”.
Recorde-se que, num despacho de admissibilidade de um recurso interposto pela defesa em Dezembro último - em que esta apelava à nulidade do meio de obtenção de prova -, Viriato Lima, um dos juízes do colectivo do TUI, sustentou não haver possibilidade de recurso no caso presente, fazendo uma interpretação da Lei de Bases de Organização Judiciária que mereceu reparos por vários advogados de Macau.
A lei dita que, tratando-se de um titular de um alto cargo político, Ao Man Long teria que ser julgado pelo TUI, mesmo tratando-se da avaliação do caso em primeira instância. A mesma legislação prevê que o TUI possa ter uma formação alargada a cinco juízes – mais dois do que o colectivo que julgou o ex-secretário – mas não dota esta composição de competências para avaliar recurso de caso que o Tribunal conhece em primeira instância.
Esta aparente lacuna na lei – que resultou, na realidade, de uma decisão de índole política tomada em 1999, antes da entrada em vigor da legislação – levou já vários juristas e deputados a defenderem a revisão do diploma que define o funcionamento dos tribunais da RAEM.
No despacho emitido por Viriato Lima, e embora dissesse respeito a uma questão levantada durante o julgamento, o TUI avisou logo que, se a defesa pretendesse recorrer da decisão final, a resposta seria a mesma, ou seja, não haveria margem para a interposição de recurso do acórdão do tribunal.
É neste contexto que surge a decisão de Ao Man Long. Depois de uma reunião realizada ontem de manhã, e dado este contexto, a defesa optou por mais nada fazer em relação ao caso, embora Nuno Simões não concorde, pessoalmente, com a posição assumida.
O ex-governante, de 51 anos de idade, foi considerado culpado de 57 dos 76 crimes que lhe tinham sido imputados. A pena em cúmulo jurídico de 27 anos é a mais gravosa de que há memória em Macau. Nas reacções à leitura do acórdão do TUI, foram muitas as figuras públicas que salientaram a “justiça” com que se processou o julgamento, tendo igualmente lamentado a inexistência da possibilidade de recurso.
Na fundamentação da decisão, o presidente do colectivo de juízes, Sam Hou Fai, considerou que os crimes praticados danificaram a imagem da RAEM no exterior e tiveram repercussões negativas para a acção governativa de Macau, tendo ainda sublinhado que, durante todo o processo, o arguido não mostrou arrependimento pelos seus actos.
Este carácter “político” da decisão do Tribunal de Última Instância foi sublinhado por deputados à Assembleia Legislativa e por outras figuras públicas de Macau, numa lógica de dissuasão a este tipo de criminalidade, mas outros observadores – essencialmente do meio jurídico – consideraram demasiado pesada a pena que o ex-secretário terá que cumprir, uma vez que se trata de um crime de colarinho branco e não de sangue.
Ao Man Long, detido a 6 de Dezembro de 2006 e desde então detido preventivamente, vai comparecer no Tribunal Judicial de Base (TJB) no próximo dia 26, na condição de testemunha do processo conexo que está a decorrer no TJB. O colectivo presidido por Alice Costa está a julgar a mulher, irmão, cunhada e pai do antigo governante – acusados de crimes de branqueamento de capitais –, e os empresários Frederico Nolasco da Silva, Ho Meng Fai e Chan Tong Sang, que respondem por corrupção activa e branqueamento de capitais.

Caso Ao Man Long fica por aqui

O advogado do ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas, Ao Man Long, não pondera apresentar o caso da impossibilidade de recurso junto de instâncias internacionais. Confrontado com a possibilidade de dar a conhecer o processo a entidades internacionais, Nuno Simões disse ao Tai Chung Pou que tal cenário “não está nos nossos horizontes”. Uma vez que a defesa não vai recorrer – até porque o TUI já avisou da inadmissibilidade de recurso no caso presente – Ao Man Long vai ter mesmo que cumprir os 27 anos de prisão a que foi condenado.
A verdade é que, de acordo com juristas ouvidos pelo Tai Chung Pou, seria muito difícil, se não mesmo impossível, o advogado conseguir que o caso fosse analisado por organismos internacionais.
O Pacto Internacional sobre os Direitos e Civis e Políticos, vigente na RAEM, prevê a possibilidade da apresentação de queixas de indivíduos contra o Estado, mas essa hipótese foi criada através de um protocolo adicional ao Pacto que não está em vigor em Macau.
A República Popular da China notificou, em 2 de Dezembro de 1999, o Secretário Geral da Organização das Nações Unidas, na sua qualidade de depositário do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, sobre a continuação da aplicação na Região Administrativa Especial de Macau do referido Pacto. Não é conhecido, contudo, semelhante procedimento em relação ao protocolo adicional que Portugal ratificou em 1991, mas que não se inclui no conjunto de disposições que transitaram aquando da transferência de administração do território.
Mesmo que o protocolo adicional do Pacto estivesse em vigor em Macau, da sua aplicação não resultaria qualquer efeito prático no desfecho do processo. No máximo, poder-se-ia suscitar um problema de responsabilidade internacional.
Isabel Castro
Fotografia: António Falcão/ bloomland.cn

Aumento de 7,2 por cento para a Função Pública discutido hoje na AL

Diploma “deverá passar”

É hoje apresentada e discutida na generalidade, na Assembleia Legislativa, a proposta de lei que visa aumentar os vencimentos dos trabalhadores da Administração Pública, na percentagem de 7,2. Um diploma que “deverá passar”, conforme afirmaram ao Tai Chung Pou os deputados Ng Kuok Cheong e Pereira Coutinho. Contudo, se para o também vice-presidente da Associação Novo Macau Democrático o aumento é “aceitável", para Pereira Coutinho está longe de o ser, por “não acompanhar a inflação”.
A proposta de lei sobre a actualização dos vencimentos e pensões da Administração Pública surge na sequência do aumento de 7,2 por cento anunciado na apresentação das Linhas de Acção Governativa. Um aumento há muito esperado, mas que não satisfaz todos. É o caso do deputado Pereira Coutinho que, apesar de manifestar que irá votar a favor, não deixou de salientar que “o aumento continua abaixo da margem de inflação, não conseguindo recuperar o poder de compra da maioria dos trabalhadores, principalmente os trabalhadores das classes mais humildes”.
Justificando a sua insatisfação face ao diploma que será analisado hoje em plenário, o também presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública afirmou que não satisfaz “face à valorização do yuan”. Por isso, na sua opinião, o Governo deveria “introduzir medidas para aumentar o moral dos trabalhadores que está cada vez mais baixo”. Assim, apenas considera legítimo um “aumento indexado à inflação”. Pereira Coutinho não quis avançar com números por “ainda não ter sido actualizada” a taxa de inflação por parte da Direcção dos Serviços de Estatísticas e Censos, tendo apenas afirmado que o aumento indexado à inflação deve ter em conta o “que for estipulado na legislação”.
Já Ng Kuok Cheong considera o aumento “razoável”, resultante de um “ajustamento normal”. Como tal, “deverá ser aprovado tranquilamente”, não devendo existir grande oposição. Por isso, é um aumento “aceitável”. Quanto ao acompanhamento dos salários da Função Pública em relação à inflação, o deputado afirmou que “não foi mais baixo nem mais alto”. Foi o mais “aceitável”, reiterou.
Segundo o documento justificativo da proposta de lei, a referida percentagem “corresponde ao factor de actualização” que foi tornado público na apresentação das LAG. Trata-se de uma proposta de lei que, se for aprovada, revoga a Lei nº1/2007, alterando o valor do índice 100 da tabela constante do mapa um do anexo um do Decreto-Lei 86/89/M de 5500 para 5900 patacas.
A medida foi anunciada em Novembro pelo Chefe do Executivo na apresentação das Linhas de Acção Governativa para 2008. Na altura, afirmou tratar-se de uma actualização do factor multiplicador do índice remuneratório dos funcionários públicos de 55 patacas para 59 - um valor acima da taxa de inflação que, em 2007, se situava nos seis por cento. Apesar de só chegar hoje ao hemiciclo, o diploma terá efeitos retroactivos a 1 de Janeiro deste ano.
Luciana Leitão

História de uma empresa familiar com seis décadas de existência

Símbolos do quotidiano

Nasceu numa altura em que o plástico era uma inovação tecnológica e, à semelhança de outros negócios bem-sucedidos de Hong Kong, consegue resistir às mudanças que os tempos trazem sem perder o seu carácter familiar. A Star Industrial e a sua marca “A” são, provavelmente, os produtos de plástico com maior tradição na antiga colónia britânica, no que aos objectos de casa diz respeito.
Tal como outras empresas de sucesso em Hong Kong, a Star Industrial é uma empresa gerida por uma família, com origem na China pré-comunista. No entanto, e ao contrário de outras indústrias estabelecidas no território antes de 1949, a empresa não mudou uma única linha de produção para a China Continental, numa altura em que pouco se produz localmente.
“Uma fábrica deve ser gerida pelo seu proprietário”, explica Daisy Leung, directora-geral e gestora da área financeira da Star Industrial. “Se coloco os moldes numa fábrica no interior da China, eles (trabalhadores) podem fazer o que quiserem. Sei de casos em que os trabalhadores usaram os moldes das empresas para fazerem produtos e vendê-los como se fossem seus. O patrão não estava lá”, atira, sem papas na língua.
A Star Industrial tem um edifício próprio em Kowloon, onde se encontram todos os funcionários. A garantia de segurança em relação às patentes não é a única razão – só assim é possível manter o controlo de qualidade, diz a responsável.
A comemorar o 60º aniversário este ano, a Star Industrial está presente na vida das pessoas, através de pequenos objectos, há várias gerações. Antes de rumarem para Hong Kong e para as regras do mercado capitalista, a família Leung produzia e vendia escovas de dentes na próspera Xangai. Em 1948, quando se mudou para a então colónia britânica, a empresa lançou as escovas de dentes “ACE” e, dois anos mais tarde, começou a fazer recipientes de plástico.
Questões relacionadas com propriedade intelectual fizeram com que a marca “ACE” tivesse que ser substituída por apenas um “A” dentro de um círculo vermelho, que passou a ser rapidamente identificado e associado a símbolo de qualidade. Durante os anos 1960, os recipientes de plástico começaram a ser cada vez mais procurados, com as frequentes falhas no abastecimento de água que obrigavam a improvisar soluções de recolha e de armazenamento.
A década seguinte e o impacto do plástico no quotidiano permitiu alargar o leque de produtos a oferecer aos consumidores, nomeadamente através de peças de mobiliário. Nos anos 1980, assistia-se à deslocalização da produção para a China, mas a empresa familiar decidiu ficar no Delta do Rio das Pérolas que, então, estava longe de conhecer o desenvolvimento a que hoje se assiste.
Na década de 1990, a Star Industrial fez um esforço para se adaptar às exigências do mercado e começou a produzir recipientes para fármacos, bem como embalagens para alimentos e bebidas. Estas duas áreas de produção revelaram ser uma aposta ganha, a representarem actualmente, cada uma, 30 por cento das vendas. Os restantes 40 por cento são conseguidos maioritariamente com a comercialização de produtos para casa.
Com os tempos foram também sendo diversificadas as ofertas em termos de design e da paleta de cores que, no princípio, tinha no vermelho e no azul os tons principais. A resposta à necessidade de evolução e a arte do plástico são, no entanto, bem mais complicadas do que a simples escolha de cores.
“Na realidade, gosto muito de trabalhar em projectos difíceis. Não existe avanço se não enfrentarmos desafios”, sublinha Daisy Leung. A mais recente vitória da empresa está relacionada com a indústria da aviação: trata-se da produção dos recipientes onde são colocadas as malas. “Antes de chegarem ao tapete rolante onde são recolhidas pelos passageiros, as malas passam por uma rede enorme de tapetes rolantes, nos quais têm que ser colocadas estruturas de plástico que aguentem com o peso. Estes moldes não são fáceis de conseguir”, explica. Quanto maior for o recipiente, mais difícil é a sua produção, sendo que a encomenda do Aeroporto Internacional de Hong Kong exigiu várias fases de testes até se chegar à fórmula ideal.
Daisy Leung não quer, de modo algum, que a empresa pela qual é responsável seja ultrapassada e anda sempre à procura de novas ideias para desenvolver. Quanto ao reconhecimento da Star Industrial, há vários exemplos de como a fábrica conseguiu, ao longo das suas décadas de existência, criar tendências em Hong Kong.
No ano passado, a Aluminum, uma empresa local de design de mobiliário, criou um banco de plástico que pretende ser uma evolução dos padrões dos anos 1960 da Star Industrial. A empresa deixou de produzir a linha de mobiliário há já muito tempo, mas estes produtos continuam a estar na lista dos mais procurados da eBay.
Daisy Leung não admite, contudo, voltar aos tempos antigos e recuperar a linha de mobiliário, embora se orgulhe do seu significado. “Seria fácil, sem dúvida mas, se voltamos às linhas de produção antigas, tal significa que não somos capazes de ter novas ideias.” De vez em quando, recebem pedidos de clientes à procura de objectos da década de 1970, mas a empresa não aceita voltar a produzir as peças, não obstante o facto de os moldes continuarem guardados na fábrica. “Na altura não havia testes de qualidade e os actuais padrões de segurança são muito elevados. Não podemos correr o risco de vender produtos só porque existe um revivalismo em torno deles”, justifica Daisy Leung.
A responsável diz que a sua preocupação principal continua a ser a promessa feita há sessenta anos: a Star Industrial e a “A” são símbolos de segurança e de qualidade. Este tipo de indústria exige preocupações especiais com todas as fases de produção, do plástico propriamente dito aos materiais utilizados para dar cor, passando pelos acabamentos.
Os padrões de controlo e o compromisso com a qualidade têm um custo inevitável – os produtos “A” são mais caros do que os da concorrência. “Se tivesse investido os lucros da fábrica em imobiliário, talvez tivesse enriquecido”, brinca Leung. Admitindo que os lucros são menores pelo facto de ter a fábrica instalada em Hong Kong, insiste que tal é preferível a perder qualidade. “Comparativamente com a produção do interior da China, temos uma forma de pensar diferente, que passa, sobretudo, pela qualidade. A nossa empresa sempre foi gerida tendo em conta o conceito de responsabilidade social.”
Sublinhando a importância de o negócio pertencer à sua família, Daisy Leung alerta, contudo, para a necessidade de se querer mais do que aquilo que já foi conquistado. “Gostamos de desafios em todos os aspectos. Não fui feita para chegar aqui e assinar documentos”, remata.

Kahon Chan, em Hong Kong,
com Isabel Castro

domingo, 3 de fevereiro de 2008

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Cesária Évora em discurso directo, O que Ano Novo traz

Entrevista a Cesária Évora

Memórias, saudades e nenhuma mágoa

As respostas foram curtas e directas. Não houve subterfúgios. Cesária Évora, a diva do pé descalço da música cabo-verdiana, que estará presente em Macau a 23 de Fevereiro, quebrou mitos e contou um pouco das suas memórias, em entrevista ao Tai Chung Pou. Pelo meio, ainda houve espaço para uma notícia: o próximo disco sai no fim deste ano.
Uma situação que tivesse deixado saudades? Poderia esperar-se qualquer coisa do género “essa é uma questão difícil” ou “o nascimento dos meus filhos”. Mas não, Cesária Évora, com a resposta na ponta da língua, foi clara: “O dia em que perdi a minha virgindade - foi bom, a sensação foi muito agradável e eu gostei”. Uma resposta que mereceu um comentário da tradutora. “Você vai rir, mas a Cesária é mesmo assim”.
Assim é Cesária e assim foi a entrevista. Sem fugir às questões, a cantora cabo-verdiana não se expandiu muito nas respostas, mas também não fugiu. Usa ouro “porque gosta”. Vem a Macau “porque gostou” do último concerto nos anos 90. E não se pense que não usa sapatos porque está a manifestar o apoio aos cabo-verdianos desfavorecidos, como tem sido publicado, ao longo dos anos, em vários artigos da imprensa internacional. Prefere cantar descalça apenas porque está habituada a não usar sapatos em Cabo Verde. É como se “sente melhor”.
Discos preferidos? Não tem. Todos os álbuns que já fez exigem dedicação e empenho. E todos “são Cesária”. Músicas também não. Quanto muito, um pode ficar na memória, por ter sido o CD de estreia em Paris e por ter sido determinante no arranque da sua carreira internacional: o álbum “Miss Perfumado”. Mas, na realidade, todas as músicas são as suas favoritas porque são seleccionadas por si.
A música surgiu naturalmente na sua vida. “O meu pai tocava, o meu tio era o grande compositor B’leza e o meu irmão também tocava”, conta. “Tenho música no sangue”, declara. Mas foi no orfanato, onde esteve dos dez aos 13 anos, que começou a cantar. “A minha mãe trabalhava fora e resolveu pôr-me num orfanato”, contou. “Os pais punham as filhas em orfanatos não porque era órfãs, mas porque podiam aprender trabalhos manuais e fazer bordados”, explica. Daquele tempo guarda “boas memórias” - dos padres, das irmãs de caridade e das colegas de orfanato. Mas foi aos 16 anos que resolveu apostar com mais força no canto. Cruzou-se com um grupo de rapazes que tocava nas ruas de São Vicente. “Comecei a cantar espontaneamente”, disse. Baixinho. Quase como se fosse um sussurro. Incitada por um dos “meninos” levantou o volume da voz. “Foi por me cruzar com Eduardo que ganhei coragem e comecei a cantar”, contou. Um impulso para prosseguir com a carreira.
A morna foi o género musical escolhido porque é a música do seu país. E, para Cesária Évora, Cabo Verde “significa tudo”. “É o meu país, o lugar onde fui criada, os meus costumes, a minha vida”, diz. “A nossa música fala sempre sobre isolamento e tristeza. Exprimimos sentimentos – falamos de separações, amor, coisas tristes e também alegres”, conta.
O encontro com José da Silva mudou a sua vida. “É o meu protector, o meu produtor – conheci-o em Lisboa e convidou-me para cantar em Paris”, diz. E foi ali, em Paris, que começou a sua carreira internacional. “Ganhei muitos prémios e discos de ouro em França – para mim, é um país especial”, conta. Quanto a José da Silva, o homem responsável pelo salto na carreira, Cesária pensa sempre com carinho. “Cantámos sempre com seriedade e até hoje trabalhamos juntos – deu impulso na minha profissão, foi por isso que pude avançar como avancei”, explica.
Só depois surgiram os convites para partilhar o palco com outros cantores. Desde Pedro Guerra a Compay Segundo, passando mesmo por Marisa Monte ou Caetano Veloso, Cesária acompanhava-os em crioulo, enquanto eles cantavam na sua língua materna. “Gostei de todos, porque fui convidada a cantar com eles, sem os conhecer. A partir daí, ficámos amigos e tenho carinho por todos”, declara.
Uma mulher forte que “não chora por tudo e por nada”. Chora em momentos cruciais. “Quando perdi o meu pai, a minha mãe e a minha filha”, conta. Educar sozinha os dois filhos – um menino e uma menina – não foi difícil porque teve a ajuda da mãe. Teve um grande amor na vida. “Não foi o pai dos meus filhos”, diz. Cesária não quis dizer o nome.
Conhecido o seu amor à bebida e ao tabaco, a cantora deixou de beber em 1994, uma data que recorda perfeitamente. “Já só me resta o cigarro”, diz. Mas a decisão não foi tomada por ter sentido que o álcool estava a prejudicar a sua vida – “Um belo dia tomei a decisão de não beber mais e assim foi”. Aliás, fazendo um balanço da sua vida, chega à conclusão que não se arrepende de nada – nem do que fez nem do que deixou de fazer. “Quando decido alguma coisa, não tenho qualquer arrependimento”, garante.
Quando ouve falar dos vários talentos musicais cabo-verdianos logo rotulados de “nova Cesária Évora”, a diva do pé descalço pensa: “Pode haver muitas Cesárias, mas essa filha de Joana e de Justino é única”. Uma resposta curta e grossa como, aliás, foram quase todas.
No fim deste ano já estará terminado o novo disco. “Para dizer a verdade, não tenho tema na mente, nem comecei. Às vezes fazemos a escolha do título, em função dos títulos dominantes de todo o conjunto, mas por enquanto não sei”, diz.
Um dia bem passado é no sossego do lar, acompanhada da família, a ouvir música ou a ver televisão. Sempre em Cabo Verde, a sua terra, o seu país, e o local que é tudo para Cesária. E tocando também para o público cabo-verdiano “que a conhece bem”. Quanto ao seu legado para a posteridade, não tem dúvidas: é a música. De resto, “cada um que recorde como quiser”.

A família e os amigos em Macau

Amigo de Cesária Évora há mais de 20 anos, o médico José Gabriel Lima conheceu-a em circunstâncias particulares. “Era delegado de saúde em Cabo Verde”, conta. Na altura, Cesária estava há muito tempo em casa e tinha deixado de cantar. Por isso, José Lima juntou-se a um grupo de amigos para tentar convencê-la a acompanhá-los numa “tocatina”. Tornaram-se amigos. “É uma pessoa com um coração muito grande, com uma generosidade extraordinária, com um sentido de solidariedade para com os amigos”, descreve. Nem depois de se tornar famosa perdeu a humildade.
Actualmente a morar em Macau, José Lima perdeu um pouco o contacto. Mas reencontrou-a em Hong Kong no dia do seu concerto. “Estava a cantar e disse que ia dedicar-me uma música. Quando me viu sentado, deu um berro para me levantar”, contou. Um episódio que ainda hoje recorda. Voltou a encontrá-la há três anos na Ilha do Sal, mas foi breve e casual.
Já o médico Mário Évora é primo afastado da diva do pé descalço. “Somos descendentes dos Évora da Ilha da Boavista”, afirmou. Mas apenas se cruzou com ela duas únicas vezes por ocasião dos concertos realizados em Hong Kong e Macau. “Tive aquela impressão que se tem quando se conhece uma pessoa de grande envergadura – é uma pessoa de grande carácter com muita força interna”, conta.

Luciana Leitão

O ano do Rato, signo a signo

Rato
1936, 1948, 1960, 1972, 1984, 1996 e 2008

Desafios, agitação e reajustamentos


Enganem-se os nativos que pensam que o facto de entrarmos no ano do Rato significa vantagens. O conceito de equilíbrio é fundamental na astrologia tradicional chinesa. Logo, ser do signo Rato no ano do Rato são ratos a mais, por assim dizer. Por isso, prepare-se. O novo ano não será completamente estável e seguro. Esperam-se muitos desafios, que vão implicar um esforço contínuo de reajustamento.
Nada indica que o ano do Rato não seja positivo, mas as situações serão pouco confortáveis. Um dos exemplos são as eleições de José Sócrates para primeiro-ministro e Pereira Coutinho para a Assembleia Legislativa da RAEM. Ambos são do signo Galo e estas mudanças surgiram no ano do Galo. Os dois conseguiram atingir o objectivo, mas o processo não foi fácil.

Búfalo

1937, 1949, 1961, 1973, 1985 e 1997


Bons parceiros


São boas as notícias para os nascidos no ano do Búfalo. O novo Ano Lunar carrega consigo bastantes benefícios. É que na astrologia chinesa, os signos formam casais, sendo que o Búfalo tem uma ligação muito particular com o Rato. Há uma relação de harmonia e atracção especial entre as duas energias.
Os nativos podem contar com um ano de excepção, principalmente ao nível sentimental. Em particular, existe uma predisposição para se encontrar bons parceiros. Isto é, pessoas com quem se possui uma grande complementaridade de energia.
No entanto, nem só em matérias do coração vai dar cartas o signo do Búfalo. São várias as conjugações possíveis. Há ainda a possibilidade de se encontrar um bom parceiro para o negócio, por exemplo.

Tigre

1926, 1938, 1950, 1962, 1974, 1986 e 1998


Viagens e mudanças


Não há uma tendência muito clara para o positivo ou para o negativo. O tom geral dos almanaques chineses prevê um ano médio para o signo do Tigre, mas com muitas viagens e mudanças. O Tigre não vai parar sossegado ao longo do novo Ano Lunar.
Apesar de ser um ano cansativo, tantas deslocações contribuirão para libertar e descarregar as energias negativas. Tal pode desempenhar um papel positivo. Por isso, estas oportunidades devem ser aproveitadas. Este é o conselho dos astrólogos chineses.
Muito semelhante ao Leão do Zodíaco ocidental, este signo tem uma simbologia muito enérgica. A garra é uma característica comum aos dois signos oriundos de tradições distantes.

Coelho 1939, 1951, 1963, 1975, 1987 e 1999 Amor no ar

Vai ser um ano propício para amar. Tudo isto devido ao aparecimento de uma estrela simbólica chamada Fénix Vermelha. Esta aparição tem o dom de ser particularmente propícia para o amor e as relações pessoais. Se os nativos souberem usar bem este magnetismo positivo na via profissional, por exemplo, poderão surgir benefícios noutras áreas.
No entanto, nem tudo são rosas. A relação entre o Coelho e o Rato não é das mais saudáveis. Há um ligeiro atrito entre as duas energias, o que significa que há uma ligeira predisposição para o aparecimento de pequenos problemas.
Nada que justifique a perda do sono. O mais importante a reter é que o ano do Rato será especialmente favorável para as relações sentimentais. Não custa nada aproveitar a boa maré.

Dragão

1928, 1940, 1952, 1964, 1976, 1988 e 2000


Estabilidade na pior das hipóteses


Quem nasceu no ano do Dragão não terá preocupações ao longo do novo Ano Lunar. O ano do Rato traz, no mínimo, estabilidade. É que os nativos do Dragão jogam em casa. Rato e Dragão são da mesma família astrológica. Ambos comungam energias comuns.
Quando estamos num ano que é da mesma família do nosso signo podemos ter a certeza que os 12 meses que se avizinham são estáveis. Tudo isto será aliado a bons momentos e oportunidades.
As pessoas nascidas no ano do Dragão terão possibilidade de se cruzar com pessoas com quem possuem uma empatia e poderão servir de grande ajuda. Do nível pessoal ao profissional, os augúrios não poderiam ser melhores.

Serpente

1929, 1941, 1953, 1965, 1977, 1989 e 2001


Tempo de reorganização


Não têm sido fáceis os últimos tempos. Ao longo do ano do Porco, a Serpente foi constantemente desafiada. Os signos chocam entre si. O Porco é água e a Serpente é fogo. Um anula o outro. São energias opostas. O ano do Rato será uma espécie de “dia seguinte”. Tempos mais calmos virão, mas é melhor que os nativos não esperem nada de excepcional.
No cômputo geral, o ano lunar que está a terminar implicou mudanças anormais na vida das pessoas nascidas no ano da Serpente. Agora, os nativos terão uma oportunidade para reorganizar as suas vidas com base nas novas situações que entretanto se criaram. É tempo de readaptação. Quanto a acontecimentos extraordinários, a Serpente ainda terá que esperar.

Cavalo

1930, 1942, 1954, 1966, 1978, 1990 e 2002


Perigo nas relações estáveis


Nada será como antes para as pessoas nascidas no ano do Cavalo. O ano do Rato traz consigo desafios. Tudo na vida irá sofrer uma alteração. As relações sentimentais que se cuidem, principalmente aquelas estáveis. Será um ano complicado para a vida conjugal.
Acontece que entre o Rato e o Cavalo existem poucas afinidades. O Rato é elemento de fogo e o Cavalo é água. Um anula o outro. Existe, entre os dois signos, um choque que inspira cautela aos astrólogos chineses.
Contudo, não se assustem os nativos. Isto não quer dizer que vêm aí só más notícias. Se o Cavalo souber rentabilizar o desafio, talvez haja maneira de fazer soprar o vento numa direcção vantajosa. Há casos, embora raros, de pessoas que conseguem transformar a adversidade em vitória. Um desses exemplos é José Mourinho que quando foi contratado pelo Chelsea estava exactamente na mesma situação.

Cabra

1931, 1943, 1955, 1967, 1979, 1991 e 2003


Apostar nas pessoas

Dê o melhor de si. Apostar no lado humano é vitória certa. Este é o principal conselho deixado pelos astrólogos chineses para quem nasceu no ano da Cabra. O novo Ano Lunar será neutro, classificando-se como médio bom. Tudo graças à relação especial que existe entre a Cabra e o Rato.
Uma boa nova é que irá aparecer uma estrela simbólica denominada Flor do Romance. A influência desta energia vai processar-se principalmente ao nível das relações pessoais. No emprego, por exemplo, se o nativo apostar nas pessoas que o rodeiam, poderá colher vantagens posteriormente.
O magnetismo humano será o aspecto mais realçado ao longo do ano do Rato. Se as pessoas nascidas no ano da Cabra souberem fazer a devida alquimia, mais benefícios poderão surgir em outras áreas.

Macaco

1932, 1944, 1956, 1968, 1980, 1992 e 2004


Progresso quanto baste


Será um ano de progressão, mas nada de extraordinário. No novo Ano Lunar, as pessoas nascidas no ano do Macaco estão numa posição confortável, conferida por questões de família astrológica. É que este signo tem uma relação de familiaridade com o Rato.
Ao longo dos próximos 12 meses, os nativos do Macaco tenderão a encontrar no seu caminho situações e pessoas que lhes são favoráveis. Se há mudanças, tal deverá representar algo de positivo.
Por outro lado, há um magnetismo especial que vai ligar as pessoas do signo Macaco a bons parceiros e amigos. O tom geral dos almanaques chineses aponta para um ano propício a avanços e crescimento na medida certa, sem nada de espectacular.

Galo

1933, 1945, 1957, 1969, 1981, 1993 e 2005 Felicidade celestial

O ano do Rato traz bons augúrios ao nível sentimental e financeiro. Os nativos do signo Galo são presenteados com a presença da estrela simbólica chamada Felicidade Celestial.
Haverá uma grande tendência para ter encontros de destino, capazes de alterar completamente o rumo de uma vida, a começar pela felicidade. O Galo faz parte do conjunto de quatro signos que estão particularmente beneficiados no campo sentimental ao longo deste ano.
Boas vibrações carregadas de energia positiva. É o que podem esperar as pessoas do signo do Galo. Os nativos tenderão a criar um estado de espírito positivo que, com certeza, se reflectirá também noutros aspectos da vida.

Cão

1934, 1946, 1958, 1970, 1982, 1994 e 2006


Planear o futuro é preciso

Neutro, assim se classifica o ano do Rato para o signo do Cão. Problemas sem importância são a única nuvem negra dos nativos, podendo esperar uma promoção social ou profissional. No entanto, para colher os benefícios é melhor que se prepare bem para o futuro.
Dizem os almanaques que as pessoas nascidas no ano do Cão serão atormentadas por preocupações infundadas. No final de contas, tais problemas não são reais ou importantes. Tudo se trata apenas de medos que se criaram.
Por outro lado, há ainda uma certa predisposição para evoluções no campo profissional e social. Embora não seja nada de extraordinário, os nativos do signo do Cão podem passar a ocupar um estatuto mais elevado.

Porco

1935, 1947, 1959, 1971, 1983, 1995 e 2007


Prudência


Não são boas as notícias para quem nasceu no ano do Porco. Grande parte dos almanaques chineses apontam mais para acontecimentos negativos do que positivos ao longo do novo ano do Rato. Por isso, os nativos devem caminhar com prudência. Não vá o diabo tecê-las, os astrólogos aconselham cuidado, principalmente na parte inicial do novo ano. Caso não se registe nenhuma potencialidade negativa, então não há perigo em avançar com mais rapidez. É uma questão de conquistar uma segurança que é necessária.
Apesar de tudo, nem tudo são maus augúrios. Os nativos do signo do Porco podem contar com a influência da energia de uma estrela simbólica que é favorável no campo sentimental.

Previsões da astrologia chinesa para o Ano Novo

Abril e Junho são os melhores meses para casar

Além dos signos, a astrologia tradicional chinesa estabelece, em cada ano, previsões baseadas em alturas específicas. São famosas e até os mais cépticos têm, no mínimo, curiosidade em saber quais as datas apontadas pelos almanaques que são consideradas mais propícias. Os dias e épocas apresentam diferentes energias que trazem certas potencialidades. Por exemplo, todos os anos são definidas as datas certas para casar.
De acordo com o almanaque de Peter So, astrólogo famoso em Hong Kong, os meses que, na generalidade, apresentam dias mais favoráveis para o matrimónio são Abril e Junho, com seis datas específicas. Depois vem Julho, Agosto e Novembro. De fora da lista cor-de-rosa não ficou qualquer mês, mas as opções são mais reduzidas nos meses de Fevereiro e Maio, por exemplo.
Para os nativos dos signos menos beneficiados pelo novo ano do Rato há ainda uma bóia de salvação. Segundo Peter So, pode ser feita ainda uma previsão com base na época do ano em que a pessoa nasceu.
Desta feita, as pessoas que nasceram entre o dia 6 de Maio e 8 de Agosto podem respirar de alívio. Estes meses são considerados quentes, pois pertencem ao elemento fogo. É um período pleno de energia yang, uma força caracterizada como sendo masculina, positiva e quente.
Como o Rato é do elemento água, o signo que marca o novo ano vem temperar o calor do fogo. Tudo isto combina com o pensamento tradicional chinês que enaltece o equilíbrio como algo positivo.
No entanto, as pessoas não devem encarar estas indicações como um horóscopo que dita se o dia é favorável ou não. A astrologia chinesa aponta apenas as datas com mais potencialidades, o que permite actuar de acordo com os ritmos cósmicos.
Alexandra Lages
com Luís Ortet